30.6.12

Largada de Camaret

Largamos daqui a uma hora ou duas. ETA La Coruña 04 de Julho.

29.6.12

Envies

Une putain d'envie de déconner, voilà tout, de remplir une baignoire de Paddy chaud, de draguer la serveuse du bistrot qui n'a pas d'internet et ne s'appele pas (la serveuse) Hélène mais qui est mignonne comme tout, de partir demain et ne pas avoir du près à faire dès dimanche, dimanche déjà, d'arriver vite à Vigo, la ville la plus grise et moins grisante qui soit, de dire à la dame qu'à 4 euros la portion de Paddy elle pourrait bien y aller un petit peut du doigt, avec doigté, bien entendu, de penser - penser, tout court.

Une putain d'envie, mais je ne sais rien d'envies, encore moins de putains d'envies, quand elles me prennent par le bas du ventre et ne s'arrêtent que dans le haut de la tête et dans la pointe des orteils et des doigts (d'où le doigté). Une envie mal placée, claro, les putains sont toujours mal placées, les envies encore pire, la nuit n'a cesse de commencer et pas moyen de finir.

Il n'y a rien de plus déprimant qu'un bistrot français plein de beaufs, até a proprietária é beauve, e eu penso no bom gosto, no frio que vou ter, na bolina que me espera, nos bifes slow cooking que vão acabar de cooking amanhã porque hoje não havia tempo nem paciência nem fome nem a ponta de um chavelho que nos desse envie de esperar por eles, os bifes.

De maneira são onze da noite e a noite chegou, finalmente, vai ser cada vez maior daqui para a frente. Que se foda a noite, que se fodam as envies putains, para pouco mais servem, as noites do que para se foderem e se beberem até ao fim, como se não houvesse mais mar, mais vento, mais nada se não frio e envie de déconner, saloperie d'envie, putains de beaufs.

"Um pé por ano de idade do proprietário" é o tamanho adequado de uma embarcação de recreio; mas "compra o barco mais pequeno que conseguires comprar ("buy the smallest boat you can afford"); nunca tenhas menos de 32 anos, nesse caso.

E veste-te bem, um pequeno pijama branco para dormir no camarote do armador, uma veste de quart para os quartos, umas botas para o mau tempo e duas mãos para agarrar as envies, putains qu'elles soient, vaches, prennantes comme le mauvais temps en Biscaie, connes comme une chanson de Renaud, bêtes comme les balais de la Royale, heureuses. Les envies sont toutes heureuses, toujours, qu'elles soient de vie, de mort ou de mer.

Il faut voir une envie comme un bateau heureux au portant par force 4 (il n'est pas de bateaux malheureux au portant par force 4).

Drame. Pire: tragédie; insurmontable contradiction. j'ai envie de déconner et pourtant je déteste les cons. Comment faire, bonne mère?

Camaret-sur-Mer, Bretanha, França, 29-06-2012

A depressão que nos impediu de continuar o caminho passou hoje de manhã. A temperatura subiu, o vento caiu, a chuva parou. O anticiclone dos Açores começa a dar um ar da sua graça. Amanhã largamos, se tudo se confirmar.

A grande questão, evidentemente é "o que faz um marinheiro num porto enquanto espera pelo tempo?" A resposta é muito variável. Oscila entre "nada" e "baldear o convés, coser velas, limpar os fundos, reparações diversas, procurar hotéis, bilhetes de avião e de comboio para os armadores, procurar o ship chandler local, comprar provisões e assim por diante até ao infinito".

Além de travar conhecimento com os diferentes cafés, restaurantes e bares, claro.

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Isto é a teoria. Na prática o marinheiro chega a bordo e prepara-se para baldear o convés; descobre que o tanque de águas usadas, conhecido na intimidade por tanque da merda transbordou no paiol e que tudo o que lá estava (no paiol) adquiriu o consequente cheiro. Esvazia o paiol, limpa tudo o que lá estava e limpa o paiol. Descobre que a água fica na ré do dito paiol, pelo que é preciso transportar tudo o que lá estava para a proa da embarcação. Seca cuidadosamente o paiol, traz tudo o que lá estava para o poço e descobre que o tanque continua a transbordar. Como não sabe onde é a válvula para esgotar o dito tanque decide esperar pelo skipper e prosseguir com as outras tarefas.

Descobre que o produto que o armador tem a bordo para limpar o convés é uma, como dizer?, merda; faz o que pode (ou seja, esfrega o convés três vezes) e pelo sim pelo não vai ao pub Donegan Tavern beber um copo de vinho, uma foma de pasteurização como outra qualquer - menos eficaz, é certo, do que o whisky, mas mais adequada a outros parâmetros. 


E acaba no dito pub a pensar que uma embarcação de 32' é, afinal, amável, em certas circunstâncias.

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Depois pensa no passado recente e lembra-se do que pensou na Horta, pouco depois de lá chegar: a Horta é a Bequia deste lado do charco. E não há gin tónico como o do café Sport; e os preços, meu Deus, os preços.

Os bretões não são o povo mais simpático do planeta, longe disso. Mas são boa gente; e não há açorianos em mais lado nenhum do mundo, só nos Açores.

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Aproximadamente duas horas e dis copos de vinho depois de chegar ao pub o marinheiro lembra-se que ficou de fazer o jantar e, cheio de dúvidas existenciais -  faço um molho para os bifes ou não? Com que é que os vou acompanhar? - vai para bordo. Como ainda está frio, apesar da depressão ter passado, pensa que tavez não seja má ideia beber um copo de vinho enquanto Bruce Springsteen demosntra uma vez mais porque é o Boss, e o computador se apaga.

Decide que não sabe como vai fazer os bifes - eles que decidam como querem ser feitos - e que não bebe mais um copo de vinho. Um marinheiro de transportes não é um skipper de charter, Camaret não é a Horta e hoje é sexta-feira, não é segunda.

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Os bifes decidiram que não eram bifes, eram carne de slow cooking braised steaks, ou coisa que o valha, cito de memória, duas ou três horas de forno. Comemos salsichas de conserva com o aquecimento ligado e um arroz de pimentos que, ma foi, não ficou mau de todo.

E agora aproveitamos a vibrante vida nocturna de Camaret; T. no seu computador  e eu no meu.

Camaret-sur-Mer, Bretanha, França, 28-06-2012

Uma noite - há muitos anos - sonhei que um dia estaria na marina de Camaret a bordo de um barco holandês a comer porco feito por um inglês que se enganou no caminho e há meia dúzia de anos veio viver para França; sonhei que estaria frio, frio de enregelar, frio de morrer, frio de beber whiskey après whiskey no Bar-Snack Ar Men, no bar Notic ("Retour automatic") ou em qualquer bar que estivesse aberto numa noite de sexta-feira; sonhei que o vento estaria Sudoeste, o que é normal porque eu quero ir para Sudoeste; sonhei que gosto da Bretanha como se cá tivesse nascido, o que só acrescenta a Bretanha a uma infindável lista de lugares que amo como se em cada um deles tivesse nascido; sonhei ainda que um dia sonharia tudo isto, o que só demonstra que os sonhos são circulares, sonham-se a si próprios tal como nós nos sonhamos, e os sonhamos, um dia. 

Ou uma noite, vai saber.

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O ano tem muitas estações: a estação do rum, a do whisky, a do vinho. Tem mesmo uma estação que te é dedicada e dura doze meses; menos uns copos.


Este ano nasceu bêbedo e entaramela as estações todas.

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Camaret-sur-Mer fica na entrada do Goulet de Brest; tem duas ruas e três marinas; ou o inverso, mais provavelmente. Tem vento (menos ontem), nevoeiro (sempre), chuva (todos os dias) e sol (às vezes).

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Parece uma viagem ao passado.

(Não gosto do passado. Prefiro o futuro, mesmo já o tendo sonhado.)

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O barco chama-se SOGNO. É um Saffier 32, bonito, bem equipado. Mas 32' são 32'; é uma quantidade insuficiente de pés para acender uma paixão; ou um amor, sequer.

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Por vezes parece-me que a expressão "navegação de recreio" devia ser revista, reformulada. Seria simples: bastaria retirar-lhe "de recreio". Ou substituí-la toda por "vida", talvez. Ficaria assim: "a vida no Canal da Mancha pode ser bastante exigente"; "a vida no canal da Mancha não é para meninos"; "a vida no Canal da Mancha tem momentos de uma beleza que nenhum frio, nenhum nevoeiro, nenhuma corrente consegue apagar".

"A vida no Canal da Mancha começa e acaba invariavelmente num bar da Bretanha a ouvir Touré Kunda e a pensar na vida na Biscaia."

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A senhora das Boucheries Réunies tem uns brincos atrozes, um sorriso bonito, um Camembert muito para lá do aceitável e um saucisson sec divino. Dispenso os brincos.

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As mulheres bretãs mudaram. Estão mais bonitas. T. acha que é por causa do automóvel, que as leva ao ginásio. Parece-me um raciocínio demasiado inglês para ser falso.

Os homens estão iguais. Já te contei a minha história do Aber Wrac'h? É uma história de silêncios, cumplicidades e outras coisas bretãs.

Não é bem uma história, no fundo. É uma nostalgia.

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O bar vai fechar. No sábado a vida continua.

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O rapaz do sítio onde almocei insiste em falar inglês comigo. O inglês é aproximativo e o sotaque abominável; tem uma cara de imbecil como raramente tenho visto. É lamentável que a França esteja a mudar ao ponto de até os empregados de café falarem inglês. 

27.6.12

Brighton, Reino Unido, 26-06-2012

Resumindo, a vida é uma sucessão de presenças e ausências. As tuas, por exemplo, as do medo. Dez dias de mar. Eu nele, ele em mim. A Horta, de onde largámos, é linda, e não lhe vi nada a não ser as nuvens cinzentas, as ruas limpas, as encostas verde-tudo, a gente boa e a comida boa e barata -- não comia lapas desde os quinze anos, e durante os próximos quinze não me esquecerei do gosto das do Peter. O gin tónico é outra coisa, aquele gin tónico é leve como eu sou quando me esqueço de que a vida é uma sucessão de presenças e ausências -- as tuas, por exemplo, as do medo; as da linda L., com quem estive meia hora no aeroporto de Toronto; as da gente boa que conheci em Charlotte, taxistas etíopes gordos, tarantinófilos de gema, apreciadores de futebol e de vinho do porto; a tripulação que deixei como se deixa uma família que nos dá liberdade.

Porque é que o mar é tão importante? Há milhares de adjectivos e eu escolho, para ele, a palavra importante. Porquê? 

Coisas que não se pode fazer no mar:

1. Ir para o mar e decidir que não se quer estar no mar. O mar é que decide quando saímos dele e quando sai de nós. Saí dele quando ele decidiu, e ele ainda não saiu de mim. Sei que não saiu porque quero voltar a ele.

2. Discutir*. Porque o mar grita mais do que nós, pode mais do que nós, tem mais razão do que nós.

3. Desconfiar. O mar não tolera irrelevâncias.

4. Ser infeliz. O mar não tolera irrelevâncias.

5. Assobiar. Dizer "coelho". Ter frio. Tomar banho muitas vezes -- infelizmente. 

Coisas que se pode fazer no mar:

1. Amor.

2. Ter medo. Não se pode, porém, ser tido pelo medo. Ter medo no (e do) mar é o mesmo que estar vivo: natural e às vezes doloroso, mas ainda assim bom. Ser tomado pelo medo sem o conquistar é deixar de ser. O medo no mar, como na vida, deve existir apesar de nós, isto é, não deve confundir-se connosco: ele é uma coisa, nós somos outra. É natural ter medo de ser uma coisa pequenina no meio de uma coisa tão grande, ter medo de ser engolido por uma vaga, de não ter experiência, inteligência ou força suficiente para impedir o barco de adernar mais do que a conta. No entanto, quando a água mágica, fosforescente nos lambe o convés, não há muito a fazer senão pensar que Deus fez as coisas bem feitas. O barco flutua sobre uma coisa linda e perigosa, mas não tão linda e perigosa que um homem comum não a consiga conquistar. 

3. Tolerar-se. Estar só a governar durante duas ou mais horas é mais difícil para quem não se governa. A princípio, apercebemo-nos de que se não nos governarmos somos governados (pelo mar e pelos nossos pensamentos); depois, com o tempo, aceitamos: primeiro as circunstâncias -- "este é o meu quarto e tenho de o fazer comigo" --, depois as escolhas -- "eu estou no mar porque quero, comecei esta viagem porque quis, não poder não estar aqui é a consequência da minha escolha" -- e, por fim, as vantagens -- "sei de mim muito mais do que sabia antes de embarcar. Sei que não me tolero e que quero aprender a tolerar-me", por exemplo. 

4. Comer bem. Matar saudades de enchidos e bacalhau, imitar com atum-amarelo uma sopa de cação magnífica que se comeu em Évora, fazer um cebiche meio decente, um bolo de chocolate assim-assim, uma feijoada à transmontana com couve chinesa.

5. Partilhar. Muito e sempre.

6. Rir e disparatar. Que bom que é quando se faz, que bom que é quando se sabe fazê-lo.

7. Desejar um duche quente. E estar tão sujo quando se chega que, em vez de um, se tomam três antes de vestir uma peça de roupa lavada.

8. Aprender. Tudo de novo, como uma cria de lobo que sai da toca pela primeira vez. (E ler os lobos de Jack London, da terra e do mar.)

Concluindo, podem fazer-se no mar muitas mais e melhores coisas do que aquelas que não se podem fazer. A liberdade é uma questão de perspectiva, como a ausência e a presença. As tuas, por exemplo, as do medo. Tu nunca te foste embora e o medo de não te voltar a ver já se foi. Mas, se não te importas, despacha-te, que governar sem ti torna os dias e as noites longos, intermináveis.

*-- em terra também não.

24.6.12

Doenças

De certa forma a felicidade é uma doença. Habita-nos - e a ela nos habituamos - como uma miopia, por exemplo.

Ersatz

De todas as palavras caídas em desuso, uma das que mais lamento é ersatz. Porque terá desaparecido do vocabulário corrente? Da vida não desapareceu, isso é certo e seguro.

Biografias possíveis

Um fotógrafo sem máquina fotográfica e um escritor sem talento.

Perdões

Uma mulher perdoa quase tudo a um homem. Quase: desrespeitar o manual do perfeito sedutor não faz parte dos comportamentos aceitáveis.

Se, A

Se Deus existisse seria homem. Não existe, e isso faz Dele uma mulher. Perdão: A mulher.

Mandamentos

"Faz aos outros o que queres que te façam a ti". Se Moisés fosse um escritor erótico teria sido este o seu primeiro mandamento.

Ambivalências

As mulheres aceitam a ambivalência em si próprias - conhecem-lhe bem a inevitabilidade; toleram-na nas outras mulheres; e acham-na totalmente inaceitável, imperdoável nos homens.

Infelicidades

Lembro-me de A. adormecida ao meu lado, num hotel em Nova Iorque, nua, saciada e infeliz. Mandava fazer infelicidade como vestidos sob medida, nos melhores costureiros da cidade.

22.6.12

Brighton, Reino Unido, 22-06-2012

Converso com T., o skipper com quem vou até Vigo, sobre Gibraltar. Acha aquilo completamente desinteressante. É forçoso reconhecer que tem razão; Gib nem uma sombra é do que foi. Mas alguns locais são como alguns amores: não mudam. O que um dia foram serão sempre. E Gibraltar é um desses locais, pelo menos para mim. 

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Azáfama na marina. 60 nós de vento, medidos pelo nosso vizinho. Ao que parece até um mastro partido houve. Os brandais não deviam estar em muito bom estado; felizmente foi na marina, e não no mar. Dobram-se e triplicam-se cabos, passam-se alguns onde não os havia, afastam-se barcos, reforçam-se defensas, peia-se tudo o que está nos conveses e nos rufos.

No DARK HORSE rasgámos o abominável bimini top e as duas capas das velas. É chato para M., que está sem dinheiro e quer vender o barco. Mas não é grave.

21.6.12

Terra

A terra é um país estrangeiro onde há cerveja, vinho, bifes mal passados e duches quentes. Para além disso não lhe vejo grande interesse.

PS - enfim, algumas terras. Noutras há rum e os duches quentes são dispensáveis. Essas têm algum interesse.

Brighton, Reino Unido, 21-06-2012

Largámos a tempo: quatro dias é uma escala. Mais teria sido turismo.

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A água está muito fosforescente. Por vezes uma vaga rebenta não muito longe do navio e parece que temos um paquete aqui ao lado. E quando rebentam no poço (muito poucas, graças a Deus) parece que ficamos com guirlandas.

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Cinzento e frio: bem vindos ao verão do Atlântico norte. Não percebo como é que há pessoas que são contra o aquecimento global. Se eu morasse na Europa do norte e rezasse rezaria todos os dias para que a terra aquecesse, e depressa.

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550 milhas até Ouessant: 550 milhas até um passado distante.

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150612 - Ficaram o vento e o frio, voltou o sol. Estamos num fluxo de oeste provocado por uma baixa que está para norte da Biscaia, e espera-nos - se a previsão se revelar tão acertada como até aqui (o que me faria gritar milagre! e cantar laudas à Passage Weather) - um fluxo de oeste provocado pela extensão para norte do anticiclone dos Açores. Entre os dois, talvez haja um período de calma. Ou talvez não, e nesse caso dentro de três dias chegamos. [Não chegámos. O Anticiclone dos Açores não veio tão para norte como a Passage Weather previu. Fizemos os últimos dois dias a motor.]

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Isle of Wight, entrada leste do Solent - Pôr-do-sol: é como navegar dentro de um quadro do Turner. Porque será que nunca nos cansamos da beleza de um nascer ou pôr-do-sol, por muito foleiras que lhes achemos as fotografias e as descrições?

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210612 - Chegámos ontem, mas a viagem ainda não acabou. Só acaba quando o barco estiver limpo e em condições de ser "entregue" (entre aspas porque o armador está a bordo). Neste caso as limpezas são um bocadinho mais a fundo porque o barco vai ser vendido e já há duas visitas programadas.

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Se tudo correr bem embarco na segunda ou terça-feira para o Mediterrâneo num Saffier 32.

10.6.12

Horta, Açores, Portugal, 10-06-2012

Largamos da Horta a seguir ao almoço (um último almoço no Peter). ETA Brighton 200612. Merda.

9.6.12

ChaMar

Não há um local público na Horta que não tenha uma televisão e por causa de um campeonato qualquer a televisão não fala se não de futebol. 

Está na hora de voltar para o mar.

7.6.12

Diálogo

- O Peter é a minha segunda casa.
- Qual é a primeira?

Seduções

"Seduz-me", diz o mar à terra. "Tolo", responde a outra. "Há muito que te seduzi: estás condenado a vir morrer-me às costas". 

Horta, Açores, Portugal, 07-06-2012

Largámos às quatro da tarde de Marigot Bay. Na manhã seguinte estávamos a reparar velas. Estão, como dizer, velhotas. Por causa disso passámos um dia inteiro de yankee 1 e trinquete, sem a grande, que esperava pela secagem da cola de contacto. Mesmo assim fizemos 170 milhas.

O "DARK HORSE" é uma embarcação magnífica, armada em escuna; 60', 23 toneladas, 33 anos, 7 tripulantes, 2200 milhas pela proa, E, ENE e ESE 3 a 5, mar de pequena vaga a moderado, sol. Deve haver maneiras melhores de começar uma travessia, mas eu não sei quais são. Talvez começar com uma alheta? Não. Gosto da bolina, é a maneira mais rápida de amarinar a tripulação e de julgar o bote.

E o bote é magnífico. Parece que foi desenhado para mim.

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Passámos o Trópico de Câncer à meia-noite menos um minuto. Estamos oficialmente fora dos trópicos. Os alísios continuam, graças a Deus, se bem mais variáveis. A velocidade baixou. A tripulação está quase toda amarinada - falta a N. e L., estamos a tratar delas.

O tempo continua óptimo.

.........
Um gajo está deitado no camarote. Sente os movimentos do barco, o barulho da água no casco, mas tudo parece imóvel.

Pouco depois está no poço, caneca de chá na mão, à espera da sua vez de governar. As noites já não estão quentes, mas ainda não estão frias. Amanhã tenho de pôr uns sapatos, pensa. O barulho da água é diferente, e é o mesmo: alegre, leve. 15 nós de vento real; com os 8 da velocidade os 20 de vento aparente já fazem os brandais zumbir. Tudo o é leve. A noite, o leme, a ideia de que os próximos 12 dias (se tudo correr bem) ou 15 (mais provavelmente) serão passados aqui. Nem todos serão assim, claro: haverá mau tempo, chuva.

É impossível definir de onde vem esta sensação de estar nos braços de um deus feliz, ou nos de uma deusa bela, sensual e libidinosa.

Ao quarto dia o vento caiu, finalmente. Já vamos no segundo peixe - um mahi mahi ontem, um bonito hoje.

A comida não é o ponto forte desta viagem, mas o Mike compensa esta ligeira deficiência sendo um óptimo pescador. (Se não fosse o peixe o regime seria totalmente vegetariano).

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O frio passou. Hoje de manhã tivemos o primeiro aviso do que está para vir: céu nebulado e frio.

Motor, motor, motor. Começou hoje às duas e meia da tarde; e vai durar pelo menos mais dois dias... Ficar parado no meio de nada é chato; avançar com este barulho é uma merda. Deve ser uma das mais perfeitas definições de dilema que conheço.

O vento voltou, e com ele o frio: traz com ele um bocadinho do norte de onde vem.

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"O que é que você quer que eu faça de si' N.?" Não perguntei. Na verdade a rapariga interessa-me pouco - é gira e bem feita, mas no mar essas qualidades (no sentido de características) são irrelevantes.

N. é brasileira. Além de bonita e boa deve ser rica, ou pelo menos vir de uma família que o é. Não sabe decerto o que o universo, nem o que é um centro, mas se soubesse considerar-se-ia o centro do universo. Hoje houve uma pega abordo: um inglês mais ou menos operário de Liverpool e uma brasileira mais ou menos idiota de São Paulo não se compreendem muito bem, por muitos esforços que façam. E nenhum deles faz.

C. pediu desculpa, quando saiu de camarote e se juntou a nós. N. estava ao leme e não respondeu. "N.?", chamei. "Ainda não posso". A verdade é que os dois têm culpa; e ainda mais verdade que me estou completamente nas tintas.

Não sou super-homem, nem bom pastor. E há muito abandonei a ilusão de que era ambos, ou pelo menos um pouco de cada. O objectivo não é sermos amigos, é sermos um tripulação; e se dessa tripulação saírem algumas amizades tanto melhor; se não, paciência. "O que é que você quer que eu faça de si, N.?"

Se quiser ser tripulante eu posso ajudar, e gostaria muito; se preferir ser passageira, vou ignorá-la. A escolha é sua, e eu limitar-me-ei a esperar que a faça.

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Continumamos à vela, com um vento fracote mas suficiente para nos fazer andar a 5 nós. É pouco, mas melhor do que nada e infinitamente mehor do que os 5,5 que fazemos a motor.

Estamos quase a chegar à "esquina"; amanhã ou depois de amanhã "viramos à direita".

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Os dias passam a correr. Mal acabo o pequeno almoço é noite e já jantamos e estou a vestir-me para o quarto; é intrigante, porque se me perguntarem "o que fizeste durante o dia" não sei que dizer. Naveguei, li, dormi, comi, lavei a loiça, naveguei, mareei os panos, tomei um duche, dormi, naveguei, comi - não fiz nada, em suma. E apesar disso amanhã faz uma semana que saímos de St. Martin, e estaremos provavelmente a pouco mais de outra semana da Horta. Largámos ontem, chegamos logo, daqui a bocadinho.

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A lua vai crescendo. Mais dois dias e estará em quarto crescente; vamos chegar à Horta com ela cheia. Gostava de a ver logo atrás do Pico, um dia.

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Estou ansioso por revisitar a Horta. Tanto vivi, lá...

Visito o meu passado como se não fosse meu, como se fosse a vida de outro, ou outra vida.

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"I am all things, save soul of fellow men / And the very God" Tennyson.

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Vais ao leme e divagas. Divago, Jivago. A divagar se vai longe. Porque é que longe é melhor do que perto? E se tentasses seduzir-me? Seduz-me tu. É a tua vez. Senhoras primeiro. Daqui a pouco haverá vento. Quem é A? Como sabes que ela verá vento? Quem é ela? Aquilo é a Via Láctea; ali está a Polar. Vai alta, agora, estamos cada vez mais perto dela. Estás com a cabeça nas estrelas. E os olhos no vento. Gosto dos sítios de onde não se vê a Polar e de ouvir os brandais a vibrar. E eu de quando tu me fazes vibrar. És o meu vento. Divagas. O vento chegou. Chegámos. Terminus. Tout le monde descend. Para onde vamos? Para longe; perto é um não-lugar. Mas eu gosto de te ter perto de mim. Eu sou um não-lugar. Amo-te. Tira os olhos da Polar, não olhas se não para ela. Mentira. Também olho para Sirius, e para os Gémeos. Castor e Pollux. Não vejo Orion. Só te vejo a ti. Não vês nada. Divaga. Aí está o vento. E o porridge. 7 nós e meio e os brandais a vibrar. Concentra-te. Deixa as estrelas. Seduz-me. Daqui a pouco estamos nos 20 nós de vento. Seduz-me.

20 nós, 25, de vento; 8, 9, 10 de VMG.

Sonhos síncronos.Continuas a delirar. O barómetro baixou, finalmente. Depois de o vento chegar.

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290512 - Os trópicos deixaram-nos, definitivamente. Calças, camisa de manga comprida, botas, veste de quart e frio, muito frio, apesar disto tudo.

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300512 - As velas estão podres, completamente podres. Rasgam-se só de olharmos para elas. Esta noite foram 4 rasgões, no trinquete e na grande. A unidade de base é 25 cm. Reparamo-las com montes de cola de contacto e pano - o M. tem uma enorme reserva de tecido velho, podíamos fazer uma vela nova.

Mas os rasgões no trinquete vão ficar assim. Precisariam de praticamente toda a cola que temos.

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Nós é que somos hóspedes da vida, seus convidados. E ela é uma anfitriã generosa: pôs à nossa disposição o mar, o vento, as senhoras (e os senhores, para elas), as estrelas, o vinho e o rum e tantos milhares de coisas boas. Devemos portar-nos bem, em casa da vida; mas usufruir de tudo o que ela nos oferece. "Esta é a minha casa. Abusem, nada me faria mais feliz do que vê-los abusar de tudo o que aí está". Mas depois acrescenta, para os mais distraídos "mas não se esqueçam de que a casa é minha. Não é vossa".

"O meu país é uma embarcação de vela". Em inglês teria ficado "my country is a sailing boat". C. pergunta-me se Portugal me falta; "não". E se penso lá voltar a viver? "Não". "Onde vais assentar, se um dia assentares?" "Não sei, ainda é muito cedo para pensar nisso".

"O meu país é um barco à vela" ocorre-me depois. Ainda bem que não veio a tempo para a conversa.

A minha pátria é um veleiro no oceano.

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Pode mentir-se a quem se quiser - ao patrão, ao cônjuge, aos amigos ou ao fisco - mas não se pode mentir ao mar.

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"A água está suja? Então beba sumo de futas, N.". "Suco de frutas? Mas nem gelado está".

Um barco não é uma residência secundária.

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Frio cortante, ácido, que corrói a roupa, a pele, a carne e nos deixa omo se tivéssemos os ossos expostos.

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Uma está "sem energia psíquica", a outra "só quer morrer", uma terceira tem medo da própria sombra; um deu um jeito nas costas e mal se tem em pé (mas governa magnificamente) e o outro, marido da que tem medo, é incapaz de manter um rumo mais de cinco segundos (e pela conversa dele há outras coisas que não deve conseguir aguentar mais de cinco segundos, mas isso é problema dele, e dela). É isto uma tripulação?

Força 4 a 6 para a chegada. Mas não deve ser suficiente para podermos beber um G&T no Peter.

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Duas melancias sobre as quais assenta uma outra melancia, com duas enormes melancias por cima, (quando não tem soutien achatam-se e espraiam-se pela barriga); tudo isto encimado por uma outra melancia, mais ou menos aredondada. O corpo de L. é uma composição de melancias.

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São sete e meia da manhã. O céu está coberto, cinzento escuro, mas o sol nascente ilumina Horta. O branco das casas contrasta com o fundo cinzento do céu. O porto está cheio de iates de todo o tipo e feitio, que começam a movimentar-se: agora entra um sublime sloop, um Class J que não identifico mas devia [era o ENDEAVOUR]; um catamaran sai; uma espécie de ruína ao lado da qual o DARK HORSE faz figura de barco novo sai e iça pano à entrada do porto. Do lado dos grandes também há movimento: o MADEIRENSE 3 vem de marcha a ré para atracar - não pode fazer de outra foma, o porto está cheio de iates fundeados e não há espaço para manobrar.

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A chegada foi no Peter, claro. José Henrique não se lembra de mim, naturalmente: há 30 anos que não vinha cá, e mesmo quando estava nos Açores só ocasionalmente vinha à Horta.

Ficámos fundeados ao lado do SIDNEY ROCK OYSTER, com quem falámos no mar; e um bocadinho perto de mais do SANTORINI EXPRESS. Foi uma entrada bonita: 23 toneladas à vela, sem vento, à bolina, de noite.

Vai custar-me cara, tanta felicidade, de certeza. Ou então está paga, paguei-a adiantado.

Conselho

Não há pior marido do que um homem feliz e livre.