14.3.20

Gravidade

A história é longa, Dickensiana, cheia de circunvalações. Mais vale começar do princípio, algures perto do fim do ano (aviso que vou cortar alguns cantos. Isto é dickensiano mas não sou Dickens): num grupo de yachties de que faço parte vi um post sobre uma rapariga que estava numa situação muito difícil, com um filho de dez anos e sem trabalho, dinheiro nem comida. Esperava um day work para dali a duas ou três semanas, mas por agora a situação era verdadeiramente difícil.

Eu estava na Alemanha e propus-me ajudar com o que podia: dinheiro. A comunidade yachtie - que não é constituída apenas pelos miúdos mimados, demasiado bem pagos e palermas que eu por vezes vejo nela - mobilizou-se e D. recusou a minha oferta - queria trabalho, não queria dinheiro. Aparentemente disse isso a todos os que lhe propuseram o mesmo que eu (está a ser verificado). Aceitou a comida e o trabalho que esperava chegou. Durou três ou quatro dias, diz ela que por ter sido cancelado. Já a convidei para comer - ela e o miúdo, um puto adorável - duas vezes e acredito no que diz. À segunda acabou por aceitar-me dinheiro porque não tinha com que pagar a renda (e tem problemas com a senhoria, claro) e hoje aceitou mais, mas tive de insistir. Ainda está a dever uma parte da renda à senhoria e praticamente não tem comida nem para ela nem para o puto (que devo dizer é surpreendentemente bem educado).

Fez trinta e três anos terça-feira passada. Nasceu na Roménia, é uma daquelas crianças dos orfanatos do Ceausescu. Aos quatro anos foi adoptada por uma família belga, com a qual cortou total e definitivamente. Não lhe perguntei porquê: não faço aos outros o que não quero me façam a mim. (Tenho uma hipótese para explicar a recusa de uma pessoa nestas circunstâncias pedir ajuda à família adoptiva, mas não passa de hipótese.) Algures por volta dos vinte e três anos teve um filho de um inglês. A coisa correu mal, passou cinco anos em tribunais a tentar fazê-lo colaborar na educação do puto, mas sem êxito: o homem esconde-se, foge à justiça, nunca lhe deu um cêntimo que fosse.

Pouco depois (pelas minhas contas, o puto teria cerca de dois anos) apaixonou-se por um belga "adorável, bom" (sic) com quem viveu oito anos, dos quais os últimos três a assisti-lo na morte, causada por um transplante de medula que correu mal. O irmão do homem era alcoólico, morreu antes dele e por uma razão que tão pouco aprofundei deixou-lhe um monte de dívidas.

Ou seja: neste momento temos uma miúda de trinta e um ou trinta e dois anos, com um filho de oito ou nove que de repente se vê privada da primeira pessoa que tomou conta dela correctamente - com a possível excepção da família que a adoptou, não sei - sem formação (estudou para cabeleireira mas não acabou o curso) e que entra numa depressão sem fundo.  Só se fosse idiota é que não entraria, suponho mas não tenho a certeza.

Vai daí resolve fazer os cursos básicos para trabalhar em iates e vem para Palma com o filho procurar trabalho, que não encontra, obviamente, exceptuando uns poucos day works que servem para pagar a comida e pouco mais.

Recentemente encontrou trabalho num bar / café / restaurante alemão - é a sua língua materna, porque cresceu na parte germanófona da Bélgica. Trabalhou dois dias: por causa do Covid o bar vai fechar.

Soube estes útimos pormenores há pouco porque os convidei para jantar - o quarto que ela partilha com o filho é minúsculo, a senhoria não as autoriza a usar a sala e o puto está sem aulas. Dizer-lhes para virem ter comigo era o mínimo que podia fazer.

Gosto muito de equilibrar coisas em cima umas das outras - a quantidade de copos que parti a tentar empilhá-los "assimetricamente" daria para abrir um bar - mas por vezes acredito que algumas coisas se empilham para baixo, a descer, como se se vivesse num poço e tudo o que se faça nos puxasse para o fundo. U. disse-me que tenho alma de bom samaritano (para me explicar - um pouco injusta ou inutilmente - que não queria D. lá em casa). Não tenho. Acredito simplesmente que por vezes se deve ajudar a vencer a gravidade, como agora se fala - pateticamente - em "vencer o vírus".

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