30.11.14

Requiem, cidades

Uma cabra no céu brilha no lugar da estrela. É tarde, como se do golfinho ou do vento o sorriso e o salto tivessem ficado suspensos.

Ou a luz. A escuridão abocanha um naco do coelacanto fugido de Herberto Hélder.

Ia a caminho de Amsterdam. Todos vamos a caminho de um sítio qualquer. Alguns encontram-no. Os sítios oferecem-se-lhes como cumulus num dia de verão.

A cabra não. Tem problemas de identidade. Muda de nome e de pasto como muda numa chama a direcção do calor.

A inevitabilidade das coisas é largamente compensada pela sua capacidade de duvidarem. As cabras não duvidam. Comem. Há uma beleza linear, cristalina, aérea numa cabra que come, morta de fome.

Gosto especialmente das sinceridades da fome e da morte. Há uma verdade nelas que nos tritura ou dissolve, não sei.

Também gosto de margaridas antropofágicas.

Fabricar silêncio é um trabalho a tempo inteiro para o tempo inteiro.

Há cidades feitas para isso. Para quem acha que solidão é não ter a quem escrever mais do que não ter em quem tocar. Que a clorofila não é um veneno. Que a vida tem um centro ou, pior, um sentido.

Há cidades para tudo. Até para cantar o requiem como se fosse um hallelujah.

27.11.14

26.11.14

Ser, ou não

Pode ser-se tudo o que se quiser, desde que se o seja.

Liberdade, medo

Só quem teme a liberdade lhe mede realmente o valor, o alcance.

Compreensões

Compreender alguém é uma sorte, uma lotaria que raramente se ganha.

Só ser comprendido é mais raro.

Amor eterno e literatura

Amar alguém como é, como foi e como será.

Provavelmente nem nos livros se pode estar tão perto do amor eterno.

Pena de morte

Sou contra a pena de morte, excepto em dois casos. Um deles é para quem usa material oxidável a bordo de uma embarcação de recreio.

Galveston, cansaço

Galveston é pequena de mais para o meu cansaço.

22.11.14

Alucinação

Se Deus existisse saberia que há pelo menos um gajo neste mundo que por questões físicas não devia beber muito e por razões laborais não devia deitar-se tarde.

Mas Deus não existe e deve haver muito mais gente na mesma situação,  pelo que de qualquer forma não teria como acudir a todos.

Acho bem: amanhã vai ser um sarilho convencer-me de que isto tudo não passa de uma alucinação provocada pelo produto tóxico com o qual passei o dia a lidar.

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 22-11-2014

De repente o Stuttgarden Tavern On The Strand parece uma de duas coisas: ou um café de Metro ou uma esplanada em Paris.

Opto por esta última. A salsicha (pronuncia-se chalchicha) estava decente, o vinho custa quatro dólares o dedal - metade do que custa nos outros sítios (ou custaria, se eu bebesse) - a oito metros de mim está uma bicicleta feita de titânio e carbono - uma mistura etérea, no que diz respeito a bicicletas - a música ao vivo parou e Sócrates foi preso.

Nem a minha sweat shirt branca de Napa Valley Marina cheia de nódoas me entristece. Amanhã a roupa estará lavada e Sócrates solto. Mas hoje Sócrates está preso, e isso vale um milhão de nódoas por milímetro quadrado numa camisa de que tanto gosto.

Andar numa bicicleta de dois ou três quilos também é muito bom. Quase tão bom.

Mantenhamos a calma. Sócrates foi preso. Um dedal de vinho a quatro dólares é de borla. O TL - uma das formas da beleza - tem um comprador potencial.

A felicidade, aprendemos com o tempo  é feita de pequenas pinceladas de sonho na grande tela da realidade. Abençoadas sejam a felicidade e a realidade.

........
Hoje é sexta-feira e há barulho em Galveston. Infelizmente não o oiço.

Estou demasiado ocupado a pensar quão boa é a vida quando flui como um grande rio tranquilo. Qualquer que seja a quantidade de nódoas na camisa comprada numa marina que de manhã cheirava a caca de vaca e à tarde parecia uma colónia de extra-terrestres que se enganaram de planeta.

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Amar por amar mais vale amar a vida, mesmo quando ela não sabe bem o que fazer connosco.

Nós sabemos o que fazer dela.

21.11.14

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 20-11-2014

Agora tenho uma bicicleta. Galveston muda. (Bicicleta é dizer pouco: uma Dean de corrida que pesa metade da minha Turbo e custa cinco vezes mais).

Ou seja: estou livre da tirania do McDonald's - contra o qual, de resto,  nada tenho. Antes muito pelo contrário -.

De maneira hoje vim jantar ao Fuddruckers, coisa de que nunca tinha ouvido falar. Hambúrgueres excelentes e um conceito apreciável. Um gajo encomenda - a escolha é vasta e inclui uma opção sem pão - e vai para a mesa com uma aparelho que o avisa quando o prato está pronto. Até aqui nada de novo,  nem a Oeste nem a Leste.

Onde a novidade começa,  pelo menos para mim,  é quando se vai buscar a coisa. A senhora aponta para um enorme buffet e diz Os acompanhamentos estão ali.

Se estão. Salada, tomate, pickles, cebola, pimentos - you name it, perdoem-me o inglês mas aqui é mais do que justificado -.

Por oito dólares come-se bem - a carne esta excelente - respeita-se a auto-imposta restrição aos hidratos de carbono e ainda se ouve boa música.

Seria incapaz de viver nos Estados Unidos - incluindo San Francisco, cidade de que gosto especialmente - mas forçoso é reconhecer que merecem o que têm.

Só é pena esta obsessão com a regulação. É um país governado por juízes. Em Portugal já tivemos um cheirinho do que isso significa.

Aqui é muito pior. A terra dos livres há muito que deixou de o ser. Agora é a terra dos juízes.

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O trabalho avança depressa. Que prazer! Trabalho ao meu ritmo a fazer uma coisa de que gosto.

Sou pago decentemente para isso e para estar numa cidade que aprecio, mesmo não conhecendo ninguém.

A estadia vai ser curta, pero ¿qué importa? Aproveita o que tens quando tens... Amanhã és terra, como diz Omar Khayyam,  tão bem. E só servirás para fazer jarras de vinho.

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O Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas trouxe-me à memoria os meus tempos de leituras zen. E reconciliou-me com ele.

Depressa me aborreci: não lhe aceito a passividade, a ideia de que tudo é uma ilusão,  a ideia que é possível evitar a dor e o sofrimento.

Não é. Nem sequer é desejável: sem dor não há prazer, como sem tristeza não há alegria.

Mas lembrei-me de como o Zen me ajudou a perceber Camus e a apreciá-lo ainda mais: absurdo por absurdo prefiro o que o lamenta ao que se toma por objectivo.


20.11.14

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 19 e 20-11-2014

Conheço mal Galveston, claro. Saio de bordo para comer - quase sempre no McDonald's, o sítio mais perto (meia hora a pé) que tem simultaneamente comida e wifi -, para ir ao Walmart comprar qualquer coisa ou para ir à biblioteca, que tem computadores (e gratuitos, qui plus est). A cidade é uma mistura esquisita de cidade portuária, cidade hospitalar e cidade histórica. Digo mistura, mas não sei se é correcto: ignoro como interagem.

As primeiras impressões são agradáveis. Ruas largas, desertas de peões - ando quilómetros todos os dias e contam-se pelos dedos da mão esquerda (tem os mesmos, mas desajeitados) a quantidade de peões com que me cruzo - percorridas por viaturas potentes que parecem circular sozinhas, seja por causa dos vidros escuros ou devido à aparente ausência de qualquer actividade humana - não há buzinadelas, acelerações bruscas,  travagens, curvas com os pneus a chiar -.

Os carros ou são conduzidos por máquinas ou por ninguém. Conduzem-se a si próprios.

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O autocarro é confortável,  pontual - há qualquer coisa de mágico numa cidade na qual os autocarros não só têm horários como os respeitam - e está limpo,  o que não é surpreendente porque está vazio, apesar de só passar de meia em meia hora. Até à paragem terminal sou o único passageiro. Depois desço e entra uma senhora.

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Hoje decidi jantar "em terra". Que se lixe o wifi. Vou a um restaurante a sério.

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(20-11-2014)

Fui. E depois fui a um bar que tem Laphroaig a sete dólares a dose.

Claro que nos Estados Unidos as doses são mais pequenas do que as nossas; e aos preços há que acrescentar a gorjeta. Mas vale a pena, mesmo assim. Há tantos anos que não bebia um whisky de malte... E logo este, um dos meus favoritos. E a rapariga do bar, tão bonita.

O Texas é incomparavelmente mais barato do que a Califórnia. E mais americano...

(No sentido de corresponder mais à ideia que fazemos da América. Desde que se lê Os Americanos de Alain Peyrefitte se sabe que não existe tal coisa como os americanos. É um livro que Galveston me deu vontade de reler.)

Lumbersexual

Isto começou se não me engano no metrosexual e já vai nos lenhadores. Se continuar a descer qualquer dia chega aos marinheiros.

Impostos, amor

"Trop d`impôt tue l`impôt".

O mesmo pode ser dito do amor.

19.11.14

Decência

Não somos decentes. Tornamo-nos decentes.  Ser decente é um objectivo,  uma vontade, um caminho.

Uma aberração,  no fundo: sabermo-nos imperfeitos e não o aceitar.

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 18-11-2014

O aquecimento global continua a fazer das suas: está um frio de gelar as sinapses a um hiper-activo.

É raro tanto frio em Galveston, dizem-me.

Acredito: faço parte daquele grupo de pessoas que ficaria feliz se o mundo aquecesse globalmente e ele vinga-se arrefecendo localmente - o local sendo aquele onde estou.

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Os armadores do TL querem desfazer-sr dele a qualquer preço. As razões são as do costume: compraram o barco porque era giro ter um barco, não achas?, foram enganados como se tivessem tomado o mais pequeno dos planetas pelo sol, tiveram uma viagem horrorosa.

Enfim, gastaram uma pipa de massa para sofrer o que qualquer crente sofre de borla, seja qual for a religião.

O barco é lindo de se morrer, de viver, de acreditar na vida antes durante e depois da morte, de acreditar nos dias de graça dos arquitectos navais, de, sei lá,  pensar que não, a beleza não está nos olhos de quem a  vê ou sofre por não a ver.

É muito muito raro chatear-me por não ter dinheiro, ou ter vontade de o ter. Esta é uma dessas ocasiões.

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Anda por aí um meme que diz que o amor é uma doença mental,  ou coisa que o valha.

Discordo. Doença mental é não ver a beleza onde ela está. Seja numa cama, numa pele, num olhar ou numa marina,  pontão E lugar 45.

Barcos, famílias

Há pessoas que têm barcos como outras se casam ou têm filhos: por acaso, porque toda a gente tem, porque sim. Depois, claro, o casamento desfaz-se, os filhos tornam-se punks, padres ou adolescentes e tudo acaba em lágrimas,  advogados ou polícia.

Não é essa a forma correcta de ter um barco. Tem-se um barco como se tem uma mulher que se ama, ou filhos: porque sem ela, sem eles, sem ele a vida não é vida, é um ersatz de existência sem sentido e sem conteúdo.

Acresce que um barco não se pode ir embora sem nós e deixar-nos especados no cais como se tivéssemos deixado de existir.

17.11.14

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 16-11-2014

Sinto-me como um atirador de facas de circo que se usasse a si próprio como alvo. E falhasse a grande maioria delas.

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A cada etapa houve uma pequena barreira, ultrapassada com a graça e distinção de uma gazela feliz.

Pela primeira vez entro nos Estados Unidos com um bilhete só de ida. E como não me lembrava de quando fiz o ESTA pela última vez passei-a numa tensão indescritível. 

Potenciada porque antes de vir meti a pata na poça como há muito tempo não metia. Tanto que antecipei o ano novo e tomei uma resolução das de ano novo vida nova. Foi uma lição dolorosa. Ainda bem. São as que ficam.

Não será ainda a vida mas há uma coisa em mim que vai mudar já.  

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Encontro o TL como o encontrei em Shelter Bay: sujo, desarrumado,  negligenciado.

É criminoso: o barco é lindo e deve navegar maravilhosamente. 

Nunca compreenderei a falta de amor por um barco. Seja bonito ou feio, de resto. 

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No aeroporto,  a dois metros de mim estão duas máquinas com aquilo de que mais preciso agora: uma carrega telefones a outra vende cartões SIM.

Mas só aceitam cartões de crédito. Há muito tempo que o cash deixou de ser rei.

Agora é vagabundo, pobre,  coisa de nómadas e de traficantes de droga.

15.11.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 15-11-2014

São Luís acolheu-me como se eu fosse parte dela. Sou.

E agora, que me preparo para a deixar de novo, ainda mais. Não sei quanto tempo estarei fora. Três, quatro semanas, em Galveston, no Texas. Preparar um barco para ser vendido. Os armadores são dois irmãos para quem já trabalhei no Panamá.

"S. Luís é antropófaga", diz-me Jean Paul Delfino, um escritor francês que conheci aqui. A definição é boa, mas não exprime o prazer que sinto em saber-me engolido, aceite, integrado pela cidade.

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Os contos marítimos, agora numa versão europeia; traduções; um artigo para uma revista; os jantares literários. A nova vida começa a tomar formas concretas. Só falta um sítio para arrumar a roupa de mar. E outro para os livros.

Mas o mar resiste, como se soubesse que em breve não será mais o único lugar da minha vida. A roupa de mar será arrumada, mas acessível.

Genève, 2001 (?) - Reedição


Semanas, eternidade

A eternidade é consituída por um número infinito de semanas, agrupadas duas a duas.

(Piada privada).

13.11.14

Não sou faquir

Por mais bonita que seja, uma mulher burra ou sem cultura suscita-me tanto desejo como aquelas pranchas de madeira com pregos sobre as quais os faquires se deitam.

12.11.14

(Cont. e fim)

Frail no more também é uma expressão muito bonita.

11.11.14

Diário de Bordos - Belém, Pará, Brasil, 11-11-2014

Belém fica para trás. Pela frente está S. Luís, de novo, por alguns dias. Começo a conhecer esta cidade; ou melhor, alguns recantos dela. Hoje passeei pelos locais habituais: Estação das Docas, Ver-o-Peso, Comércio.

Conheço poucos quarteirões tão bem nomeados como este último. É um gigantesco centro comercial a céu aberto, com stands em quase todas as ruas. Vendem tudo: comida, roupa, ouro e prata, bugigangas chinesas, sapatos, telefones... Tudo.

Parafraseando Almeida Faria, Nada do que é comercial é estranho ao Comércio.

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Doze horas de autocarro até S. Luís. Os bilhetes de avião internos no Brasil têm preços absurdos, sobretudo quando reservados à última da hora. Transformar este país é uma tarefa hercúlea. Requereria muita vontade e muito tempo. Uso o condicional: começa por faltar a primeira, e é fundamental.

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Frail é uma das palavras mais bonitas que conheço em inglês.

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Três dias em S. Luís. Vai ser pouco. Que encontrarei?

Diário de Bordos - Belém, Pará, Brasil, 10-11-2014

Estou de novo no meu bar favorito de Belém. Chama-se Cosa Nostra e é o único que conheço. Hoje tem música ao vivo. Um baterista e um guitarra. Começaram bem, um pouco jazzy. Depois resvalaram para a música brasileira.  Curiosamente têm muito menos aplausos.

Ou as pessoas gostam de jazz ou se cansaram de os aplaudir.

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Mais uma noite e um dia em Belém.  O despachante que devia ter aparecido às duas e meia da tarde chegou às quatro e meia.

Mas não foi por isso que fiquei. Disse-me que talvez consiga tirar as peças amanhã.

Ao princípio duvidei. Garantiu-me que não estava a inventar. De qualquer forma teria de pagar o quarto - não o deixei, porque começo a conhecer o Brasil - e creio que posso passar mais um dia fora de S. Luís.

Aquilo está por um fio. Sinto-me um equilibrista ou malabarista ou construtor de castelos de cartas. Três semanas de trabalho simples não me farão mal.

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Hostel é simplesmente outra palavra para espelunca? Sim e não.

A quem acredite mais no não sugiro o hostel Amazónia,  na rua Ó de Almeida. 548 (sei a morada de cor. Agora é a minha morada oficial no Brasil.  Pelo menos para efeitos de alfândega). Quem tenda para sim, a pousada Portas da Amazônia,  perto da Sé.

Qualquer está bem para o preço que cobra, bem situado - o hostel no centro, a pousada perto do mercado A Ver-o-Peso.

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Não estou a ouvir a música.

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Simetrias diacrónicas, ressentimentos assíncronos.

Para quando simetrias síncronas?

10.11.14

Diário de Bordos - Belém, Pará, Brasil, 09 e 10-11-2014

O último vestígio físico de um soberbo e desvairado dia em Cólon, Panamá, há pouco mais de um ano ficou no aeroporto de Lisboa. Era um frasco de Fahrenheit de 200 ml. Tinha previsto trazê-lo no porão,  mas por razões que nem de peso eram tive de trazer o saco onde ele estava na mão e não passou no filtro de segurança.

A esse incidente - que me aborreceu mas pouco - seguiu-se uma das melhores viagens de avião dos últimos anos. Saímos à hora, o voo estava praticamente vazio, a refeição excelente, a tripulação de cabine - aliás como sempre na TAP - eficaz e amabilíssima.

Não sei se para pagar isto se por uma questão de simetria em Belém o senhor da alfândega decidiu reter as peças pelas quais tanto tempo esperei em Lisboa.

Estou habituado a lidar com pessoal das alfândegas, mas nunca na vida vi coisa semelhante,  filho da puta maior.

Uma das pessoas com quem comentei o caso, ainda no aeroporto, explicou-me que ele é um "comprador de confusão" e contou-me duas ou três histórias escabrosas a seu respeito.

Coisa que não chega, nem de perto, para atenuar a raiva, a fúria, o desprezo, o asco que sinto pelas alfândegas em geral e pela brasileira em particular.

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Mas a chegada foi mais do que este desagradável e inesperado contacto com uma das coisas de que o meu desgosto pelo o Brasil é feito. Menor do que o sentimento extremamente negativo que sinto pelas alfândegas, quaisquer que sejam - mas mesmo assim bastante forte - é o que nutro pela burocracia. E a burocracia brasileira é fantástica. Faz Kafka passar por um escritor infantil.

Excedi de novo o meu período de estadia. Desta vez em dois dias. Ou seja, agora a multa é de dezasseis reais, cerca de três euros. É um problema complexo, pagar dezasseis reais de multa (da última vez foram três dias e vinte e quatro reais; fiquei quatro horas no gabinete da Polícia Federal enquanto os funcionários faziam tudo o que podiam para me ajudar. Desta vez foram só duas horas e meia, o que demonstra que não há proporcionalidade directa entre o tempo que se perde e o montante). Compreende as seguintes etapas:

a) Pedir a um funcionário da companhia aérea que se disponibilize para pagar a multa com o seu cartão de débito. Isto é feito pelo polícia federal, porque eu não posso abandonar o sítio onde me encontro - o controle de passaportes do aeroporto.

A multa não pode ser paga em dinheiro e só o pode ser com um cartão de débito - todos sabemos que os estrangeiros têm contas no banco no Brasil, naturalmente.

b) O dito funcionário - neste caso Daniel, da TAP, simpátiquíssimo e prestável como todos os funcionários da TAP - descobre que não pode fazer o pagamento porque o código de barras caduca ao fim de quinze dias; claro que um estrangeiro que apanhou uma multa ao sair do Brasil tem como principal prioridade pagá-la ao chegar ao seu país. E igualmente claro é que no seu país há agências do Banco do Brasil, o único autorizado a receber os ditos pagamentos.

c) Os funcionários da Polícia Federal procuram uma solução alternativa (esta etapa parece inócua, mas não é. Implica longuíssimos debates e vários testes).

d) Os ditos funcionários optam por uma solução e descobrem que ela não é exequível.

e) Repete c).

f) Os funcionários tentam outra solução e debatem-se com dois ou três funcionalidades do programa informático que usam.

g) (Até agora tenho usado funcionários no plural. Neste momento surge um caso grave - um mandato de prisão - e o funcionário sénior tem de abandonar o meu caso e tratar da prisão).

O funcionário júnior - em termos de posto, porque de idade é tão júnior como eu e mais velho do que o funcionário sénior - encontra um problema no dito programa. Espera aproximadamente dez minutos. Telefona ao outro para que o venha ajudar. O funcionário sénior aparece ao fim de cinco minutos - o problema da prisão ainda não estava resolvido mas estava a resolver-se -.Qual era o problema? "O sistema está a pedir uma morada, mas não aceita a morada do senhor em Lisboa". "Não faz mal, põe uma morada fictícia". "Mas eu tenho uma morada no Brasil, se quiserem", digo. Querem. Dou a morada em S. Luís. O sistema aceita.

h) O funcionário júnior não consegue imprimir o documento que o sistema finalmente produziu.

i) O funcionário sénior reaparece e consegue imprimir a GRU. Esta etapa leva aproximadamente vinte minutos. Sei porque fui comer (especial favor de júnior, porque em princípio não posso sair do gabinete onde me encontro), trocar dinheiro - outro espectáculo - e quando voltei eles tinham acabado de encontrar a solução. O documento ainda não estava impresso, mas estava em vias de.

j) Ir chamar o funcionário da TAP que entretanto, incompreensivelmente, se retirou. Presumo que para ir trabalhar.

k) Imprimir as duzentas e cinquenta cópias de todos os documentos envolvidos, desde o que tinha acabado de ser impresso até ao meu passaporte, agrafá-los, cortar o excesso de papel - júnior tentou primeiro com um objecto que não percebi bem qual era, depois com um cartão de crédito, depois e finalmente com uma régua. Só com este obteve resultados satisfatórios -.

l) Entregar-me todos os papéis e cópias. Ir carimbar o passaporte, coisa que só sénior pode fazer.

m) Despedidas efusivas, amigáveis, felizes, agradecimentos mútuos e promessas de que nunca mais deixarei tal coisa acontecer (não é difícil: sábado vou para os Estados Unidos e quando regressar não precisarei de noventa dias. Isto assumindo que o "sistema" mos concede, generosamente. Desta vez só tive direito a vinte e oito. Nenhum dos dois me soube ou quis explicar porquê).

Talvez o sistema aprecie os desafios que eu lhe coloco.

(Em Brasília, há quatro meses, o problema foi ligeiramente mais complexo: o novo GRU - não perguntem - tinha um código de barras válido, mas que não aceitava as transferências feitas por um desfile de funcionários com cartões de diferentes bancos. Até que um dos funcionários - não sei qual, estavam resguardados - teve a ideia de fazer a transferência por banca doméstica e funcionou).

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Ou seja: estou de novo no Brasil. Fui jantar ao Clube de Remo, um restaurante popular onde as caipirinhas são boas e baratas, as pessoas comunicam entre si a um nível sonoro nunca inferior a noventa decibéis, a música anda lá perto, o chão está tão peganhento que posso fazer exercício simplesmente tentando levantar os pés uma vez por minuto, o serviço péssimo em termos de qualidade e adorável como só os brasileiros sabem ser.

Estou de novo no Brasil. Tive de discutir com o chauffeur de táxi - ele ganhou, com uma mistura de argumento falacioso ("não tenho troco") e psicológico ("este gajo está demasiado cansado para se chatear por dez reais") -, voltei a pé para o hotel temendo ser assaltado (não fui) por passeios esburacados e ruas sujas, com cheiros alternadamente sublimes e nauseabundos.

E penso que a questão não é tanto gostar do Brasil ou não: é gostar da vida ou não. Descubro que sim, gosto.

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(10-11-2014)

Trocar dinheiro no Brasil também é uma operação complexa, que exige de uma das pessoas - são necessárias duas - que procede à troca dons de romancista, creio, tanto é o que escrevem num computador quando o turista sem cartão de débito ou crédito petende fazê-lo.

E isto qualquer que seja o montante. A única diferença no tempo que a operação leva é que provem da quantidade de algarismos.

Mas tem uma coisa mais simples do que a emissão de um GRU: só é necessária uma fotocópia. A do passaporte.

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O senhor Brito, que me vai apresentar um despachante despachado veio ver-me para se informar e me informar que me vem buscar ao meio-dia.Diz que não terei problemas para levantar as peças.

Pergunto-me quanto tempo será "não terei problemas".

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O dia está lindo, quente, os alísios cheios de força. As mangueiras que bordam as ruas ainda não têm mangas. O trânsito continua caótico, livre, excitante e perigoso. Os semáforos voltam a ser meros indicadores de probabilidades de se encontrar veículos vindos das outras direcções: quando estão verdes as probabilidades são mais baixas; encarnados, mais altas (isto aplica-se também, naturalmente, aos sinais das travessias de peões).

Palavras, sentimentos

A amizade e o amor começam sempre pelas palavras - há excepções, claro. Mas são isso mesmo. E de qualquer forma mesmo as excepções precisam, cedo ou tarde, de palavras -.

Elas farejam e reconhecem os sentimentos muito antes dos olhos ou das mãos. 

7.11.14

Diário de Bordos - Comboio Porto Lisboa, 07-11-2014

Só recebo piropos quando sou fotografado pela Graça Ezequiel.  E mesmo assim associam-me a um cantor local ou a uma das suas cançonetas com pretensões.

Forçoso é reconhecer que não me importaria de receber um ou dois piropos mais - por mês,  já não digo por semana -.

Mas é igualmente forçoso reconhecer que se ouvisse vinte piropos por dia,  e desprovidos da graça (e da Graça, claro) talvez gostasse menos de os ouvir e esperasse pelo próximo com menos ansiedade. Ou seja: de certa e invejosa forma compreendo as senhoras e os maricas que querem limitar a quantidade - ou aumentar a qualidade - dos piropos que ouvem quotidianamente.

O problema que vejo nisto é mais de ordem prática. Como legislar? É proibido dizer piropos se não forem acompanhados por fotografias da Graça Ezequiel e por referências à música popular indígena?

É proibido dizer piropos se forem notoriamente falsos, mesmo se apoiados em fotografias da dita - e simpática - senhora (não a conheço pessoalmente, mas quem faz fotografias daquelas de mim não pode ser má pessoa)?

É proibido dizer piropos se não puderem - ainda que falaciosamente - ser associados a cantores e canções mediocres?

Como proibir uma pessoa de manifestar o seu mau gosto ou, mais frequentemente, a sua falta de educação, tacto, sensibilidade, jeito ou - pior - esperança?

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Na mesa ao lado da minha está sentada uma senhora que sem ser bonita é linda, aquele linda que nos levaria ao altar sem passar pelo hotel (isto é para ser dito em francês,  claro). Falam - ela e o casal que a acompanha -  de viagens. Profusão de viagens.  As dela (fala no plural. Aposto que tem um namorado), as dos amigos, as do casal e respectivos amigos e assim por diante. Quando me fui embora ficaram provavelmente a discutir as viagens do papa ou as de algum condutor de comboios que calhem conhecer.

Estou a reler Fernão Mendes Pinto e não posso deixar de pensar na atracção que os portugueses têm pelas viagens.

Eu não aspiro a nada mais do que uma quinta em Almada - em Mértola, se possível - e pergunto-me se viajar de turismo é viajar.

Acho que não. Só se viaja verdadeiramente quando se é cativo, vendido,  escravo, amaldiçoado.

Ou bendito, mas isso é outra história.

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Entre apanhar um comboio mais cedo para Lisboa e comprovar uma vez mais a existência de Deus optei por esta última (vou fundar um ramo da teologia chamado teologia gourmet). Não existe, nem mesmo quando cozinha no restaurante Aleixo: o peixe galo estava perfeito e a açorda de ovas também. Mas não estavam divinos.

A única coisa divina foi a já mencionada senhora, com ou pela qual eu iniciaria muito rapidamente uma carreira estática e sedentária em teologia estética, idolatria sensual ou até conversaria sobre viagens.

Se ela quisesse, claro. Não sou de piropos.

6.11.14

Amizades

Há imensos anos que abandonei o negócio de fazer amigos.  Ainda bem, de resto: perco mais do que faço e se tivesse insistido teria esse negócio o destino dos outros que iniciei e não deixei a tempo.

Por vezes encontro pessoas que gostava de conhecer. São cada vez menos, feĺizmente. E cada vez melhores.

E ainda há quem não goste de envelhecer.

Diário de Bordos - Lisboa, 05-11-2014

Uma bicicleta é boa quando nos faz lamentar chegar ao destino, qualquer que tenha sido a distância ou o tempo que pedalámos para o atingir.

Desse ponto de vista a bicicleta Vitus Turbo* que hoje comprei é excelente. E linda, o que é um prémio. De longe a mais bonita de todas as bicicletas que tive até hoje.

Só a vou usar um dia: sexta-feira vou ao Porto e sábado regresso ao Brasil. A bicicleta será entregue para rentabilização amanhã e ficará em Lisboa à minha espera.

Mais um elástico que ponho nas costas e que me puxará para aqui cada vez que pensar em não voltar.

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Há uma diferença muito grande entre ser-se mal-educada e ser-se ordinária. É uma diferença importante: conheço gente ordinária muito educadinha, e, ao contrário, pessoas mal-educadas que são selectas.

A Rosa das Pintas - uma vendedora de flores do Mercado da Ribeira de quem já por aqui algumas vezes falei - fazia parte deste último grupo.

Só muito recentemente lhe soube a alcunha, proveniente das inúmeras sardas. A senhora era inimaginavelmente malcriada. Íamos à Ribeira beber cacau e comprar flores à Rosa - era a nossa vendedora preferida - e de lá saíamos aquecidos pela bebida e pelos chorrilhos de asneiras que ela proferia ao mais pequeno pretexto.

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Outra menção frequente: o prazer que sinto quando vejo um dos meus preconceitos - são tantos ou mais do que as sardas da Rosa - despedaçado, partido em mil estilhaços, exposto-lhes a falsidão e o erro.

E desta vez com fragor: a ideia de que em Portugal não se sabe dizer poesia (não falo de mim, claro; não sei dizer em lado nenhum) foi destruída pela voz poderosa, versátil e sensível do André Gago.

Ouvi-a pela primeira vez nos Poetas do Povo, mas soube a pouco. Esta semana ouvi-a de novo e muito mais nas Primas Terças do Bela Vinhos e Petiscos (que afinal fica em Alfama e não em Sintra, como eu misteriosamente pensava).

O André estava acompanhado por um guitarrista chamado Vasco Duarte Abranches. Chamar-lhe guitarrista é insuficiente - ele está muito mais perto do génio do que do instrumento - e Vasco uma ilusão: naquela noite parecia que Alberto Caeiro ele-mesmo estava a tocar ali sentado enquanto o André lhe dizia os poemas.

Mais uma noite maravilhosa, mais um elástico para a colecção.

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"Eu cá sou de antes quebrar do que torcer", dizia o senhor que me engraxava os sapatos no Rossio aqui há uns dias.

Isto vinha no decorrer de uma conversa cujo teor completo não recordo, infelizmente. Devia ter-me levantado e corrido para o Gelo escrevê-la, mas enfim. A verdade é que estes diários não se querem uma compilação rigorosa e milimétrica dos dias.

Antes quebrar do que torcer. Engraxar sapatos no Rossio.

A resposta é sim.

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Quase a ir-me embora lembro-me de algo que pensei há muito: as únicas partidas são as dolorosas. Uma partida sem dor é uma viagem. Ou melhor: um passeio.

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Por razões estéticas e práticas evito usar a Gare do Oriente. Poucos sítios haverá em que a dicotomia entre a função e a forma seja tão profunda, tão evidente (e tão bonita, mas isso é outro debate).

Aquilo não devia ser uma estação de comboios - e terminal, meu Deus -. Quando muito, um cenário para filmes de horror futuristas, campo de batalha para adolescentes desordeiros e bêbedos, armadilha para extra-terrestres que querem passar despercebidos e para isso vão apanhar o comboio. Seriam provavelmente os únicos que compreenderiam aquele estúpido desperdício de espaço, aquela ausência de luz, o eco cavernoso e triste, o vento (sim, há sítios em que o vento é desagradável).

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A maioria das ideias e projectos que tinha quando cheguei a Lisboa estão a avançar. Nem todos chegarão ao fim, claro. Mas o facto simples e irrevogável de já não estarem num parque de estacionamento mental fez desta estadia a melhor em muito tempo. Parece que a ampulheta se virou, finalmente.

* - Isto precisa de ser clarificado. O quadro da bicicleta é Vitus. O resto vem de um molhe de coisas que  RCycla recicla, como por feliz coincidência o nome da loja / oficina indica.

Aconselho-a fortemente. Fica na 24 de Julho, ao lado de  um restaurante chamado Beira-Rio.

O qual é melhor tasca de Lisboa,  arredores e similares.

Cinefilia

Laura, A Desaparecida, de certa forma Providence: os meus filmes favoritos são feitos de ausência.

3.11.14

Diário de Bordos - Mértola, Portugal, 03-11-2014, (cont.)

Um dia bom, mais um, cheio de futuro aos molhos.

Agora chega ao fim, tranquilo, calmo como quem sabe que fez o que podia ou devia.

Uma vida não precisa de muitos assim. Dois ou três molhos deles a cada princípio,  outros tantos no meio e no fim.

Dias como este são especiarias num cozinhado que esteve quase cinquenta anos ao lume (excluo os da adolescência. São um lume diferente).

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A lua está em crescente. Eu também.

Não amor

Eu sei que não te amo. É fácil não te amar para sempre.

Deixa-me dizer-te baixinho, ao ouvido,  nesta almofada na qual repousamos cansados, saciados e satisfeitos: não te amo para sempre. Não te amo como se tu não fosses o mundo, o sol, a lua, a noite e o dia. Não te amo como se nunca te tivesse amado, nunca te tivesse feito amor de manhã, à tarde e à noite, encavalitados no tempo, à luz do sol ou da lua, das estrelas ou sem luz nenhuma, nem mesmo a do tempo.

Não te amo como se não tivesses mamas e ventre e olhos e cabeça para compreender o que te digo quando me calo e o que calo quando te digo.

Não te amo como se não fosses tu a vida, o mundo, o tempo e o vento.

Não te amo como se não estivesse em Mértola, como se não tivesse memória, como se não soubesse que sem ti o amor o tempo o passado e o futuro não passam de um magma disforme, sem cara e sem olhar.

Não te amo como se não te amasse.

Não te amo como se este quarto estivesse vazio, como se por este rio não voassem sonhos, como se por este silêncio não perpassasse o teu sorriso céptico, ansioso e triste.

Não te amo como se tu não fosses uma das razões de eu não te amar.

Diário de Bordos - Mértola, Portugal, 03-11-2014

O silêncio denso, quase sólido das pequenas vilas e aldeias: quando passa um automóvel quase lhe agradecemos. Como se ´fosse uma pequena distracção, um truque para nos chamar a atenção para o principal.

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Falei com P., o dono do mastro que vi atracado no cais. O mastro é de um Vulcain 6, um dériveur lesté de trinta e poucos pés que de patilhão em baixo cala dois metros e dez. Diz-me que só teve de o subir num sítio. Com um metro e sessenta não terei dificuldades de maior.

P. é um suíço de Bienne e partilha o meu entusiasmo por Mértola. Quem não partilha? Estar no campo com um veleiro atracado só na Holanda; é muito menos bonito, mais caro, as pessoas menos simpáticas e a comida mil vezes pior.

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Mértola e Lisboa, Portugal e mar, literatura e vela: os ingredientes parecem bons. A ver o bolo.

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No verão a maioria dos turistas é portuguesa; no inverno estrangeira: espanhóis, Franceses, Holandeses.

2.11.14

Quase provérbios

"Quem tem Visa meu amigo é".

Do Sebastião Antunes, uma pérola de um colar infinito delas. (Em Mértola, claro. Esta terra excita a criatividade de quem a tem e faz quem não pensar que sim).

1.11.14

Serviço Público - Restaurantes, Mértola

O Repuxo.

Quando acabar de digerir este esplêndido almoço comento.

Av Aureliano Mira Fernandes. Tel 286 612 552.

Diário de Bordos - Mértola, Portugal, 01-11-2014

Está muito calor, e esse calor vem de todo o lado: do ar, do vinho que bebemos ao almoço, das ruas de Mértola, tão acolhedoras como sempre.

Pergunto-me se ainda terão fantasmas. Não sei. Logo verei.

Apenas sei o que vejo;  e o que vejo é o cais com um mastro, um só; um dia haverá dois.

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Mértola está deserta; sinto-me no mar.

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A estadia em Portugal está quase a terminar. Em breve regressarei ao Brasil. Depois Texas, Brasil de novo, Caraíbas, Canadá e, final e felizmente, Portugal. Há muito tempo que não tenho um itinerário previsto com tanta antecedência. Há muito tempo que lugar algum no mundo me acolhia como Lisboa me acolheu desta vez. As mudanças de vida são assim: uma mistura de lentidão e celeridade, esforço e inevitabilidade.

Vou pôr os pés em terra; enfim, pelo menos um. O outro ficará no mar. Portugal e o mar: mistura antiga, de provas dadas. Feitos um para o outro, como eu para um e outro.

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Esta escala em Lisboa estava suposta durar quinze dias. Vai para mês e meio. Penso em tudo o que aconteceu, em tudo o que ficou preparado, em tudo o que me espera. Vida destilada: cinquenta e muitos anos de vida que convergem para um ponto, que se condensam, afinam como um queijo ou uma aguardente.