11.4.17

Rosas

Espalhar as mãos pelas rochas (espalhar não é uma imagem: as rochas são ásperas e cortam-te pedaços de pele que depois guardam, ciosas das suas prerrogativas, habilidades recém- descobertas, por mais inatas que sejam).

Isto é verdade: as rochas podem dilacerar-te desde que nasceram; algumas, porém, não sabem. (Todos passamos por semelhantes descobertas, mais tarde ou mais cedo).

Eu por exemplo acabo de descobrir que algumas dilacerações não doem; enchem-nos de uma nostalgia doce, que um olhar menos treinado tomaria por melancolia. Talvez o olhar menos treinado tenha razão.

Estou a divergir. A verdadeira questão é: onde situar as rochas e nelas as mãos dilaceradas? Podemos imaginar uma praça no centro da cidade com uma escultura feita de rochas; ou uma praia tão perto da praça que uma só letra as diferencia. Podemos imaginar uma montanha - subimo-la ou descêmo-la? O autor prefere deixar essa questão sem resposta. Pensa que a uma pele dilacerada indifere saber se o foi na subida ou na descida, ao contrário de um apaixonado para quem todos os pormenores contam -.

Aí está! Essa pele melancólica e dilacerada é a vida. Resta agora saber quem é a rocha, a tocha na qual se vão imolar os donos das mãos. Viver é isso: mãos que se tocam e se queimam, se dilaceram e espalham pelas rochas. Mãos que podem, no contexto do texto ser substituídas por olhos, corpos ou memórias, tal como um mesmo copo pode levar água, vinho, limonada ou outra bebida qualquer.

Assim nascem as primeiras noites: uma troca de solidões. Duas solidões trocam-se por uma só, que se vai aprofundando e dilacerando.

Por vezes das rochas nascem rosas.