13.4.17

Diário de Bordos - Marina Bas-du-Fort, Guadeloupe, Caraíbas Francesas, 13-04-2017

Estou cansado e miserável. São vinte para as nove e só agora consegui deitar-me. É pouco provável que consiga dormir já, apesar da gripe, da fatiga, do jet lag, da gripe, da gripe. O O. está um forno, claro, mas pelo menos não creio que tenha mosquitos. Se tem ainda não chegaram. Que se lixem os mosquitos. A primeira coisa a fazer é desembrulhar as pernas e a segunda amaldiçoar estas dores de garganta e cabeça,  que de tão próximas parece provirem do mesmo órgão.

Bebi um ti'punch, só um. E comi accras e boudin noir, este bom aquelas assim assim. Boas de sabor mas demasiado maçudas. E bebi chá sem rum, coisa nunca antes vista por estas latitudes. Pelo menos em mim. Tudo muda, mesmo os monolitos trogloditas.

Agora só me resta lidar com a dor na garganta, resistir à tentação de ir buscar uma faca e cortá-la (a dor, não a garganta)  de alto a baixo, de um lado ao outro,  esquartejá-la e depois cuspir-lhe em cima como nas torturas da Idade Média. Vá lá,  Pelo menos já consegui pôr-me por baixo do lençol de cima.

Não deve haver na terra e no mar profissões pelas quais eu nutra maiores respeito e admiração do que stew e maquinista naval.

E a Guadeloupe, perguntar-me-ão? Ainda só vi a Marina. Nada de especial: du pareil au même. Amanhã começa o trabalho a sério. Com gripe ou sem ela. Mas acho que este calor vai diluí-la, espapaçá-la, reduzi-la a uma pobre e perdida sombra de si. Aposto que vai. Aposto.

Se eu estou reduzido a uma sombra porque não há-de a puta da gripe reduzir-se também?

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Isto era ontem e hoje de madrugada. Acordei num estado porreiro, quase bom e passei a manhã a trabalhar. Não posso dizer que voltei ao ponto de partida: andei dez passos para trás. Estou outra vez de rastos.

Pela primeira vez na vida tolero, simpatizo e até empatizo com um bombista. Uma bomba, já. Atómica.

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Almoco: Colombo e planteur. Doente ou não estou nas Caraíbas, porra!