7.7.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 07-07-2017

Vivi em Genève pouco menos de dezassete anos ao todo. Durante esses anos ausentei-me frequentemente e com ritmos irregulares: alguns anos passava seis meses fora e seis meses aqui; outros viajava mais vezes por períodos mais curtos. No Burundi estive quase um ano seguido; no Zaire seis meses.

Genève sempre esteve para mim associada a chegadas e partidas (durante alguns anos dizia na brincadeira que o meu lugar favorito desta cidade era o aeroporto). Quando me perguntavam se gostava de aqui viver eu respondia "gosto de chegar a Genève; e meia dúzia de semanas depois gosto de me ir embora".

Desta vez é diferente, de duas maneiras: gostei como sempre de aqui chegar mas não preciso de esperar "meia dúzia de semanas" para querer ir-me embora. E - outra diferença - a razão não tem nada a ver com Genève, cidade da qual de resto aprendi a gostar estando longe dela. A razão está numa cidade do Alentejo, que não se chama "centro de gravidade" mas podia chamar.

Talvez "ponto de fuga" seja mais adequado: é para ali que convergem todas as linhas do que vejo.

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Continuo a não perceber (aceitar, vá) esta infantil antropormofização dos animais de companhia (ontem perguntaram-me se a cadela era "um menino ou uma menina". Felizmente não estava sozinho e não pude responder o que queria). Mas tratar da conjuntivite da "menina" - tarefa que me cabe em sorte devido à quantidade de tempos livres de que usufruo - faz-me sentir uma ternura pelo animal que me era desconhecida desde os quatorze ou quinze anos.

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"Está um calor vulgar" (no sentido de ordinário), diz G. Respondo que não. Antes pelo contrário, abençoado seja. Contudo percebo-a (a ela e a todos os que oiço queixarem-se da temperatura): Genève não está "feita" para trinta e três graus, tal como Lisboa não está para os cinco deste inverno.