23.2.26

Monólogo de chacha

Não gosto muito da expressão "conversa de chacha". Prefiro "small talk". É mais respeitador, não é?, apesar de ser a mesma coisa. Isto é, não gosto de small talk, não tenho paciência para chachadas, para falar do tempo - excepto em questões técnicas, claro - ou da vizinha. Com quem é que ela dorme? Onde é que compra a roupa? Que diz ela dos outros vizinhos? (Enfim, depende da copa do soutien da senhora e de quão facilmente ele se desapertaria, se ela deixasse. Deixaria de ser small talk, eu sei, mas isso é outra história.) Sou muito mau socialmente. Nas grandes reuniões sento-me a um canto e bebo muito. Primeiro para falar e depois para calar-me. Da conversa de copos passo direitinho ao silêncio de copos. (Ou de copas, se me permitem uma pequena digressão pela chachada.)

Tão pouco me estendo muito sobre os grandes temas: faltam-me cabeça, conhecimento e curiosidade. (Gosto de aliterações. Ajudam-me a alterar a monotonia da existência. Da da minha, quero dizer. Da dos outros nada sei.)

Por isso evito conversas de vizinhos, de política, de futebol, de literatura. (Mal sei ler, essa é que é essa. Aprendi meia dúzia de termos com os quais me engano e engano meia dúzia de papalvos quando já bebi o suficiente para falar e ainda não para me calar.)

Há uma assimetria fundamental nesta coisa da conversa de chacha: ouvir é pior do que falar. As nossas chachadas soam melhor do que as da tal vizinha apesar de a senhora... 

Vá, que se lixe. Traga-me um rum, sim, por favor? O quê, acabei-lhe a garrafa? Basta abrir outra. Se não tiver do mesmo pode ser um diferente. Sou adepto de Baudelaire. Parcialmente adepto. Não me embebedo com poesia, por exemplo. Excepto se for da má, como aquela que eu escrevo. Ao fim de três estrofes tenho a cabeça a andar à roda e à quarta vomito. Esteja descansado. Prometo que não vomitarei aqui. Traga-me um rum qualquer, por favor. Se não tiver rum pode ser mezcal. Estou de bicicleta, não há risco de a polícia me mandar parar. Não sei é se conseguirei montá-la. Refiro-me à burra. Não, a vizinha não é burra. Burra é bicicleta. A vizinha é boa, muito boa. Só diz disparates, mas nada que um "boa tarde" dito a correr, "desculpe, tenho o telefone a tocar" não resolva.

O problema amanhã é o tempo. Vai chover, parece. A fiabilidade das previsões meteorológicas aumentou bastante. Já a dos comentadores políticos continua igual: são muito bons a prever o que já aconteceu. E mesmo assim às vezes enganam-se. Prefiro prever o preço da uva mijona. Acerto sempre: é barata. Já os comentadores são fala-baratos, uma contradição quando se sabe o que eles ganham. Sim, prefiro fala-baratos a fala-barato. Não sei porquê. É como small talk e chachada. Também não sei porque prefiro aquela a esta. São uns fala-barato. São fala-baratos. São fala-barato. Não soa bem. Um verbo no plural e um complemento directo no singular. Tomemos um exemplo: os liberty ships eram um navio construído nos EUA durante a Segunda Guerra Mundial. Os liberty ship eram navios, etc. Eram um tipo de navio. Uma classe de navios. Sim, eu sei, sou um fala-barato dos caros, esse rum que me serviu deve ser caríssimo. Não é? Ainda bem. Não tarda começo a falar de política. Ou das mamas da vizinha, que numa sociedade educada designaria por seios apesar de mamas ser um termo técnico. Muito desgastado pelo uso (o termo, não os ditos, que são jovens e vigorosos, suponho. Nunca lhes toquei. Nunca os vi ao vivo, sequer. A senhora é puritana. Modesta, como se dizia antigamente). As mamas são, mamas é. A importância de um artigo definido é inesperada, não acha? Como se um pequeno ladrão de esquina nos oferecesse um relógio em vez de nos roubar o Rolex que trarìamos no pulso se usássemos relógio. Como não temos ele oferece-nos um Swatch daqueles que fazem muito barulho, baratos.

Caro senhor: chegou a hora. Boa noite. É um prazer falar consigo. É como falar sozinho mas sem ninguém a assistir. 

21.2.26

Diversos dispersos, 21-02-2026

Fotografo. Escrevo com a luz. Estou aqui, não estou noutro lado qualquer. Estou aqui mas não sei se estou de passagem: a fotografia é aqui e agora. Só amanhã saberás se ontem estavas de passagem ou se estavas para ficar. Tu sabes: estás aqui. A luz sabe: agora. De toda a sucessão de agoras de que os dias são feitos a fotografia escolhe um, que tu dás a ver. Escreves-te. Dás a ver. Dizes: estou aqui. Sou aqui. Como sou me dou. De onde sou me dou. Vejo. Vejam-me.

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As Mandé Variations de Toumani Diabaté estão muito próximas dos Cânticos do Êxtase de Hildegarde von Bingen. Mais próximas do que a geografia e o tempo levariam a supor. Deve ser a isso que se chama música. Não: é isso que a música chama. Confluência. Ponto de encontro. Hildegarde, Toumani, eternidade. Luz, no fundo. Vers la lumière. «Rumo àquele ponto, exterior ao mundo, para onde tendem as catedrais.»

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Não gosto de receber ordens e ainda menos de as dar (salvo raras excepções, para o caso irrelevantes). Às vezes as consequências são nefastas. O meu pedido de perdão é do tamanho do abismo que a Hildegarde, o Toumani e meia dúzia de outros tentam preencher.

19.2.26

Breves reflexões sobre Portugal e as aventuras do major Alvega

A ideia de que Portugal sairá um dia da cauda da Europa é infantil, ingénua e infundada. Há várias razões para isso;

a) Portugal não é pobre por causa da corrupção, do centralismo ou da ausência de reformas. É pobre porque os portugueses não querem ser ricos. Ou pelo menos a maioria dos portugueses. As provas são mais do que muitas e não vale a pena mencioná-las. Os que querem emigram pela razão simples e imbatível de que sabem que mudar "o sistema" é impossível. Aspas em sistema: cito e troço, simultaneamente;

b) Portugal é um país corporativista. Chamai lobbies às corporações se quiserdes ser modernos, ou quintinhas se preferirdes. Como em todos os "sistemas" (ditto) há quem beneficie e quem se acomode. A maioria dos portugueses que ficam acomoda-se. Ora acontece que ninguém cede voluntariamente poder. O poder conquista-se, não se doa. Um acomodado não luta, por definição. Não faz pela vida. Faz-se à vida se emigra e à vidinha se fica. E quem beneficia? Obviamente não vai mudar nada. Mesmo que a sua "riqueza" seja pobrezinha se comparada com a dos ricos de outros países: é preferível ser rico num país pobre a sê-lo numa terra de ricos;

c) Quando aparece um iluminado tipo Ventura as pessoas - os acomodados - descarregam a "raiva". Isso é mais ou menos como esperar engravidar a mulher masturbando-a: até pode ser que ela dê uns gritinhos mas dali não sairá mais nada. 

Conclusão: ou emigras ou arranjas uma quinta que generosamente te aceite no seu seio. Acreditar em aventuras? Acredita antes no major Jaime Cook e Alvega. Esse ao menos não enganava ninguém. 

Diário de Bordos - Porto, Portugal, 19-02-2026

Dois euros e cinquenta cêntimos um rissol de carne que era muito mais rissol do que carne; mais um por um pastel de bacalhau ("grande". Não experimentei. Grande era o preço); tartares de animais exóticos; não me fui aos portos. O Bolhão encontrou o seu destino e é um buraco para turistas. Estava escrito, a oeste nada de novo. Já o restaurante O Buraco continua um valor seguro, apesar de o arroz de pato não estar famoso. Culpa da minha Mãe, claro: quem provou o seu (dela, minha Mãe, tia Blá) arroz de pato tem uma enorme dificuldade em encontrar outro que lhe chegue aos calcanhares - isto para quem come com os pés, o que por sorte não é o meu caso mas poderia muito bem ser, se não tivesse braços. O senhor da mesa atrás de mim felicita o simpatiquíssimo empregado: "Parabéns. O Buraco continua a ser o Buraco." Volto-me para confirmar. É um casal de Lamego que vem aqui há "quarenta anos". Eu não venho há tanto tempo e pergunto-me se o Buraco aguentará outros tantos sem se transformar num buraco. Espero que não, mas se tiver de acontecer que seja daqui a outros muitos.

O senhor é advogado. Despediu-se de mim com um passou-bem. Resisti a dizer-lhe o meu nome. 

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Outro local do Porto: a Casa Chineza. Comprei cacau em pó e chá preto, um bocadinho de cada que a vida não está para chinezisses caras. Só baratas.

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Daqui vou beber um café e um comer um bolo à Império. Pobre sim, miserável não. 

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As ruas e estradas continuam cheias de cartazes das eleições.  Da primeira volta. O Marques Mendes promete umas coisas, o Gouveia e Melo outras, o comunista outras ainda, o ventríloquo diz que vai acabar com a corrupção. 

Já com a incivilidade todos convivem bem.

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Vilarelho

Regresso a casa, depois de uma paragem em Moledo para uma fotografia e uma cerveja em Espanha com a L. Nada a fazer: fui feito para viver na fronteira. Nas fronteiras.

16.2.26

O espelho imperfeito

Decúbito fetal. Joelhos o mais perto possível do queixo (mesmo assim, ficam longe: as tuas capacidades de contorcionismo são limitadas), mãos sobre os ombros (ditto. Cruzadas: a direita sobre o esquerdo, a esquerda sobre o direito), queixo no V dos antebraços. Apertas-te como se abraçasses alguém que amas e não vês há muito tempo. Não são os casos, nem um nem outro. O teu amor por ti próprio não anda muito longe da tua agilidade, da tua maleabilidade; convives contigo quotidianamente, por muito que desejes abandonar-te como a alma deixa o corpo, para sempre, sem possibilidade de regresso. Prosaicamente, procuras apenas gerar calor, aquecer-te, dando ao pronome dois sentidos, activo e passivo. Como se estar encolhido numa cama, debaixo de três camadas de cobertores pudesse ser uma acção. É. Pode. Concentras-te nela. Pouco a pouco o corpo aquece-te, a manhã aproxima-se a grandes passos do relógio. Escrever traz-te de volta ao frio. Traste. Divides-te entre duas necessidades que se excluem: aquecer-te, escrever-te. Como se o papel em que escreves fosse o ecrã de um telefone. É. Como se esse ecrã fosse um espelho. É, mas imperfeito. Regressas à tua posição,  apertas-te com a força da saudade: estiveste ausente de ti. O reencontro é caloroso: apertas-te com força, reencontras a paz da imobilidade, aqueces-te, esqueces-te. Talvez um dia te ames, até. Hoje o objectivo é mais modesto: limar as imperfeições do teu espelho. 

15.2.26

Diário de Bordos -Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 15-02-2026

A festa de inauguração da casa foi auspiciosa. O chili saiu bem, a companhia foi óptima e a casa está bonita, graças à L. Hoje é o after-party, que é quase tão bom como o party ele-mesmo. Lavar loiça, limpar a casa, relembrar os momentos marcantes. Quem tem amigos tem tudo e quem tem comida e bebida para oferecer aos amigos também. Dois tudos que se adicionam. Agora tenho comida e vinho para seis meses, se não comer nem beber cinco e meio deles. E memórias deste jantar para mais vinte anos, seja quantos forem desses os que viverei.

Oiço a música melancólica de Eleni Karaindrou, bebo um copo de vinho e penso nas vantagens da amizade sobre o amor: é aberta e múltipla, não é possessiva. Tem desvantagens? Tem, às vezes.

Penso na memória, no tempo, no presente, esse conjunto de camadas geológicas de um e de outra, alternadas, mil-folhas com alguns mata-borrões de intermédio. Tão necessários que são...

13.2.26

Diário de Bordos - Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 13-02-2026

O DV tem andado mais calado que vivo, coitado. A razão é simples: ando muito ocupado e igualmente preocupado. Mudar de vida é fácil. Difícil é ter a certeza de que a nova vida me permitirá ter uma vida, coisa que está longe de ser segura. A pergunta que mais me ocorre nestes dias é: quanto tempo leva uma cobra a mudar de pele? Ou uma lagosta? Ou uma crisálida a transformar-se em borboleta? (Esta analogia não é muito boa, mas não faz mal. Por agora fica.) Quanto tempo leva um nómada a sedentarizar-se, esse verbo que tanto usei e depois saiu do meu horizonte e do meu vocabulário? Luto em duas frentes: a casa e o trabalho. Duas frentes diferentes: uma sei que a ganho, na outra sei que até agora perdi cada vez que tentei regressar a Portugal. Mais vale acreditar nas infinitas capacidades da aprendizagem, na qualidade inexpugável do trial and error, empirismo no seu melhor, no velho compincha que dizia «êxito é ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo». Sem perder a classe, acrescentaria eu se pudesse. Não posso acrescentar nada a nada: tenho os livros arrumados, a casa composta, o futuro em construção, o passado em recomposição, o presente esquivo e no leitor um disco de música sefardita pelo Hespèrion XXI.

Chama-se Diáspora Sefardí e a mente foge-me para a vertente fácil da «diáspora interior» e outras tretas do mesmo calibre. Nuno Júdice  (?): «Comecei a fugir para dentro. É cada vez mais difícil deixar de fugir para dentro".

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Tudo isto para viver os dez anos que segundo as estatísticas me restam ou os quinze que o optimismo prefere.

1.2.26

Diário de Bordos - Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 01-02-2026

Volto ao meu ritmo habitual de acordar muito cedo, como se quisesse encolher a noite, encolher o pesadelo. (Isto é kalimerice. Eu reduzo as noites e a L. reduz o pesadelo a um mau sonho. Deixo-lhe aquí o meu obrigado. Já à RN deixo a minha praga, nada encolhida.)

Os dias ficam mais compridos apesar de ainda ser noite.

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Hoje vou votar "em mobilidade". Voto no Seguro, não porque veja nele o salvador da democracia ou no outro palerma o seu demolidor (dela, democracia). É simplesmente porque prefiro a decência à indecência, a civilidade à boçalidade. Entre duas mediocridades prefiro a educada. O outro não passa de um idiota que fugiu da taberna de onde nunca devia ter saído, um socialista disfarçado de catavento.

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Esta semana começo uma carreira de professor de português para estrangeiros e em breve começarei os primeiros passos para os jantares "ler por aqui" (desculpa-me a apropriação cultural, M. Não é a designação definitiva). A versão para estrangeiros vai chamar-se "dinner by the book", ideia genial, obra do O. (?) a quem também deixo aqui um obrigado que vai de Caminha ao Porto.

Quem tem amigos não tem pesadelos. 

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E quem os tem (pesadelos) esmaga-os debaixo de vinte quilos de cobertores, bem esmagadinhos e espera que a sala aqueça - ou seja, sonha com ladrões. O único aquecimento para esta sala chama-se Verão, uma marca bastante presente no nosso país, graças a Deus e à geografía.

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O jantar de pendaison de la crémaillère será em breve. É outra forma de aquecer a sala e de esmagar pesadelos.