22.1.16

Diário de Bordos - Kalamakis, Atenas, Grécia, 22-01-2016

A primeira vez que vim a Atenas foi em 1981 (isto diz-me agora a Wikipedia, abençoada seja. Não sei porquê estava convencido que tinha sido em 1983). Cheguei no dia seguinte a um tremor de terra que destruiu a cidade. As pessoas estavam aterrorizadas; nunca tinha visto tanto medo, um medo colectivo que se sentia por todo o lado e parecia água a espalhar-se pelas ruas, cheias de tendas. Muita gente ficara sem casa; outros tinham simplesmente medo. Foi em Fevereiro e estava frio.

Viera à boleia desde La Chaux-de-Fonds com uma rapariga francesa jovem e insuportavelmente burra. Dormíamos na pensão de um sri-lankês cuja namorada era finlandesa ou dinamarquesa; tinha vindo para Atenas para se desintoxicar. A rapariga era heroinómana e em Atenas era difícil arranjar droga. Mais tarde descobri que estava longe de ser a única: havia muita gente nessa altura a fazer o mesmo. O sri-lankês fechou-a quinze dias num quarto e cobriu as paredes de colchões para ela não se magoar. Quando saiu do quarto ficou a trabalhar na pensão e pouco tempo depois mudou-se para o quarto dele.

A jovem francesa com quem eu tinha feito a viagem estava obcecada com o tremor de terra e com as suas sequelas. Todas as noites me acordava.

- Sentiste?
- Não. Deixa-me dormir, miúda. - Tinha dezoito anos e havia-me sido entregue com muitas recomendações por um tio com quem estava na Suíça a passar uns dias. Era gira e ao fim de dois dias não a podia nem ver.

Uma semana depois de chegarmos veio dizer-me que tinha encontrado um francês e se ia embora com ele. Não sei porquê tenho na cabeça que era sábado. Nesse dia fui almoçar com um casal de americanos que estava na mesma pensão. Durante o almoço ocorreu a grande sequela do terramoto. Foi a primeira vez que senti um tremor de terra. Parecia que estava num comboio em movimento.

Clientes e empregados esconderam-se debaixo das mesas. Ao nosso lado um grego - o único para além de nós que continuara sentado a comer - recebeu um pedaço de estuque no prato de sopa. Levantou-se para ir à cozinha reclamar mais sopa, mas o cozinheiro não quis sair de debaixo da mesa e recusou. O cliente serviu-se, voltou para o seu lugar e piscou-nos o olho.

Pouco tempo depois encontrei uma americana, judia e linda, com quem ouvia jazz num café da Plaka, o único em Atenas nessa altura onde se o podia ouvir. O dono tinha vivido na América, provavelmente. Não me lembro. Ela e a amiga com quem viajava iam para Creta e decidi ir também. Estávamos apaixonados. Em Creta iríamos finamente dormir juntos. Foi o meu primeiro contacto com a cultura, o sentido de humor, a beleza e a sensualidade judias.

Do grupo que se juntava naquele sítio por causa do jazz fazia parte um tunisiano que vivia em Atenas. Na véspera da saída para Creta, quando saímos do café convidou-me para ir a casa dele beber um copo e ouvir já não sei o quê.

Ao primeiro gole da bebida vi que tinha alguma coisa. Mas já não consegui reagir. O animal pôs tanta coisa no copo que um gole foi suficiente para me pôr a dormir a noite toda. Acordei no dia seguinte num jardim. Ainda corri para a pensão para fazer o saco e fui trôpego e cambaleante ao Pireus. Quando lá cheguei o ferry para Creta estava a sair. Nunca mais vi a minha americana, cujo nome esqueci. Eu estava mal, cheio de tonturas e náuseas. Não conseguia falar, não percebia o que me tinha acontecido. No caminho de regresso a Atenas senti uma dor no rabo, fortíssima.

Tinha uma queimadura de segundo grau nas nádegas; como se, explicou-me o médico, me tivesse sentado em cima da placa de um fogão eléctrico.

A minha memória deste episódio é obviamente inexistente. Por vezes ocorre-me de fugida que quando acordei no jardim estava em cima de qualquer coisa quente e talvez tenha sido aí que me queimei. Não sei. Interessa pouco. O médico disse-me também que não havia sinais de violação e enrolou-me uma ligadura a toda a volta da cintura. Não é preciso ser grande especialista para perceber que aquilo não era sustentável. Felizmente o casal americano tinha boas noções de primeiros socorros e foram eles que me trataram dali em diante.

Já não me lembro de quanto tempo passei em Atenas até a ferida cicatrizar e ser capaz de me sentar o tempo suficiente para regressar à Suíça. Eles vieram comigo e ficaram em minha casa cinco meses. Suponho, mas não tenho a certeza, que o tunisiano quis impedir-me de ir para Creta com a jovem americana.

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Estou de novo em Atenas. Enfim, "de novo" é um pormenor técnico que não corresponde à realidade. Nem a cidade nem eu somos os mesmos.

Hoje há jazz por todo o lado, a Plaka é um abominável antro de turistas, a minha saúde está boa e a senhora por quem espero apaixonar-me um dia em Lisboa, numa casa perto do mar. Atenas, uma cidade pela qual não tinha grande afecto encanta-me. Lembrava-me dela poluída e suja, dos gregos façanhudos (impressão que um cruzeiro num iate à vela pelas Cíclades em 2004 e uma recente passagem muito rápida por um porto na costa oeste do país não desfizeram) e não são. Antes pelo contrário: sorridentes, prestáveis, simpáticos. E bonitas, inesperadamente bonitas.

Anteontem fomos a Atenas, a tripulação e eu. O meu objectivo era rever a Plaka, comer num restaurante daqueles onde ninguém fala inglês (reminiscência de uma tentativa de emprego da outra estadia, em que trabalhei num restaurante do qual nem os clientes nem o pessoal da cozinha falava uma palavra de qualquer língua que não fosse grego. Para as encomendas levava um menu às mesas e os clientes marcavam o que queriam com cruzinhas. Depois levava o menu à cozinha e eles davam-me um "novo" - isto é, com as cruzinhas apagadas -. Para entregar os pratos percorria o restaurante com eles numa travessa até uma mesa reconhecer a sua encomenda. Trabalhei pouco tempo porque o patrão me substituiu por uma ou duas canadianas obesas).

Começa por que hoje em Atenas toda a gente fala inglês. Até o funcionário da Carris local que vende bilhetes numa estação precária, gélida e longe de tudo foi capaz de me explicar como chegar à marina. Num bar - que não tinha rigorosamente nada a ver com os bares da Plaka dos quais tenho uma memória difusa - perguntei ao barman (um jovem elegantíssimo, alfaiate de profissão) qual o bairro dos artistas que ainda não são. Keramikos.

(Nesse bar vi mais ou menos o meu futuro: pequeno, lindo, com bebidas de qualidade e preços a condizer; e descobri uma bebida grega chamada Mastika, feita com a seiva de uma árvore que só cresce na ilha de Kios.)

Em Keramikos fiz uma das melhores noitadas da minha vida: comemos uma mistura de especialidades gregas no café Philos, ouvimos excelente jazz ao vivo no bar Kerameio, entrámos numa associação de artistas que estava a preparar uma exposição e tinha algumas fotografias interessantes, dancei música grega com os artistas e finalmente voltámos ao café Philos beber mais um copo (como se tivessem sido poucos os que até ali bebêramos ).

Voltámos para bordo às quatro da manhã bêbedos de Mastika, vinho, cerveja, raki (grego, mais uma descoberta), ouzo e bom humor.

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Na associação falei com um jovem artista sobre Tsipras. Para ele o homem não é um aldrabão. É uma vítima.

Quando me despedia das pessoas para nos virmos embora uma artista gorda e feia recusa o beijinho que lhe ia dar. Não percebi se por causa do Tsipras se por não dar beijos a estranhos, mas inclino-me mais para a primeira hipótese.

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Essa noite de festa fez-me pensar na quase inconcebível e fascinante fragilidade dos maus momentos. Não há um que resista a uma boa mistura de mar, música, boa comida e amor, mesmo longe.

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Uma boa maneira de se escolher um bar, café ou restaurante em Atenas é ver se ele tem o nome em cirílico. Se o tiver escrito em caracteres romanos pode passar-se.