27.3.17

Diário de Bordos - Miranda do Corvo, Portugal, 27-03-2017. A vida no campo

O que marca o ritmo da vida doméstica é a salamandra. Acordar e acendê-la para aquecer a casa para o duche; ir buscar lenha - agora ou logo à tarde? É preciso ter sempre uma reserva que me permita ter fogo ao chegar -; chegar: acender a salamandra; ir buscar lenha para a noite; na cama, antes de dormir: levantar-me regularmente para alimentar o bicho. A casa é pequena e aquece depressa, mas como todas as casas portuguesas está mal isolada e perde o calor num instante.

Comprei três caixas de fósforos e dois pacotes de acendalhas, não vá o diabo tecê-las. Ainda não teceu.

Gosto do cheiro do eucalipto a arder.

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O conto de fadas do SNS acabou hoje no centro de saúde local. Confronto com o real. Amanhã volto à carga.

A médica é gira, mas prometi que ia tomar conta de mim. E de qualquer forma é provável que tenha um transporte daqui a três semanas, não quero correr riscos.

Se Deus quiser será o último. Inch'Allah. Pelo menos assim tão grande.

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Hoje a taxa de coiso deixou de estar abaixo dos duzentos e passou a acima dos cem. É  uma efeméride importante. A próxima etapa é pô-la à volta dos cem, a dançar à roda dos cem como uma vaca nos Açores em torno do pau.

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Onze quilómetros a pé. Pena a paisagem construída ser tão feia. As casas são horrendas, moradias à la patô bravô, muitas com janelas tipo fenêtre e portas como as portôs.  Uma vez fora das zonas construídas tudo muda. O campo é lindo, tanto que nem a inevitável praga de eólicas consegue estragá-lo.

Hoje vi bastantes estrangeiros. Há muitos ingleses na região, parece. Cruzei-me com três senhoras alemãs  (ou pelo menos germanófonas) e um casal que se não era francês era francês.

Miranda do Corvo é um pólo cosmopolita ignorado.