13.1.16

Diário de Bordos - Lisboa, 12-01-2016

Para fazer avançar uma bicicleta é normalmente necessário pedalar. Como a Vitus não é uma bicicleta dispensa essas trivialidades e avança sozinha. Eu só pedalo para fingir que estou numa burra. Não estou. A Vitus Turbo é um objecto não categorizável, ataxinómico, independente; que por acaso me trouxe até à Casa Independente porque foi rejeitada num outro local.

Foi a segunda vez que hoje alguém - pequenos Hitlers, preciso já - proibiram a Vitus de entrar. Não especifico quais porque não quero envergonhá-los. Há dois tipos de razões pelas quais isso é um erro.

a) Razões relativas: a Vitus é a bicicleta mais bonita que os ditos cujos pequenos ditadores viram, terão visto e verão na sua vida;

b) Razões absolutas: não há absolutamente razão alguma para se proibir a entrada de uma bicicleta - seja ela bonita, feia ou assim assim - num local.

Enfin, passons.

De modo é isto. Na Casa Independente não só me deixam entrar com a Vitus como ainda a elogiam. Uma bicicleta tem esta vantagem. Alguém imagina entrar num café e ouvir: "a sua senhora é muito bonita"? Não, claro. O que é pena. Devia ser prática habitual e socialmente aceite. "Que linda está a sua mulher hoje". "Eu tenho duas bastante parecidas, mas a sua é mais bonita". "E mais leve" (depois de lhe pegar. Podia ser "E as mamas são mais duras", por exemplo).

Duvido.

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Fui ao teatro ver uma peça de Beckett chamada Not I (Não Eu). Brilhante interpretação. Exemplar. Soberba. Deitou por terra todas as dúvidas que tinha a priori. Doze minutos de encantamento.

A actriz chama-se Inês Pereira, para quem quiser saber; e o encenador Miguel Sopas.

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"É difícil seguir o raciocínio", diz uma jovem espectadora à saída.

O meu cérebro ainda está meio anestesiado e só ouve: seguir; raciocínio; e depois, interior: Beckett.

"Seguir o raciocínio de Beckett"?

Raciocínio. Beckett. Alguém vê nestas duas palavras o mesmo que eu?

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Inês Pereira, Miguel Sopas. T'inquiète pas, Samuel. T'aurais accepté.

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Amo-te e não te desejo. Crueldade. Estupidez. Vida.

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"Les vieux cons" c'est un oximoron. Plus on devient vieux moins on devient con.