26.5.16

Diário de Bordos - De Cabo San Lucas a Lisboa, 26 a 28-05-2016, se um dos múltiplos aviões não cair

Há mais de quatro meses que não punha os pés num avião. Nem tudo foi mau.

Estou no autocarro para o aeroporto. Uma hora e vinte de viagem. Tenho um cantor evangélico ao lado. Espero que o homem se cale depressa. A merda em que estou é suficientemente chata, não precisa de intervenção divina. A qual de resto não resolveria nada, muito antes pelo contrário. Tenho mais fé em mim.

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Cidade de México

Não é preciso conhecer-me muito bem para saber que entre ficar no aeroporto e comer normalmente ou vir à cidade e contar os tostões escolho esta última (eu decididamente não me conheço bem: passei metade do voo a dizer-me que ia ficar no aeroporto). E seria preciso conhecer-me ainda menos para saber que está a chover. ¡Qué vaya! É pouco.

O qual aeroporto é feio, grande, escuro e mal sinalizado, tudo coisas que obviamente não podia adivinhar.

A cidade de México tem vinte e dois milhões de habitantes. Dela terei visto, quando me for embora, menos de um por cento: vim a pé das Bellas Artes a Zocatlan, um passeio de dez minutos que eu fiz em quinze por causa da p... da anca esquerda. Em Zocatlan havia a feira (ou coisa que o valha) das Culturas Amigas. Um enormíssimo pavilhão circular em cujo interior se atropelavam milhares de pessoas e se sucediam stands de cada um dos países do globo e mais alguns (havia um da República Palestina, por exemplo). Não dei a volta. Comi duas espetadas deliciosas na República Popular do Congo e (quase pelo mesmo preço) dois pastéis de bacalhau merdosos no stand português. Depois saí. Não é fácil passar de quatro meses de mar e marinas para uma megalópole que tem só por si mais do dobro da população portuguesa.

Ainda do que vi: uma cidade imponente, ruas arborizadas, faixas para transportes públicos, muitas bicicletas, ruas limpas... o resto não será todo assim, claro. Mas isto é o suficiente para confirmar a vontade que tenho de conhecer melhor o país.

Estou no food court manhoso de um "centro joyero". Vi alguns dez na Calle Madero, todos enormes. Somos o que fomos.

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Afinal a chuva não é assim tão pouca. Tive de me refugiar num bar, por sinal bastante bonito. Chama-se Talisman. Parece-me de bom augúrio.  Há males que vêm por bem.

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Saí do Talisman a pensar ir directamente para o aeroporto mas em vez disso dou um passeio pelas ruas. É o fim do dia, estão cheias de gente que regressa a casa. Ninguém anda apressadamente. As pessoas sorriem, têm uma expressão aberta.  Que contraste com Paris, Londres ou Lisboa, onde parece que anda tudo a correr como numa estação de metro ou de comboios.

(Pequena nota para a cultura geral: o bar abriu há uma semana).

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A cidade está a mais de dois mil metros de altitude. Não creio que seja por isso que os locais andam devagar. Eu sinto a altitude. Até sentado estou cansado. O raio da anca não ajuda, claro. Sou demasiado novo para artroses. (Isto dito também o era para a próstata e foi o que se viu). Parece que o corpo todo decidiu fazer finca-pé e obrigar-me a parar quer eu queira quer não. Este estúpido já devia ter percebido que não é preciso. Cafés e livros, idiota. Está escrito em letras garrafais à tua frente. Não vês?

Preciso de mudar de óculos,  eu sei.

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O saco Slam está a desfazer-se.

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Daqui a uma hora posso fazer o check in. Depois é tentar arranjar um canto para dormir quatro ou cinco horas. O aeroporto é uma porcaria mas pelo menos consegue ser melhor do que o de Miami. O que me inquieta é que são onze e meia da noite e está com tanto movimento como tinha quando cheguei às três da tarde. Espero que isto acalme, daqui para a frente. Seria como tentar dormir no meio do Rossio à hora de ponta.

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JFK

Grosso modo a viagem pode dividir-se em duas partes: atravessar o continente americano e atravessar o Atlântico. Aquela está feita. Dois voos relativamente curtos, um passeio breve mas agradável na Cidade de México e uma noite interminável no aeroporto dessa cidade.

Agora estou em JFK com os habituais problemas dos aeroportos americanos: Wifi pago, poucos sítios para nos sentarmos, preços disparatados (acabam de me pedir dez dólares por uma cerveja de pressão. Declinei), formalidades burocráticas chagas e longas.

Daqui a meia hora abre o check-in da Royal Air Maroc e começa finalmente a segunda parte da viagem. Uma vez despachado o saco entro para a área de trânsito, onde pelo menos terei cadeiras em barda [não foi bem verdade, mas paciência].

Por agora estou no cenário pré -embarque. Mulheres de burka, homens feios e barbudos, crianças sem fim. Não consigo habituar-me a esta cultura, por mais que faça. A verdade é que não faço muito. Acho detestável vestir as mulheres desta forma. Detestável e prejudicial. É provavelmente por tratarem as mulheres como as tratam que estão tão perto da barbárie.

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Vi três filmes: um remake americano do Segredo de sus Ojos, ao qual preferi o original; uma história  sublime sobre a relação entre as raízes e a vida chamada Brooklin e uma semi-xaropada italiana sobre uma criança incompreendida que acaba por passar uns dias em casa de Laura Morante. A história podia ser gira mas está mal contada e é longa, chata.

O que basicamente significa que não dormi um minuto sequer. O voo estava cheio a abarrotar, não havia um lugar vazio e dormir naquelas cadeiras é quase impossível.

A Royal Air Maroc tem vinho, um serviço simpático e eficiente, uma vasta oferta de filmes e passageiros que também batem palmas quando o avião aterra.

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Dormi chez Paul, no aeroporto de Casablanca. E durmo mais quando chegar. Esta viagem não vai acabar hoje. Vai acabar amanhã de manhã quando acordar, tomar um duche e começar a trabalha no que aí vem.

Infelizmente não posso ainda esquecer este transporte porque tenho dinheiro a receber.

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Lisboa é a capital mais próxima de Casablanca. Todas as categorias, oiço um senho dizer no avião.

Cheguei. Tudo tem um fim.