8.2.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 08-02-2017

Não posso dizer que me aborrece muito. Estaria a mentir. Mas penso nisso cada vez que compro o raio do jornal: o Le Monde é simultaneamente de esquerda e o melhor jornal de língua francesa que conheço.

Percebo que Portugal não possa ter um igual: a França tem quase sete vezes mais habitantes do que nós; e isto sem contar os outros países francófonos, ex-colónias, presentes colónias e por aí fora.

Mas porra, podíamos pelo menos ter um bom jornal, um só, não? O Público e o DN (com uma vénia a quem eu sei que faz o que pode) são uma merda; o Observador começou por ser bom. Terminado o período de graça ficou assim assim. Hoje continua assim assim. Mas um assim assim tão longe do Le Monde que faz dó.

Ou seja: comprei o jornal e fui beber pastis para a Ferblanterie, que pertence à Daisy, antiga dona do Marchand de Sable onde trabalhei três anos com algumas interrupções. A Daisy replicou na Ferb (para os íntimos) o êxito que teve no Marchand: conseguiu transformar aquilo no sítio onde qualquer pessoa sensata tem vontade de estar no fim do dia com os amigos.

A única coisa que muda é o leque etário, muito mais vasto aqui devido à proximidade da universidade. Genebra sendo Genebra - um íman para mulheres bonitas e uma estufa para as que aqui nasceram - dificilmente um homem encontra de que se queixar.

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A tarde de hoje foi passada (outra vez) a lutar contra o sistema bancário americano. Se oiço alguém acusar Portugal de saloiice compro-lhe um bilhete de avião para os Estados Unidos. Ida simples.

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Os preços em Genève deixaram de ser alucinantes porque estão ainda mais caros. Não sei qual termo usar. Lunáticos?

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Ontem almocei com com o Claude M. Tem uma lancha que usa para os seus passeios fluviais e como está reformado usa-a muitas vezes. Conheci-o quando fazíamos ambos parte da tripulação de um 6 mJI, o S/Y SILENE (posso dizer o nome; foi vendido há dezenas de anos). depois fizemos muitas coisas juntos.

Penso muitas vezes em Claude por causa de uma história que se passou com ele e eu acho extraordinária: quando o conheci ele tinha uma drogaria e empregava - para além dos empregados de balcão - um vendedor externo. Um dia este fugiu com uma pipa de massa. Bastante. Um chimbalau grande. Pouco tempo depois veio bater à porta de Claude. Pediu-lhe desculpa, disse-lhe que ia procurar trabalho para o reembolsar. "Procurar trabalho? Não precisas de procurar trabalho. Se queres trabalhar em dou-te emprego." O homem não queria acreditar no que estava a ouvir, mas aceitou obviamente a proposta. Reembolsou o Claude e foi, dizia-me este, o melhor vendedor que jamais passou por aquela drogaria.

Lembrei-me disto ontem a propósito doutra coisa, semelhante. A diferença entre a mediocridade e a magnanimidade (ou mais simplesmente a inteligência) faz um mundo.