6.9.15

Diário de Bordos - La Coruña, Galiza, Espanha, 06-09-2015

Estou de novo en La Coruña, cidade que trago no coração e em cada papila gustativa, cidade amável e degustável como nenhuma. A vaga de sorte continua: S., o Hero 107 que aqui venho buscar e levar para Copenhaguen é um barco soberbo, o tipo de embarcação que eu gostaria de ter: sólido, simples e bonito (estou a falar de um barco, não da senhora por quem acabarei por me apaixonar). Só é preciso ver como navega: T., o armador vive nele há seis anos e de per si reconhece que “tem coisas a mais”. O barco está a abarrotar como um ovo de galinha com um embrião de avestruz lá dentro. Mas é bonito e simples e eu aposto que vai navegar bem e também aposto que quando chegarmos à Mancha as previsões não se confirmarão e não teremos Leste até à Holanda, onde vamos parar um dia ou dois.

T. é um norueguês delicioso, simpático, que vive e sempre viveu sozinho e já fez tudo, desde marinheiro na Marinha Mercante até electricista na televisão norueguesa. Não é um marinheiro; vive no barco há seis anos mas ontem quando levei os mantimentos para bordo – para uma semana e contado curto, ando poupado como se estivesse amarrado a um elefante – disse-me que nunca tinha embarcado tanta comida de uma vez. “Normalmente compro comida para dez horas e quando chego vou comer a terra”. “Normalmente” deve referir-se à meia dúzia de viagens que fez com o S.: nestes seis anos viveu três na Irlanda, um no Porto e dois em La Linea, ao lado de Gibraltar. Para vir de La Linea aqui parou em todas as árvores do caminho.

É uma simpatia de pessoa, encantadora, da minha idade que se prepara para ir passar uns anos à Noruega a fazer um refit do barco. E provavelmente carregar as baterias da saudade. Por muito que goste – e gosta muito – da “Ibéria” deve estar com vontade de voltar à sua aldeia perto de Bergen. Quem o ouvisse falar do seu país pensaria que é habitado por seres humanos e não pelas máquinas frias, racionais e bêbadas que imaginamos.

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Conversamos imenso e ontem arrancou-me a história da minha “namorada” de Soleure. Namorada vai entre aspas porque só a vi meia dúzia vezes, talvez menos; e porque eu tenho pena, muita pena. Já aqui contei a primeira parte da história: o meu encontro com uma jovem guitarrista em Rijeka.

Eu estava a chegar de uma das minhas excursões pela Itália e pela então Jugoslávia. Regressava à Suíça, ou seja com pouco dinheiro, situação rara e recentíssima em mim. Em Rijeka encontrei uma rapariga a tocar viola numa praça. Estava sozinha. Aproximei-me para a ouvir enquanto esperava o autocarro e passado um quarto de hora ela perguntou-me para onde ia.
- Para a Suíça – respondi.
- Porquê?
- Porque é lá que vivo.
- Eu vou para as ilhas para casa de um amigo. Se quiseres vir podes vir.

A rapariga era bonita; que fosse feia: há convites que não se recusam. Lá fomos para uma ilha qualquer cujo nome só não esqueci porque nunca o soube. O amigo não estava em casa e acabámos a dormir na praia. Cada um de nós tinha o seu saco-cama, claro. Mas antes de dormir ela teve o cuidado de tirar de maneira a que eu visse uma enorme faca da mochila e deixou-a à mão.

Passámos uns dias naquela ilha, linda e deserta, porque ainda era cedo. Eu fazia palhaçadas às empregadas do supermercado, coisa que irritava bastante a rapariga da guitarra e da faca.
- Elas não estão aqui para rir, estão para trabalhar – repreendia-me.

Acabei por vir-me embora. Olhos verdes enormes e algum jeito para a música não chegam para tornar necessária a companhia de uma estalinista paranóica na Jugoslávia de Tito, um país que já de si não me tinha atraído por aí além.

Entretanto ficara sem dinheiro de todo, claro; tive de voltar à boleia. Já não me lembro dos pormenores do regresso à Suíça. Lembro-me de que acabei em Soleure esgazeado de fome, sem um cêntimo e que era tarde. Não devia ser muito tarde porque ainda havia um café aberto; mas já não era cedo porque era o único, ou um dos poucos abertos.

Isto passa-se na Primavera. Na Suíça ainda estava frio. A fome não ajuda a resistir-lhe; a combinação de frio e fome não torna ninguém atraente. Tive sorte com o café, era o “alternativo” do lugar; tinha pouca gente, lembro-me perfeitamente.

Sentei-me a uma mesa e quando a empregada, uma italiana pequenina, morena veio disse-lhe que estava tão cheio de fome como vazio de dinheiro. Passo alguns pormenores dos quais não me lembro. Sei que ela me trouxe comida e ou cerveja ou vinho e me perguntou onde é que eu ia dormir.
- Não sei. Não tenho nenhum sítio em especial. Num parque ou na estação de comboios, provavelmente. Amanhã vou para La Chaux-de-Fonds. (O diálogo está longe de ser verbatim, obviamente).
- Se me prometeres que não me fazes mal podes dormir em minha casa.
- Claro que prometo.
- Ok, espera aí enquanto eu fecho o café.

Depois de fechar ainda ficámos ali um bocadinho à conversa, fomos para casa dela ainda a conversar e no caminho fez-me prometer que não lhe faria mal. Insistiu bastante nisso.

Em casa preparou-me uma cama na sala e foi-se deitar. Não me lembro se fechou a porta do quarto à chave ou não. Lembro-me de que adormeci muito depressa e que a meio da noite veio ter comigo. Fizemos amor. Recordo alguns pormenores que não conto, evidentemente; recordo a ternura com que o fizemos, o tempo que levámos. Quando acabámos disse-me para ir para a cama dela. Fui e preprava-me para adormecer de novo quando vi que ela estava a chorar convulsivamente.

Perguntei-lhe o que se passava. Tive de insistir bastante.

- Fui violada há dois anos e é a primeira vez que faço amor depois disso.

Ainda voltei a Soleure duas ou três vezes mas não fizemos amor. Um dia ela tinha desaparecido do café e nunca mais a vi.