30.12.10

Espera

Esperar é um círculo vicioso: quanto mais se espera mais razões se tem para continuar a esperar. O problema é que não há forma de a transformar num círculo virtuoso. A espera nunca é virtuosa.

Vertigem, delícia

Aquele momento delicioso que antecede um erro inevitável.

Aquele momento vertiginoso que antecede um erro inevitável.

Incerteza

A incerteza faz parte da vida de um marinheiro como o sal da água do mar. Estávamos para sair ontem, e até amanhã provavelmente estaremos por aqui, por causa do maldito tempo; a menos claro que qualquer coisa mude e possamos sair hoje à noite. E provavelmente só sairemos a 1, porque o armador não quer passar o fim do ano no mar. Ou a 2, se a ressaca da festa for grande de mais. Quem sabe? Que importa?

29.12.10

Caminhos-de-ferro

De vez em quando sou visitado por uma dor, como outros pela Virgem Maria, e outros ainda pelo desejo. É uma grande dor, e grande chatice: reduz a nada a dicotomia tolerância / paciência que, suave e discretamente, tenho vindo a desenvolver com os anos.

Para a combater utilizo duas terapias: tomar comprimidos analgésicos em quantidade suficiente; e lembrar-me de coisas boas que me aconteceram: os seios pequenos, redondos, bem formados de ..., que nunca teve filhos e os guardou assim, duros e lindos durante muito tempo; as coxas de ..., que me apertavam tão fortemente quando fazíamos amor que eu pensava que se ela tivesse uma cãibra seria incapaz de me libertar; os lábios de ..., que me beijavam alternadamente os meus e o membro, como se quisessem contar os segredos de uns ao outro, ou vice-versa; o ventre de ..., uma planície tão lisa como o tampo de uma mesa, no qual tantas vezes galopei, mergulhei, me perdi e reencontrei.

Normalmente, ao fim de meia dúzia de comprimidos e meia dúzia de memórias a dor vai-se, e ficam apenas a intolerância e a impaciência. Para essas não há remédio. Enfim, há: o ódio a este corpo que me traíu, que todos os dias me diz, de uma forma ou outra, que já não sou imortal, já não sou omnipotente.

Não passo de maquinista na SNCF, a empresa francesa de caminhos-de-ferro. Sou-o por paixão - nunca quis ser outra coisa senão maquinista de comboios. Ainda bem: por vezes, nem os comprimidos nem os seios chegam para me fazer esquecer a dor e sozinho na minha cabine posso escondê-la. Proibir-me-iam de conduzir comboios mal soubessem, é óbvio. As pessoas gostam muito de partilhar os sofrimentos, de dizer a toda a gente que lhes dói isto e aquilo, sem se lembrarem do prejuízo que isso lhes pode trazer.

É muito raro que esta mistura de comprimidos e de corpos (ou melhor: a memória deles, que é o que me resta) não funcione. Geralmente ao fim de um dia ou dois a dor vai-se. Desta vez não é o caso: já dei três voltas e meia a todas as mulheres com quem fui feliz - devo confessar que são muitas mais do que aquelas que foram felizes comigo, mas agora é tarde. Já não posso fazer nada. Talvez se elas soubessem desta dor o fossem, não sei. Talvez a vingança seja um reconfortante. Talvez já me tenham esquecido - ; já tomei três vezes os comprimidos que o médico impôs como limite; até já pensei, o que só muito raramente me acontece, em mulheres novas, mulheres com quem nunca dormi e gostaria de ter dormido, e nada. A dor não passa.

Estou habituado a dores, reparem. Tanto as físicas como as outras, muio piores. Quando era mais novo era dado a depressões terríveis, depressões que enchiam o espaço entre os carris como se fossem um muro de betão e eu sentia a tristeza transbordar de mim para fora e a força que o comboio tinha de fazer para a atravessar, como se estivesse a perfurar um túnel numa montanha de basalto. E também estou habituado a esconder o sofrimento: não queria que me impedissem de conduzir os meus comboios pela França fora (naquela altura. Agora estou no serviço internacional e vou muitas vezes a Espanha, à Alemanha, ao Reino Unido, a Itália).

Felizmente nunca tive uma depressão e esta dor ao mesmo tempo. A verdade é que tenho cada vez menos depressões: espero menos da vida e sei lidar melhor com o pouco que dela tenho. Até com a dor aprendi a lidar; e tenho de continuar a aprender. Acabaram-se-me os comprimidos hoje. Muito em breve acabar-se-me-ão os corpos. Todos.

Aquecimento global, arrefecimento local

A malta do aquecimento global bem podia prestar um bocadinho de atenção aqui a estas bandas; parece um verão na Bretanha. Não é para isto que se vem para as Caraíbas, senhores.

28.12.10

Ensi e tal

Incógnita

Há uma coisa bonita em todas as mulheres feias (ou quase todas). E uma feia em todas as mulheres bonitas (sem excepção).

Infelizmente não é a mesma.

Casais

Uma pessoa olha para certos casais e pensa "estes dois estiveram nos lados opostos de todas as guerras desde o séc. III AC." Outros são quase incestuosos: "serão irmãos que se ignoram?"

E há os que estão algures no meio; mas esses não se vêem, vá lá saber-se porquê.

Cidades, vidas

É impressionante o quanto muda uma cidade consoante o ponto da qual a abordamos. Como uma pessoa, de resto.

Idade, tempo.

As pessoas falam muito na idade. É um tema tão interessante como o tempo ou, melhor ainda, "como o tempo está a mudar". A nossa idade é o tempo que faz hoje; não o de ontem, e muito menos o de amanhã.

Dilemas

Todos os dilemas são cretinos; ou quase todos, pelo menos. Mas uma vida sem eles é pior ainda.

Viagens, pessoas

Uma viagem é a soma das pessoas que ganhamos menos as que perdemos.

24.12.10

Karaoke

O karaoke é popular, por estas bandas. Infelizmente não noto grandes diferenças de qualidade entre uns e outros. Só posso dizer é que algumas músicas - ou melhor, alguns autores - deviam ser proibidos nos karaoke. Jacques Brel, por exemplo.

Natal

As pessoas que reclamam contra o Natal têm toda a razão: a família, a confusão, os presentes, a hipocrisia, o sempiterno jantar, as mesmas piadas, as mesmas histórias, o primo que não muda e a prima cada vez mais gorda, a cunhada que perdeu peso, como raio de carga de água é que ela consegue, e o raio do puto da ... que não se cala, e quando é que é decente ir-me embora? Bolas, o miúdo foi para o quarto com os outros vai ser impossível arrancá-lo daqui e quando é que o patego do ... aprenderá a falar mais baixo, olha-me só para este presente, se isto é coisa que se dê parvo fui eu que gastei uma pipa de massa no livro de fotografias para este gajo; olha esta é porreira, o puto não se calava há meses a pedir-me esta porcaria ainda bem que o tio lha deu, e porra, bebi e comi de mais, esta gaja cozinha bem, não há dúvida e o frio que está lá fora. O´querida, já vamos, deixa-me só acabar aqui esta conversa, que chata que estás, não não bebi nada, claro que não, só comi um bocadinho de mais, vá, espera lá mais dois minutos sim eu sei que o ... está a dormir, já vou, bolas, que chatice é todos os anos a mesma coisa.

As pessoas que têm um Natal contra o qual reclamar não sabem a sorte que têm.

Desgraça

O NRP "SAGRES" chegou hoje a Lisboa depois de uma viagem de circumnavegação. A viagem foi feita pelos dois canais (Panamá e Suez) no "bom" sentido: não houve latitudes extremas, não houve passagens difíceis. Uma viagem banal - ou melhor, que devia ser banal. A chegada foi festejada com escolta de veleiros, presença do CEMA, cerimónias e não sei que mais.

O facto de Portugal estar hoje a celebrar esta viagem é um sintoma da desgraça a que chegámos.

À atenção de quem de direito

"Jésus était-il fou?"

Mais do mesmo

É desesperante ler a imprensa portuguesa. Não há a mais pequena impressão de que o país se prepara para qualquer coisa de diferente. Mais do mesmo. Nem debaixo de uma tempestade, com rochas pela proa os portugueses acham que se deve mudar de rumo.

Luar

Demasiado direitos, os caminhos do luar. A lua não percebe nada das diferentes formas do cansaço. 

23.12.10

Festas felizes

O Don Vivo deseja a todas e todos os seus leitores um Natal Feliz, perto da família e das pessoas queridas.

22.12.10

Prazeres da vela

Ver a lua cheia nascer atrás de uma cobertura de nuvens e, ainda muito baixa aparecer entre o estai e o mastro, redonda, luninosa,  cheia de parecer que vai explodir. À chegada a Marigot Bay (St. Martin) não havia um único farol, bóia ou luz de navegação a funcionar, e este pequeno momento de lua a indicar-me o caminho  vai ficar-me na memória muitos anos.

Dar um toque na escota de uma vela e ver a velocidade aumentar meio nó.

Chegar de noite sem cartas a um porto onde se esteve uma vez e lembrar-nos da entrada como se lá tivéssemos vivido.

A cumplicidade que se estabelece com uma cidade onde se chega de barco, única, sem comparação com a relação que temos quando chegamos de automóvel, avião ou comboio.

Fundeadouros

Uma vez resolvidas as questões óbvias, e técnicas, da tença dos fundos, da exposição aos ventos e da facilidade de saída em caso de mau tempo, um bom fundeadouro deve:

a) Ser calmo, sem ruídos de automóveis, bares, bandas de música;
b) Ter pouca, ou nenhuma ondulação residual;
c) Estar perto de um local de desembarque.

20.12.10

Queen show

Isto está a decorrer mesmo debaixo da janela onde este vosso scout se esforça, com custo e penas, por encontrar locais aprazíveis para vos guiar quando for a vossa vez de vir a estas bandas. Acreditem se quiserem, mas há aproximadamente trinta pessoas a ver, o que é uma manifesta injustiça para a senhora que está neste momento a falar, a qual não devia ter mais do que uma, e uma só pessoa a olhar para ela, em admiração e acção de graças quotidianas, de manhã à noite.

PS - e se alguém voltar a ouvir-me dizer que as senhoras de St. Kitts são obesas, ou feias, ou as duas: chibatadas, imediatamente. Tantas quantas o peso de cada uma destas senhoras subtraído, digamos, de 50.

PPS - a audiência aumentou para o dobro. A minha primeira observação sobre a lentidão dos Kittitians permanece válida. Ao menos essa. 

Quando eu for grande...

...também serei capaz de fazer uma descrição de jantar como esta:

"Não aprovo as alterações climáticas; já o aquecimento central, esse é-me simpático"

O cu e as calças

Pode ser que eu esteja enganado, e até pode ser que na prática isto se revele uma boa notícia. Mas assim a priori parece-me que o nosso Sócrates continua, pobres de nós, a confundir o cu com as calças, como diria um tio meu que já morreu, ou José Germano com género humano, confusão frequente. Se a legislação continuar a exigir absurdidades, que diferença faz as inspecções "rigorosas" serem feitas antes ou depois da empresa estar criada? O problema - pelo menos na minha área, a náutica de recreio - é a absurdidade das exigências, a dificuldade de iniciar a actividade provém daí. Tal como os custos absurdos e inúteis. É por aqui que devia começar, mas.

Muito gosta o homem de dar voltas ao penico.

"José Sócrates anuncia dois novos programas de modernização administrativa"

Países

Um bom critério para se escolher um país para viver é uma pessoa não se sentir culpada, triste, desapontada, frustrada ou exasperada por não ter ninguém em quem votar.

Mais uma história com galinhas e tubarões (um de cada)

A galinha decapitada precisava de amor, coitada; meteu-se nos braços de um tubarão - lixou-se, claro (literalmente: já houve tempos em que a pele de tubarão era usada para fazer lixa). Mas a pobre da galinha decapitada não sabia isto. Conheceram-se numa tasca chinesa de S. Kitts, um sítio feio, tão feio como os mais horrendos que ela teria visto, se ver pudera. As paredes eram verdes, uma cor indefinível algures entre o verde alface e o verde vómito de marciano; a iluminação, de néon, violenta e abundante, enchia o espaço de uma forma violente, quase sólida; a decoração era constituída por quadros chineses de flores cuja função era demonstrar que para lá do kitsch, do mau gosto e da fealdade ainda existe vida. Mesas em fórmica e chão em cerâmica cinzento claro com algumas formas brancas, escavadas completavam o cenário. Os clientes eram da mesma ordem - com excepção do tubarão, que sobressaía. Mas a galinha não podia ver, claro - perdera os olhos ao mesmo do que a cabeça, coisa que acontece muitas vezes, note-se, e não só a galinhas decapitadas, que os amigos do professor Damásio me perdoem. Bem apessoado, alto e magro, de óculos escuros mesmo à noite, estava sentado numa mesa de canto, e bateu palmas mal viu a Coisa - era assim que ela se auto-designava - entrar.

Na mesa dele estava uma senhora com um rabo enorme, daqueles que levam gerações a construir. Começava a meio das costas e acabava a meio das coxas; parecia que estava grávida atrás, ou que alguém he tinha colado uma meia-lua à parte traseira do corpo. Haveria alguma coisa entre eles? Nunca o saberemos.

Mal viu a galinha entrar o tubarão pensou "tenho pequeno-almoço amanhã". Enganava-se. Quem serviu de pequeno almoço foi ele, e todos os dias. Ela fazia o que queria dele. O tubarão não estava contente, claro - tinha entrado naquilo para comer e estava a ser comido, ainda por cima por uma galinha que nem aos amigos podia mostrar.

A história durou muito tempo. Até um dia a galinha descobrir que afinal o amava e lho dizer: "amo-te". Encostou-se a ele e lixou-se. A vida de casal acaba sempre mal.

19.12.10

Retratos

M. vai no terceiro divórcio, o que não me surpreende. Espantoso é ele ter conseguido casar-se três vezes.

Altruísmo e altruísmo

O Combate de Blogs organiza um concurso no qual os prémios são decididos por votação do público. Até aqui tudo bem. Depois, comecei a ler posts nos quais se fazia menção a uma coisa (de que desconhecia a existência) chamada "rotativa de IP" que permite a uma pessoa votar várias vezes usando diferentes IP. As coisas começam a cheirar um bocadinho mal: por amor de Deus, isto nem a feijões é.

Hoje li um post que me deixou, agora sim, siderado: já nem sequer é o autor do blog que promove a fraude (há muitas pessoas nos blogs em quem tenho inteira confiança, e o autor do Terceira Noite é uma delas), mas sim terceiros. Que motivação mais estranha (e triste, de passagem seja dito) para a desonestidade, o altruísmo anónimo para uma nomeação de "Blogger do ano", num concurso promovido por um programa de televisão chamado Combate de Blogs".

(Via a Barbearia do Senhor Luís )

16.12.10

Publicidade caseira

A partir de agora, o S/Y "ANTIROUILLE", um Athena 38, recebe passageiros por 100 euros /dia. Há um mínimo de 3 passageiros durante 7 dias (o máximo é 6 passageiros, e há um desconto para estadias acima de 7 dias). O preço inclui o barco e o skipper (este vosso dedicado e motivado escriba, melhor skipper do que escriba, de passagem seja dito, mas isso é outra história). Não inclui a alimentação e as despesas de gasóleo e portos - reduzidas, nestas bandas.

As partidas podem fazer-se de qualquer ilha entre St. Martin e Grenada, e as chegadas idem - os portos de largada e chegada não precisam de ser os mesmos.

Informações, como sempre, em Lserpa@amaromar.com.

15.12.10

Analogia, vontade e cauda do pelotão

No mar, quando dois navios estão em risco de colisão, quem não tem prioridade (quem não tem "águas") deve desviar-se. Contudo, o desvio deve ser franco, 30 a 40º no mínimo, mesmo que 5º sejam suficientes para evitar a colisão. Isto porque devemos dar um sinal claro ao outro de que o vimos, e 5 ou 10º não são suficientes para tal.

Pergunto a mim mesmo se Portugal não devia fazer a mesma coisa - mudar franca e claramente de rumo, para que seja visível a nossa vontade de sair da cauda do pelotão.

Enfim, seria necessário haver vontade, claro.

"E querem ter crescimento económico?"

Não é propriamente uma novidade...

14.12.10

Impostos

A carga fiscal em Portugal tem vindo a aumentar, mas mesmo assim ainda é comparativamente baixa, diz-nos o Governo.

Mente, claro - nunca é preciso acrescentá-lo a seguir a "diz-nos o Governo". A verdade é que para além das taxas fiscais que todos conhecemos e estão quantificadas - IRS, IRC, IVA, IMI, taxa sobre as p... que pariram quem nos e com elas se governa, etc (não as conheço todas, felizmente - refiro-me às taxas) há uma carga fiscal sistematicamente esquecida, mas que devia ser mencionada cada vez que se fala disso em Portugal - refiro-me aos montantes que os diferentes serviços, organismos, institutos e antros em geral cobram para fazer coisas que lhes compete fazer e para as quais recebem fundos do Estado - provenientes, claro, do nosso trabalho.

Hoje, por exemplo, o IPTM (Instituto dos Portos e Transportes Marítimos) cobrou-me 70 euros para fazer em dois dias aquilo que por 35 faz em dois meses (não é um jogo de palavras, ou de aritmética, é assim); e a Escola Náutica Infante D. Henrique cobrou-me 50 para emitir um certificado a certificar que eu lá estudei. Isto hoje, um dia, um só - 120 euros que deviam constar de todas as estatísticas sobre a carga fiscal nacional.

Estas e outras ao fim do ano dão um montante lindo, que não entra no cálculo da carga fiscal nacional, mas entra-lhes nos bolsos, nos automóveis e nos jantares "de representação".

Reclamação

Cada vez mais vejo "inteligência" por "informação", e "adição" por "vício", ou "dependência". Fica aqui lavrada a minha reclamação contra anglicismos completamente dispensáveis.

13.12.10

Princípios pedagógicos

"Pensa por ti, sempre. Quando vires mais de duas pessoas a dizer a mesma coisa desconfia - e não digas o mesmo que elas só porque são duas, dez ou mil. Sê tu, só tu. Concorda quando tiveres que concordar, e não tenhas medo de discordar, ainda que sejas o único no meio da multidão. Por muito que te doa, por muito solitário que te encontres por vezes, faz da tua voz a tua voz, e não a dos outros, sejam eles quem, ou quantos forem."

Creio que fui ouvido. É a única coisa que conta, a única coisa que por cá deixamos, a única que me faz correr. Ou melhor: as duas únicas.

Matillhas, cheiro a sangue e bom senso

Não sou, nunca fui, de matilhas, cardumes ou manadas, e não me arrependo (de qualquer forma agora seria demasiado tarde para mudar, portanto mais vale continuar como sou). De todas as formas de matilha, a que mais me horripila é quando estão em causa crimes hediondos, como o do assassínio de uma criança de 4 anos, e a populaça, a canalha, a rasquice se junta para condenar, antes de qualquer julgamento ou prova ou seja o que for, a b ou c. Pessoas que estão, aposto, prontas a abanar a cabeça consternadas quando o tema são os crimes da Inquisação acusam alegremente quem lhes apetece, pelas razões mais absurdas.

No caso de Madeleine esta atitude parece-me tão mais grave quanto os acusados são os pais da criança (não sei se foram eles se não foram, mas aposto que se foram não vão aguentar para sempre o peso da consciência). A partir deste título "WikiLeaks: Polícia britânica suspeitou dos pais de Maddie McCann", já por aí andam as mais descabeladas acusações. Como se não fosse obrigação da polícia desconfiar de qualquer pessoa que tivesse a possibilidade de assassinar a criança.

É exactamente para isso que a polícia existe - para suspeitar de todos os possíveis criminosos. Mas há uma diferença muito grande entre "suspeitar" e "ter provas". Talvez não fosse má ideia a matilha lembrar-se disso. E como é impossível uma matilha fazer essa distinção, pelo menos algumas das pessoas que a compõem deviam fazê-la.

Timing

É compreensível que se faça isto agora, por um lado porque só há aproximadamente 50 anos devia ter sido feito e, por outro, porque os mercados estão francamente em alta (sem jogo de palavras).

"Aviação: Privatização da TAP pode arrancar no primeiro trimestre de 2011 - Fernando Pinto"

Voltar?

"Portugal pode voltar à prosperidade?"

A esquerda e a direita

"Precariedade, precariedade, precariedade".

Este artigo seria uma boa resposta indirecta a estoutro: a verdadeira pergunta não é "Porque (ainda) ganha a direita?" mas "Porque ainda ganha a esquerda?" Acontece que as pessoas não são estúpidas e suportam um determinado grau de verdade - ainda que, infelizmente, para isso tenham de passar por momentos, ou anos, de esquerda.

"De verdade" é propositado: a esquerda está protegida do real por uma gabardine ideológica, e qualquer pingo de realidade que lhe caia em cima é rapidamente afastado por um "efeito Perl". Há muitos anos (vai para 30) um amigo meu dizia que os músculos dos africanos têm mais fibras musculares do que os dos brancos; não sei se é verdade se é mentira, e pouco me interessa. O que é relevante é que a minha namorada da altura, de esquerda que era, achou escandaloso porque viu naquilo uma justificação de tudo, desde a escravatura até  ao assassinato de Luther King (o meu amigo era americano, e estava a explicar porque é que havia mais negros a ganhar maratonas do que brancos, pelo menos na altura). Repito que não sei se é verdade se não, e não é isso que é relevante.

O que é relevante é que ela não contestou a veracidade ou falsidade da afirmação. Tal não lhe ocorreu sequer. Edward Wilson passou as passas do Algarve - não porque a sociobiologia fosse contestada, mas porque não estava de acordo com os óculos cor-de-rosa da ideologia dominante. Recentemente apareceram medicamentos nos Estados Unidos que têm efeitos diferentes consoante a pessoa é negra ou branca - e a contestação não passou, claro, pela veracidade dessa diferença, mas pelo "racismo" que lhe está "associado". Mais ou menos na mesma altura em que o meu amigo Mark se fazia verberar por causa das fibras musculares eu perguntava à minha namorada porque acreditava ela que o espírito era diferente da carne. Ela respondia-me que não acreditava num espírito separado da carne. "Então porque achas que as mulheres não são diferentes dos homems? Achas que as diferenças físicas não têm equivalentes mentais? O cérebro é uma categoria à parte, e aquilo que faz uma mulher diferente visualmente de um homem não age nas células cerebrais?"

Hoje as perguntas são diferentes, claro; mas cada vez abomino mais a esquerda e a sua incapacidade de olhar para a realidade como ela é, sem a carregar de categorias que lhe são completamente alheias. Infelizmente cada vez mais me parece inevitável uma versão ocidental do Yin e do Yang: a esquerda ganha eleições, e a direita também, porque ninguém pode viver permanentemente no mundo de faz de conta, e porque todos precisamos regularmente de um bocadinho de faz de conta.

Adenda - nem de propósito, um magnífico exemplo da relação da esqerda com a verdade: "Under Danish jurisprudence it is immaterial whether a statement is true or untrue. All that is needed for a conviction is that somebody feels offended." (Via Insurgente)

12.12.10

Quase quase

Da última vez foram precisos dois quases, ou três, não me lembro, para fazer um sim. Desta vou em dois - amanhã saberei se foram suficientes.

6213, momento meta, ou: Obrigado, Blogger!

Comecei por pensar que 6213 era um número primo, mas não é: a soma dos seus algarismos é múltiplo de 3, portanto é divisível por 3 (o resultado é 2071, para quem não tiver o telefone ou a vontade à mão).

6213 é também o número de posts do Don Vivo. Queria celebrar os números redondos, mas falhei o 6000, o 6100 e o 6200. Aposto que vou esquecer-me de todos, incluindo o 6666, daqui por mais meia dúzia de meses. Desses, muitos são fotografias (aparentemente indispensáveis), poemas medíocres (idem) ou músicas, que não deviam fazer parte do cômputo, mas fazem. Que me lê regularmente sabe que não gosto muito do que escrevo - parece-me, de uma forma geral, fraco e piegas - mas que gosto de o escrever, quanto a mim a principal razão para se ter um blog.

Quando alguém me diz que gosta do que escrevo agradeço empenhado, e por vezes constrangido. Por mim, há uma coisa no DV, e só uma, da qual gosto - é a independência. Escrevo o que quero quando quero como quero, tal como faço tudo o que faço. 6213 manifestações de independência - não é muito, mas é muito mais do que pensava quando o comecei; e muito menos do que, agora, espero.

Não escrevo para, escrevo por: é formidável.

Preces

Não sei se já alguma vez olharam bem para uma marina à noite. De preferência uma noite sem vento, e sem lua. A maioria dos cascos das embarcações é branca, e reflecte-se perfeitamente na água. Os mastros e os brandais, também eles brancos, formam uma massa que à primeira vista parece caótica mas na qual, muito rapidamente, conseguimos pôr ordem, distâncias e dimensões.

A água está imóvel, os cascos e os mastros também; a noite é escura e silenciosa. A imagem de uma catedral surge, inevitável como todas as catedrais. E de repente apercebemo-nos de que aqueles barcos estão ali de joelhos, a rezar para que alguém os deixe sair para o mar.

"Il n'y a jamais assez de mer pour les visages aigus des bateaux", como escreveu Le Clézio.

Música, memória

Cat Stevens canta Sad Lisa. Há bocadinho pensei numa música qualquer, mas já não me lembro qual. Oiço o Sad Lisa, que é da mesma altura. Mas a que eu queria ouvir era francesa. Que se lixe. Esta dancei-a, muitas vezes. A francesa não. De quem seria?




Penso no Reggiani - Ma Liberté. Mas não era.



E tão pouco era Moustaki, Ma Solitude.



Não me lembro. Melhor seria escrevê-la eu - pelo menos teria uma razão para a esquecer.

Devaneios simples e lhanos de sábado à noite

A mulher é feia, e tem um rabo exponencial - em tamanho, não em qualidade. Já me cruzei com ela várias vezes, sempre acompanhada do marido, que tem mais vinte anos do que ela e uma cara de beauf, ou de Français moyen como já não se fazem senão no cinema, ou na banda desenhada. Não pára de olhar para mim, por cima dos ombros do homem. Há pouco disse-lhe claramente que não: abanei a cabeça e abri bem os olhos. Ela respondeu juntando os lábios - ao princípio pensei que fosse para simular um beijo; só depois me apercebi do que era.

Noutra mesa um tipo suja a t-shirt e manifesta-se ruidosamente. É uma mesa grande, uma tripulação de charter ou de um barco de regata. Devem ser daqui, pois estão queimados pelo sol. Algém diz "fazer leme à popa é difícil, mas para mim é o mais interessante". Discordo silenciosa, educadamente. Fazer leme à popa é uma seca. Interessante é a bolina; e a um largo excitante. "Nem tudo o que é difícil é interessante", penso. "Mas tudo o que é interessante é difícil". Será? Não sei.

A mulher do rabo grande fala com o marido. Sei que é o marido porque os vejo sempre juntos. No outro dia foi no correio, e antes disso no centro comercial. Na outra mesa alguém faz anos e canta-se os parabéns a você. O jantar chega ao fim. Peço a conta; é mais barato do que eu pensava.

Nada disto aconteceu - o jantar resumiu-se a uma coxa de frango grelhada e uma cerveja. Não houve rabos grandes nem parabéns a você excepto na mente de um senhor gordo e ligeiramente careca que jantava sozinho numa mesa à frente da minha.

Karaoke, vida

Não sei o que é pior num karaoke: se escolherem boas músicas e cantarem-nas horrivelmente, se más e cantarem-nas bem.

(Qualquer dos casos me parece uma boa alegoria para a vida, o que é chato.)

Neguentropia

O tempo passou por aqui e fez os habituais desgastes. A neguentropia é, ou devia ser, uma ilusão.

Zanzibar

[Nota prévia: devia ser proibido chamar Zanzibar a um bar.]

Está um calor opressor, pesado, abafado. Regularmente chega-me o sopro da ventoinha. Na baía o movimento de luzes é grande: encarnado dos que entram, verde dos que saem (menos), branco dos fundeados. As luzes contrastam com o negro profundo, absoluto, da noite. "Parecem almas penadas", penso. Para logo acrescentar "quem me dera ser uma delas".

Em breve será Natal, a época do ano que melhor compreendo e mais detesto. É quando se fecha o ciclo que se definem as pertenças. Ela por ela, prefiro a Páscoa, que o abre, e é menos exigente.

Vim beber - finalmente - um copo de vinho ao Zanzibar. Em breve terei de me ir embora. Isto é um bar de karaoke, e ainda me lembro do de Cayenne, Deus me acuda. O vinho é assim assim, e custa a mesma coisa que um ti'punch "vieux". Gosto mais dele novo: o contraste com o açúcar, e essas merdas todas. Mas apetece-me beber vinho, e olhar para a baía, mesmo que através de grades, e sabendo que é um breve intervalo. Como a luz de um farol, útil porque acende e apaga. Se estivesse sempre acesa seria inidentificável; apagada, não serviria para nada.

11.12.10

Exercícios

Pode estar-se demasiado triste para morrer, mas não demasiado morto para estar triste; o que demonstra a superioridade de "morto".

Paradoxo

A verdadeira questão, claro, é saber se a expressão "condenado à liberdade" é um paradoxo.

[Exercício 1: usar "liberdade" como eixo paradigmático e ir substituindo por outros termos.]

Fragilidades

Estou  no mar "desmontado" (é um galicismo) e penso que um homem é feito pelas suas fragilidades, muito mais do que pelas suas forças.

Prisões

Estou numa sala feita de aquários e vento e penso que prisões são quando um homem quer, e as que quer. 

Tempo

Não é boa ideia "dar tempo ao tempo": "Time is a fake healer, anyhow", como dizia Malcolm Lowry, que sabia de fake healers.

Reedição - Culpas

Culpa - III

"Não te fiz amor. Desculpa. A última vez que mo pediste dançavas em cima de uma mesa, na festa mais alucinante que jamais dei. Eras branca, inteligente, eras um desafio e eu não queria senão a facilidade, o efémero. Há muito que tínhamos perdido o medo das granadas; lá fora, uma dúzia de soldados totalmente bêbados dormia, as kalashes entre as pernas, a apontar para o ar. Não eras muito bonita, repara, mas eras atraente: o teu charme era o olhar, era a dança no tampo da mesa, era o grito mudo que me dizia vem vem vem. Não fui. Hoje não sei se fiz bem. Pouco interessa. Já não interessa. Mas não consigo, repara, após todos estes anos, esquecer-te. Não quis fazer amor contigo porque sabia que a seguir ao amor viria uma amizade, e atrás da amizade um amor e atrás do amor um inevitável adeus.

Há muito que não acredito nas virtudes mágicas do coito, há muito que não acredito numa vida para lá do sexo, há muito que não acredito numa vida para cá do sexo. Nessa altura acreditava em tudo isso. E só pensava em evitá-lo."


Culpa - II

"Não me lembro do teu nome. Desculpa. Hoje, sabes, ainda hoje lamento não te ter amado. Tu merecias: fizeste-me as melhores felações da minha vida, fizeste-me o melhor amor da minha vida, fizeste-me o melhor sorriso da minha vida, e se calhar, não me lembro, o melhor jantar também. Lembro-me, repara, perfeitamente de ti: pequena, negra como um dia sem amanhã, bonita e ágil, inteligente e viva, viva, fresca e ligeira. Lembro-me da culpa que senti quando não te fui buscar a casa como te prometera, e lembro-me de ter sentido que tu interpretarias isso como o que de facto foi. Lembro-me de me ter sentido cobarde, coisa que não sou: sou um urso, sabes?, um grande e desajeitado urso culpado, um urso no verdadeiro sentido do termo. Tu não: eras pequena e ágil e enrolavas-te à minha volta como uma gazela à volta do medo, e eu, urso que era e sou, não me apaixonei por ti perdidamente, não te pedi em casamento, não te ofereci todas as flores do mundo, porque nessa altura eu tinha a mania que era monógamo e que fazer-te amor não era fazer amor, era outra coisa, cujo objectivo era só fazer de mim culpado e fazer de mim um urso, que era o que sou. Uma vez, lembras-te, levei-te a um restaurante bom, na cidade em guerra. Tinhas lá ido muitas vezes, com o teu antigo namorado, um alemão que fugira - o teu termo é "que se foi embora" - quando a guerra começara. Mas tu estavas alegre e fresca e contente como se fosse a primeira vez que foras àquele restaurante, de onde se via a cidade toda, mas não se via a guerra - se bem que tivéssemos de passar por ela para lá ir, e eu vi que estavas com medo, por causa do teu nariz achatado e dos teus lábios grossos mas depois passámos a área perigosa e tu respiraste outra vez, e riste com o melhor riso da minha vida, e a cidade estava em baixo, com poucas luzes mas cheia de ti. Não me lembro do jantar, mas lembro-me de ti e da culpa que sinto por não me ter apaixonado por ti."


Culpa

"Se eu quisesse, enchia-me de culpa. Ainda mais culpa, isto é. Se eu quisesse, seria um saco de culpa, um contentor de culpa, um deus de culpa. Já o sou, sem querer... Imagina se quisesse. Nem tu me demoverias, tu que tens sempre razão, sempre. Nunca vi ninguém com menos torts que toi. Tu as toujours raison. C'est invraisemblable: l'on dirait qu'avoir raison fut fait pour toi, pour toi seule. Et avoir tort, naturellement, pour moi. Que beleza, tanta simetria: tu tens sempre razão, eu nunca, nunca. Não é força de expressão, é uma descrição lhana da coisa: tu tens sempre razão, eu nunca. Não me saiu na rifa, que queres, não ganhei razão na lotaria, não a aprendi na escola, não a obtive no guichet da assistência social, não ma deram de bónus nos milhares de empregos por onde passei até hoje. Por isso me posso encher de culpa tão facilmente, ao contrário de ti ..."

Stormy monday

Nunca fui um fã "incondicional" de Dee Dee Bridgewater. Mas oiçam e vejam isto e digam-me se não estava enganado:

Diferenças

Diferenciar o silêncio do não dito é difícil, e só muito tarde o aprendemos.

10.12.10

Bloguengates, videogatos

Caro Paulo, aqui tem instruções bastante completas para atingir os seus fins.



(O video vem de O Canhoto, via Poesia Incompleta)

Barda coisas

O comentário que foi para o spam "porque é disso que se trata" era: "Então vá à neo-bardamerda. Bardamerda porque sou dado a reminiscências e tenho idade para isso" (e era uma resposta a "Caro Luís Serpa, sou um verdadeiro e perigoso neo-sionista. Neo por ser um moço novo").

Não é por nada, e esta porcaria destes debates blogocoisos até me chateia, mas ou há moralidade ou spamam todos.

PS - E-mail recebido hoje de Rui Carmo:

"Muito boa noite.

Caro Luís Serpa,
antes de mais, desculpe incomodá-lo.
O post que comentou, foi uma reposta a um post-lixo que creio também comentou (e bem) n'O Insurgente e ao qual nem desejo referir.
É mau sinal quando a "ironia" se tem que explicar mas gostaria que lesse os links que fiz e caso se dê ao trabalho de ler os meus post's, verá que sou um orgulhoso amigo de Israel.
Raramente exerço censura mas o que escreveu -embora percebesse a sua razão - acaba por ser destruidor de qualquer "conversa" na caixa de comentários.

Aceite as minhas desculpas. Abraço,
Rui Carmo"

Caso encerrado.

Entre Cila e Caribdes

Noite, vida

A noite e tu e a noite em ti e em ti a vida fazem de ti a noite, de ti a vida, da noite e tu a vida sem ti nada.

Mar, faltas

O mar é uma mistura de sal, sol e sul; falta o sel e o sil, e faltas tu.

A vida é uma mistura de letras: sal e mar, sol e tu. Falto eu, perdido nas palavras em que tu não estás.

Como se as faltas fossem o vento da vida, e o mar o amor, e o sal tu, o sul tudo.

9.12.10

Prazos

Dois anos e meio para desbloquear 91,000 euros de apoios por causa de mau tempo. Poder-se-ia pensar, ao ler isto, que o Estado português é lento, ou indiferente aos seus governados. Não é verdade. Quanto tempo demoraria a mesma quantidade de euros a ser desbloqueada se se tratasse da compra de um automóvel, ou da contratação de um assessor?

"Mensagens de África"

África a mudar sob os nossos olhos incrédulos, aqui.

PS - Isto dito, penso que enquanto o Ocidente não liberalizar as importações agrícolas, não tem qualquer espécie de autoridade moral para criticar seja o que for em África.

A ler

"Uma única medida resolveria porventura o grosso dos problemas da Humanidade: o fim dos subsídios à agricultura na Europa (extinção da PAC) e nos Estados Unidos. Estamos a falar de largas dezenas de biliões de dólares que vão engordar uma minoria que não chega a 3% da população (não consigo compreender a força deste lobby)."

O todo aqui.

A força do lobby da agricultura parece-me fácil de compreender (o que não o torna aceitável, claro): tem a ver, creio, com atavismos, resquícios, saudosismo - mesmo inconsciente. O homo urbanus é demasiado recente.

Mahler

Caravanserai

Estava deitado de costas na areia escaldante e dizia "sou o deserto" em vez de "estou no deserto"; ou talvez "sou um deserto". "Sou o deserto" e aquele artigo definido enchia-lhe o campo de visão, o sol o céu sem núvens sem cores sem nada. "Sou o deserto". A areia queimava-o cada grão era um "o" de "sou o deserto". Queimado nestes grãos artigos definidos dunas nos raios afiados do sol nas noites gélidas nas ausências, nas ausências.

"Serei o teu caravanserai", respondeu-lhe uma águia ruiva que por ali passava, distraidamente.

O ar do deserto é leve e queima tanto como a areia pesada e quente do deserto e a distância "sou a distância e o que fica entre a distância e a vida" dizia enquanto olhava para cima deitado de costas na areia e não via nada senão distância, não sentia nada senão distância. O deserto é a distância uma ondulação um par de braços abertos infinito como o futuro de um condenado à morte as portas fechadas o deserto e "eu sou o deserto, eu sou o deserto".

Até que finalmente ninguém o ouviu e nesse dia choveu no deserto e as portas do caravanserai abriram-se, elas que tinham estado fechadas para sempre.



8.12.10

Teorias da conspiração, inveja e emendas

Por razões que não vêm agora ao caso resolvi mudar radicalmente este post. Mas a ideia que lhe estava subjacente - a de que o desleixo e a incompetência explicam uma grande parte da má qualidade da legislação portuguesa, mas não a explicam, nem de longe, toda - continua, claro.

Isto dito, é preciso acrescentar que, se a classe política em Portugal se porta como se porta, a culpa não é dela. Ninguém cede voluntariamente poder, ou as benesses que dele advêm. Não é por altruísmo, civilização ou sentido do dever que os políticos suíços, alemães, nórdicos servem realmente os países deles - é porque a isso foram obrigados. Basta ler Selma Lagerloff ou Knut Hamsun.

Tal como a aversão ao risco dos, passe o oxímoro, investidores portugueses. Numa economia menos politizada, menos estatizada e mais competitiva os nossos investidores seriam iguais a quaisquer outros. É provável que o ADN português tenha mudado desde o século XVI; mas é pouco provável que tenha mudado assim tanto.

Hoje somos um país de cobardolas; João Távora, aqui, foi o primeiro a dizê-lo (pelo menos que eu tenha lido) claramente na blogosfera. Mas isso é hoje - grande parte das Descobertas e da e Expansão portuguesas foi financiada pela iniciativa privada.

Ao contrário do que gostam de pensar, os portugueses não vieram de outro planeta. Ponham um português na Suíça ou na Alemanha e em cinco anos têm um mais-do-que-suíço, ou alemão (excepto num ou outro jogo de futebol, e nas sardinhas assadas; ainda bem).

Portugal não tem emenda? Tem. Quando quisermos. Se.

7.12.10

QI, QB

Um idiota, ou mais provavelmente um bando deles, desses que têm o escritório ali para os lados de S. Bento decidiu que para renovar uma carta de navegador de recreio é preciso uma cópia do cartão de contribuinte. Uma cópia - o número não chega.

Um banco que me permite, via um "cartão de coordenadas", fazer todos os movimentos bancários que eu quiser, onde quer que esteja precisa, para uma mudança de morada, de um papel assinado por mim.

Os exemplos são inúmeros, sucedem-se numa ininterrupta cadeia - Portugal tem a burocracia no cérebro, no sistema nervoso, nas veias, no núcleo de cada uma das células. Devia criar-se, para Portugal, um Quociente de Burocracia, como complemento ao Quociente de Inteligência.

Escrevi ao banco que não sei quem é pior - se quem faz as leis, se quem as aplica cegamente, indiferente à sua, delas, má qualidade e manifesta desadequação. O QI de um um funcionário devia ser medido em QB. O problema é, naturalmente, definir a escala. Serão, como eles pensam, directa ou, como eu lhes digo, inversamente proporcionais? Eu opto pela última hipótese, claro; mas, não sei porquê, essa opinião não é partilhada pelas pessoas que, como muito bem dizia Miguel Castelo-Branco recentemente, "andam sempre com a lei na ponta da língua, mas são incapazes de se servir dela para o bem comum".

Cada vez mais penso que Portugal não tem emenda: vamos avançando, claro, mas sempre a reboque de acontecimentos externos, de coisas que não dominamos. A clique habitual - políticos, jogadores de futebol e funcionários europeus vive à grande e beneficia de um sistema que foi feito por medida. Os outros estão tramados. As coisas só mudarão na medida em que as "elites" não percam nenhum dos privilégios de que até agora usufruem.

A quem, como eu, não percebe a burocracia e não é por ela compreendido resta emigrar, mudar de nacionalidade, esquecer a língua. Em casa sempre falei português com os meus filhos, quis dar-lhes a nacionalidade portuguesa e ensinei a língua à minha ex-mulher; tentei também que ela obtivesse a nacionalidade. Felizmente, a burocracia portuguesa impossibilitou-o: nem ela nem as crianças (enfim...) são portugueses. Ela beneficiou com o falar português - no Brasil, onde vai regularmente fazer conferências e dar formação.

Eu só espero pelo dia em que a malfadada memória me permita esquecer-me de que já pude mudar de nacionalidade e não o fiz.

Galhetas

Talento, prazer e música no mercado

A cena precisaria de um Fellini, ou, noutro registo, de um Kurosawa; ou do Jorge Amado, claro. Infelizmente era eu que lá estava, e não saberei reproduzi-la. Mas posso tentar.

O restaurante (algumas mesas num dos cantos do mercado) La Maison, sito no Marché Couvert do Marin, onde de novo me encontro, acolhe quotidianamente, ao almoço, um grupo de velejadores, turistas poupados (e conhecedores), jovens empregados locais; e um outro, pouco variável, de aproximadamente meia dúzia de bêbedos locais. Há poucas interacções entre os dois grupos, para além de um eventual diálogo ao balcão quando uns vão buscar a comida e outros a bebida - os Ti'punch são servidos de acordo com a regra local "cada um prepara a sua morte", pelo que a garrafa de rum, o açúcar e a lima ficam à vista, e cada um os prepara e se serve como gosta. Ainda não percebi como são feitas as contas, mas como aquilo está ali todos os dias presumo que as senhoras do restaurante não perdem dinheiro.

Hoje, o outro grupo contava uma presença nova - um senhor que era visivelmente cantor profissional, ou pelo menos tinha uma formação musical. Estava a cantar à desgarrada com um outro senhor, este cliente habitual e, infelizmente, menos dotado. A actuação do grupo lá ia, com os habituais soluços destas cenas: os restantes membros intervinham ligeiramente fora de tom, havia muitas dúvidas sobre as letras, e discussões sobre a próxima interpretação.

Eu estava mais ou menos ocupado com a minha cerveja, o chili con carne créole  e  o entrecosto que a senhora, generosa e gentilmente, acrescentara no meu prato, já de si bastante cheio diga-se de passagem - esta simpatiza bastante comigo, e acha, justamente se calhar, que quem tem uma barriga como a minha deve sustentá-la (a barriga); pelo que falhei o princípio. Mas, de repentemente, o senhor que sabia cantar zangou-se. "Laaaaaaaaaaa" cantava - suponho que em la, não sei - "laaaaaaaaa"; o tom ia descendo, tornava-se cada vez mais grave, mas a nota era a mesma. O outro, incapaz de seguir, abanava a cabeça. "Laaaaaaaaaaaaa" - agora as mãos acrescentavam um elemento visual: ora, as duas palmas viradas uma para a outra, faziam um gesto como se fossem um porta-voz; ora, uma imóvel,  mais ou menos ao nível do lábio inferior, palma para cima, e a outra ao nível do lábio superior, palma para baixo desenhava uma curva descendente, à medida que o tom ia baixando - era extremamente poderoso e sugestivo, o efeito; quase se via o som. Mas o outro não seguia e resolveu recomeçar a música onde a tinha deixado (eram cânticos de Natal, e a cena no seu conjunto bem mais agradável que os de Grenada).

Pelo que se zangaram, e o senhor que cantava "laaaaaaaaaaaaaaa" foi ao balcão buscar mais uma cerveja, o outro foi fazer um Ti'punch, e o resto do grupo desinteressou-se da música. A minha surpresa foi, portanto, grande e agradável quando vi que, bebidas as bebidas, tudo voltou ao statu quo ante: um bom cantor, outro mau, um bando de bêbados em agradável e fraternal convívio, o resto de mercado a rir e a interpelar ocasionalmente os artistas (em todos os sentidos do termo "artistas"), e um observador atento e solitário a pensar no talento que lhe falta para descrever isto como deve ser, e a mandar o talento para a pata que o pôs, ele, talento. Escrever bem é muito mais difícil do que navegar à vela, mas tentar dá quase tanto prazer.

Insónia

Não é propriamente uma insónia - é mais não querer correr o risco de passar por uma.

Avacalhar

Vacas a fazerem cowboyadas, ou boys a fazerem vacalhadas.

O esquizo e a frenia

A grande vantagem da esquizofrenia, já por aqui o mencionei, é que uma pessoa nunca está sozinha. Hoje, por razões diversas lembrei-me disto e vai daí lembrei-me doutras coisas. Por exemplo: acontece-me várias vezes estar sozinho dentro de uma embarcação de vela, como as e os leitores habituais deste blog sabem. Não é um acaso, claro: é o que procuro e gosto de fazer.

Por vezes passo situações complexas, difíceis, ou simplesmente cansativas, chatas. Contudo, nunca a ideia de que estaria melhor se estivesse acompanhado me ocorreu. Cada vez que tenho de resolver uma situação, tomar uma decisão, descansar, faço-o sem me lembrar sequer de que podia estar a partilhar o trabalho, as dúvidas, o tempo (é uma das coisas difíceis de gerir, o tempo numa viagem em solitário: saber quando fazer o quê).

Talvez no fundo um solitário seja um esquizofrénico ao contrário.

4.12.10

Febres de sexta à noite, e sábado de manhã

É sexta-feira e por curiosidade fui à cidade (o hotel onde estou é um bocadinho afastado). Toda a gente (pelo menos até aos 21 anos) se encontra na rua; a música dos diferentes lugares de diversão deve andar perto dos 90 decíbeis. Como são muitos e perto uns dos outros a cacofonia é um modelo (infelizmente a música é aquela coisa binária, electrónica, bum-bum / bum-bum / bum-bum, imperdoável não fossem as coisas o que são, e não o que deviam ser). A curiosidade satisfez-se rapidamente - vantagem das cidades pequenas - e vim-me embora para a marina, uma das mais bonitas onde já me foi dado estar.

Amanhã às sete de manhã venho para bordo do S/Y "KIWI" começar a preparar a viagem. Se tudo correr bem, às nove estou a largar para Le Marin. São só 150 milhas, mas as viagens no mar são como os seios das senhoras, segundo uma publicidade particularmente inspirada daqui há uns tempos: não é o tamanho que conta. Ainda por cima não posso fazer tudo de uma vez; tenho de parar para dormir (instruções formais e claras), pelo que o prazer se vai prolongar.

Parabéns

Parabéns ao Ma-schamba, claro, a todos (e a uma especial em especial) dos que lá escrevem.

Transportes colectivos - Cont.

Ao post ali em baixo sobre transportes colectivos devo absolutamente acrescentar umas linhas sobre os de Grenada - ou, mais correctamente, de St. Georges's Town, porque ainda não saí daqui. Conduzidos de uma forma, digamos, nervosa, desportiva, sempre cheios, são uma deliciosa injecção de adrenalina. Hoje vinha na última fila - prevista para quatro pessoas, quase confortável para três - a admirar a maestria do condutor, que deve andar o mais depressa possível para aumentar a taxa de rotação dos passageiros, mantendo simultaneamente um olho no passeio, onde esperam os novos potenciais passageiros, e um ouvido dentro da carrinha para saber onde parar.

As pessoas são de uma amabilidade inexcedível, e se resolvermos as questões de proxémia e afastarmos as absurdas ideias da possibilidade de um acidente - absolutamente impossível, claro -, cada viagem transforma-se numa mistura de carrinhos de choque (mas sem os choques) e montanha russa (com menos subidas e descidas).

3.12.10

Burocracias

É certo que um tipo passa a vida a preencher papéis de entrada e saída em tudo quanto é sítio; mas poder escrever "sailor" na linha que pergunta pela profissão ajuda a diminuir um bocadinho a dor.

Salsichas e arrependimentos

Eu pecador me confesso (mas não me arrependo nadinha de nada): a sopa de callaloo foi, tardia e recentemente, complementada por bratwürst mit kartoffelsalat.

Vim passear para a zona ribeirinha, mas está a e não pára de chover e encontrei um café alemão do qual o húngaro do Sol City me tinha falado e como a sopa só tinha coisas verdes e brancas (se há carne que execro e na qual não toco é a de peru) deixei-me tentar, com uma facilidade desconcertante, forçoso é reconhecer. Devo dizer que a kartoffelsalat mit bratwürst foi um aconchego ideal à sopa, como um beijo depois do amor, se for levezinho.

O pior é que é Natal e tenho a vinte metros uma porra de uma aparelhagem a debitar uma espécie de reggae cum cânticos de Natal, não sei se isto faz sentido a mim não faz e o barulho é uma merda e só apetece gritar fuck Christmas, fuck Christmas mas não grito porque não estou na minha terra nem no meu Natal. Não estou em terra nenhuma, aliás, a falar com a alemoa para saber como são os negócios por aqui.

O casal de teutões é demasiado meloso para o meu gosto - é disso que não gosto nos alemães que vivem no estrangeiro, esforçam-se demasiado para ficar como os indígenas e acabam como caricaturas tanto dos alemães que são como dos indígenas que tentam desgraçadamente imitar.

É preciso confessar: o tempo está uma merda, não pára de chover. O sol foi para Cancún, aposto. A música e a chuva estão para ficar.

Terminologia, escatologia

Há quem chame a isto uma notícia. Eu prefiro outro termo, de outro âmbito.

"Gisele Bundchen apanhada a trocar de roupa dentro de um carro"

Geografia

Fui almoçar ao Courtyards; uma tasca num beco. Comi uma sopa de Callaloo, ou Callahoo - é um vegetal que se parece com espinafre, ou amaranto. É um almoço de per si. A senhora perguntou-me de onde sou. "Português", respondi. "Sabe onde é?" "Não. Mas ali no qualquer coisa Mall há um bar que pertence a um tipo [guy] de Portuguese (sic)".

Vim ao tal de qualquer coisa Mall (preciso de informações diversas). O café chama-se Sol City, mas o dono não é português. É húngaro.

Aquecimento

O aquecimento global volta a atacar. Entretanto, os aquecimentistas vão para Cancún, não vá alguma constipação apanhá-los de surpresa.

Mundos paralelos, vidas

No outro dia estava a jantar com uma senhora que explicava, com cara de quem realmente se preocupa com a saúde mental da população em geral, que um ciclone não é nada do outro mundo: "fica-se em casa a beber champagne e espera-se que passe; no dia seguinte há um bocado de areia na piscina e muitos ramos de árvores partidos".

Hoje, depois de uma estadia de quase duas semanas numa embarcação de luxo, com equipamentos que só conhecia de ouvir falar (para não dizer "dos livros de ficção científica") estou num quarto de hotel em Grenada, que é, digamos - como dizer? - fraco.

Entretanto, os mosquitos vão-se banqueteando com os betas que bebi em Antigua, e a previsão do meu site favorito para a viagem faz-me pensar que vou acabá-la com pouco vento. O que é chato porque o Lavezzi 40 parece-me um chaço.

Isto dito, Grenada parece-me bastante simpático como país - se bem tudo deva parecer simpático, depois de St. Martin (qualquer dia estou lá, outra vez). Os mosquitos provocam um inchaço como há muito tempo não vejo; parecem bossas de camelo. A continuar assim vou ter que pôr repelente.

Tenho pensado muito no J. e no M. Pergunto-me porque não me ofendo com o seu racismo abjecto. A verdade é que não gosto deles o suficiente para sentir necessidade de dizer qualquer coisa. Não os vi, em St. Martin.

As vidas estão cheias destas pequenas coisas sem importância.

2.12.10

Viagens e viagens

“Viajar de avião” é – suponho que isto seja consensual – um oxímoro. Uma pessoa não “viaja” de avião; quando muito, desloca-se, vai de um sítio para outro, vai ali e vem já. Mas não viaja.

Esta regra tem excepções, claro; no Burundi e no Zaire fiz verdadeiras viagens de avião, expedições daquelas em que se era recebido com tiros, ou não se encontrava a pista – já por aqui contei algumas dessas, e um dia contarei outras, se tiver tempo. Viajar inter-ilhas nestas paragens é decerto uma excepção, também.

As ilhas são muito pequenas, e não há mercado para grandes trajectos. Acresce que as clivagens linguistícas se repercutem na economia (enfim, moldam-na) e se é chato viajar de uma ilha para outra se forem da mesma língua, se forem de línguas diferentes a viagem transforma-se num verdadeiro jogo da macaca.

Hoje vou de St. Martin (Sint Maarten, porque o aeroporto está na parte holandesa da ilha) para Grenada (anglófona). O trajecto é: Sint Martin / Nevis / Antigua; 2 horas de escala (previstas – na realidade foram duas e meia) em Antigua. Antigua / Dominica / Barbados. Duas horas de escala. Barbados / Grenada. A viagem dura 7 horas e meia, das quais quase cinco em escalas. Para fazer uma distância inferior à de Lisboa / Madeira.

Isto dito, estou contente por aterrar em Dominica. A ilha encantou-me quando passei por ela na viagem para St. Martin. Parece um longo acento circunflexo pousado no mar, as encostas cobertas de vegetação; vêem-se pouquíssimas casas. Há, ao que me disseram, 365 rios. Deve ser lindíssima.

Escrevo estas linhas no aeroporto de Barbados. Comi um jerk de porco que merecia o nome. Uma vez fiz um, no Skipper, que ficou óptimo.

Barbados é a primeira ilha com aspecto "civilizado" onde estou (só depois me lembro de que estou no Reino Unido. Não é preconceito - se bem nada tenha contra eles, é uma simples constatação, as minhas desculpas pelo equilibrante galicismo). Claro que a civilização é cara. Longe estão os betas (para quem não sabe, rum e coca-cola, em certos meios selectos) a dois euros de Antigua.

Ernâni Lopes

Morreu Ernâni Lopes, um homem de bem, e de mar.

Vitória

O próximo campeonato de futebol vai para a Rússia, e o seguinte para o Qatar. Pelos próximos anos estamos safos da praga. Umagrande vitória para Portugal. Para os nuestros hermanos não sei, nem me interessa.

1.12.10

Obsessão

Nunca percebi porque é que a esquerda pensa que a obsessão de quadros e patrões de empresas é despedir pessoas. A esquerda pensa, passe o oxímoro, que se se liberalizar a legislação do trabalho a primeira coisa que os patrões vão fazer é despedir pessoas.

Não sou economista e não me apetece muito discutir isto em termos económicos. Mas a verdade é que vivi vinte anos num país onde não há a mais pequena protecção do trabalhador - não há "justa causa", uma pessoa pode ser despedida sem qualquer razão a qualquer momento - e o maior problema desse país é a falta de mão-de-obra. O que justifica que lá haja 206,000 portugueses (e o número aumenta, não diminui) a viver. Preferem, coitados, ter um emprego não protegido a estar protegidos no desemprego.

Retratos sonhados

I
Conheci A. em Nápoles. A sua forma de amar era ingerir; como gostava de tudo, comia tudo: bebidas, pessoas, comida, filmes, livros, música. Depois defecava, em fezes longas, redondas e duras como o pau de um preto erecto, castanho escuras. Um dia ocorreu-me que nunca percebera se ela gostava mais de ingerir se de cagar, e vim-me embora.

II
O dinheiro fazia-o viver, mas não o fazia correr. Um dia descobriu que não sabia viver sem correr.

Fernando, Ricardo e os outros

Faz hoje 75 anos que morreu Fernando Pessoa.

"Para ser grande, sê inteiro: nada
teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
brilha, porque alta vive."