2.4.16

Talvez, sim

Talvez isto seja a vida. Ou uma vida. Navegar barcos, repará-los nos portos, beber uma cerveja numa esplanada anódina de St. Maarten porque o Soggy tem a música demasiado alto e o Lagoonies está longe, ser reconhecido na rua aqui, em Palma, em S. Luís ou em Bocas del Toro, conhecer uma embarcação como se conhece uma casa ou a mulher amada.

Não sei. Talvez.

Ou talvez seja antes descobrir a mulher amada, ser reconhecido na rua da aldeia, reparar a bicicleta, beber um galão frio com uma torrada no café da esquina enquanto se lê os jornais do dia, pedalar a bicicleta pela cidade de onde se é ou de onde se quer ser, como se é do mar nessa outra vida que não sabemos se é uma ou só a aparência de uma.

Um homem do mar pode viver em terra? Talvez. Mais do que um homem da terra pode viver no mar.

O mar dá-nos essa capacidade plástica de ser de onde se está, tarefa dificil para o terreno que é de onde veio, como se um pequeno acidente geográfico fosse suficiente para contrabalançar a duvidosa influência da Lua ou a mais do que certa existência de outros continentes, outros mares, céus diferentes e não necessariamente melhores.

Talvez não haja uma só vida, haja vidas que se alternam como as fases da Lua ou os períodos de hibernação dos ursos, que dormem metade do ano e comem mel e turistas e trutas a outra.

Talvez.

Talvez tu existas, meu amor e a vida seja isso que está no teu sorriso ou nos teus cabelos tão densos, quase impenetráveis como algumas vidas.

Talvez.

Sim.

Em caso de dúvida respondo sim: o não nada muda, é uma certeza, o não já o temos e fugir não foge. Já o sim é preciso ir buscá-lo, lutar por ele.

Sim.

Aceite-se portanto que sim há uma vida ou várias vidas e todas elas convergem para ti como naqueles desenhos pirosos de um sol atrás de uma nuvem com os raios a projectar-se em todas as direcções.

Isto é,  nós vamos contra as nuvens, não a favor delas. Os raios convergem, não divergem. Atrás daquelas nuvens há uma vida, à frente também. Uma é feita de barcos, azul ultramarino, tripulantes esgrouviados, cerveja e esplanadas numa espécie de paraíso tropical.

A outra - melhor - do que quisermos que seja.