30.4.14

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 30-04-2014

Nem com pena nem sem ela: os armadores desistiram da viagem e já não vou ao Equador.

É chato, mas não é uma tragédia: continuo a ter trabalho no T. e já tenho mais um cliente na lista - entre outras para fazer uma coisa de que gosto, dar aulas de vela - apareceu uma possibilidade de transporte para as Fidji (na qual acredito pouco, mas enfim) e há sempre o o line handling para quem atravessa o canal - ganha-se pouco mas é melhor do que nada -.

Continuo preocupado com as minhas coisas - o computador portátil, os binóculos do meu Pai - que ficaram no Catamaran e das quais não tenho noticias. A minha decisão de não voltar a  trabalhar para idiotas tem fundamentos sólidos.

Com a semana de trabalho que me espera poderei comprar um bilhete de avião para Palma. Não é mau - e confirma a minha previsão de um mês em Shelter Bay. Mais um mês. O elástico que esta marina parece amarrar às embarcações que por aqui passam serve também para marinheiros em seco.

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Não há nada mais bonito cedo que uma manobra bem feita; ou mais penoso do que ver um barco caro e bom nas mãos de um azelha. O Catana que acaba de chegar fez uma atracação linda, limpa, fluida. Duas pessoas a bordo e nem um grito, uma correria, uma hesitação. E o espaço é apertado.

Num barco não se grita, não se corre e não se salta. Como na vida.

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Gostava de ir às Fidji. Estou a  convencer o armador a deixar-me ir sozinho. Mas antes ele tem de convencer-se a dar-me o trabalho. Enfim, convencer-se de que quer o barco nas Fidji e não em Shelter Bay.

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Nada a fazer. Não fui feito para viver em marinas.

29.4.14

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 28-04-2014

Um pouco mais de oito horas de trabalho árduo, intenso, sem parar (excepto a pausa para o almoço, não sou americano); o dia termina no KARL. Quando eu cheguei a Shelter Bay pensei que ia ficar aqui um mês ou dois e detestei a ideia. Acabei por ficar duas semanas e tenho pena de não ficar mais.

É a melhor maneira de deixar um sítio: com pena.

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Não sei o que é viver mas sei o que é estar morto. A questão interessa-me pouco, na verdade. Viver é ter dias como os de hoje, morrer foi o ano que passou. Ser imortal não é não morrer. É ter vivido.

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O ETD está marcado para quarta-feira. Depois de amanhã. Ainda tenho uma eólica para montar, uma série de escotilhas para impermeabilizar, mudar óleo e filtros, preparar a navegação, aprovisionar (para mim, os armadores dizem que não comem no mar. Alimentam-se de Granola Bars.)

Não me posso queixar. Quem quereria uma  largada calma, se pode ter uma normal?

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Numa coisa gosto dos americanos: ao fim de cada dia de trabalho tenho o dinheiro na mão, sem perguntas nem hesitações.

Se um dia alguém me dissesse que ganharia dinheiro - tendo presente que isto não é bem ganhar dinheiro, é ganhar o dia, o vinho, a viagem para Palma, o rum anti-insónia - a fazer reparações eu diria Estás doido. A continuar assim, qualquer dia  vou cozinhar, ou fazer fotografias (bastaria ter uma cozinha, ou uma máquina fotográfica).

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A noite está deliciosamente cálida, sem vento, sem agitação. Não merece uma insónia.



Listas, vida

Por vezes penso que devia fazer uma lista das vezes em que quase morri. Quase sendo passar perto, muito perto. Foram muitas. Mas depois penso nas vezes em que quase vivi. - Não, nas vezes que vivi.

E a vontade passa-me. Celebrar a vida é melhor. Enfim: viver.

27.4.14

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 27-04-2014

Regresso a Shelter Bay:

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-
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- Em breve largo para La Libertad, Equador;

Resumindo: o fim-de-semana foi óptimo.

Regresso, paráfrase

Post feriara animal triste est. Esta coisa das tristezas post-coisas boas não cessará nunca de me fascinar (incluindo o parto, alargando tristeza).

Adenda: já alguém ouviu falar de uma tristeza post-prandial? Eu não...

Diário de Bordos - Cidade do Panamá, Panamá, 27-04-2014

Do Balboa Yacht Club vêem-se passar todos os navios do mundo, do mais banal ao mais estranho e específico.  O tráfico de Ro-Ro, essas estranhas garagens flutuantes é incessante. Ao todo, aproximadamente quatorze mil embarcações passam anualmente pelo Canal.

O qual contribui de forma significativa - mas não única, ao contrário do que muitos pensam - para a economia do Panamá. Infelizmente essa contribuição não se reflecte no imaginário dos panamianos. Fora do universo das empresas ligadas à navegação parece que o "atalho entre os mares" não existe. Poucas são as lojas, os restaurantes, hotéis, cocktails, pratos, peças de teatro com nomes ligados àquilo que foi uma das maiores realizações da humanidade em geral, do século. XIX e do Ocidente em particular (o Canal é uma obra do séc. XIX, apesar de ter sido inaugurado em 1914, faz em Agosto cem anos).

Na cidade há um museu dedicado ao Canal.

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Ser aceite num táxi em Panamá é um privilégio, uma honra, um favor pelo qual devemos dar graças ad eternum.A maioria das vezes o taxista não pára; quando o faz e ouve para onde vamos arranca sem o menor sinal de que ouviu o que lhe dissemos (há excepções: os mais polidos dizem não!, ou pelo menos acenam com a cabeça). Finalmente um pára, ouve para onde vamos, diz que sim, deixa-nos entrar e aí começa a segunda fase do processo: acordar uma tarifa. Há várias estratégias: não dizer nada e pagar a tarifa "normal" - é arriscado porque há várias tarifas "normais" mas por vezes funciona; combinar uma tarifa antes - ou seja, dizer ao (nem sempre) senhor que não somos daqui -; uma mistura dos dois (iniciar a conversa quando já se vai a meio do percurso) ou não fazer nada, pensar que se está farto de discutir com taxistas por causa de um dólar ou dois (no fim do dia são muitos dólares) e amaldiçoar o sistema de autocarros, a chuva, o Panamá em geral e os taxistas em especial, ir para casa e dormir.

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Estou de folga. Pus umas calças compridas, o pólo de sair à noite (um pólo roxo que começa a perder um bocadinho da sofisticada cor, apesar de ser quase novo) e fui perder-me pelo meu Panamá: a Cinta Costera e o Casco Antiguo. São os meus últimos passeios por aqui, um país onde acabei por passar quase um ano. Saio contente por sair, contente por ver que este ano chegou ao fim, contente por ir conhecer um sítio que não conheço, contente por ir para o mar.

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A funcionária do McDonalds limpa repetidamente o nariz ao colarinho da camisa. Deve estar constipada, coitada.

Táxi driverless

Espero ansioso a chegada dos carros sem condutor, e pergunto-me se não  seria possível começar pelos táxis.

Solidão ontológica, paternidade

Estamos sós, fundamentalmente sós? Sem dúvida. Até nascer o primeiro filho. Não há solidão que resista à paternidade (ou à maternidade, a fortiori).


(Para e da E., a quem eu poderia ter ensinado muitas coisas se ela não as soubesse já, ou não preferisse aprendê-las por si mesma.)

Esta coisa do 25 do coiso

Por muito que goste - e gosto - do resultado da "revolução" acho que o 25 de Abril não merece o investimento emocional que por aí foi. Uma reivindicação salarial, um regime a cair de podre e o  oportunismo eficaz do partido comunista português não me levam muito longe.

26.4.14

Diário de Bordos - Cidade do Panamá, Panamá, 26-04-2014

Pensa-se em Panamá e sonha-se com uma cidade entre dois mares, dois continentes, dois hemisférios, duas culturas(muitas mais, na verdade - a construção do Canal deixou traços); vive-se em Panamá e pensa-se que se está num pesadelo de tráfico, má-educação, péssimo serviço (quando o há), sujidade, ausência de passeios, chuva permanente.

Panamá é um sonho e um pesadelo, com nada no meio.

Passeio pelo Casco Antiguo, onde a cidade renasceu 1673 de um ataque de piratas (Henri Morgan). Uma espécie de Bairro Alto com metade das casas ainda a cair e a outra metade refeita, linda, vibrante. Restaurantes modernos, cosmopolitas, bonitos à porta dos quais uma senhora vende cigarros à unidade. Apartamentos horríveis, pequenos, sujos, atravancados, de portas abertas para a rua com toda a família a ver televisão ou a jantar à vista dos passantes ao lado de um prédio acabado de ser reabilitado, e cujas rendas serão provavelmente mais elevadas do que o rendimento anual das pessoas todas da rua.

A mistura dos estilos arquitectónicos é vertiginosa: espanhol, inglês, francês, art nouveau, americano; igrejas, o palácio presidencial (o qual fecha todo um quarteirão, ou se é presidente ou não se é nada).

Do mar, a cidade vai crescendo em altura para leste: no Casco Antiguo os prédios têm dois ou três andares, na Punta Paitilla trinta ou quarenta (mas a maioria dos apartamentos tem as luzes apagadas à noite. São investimentos, não casas).

25.4.14

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 24-04-2014 (cont.)

A falta de água continua. Os prognósticos para o restabelecimento da normalidade, como diriam as autoridades, variam entre hoje à noite e sábado. Confesso que pouco me importa: enquanto puder tomar o duche matinal e o vespertino tanto se me dá como se me deu. A água que venha quando quiser: eu estou em modo largada.

Amanhã instalo a eólica, sábado vou para Panamá, domingo volto, segunda acabo o motor com P. e a partir daí podemos largar quando deus (que aqui é representado pela Autoridade do Canal do Panamá) quiser.

O Equador atrai-me há muitos anos, demasiados para me chatear com uma meia falta de água.

........
Num país que conheço mal e de que gosto muito celebra-se amanhã uma revolução. As entidades falam - fala-se muito, nesse país -, os artistas artem, os poetas poetam, os opinadores opinam (alguns, forçoso é reconhecer, bem).

Não posso dizer estou-me nas tintas porque as tintas têm presentemente um impacto importante no meu quotidiano: continuamos sem poder usar o lava-loiças por causa da tinta. Mas tudo aquilo (artistas, opinadores, poetas e quejandos) parece um bocadinho irrelevante, visto de longe. Quarenta anos é muito ano, caraças.

E quatro mil milhas muita milha.

E o país pequeno, pequeno. Adorável mas pequeno; cheio de medos e respeitos e vénias e voceses e doutores engenheiros e coisas que vistas de longe parecem pessoas e ouvidas parecem vermes.

Estou cheio de vontade de ir a Portugal passar duas semanas: uma em Lisboa outra em Mértola, com uma paragem em Évora para ver um amigo. O país é pequeno, tem que se lhe ajustar as vontades.

E o Chile tão perto do Equador... E no fim do Chile a Patagónia. E o Mediterrâneo... E no fundo do Equador o Amazonas... Portugal só me habita o coração, não o sonho.

Os noventa dólares com que saí de Bocas estão longe e o resto do mundo perto.

........
Durante alguns anos, por razões de força maior, pensei bastante na minha idade. Agora voltei ao statu quo ante: o que sou interessa-me muito mais do que o que fui, e serei.

E interessa-me bem pouco o que sou: basta-me ser o que sou.

24.4.14

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 24-04-2014

Afinal a falta de água foi muito relativa. Isto é: que não há água na marina não há; mas as casas de banho "reservadas a hóspedes do hotel e a iatistas" essas funcionam como se nada fosse: o hotel tem tanques.

Masmuita gente não conhece essas casas de banho, e a água da piscina ficou de facto um bocadinho menos transparente.

Espera-se que a água volte hoje: "o Canal está parado [isto é, as obras de ampliação do canal]" diz-me um dos responsáveis da marina com ar entendido.

Espero que os responsáveis do Canal o oiçam e partilhem a sua opinião: lavar a loiça tem sido uma seca, literalmente: com o KARL em fase de pinturas não podemos usar o lava-loiças, e temos de enchar garrafões para os levar para baixo. Paradoxal - normalmente a água vai da marina para bordo, não ao contrário - e cansativo.

(Cont.)

23.4.14

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 23-04-2014

Não há água na marina de Shelter Bay. Um deslizamento de terras nos trabalhos de ampliação do canal deu cabo das tubagens, ao que parece.

A marina diz que vamos passar um dia sem água, pelo que eu suponho venham a ser vários. Descobrir como viver sem duches, loiça lavada (e sem casa de banho, no caso do KARL e do meu - descobri hoje, a posteriori, que no trimaran a retrete não está instalada...) num lugar onde a humidade média ronda os 90% e a temperatura trinta graus vai ser interessante.

E a trabalhar arduamente, qui plus est.

Algo me diz que a piscina vai estar muito cheia, estes dias.

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Uma semana em Lisboa far-me-ia mais bem do que mal.

.......
Não é impossível que daqui a três ou quatro meses tenha de ir para o México supervisionar um refit. Dois meses, pelo menos. Algo me diz que este ano vai ser muito melhor do que o que passou.

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 22-04-2014 (cont.)

Dizer que o jantar ficou bom é um exagero, ou pelo menos dar crédito à generosidade dos comensais. Digamos que ficou agradável, comestível, prometedor: um dia reproduzi-lo-ei numa cozinha a sério.

Por cozinha a sério entendo água corrente, utensílios eléctricos, uma panela, um fogão onde caiba mais do que uma frigideira (grande) de cada vez, espaço para cortar os ingredientes, iluminação que não me obrigue a usar aquelas estúpidas lanternas que se põem na cabeça, um frigorífico e mais meia dúzia de coisas que alguns barcos têm - basta serem maiores do que o adorável KARL, não estarem em seco e em fase de pintura do casco -.

Enfim, a sopa fria de pera-abacate foi uma imagem aproximada do que pode ser. Esmagada à mão apera-abacate deu o que podia. A improvisação também, mas vale a pena registá-la aqui, para futuras referências.

Comecei por saltear as batatas. Tirei-as da frigideira e salteei a carne (costeletas de porco, cortada aos bocadinhos pequeninos porque só havia três costeletas e éramos quatro). Seguiu-se-lhe a cebola e os pimentos, cortadinhos finos.

Déglacé le fonds de la poêle com vinho branco; misturei tudo, polvilhei de paprika e cominhos, levei a lume forte e pouco antes de ir para a mesa juntei o vinho da déglaçage, deixei evaporar.

Agora imaginem isto com a carne de porco marinada em vinho branco, alho e paprika... Enfim, imaginem isto feito numa cozinha.

Não ficará tão bom, porque a cozinha improvisada é uma coisa e a cozinha a sério outra, e de qualquer forma um jantar é muito mais do que a comida. Eu gosto desta. E da outra, verdade seja dita. Gosto de todas.

22.4.14

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 22-04-2014 (cont.)

Após uma agradável conversa de aproximadamente trinta segundos estou oficialmente contratado para ir ao Equador num ketch de 54'. Esta sequência de dias que acabam tão bem como começaram é quase assustadora.

Para celebrar o jantar vai ser:
- Sopa fria de pera-abacate;
- Improvisação com carne de porco, cebola, pimentos e o mais que vier à mão;
- Cerveja, vinho e rum à discrição.
(Não há sobremesa, as minhas desculpas).

Estão todos convidados. E não precisam de trazer champagne: esse fica reservado para quando o KARL for para a água.

(Cont.)

21.4.14

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 22-04-2014

Hoje fiz gazeta à tarde. Foi o meu domingo.

Vou mudar de casa, tenho (tinha) roupa para levar para a lavandaria e - sobretudo - apetecia-me parar um bocadinho.

Está feito. Quase: ainda tenho de levar o saco para o trimaran de R., o dono da Marina, onde vou dormir a troco de "algumas horas" (quantas?) de trabalho. Em Shelter Pay é importante especificar estas coisas logo desde o início, mas E. estava de saída e tem de ficar para amanhã.

Já sei o que me espera: averiguar porque é que uma das eólicas de um cata não funciona e fazer propostas para uma instalação eléctrica num Bénéteau. Enfim, deve ser um bocadinho mais complicado do que isto, mas para começar não está mal.

No T. o trabalho avança ao ritmo do costume: um passo para a frente, dois para o lado e três para trás. Hoje levei P., um excelente electricista a bordo e a primeira coisa que me disse é que tenho de limpar os terminais das baterias. Por mim gosto, claro: quanto mais trabalho mais perto estou de Palma. Mas limpar terminais de baterias é um trabalho digamos aborrecido, para não dizer pior.

Hoje vi os preços dos bilhetes de avião de Quito para Madrid e tive uma boa surpresa: são mais baratos do que de Cartagena. Vão provavelmente mudar até lá, mas que se lixe: a minha cabeça está incapacitada de produzir um único pensamento negativo e vou tentar mantê-la assim. Até a porra dos terminais das baterias me enchem de prazer e alegria. A vida é a melhor droga do mundo, a mais eficaz e variada. Até quando é má é boa.

Futebol, emoções et al.

Não percebo nada de futebol e confesso sem vergonha nenhuma que não quero perceber. Mas acho espantoso que o resultado de um jogo (ou campeonato, vá, que de qualquer forma se não me engano pouco mais é do que um conjunto de jogos) reúna mais gente na rua do que a incapacidade do governo de fazer reformas estruturais. Por exemplo.

Enfim, é uma fonte de emoções.

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 20-04-2014

Para se trabalhar em manutenção e reparação de veleiros o ideal é ter-se geometria variável, como alguns aviões: ser-se ora pequeno ora grande, leve, pesado, flexível ou obstinado. A única qualidade sempre necessária é a agilidade.

Por exemplo: agilidade de gazela num corpo de elefante funciona; agilidade de elefante num corpo de gazela não.

Não tenho o corpo da gazela, não sou ágil (apesar de haver pessoas que pensam que o sou) e, pior, não gosto particularmente de fazer manutenção e reparações em veleiros, sejam eles meus ou de terceiros.

Não é portanto difícil de perceber porque chego ao fim de um dia de trabalho tão cansado e tão feliz: apesar de todos os handicaps os dias correm bem, rápidos, ligeiros. E acabam mal começam.

Até a lua anda depressa. Ontem estava cheia, hoje estamos a dois dias do quarto minguante.

........
Flexibilidade - programa de hoje:

1 - Acabar a instalação de uma bomba de fundo manual. Está num armário no qual só consigo pôr um braço de cada vez. Para pôr os tubos - era o que faltava fazer - consegui enfiar os dois braços e uma lanterna lá dentro. E teflon e apertar as abraçadeiras e fazer uma emenda porque um dos tubos era demasiado pequeno (o anterior armador do T. era americano, mas devia ter sangue francês: é tudo ao desenrasca).

2 - Instalar um piloto automático de reserva. É relativamente fácil, mas depois dos tubos o meu cérebro recusou-se a funcionar, pelo que o trabalho se arrastou e arrastou e arrastou; até que à tarde chegou a vez de passar os cabos eléctricos. Mais uma qualidade necessária: ter visão de raios-X. Ou pelo menos não ser míope, não ter os óculos cobertos de suor e lembrar-me de que a porcaria que cai nos olhos vinda da coluna do leme sairá facilmente (pensar em Antigua, quando me magoei seriamente num olho e dois dias depois estava bom - "os olhos são os orgãos que se curam mais depressa. Expulsam tudo o que lhes é estranho num instante", disse-me R.)

3 - Colocar a porta de visita num tanque de água. Oito parafusos. Levei uma hora: meia para os primeiros seis, meia para os dois últimos. Mãos pequenas e dedos de pianista; ou vampiro. Ou dedos magnéticos (se bem com aço inox não sei para que serviria o magnetismo, mas enfim. Isso é outra história).

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A dor de dentes desapareceu quase por completo. Não sou religioso, mas a água oxigenada devia fazer parte de um panteão qualquer. Se calhar faz e eu não sei.

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Os armadores propuseram-me ir com eles para o Equador. Tenho a impressão de que vou aceitar, apesar de eles não me poderem pagar um salário normal. Nunca estive no Equador, e com um bocado de sorte farei massa suficiente para ir para o Mediterrâneo depois. E já me estão a falar em supervisionar o refit no México.

O México é um país que me atrai há muito tempo. E ainda há quem diga que eu sou instável.

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Os dias acabam sempre da mesma forma: um duche, umas cervejas no KARL ou no bar da Marina, meia dúzia de dedos de conversa com a Nike ou com o T., por vezes um mergulho na piscina. A fatiga desce para os pés, lenta mas sensivelmente. E depois sai, desaparece, evapora-se. Não a vejo mais até ao dia seguinte.

Gosto de sentir o cansaço mover-se pelo corpo muito mais depressa do que entrou, expulso pela cerveja e pelo prazer.

19.4.14

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 19-04-2014 (Cont.)

De maneira agora faço reparações e manutenção num ketch de 50 pés que tem um nome bizarro e pertence a B., jovem e sorridente jogador profissional de poker. B. tem uma daquelas faces que torna quase impossível adivinhar-se-lhe a idade. Suponho que ande à volta dos trinta anos, e queixa-se de que desde que comprou oT. não consegue trabalhar, porque "o barco é um trabalho em si mesmo". Viaja com o irmão, C., mais novo e igualmente sorridente. Estão muito contentes com o meu trabalho, pelo que a cada dia tenho mais. E já me falaram em fazer uma etapa com eles - depois de atravessarem o Canal vão para o Equador e daí sobem até ao México.

O casco é em sandwich de balsa e tem pelo menos uma entrada de água. Disse-lhes que deviam vigiar atentamente aquela área e estou bastante tentado a discutir a proposta de navegação. Nunca estive no Equador, mas sei que é bonito. E gosto de navegar no Pacífico. E já sei que não vou para o Brasil. E o rapaz está longe de ser um idiota.

A ver vamos.

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Vim a Colon fazer compras. Entro num verdadeiro supermercado (um bocadinho diferente dos padrões europeus, mas grande e com bastantes referências) e lembro-me do fascínio da minha Mãe pelos supermercados quando ia à Suíça visitar-me.

Naquela altura ria-me; agora compreendo-a: uma hora num supermercado vale muitos tratados de sociologia ou relatórios da CIA sobre um país.

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Se alguém um dia me tivesse dito que poderia ser feliz em Shelter Bay eu ter-lhe-ia respondido que só louco. É mentira: a felicidade é onde um homem quer. Ou pode.

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 19-04-2014

Saí de Bocas com noventa dólares no bolso e uma firme, declarada e explícita decisão de nunca mais trabalhar para idiotas. Se tenho de trabalhar para idiotas mais vale trabalhar para mim. Convivemos melhor com a nossa idiotice do que com a alheia, talvez por a conhecermos há mais tempo.

A viagem para Shelter Bay foi chata: vinte e duas horas de motor sem piloto automático; e longa: estava ansioso por chegar, ver a Nike, extirpar este horrível ano de mim.

Chegámos às duas da tarde; às cinco tinha encontrado um trabalho. Vinte dólares à hora, apesar de ter pedido quinze. Nunca saberei ganhar dinheiro como sei gastá-lo. E quando saísse do R. viria para bordo do KARL, uma embarcação da qual posso dizer o nome porque em breve ela e a sua armadora, Nike, terão um post.

Estou a dormir no KARL, a trabalhar no T. por mais três ou quatro dias; saí do esgoto, de uma vez por todas - ou seja, até à próxima, que desejo esteja longe.

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W. tem um rabo-de-cavalo (mais a cair para o rabicho, de tão pequenno), uma papada que lhe faz do pescoço uma diagonal quase paralela ao dito rabicho e um nariz oblíquo e proeminente. Visto de lado a sua face parece um losango; de frente também.

Não simpatizamos um com o outro. Estou-lhe grato por me ter dado o trabalho em Bocas e pela boleia, e contente por não ter de o ver nem ouvir mais.

É um veterano da guerra do Vietnam e em L. - outro veterano, mas este piloto de helicópteros ("duas comissões, a segunda voluntária") - encontrou um parceiro ideal. Eu tenho pouca paciência para as conversas deles, tão pouca como eles para as minhas. Ou para o meu silêncio, mais provavelmente.

A verdade é que tenho pouca paciência para conversas de veteranos, sejam eles da guerra, do humanitário, da enfermagem ou dos moinhos de vento.

(Cont.)


14.4.14

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 14/04/2014

Regresso do Palmar com uma luz de quase lua cheia. A selva é tão verde que o luar é esverdeado. Tudo - as sombras como as partes iluminadas - está em tons de verde.

Penso que até a escuridão é verde, quando não há lua; mas não é verdade: é negra como a estupidez.

.........
O atalho entre o Palmar e o detestável Kaiukos atravessa a floresta. É escorregadio - mais ou menos em função da cerveja de hoje e da chuva de ontem - mas lindo. A luz aparece filtrada pelas inúmeras camadas de todos os tipos de vegetação; ouve-se a vida (e vê-se) a cada passo.

Faço-o frequentemente, de dia ou de noite. É como o trajecto de panga entre a marina e Bocas: cada vez pelo menos tão lindo e fascinante como todas as outras; e muitas vezes mais.

La nuit

O meu primeiro texto em francês (enfim, publicado), aqui (Parfum de disparition à Barcelone).

13.4.14

Midas e mirdas

Uns transformam em ouro tudo o que tocam. São os Midas. Outros transformam-se em merda quando tocam ouro. São os Mirdas.

8.4.14

Diário de Bordos - Palmar Tent Lodge, Bocas del Toro, Panamá, 07-04-2014

- O teu dia foi bom? - pergunta-me J. no Palmar.
- Qualquer dia que termina aqui é bom - respondo.


3.4.14

Sono, solidões

O sol já está no hemisfério norte, as noites chegam cada vez mais tarde. Pouco, mas sensivelmente. É bom: só gosto de solidões diurnas. As nocturnas dão-me sono.

Renascimento

Sinto-me como se estivesse a emergir de um submundo. Como se estivesse a sair da caverna de Platão.

(Não gosto de Platão, mas isso é outra história).

2.4.14

Diário de Bordos - Bocas Town, Bocas del Toro, Panamá, 02-04-2014

Daqui a duas ou três horas o sol põe-se. A luz começa a ficar mais densa, como se adivinhasse que em breve terá de atravessar os cumulus que estratificam no horizonte.

Estou na Casa Verde, a dois metros da água e pergunto-me como será quando deixar de viver na água. Dois metros nesta luz, neste fim de dia vazio, leve, feliz - o primeiro em muito tempo -. Não sei como será viver perto da água e não na água, mas amanhã não é a véspera desse dia e deixo de me preocupar com o assunto.

Vivo hoje. E hoje é esta luz que se densifica, esta água que a recebe como a mulher cujo sonho é apaixonar-se espera pelo amante, esta solidão linda, espessa e assumida como a luz, esta paisagem enganadora na qual as ilhas parecem longínquas porque envoltas em bruma e calor e na verdade estão aqui ao lado, a poucas milhas.

As cores vão do preto das bóias (são câmaras-de-ar de camiões) ao branco e azul da panga atracada nesta água transparente, tão clara que está no ar, como um zeppelin formoso.

Branca e azul.
Branca e azul e luz.
Branca e azul e luz e eu.
Vida.

A loucura deve ser isto: pensar que uma mistura de cores, luz, água, solidão, beleza e felicidade é uma vida. Ou a sageza. Ou a vida, no fundo; e tudo isto não passa de uma imensa tautologia: a vida é a vida.

Pangas. Podemos aferir-lhes a eficácia do risco pela esteira: quanto menor melhor é. Será uma metáfora?

Luz, calor, cumulus que pouco a pouco estratificam, água transparente, Bertolt Brecht, Kurt Weil e Doors, pangas, Grécia... Sei que alguma coisa não bate certo quando, mais do que de uma pessoa, sinto a falta de uma máquina fotográfica.

I tell you we must live. You know why.

Solidão, felicidade

Por vezes escrevo solidão, outras felicidade. Não são sinónimos, mas parecem.

Modernidade

Não se vê uma mulher com menos de sessenta anos sem soutien. Pior ainda, as miúdas deixaram de o considerar uma peça de roupa interior.

À falta de generosidade juntam a falta de gosto.

Estupidez, ingenuidade

A ingenuidade é confrangedora, mesmo quando acompanha uma estupidez monumental.

Erros, qualidades

Gostar de alguém é gostar dos seus defeitos e dos seus erros; o que é diferente de detestar as suas qualidades.

Paradoxo

Vemos melhor quando vemos com outros olhos; mas vemo-nos muito mal quando nos vemos com os olhos dos outros.

Gravidade, felicidade

Leveza e felicidade andam sempre juntas. Não há felicidades pesadas.

A gravidade é uma infelicidade?

Diário de Bordos - Bocas Town, Bocas del Toro, Panamá, 02-04-2014

Pouco a pouco a vida volta ao normal. A normalidade é o melhor dos milagres.

1.4.14

Diário de Bordos - Bocas Town, Bocas del Toro, Panamá, 01-04-2014

Aliviado de um peso enorme, continuo tranquilamente o caminho que me fixei: trabalhar em projectos rentáveis, com pessoas normais, em barcos decentes. Decisão tardia, bem sei: devia tê-la tomado há trinta anos, ou coisa que o valha. Mas mais vale tarde que nunca; e há males que vêm por bem. A minha galeria de tipos humanos enriqueceu-se extraordinariamente este último ano.

Conheci N. S., que em breve terá um post especialmente dedicado (se bem mereça muito mais do que um post, e muito mais do que o Don Vivo, coitada). E conheci M., o armador das embarcações às quais dediquei a maior parte do útltimo ano.

M. é uma cabeça de dezassete anos num corpo de cinquenta. Seria invejável, claro, se a mente fosse um bocadinho mais velha. Mas dezassete anos é uma idade ingrata, difícil mesmo quando o corpo a mostra. Caso contrário torna-se desconfortável, se não para o próprio pelo menos para quem com ele lida.

Durante algum tempo pensei que seria, pelo menos, um adolescente inteligente que teve o azar de crescer muito por fora e pouco por dentro. Depois revi essa ideia. É um adolescente medianamente esperto, com pouca sorte na lotaria genética (ainda escolheu o mau ângulo para me chatear).

Chatice essa à qual reconheço uma virtude, uma atenuante, quase um anestesiante: já não tenho o H.S.

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Tem chovido pouco, e Bocas sem chuva é um dos lugares mais lindos que conheço. Trabalho num dos barcos da marina, um trabalho ligeiro e agradável. Em breve terei outro trabalho, a dar aulas de vela a dois compradores de um First que lá está e parecem ser bastante simpáticos - pelo menos pagam-me um salário normal, coisa que há muito não tenho.

Poderei, finalmente, ir ao dentista.

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As ONG são um mercado extremamente agradável para quem as organiza. A grande maioria delas tem como beneficiários os seus donos e gestores. Reconheço-lhes as vantagens, mas continuo a achar abjecto usar as desgraças alheias para benefício próprio.

Apesar disso são uma boa escolha quando não se consegue fazer dinheiro de outra forma. Com a vantagem de que não se engana ninguém: quem as financia sabe perfeitamente o que está a fazer.

E se não sabe devia saber.