30.10.16

Diário de Bordos - North Palm Beach, Flórida, EUA, 29-10-2016

Se alguém me quiser torturar tem um método fácil e legal, se bem um bocadinho lento: basta pôr-me num barco - ou numa casa, é a mesma coisa - onde eu não possa cozinhar. Se se pretende sofisticar essa tortura põe esse barco - ou essa casa, longe vá o agoiro - numa marina da Flórida. É verdade que a dor só aparece ao fim de duas ou três semanas. Mas é uma dor simultaneamente pungente e ilocalizável, disseminada pelo corpo todo. É tão insuportável que hoje pensei sucessivamente em tirar uma carta de condução (parece que são particularmente baratas, aqui) comprar um fogão eléctrico para ter a bordo (inútil. O problema não é só a inoperacionalidade do fogão. É que o barco parece um carrossel do qual todos os parafusos se tivessem partido quando rodava a toda a velocidade).

Quando a mesma coisa aconteceu à Nike - que vou ver em breve, sorte - convidei-a para utilizar a cozinha do barco onde estava, o A. F.. Fiz um acordo com ela: um dia comprava eu a comida no dia seguinte comprava ela. Funcionou lindamente e proporcionou-me uma estadia aceitável em Shelter Bay (Shelter Bay é uma tortura per se, com ou sem fogão). Uma companhia agradável, inteligente e bonita (não estraga nada), com discussões interessantes e óptima comida transformaram a estadia numa coisa agradável e de que hoje, esquecidos os maus momentos, só me lembro dos bons (e quase me comovo).

Mas aqui não tenho ninguém com a mesma perspectiva. Ed está lá perto: amanhã vou fazer o almoço (frango em molho de leite de coco, gengibre e pimentos) e hoje comi lá um frango que comprámos no CostCo, a Macro local. Era gigante, custou menos de seis dólares e ainda vai dar outra refeição.

("Sob o signo do frango": acabo de comer uma quesadilla de frango assassinada por um italiano. Deve estar a vingar-se de não ter pedido uma pizza. Comi mais pizzas (quem pensa que sou pedante repare, por favor, que não disse pizze) nestas três semanas do que nos quarenta anos desde Veneza. Quesadilla, um dos meus pratos mexicanos favoritos, a seguir aos tamales, nachos, tacos e mais meia dúzia de coisas que agora não me ocorrem, como a galinha com molho de mole, o guacamole e por aí adiante. Exagero. Uma boa quesadilla é tão boa como qualquer taco. Tudo é bom na comida mexicana, de qualquer forma. Por exemplo, se eu estivesse lá sem cozinha não seria uma tortura. Se calhar até antes pelo contrário).

Perco-me.

Retomando o fio à meada: hoje fui com Ed ao CostCo e a uma loja de vegetais cujos donos devem ser vietnamitas. A loja era boa, barata, com produtos que exigiam uma escolha mas enfim. CostCo é um grande armazém de venda por atacado que faz a Macro passar por uma mercearia de esquina.

Detesto grandes lojas e tive de acelerar a saída. É sábado e aquilo estava cheio. Acabei as compras a correr e precipitei-me para a loja de bebidas que lhe está ao lado (e lhe pertence) para comprar uma garrafa de rum.

Sou contra a violência, todas as formas dela, incluindo a dos preços. A loja só tinha duas marcas: Captain Morgan e um outro de St. Croix que não conheço (de qualquer forma é uma marca branca). São os dois spiced rum, de que não sou particularmente fã. Mas um litro vírgula setenta e cinco (repito: 1,75 l) custa quinze dólares. Quinze dólares um litro e setenta e cinco de um rum que não é nada mau (comprei o de St. Croix. Morgan já conheço e custa vinte).

O café Centro vai perder um cliente. Cliente teso, é certo; mas cliente. Nunca mais lá ponho os pés, salvo imprevistos improváveis.

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O almoço foi bom. O frango era gigante, o barco uma maravilha e Ed (um capitão profissional ligeiramente mais velho do que eu) partilha muitos dos meus gostos: vinho, cozinha, navegar à vela, etc. Passámos o almoço a falar de receitas. É melhor do que falar de barcos, tema que deito pelas orelhas cada vez que a malta dos ditos se encontra.

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Está vento e chuva. A temperatura arrefeceu um bocado - vinte e seis graus agora, oito e meia da noite. Espero que amanhã o vento caia e a chuva páre para ir ao galope do mastro. Tenho de fazer uma inspecção cuidadosa, ver se o mastro sofreu com o raio. Não sou particularmente religioso, mas se fosse estaria a rezar em voz alta e rodar o terço como um muçulmano a misbaha.

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Para além do clima (um sítio em que um gajo pensa que está frio porque estão vinte e seis graus não pode ser totalmente mau) há uma coisa de que gosto aqui: a água. Há água em todo o lado e quem diz água diz barcos e marinas e mais barcos e mais água. Parece que alguém entornou um jarro gigante dela e ela se meteu por tudo quanto é canto.

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Anda por aí um boicote à cerveja Yuengling porque o dono apoia Trump. Acho errado misturar misturar cerveja com política e não adiro. De qualquer forma já boicoto todas cervejas de que não gosto, é um monte de boicotes, seja quem for que os respectivos donos apoiem.

As eleições são dia oito de Novembro. Recebo dois SMS por dia a dizer-me para ir votar ou em quem devo votar. E o Youtube está cheio de publicidade do Trump (mais do que da Clinton, não sei porquê). São os únicos efeitos das eleições na minha vida. Não ter televisão (ou ter e não a acender) faz um gajo viver noutro planeta. Na net ainda conseguimos escolher mais ou menos o que vemos. Na televisão (e vejo agora, no telefone) não.