25.6.17

Diário de Bordos - Burgau, Algarve, Portugal, 25-06-2017

É a noite antes do dia; já estou quase arrependido de a ter passado aqui. Grande quase: em Lisboa não estaria melhor.

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Terei que ser eu a fazer a carbonara de que a vontade me atezana há semanas? Tudo indica que sim. Paciência. Já as comi piores; e com sorte talvez me lembre de procurar a solução daquela infernal dúvida: com salsa ou sem?

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O Algarve no Verão não é habitável por quem não tenha nascido a norte de Brighton. E mesmo Brighton deve ser melhor.

Quando vivia em Portugal só cá vinha no Inverno. Agora quero viver em Portugal mas não tenho a certeza de aqui voltar tão cedo. Antes Brighton.

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Num país que apresenta a gastronomia como uma das bandeiras ("pontos fortes" em Swotês) o vinho tinto está numa prateleira na cozinha a metro e menos de meio do fogão / forno (é uma pizzaria). A ASAE não serve para coisas destas e os terroristas do ISIS não saberiam distinguir onde pôr as bombas. Estamos condenados.

Só não percebo por que raio de carga de água os produtores de vinho não dão formação aos ignorantes dos restauradores. Se calhar dão.

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Bebo um branco algarvio ao qual faltam duas ou três coisas para ser um grande branco mas tem duas ou três que o põem claramente acima do medíocre; oiço Eleni Karaindrou, prova de que as intuições, impulsos ou simples curiosidade funcionam mais vezes do que não; daqui a pouco vou ler o Vila-Matas que ando a ler há dois meses; o dia acaba nesta casa que poderia ser usada para demonstrar que por vezes os impulsos não dão bons resultados; espera-me um caminho que vai exigir trabalho, amor, dedicação, esperança: tudo coisas de que não estou em short supply nem nunca estive; daqui a pouco vou beber um mojito sem açúcar; penso na senhora que amo e há três anos conheci: isto é, penso em mim há três anos e penso "abençoados três anos".

O dia termina numa espécie de acção graças, como se por uma vez o universo se tivesse apercebido de que existo e tivesse mobilizado tudo aquilo de que gosto: o vento, a luz, a música sagrada de Eleni Karaindrou tocada pelo Garbarek, a paz.

Disparate, claro. O universo sou eu e este amor que sinto por C. e saiu de um canto de sinapses que lá o mantinham fechado a sete chaves, só o deixando sair de vez em quando por curtos períodos de tempo como se não quisessem que morresse mas tão pouco se perdesse por montes e vagas. O resto é conversa, "falar porque quero", imaginário.

O resto é gratidão.