20.11.17

Bulimia e caos

Imagens díspares que se atrapalham (ou será atropelam?) mutuamente: infortúnio, abrir uma porta com a chave depois de tocar a campainha, pôr-do-Sol no campo, um passeio de mota à beira-rio, um quarto frio no qual uma personagem solitária tenta escrever e tapar-se ao mesmo tempo, a esperança, um diálogo num carro entre duas pessoas que acabam de se conhecer, uma lavandaria self-serviço onde às três de manhã um casal discute. Podia tentar ordená-las cronologicamente, por ordem alfabética ou por ordem crescente da quantidade de letras de cada uma, de tempo que se lhe mantêm no espírito antes de ser substituídas pela seguinte. Ou talvez arrumá-las por pessoa que lhes está na origem: A. e J. na lavandaria, por exemplo (começa mal: a imagem da lavandaria não se baseia em factos reais, mas sim possíveis). T. no automóvel a caminho de Sintra, onde vamos passar a nossa primeira noite juntos; T. e o infortúnio.

Nada disto funciona. A única maneira de lhes dar ordem ou forma é escrever-las num quarto gélido, à noite, sozinho enquanto tento pensar em A., B., C. e não pensar em T., U., V.

Parece difícil mas não é: uma vez escritas a ordem regressa. Escolho uma ao acaso: a discussão entre dois amantes numa lavandaria self-service às três de manhã, por exemplo. Pouco importa que só exista na minha imaginação: a partir dela posso construir uma cadeia de imagens igualmente fictícias, mais ou menos verosímeis. Uma das pessoas do casal tem um gelado na mão. Às três da manhã um gelado? Deve ser Verão e eles devem estar perto de casa.

O frio quase desaparece, a personagem que escreve deixa de estar sozinha, da atrapalhação nasceu uma certa ordem, um sonho de ordem.

A ordem da ficção é omnívora e bulímica e tão parecida com o caos que quase se confundem.