31.10.18

De ti

Se pudesse escrever-te um só palavra; se essa palavra pudesse ter uma letra apenas; se dessa letra só um traço me fosse permitido, esse traço seria eu, inteiro: parte de uma letra, de uma palavra, parte de ti.

30.10.18

Beleza

Nunca fui grande coisa a matemática mas sempre lhe apreciei a beleza. A resposta do senhor Jonathan Lang a esta pergunta explica em grande parte porquê.

O pior

O pior quando se chega a casa ao fim do dia não é pensar no que se fez; é pensar no que não se fez. Não há no mundo rum que chegue para diluir essa lembrança.

28.10.18

Resumo simplista

Resumo: o mar estava opaco e cinzento, fui a bordo e daí passear para a Tramontana, almocei em Banyalbufar num restaurante quente, bonito e desajeitado, bebi café e Hierbas noutro com vista para o dito mar, voltei para casa, comprei a coluna para o computador e vou adormecer a ouvir Steve Lacy.

Bolsonaro ganhou, mas só o soube agora, de modo não deu para estragar o dia. O camembert e o vinho sem sulfitos acabaram.

Viver é bom.

Vida?

Vi-te um dia nua no bosque e ouvi pela primeira vez falar de Maddy Prior num bar sórdido de Gibraltar.

Isto deve contar como "Vida", não?

Factor multiplicador

A solidão tem o estranho poder de dividir ou multiplicar por dois tudo o que se vê, tudo o que se vive.

Livros e outras coisas

Com o Outono veio a vontade de reler o Garden of Evening Mists, um dos melhores livros que li ultimamente.

Um livro é todos os livros, tal como uma mulher é todas as mulheres e um barco todos os barcos: falta-te um e faltam-te todos.

27.10.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 27-10-2018

Entrou o Outono pela porta dentro, trouxe com ele chuva, frio, vento e lembranças de França: Epoisses, Camembert, um bom Bourgogne sólido e sóbrio, rillettes de porco. Encontrei os queijos (mais Morbier). O Camembert e o Morbier estão prontos; o Epoisses vai ter de esperar.

........
Fui a bordo; está tudo calminho. O pior chega na segunda, parece. Seca. Esta porra deste tempo atrasa-me uma semana a pintura do mastro. Aquilo que mais falta me faz agora é atrasos, sem dúvida. Isso e um bom copo de ácido sulfúrico para curar a constipação.

........
Tempo de cama. Quando for para as Canárias dispenso-o, obrigado.

Populismo

Uma das grandes desvantagens dos políticos populistas, quando comparados aos profissionais, é não mentirem. Fazem o que dizem que vão fazer.

26.10.18

Não-vontades, não

Se fosse só falta de vontade seria tão bom... Mas não é. É falta de vontades, no plural. Não-vontades. Escolher o que não se quer fazer menos; ou seja, o que menos se quer não-fazer.

Hoje não-comprei as colunas, por exemplo. Não-saí depois de jantar (uma espécie de guisado de frango que não-ficou mau, por acaso mais do que por ciência). Não-li, não-escrevi. Agora vou não-dormir, amanhã trabalho-sim. Antes isso.

Talvez não-falar, simplesmente. Paralisado num bloco de silêncio, imóvel num pedaço de quartzo daquele usado nos relógios, rodeado de nãos-tracinho como focas refasteladas ao sol, não.

Não.

25.10.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 25-10-2018

Alguns acontecimentos sucedem-se; outros mantêm-se. A constipação continua, por exemplo. É daquelas que vai durar o inverno todo, está visto; ou pelo menos até ir para o mar. Aí não há uma que resista, desvanecem-se todas.

........
Comprei calças. Tem sido uma orgia de compras: t-shirts, sapatos, hoje três pares de calças. Têm cores diferentes, talvez isso lhes prolongue o tempo de vida útil. Este é o maior inconveniente desta forma de comprar roupa: acaba tudo ao mesmo tempo. Com cores diferentes é possível que a prática me leve a usar mais umas do que outras. Três pares duram pelo menos três anos, talvez quatro (depende das latitudes onde viva durante o período). Ultimamente fartei-me de promover roupa a trapos, daí este espalhanço de compras. Vá lá, foi rápido: não passei um quarto de hora na loja. Talvez um dia perceba a expressão "terapia de compras". Devia ser "tortura de compras".

.........
O mastro continua a ser pintado. É uma trabalheira porque decidi não tirar as ferragens: não quero provocar os demónios, eles dispensam-nas. O Ian está a dar boa conta do recado - gosta tanto de barcos como eu e do trabalho bem feito. A verdade é que o pau está a ficar lindo, muito mais do que esperava -.

........
A minha bicicleta Órbita Estoril Dois é uma merda. "Elástica", chama-lhe o gajo da loja onde reparo os furos e afino os travões e as mudanças. Mas há uma coisa de que gosto: conduzo direito, com o torso quase na vertical. É uma posição que favorece a observação e a condução pausada. O único inconveniente é que me distraio um bocadinho mais, com tudo o que vejo.

.........
O A. acabou finalmente por concordar comigo: a solução para o chão da casa de banho é levantá-lo um pouco. "Dez milímetros" disse-me hoje. "Nem se nota". Claro que não se nota, A. É o mais fraco de todos e o que requer mais atenção. Para falar com ele adopto una forma de maiêutica doce: começo por lhe perguntar porque não fazes {assim} (a solução que me parece indicada)? Depois sugiro mais duas ou três fáceis de refutar, sempre sob a forma de pergunta. Um dia digo-lhe "é pena que {assim} não funcione". No dia seguinte ou dois dias depois vem dizer-me "encontrei a solução ideal. Fazemos {assim}. Respondo "sim, super. Boa ideia" e acabo por ter a coisa como quero e bem feita, porque ele trabalha bem. Como há muito trabalho não se perde tempo - enquanto não faz uma coisa faz outra - e tenho um bom ambiente a bordo.

O que demonstra que cresci bastante: há vinte anos ter-lhe-ia dito "faz {assim}" e ao fim de uma semana ele ir-se-ia embora "de moto proprio". Não há em Andratx gente que chegue para brincar aos pequenos ditadores. Além de que na verdade ele trabalha bem, se for ele a encontrar as soluções. E eu não tenho feitio para isso.

.........
Ontem seria o aniversário da minha Mãe. Beijo, Mãe. Escrevo isto e oiço-te pensar (e dizer, nunca sofreste de mudez) "és igual ao teu pai". Quem me dera, Mãe. Quem me dera. Não sou. Ainda hoje o provei, uma vez mais. Que se lixe. Não perco o sono se o M. F. não gostar do e-mail que lhe enviei. A verdade é que hesitei bastante, isso chega para provar que aprendi qualquer coisa; e que não é só ao Pai que sou igual. É também a ti.

24.10.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 24-10-2018

Há muito tempo que não leio aquela frase tão frequente na blogocoisa: "get a life!" (nunca me foi dirigida, suponho que por distracção das pessoas que a utilizavam).

Como traduzir get a life? Arranja uma vida? Vai viver?  Prefiro esta: vai viver. Não sei se aquilo que faço conta como vida. De um ponto de vista biológico conta, claro.

Frase de ontem, ligeiramente retocada:

"I was planning to pass and say hello and all that. But some kind of signs make me believe that I am tired, too tired. Normally extra-sensorial signs do not make it to my will, but this time they are so real I can almost touch them. So I obey those stupid voices and lay down on my bed, hoping to find enough energy for a shower. ..." (Não encontrei energia para um duche. Ficou para hoje.)

Se alguém um dia me disser get a life responderei "Já encontrei. Amanhã".

........
Nenhum refit avança nunca à velocidade que nós queremos. Este nós é colectivo, abrangente, vasto: começa no armador e acaba no primeiro degrau da pirâmide. Há uma coisa qualquer nos barcos que os faz brincar ao gato e ao rato com o tempo, com a vontade das pessoas, com o calendário. Penso todos os dias no F., que me disse em Maio: "Isso vai custar x e não sais daqui antes de seis meses".  Mandei-o bugiar, disse-lhe que estava a sonhar com ladrões (ou a fazer-se ao trabalho). Tinha razão nas duas asserções (ele). É suíço e vive aqui há pelo menos três semanas, duas qualidades que têm um efeito contraditório em mim: ser suíço é bom, conhecer Mallorca desta forma não.

[Penso no lado positivo da malfadada previsão: estou dentro dos valores que ele me deu. Não me enganei muito.]

A verdade é que o meu amor por Mallorca entrou numa nova fase. Não acabou, longe disso: continuo a gostar desta ilha, da cidade, das estradas que quotidianamente percorro, da exaustão com que chego a casa e me pergunto se isto é uma vida (é). Mas porra!, se vejo o bote pronto e me apanho a saber se paro em la Linea ou se continuo nem acredito.

(Terei de parar antes, eu sei. Deixem-me sonhar).

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Comprei quatro defensas, novas, brancas como uma noite de paixão. Este fim-de-semana entra badanal e quero ter o urso preparado.

(O gajo da meteo deve pensar que não trabalho o suficiente durante a semana).

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Descubro com horror que me falta música. Amanhã vou comprar umas colunas para o computador. Devem ser as vigésimas. Qualquer dia juntam-se e fazem uma parada: "Get a loudspeaker!".

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Uma vez escrevi que amar África é como amar uma mulher feia (ou uma que nos engana, já não me lembro). Amar o que faço é como amar a mulher mais bonita do universo: impossível ver-lhe os defeitos.

23.10.18

Espelhos, outros

Raramente me olho ao espelho. A opinião dos outros não me interessa o suficiente para me infligir tal sacrifício.

O preço do frio

Gostar de frio é coisa de ricos. Nós, pobretanas sem eira nem beira preferimos o calor. Suponho que seja uma questão de preço.

Diálogos imaginários

- A única razão válida para se acreditar na reincarnação é esta indesmentível verdade de que uma vida não chega.
- Não chega? Vive-a até ao fim e ao fundo e vais ver se chega ou não.

21.10.18

Gracia, Vida

O bairro da Gracia em Barcelona é o meu bairro favorito desta cidade. Faz-me pensar no Keramikos de Atenas: o bairro dos locais, o bairro refúgio. Não sei qual é - ou qual será - o equivalente em Lisboa. Tão pouco me interessa. Talvez a Graça? Alcântara?

Não sei. Não estou em Lisboa. Estou em Barcelona, no bar La Trini. Venho do Salvatge, que só tem vinho. Este tem rum, Santa Teresa.

Santo rum. Santa Gracia. Santa Vida.

Restaurant La Trini
Carrer Verdi 30
Latrini30.com

Mar

Anoitece em Barcelona. Bebo um vermute caseiro, mais um (muitas casas tem o vermute, Deus o abençoe), agora numa esplanada barcelonesa, encafuada num quadradinho da cidade velha. Não está calor nem frio, a praça fica fora das rotas turísticas, a bicicleta que aluguei por dez euros languesce no respectivo estacionamento. Não trabalhou nem para metade do que paguei, felizarda.


Encontro com V. V., que só conhecia do Facebook. Encantador, poeta, viajante, jovem. Tudo o que não sou mas podia ter sido, não fosse esta imprevisível conjunção de mim e da vida ter-se intrometido entre mim e ela, a vida.


São horas de acabar o vermute e ir entregar a burra. Horas de acabar o dia e começar o próximo: avião, carro, Andratx, P.

Não é nada disso, P.

É Canarias. Las Palmas de Gran Canaria. Mar. 

Sem ti

O homem é preto como a noite sem trovões e sem lua. Sem ti.

Serviço público - bares Barcelona

Tasca El Corral
Carrer de la Mercé 17

(Gosto de sítios em que o empregado reclama porque acha a gorjeta grande de mais.

Não era. Uma tasca que me diz para pôr a bicicleta lá dentro porque não encontro sítio na rua para o cadeado não tem gorjetas demasiado grandes).

Além disso tem vermute caseiro esplêndido e chorizo a la sidra decente e é bonito.

Esquecimentos flutuantes

Nestas manhãs calmas, cálidas e ensolaradas quase me esqueço de não gostar de Barcelona. 

20.10.18

Espaço, palavras

Se neste espaço que nos separa fizeres uma estrada de palavras, eu percorrê-la-ei.

Caminho, carga

Vai o caminho longo e pesada a carga, dizes. Mas não fazes nada para abreviar um ou aligeirar o outro, seja por preguiça, inabilidade ou negligência.

Antes por falta de caminho e de carga: vais leve por essa estrada fora, guiado por estrelas invisíveis, atrás de cometas que só tu vês. Não te queixas: ninguém te ouviria.

A questão

A questão não é essa.

Ninguém põe em causa o desejo, ninguém duvida do seu poder devastador. A questão é saber de onde vem, como um tsunami nasce de um tremor de terra. Precisa o desejo de um terramoto? Sei lá, o amor? A solidão? Uma noite cálida de Outono? O teu olhar, a pele, essas coisas?

Não. O tempo e as palavras que lhe dão sentido. 

18.10.18

Perifrásico

Os portugueses gostam de perífrases. Preferem dar voltas ao penico a dizer as coisas directa e claramente. Somos um povo perifrásico.

Ou periférico, não sei.

Encontrou

Podia ser o fim de um dia como milhares de outros; mas não é. Sabe a fim de ciclo, como se a personagem do Amarcord em vez de gritar Voglio una donna gritasse Ho trovato. Um fim de ciclo bom, daqueles que abre portas, janelas, renova o ar, entra luz por todo o lado.

Que teria ele encontrado, pendurado na sua árvore? Pouco importa. Quem procura de verdade não sabe o que procura; sabe quando encontra, quando se apercebe de que a estrada que vinha percorrendo é isso mesmo: uma estrada. Não sabia o que era, não sabia sequer que aquilo tinha uma direcção, uma foz, como um rio de que os afluentes não se distinguissem do fluxo principal, rede de estradas sem hierarquias, estradas secundárias, caminhos, atalhos, auto-estradas, árvores grandes ou pequenas: tudo igual, tudo o mesmo valor.

O fim de um ciclo como um torniquete: entra por onde saiu. Vai à loja das tintas e pinta o mundo que aí vem. Arruma o puzzle na caixa e começa outro, maior e mais bonito, pintado de fresco. Escolhe a miúda mais bonita da sala e diz-lhe: encontrei.

17.10.18

Viver, cair

Não tenho onde cair morto mas tenho onde viver de pé, que é muito mais importante.

15.10.18

Diário de Bordos - Haría, Lanzarote, Canárias, Espanha, 15-10-2918

A ideia era ter um dia calmo e pensar. Na segunda parte tive bastante êxito. Pensei, repensei (e quase trespassei), cheguei a meia dúzia de pistas e tenho pelo menos uma direcção. Já a primeira foi mais ambígua. Primeiro, passei a manhã toda ao telefone com Mallorca; depois, resolvi meter-me no carro e perder-me pela ilha. Passei pertíssimo de alguns acidentes - se conduzir não pense - descobri que o carregador de telefone recém-comprado só deu para duas cargas e que as tomadas do quarto não aceitam a ficha do laptop. Fui carregar o telefone para uma tasca.

Ao menino, ao borracho e ao pensador põe Deus as mãos por baixo.

........
O quarto é lindo, calmo, grande, bem decorado. Há quanto tempo não durmo num sítio assim? Tenho andado a pensar que estou farto de aircoisos e afinal sai-me isto na rifa.

Vim para a ponta Norte da ilha: quero calma, paz e sossego. Infelizmente amanhã lá terei de voltar a Arrecife, mas enfim. Este fim de tarde e esta noite compensam tudo.

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É a mesma calma de Mértola. Não é ausência de barulho, é silêncio pela positiva, afirmativo, de dentro.

O lugar chama-se Haría, a casa Casa das Vistas, se por acaso alguém aqui vier de passagem.

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Dormir? Tenho sorte: consigo dormir em qualquer sítio, em qualquer circunstância.

Até no meio de um silêncio estrondoso como este 

Parceria, selvajaria

A quantidade de cicloturistas é impressionante. Um gajo não anda três quilómetros que não veja um grupo de senhores e senhoras em Lycra, montados em bicicletas mais leves do que o ar (pelo menos na aparência, claro).

Em Portugal seria impossível: a falta de civilidade dos nossos condutores mandaria metade para os hospitais

Excepto talvez se se fizer um produto combinado: cicloturismo e turismo médico. Aí sempre se rentabilizaria a boçalidade.

14.10.18

Diário de Bordos - Arrecife, Lanzarote, Canárias, Espanha, 14-10-2018

A chegada a Lanzarote foi pouco auspiciosa. Felizmente não sou supersticioso nem acredito em sinais do além. O automóvel que tinha reservado para chegada não estava: dois erros, dois, numa só reserva; a senhora da casa aircoiso fez-me esperar mais de uma hora, metade da qual na rua (a outra metade foi passada num café simpático a comer frango frito execrável e batatas fritas que num mundo justo levariam quem as fez à prisão).

As desventuras continuaram: passei a manhã a tentar reencontrar o automóvel, uma das pessoas a quem eu tinha de telefonar uma vez aqui não respondia, esqueci-me do carregador do telefone em Barcelona e por aí fora. As catástrofes - verdadeiras catástrofes, sublinho -  sucederam-se até que peguei, finalmente, no veículo e comecei uma volta pela ilha. Que é inquietante: no meio destes campos de lava um gajo pensa que as erupções foram ontem e nada garante que não voltem amanhã. À medida que o passeio vai progredindo e a paisagem se entranha a pergunta fica "como é que esta gente extrai comida desta terra? Desta secura, desta violência? Como será esta gente para lá da máscara de simpatia e hospitalidade?"

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O automóvel foi uma fonte de chatices mas creio tê-las resolvido todas, à terceira cola (Superglue, a quem possa interessar).

.........
Primeira nota: quem pensar que o serviço em Palma é mau devia vir a Lanzarote.  Segunda: pelo menos ninguém fala catalão. Terceira: de onde raio de carga de água vêm estes bangladeshis todos?  (Depois descubro que alguns são filipinos. Devem vir de muitos lados).

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Lembram-se daquela experiência que fazíamos no Liceu com limalha de ferro? Um gajo aproximava um íman e tudo aquilo se ordenava? Deve passar-se o mesmo com algumas vidas.

Pelo menos a minha, o que já não é mau.

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Pergunto-me como é que se consegue dizer que isto é trabalho sem se desatar numa gargalhada sem fim. Eu consigo: é trabalho. Abençoado, mas trabalho.

A pessoa certa

- Arranjei uma namorada. É médica.
- Hummm... Para ti não seria melhor uma veterinária?

11.10.18

Argumentário

O meu argumento para ser conservador não é "dantes é que era bom".

É: dantes já era suficientemente mau.

Carta aberta com súplica

Querido Deus,

Tu podias matar-me de uma vez. Não é preciso fazeres-me passar por esta tortura.

Não achas?

Obrigado.

L.

PS - Não precisas de matar-me. Adormecer-me profundamente até esta merda passar seria suficiente.


PPS - Não te esqueças de que amanhã tenho o avião para Lanzarote.

Diário de Bordos - Barcelona, Catalunha, Espanha, 11-10-2018

O post era para ser de ontem, mas uma constipação colossal adiou-o sine die. Apanhei-o em voo para parte incerta, num restaurante "mexicano" de Barcelona (mexicano vai entre aspas porque o cozinheiro deve ser esquimó).

Venho do salão náutico, provavelmente a coisa mais prática que já foi inventada para quem precisa de encontrar fornecedores, clientes, potenciais parceiros e - sobretudo - sentir as tendências, saber para onde vai o vento.  Ainda me lembro das excitações dos anos oitenta em torno do salão de Paris; mais tarde foi o Boot, em Düsseldorf. Tantos outros: Londres, Grand Pavois, Friedriechshafen...

Depois essa excitação desapareceu e ir a um salão náutico tornou-se uma seca, uma violação, passe o exagero: plástico e mais plástico, tudo muito brilhante; os senhores de blazer e as senhoras elegantes, gajos que do mar conhecem a cor nos dias de sol a falar, falar, falar... Tornei-me alérgico. O salão de Barcelona tem pelo menos a vantagem de se ter tornado uma coisa minúscula, desinteressante, "local" como me dizia há pouco o Samuel. Enfim, cumpriu a sua missão: encontrei quem tinha de encontrar (em parte; isto é pequeno); comprei duas peças de que precisava, poupando assim os quinze euros do transporte e vou para as Canárias a pensar que não perdi dois dias por uma unha negra (depois de cortada).

A seguir desaguei num restaurante Mexicano com os piores tacos Pastora que jamais comi na vida, incluindo os que me envenenaram no Cabo (esses pelo menos eram bons). Agora vou experimentar os frijoles puercos. A tequila é boa, valha-nos isso.

Barcelona é uma cidade fantasma. Ou de fantasmas?

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Vou afogar os vírus em tequila e em música pimba mexicana. Aposto que não sobrevivem. 

10.10.18

Serviço público - Bares, Barcelona

Can Paixano (o La Xampanyeria do Google é alcunha).

Carrer de la Reina Cristina, 7. Cava (bom) a 1.75, tapas (simples mas boas) a preços igualmente baixos.

Sempre cheio (pergunto-me porquê), mas o ambiente - pelo menos à tarde - é aceitável. À noite tem gente a mais. A pôr na lista daqueles sítios tradicionais que resistiram ao very typical.

A partir da segunda bebida é preciso comer; uma garrafa tem obrigatoriamente pelo menos duas tapas. Não sei quantas garrafas de cava vende o estacionamento por dia. Só no meu canto de bar o empregado abriu algumas quatro em menos de meia-hora.

(Uma sugestão da T. que perdurou).

9.10.18

Boa vida?

São duas da manhã e está na hora de dizer "foda-se", que é mais ou menos o equivalente de "boa noite". A razão é simples: amanhã é melhor do que hoje e pior do que depois de amanhã e convém despedirmo-nos dignamente de cada dia que passa.

Se formos a ver bem, "boa noite" é insuficiente.

Eufonias

É so a mim que "bar aberto" soa melhor do que "bar fechado"?

Combustíveis

A barmaid é magra, loira, calada e os óculos dão-lhe um ar intelectual. Ou pelo menos inteligente; nem sempre é o mesmo: saber falar é uma coisa, pensar outra. Olhem para mim.

Isto dito, é bom descobrir que há um bar aberto perto de casa quando os japoneses do sake estão fechados.

Um gajo precisa de combustíveis e já os chineses diziam que metade de uma viagem de cem li não são cinquenta li. São noventa.

8.10.18

Contradições e argolas no nariz

As empregadas de hoje no Moltabarra são todas maricas e usam argolas no nariz, como as vacas. A contradição é superficial, claro. Não passa da pele, das palavras.

Gosto delas: eficazes, simpáticas e feias. Quem não gosta de uma boa contradição?

A filosofia e os stocks

O Antiquari não tem mais Fernet-Branca. Vou ter de levar Popper a passear.

Consideranda filosóficas sobre a vida, o dinheiro e as ejaculações precoces

- Qual é o teu objectivo na vida?
- Um dia gostar mais de dinheiro do que da vida.
- Vais tarde, parece-me.
- Eu sei. A vida é uma ejaculação precoce permanente.

Abordagem popperiana do Fernet-Branca

Ando a testar a minha teoria sobre a quantidade de Fernet-Branca que se deve beber.

Era falsa. Agora trata-se de elaborar outra.

7.10.18

A vastidão da tua ausência

O dia acaba. Foi um vasto dia: passei-o na vastidão de uma cama sem ti.

Listas

Cinco razões para não andar com as calças pelo meio do cu; oito coisas que ignorava sobre as vantagens de beber cachaça ao pequeno-almoço; dez perigos de ler insanidades; quinze receitas de Coca-Cola com gelo e limão.

Os jornalistas deixaram de escrever. Elaboram listas.

6.10.18

Festa, pessoas

Todas as quotas estão preenchidas: gordos, pretos, artistas, vegetarianos, ricos e pobretanas (eu), cada categoria na proporção correcta. Deve haver um maricas ou duas, mas não os identifico.

E simpático. Celebramos o aniversário de S. em casa da ex-namorada (e se bem percebi dele também). A esmagadora maioria dos convidados são yachties; a preta gorda é filósofa (tem um curso de filosofia, não sei o que faz).

A expressão "preta gorda" (e brasileira, acrescente-se) é desagradável. A realidade é feia e descrevê-la literalmente torna-a mais feia ainda. Pior: as palavras não são inocentes. São filhas da puta. Torcem tudo o que descrevem, se nós não as torcemos antes.

A verdade é que a senhora é adorável, uma das minhas favoritas na festa. A artista chegou há pouco. É italiana e tem aquela beleza típica das italianas: uma coisa que transparece do interior, como se até os glóbulos vermelhos e as outras células fossem belos, como se a beleza não estivesse nas feições mas no que as sustém, como se a beleza fosse uma simples questão de tempo.

É.

Depois há a vista, fantástica; e o riso do S. Parece uma bola a saltitar, não pára, arranca em todas as direcções e enche o espaço todo.

É tentador classificar esta gente e é uma asneira: são pessoas, como eu. Capazes de mais do que eu: falar umas com as outras.

Diferenças

Um yachtie está para um marinheiro como uma cortesã para uma puta de rua. Fazem o mesmo, mas não é a mesma coisa.

4.10.18

Tempo, paz

Em caso de dúvida: é à beleza absoluta que me refiro. A beleza relativa não me interessa. Saber se A. é mais belo do que B. e este menos do que C. parece-me irrelevante.

Falo da beleza de um corpo, da fluidez de linhas. Muitos não sabem, mas o desejo escorre ao longo dos corpos como um líquido, um gás, um fluido. O desejo não é mais do que uma das formas da física: estás aqui, agora e eu quero-te. Estás aí, agora, eu quero-te mas o meu desejo adia-se porque a distância e o tempo são uma e a mesma coisa.

- O quê? Sem distância não existo?
- Sem tempo não existes. Deixa a distância em paz.

3.10.18

Ao contrário

Dizer "Amo-te muito" é igual a dizer "Amo-te pouco".  Amar não tem muito nem pouco.

É como morrer, ao contrário.

2.10.18

Quero dizer(-te).

"Nasci velha, sempre tive esta idade".

É curioso, eu sinto o contrário: nasci novo, sempre terei esta idade. A da vida, quero dizer.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-10-2018

Quem diz que Il Tano é a melhor pizzeria de Palma deve aferir a qualidade pelo tamanho e forma das mamas das empregadas, esquecendo a existência dos Wonderbra e similares, que levantam, recentram e basicamente lhes dão a forma que elas querem que tenham e não as que elas têm (e depois quando se tiram vem tudo por ali abaixo como um derrame de estupidez, mas isso é outra história).

Ou então comem pizze e não - como eu - lasagna medíocre.

E não bebem vinho Chianti a seis euros o copo.

Antes vir ao 7 Machos beber tequillas de sonho a cinco e cinquenta.

Talvez o sonho seja caro; a mediocridade é de certeza mais cara ainda.

..........
Cada vez que vou ao 7 Machos há um velho sozinho no canto a beber copos. Hoje, esse velho sou eu. É reconfortante saber que se faz parte de uma tribo, de um grupo, de uma classe sociológica, de um clã para quem as figuras da beleza nada são, se vierem acompanhadas.

Matinal

Minha palavra de mim: a mais bela de todas as palavras é para ti.

Energia, movimento

A principal energia motriz do mundo é a inércia.

1.10.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-10-2018

Está frio e é segunda-feira: o Moltabarra está vazio. Enfim, quase. É agradável, não aquela barulheira infernal dos fins-de-semana de Verão. Espero um dia ter um café, bar, qualquer coisa do género e deixar de gostar de bares vazios. Até lá continuarei a preferir sítios onde me oiço pensar.

Onde me ouviria pensar, se pensasse.

........
O P. avança a olhos vistos. O último grande projecto são os brandais. Motor, electrónica / electricidade, carpintaria e fibra está tudo a andar em movimento acelerado. Não se vê, mas eu sei: estas coisas começam subterrâneas, ou submarinas - é mais apropriado, se bem não goste muito do termo. O P. é para a superfície - e depois nascem de repente, como naquelas gravidezes que ninguém viu, ninguém se não a senhora sabia.

Qualquer dia um gajo acorda e dá por ele a fazer provisões para a largada.

........
O Moltabarra não tem televisão mas em contrapartida projecta na parede  uma imagem gigante. Paradoxalmente é menos agressivo do que a porcaria do aparelho, porque a imagem é mais terna. Agora estão a passar filmes de gajos a fazer macacadas em bicicletas. Não sei como se chama e interessa-me pouco. Pista de terra, piruetas, mortais, andam pelos ares como aviões; ou anjos, se os anjos forem todos jovens, bonitos e derem entrevistas depois das habilidades.

........
Concentro-me nos pintxos, nas senhoras da mesa ao lado, no polimento do casco amanhã e em não poder esquecer-me de pôr as bombas antes de ir para o mar.

Arranjei uma marina mais barata. Não tarda deixo Andratx, finalmente. Para quarta uma bomba ou duas chegam. Depois vou precisar do sistema no qual ando a pensar há não sei quanto tempo: quero ser capaz de fazer face aos primeiros momentos de uma entrada grande de água sem ser pela bomba manual, que é uma aldrabice: imobiliza um tripulante e esgota-o num ápice. Ou seja: um gajo fica com um par de braços e uma cabeça a menos quando mais precisa. A esmagadora maioria das embarcações actuais não está preparada para fazer face a uma grande entrada de água durante digamos quinze minutos. E a verdade é que não custa nada, se não planeamento, dinheiro, trabalho e peças, que é o que me falta.

........
O meu amor por Palma está a entrar numa nova fase.

........
Esta frio. Não tarda terei de usar mangas compridas e calças, como no Inverno passado.

Que horror. Este Inverno traumatizou-me. Nunca mais um igual ou sequer parecido. (Obrigado, J.)