30.11.17

Em defesa de nós

O português está a ser agredido por todos os lados: ele é o AO90, os anglicismos, os brasileirismos, a falta de leitura, a ignorância. Acabo de ler num jornal - enfim, não é bem um jornal, é o jornal - "coloque um termo à vida".

Bolas, há limites, Acho que precisamos não só de um grupo contra o AO90, mas de um grupo pró-língua portuguesa. Uma defesa de nós. Da nossa língua materna. Do que somos.

Infelizmente o jornal está a ficar cada vez mais como os outros. Não escrevesse Alberto Gonçalves lá e ia pelo caminho do Público e do DN.

Definição - Luxo

Luxo é vir tomar o pequeno-almoço a uma padaria que tem dois painéis de azulejos lindos, alusivos - um representa a ceifa outro uma antiga padaria em laboração -, balcão de mármore, paredes de azulejos brancos com um friso azul elaborado, delicado e um LP dos Smiths a tocar num daqueles gira-discos Philips portáteis pelos quais estávamos prontos a matar quando tínhamos dezasseis anos.

Sono

O sono chega, finalmente. Descubro com prazer o prazer que dormir é. Não por ser o fim de um dia, mas o princípio de outro: dormir é o amanhã a chegar, a instalar-se confortavelmente em mim, a agradecer-me a porta que lhe abro. 

Viver-te

É de ti que falo quando falo da vida. Isto é, daquele conjunto de coisas dispersas às quais chamamos vida: um pôr-do-Sol, um miúdo que faz os trabalhos de casa, um cocktail decente num bar inesperado, um aquecedor potente numa noite gélida. Tu és parte dessas coisas todas, és essas coisas todas, estás nelas como a vida em ti e em mim o desejo de viver.

Dir-me-ás que simplifico demasiado, que há tanta vida num aquecedor cujo sistema de segurança decifrei como num bombom de chocolate e mel: pouca, longínqua e irrelevante. Eu ouvirei, direi que sim tranquilamente, como quem respira num jardim ao fim da tarde. De vida sei mais do que tu jamais saberás. Viver-te é mais fácil do que viver.

Diálogos possíveis

- A sua linguagem corporal diz-me o contrário de tudo o que você me tem dito sobre si.
- É que eu não minto só com quantos dentes tenho. Minto com o corpo todo.
- Os corpos não sabem mentir.
- Claro que sabem. Olhe para mim: não lhe parece que estou vivo?  

29.11.17

Quase - II

Quase pele, quase visível no horizonte. Estendo o braço. Volta com uma fruta, talvez uma maçã, uma pera, um dióspiro. "Meu fruto de morder, todas as horas" é o título mais bonito que conheço, categoria livros de poesia nos quais se pensa tarde na noite. "O sumo do fruto coagula nas mãos". Não tenho os meus livros, faltam-me tanto como a metade de dia que não vivi, a metade da vida que me espera pela metade, o quase que falta para completar o quase.

"Todos os meus livros tiveram um carácter de urgência", disse Al Berto pouco antes de morrer.

Vou dormir, descansado nesta urgência que partilho inteira.

Quase inteira.

Quase

Ideias vagas, pouco claras, difusas, como fotografias desfocadas. Chuva, mas pouca; frio; vou a pé, não me apetece levar a bicicleta para tão perto; na Portugália já se comeu bem, mas foi há séculos; já esteve pior, verdade seja dita; vou ao bar do hostel de que A. me falou recentemente e onde estive com ela; descubro que têm Alexander; D., a miúda que trabalha no hostel vem ter comigo; é gira e simpática. O Alexander está entre o medíocre mais e o suficiente menos. Decido-me por este último. Suficiente menos. Têm vários runs, Plantation. Bebo um shot, pergunto-me que amamos quando amamos? Amo mamas mas não são mamas o que amo; e ventres, olhos. Cabelos. Amo tudo, mas o que amo não está nesse tudo que vejo e que por vezes me acontece beijar, tocar, amar. Hoje fui a uma entrevista para um trabalho. Ontem fui a outra. Nada disto encaixa em nada disto: puzzles diferentes cujas peças se misturaram. Chove. Amanhã talvez haja nevoeiro no Tejo, talvez o meu levante. Gosto de conversar com a D., penso na chuva, no frio, nas fotografias desfocadas, na dor no cotovelo que quase desapareceu,  quase não o sinto, quase o esqueço, quase. Talvez seja este o termo que procuro: quase. No outro dia escrevi que quase e meio são sinónimos, a partir e uma certa idade: meio dia; meia vida.

Meio amor. Apaixonar-se e ser correspondido, como naquelas fotografias turísticas, banais, chatas do sol sobre a relva verde ou o mar azul, uma rua "very typical". Indeed. Um supremo amor, no saxofone do outro: ser amado pela pessoa que nos ama.

Ser meio-amado pela pessoa que se meio-ama. Meio-viver a meia-vida. Meias perguntas: o quê? em vez de porquê?, por exemplo.

(Por isso gosto de estar com jovens: mais perguntas e menos explicações.)

Meio corpo, meia noite, quase um dia - que se recompõe agora, em palavras vagas, difusas, desfocadas -. Quase uma vida, quase feliz.

Quase te amo; quando me amares amar-te-ei completamente. Quase te vivo, quase te toco e te olho e te digo.

Quase.

........
(Por isso gosto tanto das cidades. No campo não há quase).

26.11.17

Azar, vontade, sorte

Não ter dinheiro é uma coisa; não ter dinheiro é outra, completamente diferente. Eu por agora não tenho dinheiro, por exemplo. Em contrapartida tenho sorte. Não tenho dinheiro mas tenho sorte, coisa que muitos considerariam um azar e eu não. Isto é: não ter dinheiro é diferente de não ter sorte e ter azar mais diferente ainda. A diferença reside na vontade: não tenho dinheiro apesar de poder tê-lo e tenho sorte porque quero.

Enfim, não é bem vontade: é mais uma questão de azar. Não tenho sorte nem quando quero nem quando devia tê-la. Só quando ela quer, o que é azar.

Dissonância cognitiva desconcertante

Um bom exemplo de dissonância cognitiva: todos os automóveis que buzinam quando vêem um ciclista em sentido contrário ou a passar um sinal encarnado ou uma passadeira sem desmontar param quando os semáforos ficam cor-de-laranja? Não estacionam em cima do passeio nem em segunda fila? Respeitam os limites de velocidade? Põem o pisca-pisca sempre que vão mudar de faixa ou virar para outra rua?

É que a quantidade de carros que vejo a fazer tudo isto simultaneamente é desconcertante.

Diálogos: sinónimos

Oiça, vou dizer-lhe uma coisa, mas você promete não dizer a ninguém. Prometido? Então cá vai: a minha meia-namorada é a mulher do patrão. O que é isso o quê? Uma meia-namorada ou uma mulher do patrão? Ah, meia-namorada? Há várias fórmulas: ou alguém que amamos e não fodemos, alguém que fodemos e não amamos, alguém que quase amamos e quase fodemos. Quase e meia não são sinónimos? Viva meia dúzia de anos mais e vai ver que são. 

24.11.17

Rendas e Ferraris

Pergunto-me se as pessoas que reclamam contra as rendas e não poderem viver no centro porque são tão caras e ai o turismo e a ganância aplicam o mesmo raciocínio aos automóveis. É que a Ferrari, por exemplo, exclui milhões de pessoas que gostariam de ter um e não têm porque são caríssimos e isso é uma injustiça. 

23.11.17

Condenação

- Senhor Doutor Juiz, não tenho nada a alegar em minha defesa. Só preciso que alguém me explique por que razão me encontro regularmente nesta situação.
- Senhor Zero Silva, não sou psicólogo. Estou aqui para julgar e aplicar penas.
- Qualquer pena que o Senhor Doutor Juiz aplique será mais leve do que o inferno que agora vivo.
- Ora, meu caro. Deixe-se disso. A pena de morte foi abolida em Portugal em 1976.
- Eu disse qualquer, não disse a melhor.

22.11.17

Futuro

Estou verdadeiramente optimista em relação ao futuro. Vai ser brilhante. O problema é lá chegar. Vivo, se possível.

Retranca, Tejo & Amerigo Vespucci



Amor e quilómetros

É preciso dar de comer ao amor, levá-lo a pastar; mas são mais os quilómetros do que os euros que há para os percorrer e olha, paciência. temos de os preencher com algum vinho e muita pena, que sempre custam pouco ou nada. Um dia rir-nos-emos, ir-se-ão as penas e ficarão os vinhos.

E o amor, claro.

21.11.17

Censura e homens do lixo

Propuseram-me um trabalho de censor - pomposamente apelidado de "gestor de conteúdos" - por quinhentos e sessenta e cinco euros por mês, seis euros e trinta de subsídio de refeição "em cartão" como no Continente e "até quarenta euros" de subsídio de transporte "contra factura".

Era preciso ter "uma personalidade forte" para resistir aos conteúdos "racistas, homofóbicos, machistas. Ou então florzinhas e fotografias de gatinhos".

Não deixei a senhora acabar: mal disse o salário levantei-me e disse-lhe que não valia a pena perdermos o nosso respectivo tempo.

Censurar os outros é um trabalho desprezível; pagar mal para o fazer é como pagar mal aos homens do lixo.

Isto não é uma jeremíada

Não é que esteja a queixar-me. Não estou, juro. Mas ficaria muito mais descansado se me garantissem que não há vida depois da morte ou que, quando for desta para melhor vou mesmo para melhor e não reencarnar num diplomata, presidente de banco ou jogador de hóquei em patins. 

20.11.17

Bulimia e caos

Imagens díspares que se atrapalham (ou será atropelam?) mutuamente: infortúnio, abrir uma porta com a chave depois de tocar a campainha, pôr-do-Sol no campo, um passeio de mota à beira-rio, um quarto frio no qual uma personagem solitária tenta escrever e tapar-se ao mesmo tempo, a esperança, um diálogo num carro entre duas pessoas que acabam de se conhecer, uma lavandaria self-serviço onde às três de manhã um casal discute. Podia tentar ordená-las cronologicamente, por ordem alfabética ou por ordem crescente da quantidade de letras de cada uma, de tempo que se lhe mantêm no espírito antes de ser substituídas pela seguinte. Ou talvez arrumá-las por pessoa que lhes está na origem: A. e J. na lavandaria, por exemplo (começa mal: a imagem da lavandaria não se baseia em factos reais, mas sim possíveis). T. no automóvel a caminho de Sintra, onde vamos passar a nossa primeira noite juntos; T. e o infortúnio.

Nada disto funciona. A única maneira de lhes dar ordem ou forma é escrever-las num quarto gélido, à noite, sozinho enquanto tento pensar em A., B., C. e não pensar em T., U., V.

Parece difícil mas não é: uma vez escritas a ordem regressa. Escolho uma ao acaso: a discussão entre dois amantes numa lavandaria self-service às três de manhã, por exemplo. Pouco importa que só exista na minha imaginação: a partir dela posso construir uma cadeia de imagens igualmente fictícias, mais ou menos verosímeis. Uma das pessoas do casal tem um gelado na mão. Às três da manhã um gelado? Deve ser Verão e eles devem estar perto de casa.

O frio quase desaparece, a personagem que escreve deixa de estar sozinha, da atrapalhação nasceu uma certa ordem, um sonho de ordem.

A ordem da ficção é omnívora e bulímica e tão parecida com o caos que quase se confundem. 

19.11.17

Sintomas, distâncias

Tudo é sintoma de qualquer coisa. Tudo: este beijo que te quero dar, tão longe; esta noite fria e sem luz, sem lua, sem gente.

Sintomas, sem dúvida, mas não sei de quê, de que anomalia, de que cansaço.

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(Cansaço rima com abraço; mas como preencher o que lhes fica entre?)
(É tão curta a distância entre abraço e cansaço, não é?)
(Há um mundo sem fundo, uma distância sem importância.)
(Depende de quem é o abraço - teu ou meu? - e o cansaço.)

Onomatopaicas

"Quero mostrar-te as onomatopaicas do amor", diz o apaixonado pelas palavras. "Antes que me esqueças de vez. Ou eu ensurdeça. Ou emudeça. Ou nos esqueçamos um do outro, de tão silencioso foi o nosso amor".

Domínio da língua?

Não gosto da expressão  "domínio da língua". Primeiro porque ninguém domina uma língua e depois porque língua que se deixa dominar não merece ser falada, escrita ou sequer respeitada.

Poesias

"Poesia pura" escreveu alguém na parede. Poesia dura, responde o meu pénis porque penso em ti.

18.11.17

Um dia não me lembrarei de ti

Um dia assim: começa cheio de barulho e acaba bem, a escrever-te a mão, a pele ali onde ela é mais fina, mais leve, sorridente, quase transparente, como se me quisesses dentro dela, dentro de ti, como se me abrisses a porta antes de me abrires a porta.

...

Não consigo não pensar em ti. Isto é: não consigo não me lembrar de ti. Esquecer-te já te esqueci há muito tempo, mas continuo a lembrar-te: esquecemos mais depressa o que se fez depressa e mais devagar o que se fez devagar, não é?

17.11.17

Diário de Bordos - Lisboa, 17-11-2017

Eu gostaria que daqui não se inferissem coisas que daqui não se podem inferir, mas parece-me irrefutável: só há dois tipos de estabelecimentos em que as funcionárias são todas e sempre bonitas - os bares e as bibliotecas. E quando não são parecem -.

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Coisas que explicam porque amamos e detestamos Portugal simultaneamente e é impossível ser doutra maneira: vou de bicicleta da estação para o hospital de Cascais. A menos de quinhentos metros do dito aparece-me uma autoestrada - com sinal de proibição de velocípedes e outros veículos de tracção animal e tudo -; procuro alternativas, não as encontro mas vejo que pouco à frente volta a ser uma estrada normal e ooops, toda a força avante. Quase a sair do (curtíssimo) trecho de autoestrada oiço as sirenes de um carro de polícia, que me diz para encostar. Antes de poderem sequer abrir a boca desfio-lhes a ladainha (aparecem-me num instante, seja Deus louvado, sobretudo quando coincidem ponto por ponto com a verdade): que vou para o hospital, que a consulta é já dali a bocadinho, que procurei alternativas, que por aí fora, tudo isto num fôlego só e sem dar oportunidade aos senhores agentes de fazer outra coisa se não ouvir.

Quando acabo os homens dizem-me "Bom, você vai para o hospital? Ponha-se aí à nossa frente" e escoltam-me até à saída. Lá chegados eu estou a derreter de agradecimentos e de pensar "isto é incrível! Que simpáticos!" e um deles pergunta-me "Vai para as urgências?" "Não. Vou, para as consultas normais". "Ok, então vá que lá estará um colega nosso para lhe pedir a identificação". Comecei a ver a vida a andar para trás e a carteira tão vazia a esvaziar-se ainda mais, claro.

Isso é esquecer que estamos em Portugal, graças sejam dadas à Santíssima Virgem de Fátima. Passei mais de uma hora no hospital e não vi nem a sombra de um polícia.

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Em contrapartida vi que a porcaria do cotovelo não vai voltar ao sítio assim tão depressa ou facilmente como tenho vindo a pensar, coisa que me aborrece um bocadinho, por assim dizer.

Serviço público - Restaurantes Cascais (não ler)

Por muito que se goste da mudança ou se pense que ela é inevitável - je mange à ces deux rateliers - é bom voltar a certos sítios e ver que não mudaram. (Ainda, acrescenta o realista que dorme em mim e acordou sobressaltado).

Refiro-me concretamente ao restaurante Melody, em Cascais. Era de muito o longe o melhor restaurante de Cascais nas categorias Tesos e Gajos que Sabem (duas categorias distintas, claro). Hoje, muitos anos passados voltei cá e verifico com prazer que não sei se ainda é o melhor; mas que continua muito bom continua.

Se tiver uma página no Trip Advisor por favor digam o pior possível do restaurante; se houver uma página para restaurantes do Sporting digam que o dono é patologicamente do Benfica (esta tem a vantagem sobre a outra de ser verdade). O senhor tem trabalho que chegue e as mesas são poucas.

Hallelujah.

16.11.17

Palavras atrás das outras, umas

As palavras já quase nem palavras são, de tão pálidas; é assim que gosto delas: nem sombras do que foram são. Vão para ti em fila indiana, silenciosas e graves.

Graves a fingir, claro: no caminho aligeiram-se, esquecem-se de mim, de onde vêm, do que seriam se não fosse para ti que se dirigem.

Noite, dia

Sim, é isto. Nada mais do que isto: os deuses reservaram para o dia uma beleza e outra para a noite, diferente. Gémeas dizigóticas: clara e límpida uma, outra escura e densa.

15.11.17

Sentir

O concerto acaba e um gajo pensa "esta música foi tão bonita" e logo a seguir diz-se "bonita não é o termo" mas já usou "urgente" e não quer repetir-se de maneira conforma-se à falta de palavras, como se a música lhe aspirasse o léxico mas não os sentimentos; o que os faz ficar coxos.

Mas dizer que se ouve isto e se fica com sentimentos coxos é pior do que uma infinita injustiça: é inexacto, é muito pior.

Talvez. Há o Tati, o Logradouro onde se come mal mas é bonito p'ra burro  (o Tati é bonito e come-se bem) e o Irreal onde não se come de todo. Une-os a música? Mais os sentimentos.

Quero dizer: não que eu seja uma mala de mariquices que qualquer sax alto rapta. Nada disso. É só que isto é bom de mais e eu sou forçado a pensar, coisa que não gosto de fazer. Pensar é muito cansativo. Quase tanto como sentir.

Urgências

Música urgente no Irreal. Lisboa é uma cidade urgente, cada vez mais.

Sax alto, piano e bateria. Não sei o nome do grupo mas devia.  Um gajo nunca sabe quando terá uma urgência como esta. Um dia que começou de urgência num hospital (porque acordei tarde) acaba numa urgência no Irreal. Não sei como dizer isto melhor. É preciso estar aqui, urgentemente.

Há uma beleza na urgência que só as vítimas da urgência podem perceber.

Deslizar, Lisboa

Vivo esta cidade como se em vez de ser eu a pedalar-lhe as ruas fosse ela a deslizar-me por baixo.

Noite?

Há uma espécie de noite à frente: como chamar noite a uma noite da qual tu estás ausente?

Cair, corda bamba

Como dizer que te amo sem dizer que te amo? A arte da elipse é complexa: um olhar pode pôr um pé na porta que o pé impede de fechar; a mão no ombro pode impedi-lo de se afastar e empurrá-lo para longe da mão. Mais vale não dizer nada: as palavras têm uma irreprimível tendência para descambar. Melhor caminhar na corda bamba: não sabemos para que lado vamos cair. Só sabemos que cairemos, mais tarde ou mais cedo.

Para que lado só os deuses o sabem.

Diário de Bordos - Lisboa, 15-11-2017

Nâo sei como dizer isto: cheguei ao hospital e menos de meia hora depois estava a pedalar de regresso àquilo que agora me serve de casa (quase perfeitamente, aliás. Só me faltam os livros). Não vou nem queixar-me nem revelar o segredo (não começa por C). Limito-me a registar o facto, com indisfarçável prazer e uma certa nostalgia: já passei muito tempo naquele hospital (algum do qual graças à senhora C) e por mais que me chateie lá ter de voltar é sempre bom ver que tudo funciona.

Se não de resto de resto tudo bem: uma pequena urgência que se resolveu with a little help from my friends; mais uma perspectiva de futuro - é inacredtável a quantidade de portas que o futuro tem abertas versus as que o presente tem fechadas, mas isso é outra história. Basta viver no futuro e tudo se resolve -;  e por aí fora, que a estrada é longa, a página não tem fim e daqui a pouco vou sair, ouvir música.

Talvez. Não sei. Não sei nada, nunca, todos os dias. À croire que je ne veux pas savoir. Não quero, verdade seja dita. O que não sei satisfaz-me perfeitamente: é mais do que o que sei, é uma piscina maior. Nadar por nadar prefiro nadar no que desconheço. 

Amigos, família e café

A vantagem da amizade sobre a família é ser voluntária. A família cai-nos do céu - ou do inferno  - e os amigos vêm beber um copo connosco ao café.

14.11.17

À bicyclette

Vim de bicicleta de Belém ao Parque das Nações. É um passeio bonito. Já não o fazia há algum tempo. De carro é chato, parece que nunca mais acaba. De bicicleta está sempre a começar. A cada pedalada o cenário muda: Belém,  Alcântara, a chatice do Cais do Sodré, o Cais das Colunas, Sta. Apolónia, o porto todo desde aí até ao Parque: Marvila, Beato, Xabregas (não sei se a ordem está correcta). Lembrei-me daquele argumento da APL para fazer a aberração do terminal de contentores em Alcântara : "Lisboa precisa de um porto".  Temos quilómetros de porto, graças a Deus.

Viemos a pedalar o caminho todo, o N. e eu, nem muito depressa nem muito devagar. É um passeio fácil, plano, bom neste dia tão bonito, cálido, morno, antecâmara de outros dias iguais ou melhores..  

Lisboa

"Lisboa menina e moça"? Não me parece. Acho-a mais puta velha e sabida, que resiste a tudo e todos, seja chulos seja doenças venéreas, tremores de terra ou Medinas, vendedores de louro ou "tours gourmet-históricos".

Diário de Bordos - Lisboa, 14-11-2017

Hoje a greve dos médicos não me correu tão bem como da outra vez: levantei-me às sete da manhã para chegar ao hospital e ouvir dizer que "a técnica está de greve". Troquei uma chalaça ou duas com a senhora do guichê, que apesar da hora matinal já devia ter lidado com alguns mais zangados e me agradeceu dizendo "assim é que se deve levar a coisa".

Se ela soubesse a vontade que tenho de mandar o corpo às urtigas e dizer-lhe "amanha-te com o que a natureza te deu"... Mas depois lembro-me de que ainda tenho dois ou três disparates a escrever e (espero) um corpo para amar e meia dúzia de garrafas de vinho a beber e uma ou duas ilhas a visitar e pronto. A senhora vai avisar-me da nova data.

Não vai chegar a tempo para a médica que pediu o exame, mas esta que se amanhe com o que há, ela também.

Estou mais farto de médicos, hospitais, comprimidos e exames do que de mim. É obra!

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Ontem falava com F., o dono do hostel e imaginava a sorte que ele talvez tenha. Não fala português e pode não saber quem é o Costa, não fazer ideia de onde fica o Panteão, ignorar que pode morrer se for a um hospital de Lisboa. Ou seja: ter de Portugal o melhor, este ar frio e transparente, cheio de sol dos últimos dias, a simpatia das pessoas, a beleza da cidade.

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Parece que o Marcelo anda a distribuir afectos pelos sem-abrigo. Acho bem: há que começar a tratar já da reeleição e dar palmadinhas nas costas aos senhores e senhoras das ruas é um método garantido.

Se o próximo presidente vier do circo pelo menos já estaremos habituados.

Entretanto cinco meses depois Pedrógão Grande está como ficou depois do fogo e quanto a isso népias. Nem uma palavra. Quem lhe esfregasse uma selfie nas ventas devia ser condecorado.

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Esta indiferença dos portugueses pelo tempo seria muito bonita e exótica se fosse noutro país. No nosso é dolorosa.

Quem?

Não é disto que quero falar. É do nada. Isto é: da vertigem na qual nos enterrámos quando nos sabíamos espiados pelo  nada. O dia em que não choraste, pela primeira vez. O dia em que decidi fazer meia volta. O primeiro dia em que não me mentiste. A primeira vez que te fui fiel. Imagens caleidoscópicas, nada revolto, peles enregeladas, lágrimas vazias.
- Porque me contas isso?
- Porque se eu não te contar quem to contará?  

Assim, sim

Assim as coisas se iam passando; mas nós não decidimos que elas se passariam assim. Elas sim.

13.11.17

Rio abaixo, acima

Questão de deuses e nuvens nas quais se escondem; corpos frágeis hesitam em subir até eles. Há muito que fazer cá em baixo, dizem-se, sussurram-se. Em voz baixa para não os acordar, em voz baixa porque têm medo de se ouvir a si próprios: as palavras sobem por escadas em caracol, batem pesadamente com os pés e quando são ouvidas parecem o grito de uma multidão num estádio de futebol. Há que dizê-las baixo, não acordar os deuses, não afastar as nuvens.

Estendamos um manto de silêncio e sobre ele estendamo-nos nós, calados. Respiremos juntos, síncronos, como se de um os pulmões fossem dos dois. Olhemo-nos: é uma forma de nos escondermos. Toquemo-nos: timidamente, para não nos ferirmos.

Há que trocar feridas: as minhas pelas tuas; tempos: o meu pelo teu. Esvaiamo-nos devagar, deixemo-nos ir corrente abaixo: seixos, árvores, praias, olhos, mãos que nos acenam hesitantes. Não sabem se devem regozijar-se se entristecer-se. As páginas dissolvem-se uma a uma: tu a frente eu o verso, eu o verso tu a frente. Somos duas páginas de uma folha, mas juntos fazemos um livro que  agora parte, devagar, rio acima para as nuvens, rio abaixo para a terra.

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Hoje vi o anjo Gabriel. Era muito novo e loiro. Estava com a mãe, morena e pequena. Perguntei-me que lhe terá dito que ela não saiba já? Olhei-a de novo e percebi: tudo. Nada sabemos, enquanto não ouvirmos o que um anjo feito por nós tem para nos ensinar.

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É de mistérios que convem falar. O que sabemos vale pouco. Imagina uma espiral à tua frente, desenhada por uma espada em fogo. Quem segura a espada? Quem o ensinou a desenhar no ar espirais que duram uma vida?

Todas duram, pelo menos as que são dignas desse nome: espiral é um termo nobre que designa a distância mais curta entre o que és hoje e o que sempre quiseste ser. Essa espiral é iluminada pelas chispas brancas de que ontem te falava uma fotografia de cavalos alados, desejos claros, mediterrânicos, pedras iluminadas pelo sol poente. É disso que se trata: nuvens, deuses, murmúrios sem fim nem princípio, luz. Mistérios, abismos. No quarto ao lamediterrânicas en canta - em pessoa - Hallelujah. "You don't really care for music, do you?"

Yes you do.

Havia outra: "your pain is no credential here". Avalanche. Sabíamo-las todas de cor, não era? Cantávamo-las nos intervalos do sangue que escorria pelas ruas, pelas falésias e acabávamos a dizermo-nos "That's no way to say goodbye". Todos os dias nos dizíamos adeus; mais tarde ou mais cedo aprenderíamos, não é?

Não. Nunca se aprende a descer esse longo rio em espiral para o qual olham os deuses refastelados e inúteis.

Louvor e simplificação do SNS, bis

Faço elogios desabridos ao meu médico de família e por extensão (ou por sinédoque, para os meus colegas de pedantismo) ao SNS.

Errado. O meu querido médico não é o SNS e o SNS não se reduz ao Dr. J. R. Há mais de duas semanas que esperava uma consulta no hospital de Cascais. Primeiro ponto: telefono e respondem-me imediatamente. Segundo: explico ao senhor que me atendeu o que me leva a telefonar-lhe. Ele ouve-me com toda a paciência do mundo (é preciso muita, eu conheço-me) e no fim pergunta-me o nome. (Tecla. Oiço o barulho das teclas. O senhor deu provas de um auto-domínio notável) e sem me passar a duzentos outros números, todos eles ou ocupados ou surdos diz-me:
- O senhor Luís está à espera da triagem. - Passo por cima do desgosto que tenho em ser tratado por senhor Luís. A culpa não é dele.
- Imagino perfeitamente que estou à espera de qualquer coisa. Mas talvez tenha percebido que a razão deste telefone é exactamente eu não querer esperar mais. Já esperei o suficiente.
- Pois, mas...
- Não é nem pois nem mas. Estou a perder o uso do braço direito (não é infelizmente um grande exagero. É só uma pequeníssima hipérbole).

Passo o resto do diálogo. Foi breve. Consulta sexta-feira feira que vem de manhã.

Espera, o que é que estava a dizer sobre o SNS? Agora de repente escapa-me.

Conversas e assim

Estou no Logradouro e pergunto-me: "como arrancar-me de uma cidade que tem o café Tati e o Logradouro  (e tudo o que fica entre eles)"?

Palma tem a Babel e o Antiquari. Mas Lisboa tem o rio e a Ler Devagar.

Falso debate, claro: "O mundo é sempre mais pequeno do que o viajante que nele viaja" (J. Baldwin). O resto não passa de conversas e assim.

Adenda: a música vem de LP e não de CD ou pens ou icoisos. O hoummus não vale nenhum mas gosto tanto do sítio que me propus trazer-lhe um bocadinho, mai-la receita. 

Oiça uma ideia, eu lhe dou de graça

Uma ideia para o salário dos políticos quando chegam ao governo: primeiro ano recebem zero. Trabalham pro bono e mostram o que valem; anos seguintes recebem em função de uma combinação de variáveis - PIB, dívida externa, défice, etc. Uma fórmula, por assim dizer -. os que forem reeleitos começam o novo ciclo com o valor anterior, que será aumentado ou diminuido em função da variação do resultado da fórmula. Os que quando saírem tiverem o salário a zeros outra vez não poderão trabalhar em empresas públicas.

12.11.17

Como se um rio

Como se fosse eu a nascente e tu a foz de um rio assim te quero; como se na sesta sem ti a sesta não fosse, rio sem foz, rio sem margens, mar sem rios. Não há frio que uma pele não cubra, rio que um mar não salve, mão que uma sede não apague.

Como se de um rio fosse eu a nascente e tu a foz.

11.11.17

O princípio do fim (de semana)

O sábado começa muito devagar, como um carrinho de rolamentos numa rampa pouco inclinada. Revivo o jantar de ontem, as pessoas de quem tanto gosto, a carne que não me convence; daqui a pouco tenho uma reunião de trabalho: o meu carrinho de rolamentos vai acelerar. Devagarinho: façamos devagar o que é bom e depressa o que nos desagrada. É isso: atardemo-nos na fotografia que há pouco vi, linda, de uma senhora a entrar numa parede. Não a revejo: memorizei-a e dou-lhe voltas como a um gelado do Santini num final de dia em Cascais.

O trabalho é por causa do Jantar de Natal, uma ideia da M., essa fábrica de ideias boas, quentes, doces. Daqui a pouco levantar-me-ei e o dia começará realmente: nesta cama o tempo não se deita. Eu sim, mas não com ele.

A menos, claro, que chamemos tempo ao que ficou para trás e ao que aí vem. Talvez. Não me interessa: agora só penso na velocidade com que um se transforma no outro.

Lentamente, como se numa rampa muito pouco inclinada um corpo se pusesse em movimento, iluminado pela luz densa e marítima de uma vida.

Pequeno-almoço, duche, barba, levantar-me: o tempo chega-me de marcha atrás. Janus, mon cher frère siamois, aujourd'hui on s'en foût, on fait la fête, toi et moi.

Comme tous les jours.

Diário de Bordos - Lisboa, 10-11-2017

No regresso a casa perdi-me, de uma forma estúpida e cruel. E saltou a corrente, nos carretos. Outra estupidez cruel: não é por azelhice minha que aquilo salta. Ou então é por azelhice, sim mas noutra área: a de ganhar massa. Verdade seja dita que nem os problemas de orientação nem os mecânicos me fizeram esquecer quão agradável foi o jantar. Não tanto a comida, mas a companhia, bastamente melhor do que as tiras de porco em molho de gengibre e soja que voltei a fazer.

Cozinhar é bom; para um grupo de boa gente é melhor. Tragam bom vinho e boa conversa: eu tentarei dar comida à altura. Não que o consiga sempre, mas às vezes lá calha.

10.11.17

Correspondência e diálogo II

- Não tarda vais precisar de uma casa.
- Eu sei. Mas vai tardar.

Desta vez quem tinha razão era eu. Levei anos a precisar de uma casa.
- Tu nunca soubeste viver sem uma, não é?
- Não. Nem quero aprender.

Morávamos à frente do Lago, lembras-te? A casa tinha uma pérgola onde trabalhávamos e bebíamos vinho à tarde e tu fazias fotografias de um gato que não sabia que era gato.
- É verdade. Pensava que era um cão. Era o gato mais canino que a natureza jamais produziu.
Passávamos muitas horas naquele jardim frente ao lago.

- Estivemos muitas horas juntos, muitos dias e noites e semanas.
- E mais ainda separados.
- Não suporto relações simbióticas.
- Não suportas relações.

- Penso muitas vezes em ti, sabes? Enfim, pensar não é o verbo correcto.
- "Em ti" também não é correcto. Nunca soubeste pensar em mim.
- É verdade. É mentira. Pensava, mas não sabia que pensava. Amava-te, mas não sabia que te amava. Amava-te como respiro: sem pensar nisso, maravilhado cada vez que me apercebo disso.

A minha vida continuou como era, depois de te ires embora: caótica, bonita, feia, triste, hilariante, rica, exótica, aborrecida, estimulante, divertida. Até precisar de uma casa. Quero envelhecer entre quatro paredes, no meio dos meus livros, a ouvir a minha música e a lembrar-me de ti.

- Devias esquecer-me. E crescer, antes de envelhecer.
- Nasci velho. Não posso crescer mais.
- Ensinaste-me a viver.
- Ensinaste-me a morrer. 

Correspondência e diálogo

O quarto está gélido mas eu aconchego-me bem nos braços das memórias de ti, das noites frias que passámos juntos. Foram tantas. Vêm-me aos olhos as imagens dos teus cabelos, dos teus seios nas palmas das minhas mãos, do amor que fazíamos sem quase nos mexermos, enregelados e trémulos, apaixonados sem dúvidas. Ainda hoje me aqueces, tantos anos depois. Dir-me-ás que o passado nunca me interessou, nunca me aqueceu nem arrefeceu e eu responder-te-ei:
- Tu não és passado.

Ficamo-nos por aqui, uma chávena de chá fumegante à frente e relanças:
- Como vão essas dores no cotovelo [ou será no pé]?
- Mal, mas pouco me importam, os comprimidos não chegam mas em breve irei ao médico.
- Nunca soubeste tratar de ti - dir-me-ás. Mas o que queres dizer é:
- Nunca soubeste tratar de mim.
- Tens razão. Desculpa.
- Não tens de pedir desculpa. Estás pior do que eu.
- Tens razão.
- Eu sei.

As dores habituaram-se aos comprimidos como eu me habituei à tua ausência e agora me habituo ao frio como dantes me habituava à minha indiferença. Não há comprimidos para as dores do tempo, pois não?

É curiosa esta ideia de que os nossos presentes são como duas linhas de caminho de ferro, paralelas até ao infinito e por cima rola um comboio chamado memória que hoje me aquece esta noite gélida, esta melancolia límpida como um passado desperdiçado.

Pergunto-me quantos passados terás tu desperdiçado.
- Nenhum.
- Tens a certeza?
- Tenho. Sou demasiado jovem para ter passados.

Assim vou oscilando: entre as dores, o frio, a memória e a melancolia.
- Como fazes para não sucumbir?
-
- Adeus.
- Adeus.

9.11.17

Mudança

Cada vez mais gente me pergunta "Como estás?" e menos "Onde estás?" Alguma coisa está a mudar, de certeza.

Diário de Bordos - Lisboa, 09-11-2017

Fui almoçar a uma tasca da Rua do Benformoso. Resisti a dez e sucumbi à décima primeira. Chama-se Ghoroa e fica na esquina da rua com a travessa do mesmo nome. Sentei-me na esplanada a encher-me de sol. Encher-me, literalmente. Sentia-o entrar-me por cada poro da pele que tinha exposta e por cada interstício da camisa. Comi um Tandoori excelente, há anos que não comia um assim - há anos que não comia Tandoori, tout court - e um Naan bom, sequinho e uns bhajis de cebola idem. São bengalis e não falam uma palavra de português, com a possível excepção de "Sagres" e "Super Bock".

Foi tão bom... Até o Sol me parecia estrangeiro.

Feliz spam

Nestes dias difíceis devia ir mais vezes à caixa de Spam. A quantidade de pessoas que me ama, me quer conhecer e me manda dinheiro (falo de dinheiro a sério: um enviou seis milhões de dólares, outro "os primeiros cinco mil da compensação total (que era, se não me engano, oitocentos e cinquenta mil)" chega para alegrar qualquer dia.

7.11.17

Já o frio voltou

Já o frio voltou e com ele a vontade de te ter nas mãos. Aquecias-me todo, da ponta dos pés ao cerne da alma. Respirava-te os cabelos, o ar chegava-me filtrado por eles, por ti. Como a vida: parecia-me mais leve porque eras tu que levavas grande parte dela aos ombros, esses ombros com os quais agora sonho, sozinho e frio.

Sou frágil, sempre to disse. Não sei esconder-me: atrás de ti era mais eu, não menos. Como se esses ombros que tanto me faltam me tivessem sido amputados, cortados os cabelos, roubados os joelhos onde encaixava os meus.

Sem ti não passo de um monte de células às quais alguém tirou os núcleos e os substituiu por nada.

Solidão dos centros

Queria começar pela Lua Cheia mas foi  há mais de dois dias e não me apetece nada começar pelo que já foi há muito tempo. Podia falar do jantar de domingo no Tambarina, bom e barato como sempre e com amigos queridos que não via há muito temporário, mas isto também já passou.

Na verdade é melhor falar do que foi ou pensar no que vai ser?

Não sei. Ignoro tudo do tempo: quanto mais ando para a frente mais penso no passado e menos este me interessa e mais o futuro tão pouco me interessa. A velha ideia do círculo: os extremos tocam-se. Apenas o centro está imune, só, livre. Raios, diâmetros e circunferências não passam de prisioneiros de uma fórmula ou duas. Pi erre ao quadrado, dois pi erre.

Tagarelice. Podemos elaborar sobre a liberdade do centro de uma circunferência, do encontro de finalidades que um círculo representa, do tempo, à volta do qual andamos quando ele anda à nossa volta: somos nós o centro. Sós, livres, imunes.

5.11.17

O princípio do mundo

Uma amiga querida convida-me para jantar. "O que há", acrescenta., prevenindo-me - como se eu não o soubesse - de que não é grande amiga de fogões, temperos e outras preparações culinárias.

Digo que sim, claro. Por ela iria ao fim do mundo, com ou sem jantar. Ou ao princípio.

4.11.17

Regras para a vida higiénica e uma explicação

Num artigo de ontem vi que não devemos tomar banho todos os dias; ou pelo menos ensaboarmo-nos. Com excepção, precisa o autor, "dos pés, partes íntimas e axilas". Li o artigo até ao fim, mas não havia nenhuma menção aos dentes. Nada. Zero. Ou seja, para o jornalista (enfim, não sei se era um jornalista. Escrever em jornais e revistas não faz das pessoas jornalistas, tal como andar embarcado não faz de alguém marinheiro) continua em vigor aquela norma de lavar os dentes três vezes por dia, coisa que acho injusta, discriminadora e exclusiva de uma harmónica inclusão dos dentes no espaço corpóreo.

Isto dito, percebi finalmente por que raio de carga de água as senhoras gostam tanto de me ver pelas costas: é a melhor pele do meu corpo, freneticamente ensaboado todos os dias e às vezes mais do que uma vez - com a notória excepção das costas, claro - .

(Isto dito ainda uma pequena nota à margem: isso de chamar "partes íntimas" ao lugar da fruta tem que se lhe diga. Só são íntimas porque nenhuma mulher as quer partilhar comigo. Eu por mim se pudesse eram de todas. Enfim, todas não. Algumas, só. Escolhidas a dedo e a pele).

3.11.17

Dores, cores

Nao sei qual das dores é pior. São muitas, misturam-se todas. Mas a eleger uma escolheria a do cotovelo. Faz-me ver o mundo em tons de preto. Só preto, mais nenhuma cor. Nem cinzento sequer.

Umas vezes preto violento outras preto das profundezas.

Pena o governo ter fechado aquela discoteca: estava capaz de lá ir só para ver se alguém me cortava o braço. 

2.11.17

Mau poder

As pessoas que escrevem mal tem direito a emitir opiniões negativas sobre quem canta ou lê mal. Amigo não empata amigo. O rapaz da guitarra não é bem só mau. É pior. Tenho pena dele, pena do esforço perdido, dilapidado. O senhor que leu era mau, mas menos mau. Era só mau. Não o suficiente para me fazer ter pena dele.

Que raio de noite. Agora tenho de esperar que o concerto acabe para recuperar a burra, espera essa que me forçou mais um copo copo vinho tinto pela goela abaixo. Goela essa que estava fechada e bem fechada.

Não se deve subestimar o poder da má música nem o da boa poesia mal lida.

Adenda: para cerejar o por assim dizer ramalhete vejo que o Gonçalo Marques tocou no Tati. Os franceses chamam a isto "perdre sur tous les tableaux".

Enganam-se: conheci uma miúda gira (há amigos assim, têm namoradas giras). Podia ser pior: imaginem que a miúda era uma chata, por exemplo.

Meio Mezze

Vim almoçar ao Mezze Mezze. Primeira constatação (passem-me o detestável galicismo): está cheio a abarrotar. Para um povo que há uma dúzia de anos considerava exótico tudo o que viesse de para lá do Guadiana e achava intragável o que não viesse de França o português aderiu com uma velocidade tão surpreendente e estonteante como tardia à comida do mundo, passem-me o transplante. Segundo ponto: é caro pra burro. Terceiro: das três coisas que provei prefiro a versão libanesa: falafel, tabouleh e kibbeh. A gastronomia libanesa continua a ser a minha favorita no Mediterrâneo. Isto dito: não sei até que ponto o que comi aqui é "sírio" ou uma interpretação pessoal da cozinha síria. Quarto: o senhor que me serve não sabe o que é raki. Arak. Experimento todas as pronúncias possíveis. Não sabe. Com que raki de idade veio o homem para Portugal? (Fui à net e mostrei-lhe o telefone. Identificou finalmente a coisa. Não tem. De qualquer forma é parecido com o Assad. Pata que o pôs.)

Mitos, evolução

Enquanto não tivermos dentes auto-laváveis a evolução não passa de um mito.

1.11.17

Mar, tempo e outros círculos

Foi na superfície do mar azul que comecei a ser. Talvez não: talvez seja ao contrário e tenha acabado de ser feito na superfície do mar. Não sei. Ninguém sabe, de qualquer forma, onde começa ou acaba. De uma coisa só estou seguro: no mar azul sou. Isto é: em terra também sou, mas o princípio - ou o fim? - estão no mar. A terra é uma parte da passagem, da viagem.

Sem ontem não há amanhã, sem hoje não há ontem, sem amanhã não há nada. O mar onde tudo começou e acabou não percebe nada de futuro ou passado. É como é.

Eu não sou como sou. Sou como me fiz, no mar azul; ou fui feito por ele. Uma mistura, quem sabe?

Sou esta mistura toda de corpos onde me perdi e me perderam, mar sem ontem nem amanhã - que raio é uma coisa sem tempo? - livros que não li, olhos que não vi ou não me viram.

Não sei o que é o tempo mas sei a forma que tem: é um círculo do qual o raio somos nós, cada um de nós. Somos o princípio e o fim. Mar.

Em casa

Enquanto estas coisas todas destilam vou bebendo vinho tinto num restaurante chamado Pardieiro, na Graça (o senhor deixa-me entrar com a burra), entram duas senhoras francesas com um miúdo e pedem um gelado para ele, o empregado dá um ar da graça portuguesa - não me pareceram parigottes mas simpatia destas nem no fin fond du fond -, a mesa à minha frente chama o mesmo empregado com um "Olhe..." ao que ele responde "Estou a olhar" - e eu sinto-me em casa.

Em casa. Há uns anos tive o mesmo sentimento com um polícia sinaleiro do Príncipe Real que parava o trânsito todo para me deixar passar na bicicleta.

Chamei-lhe pertença, mas estava enganado. Era "em casa".

Diário de Bordos - Lisboa, 01-11-2017

A primeira vez na vida que bebi Mai Tai foi no Trader Vic's de Oakland. Diz o próprio que ali aquilo foi inventado. Um concurrente contesta. Não sei, pouco me importa: os Mai Tai estavam excelentes, eu tinha dinheiro e embebedei-me com Mai Tai, eu mai-la tripulação toda, estavamos de largada para a Costa Rica e estava com uma depressão mortal, mortal. Um fluxo estável e praticamente ininterrupto de Mai Tai durante muitas horas fez-me esquecer a jovem senhora que estava na origem da depressão por uma quantidade significativa de tempo.

Fiquei fâ daquilo, apesar de nunca mais os ter encontrado tão bons - fosse por os ter conhecido na casa-mãe seja porque eram mesmo bons (já o mesmo não posso dizer da Piña Colada, que conheci muito antes de as ter bebido no Bar Barranchino em S. Juan de Puerto Rico e apesar disso acho estas as melhores de todas, de longe) -.

Hoje estou a beber o pior Mai Tai da minha já longa vida (e curta experiência da mescla), não me vai fazer esquecer nada, nem a depressão que teria se estivesse deprimido nem a jovem senhora que não me abandonou, nem nada. Não vale a ponta de um corno, mas eu devia ter suspeitado de que o Intendente não é o melhor sítio do mundo para se beber Mai Tai. Será que o Luís do Procópio os sabe fazer?

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Em S. Juan, numa das vezes que lá fui estava com a minha filha e não me embebedei com Piña Colada. Ela serve de bebedeira: é a miúda mais bonita do universo e arredores.

Hoje precisava (o tempo verbal não está inteiramente correcto) de beber um copo com ela. Aposto que ela faria deste Mai Tai uma bebida não só potável mas também inesquecível.

Vou ter de encontrar outros esquecimentos.

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Não se deve misturar piedade e amizade; não são miscíveis e estragam-se uma à outra quando juntas.

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À frente do (soube depois) hotel onde bebi uns Mai Tai que se Deus quiser vou esquecer rapidamente há um bar chamado Josephine ao qual já tinha vindo, faz agora anos de mais. Têm excelente música e um cheiro a detergente que mata o mais valente dos apetites. Suspeito que o cheiro a detergente vai partir e a boa música continuar. Vai entrar para a lista de lugares frequentáveis.