27.12.15

Diário de Bordos - Simpson Bay Marina, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 26-12-2015

Nunca entendi bem o sentido da expressão Santo Natal. Santo? Feliz, Bom, Generoso talvez. Mas Santo? Uma data na qual vamos desrespeitar pelo menos nove dos dez mandamentos  (e vontade não falta para o outro)?

Não sei. Talvez tenha começado agora a perceber o significado do adjectivo.

Não sair de bordo até às seis da tarde (e ter passado uma grande parte do dia a dormir e ou deitado); depois dar um passeio de bicicleta; e finalmente ser convidado para jantar num excelente restaurante libanês deve andar tão próximo da santidade quanto possível, não?

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Oiço um daqueles discos que comprei porque queria ser actual e li uma boa crítica no jornal. É uma merda.

A necessidade de actualidade dos críticos leva a isso; a culpa não é deles. Salvo raras excepções só se deve comprar um disco dez anos depois de ter saído.

Já com os livros não acontece o mesmo. Não sei se tem a ver com a qualidade da crítica se com alguma característica intrínseca da literatura: um bom livro é bom imediatamente.

(O disco é de um grupo chamado Silver Jews e só isso devia ter-me feito desconfiar).

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O trabalho desta manhã foi para o galheiro. Tenho de recomeçar e em pior.

Felizmente à tarde trabalhei bastante e bem. Tenho os dedos sensíveis como os ladrões de cofres de O'Henry, que limavam as unhas para sentir a combinação.

No meu caso não foi um cofre, foi um dinghy que limpei. Ficou como novo. Mas até pegar no telefone dói.

Amanhã terei de tratar do bimini outra vez. Não há marinheiro que não tenha Sísifo no nome.

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Redescubro fotografias antigas  (dois ou três anos, vá). Gosto de algumas.

Parece um contra-senso e se calhar é, mas devia fazer-se com as fotografias o que se faz com os discos e com os amores: esperar para saber quais os bons.

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A Simpson Bay é obviamente muito mais marina do que a Lagoon. Mas tem dois ou três defeitos que me fazem pensar se "obviamente" é a palavra certa: o Wifi é indescritivelmente mau; o dinghy ficou sujo em dez dias; e, por fim mas não por menos é uma marina de camisa. Um gajo tem de andar de t-shirt ou então aguenta ser o único ou pelo menos dos poucos. Eu aguento e ando sempre de torso nu, mas não me dá muito gozo.

Nunca pensei que numa luta entre a paciência e o decoro ambos podiam perder.

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Se tivesse Neutragena à mão enchia ambas dele. C'est dire. A última vez que usei cremes nas mãos deve ter sido antes do Dilúvio.

Devia perguntar-me que raio de carga de água me passou pela cabeça para raspar o fundo do bote com as mãos nuas mas não pergunto. Tenho medo da resposta.

(Depois pus as luvas. Foi um prazer. Teria sido o mesmo se as tivesse posto logo no início? Duvido.)