2.6.18

Yuri (2)

Das frases meândricas do meu marido passo para as pugilísticas de Yuri. Fala como se estivesse a abater uma parede a cada frase, como se o objectivo fosse afastar quem o ouve.

- Prefiro estar calado a mentir - disse-me um dia, quando lhe perguntei (foi a primeira vez):
- Amas-me?

Pelo silêncio descobri o amor, pelo amor a violência do silêncio: Yuri nada contra a corrente numa queda de água.

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Não sei se me explico bem: sou uma mulher casada; nunca fui infiel ao meu marido, apesar de o nosso casamento já não existir na prática há muitos anos (não me refiro ao sexo, refiro-me ao que há à volta dele, antes, depois ou mesmo na ausência dele). Nada sobra se não uma mulher bonita e só, sem filhos, sem conversa, sem problemas. Tem:
- Uma "vida";
- Um carro;
- Muitos "amigos";
- Uma empregada doméstica.
- Uma biblioteca, três quartos da qual pertencem ao marido;
- A ideia de ser diferente de todas as mulheres na mesma situação.

E agora tem um amante pedreiro, calado, que a fode como se estivesse a deitar paredes abaixo, como se estivesse a salvar-lhe a vida, a saltar para o abismo no lugar dela.

Talvez seja isso a generosidade: "Não saltes comigo. Vou sozinho. Tu ficas aqui e vês-me cair e assim não precisas de cair também". Tudo isto em mau português, quando tem sorte.

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- Yuri, alguma vez tentaste deixar de trabalhar nas obras?
- Para fazer o quê? Dar aulas de ucraniano em Lisboa?

Os meses passaram, o trabalho de Yuri em minha casa acabou e só nos víamos em casa dele, primeiro aos fins-de-semana e depois aos fins do dia também.

- Vou alugar uma casa e vamos viver juntos, queres?
- Não.
- Yuri...
- ...

Um dia descobri que ele gostava de pintura. Uma folha de um livro que encontrara numa das obras, um quadro de Mantegna. A folha tinha sido rasgada com cuidado, dobrada para caber no bolso e agora estava em sua casa, debaixo de um peso qualquer para se endireitar.

A nossa primeira saída em público foi ao Museu Nacional de Arte Antiga ver o Bosch. Senti-me como se estivesse a rebocar um camião até ao momento em que ele me disse "Vamos sentar-nos no jardim". Nesse instante soube que ia deixar o José e que a minha vida acabara de levar uma volta muito grande. A questão não é saber quando acabou a subida e começou a descida, mas sim: há um ponto de inflexão em tudo na vida. Seria este?