16.7.15

Diário de Bordos - Alvaiázere, Portugal, 16-07-2015

Trinta e cinco quilómetros em duas horas e meia. A distância é mais ou menos um quilómetro ou dois; o tempo mais ou menos um minuto ou dois. A velocidade média subiu, claro. O cansaço também: foram duas horas e meia a pedalar, porque desta vez fui para Sul, o lado plano de Alvaiázere e não tive dez minutos seguidos a descer, leve e hílare. Gosto mais de percursos acidentados, desnivelados, alternados. Ninguém diria.

Ou seja. Estou a duas horas e meia de bicicleta de Tomar: vinte e sete quilómetros e meio, diz-me o Google Maps, que sabe do que fala. E eu ao fim de duas horas preciso de parar, também sei do que falo.

Não tarda conheço Tomar.

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Manuel P disse-me um dia: "Para ti bife com batatas fritas é um prato exótico". É, Manuel. E Portugal um país exótico. Gostaria muito que deixasse de o ser, nota, se bem não seja fácil. Hoje durante o passeio - e ontem, igualmente - estava surpreendido com a qualidade das estradas (não saio do alcatrão, apesar de andar numa BTT tipo Rolls Royce. Por vários motivos, todos eles irrelevantes). O espanto cessou ao chegar a uma aldeia: vi três sinais seguidos. O primeiro era uma placa com o nome do lugar, o segundo assinalava o fim da proibição de exceder cinquenta quilómetros por hora e o terceiro obrigava a parar num cruzamento (dizia STOP, assim mesmo, tudo em maiúsculas). Os três num espaço de sessenta metros.

Se fosse numa ilha das Caraíbas eu não ligaria nenhuma. Entristece-me pensar que hoje liguei, mas pouco.

Fiquei muito mais comovido com o gesto do senhor Zé da tasca do lado, que me ofereceu uma sopa "feita pela minha mulher ainda agora" e que "não é para ser paga porque fui eu que lha ofereci".

Lembrei-me da festa de Mayreau, quando nos ofereceram charros, ao Paulo C.. e a mim, autênticas chaminés de comboio, porque já íamos no terceiro.

Quero realmente que Portugal deixe de ser um país exótico? Não tenho a certeza.

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Exoticismos - música pimba de países civilizados:



Maddy, não trocava metade de ti por três Salmas.

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Se numa Noite de Inverno um Viajante é um fractal literário. Pelo menos tem-lhe a beleza, a leveza e a complexidade.