23.5.26

Diário de Bordos - Barbate, Andaluzia, Espanha, 23-05-2026

Se não fosse esta porra deste Levante que nos impede de sair a praça Francisco Tato Anglada estaria um forno. Acho que nunca ninguém encontrou uma moeda só com uma face. É meio-dia, os cafés e restaurantes da praça começam a abrir (mas a Tienda já está aberta, graças a Deus) e o barulho vai aumentando em crescendo rápido. A luz é branca, cega-me, obriga-me a pôr os óculos escuros com os quais me é difícil escrever. Como sem eles é pior, vou alternando. Umas linhas com, outras sem. Estou a preparar-me para comer umas croquetas e para me habituar à ideia de que vamos ficar aqui mais dois ou três dias. A cozinha para o almoço só abre à uma e meia da tarde: há tempo para as croquetas e para a resignação ao inevitável. Não sei se resignação é o termo certo e se resignar-se ao inevitável não será um pleonasmo. Provavelmente sê-lo-á, mas estou-me nas tintas. Qual a parte da minha vida que não é um pleonasmo? Ou melhor, quantos pleonasmos já vivi? Quantas vezes já esperei que o vento mude, que uma cozinha abra, que a luz deixe de me cegar, mesmo a periférica, que entra pelas margens dos olhos? Andalucía, me ciegas de amor y de luz y de ruído y de paz y de pasados, esses pleonasmos teimosos como caracóis, levam anos a sair-nos da vista, mesmo cega pela luz.

Barbate já tem alguns turistas mas por enquanto são poucos e visivelmente espanhóis. Quando olho para os prédios da cidade nova imagino isto em Julho e duvido muito que teceria grandes cânticos de amor, se por cá andasse. Não andarei. Estarei em Palma. Não há moedas só com uma face e há-as com duas brilhantes.

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Para informação: comi croquetas de atún encebollado, provavelmente o prato que Eva cozinhou para o Adão quando aqui chegaram (nessa altura os homens não entravam na cozinha). E o convenceu a ficar.


(Cont.?)

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