9.2.16

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 09-02-2016

Ora bem. Vamos aos factos e só a eles. M. foi-se embora e deixou-me aqui com mais respostas do que perguntas, conforme já escrevi algures; está um badanal desfeito. Não liguei os instrumentos mas as rajadas na marina não andam longe dos trinta e muitos, coisa que reduz consideravelmente a minha vontade de sair; de qualquer forma no outro dia comprei um aquecimento eléctrico daqueles pequenos de modo agora o barco está suportável.

O aquecimento foi anteontem. Às seis e meia da tarde saltou-me o fusível do frio, peguei na burra e fui procurar uma loja aberta. As primeiras duas pessoas a quem perguntei responderam-me "agora só amanhã". A terceira disse "não sei, mas há ali um supermercado, vá ver". Fui ver. Não fazia ideia de que há um supermercado aqui no Muelle mas a verdade é que não consegui entrar. Quando lá cheguei o senhor estava a fechar. Expliquei-lhe o problema, perguntei-lhe se tinha aquecedores, que não e eu porra e agora? Não aguento mais o frio e ele "Deixa a bicicleta e vem daí comigo vamos procurar uma loja no meu carro" e fomos. Mais tarde, aí para a segunda nega percebi que ele de qualquer forma já estava atrasado para ir buscar a mulher e o filho (quatro meses) e logo a seguir encontrámos uma ferreteria aberta e com aquecedores eléctricos e ele veio trazer-me à burra - onde tinha de voltar também de qualquer forma porque se tinha esquecido do telefone portátil no supermercado -.

É um cubano e tão certo com eu me chamar Luís Serpa amanhã vou lá comprar nem que seja uma garrafa de vinho, porque se hoje estou em tronco nu o salão a escrever patetices é em grande parte graças a ele.

Enfim, não são bem patetices, são mais factos. O plotter não deve ficar pronto antes de sexta ou segunda mas isso agora pouco me arrefece porque antes de terça, ou seja de hoje a oito não vou conseguir largar daqui por causa do tempo.

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Outro facto é que o S. B. abana para caraças apesar de estarmos no fundo da marina, mesmo juntinhos ao edifício da Capitania, parece que está a dar de cotovelos para os outros matulões do lado não virem para cima dele. De vez em quando bufa e vibra e depois lá volta aos abanos.

Tenho um Amel 54 a estibordo e uma porra qualquer de cinquenta e qualquer coisa a bombordo e os quarenta e cinco do S. B. parecem pouco.

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Outro facto: Palma ou não prefiro de longe estar no porto a estar lá fora.

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E é assim. Pode encher-se uma noite de factos e ficar-se com uma falsa impressão dela, da noite quero dizer. Os factos estão muito longe de ser tudo. E não me refiro apenas à ideia do Nietzsche sobre o que fazer com eles. É que não-factos por vezes descrevem  realidade muito melhor, mais imprecisamente.

A realidade é imprecisa, deixa mutas coisas em branco ou em cinzento e os factos com esta mania de serem branco ou pretos não chegam, tantas vezes.

Claro que podemos sempre diluir os factos em vinho tinto e em Eric Dolphy, como faço agora.

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Ficando pelos factos: o tablet / híbrido que comprei em Atenas por cento e setenta euros não vale nem o primeiro terço desse montante. É o que me dá querer ser poupado.  Entre mim e a poupança há o mesmo abismo que entre um paraplégico e os cem metros barreiras; ou uma pessoa com um QI de 72 e a física quântica.

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Acabo no Cecyl Taylor. Contra factos não há argumentos.



(Não é sempre, graças a Deus, não sou nada dado a iconoclasias, mas por vezes oiço isto e penso que o Keith Jarrett bem podia ir tocar para as creches).