29.3.17

Diário de Bordos - Miranda do Corvo, Portugal, 28-03-2017

Hoje fui turistar à Lousã. Enfim, não sei se turistar é o verbo adequado: passei metade do tempo na Moneygram para enviar dinheiro ao D. Está em Barcelona num buraco maior do que o meu, com mulher e dois filhos, um dos quais recém-nascido.

Poderia argumentar-se que não é sensato um gajo nas minhas circunstâncias ajudar outro nas circunstâncias do D. A verdade é que os gajos sensatos não ajudam; com o argumento - defensável (mas não justificável. Enfim, passons) - de que não nos compreendem encarregam-nos a nós, insensatos que sabemos o que é estar no buraco, de o fazer.

Fi-lo, claro; em Dezembro (para só mencionar a mais recente) beneficiei eu da ajuda de um insensato.

Insensatos de todo o mundo, uni-vos!

(Com um abraço amigo e sensato ao A. G. P., irmão na insensatez e cúmplice de montanhas russas. Que vivamos muitas mais).

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O centro da Lousã tem a habitual mistura de edifícios lindos em ruínas e novos e viçosos horrendos. Mesmo assim aguenta-se. Entre a solidariedade e o autocarro acabei por passear pouco tempo; mas devo ter visto o essencial.

Há uns anos, quando ouvia falar de desertificação do interior pensava que o milagre era não ser ela maior, total. Não percebia o que prendia as pessoas que resistiam. Agora não só as percebo como também compreendo quem se muda para o interior: não é preciso estar muito atento para ver nisto um mundo novo.

Estando atento vêem-se milhares de mundos novos.

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Em breve irei a Lisboa. Lá mais para a semana. Vou comovido: o desvelo com que ando a tratar de mim é uma novidade. Não me sabia capaz de tamanho auto-amor.

Espero que o sacana do corpo o veja, deixe de se comportar como um menino mimado e de fazer birras e - sobretudo - retribua.

Não é por ele que faço isto, é por mim. Dias como o outro domingo não, obrigado.

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Tudo indica que vou mesmo à Guadeloupe buscar um cata de cinquenta pés para Atenas.

Não sou grande fã da Guadeloupe mas um pouco de calor e água tépida, azul e profunda não me farão mal.

E passar de novo Corinto, regressar a Atenas, com quem me reconciliei faz agora pouco mais de um ano. Espero que seja o último transporte que tenho de fazer, mas não está mal escolhido (ignoro por quem...)

Melhor só o de Toronto, mas não se confirmou. Esse teria feito mesmo sem precisar...

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Hoje falei ao telefone com o dono de uma empresa turística.

Parecia que acabara de sair da gruta de Platão e alguém lhe pusera um telefone portátil nas mãos.