23.9.15

Diário de Bordos - Preveza, Grécia, 23-09-2015

O miúdo faz um esforço hercúleo para não se calar. Chora há quase meia-hora. Alguns passageiros dizem schiu! , mas o puto não lhes liga mais do que aos pais, quando estes ainda tentavam calá-lo. Agora abandonaram a ideia de todo.

Regra geral aguento bem os choros infantis, mas este começa a exasperar-me.

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O puto calou-se, finalmente e agora corre pelo avião feliz da vida. Tento dormir - tenho outra vez uma fila inteira de cadeiras para mim - mas falta-me uma almofada.

Há pouco tempo estive num voo no qual duas senhoras se zangaram por causa dos miúdos de uma delas. Uma era espanhola (a mãe ) e a outra inglesa (a que "estava farta"). Pegaram-se numa discussão tremenda. Fossem as duas espanholas e ter-se-iam batido. Tiveram de ser separadas. Uma delas veio sentar-se ao meu lado, mas não conversámos sobre o assunto. Estávamos quase a chegar, de qualquer forma. Foi num dos voos do transporte da Escócia, talvez o da ida.

As viagens de avião são difíceis de distinguir.

O café é imundo.

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Uma noite em Gatwick e voaram cinquenta aéreos. E não cometi nenhum excesso: jantar comprado no M & S e pequeno-almoço "tradicional". Vão roubar para a estrada, teria o meu Pai dito. Mas isso era antigamente. Agora é muito mais rentável roubar nos aeroportos, com os seus milhões de clientes "cativos".

Cativos mas não cativados.

O único excesso foi uma garrafa de vinho que acabei por não beber. Um quilo a mais na bagagem e cinco libras a menos no porta-moedas (era a garrafa mais barata, claro. Uma Shiraz australiana. Talvez seja decente).

Fica para quando chegarem as tripulantes. São duas, jovens e bonitas, pelo menos nas fotografias dos curricula. Uma sul-africana e outra inglesa. Juntas ainda ficam longe da minha idade. Enfim, pelo menos muda das tripulações sempre masculinas.

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Preveza fica numa provícia grega chamada Etoloakarnania. É no Oeste do país. Se eu visse bem e a terra não fosse redonda veria a Itália. Assim não. Só vejo o pôr-do-sol, os barcos da marina e a miúda inglesa, que já chegou. É de uma eficácia e competência espantosas. O barco também é porreiro, um Victoire 1270 (outra marca que não conhecia). Holandesa, desta vez. Os holandeses fazem barcos magníficos, regra geral. Este não deve fugir à regra.

Passei dois anos de rastos, mas se isto continua assim quase que os vou agradecer.

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Estou de t-shirt pela primeira vez em semanas, bebo um ouzo, hoje comi tarama e souvlaki ao almoço. Agora vou comer um tzatziki. Percebo os turistas, mas fico contente por não ser um deles. Prefiro ir para o mar numa embarcação que será quase de certeza boa e com uma tripulação da qual metade pelo menos o é de certeza.

A chegada foi tão bonita... O chauffeur de táxi começou por me roubar, mas pouco, meia dúzia de euros (tinha indagado o preço numa loja do aeroporto. Faço sempe isso, não para não ser aldrabado mas para saber em quanto (e pôr um travão, se for caso disso). O contraste com a Dinamarca não podia ser maior: fiquei a pensar na história do velho continente. Parece que não estou no mesmo planeta, quanto mais no mesmo continente.

Pensei sobretudo na minha capacidade de gostar tanto de tantas coisas tão diferentes entre si. a Grécia e a Dinamarca, o S. que levei da Coruña para Copenhaguen e o Ph., que agora vou levar para perto de Marselha. Vinha no táxi. O chauffeur conduzia para ele, não para nós. Rápido, indiferente, calado, com aquela dignidade reservada dos povos mediterrânicos.

Em Scheveningen um dia fui fazer um serviço para o barco e voltei de taxi para bordo. Estava a chover e não se pode, como em Genebra, chamar um carro na rua. Fui para um café e pedi à empregada que me chamasse um. O café ficava numa rua pedestre, mas a rapariga explicou-me que o senhor viria provavelmente pela pequena rua que ficava à minha esquerda. Não veio. Chegou pela direita, de chapéu de chuva na mão, fato e gravata, cordato, bem arranjado. Cinco minutos pela rua de peões, com o senhor a segurar o chapéu de chuva e eu a perguntar-me se estava a sonhar. Paguei pela corrida um pouco menos do dobro do que teria pago em Lisboa, mas foi muito mais barata.

Aqui o chauffeur tem pior aspecto do que teria em Lisboa - fez-me pensar no de Niro do Taxi driver, mas como não sou mulher não me entusiasmei por aí além -. E enganou-me no preço; pouco, ainda por cima. E foi burro: não quis esperar na marina para onde lhe disse que íamos e onde o barco não estava, como me pareceu imediatamente. Está numa muito mais perto do aeroporto.

Os campos não estão arranjados como na Dinamarca. Parecem-se mais com os de Portugal. A cidade não é grande coisa, creio. Não sei.

E apesar de tudo gosto tanto disto como gostei da Dinamarca. Não é de espantar que as minhas namoradas sejam tão diferentes umas das outras.

Era nisto que pensava enquanto o homem nos levava (a tripulante afinal estava no mesmo voo) para uma marina que não era através de campos que também não eram e com uma condução que tão pouco era.

Um conjunto de coisas que não são é tanto como um das que são.

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Vou enfim dormir. Na Dinamarca estive de passagem;  aqui de passagem vou estar. Parece-me que só no sono estou, apesar de não ficar.

Velhos são os continentes

Quanto mais avanço para velho mais gosto do velho continente.

Se calhar é o contrário: quanto mais conheço a Europa mais gosto de ser velho.

Abismos

Ataques de tristeza abissais, negros, pesados, mortais.

Ao menos desta vez conheço-lhes a origem e a inevitabilidade. "Estou triste e não sei porquê. Se soubesse não estaria" deixou de ser verdade. Se é que alguma vez foi.

Gatwick et al.

Enquanto for capaz de passar horas a olhar para o quadro de partidas de um aeroporto nada a fazer, desconfio.

22.9.15

Diário de Bordos - Copenhagen, Dinamarca, 22-09-2015 / II

Esta minha estadia em Copenhagen foi um sucesso parcial, mas teve a vantagem de me dar uma irreprimível vontade de cá voltar.

Ontem palmilhei horas ruas que se não estivesse tão carregado seriam magníficas, à procura de um hostel. Lá chegado, era preciso um cartão de crédito mesmo para as reservas pagas em dinheiro ao balcão. Voltei para trás, para o sítio de onde tinha saído.

O resultado final até foi bom: o hostel onde acabei por ficar era mais pequeno e simpático do que o primeiro e mais perto do restaurante Skindbuksen, onde fui jantar. Boa escolha, pela qual estou grato ao meu tripulante, que me deu a dica.

Depois dormi. O sono de quinze dias de mar. Estava sozinho na camarata, mas se lá houvese uma banda de jazz a tocar teria dormido na mesma.

Hoje a saga foi com a lavagem da roupa. Mas também acabou bem. Depois  ajudar a mudar o S. da horrorosa marina onde estava para um lugar num canal do centro da cidade. Ao lado fica o Faerge Cafeen, onde agora escrevo e bebo Irish Coffee e oiço música e me pergunto se isto é uma vida, um sonho ou um pesadelo (é uma mistura dos três, claro. Mas a pergunta fica, para a retórica).

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Gosto destas cidades calvinistas, nas quais até a imponência é discreta.

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Hoje voo para Gatwick, onde passarei a noite - não no aeroporto, thanks goodness, mas num hotel, um hotel a sério, não um hostel -; amanhã de madrugada apanho um avião para Preveza, um porto na Grécia do qual vou levar uma embarcação de quarenta e dois pés para o sul de França.

A vida é um vício mortal; nem todos os vícios são maus.

Tele-transporte-fotos


a) Das vantagens de ter um biólogo marinho especializado em mamíferos a bordo:






(Que além do mais é bom fotógrafo).

b) O autor das fotografias:

Mai-lo armador e o skipper.





Diário de Bordos - Copenhaga, Dinamarca, 22-09-2015

Posts da viagem, na desordem e incompletos, por enquanto.

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Dias tensos, contrastados. Eufóricos e esmagadores, tudo parece levitar de um lado quando do outro o porta-aviões prepara-se para ir ao fundo.

Já aqui estive e nunca aqui estive. Ninguém esteve, apesar de ser a dor mais universal do mundo.

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Ninguém vai para o norte da Europa em Setembro e espera encontrar bom tempo. Se se engana tanto melhor. Se não, encolhe os ombros e aprecia o que a viagem tem de bom: a tripulação, a novidade é - deixo de propósito para o fim - o barco. Um Hero 107, coisa de que nunca até aqui ouvira sequer falar. O que prova que não sou nórdico. Este modelo teve bastante sucesso na Noruega, de onde é. Rápido, sensível, com uma passagem na vaga que parece uma faca a cortar manteiga no Verão.

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O plano original era atravessar a Holanda toda pelos canais. Mas a informação que tinha não era boa e tivemos de sair mais cedo. Confesso que não me importo por aí além. Por muito bonito que seja, o tédio é tédio.

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O canal de Kiel tem noventa e oito quilómetros e meio, todos eles bastante bonitos. Infelizmente, os últimos sessenta são uma seca.

Com a excepção da "marina" de Giesenau, claro: dois pontões na margem de pequeno canal lateral, no meio de rigorosamente nada. A calma é absoluta, o silêncio total. Quase tenho pena de T., que salta do barco para procurar um restaurante.

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Ainda Portugal não era nascido e já os chineses viajavam havia séculos. Os amarelos percebem de viagens. É por isso que dizem que metade de uma viagem de cem li não são cinquenta li. São noventa. Os romanos também percebiam de viagens e se calhar é por isso que a inicial é V. Ao princípio é tudo bom e a descer. Depois começa a subida.

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É raro entender-me com armadores. Aliás: é raro entender-me com quem quer que seja que me queira dar ordens e a quem não reconheço capacidade para tal (por capacidade quero dizer conhecimento técnico do assunto). Não que seja uma prima dona, como fui uma vez acusado - não sem uma pontinha de razão, é preciso reconhecer -. Mas porque (como, de resto qualquer marinheiro) a única hierarquia que aceito é a do saber. Nomes, linhagens, fortunas ou feitos são-me total - e lamentavelmente, por vezes - indiferentes.

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Je fais le convoyage avec un équipier qui est l'incarnation du gendre idéal et l'armateur, un hippie norvégien de mon âge que l'on dirait sorti directement de la conjuration des imbéciles. Pas intelectuellement. Mais tout le reste. Il n'est pas fumeur : il est une machine à fumer des cigarettes. Avant le petit dej il en est à sa dixième clope, au moins. Le reste est à l'avenant. Sa diète consiste en un mélange indescriptible de saloperies - ce qui d'ailleurs semble être une condition sine qu'à non pour l'intégrer : Snickers, Coca Zero (il faut que ce soit zero), cacahuètes frites au miel, bonbonneries diverses, etc. Je ne puis le laisser seul dans le cockpit : il est là, debout (il a été marin, il y a longtemps ) et regarde. Mais l'on dirait que la connexion entre ses yeux et son cerveau est coupée. Il regarde mais ne voit pas et par conséquence ne réagit pas. Il faut border une voile, corriger le cap, loffer, abattre, enfin faire quoi que ce soit? Notre statue, notre monument au marin de quart, notre contemplatifo - mystico - attentivo n'est pas là. S'il voit une lumière il crie "lumière"; de même s'il voit une bouée : "bouée!". Mais c'est tout. Bon, pas tout. Le temps de crier "bouée" il a fumé deux clopes et avalé une plaquette de chocolat Milka. Là oui, c'est tout. Il ne lui passe pas par la tête voire ce que fait la lumière (la dernière fois c'était un bateau qui croisait notre cap perpendiculairement à au moins trois milles) ni de descendre au plotter voir quelle est la bouée et pourquoi est-elle là (dernière car ce fut la dernière fois que je l'ai laissé seul de quart. S'il faut me faire réveiller par des conneries autant être déjà réveillé).

Le bateau (un superbe, sublime mono de 10,7 m qui est une simple merveille d'efficacité et beauté) fait penser à un cendrier flottant. Point de hyperbole: mes cendriers au Marchand étaient plus propres.

Notre Ignatius à nous se plaint - c'est d'ailleurs sa seule plainte - de ne pas trouver de femme. C'est effectivement étonnant. Il n'est pas riche mais a du fric; il est sympa et du moins superficiellement généreux; il s'habille avec des T-shirts Frank Zappa (son musicien favori, ce qui démontre qu' il a du goût) ou autres musiciens - pour autant que les t-shirts soient criardes, comme les bombons. Il est gros, porte les cheveux - quasi blancs - longs et attachés en queue de cheval; et pourtant n'arrive pas à attirer une femme. Mon âme se remplit à la fois de compassion (pour lui ) et de compréhension (pour les femmes en général ).

Je l'aime bien. Il est un peu un phénomène, un petit phénomène pour ainsi dire. Il contemple la mer, il fume et il me fait penser à cet insondable gouffre qui est l'homme.

Enfin. En mer, à quelques heures de laisser les Pays Bas et entrer en eaux allemandes. Derrière moi une averse gigantesque essaie de me rattraper. Elle y parviendra, j'imagine: on peut compter par les doigts d'une main les averses qui m'ont raté. Mais pour l'instant je suis reconnaissant à celle - ci. L'ensemble du soleil brillant et clair sur le bord du nuage gris et menaçant, la pluie qui se devise sous les deux - soleil et nuage - font un contraste saisissant.

Et un merveilleux complément aux gouffres de l'humain.

PS - l'averse m'a loupé. J'ai "resquillé la chance et j'ai gagné". (Ai-je entendu ou lu cette expression ou viens-je de l'inventer? Je ne sais pas. Toujours est-il que je l'aime bien. Voyageur clandestin du hazard j'ai eu de la chance. )


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Les opinions politiques de mon Ignatius à moi sont cohérentes avec le reste. Les américains sont méchants, les capitalistes, si on leur donne une cour de récréation
(sic) libre ne songent qu'à nous faire leurs esclaves; et, sommet de l'horreur: l'actuel gouvernement de Norvège pense que ceux qui ne travaillent pas sont des fils de pute paresseux et du coup oblige les gens à habiter des villes où ils ne veulent pas vivre rien que pour trouver du travail.

Une violence.

Ignatius - pardon, T. - a aussi des points de vue très intéressants sur le 11 septembre, mais malheureusement mon cerveau a une capacité très limitée de recevoir de l'information et a décroché.

Retratos imagináveis

Não era um homem, era um senhor. Tinha mais defeitos do que uma máquina de lavar roupa desenhada por um engenheiro francês mas nunca os usava sem deles abusar. Como se fossem direitos, ou guloseimas.

Auto-quase-retrato

Viajante clandestino no comboio do acaso fui mais vezes apanhado pela sorte do que pelo azar, os seus dois revisores.

15.9.15

Diário de Bordos - Scheveningen, Países Baixos, 15-09-2015

Regresso à Holanda pela primeira vez em dois anos. Ou terão sido três? Não sei. Pouco importa. Da última vez cheguei num barco a motor de vinte e seis metros, Agora, num veleiro soberbo de dez e setenta. O resto não mudou: tempo cinzento e frio, mulheres construídas como vigas de telhados, uma língua que parece um ataque de catarro.

A marina é bonita, enorme, com barcos bons e bem tratados. Barcos de quem gosta de mar e tem dinheiro para isso. Que longe estou de uma marina francesa e  respectiva colecção de antiguidades, velharias, improvisos e ruínas flutuantes.

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Que dizer da viagem? Um barco magnífico (Hero 107, uma coisa norueguesa rápida, confortável no mar, bem construída, manobrável, sensível ao leme); armador simpático e tripulante confiável. Bom tempo em geral: entrámos em Scheveningen antes do temporal chegar. Só tivemos uma noite de porrada. Pouco vento - das cerca de cento e trinta e duas horas de mar cem foram a motor -; nenhum susto em particular; agência decente, que paga a tempo e horas e tem mais trabalho.

Parece-me que mudei de planeta, finalmente.

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La Coruña é uma cidade comestível: é praticamente impossível comer mal. Da carrada de restaurantes retive dois:

- A Pulperia de Melides, na Praça de Espanha 16. O polvo não estava excelente na textura, mas pareceu-me mais questão de azar do que de competência. O tempero estava perfeito. A fila de espera faz-me crer que não sou o único a pensar assim.

- O Viñedo de Tito, Travessa Estrecha de San Andrés, 4. Uma tascazinha escondida e longe do bulício, bonita, com excelente comida, serviço e ambiente.

Em Scheveningen até agora só um, bastante recomendável: Browcafé Dehofnar, na marina. T. queria comer um bife. Ficou desiludido. Eu não. Carne boa e tenra bem assada não me desilude nunca.

Já que estou em fase de recomendações (ou registos para so futuro, vá lá saber-se): um hotel barato e bom no Porto: S. Marino, Praça Carlos Alberto 59. Perto da Cedofeita, numa praça bonita e calma.

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Ontem no Browcafé Dehofnar.

Quero pensar que o casal à minha frente é um casal adúltero, mas não é preciso. Salta aos olhos de um cego. Ela chegou primeiro. Ele uns dez ou quinze minutos depois. Começou por sentar-se à frente da senhora, cara bonita mas não laroca. Mostra-lhe o computador que acabou de comprar - ainda está na embalagem (é um Toshiba. Sabe o que quer). Falam de banalidades. (Não percebo uma palavra de holandês, mas percebo de banalidades).

Ele depressa muda de lugar, senta-se ao lado da senhora, mas de frente para ela, costas para a sala. Não é preciso ser um especialista em comunicação não-verbal. Dele só vejo as costas. Dela a face, à qual raramente aflora um sorriso. Mais frequentes são as lágrimas, contidas, breves.

Pouco se tocam. Quero pensar que estão a reavaliar a relação. Tão pouco é preciso. Ela não pára de mexer os dedos, não como se estivesse a malaxar plasticina mas como se os próprios dedos fossem de plasticina.

Vão-se embora juntos. Quando se separarão? Lá fora, daqui a uns dias, uns meses? Porque é que algumas caras têm "sofrer" escrito nos olhos, no olhar?

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Dois dias de mau tempo, dois dias de calma e outra vez dois de temporal. A viagem para Copenhaguen vai ser variada. De lá sigo directamente para a Grécia, levar um Hans Christian 48 para Marselha.

Gostava de passar pelo menos dois dias para conhecer a cidade, mas não sei se terei tempo. Sou imune a tentações totalitárias, mas cada vez menos o sou às turísticas.

14.9.15

O desaguar das necessidades

Uma incontrolável vontade de escrever  (ou será antes necessidade? ) e a quase-impossibilidade física de desaguam nisto.

A bondade dos impostos

Aqui há uns tempos apareceu um artigo no Público sobre os impostos na Dinamarca. A (creio) jornalista extasiou-se e tento extasiar-nos com as maravilhas dos serviços públicos dinamarqueses, possíveis, claro, graças à elevada carga fiscal e à beatífica atitude do povo face àquilo que no fundo não passa de extorsão. Tentam disfarçar "oferecendo" serviços que as pessoas poderiam livremente comprar se não tivessem começado por ser espoliadas.

Porém mesmo na Dinamarca os impostos são obrigatórios. Talvez não fosse má ideia lembrar que se os impostos fossem bons não seriam obrigatórios, seriam proibidos.

7.9.15

O cérebro e a responsabilidade

Acidente mortal num rally automóvel aqui perto. Grande emoção em La Coruña, bandeiras a meia-haste, parangonas, artigos, crónicas, entrevistas, declarações. Resumindo, a parafernália habitual da indignação. A culpa, claro, é de toda a gente menos das pessoas que não foram capazes de perceber por elas próprias que estavam num lugar perigoso.

Apresso-me a esclarecer que partilho inteiramente a dor que a morte de (até agora) sete pessoas, algumas das quais crianças (abro parênteses para pôr um ponto de exclamação: !) provoca. Mas fico surpreendido com o grau de irresponsabilização a que se chegou.

E com o de cobardia também: não acredito que seja o único a pensar que as pessoas nasceram com cérebro para o usar e não para delegar o seu uso em autoridades, sejam elas quais foram.

6.9.15

Sinónimos

Vejo-lhes a dança: os dois em carne viva afastam-se, aproximam-se, resistem, andam às voltas a eles e ao mundo porque tanto para um como para o outro os verbos amar e doer são sinónimos.

Diário de Bordos - La Coruña, Galiza, Espanha, 06-09-2015 / II

Começo por dar a mão à palmatória: não sei por onde começar a história. Creio que ainda não mencionei, pela razão simples e facilmente esgotável de que é banal, de tão frequente: esperávamos um tripulante que se atrasou. M., o dito senhor, que esperávamos e devia ter chegado ontem às quatro da tarde, ou coisa que o valha. Depois o avião atrasou-se e a chegada mudou para as sete e meia. Até nada se não banalidades.

Depois o avião atrasou-se ainda mais e ele teve de passar a noite em Barcelona e a chegada ficou para as três da tarde. Depois o avião atrasou-se  eu decidi ir fazer bancas (meter gasóleo ou combustível numa embarcação, para quem não sabe), esperar por ele no pontão do gasóleo e arrancar logo a seguir.

Tínhamos acabado de pôr o barco num canto do pontão quando ele me telefona.

- Luís, a companhia perdeu as bagagens. - Larguei numa gargalhada da qual o rapaz - um jovem biólogo marítimo com a cara bonita e os modos suaves de genro ideal - ainda não se recompôs. Quando acabei de rir perguntei-lhe se a companhia sabia ao menos onde está o saco.

- Está em Barcelona.
- Ok, vem para bordo, eu vou voltar para a marina onde estava (a qual não tem gasóleo, por isso preciso de ir para a outra).

Tenho sorte com a tripulação, com o barco, com o armador, com o tempo. Não são um dia ou dois perdidos que me farão mudar de opinião.

Começa por que seria necessário poder-se perder tempo em La Coruña. Não é.

Diário de Bordos - La Coruña, Galiza, Espanha, 06-09-2015

Estou de novo en La Coruña, cidade que trago no coração e em cada papila gustativa, cidade amável e degustável como nenhuma. A vaga de sorte continua: S., o Hero 107 que aqui venho buscar e levar para Copenhaguen é um barco soberbo, o tipo de embarcação que eu gostaria de ter: sólido, simples e bonito (estou a falar de um barco, não da senhora por quem acabarei por me apaixonar). Só é preciso ver como navega: T., o armador vive nele há seis anos e de per si reconhece que “tem coisas a mais”. O barco está a abarrotar como um ovo de galinha com um embrião de avestruz lá dentro. Mas é bonito e simples e eu aposto que vai navegar bem e também aposto que quando chegarmos à Mancha as previsões não se confirmarão e não teremos Leste até à Holanda, onde vamos parar um dia ou dois.

T. é um norueguês delicioso, simpático, que vive e sempre viveu sozinho e já fez tudo, desde marinheiro na Marinha Mercante até electricista na televisão norueguesa. Não é um marinheiro; vive no barco há seis anos mas ontem quando levei os mantimentos para bordo – para uma semana e contado curto, ando poupado como se estivesse amarrado a um elefante – disse-me que nunca tinha embarcado tanta comida de uma vez. “Normalmente compro comida para dez horas e quando chego vou comer a terra”. “Normalmente” deve referir-se à meia dúzia de viagens que fez com o S.: nestes seis anos viveu três na Irlanda, um no Porto e dois em La Linea, ao lado de Gibraltar. Para vir de La Linea aqui parou em todas as árvores do caminho.

É uma simpatia de pessoa, encantadora, da minha idade que se prepara para ir passar uns anos à Noruega a fazer um refit do barco. E provavelmente carregar as baterias da saudade. Por muito que goste – e gosta muito – da “Ibéria” deve estar com vontade de voltar à sua aldeia perto de Bergen. Quem o ouvisse falar do seu país pensaria que é habitado por seres humanos e não pelas máquinas frias, racionais e bêbadas que imaginamos.

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Conversamos imenso e ontem arrancou-me a história da minha “namorada” de Soleure. Namorada vai entre aspas porque só a vi meia dúzia vezes, talvez menos; e porque eu tenho pena, muita pena. Já aqui contei a primeira parte da história: o meu encontro com uma jovem guitarrista em Rijeka.

Eu estava a chegar de uma das minhas excursões pela Itália e pela então Jugoslávia. Regressava à Suíça, ou seja com pouco dinheiro, situação rara e recentíssima em mim. Em Rijeka encontrei uma rapariga a tocar viola numa praça. Estava sozinha. Aproximei-me para a ouvir enquanto esperava o autocarro e passado um quarto de hora ela perguntou-me para onde ia.
- Para a Suíça – respondi.
- Porquê?
- Porque é lá que vivo.
- Eu vou para as ilhas para casa de um amigo. Se quiseres vir podes vir.

A rapariga era bonita; que fosse feia: há convites que não se recusam. Lá fomos para uma ilha qualquer cujo nome só não esqueci porque nunca o soube. O amigo não estava em casa e acabámos a dormir na praia. Cada um de nós tinha o seu saco-cama, claro. Mas antes de dormir ela teve o cuidado de tirar de maneira a que eu visse uma enorme faca da mochila e deixou-a à mão.

Passámos uns dias naquela ilha, linda e deserta, porque ainda era cedo. Eu fazia palhaçadas às empregadas do supermercado, coisa que irritava bastante a rapariga da guitarra e da faca.
- Elas não estão aqui para rir, estão para trabalhar – repreendia-me.

Acabei por vir-me embora. Olhos verdes enormes e algum jeito para a música não chegam para tornar necessária a companhia de uma estalinista paranóica na Jugoslávia de Tito, um país que já de si não me tinha atraído por aí além.

Entretanto ficara sem dinheiro de todo, claro; tive de voltar à boleia. Já não me lembro dos pormenores do regresso à Suíça. Lembro-me de que acabei em Soleure esgazeado de fome, sem um cêntimo e que era tarde. Não devia ser muito tarde porque ainda havia um café aberto; mas já não era cedo porque era o único, ou um dos poucos abertos.

Isto passa-se na Primavera. Na Suíça ainda estava frio. A fome não ajuda a resistir-lhe; a combinação de frio e fome não torna ninguém atraente. Tive sorte com o café, era o “alternativo” do lugar; tinha pouca gente, lembro-me perfeitamente.

Sentei-me a uma mesa e quando a empregada, uma italiana pequenina, morena veio disse-lhe que estava tão cheio de fome como vazio de dinheiro. Passo alguns pormenores dos quais não me lembro. Sei que ela me trouxe comida e ou cerveja ou vinho e me perguntou onde é que eu ia dormir.
- Não sei. Não tenho nenhum sítio em especial. Num parque ou na estação de comboios, provavelmente. Amanhã vou para La Chaux-de-Fonds. (O diálogo está longe de ser verbatim, obviamente).
- Se me prometeres que não me fazes mal podes dormir em minha casa.
- Claro que prometo.
- Ok, espera aí enquanto eu fecho o café.

Depois de fechar ainda ficámos ali um bocadinho à conversa, fomos para casa dela ainda a conversar e no caminho fez-me prometer que não lhe faria mal. Insistiu bastante nisso.

Em casa preparou-me uma cama na sala e foi-se deitar. Não me lembro se fechou a porta do quarto à chave ou não. Lembro-me de que adormeci muito depressa e que a meio da noite veio ter comigo. Fizemos amor. Recordo alguns pormenores que não conto, evidentemente; recordo a ternura com que o fizemos, o tempo que levámos. Quando acabámos disse-me para ir para a cama dela. Fui e preprava-me para adormecer de novo quando vi que ela estava a chorar convulsivamente.

Perguntei-lhe o que se passava. Tive de insistir bastante.

- Fui violada há dois anos e é a primeira vez que faço amor depois disso.

Ainda voltei a Soleure duas ou três vezes mas não fizemos amor. Um dia ela tinha desaparecido do café e nunca mais a vi.

4.9.15

Diario de Bordos - La Coruna, Galiza, Espanha, 04-09-2015

A Renfe está de greve. Vou de comboio até Valença e daí em diante é camionetes: primeiro até Ferrol del Caudillo depois para a Coruña. Era isto ou esperar duas horas em Vigo; prefiro espreitar Ferrol, onde nunca estive. Em Vigo já, muitas vezes e não é cidade da qual goste particularmente, apesar de a Ria ser bastante bonita.

Ando a turistar imenso, ultimamente. Quem diria que viria a gostar de ir para um lugar qualquer só porque sim? Um lugar onde não tenho nada de especial a fazer... Enfim, não é bem assim: no Porto tinha e fiz. E em Ferrol não vou ficar tempo nenhum, excepto se não houver transportes, do que duvido muito.

A verdade é que gosto do meu trabalho. Permite-me conciliar algumas das coisas de que mais gosto e ser pago para isso. Não é nenhuma fortuna, claro. Se quisesse ficar rico seria infeliz. Estes últimos meses  (ou anos) têm sido de desordem financeira. Sou péssimo a gerir o meu dinheiro e ainda pior a falta dele. É muito cansativo viver comigo mesmo, pelo menos do ponto de vista monetário. Dos outros é melhor: viajo, cozinho, bebo e escrevo sem me chatear muito. Vez por outra lá me sai uma miúda gira na rifa... Se isto continua assim não tarda apaixono-me. Já estive mais longe. É  uma perspectiva que me assusta um bocadinho, confesso; mas enfim, nunca fui homem de fugir e não é agora que vou começar. As feridas da última já fecharam e sei o que fazer para não voltar a acontecer.

O veículo no qual saímos de Vigo devia ter uma avaria e trocámos ao fim de meia hora. A mudança foi rápida e linear mas o condutor reclama e explica que não sabe se vai poder regressar hoje ainda, por causa do descanso obrigatório. Gostei da troca : tenho um lugar melhor, à frente e à janela. Na outra estava atrás e no corredor. Cada vez que olhava pela janela a vizinha pensava que lhe estava a olhar para os seios pequenos e bonitos, arrebitados. Era jovem, 22 ou 23 anos e vestia-se à anos 50. Parece-me; na verdade pouco ou nada percebo de moda. Se calhar estou a ser influenciado pelo seu ar sóbrio, austero, de rapariga pouco dada a aventuras, cabelo enrolado num carrapito como já só se vêem no cinema.

Adormeci; acordei em Santiago de Compostela. Não passámos pela catedral e parece uma cidade como outra qualquer.

A escala em Ferrol  (como isto agora se chama. Deixaram cair o Caudillo) foi curta. Deu para comer a correr um prato de carne de porco "adobada" - o adubo era massa de pimentão - e beber um copo de Rioja. Tudo isto bastante bom, por sinal, apesar da pressa. A cidade é maior e mais bonita do que esperava. Quando cheguei a Portugal, em 74, navegava muito com um senhor que preferia Ferrol (então del Caudillo) à Coruña, mas eu nunca cá vim. E a  verdade é que gosto muito da Coruña "a cidade na qual ninguém é forasteiro".

3.9.15

Diário de Bordos - Porto, 03-09-2015

Fui à Lello. Já lá não entrava há duzentos e cinquenta anos, mais coisa menos coisa. A minha memória é fraca (em todos os sentidos que o adjectivo pode ter quando aplicado à memória, uma coisa já de si falível e duvidosa) mas desta vez funcionou. Lembrava-me de uma livraria muito bonita e má e reencontrei exactamente isso: uma merda de uma livraria linda como tudo.

Queria um livro de Marguerite Duras em francês. Um qualquer. No outro dia sonhei que preciso de ler tudo dela, tudo: reler o que li e ler o que não. Como o hotel que generosa e modicamente me acolhe é perto fui à Lello. Paguei os três euros de entrada - medida que me parece sensata e ao que parece resultou - e pedi a um jovem barbudo (isto agora é uma redundância, estúpida moda) o que tinham de Marguerite Duras em francês. Têm um título, um, e para estudantes.

Comprei-o, mais um Hammett e um Spillane em português. Onze euros e quarenta os três. O Duras vou guardar, provavelmente, mas os outros posso deixar para a troca. Gosto de deixar livros portugueses nas trocas de livros. Uma vez deixei um sobre o rio Parnaíba na Martinique, no Marin e desapareceu logo a seguir. Uma senhora brasileira, aposto. Pelo menos parecia.

Enfim, não nos dispersemos. Os sonhos são importantes na minha família. A minha Avó iniciou uma carreira na cozinha por causa de um sonho. É verdade, uma verdade histórica (história familiar, entenda-se). Ela não sabia fazer nada, era uma senhora rica que de repente enviuvou. Detestava a sogra, sentimento que a sogra retribuía, não sei se em proporções iguais se não. Para não depender dela (sogra) a minha Avó saíu de casa - propriedade dela (sogra) - e foi para casa de uns amigos pensar no que ia fazer. Um dia num sonho apareceu-lhe Santo António, que lhe disse:

- Filipa, o teu futuro é a cozinha.

A minha Avó comprou um livro de cozinha francês - ela tinha tido um cozinheiro francês até aos dezoito anos, ou coisa que o valha, quando o pai ficou arruinado - e aprendeu a cozinhar. Quando achou que sabia - os provadores eram os empregados da quinta para onde tinha ido -  comprou um carro de bois e foi vender bolos para a praia da Nazaré. Até morrer a Senhora chamava ao Santo António "o meu sócio".

Tal é o poder dos sonhos na minha família. Eu sonhei que preciso de ler a Duras toda e vou ler. Talvez acabe a vender livros numa praia francesa, quem sabe.

Devo dizer que hesitei: La Douleur é um dos raros livros de Duras que li e de que não gostei. Mas um sonho é um sonho e a um sonho obedece-se. Ainda por cima este volume é uma edição para estudantes, vem com aparelho crítico ("Texte intégral + dossier par Marie-Sophie Doudet", diz na capa). Não sei quem é a marie-Sophie mas tenho confiança nela. De qualquer forma raramente leio os dossiers. Não sou crítico literário nem estudante universitário.

Pouco importa. Agora bebo cervejas no café ao lado do hotel. Vou deitar-me cedo. Fui almoçar ao Buraco, na rua do Bolhão nº 95. É um restaurante que aconselho a quem tiver insónias. Comi rojões e queijo da serra e bebi vinho tinto, vinho do Porto e vinho branco (este para acompanhar umas petingas fritas que um amigo tardio encomendou). Já dormi uma sesta, bebi um rum, dois enos e três cervejas e ainda estou cheio - de comida e de sono -. Daqui a pouco vou deitar-me e dormir, inch'Allah.

Se não dormir não faz mal: tenho dois bons policiais e um Duras do qual não gostei quando li a primeira vez.

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A noite está boa, nem fria nem quente; e o Porto bonito. Aquela anedota do concurso - o primeiro prémio era uma semana no Porto com todas as despesas pagas. O segundo duas semanas em idênticas condições - já não funciona. Parece que a Europa chegou aqui, finalmente. Enfim, não parece: a Europa conseguiu finalmente entrar no Porto. O cerco acabou e quem ganhou foi a cidade, outra vez.

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Amanhã vou para a Coruña. levar um barco para Copenhaguen. Depois é possível que vá à Grécia buscar um para Marselha. Estou à espera da confirmação. Copenhaguen, Grécia, Marselha, Panamá, St. Martin, em barcos bons e pago normalmente. Isto é atacar abaixo da cintura um pobre desgraçado que quer parar.

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Recuperei o meu computador, finalmente. Agora tenho de passar horas a repô-lo como estava. Não sei quando vai ser, mas sei quando não vai ser: hoje. Cada vez detesto mais mexer em computadores e invejo os dias que passei a fazê-lo: o prazer que tinha a descobrir estas porcarias é simétrico do que sinto quando não faço nada, ou do que me chateio quando não posso fugir.

Cuidado

De manhã todo o cuidado é pouco, não chega. É de manhã que dizemos às senhoras coisas que depois se revelam verdadeiras. Coisas nas quais elas acreditam. Até nós acreditamos (por isso são verdade, de resto).

Dizemos e fazemos. Imagine o leitor por exemplo  (é um exemplo) que está no Porto e vai - naturalmente - à livraria Poetria. A livraria está fechada, mas à frente há uma loja de flores. De flores bonitas, viçosas, acrescente-se. Compra uma flor e oferece-a a uma senhora. Nada a dizer. É de tarde, o dia foi bom, é natural que se compre e ofereça uma flor.

Se fosse de manhã seria diferente. O leitor saiu de casa para ir comprar o jornal e beber um café. Passa à frente da florista da esquina. Está fechada, claro. É cedo. Vai ao quiosque do senhor Mário (por exemplo) e compra os jornais diários: Diário de Notícias, Público, Negócios  (o Económico não). Lê as notícias, as crónicas. Tenta não pensar na senhora jovem e nua que deixou em casa a dormir, de barriga para baixo, nas nádegas, nas pernas, nos cabelos espalhados pela almofada. Acabada a leitura e bebidos os cafés volta para casa. A temperatura subiu, o ar está cálido, menos picante e estimulante do que há pouco. A florista abriu. O leitor entra e compra uma flor. "Como se fosse a passar pelo jardim, a tivesse colhido e fugido a correr ", diz à senhora para lhe explicar porque não a quer embrulhar.

Em casa a jovem ainda dorme. O leitor pousa-lhe a flor ao lado. Será a primeira coisa que ela verá ao acordar. Vai para a cozinha escrever-lhe um bilhete.

Todo o cuidado é pouco.

2.9.15

Pessoas: vida e superfícies

A rapariga que estava a chorar já não está. O rapaz tentava consolá-la mas de uma forma tímida, distante. Devia estar a acabar o namoro com ela.

[Não sei. Já tive uma namorada que acabou comigo enquanto chorava como uma comporta que se abre. Confesso que na altura não percebi. Agora percebo, mas pouco importa]. A verdade é que a rapariga estava a chorar, o rapaz tentava consolá-lá ma non troppo, uma amiga deles chegou e agora a miúda está sorridente e leve. As mulheres ficam bonitas depois de chorar, é uma chatice.

O rapaz tem cara de parvo, coitado. Suponho que não pode, não sabe ou não quer fazer nada a esse respeito.

A amiga chegou - o mais bonito par de pernas que vi nos últimos cinquenta anos, pelo menos nas pernas que vi vestidas (vestidas neste caso é um exagero ou um lamento) -; bebeu um café e foram -se os três embora.

Mas isto passou-se a duas mesas da minha. Era um filme mudo.

Na mesa ao lado a peça era diferente. Uma jovem senhora - meia dúzia de anos mais velha do que a anterior - fala com uma (provavelmente) amiga mais velha, feia e gorda do que ela. Deve ser o calvário das amigas mais velhas feias e gordas, ter de ouvir os dramas de amor das outras, as jovens bonitas e magras.

É um drama, um verdadeiro drama. [São colegas: a mais nova trata a outra por você e conta-lhe pormenores da família que a outra conheceria se fossem amigas]. Se tivesse de lhe adivinhar a profissão diria que é psicóloga ou médica, apesar das unhas pintadas de verde. A conversa é sobre um homem que lhe ofereceu um anel de noivado e depois (muito depois? Pouco? Não sei) não lhe respondeu ao telefone "para não pagar roaming". A mulher ficou escandalizada. [Nunca recusei uma chamada por causa dos custos de roaming. Fico contente por ver esta opção validada por uma jovem desconhecida, bonita e faladora que provavelmente ignora que quem não recusa chamadas por causa do roaming é capaz de gastar dinheiro descontroladamente nas coisas mais estranhas].

A mais velha quase não fala. A outra ocupa o espaço todo. Eu fujo dele e regresso por episódios. Agora estamos num colega que se apaixonou por ela. Tenho pena de me interessar menos pela vida das pessoas do que pelas pessoas propriamente ditas. Andam juntas, não andam?

Não são colegas. Se eu estivesse mais atento conseguiria descobrir o que fazem, cada uma delas - ou pelo menos a que fala - e qual a relação entre elas. Assim não: fico-me pela cara, muito bonita; pelos brincos, intrigantes; e pelas unhas, verdes.

Migrantes?

Não percebo o drama. Migrantes é um sinónimo bonito e conciso de Ser Humano.

"Ser" substantivo e "Ser" verbo.

Saber, aprender

Eu sei. Não o devia ter feito. É impressionante a quantidade de coisas que sei mas não aprendo.

1.9.15

Porto, uma definição

O Porto é como aquele paradoxo dos corpos: quanto mais temos mais queremos e quanto menos melhor sem eles passamos - até, claro, nos apercebermos de quanto tempo passou desde a última vez.

Jim, outra vez

- Ich liebe dich, ya lublu tibia, ti amo, amo-te, I love you, je t'aime, te quiero... Não sei em quantas línguas já menti. - Jim estava pensativo. Paola dormia no camarote de vante, para onde ele despachava as miúdas depois do sexo. "Não gosto de acordar ao lado de uma mulher", explicou-me um dia. "É de manhã que lhes dizemos mais disparates".

- O pior nem sequer é eu ter-lhes mentido. É te-lo feito sem necessidade nenhuma. Noventa por cento daquelas a quem o disse dispensavam - e dispensaram - o meu amor; as outras dez por cento nem sequer se deram ao trabalho de fingir que acreditavam.

- Não percebo nada do que me estás a dizer, Jim. O amor é uma prisão da qual há muito tempo fugi.

Jim tinha feito parte de um grupo de teatro amador na faculdade. Nunca perdeu o gosto pelo efeito dramático nem pelo solilóquio. A verdade que lhe interessa é, diz-me "a verdade ficcional". A outra é "árida e desinteressante como um espelho".

Há dois anos que é meu tripulante, há dois anos que o vejo levar miúdas para bordo como se as trouxesse do supermercado e nunca lhe ouvi o mais pequeno arroubo sentimental. Nunca o ouvi dizer amo-te a quem quer que seja, fosse em que língua fosse, de manha à tarde ou à noite.

Paola conseguira visivelmente arrancar-lhe palavras. Mas não as que ele queria.

- É a densidade, percebes? Gosto de mulheres mais pesadas do que o ar.

A analogia fez-me sorrir: entre as dezenas de mulheres que vi entrar a bordo nestes dois anos havia feias, bonitas, altas e baixas, loiras morenas ou ruivas, com ou sem sardas - mas não havia uma única gorda. É no Brasil que se chama avião a uma mulher bonita, não é? Talvez. Não sei. Vou beber café, pensar nas metáforas de Jim e começar a procurar outro tripulante. Não me apetece nada ficar aqui parado por causa de um linguista / piloto amador / poliglota apaixonado.