11.6.16

Diário de Bordos - Lisboa, 11-06-2016

Ontem tentei ver televisão mas fiquei desiludido. Pensava que com a mudança para o cabo e as caixas e o diabo a sete se teria, finalmente, acesso a uma quantidade ilimitada  (ou lá perto) de bons filmes e que o único embaraço seria a escolha.

Não é assim. Há mais embaraços do que filmes decentes. Começa por ligar o aparelho - tenho de perguntar à dona da casa como se faz - e acaba como as minhas tentativas de ver televisão sempre acabaram: perco mais tempo a aprender a navegar naquilo do que tenho paciência para o fazer.

Finalmente a tal escolha "ilimitada": um filme russo sem legendas e sem movimento (ao princípio pensei que fosse Manoel de Oliveira dobrado, mas depois vi que não: falavam muito. Uma frase - curta - por minuto, aproximadamente. Isto quando havia "diálogos") e uma americanada sem interesse de que infelizmente percebia o que diziam (e estava legendada).

Desligo a coisa, único momento agradável de toda a experiência. Para a próxima vou tentar ver séries.  Se ainda existir televisão, se não tiver sido substituída por outra tecnologia qualquer.

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Pouco a pouco o puzzle compõe-se. As bordas, como lhes chamava o meu Pai estão quase fechadas.

Enfim; não sei. A vida será um puzzle só com muitas áreas distintas ou vários com cores uniformes cada um? Talvez viver seja fazer paciências como quem toca bateria ou percussão: ao fim de muita pancada aparece a melodia.

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Pequeno passeio no Tejo, a bordo do FURANAI GE HUVAFEN (cito o nome porque o barco faz passeios no Tejo e é esplêndido), quinta ao fim da tarde.

A luz estava tão bonita que quase não via mais nada.

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Não gosto nada de escrever no telefone mas pelo menos reconheço-lhe as vantagens. É um método churchilliano: de duas frases a mais simples, de duas palavras a mais curta.

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Não tarda estou outra vez no Tejo. Ou ele em mim? Nunca saiu...

Tenho o Tejo em mim desde que em 1974 nele pus o meu Vaurien (chamava-se ADN), directamente do navio no qual viera de Lourenço Marques.