31.7.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 31-07-2023

Penso que todos nós temos períodos destes: tudo parece correr mal; ou pelo menos nada corre bem a cem por cento. Tudo está mais ou menos, umas coisas mais outras menos, umas muito mais outras muito menos, umas muito outras nada. Um tipo não sabe para onde se voltar. Eu opto por voltar-me para as boas, sem esquecer as más, acreditar nos amanhãs que cantam sem esquecer os ontens que choram e os hoje que não sabem para que lado da barreira vão cair.

Se fosse ferroviário, diria que hoje pus o «meu» P. nos carris, que o BP continua descarrilado, que o olho esquerdo está na estação à espera de sair, o ombro direito a andar bem mas com uma locomotiva meio falha de força. Já a neta prepara alegremente a vinda ao mundo, o transporte / cruzeiro da Suécia continua nos carris - ensombrado é certo pelos dois P, mas pronto, não se pode ter tudo, não é? Não, não é. Nada obriga os P. a estarem como estão excepto aquilo a que se convencionou chamar «o que tem de ser» (prefiro a designação árabe: fatalidade). Tudo menos «azar», designação detestável. Melhor cantar como os outros: «If it weren't for bad luck / I wouldn't have no luck at all». Verdade. No outro dia comparei-me a um maneta a fazer malabarismo. Mantenho a comparação, com um caveat: depende da quantidade de bolas. Se for só uma o maneta safa-se.

Verdade seja dita, a curta estadia no Alentejo ajudou-me pelo menos a perceber uma coisa: as decisões erradas, atabalhoadas e improvisadas das últimas semanas são-no porque estou a tomá-las com os dados que tenho a cada momento. Um bocado como um alpinista que assegura cada passo, até descobrir uma passagem melhor. Ou um navegador que dá volta a um cabo a cada braça que o iça: pelo menos para baixo não volta. E a verdade é que não tenho outra alternativa: não controlo nenhum dos elementos em jogo. Ando aos ziguezagues, não por não saber para onde vou mas por não haver caminho balizado. Só é pena os preços de cada zigue e de cada zague.

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Da série Diálogos possíveis:

- Quero vender livros, não quero vender a alma.
- Não queres vender a alma? Então oferece-a.

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«We will shortly be landing.» Esta frase é a coisa mais doce que tenho ouvido nestes últimos meses. Continua assim: «Please fasten your seatbelts... etc.»  Sim, sim. Eu aperto os cintos. Todos, meu caro piloto. Prometo-te que não falharei um. Nem o das calças.

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Conheci finalmente os meus sobrinhos-netos, que até agora só tinha visto de passagem e já há algum tempo. São uns putos porreiros, alegres e vivos. É bom saber que o futuro da família está bem orientado. Basta não ageniarem.

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(Cont.)

Já aqui o disse uma vez e nunca é de mais repeti-lo: o único inconveniente da solidão é sair tão cara.

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Tenho andado com mini-crises de Ménière. Nada de grave nem de particularmente inquietante. Chamo-lhes as Ménièrezinhas, enfio-lhes um Betaserc (nos casos piores - que, repito, não chegam sequer a ser maus, são só incómodos), readormeço e tudo volta ao seu lugar. Não sei de onde vêm, mas da solidão não é de certeza.

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A história não chega a ser uma. Foi no Antiquari. Uma mesa com dois senhores que gostam muito um do outro meteu conversa com a mesa ao lado (que estava ao lado da minha), ocupada por um casal de que o senhor é arquitecto - impossível não ouvir a conversa - e a senhora uma bomba sexual. Isto é, não tenho nenhuma prova empírica do que acabo de dizer, nem sequer auditiva, não passa de uma hipótese. Mas que ela tem escrito em cada milímetro quadrado de pele (felizmente pouco tatuada) «sou uma bomba sexual» isso tem. E se não é, eu sou a mulher do Papa. O que é interessante é que nem sequer é particularmente bonita, não é particularmente bem feita, não tem mamas e tem as coxas demasiado largas. Mesmo assim exala qualquer coisa que me faz sentir uma profunda empatia pelo arquitecto, que tem aspecto de quem vai ao ginásio todos os dias duas vezes por dia, no mínimo e bem precisa. A certa altura ao grupo juntou-se um senhor perdido de bêbedo que estava na mesa em frente, ainda cantaram um cântico qualquer do futebol (inglês, era mesmo impossível não ouvir a conversa, o Antiquari tem as mesas pertíssimo umas das outras) mas aquilo desfez-se rapidamente. Ele há mulheres cuja função na vida é pôr algumas hormonas masculinas em ebulição, prova de que a entropia não ganha sempre. Isto é, ganha, mas aos sobressaltos. 

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De maneira venho para bordo ouvir Paco Ibañez, beber hierbas secas e tentar reconstituir a mulher. É esta a vantagem dos pintores sobre os fotógrafos: se soubesse desenhar seria capaz de a plasmar numa tela só com o trabalho das sinapses. Nada de sais de prata ou daquilo que agora os substitui.

30.7.23

Alegria, inesperada alegria

Dias que acabam bem: dizem-nos que nem tudo fizemos mal. Parece pouco, não é? Ou tolo. As recompensas inesperadas são as melhores. Isto é, distinguem-se mais facilmente das imerecidas, das fingidas e das que sabemos que vamos receber. A genuína e inesperada alegria de rever a C. reconcilia-me com a alegria.

29.7.23

Walser, a escrita e o humano

"Eu intimaria os escritores a, ao invés de pensarem em primeiro lugar no escritor, pensarem antes de mais no homem. A escrita provém do humano."

Robert Walser, in Cinza, agulha, lápis e fosforozitos, ed. Assírio e Alvim, selecção, tradução e prefácio de Ricardo Gil Soeiro.

28.7.23

Diário de Bordos - Évora e Viana do Alentejo, Portugal, 28-07-2023

Atravesso uma rua em Évora, larga de um carro e metade de outro. Não há uma passadeira à vista. Forço um carro a parar, a jovem condutora (trinta e poucos é jovem, não é?) faz um gesto exasperado. Agradeço com um amplo gesto, mão ao chapéu - sou incapaz de fazer um manguito a uma senhora - e penso "Que vai ela fazer, que não pode esperar trinta segundos?" Estatisticamente esta senhora vota PS e se calhar é contra a discriminação. Só que um peão para ela é pouco menos que nada. Face a uma viatura não tem direitos, só deveres. E a uma gentileza responde-se-lhe com um levantar de braços (vá lá que não buzinou).

Não se pode dizer que eu seja grande fã deste povo ignaro, incivilizado e bovino. Infelizmente, é o único que sabe fazer carne de alguidar e migas alentejanas como as que acabo de comer no Café Alentejo, abençoado seja.

Que vá a jovem à sua vida, não faça esperar um amante impaciente ou um marido ciumento. Eu vou à minha: migas, vinho tinto e beatitude (ou aquilo que agora passa por tal).

Porque sim, o Café Alentejo continua a ser um porto de abrigo, uma bênção, uma benesse, uma dádiva, um éden, um recreio de deuses (e para eles também, que assim nos sentimos quando acabamos de comer). Vale milhares de senhoras impacientes. 

E o licor de poejos, meu Deus! O licor de poejos... É como as hierbas secas do outro, mas com mil memórias associadas. Ora é do conhecimento geral que cada memória acrescenta um ponto de gosto (a qualquer coisa que já o tenha).

(Cont.)

Insónias

Não tenho qualquer dificuldade em dormir as primeiras oito horas por dia. Difícil é dormir as outras dezasseis e é isso que leva a crer que tenho um grave problema de insónias. 

27.7.23

Escalas cronológicas

Que os portugueses não têm bem a noção do tempo - ou que têm dele uma noção peculiar - é do conhecimento comum. Qualquer trâmite administrativo dura meses ou anos, que as pessoas aceitam bovinamente; deixar para amanhã aquilo que se pode fazer depois de amanhã não passa pela cabeça de ninguém. Deixa-se para depois de depois de amanhã. Chegar atrasado a uma reunião ou a um jantar é visto como sinal de status ou - no caso do jantar - de boa educação. Os portugueses só têm pressa no trânsito, se forem condutores. Os carros ainda são uma novidade e eles querem aproveitá-la ao máximo. E para entrar ou sair dos aviões. 

Olho para a fila de embarque no avião que me vai levar para Lisboa e tenho um vislumbre: esta gente não tem nenhuma noção peculiar do tempo. Ela vive é noutro tempo. Vive no passado. O tempo não passa, apesar do nome passado. Esperar um ano e meio por uma licença? Isso foi pedido ontem. Uma carta de condução leva um mês? Meia hora, em luso-tempo. Estão vestidos à moda e com o olhar compenetrado do português que vai andar de avião ou comer um pastel de nata mas na verdade estão onde estavam ontem, anteontem ou há um ano. Ninguém avançou um passo que seja, apesar de a fila estar quase a chegar ao fim. 

Ainda tenho por escrever o artigo sobre a câmara municipal de Oeiras e o ano e meio que levou a conceder uma licença que já tinha emitido. Agora percebo melhor: um ano e meio ou um dia e meio tem o mesmo valor na escala cronológica do português. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 27-07-2023

Na área dos pleonasmos alimentares estou habituado ao nosso arroz com batatas fritas. Hoje foi-me apresentado outro: fusilli e batatas fritas. (A acompanhar um goulasch... Suponho que para celebrar a baixa de temperatura aqui em Palma).

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Os senhores do Corb Marí desfazem-se em amabilidade. Se calhar querem atrair os clientes que a antipatia dele foi afastando ao longo do tempo. Ontem consegui ficar aqui mais de vinte minutos depois da hora de fecho (involuntariamente, claro. Nunca me passaria pela cabeça fazê-lo de propósito) sem ouvir um único grito. Desejo-lhes toda a sorte do mundo. Come-se infinitamente melhor do que na Cantina, tem ar condicionado e fica a cinquenta metros do meu P. de amor.

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Hoje vôo de novo para Lisboa. Poucas viagens me calharam tão mal como esta e poucas foram tão necessárias. A ver qual destas forças antagónicas vencerá.

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Não sou absolutamente contra a pena de morte. Acho que há casos em que se justifica - o norueguês que matou mais de setenta adolescentes numa colonia de férias sendo um desses, por exemplo.

O sacana do catalão que me saiu na rifa sendo outro. Mas este não era só matá-lo: devia ser esfolado vivo, aspergido com tintura de iodo e pendurado pelos tomates até morrer.

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Normalmente para e do aeroporto vou e volto de táxi. Já tive a minha quota-parte de autocarros cheios  tudo apertado como sardinha em lata e de ter de andar da paragem até bordo. Hoje por razões que não vêm ao caso resolvi experimentar a camioneta. Aguentei três minutos.  Mal passou um táxi mandei-o parar.

Por acaso meto conversa com o senhor, o tema sendo - claro -  o calor. No que me fui meter. Tive direito a quinze minutos de dissertação apologética sobre teorias complotistas,  de HAARP, Project Popeye, Vietnam  Soros, Papa Francisco (aqui já tinha desligado, não percebi como é que o homem entra na história. Lá que mandou os putos não comer carne para compensar a "pegada carbónica" da viagem mandou).

Como não estava no clube a diferença de preço entre o autocarro e o táxi foi de treze euros. Isto dá menos de um euro por minuto de sapiência. Há especialistas que cobram mais caro.

26.7.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 26-07-2023

A casa de banho do P. desintegrou-se. Desfez-se. Desmontou-se. É verdade que estava previsto refazê-la, mas a sacana bem podia ter esperado. A bomba eléctrica já fora à vida há uns dias. Comprei uma Henderson MK V, a melhor do mundo e arredores. Está para as bombas manuais como Deus para nosotros mortais, com a diferença de que esta existe e Aquele não sei. Tenho sérias dúvidas. 

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Último jantar no Lo Divino com a N. e o R. Infelizmente estou demasiado cansado - ou devastado - para me emocionar. Mas que me comovi um bocadinho comovi.

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Amanhã Lisboa outra vez. Apanho mais vezes o avião do que o autocarro. Se me apanho no mar nem acredito.

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"O R. ficou diferente desde que tem uma mulher", diz-me M., que lhe dá muitos trabalhos. Nunca percebi bem este fenómeno, porque diferente  neste contexto, significa invariavelmente pior. Ora sendo a mulher uma coisa boa por definição, como raio fica um gajo pior quando encontra uma?

A verdade é que não lembra a ninguém nesta actividade ir de férias em Julho. A senhora deve ser um portento.

Escalada de incidentes e ervilhas

A navegação em solitário é uma grande escola de vida, já por aqui tenho falado nisso. Uma das boas lições que nos dá é como tratar uma escalada de incidentes. O que é uma escalada de incidentes? É quando para resolver um problema se cria outro, frequentemente maior; e se vai repetindo o processo até os problemas serem demasiados e demasiado grandes para serem resolvidos em solitário. Só há uma forma de evitar chegar a esse ponto: arreia-se o pano todo e vai-se dormir. Foi o que fez Tabarly em 1966 e ganhou a regata - nunca se saberá se por causa se apesar disso. Faço parte do grupo que apoia a primeira hipótese. Quando a escada começa a ter demasiados degraus a boa opção não é continuar a subi-la, é descer. 

É o que vou fazer: arrear o pano, pôr-me à capa três ou quatro dias, esperar que as minhas sinapses se realinhem, que os neuro-receptores se desmisturem, que isto por esta cabeça está mal. Demasiada pressão para a ervilha que me faz de cérebro. É como se um maneta resolvesse ser malabarista.

25.7.23

Do cansaço e outras rédeas

Entra-se no cansaço mas não se sabe como se sai dele. A minha hipótese é:  não se sai. É ele que sai de nós. Há entre nós e o cansaco uma reacção alquímica: nós entramos nele, ele transmuta-se em parte de nós (se fosse a totalidade não o conseguiríamos nomear) e um dia ele farta-se e deixa-nos. Enquanto é nós  - ou está em nós ou nós estamos nele - o cansaço torna-se uma pessoa física, uma pessoa de carne e osso que anda ao nosso lado, come connosco e por vezes tem a gentileza de nos passar as rédeas. Pessoalmente, na minha óptica, na minha perspectiva, do meu ponto de vista o cansaço só faz isso (passar-nos as rédeas) quando está ele próprio cansado. E assim andamos os dois, ele e nós,  num jogo de toca e foge.

Devo dizer que não me aborrece nada. Só gostaria que ele tocasse um bocadinho menos e fugisse muito mais.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 25-07-2023

O bar Goa é um bar "popular" na praça Progresso onde eu espero pela Rosa ou pelo Dimitriy da Rigging Point quando é preciso esperar por eles. É, muitas vezes. A esta hora (dez da manhã, hora da merenda matinal, o bar está cheio. O barulho é ensurdecedor: o jogo de dominó à frente de mim - a cada jogada tentam partir ou as peças ou a mesa, ainda não percebi; o cão microscópico que um senhor muito gordo leva ao colo e ladra estridentemente a uma criança que se vai embora com a mãe; a máquina caça-níqueis; os gritos das "conversas". Se alguém me disser que é o barulho da vida, eu responderei "que vá a vida à merda!"

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M. continua a assediar-me, agora com facturas cada vez mais delirantes. Liguei a um advogado. Não tenho tempo nem paciência para malucos. Mas esta história consome-me.

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Dois restaurantes, duas descobertas. Um é galego e fica para depois. O outro provei-o agora. Chama-se Gigi's Piccolo Ristorante e os gnocchi al gorgonzola que acabo de comer estavam uma simples maravilha. Tenho-o evitado até agora por causa da "cozinha feita com amor" etc., mas que estava bom estava. E barato, o que não é despiciendo.  Mais um preconceito por terra. Enfim, mini-preconceito. O canto de Ossanha nem sempre se verifica. A comida pode ser feita "com amor" e ser boa.

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A BH Glasgow arrasta-se penosamente por estas ruas; e eu em cima dela, pedalando contra vontade, quase como se fosse ela a imprimir o ritmo.

Quase?

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A fim de ganhar forças para ir até bordo (um quilómetro exactamente) antes de me ir deitar paro muitas vezes na Cantina para um gelado, um chupito ou os dois. Hoje vai ser sorvete de limão com vodka, igualmente conhecido por colonel. Fica bem a um soldado raso - ou arrasado - terminar o dia com um coronel. Faz-me sentir promovido.

Descrição sumária

É como fazer um puzzle do qual as peças mudam de forma mal encontramos um sitio para as encaixar.

23.7.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-07-2023

Sai de bordo o pobre marinheiro longe de casa com dois objectivos explícitos em mente: comer frio e comer barato. Não muito claramente formulado havia outro: ir a um sítio diferente do habitual.

Consegui dois em três. Adivinhem o que falta?

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Isto dito, a Taberna Vasca Jai-Alai exige uma re-visita. Fica na calle Fabrica 59, se por acaso. O almoço de hoje não foi muito exemplar - santola recheada e uma sobremesa - mas algo me diz que a cozinha mais elaborada será igualmente excelente. Não sei o quê. Talvez o mau humor da criada, equilibrado pela simpatia da dona?

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Depois do extenuante trajecto de ida-almoço-volta o pobre marinheiro longe de casa vai dormir a sesta, perguntando-se "Qual casa?" e pensando cada vez mais que será sem dúvida para norte do Tejo.

Descobre com horror, espanto e solidão que afinal é sensível ao calor. 

(Cont.)

22.7.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 22-07-2023

Lá ficou mais um par de óculos da Refleczo para trás. Este no aeroporto de Barcelona. É uma pena, os óculos Refleczo têm a desvantagem de ser baratos e a vantagem de ser giros. Perdê-los é uma chatice. Ninguém gosta de perder coisas baratas. Ainda por cima sinto-me um bocadinho estúpido porque ando há um ror de tempo para encomendar o segundo par de pares (aquilo vende-se aos dois) e claro, foi preciso perder estes para o fazer. Agora restam-me os Vallon, que foram uma péssima compra. São daqueles que têm uma protecção em couro à volta das lentes. Proteger protege, mas tira-me a visão lateral toda. Nas manobras nem pensar e a navegar idem - nunca me tinha apercebido de quanto usamos a visão grande angular mesmo no mar. Resultado: feios e caros. Para a bicicleta tão pouco servem. Não há maneira de os perder. Ainda tenho outro par, o que tem as argolas por detrás das orelhas. Tenho-o há cerca de dois milénios (em tempo ocular), mas as lentes não são suficientemente escuras. Preciso de lentes espelhadas. Resta-me esperar e não perder os das argolas. A Refleczo é uma marca portuguesa e eu gosto desta facilidade de poder falar com as pessoas e falarmos a mesma língua - não me refiro só ao que se ouve. Falo também do que não se ouve, mesmo ao telefone. Um bocado como as mochilas Lockdo, que infelizmente não sobreviveram. Das mochilas todas que tenho é a que mais uso, desde que não precise de ir para o mar. Nesse caso vai a Musto, que é uma merda. Comprei uma igual, mais pequena, chamada Tropic Feel. Ainda não a experimentei a sério. Creio que para pequenos passeios que exijam mochilas impermeáveis servirá. A ver, como dizia o ceguinho.

Tudo isto para dizer que estou de regresso a Palma, já não podia voltar atrás para ir buscar os óculos - ficam pelo menos a saber que tenho muitos. E mochilas. Naquele livro seminal que é o Dicionário Khazar está dito: "Ninguém acredita num homem nu, mesmo que ele diga que tem muitas camisas." Pois eu tenho muitos óculos e muitas mochilas. A ver se alguém acredita em mim.

Fiquei a saber que os táxis de Palma são os mais baratos de Espanha. Informação a confirmar. Fiquei também a saber que ainda tenho o problema do BP para resolver. Isto já o sabia, obviamente. Este saber tem outro sentido, outra profundidade. Como poder falar ao telefone com as jovens senhoras da Lockdo ou da Refleczo.

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Venho ao Lo Divino beber gin, ouvir música, beneficiar do ar condicionado, da relativa vaziez do lugar e ajudar um pouco a N. e o R. Chateia-me verdadeiramente que isto mude de mãos, mesmo pensando que o gajo que aí vem - um madeirense - é bom cozinheiro. Penso que é o da Fabrique, outro desaparecido. Podia fazer um cemitério.

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Informação importante: na estação de comboios da plaza Catalunya, em Barcelona, comi uns bourek de frango excelentes. Escrevo isto para mostrar a toda a gente que sei o que é um bourek. Felizmente «toda a gente» são vinte pessoas, de modo que a minha extraordinária experiência global perde um pouco em vastidão da divulgação. Ganha em qualidade e não pode ser apelidada de pedantismo. Mesmo sendo os meus os melhores leitores do mundo ninguém é pedante para vinte pessoas.

Estou optimista, essa é que é essa. Saber o BP em paz alivia-me. Como se um proxeneta pensasse que uma das suas senhoras tem sífilis e afinal tem só gonorreia.

Diário de Bordos - Barcelona & Blanes, Catalunha, Espanha, 21 e 22-07-2023

(Aeroporto de Barcelona, 22-07)

Resumo da viagem: não fiz nada do que queria fazer e adquiri uma coisa que não esperava. Essa coisa é: paz de espírito. Encontrei o BP sujo, mal amarrado, com o motor em baixo e uma defensa a menos mas agora está em condições. A marinharia foi avisada de que ninguém tem autorização para ir a bordo. Ninguém sublinhado, em negrito e caixa alta.

Blanes é uma cidadezita que fora do Verão deve ser gira; agora é horrível. Uma coisa tem, porém, notável: o pessoal do Club de Vela de Blanes é uma maravilha de simpatia, cordialidade e eficácia. 

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O restaurante chama-se Cava Nit e é fortemente aconselhável. Toalhas de pano, cadeiras almofadadas, uma carta que sem ser de uma originalidade por aí além é interessante. Encomendo salada e penso em Cioran: «É inacreditável que a perspectiva de ter um biógrafo não tenha feito ninguém renunciar a ter uma vida.»  Estou descansado: já renunciei a pelo menos nove vidas e a probabilidade de um dia ter um biógrafo é nula. Vidas nove, biógrafo zero. Ainda tenho margem para mais uma ou duas saladas antes de ir desta para melhor.

Além de toalhas de pano tem clientes que apesar de serem espanhóis não gritam. Talvez seja o ambiente que não convida, não sei. Não acredito que todos tenham comido o sublime sorvete de limão, que umas gotas de vodka promoveram a coronel. Levou-me directo ao Claudio, imagine-se.

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A parte espanhola da aventura do BP termina aqui, algo ingloriamente. Consolo-me dizendo que antes aqui do que nas Canárias.

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(Blanes, 21-07)

Olho para o atarefadíssimo empregado do bar onde entro para beber uma água (sim. Mais mais tarde) e penso que não deixa de ser curioso que arrastar-me - literalmente, mal consigo andar - por ruas cheias de gente, de barulho e de cheiro a fritos possa ser considerado trabalho. Pode. Os milhares de pessoas com quem me cruzo nas ruas apinhadas pagaram para estar aqui. Eu também, mas não estou de férias. 

Hoje encomendei salada no restaurante. Digo isto para facilitar a vida aos meus futuros biógrafos, por quem tenho desde já a maior consideração. Imagino-os horas e horas a pesquisar a magna questio: o Luís Serpa comia salada? Pois bem, meus caros. Aqui têm a resposta. Sim. E também bebia água (no pretérito imperfeito, não vá alguém pensar que me sinto perfeito só por beber água e comer salada). Pouca gente sabe, mas para aí três ou quatro vezes por ano como salada (não incluo os dias que passo em Genebra porque aí o consumo de verderias é obrigatório e por isso não conta).

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Choques de quem vem de Palma:

- Os preços. Isto é inacreditavelmente barato;
- As línguas ouvidas na rua. O alemão saiu completamente, o inglês quase. Ficam uma réstea de francês e o espanhol, omnipresente.
- A fealdade. As pessoas são feias. Todas, homens e mulheres.
- O serviço nos cafés e restaurantes. Viva o regresso do sorriso, da amabilidade e da eficácia. 

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(Epílogo)
Ou seja, regresso a Palma com a consciência de estar a meias-águas. Agora já só me falta o mais complicado: pôr o BP em Lisboa. Antes de ontem, se possível. E dormir, dormir, dormir.

Incomensurável

Começo a perceber vagamente o que subtende tudo isto. Na Catalunha há dois (ou talvez três, mas disso não estou seguro) fornecedores de serviços ferroviários. Um do Estado central, outro do governo da Catalunha.

Nenhum deles dá informações sobre o(s) outro(s). Por estas e por outras - muitas, muito - semelhantes o meu amor por estas bandas está cada vez mais incomensurável. 

Retratos possíveis

A rapariga tem o corpo como um arco tendido, pronto a disparar a flecha que alguém lhe trará.

Paredes

- Ando sempre a bater com a cabeça nas paredes.

- Eu também. Regularmente mudo as paredes, para não as estragar.

20.7.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 20-07-2023

«El calor idiotiza a las gentes», diz-me Diego, um baixo que conheci em Antigua e com quem me dei há uns anos. «Y a nosostros también», conclui. Nós sendo os músicos. Diego toca muito na rua, aliás era o baixo de uma excelente banda que tocava na rua e da qual uma então namorada minha era a cantora. Ou colaborava de vez em quando, já não sei. Está com os cabelos mais brancos e os dentes mais estragados, sinal de que não deve ter diminuído muito a inalação de certas substâncias. O rapaz toca bem. Falta-lhe pouco para ser um grande baixo, mas o duo que agora faz com um senegalês é bastante agradável de ouvir. Por vezes, penso que a minha bicicleta BH Glasgow também se deixa idiotizar pelo calor. Está lenta, pesadona, hesitante, ela normalmente tão viva e lesta. Nunca sabe para onde quer ir. Como eu, de resto, que ando aqui a --- (procuro morfondre no dicionário e dá-me lamentar. Não é nada disso, pá) lamentar-me barra hesitar barra desanimar barra não saber o que fazer: ir amanhã a Blanes buscar a merda do bote ou ficar para jantar com o V. e se calhar com os outros? O mais provável é ir: preciso de mar, nem que seja na porra de um bote a motor. Por outro lado, ir amanhã ou sábado é a mesma coisa.
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Comprei três gyotaku ao filho do Jaume Salvadiego. Gastei mais do triplo do que esperava, mas o rapaz vem de Manacor e estava todo comovido e fez-me um montão de descontos. Quando tiver uma casa terei imensas coisas bonitas para pôr nas paredes. Só me falta a casa. E um bocadinho mais de dinheiro, mas isso é outra história. O dinheiro é como aquela história da roupa de que se necessita para uma viagem: depende do volume que se tem para a transportar. Se for muito, precisa-se de muita roupa; se for pouco, de pouca. A melhor maneira de precisar de pouca roupa é ter sacos pequenos. Com o dinheiro é a mesma coisa: basta não o ter para não se precisar dele. E não ver gyotaku.

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O P. mexe-se  que nem uma alma danada no fogo do inferno. Este lugar é horrível. Já pedi ao E. para me mudar, mas agora vem aí a Copa del Rey e nem pensar. Lá para Setembro, diz-me. Lá para Setembro não valerá a pena, penso mas não digo nada porque este barco tem um elástico na popa que o prende a Palma e enquanto não o vir cortado não digo nada.

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Festa de despedida da N. e do R. no Lo Divino. A burra pede-me encarecidamente para não ir, mas vou. Duche, roupa decente, cortar unhas, lavar dentes... felizmente não preciso de me pentear, o cabelo foi cortado anteontem em Lisboa - tudo isto depois de um brevíssimo repouso. Não me posso esquecer de ver as previsões para amanhã. O ideal seria parar em Tarragona, sempre tenho lá o Mauro. O ideal será parar onde tiver de parar. Preciso de mar, para ver se paro de me morfondre.

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Mocassines, jeans, camisa e casaco brancos de linho, panamá de cerimónia. O mínimo que se pode dizer é que me aperaltei para a festa. O máximo é que sou o único nestes atavios. Paciência. Nunca me importou muito ser o único em coisa nenhuma, não é agora que vou começar. (Algumas senhoras também estão vestidas. A maioria delas e eles todos estão com a roupa habitual do aqui, agora: aqui Palma, agora Verão.)

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Sou, sempre fui, completamente incapaz de estabelecer comunicação com outras pessoas em festas ou grandes ajuntamentos. Sentei-me numa mesa vazia e pouco depois chegou uma professora de ioga que conheço vagamente daqui. A senhora partilha a minha incapacidade em conversa de circunstância. Acresce que tem o sentido de humor de um bloco de granito. Foi numa conversa com ela há umas semanas que me ocorreu a ideia do ioga para elefantes e para tartarugas. Disse-me que não era possível. Agora foi buscar vinho (do meu, ela está desempregada) e posso escrever enquanto penso na miúda que entrou há bocadinho, modelo para o Helmut Newton - pernas até às orelhas - linda de se morrer e ressuscitar vinte vezes seguidas. Saiu-me da linha de visão, que pena. O que eu gosto do Newton não tem descrição. 

A jovem modelo newtoniano voltou ao seu abençoado lugar; e acabo de ver um senhor de calças e de camisa de mangas compridas. Já não sou o único. (O gosto da camisa é discutível, mas não estamos aqui para analisar pormenores.) A professora de ioga trocou-me por um lugar ao balcão, coisa que agradeço porque assim posso escrever. Quando não havia telefones portáteis era pior. 

Alguém me sabe dizer porque é que as mulheres muito bonitas andam sempre com um monstro atrelado? Uma vez perguntei à minha filha mas ela zangou-se e não respondeu. Sou um rapazinho curioso e sensível e gosto de me informar.

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Conceito a elaborar: beleza tranquila,  por oposição a beleza explosiva, espampanante (de que não gosto).

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Se continuo a olhar para ela desta maneira a rapariga vai pensar que sou míope. 

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Plano para amanhã: dormir até ser demasiado tarde para ir a Blanes.

18.7.23

Diário de Bordos - Em voo, Lisboa - Palma, 18-07-2023

Trinta e poucas horas em Lisboa para fazer mais exames à vista e acessoriamente para tratar da carta de condução, caducada há mais de um ano. Esta conjunção de olhos, ombro, P. e BP vai ficar na minha história. É verdade que os dias antes da regata da ESA foram piores - mas foram poucos. O mesmo com os dias antes da regata dos 18' em Itália. Agora não é bem um período de tempo. É uma amostra da eternidade: não tem princípio nem fim. É como se tentasse fechar um quadrado e nenhuma das arestas se mantivesse no lugar. Espero vivamente que o P. se resolva em breve. Depois será o BP. A vista ficará provavelmente para o fim - dos que têm resolução. O ombro não sei se tem. Ultimamente tem doído menos, vá lá. Depois disto tudo, poderei atacar o problema da habitação. Começar por decidir onde. A tentação de sair de Lisboa é grande, mas a verdade é que hesito. Não posso andar com a tralha atrás de dois em dois anos. Nestes últimos vinte anos os períodos foram mais curtos, mas a tralha era consideravelmente menos. Agora quero dar inicio a um ciclo de vinte anos, findo o qual não haverá tralha a transportar. 

A minha carta de condução expirou. Daqui a um mês terei a nova. O passaporte também expirou, mas ter um novo foi mais rápido. A carta de patrão de alto mar expira daqui a quatro anos, nas tenho de ter cuidado porque se não pedir a renovação dentro de um prazo muito curto terei de fazer o exame. Mais uma aldrabice do Estado para angariar umas massas. Ou se calhar nem isso: é mesmo só incompetência. 

Não me apetece nada lidar com cartas, casas, documentos, mudanças, operações aos olhos, dores nos ombros. Tão pouco quero lidar com catalães caracteriais ou com fornecedores de serviços com demasiado trabalho. Não quero lidar com nada daquilo que agora me rodeia, esta aventesma gelatinosa na qual ando e não chego a parte nenhuma.

No meio disto tudo esqueço o livro e a exposição. Daquele já tive a reacção do João R., que chega para me apaziguar o ego e as dúvidas pelos próximos dez. Já daquela continuo a perguntar-me. Tenho medo de estar a atrair as pessoas para uma coisa sem interesse nenhum e só não tenho medo de não vender nada porque aquilo de que estou certo não me assusta. Pelo menos terei parcialmente realizado o meu sonho de contra foto grafare, sonho velho mas ainda vivo e sem bafio. 

Agora passemos às coisas importantes, também conhecidas pir fluxo de consciência. Não tenho pequeno almoço a bordo. Estou sentado na parte traseira do avião, já passaram por mim muitas miúdas (de todas as idades) e nenhuma tinha perfume. Fico com o cheiro da comida que os meus vizinhos encomendaram, spaghetti e qualquer coisa tikka masala (frango, claro). Não sei se fiz bem em arriscar a ida ao armazém amanhã. Se calhar como também, ao menos assim junto o olfacto à vista. Encomendei spaghetti. Em Palma o homem do táxi vai ter um ataque quando lhe disser que vou para a Cardenal Rossell. O sino que o David P. F. me ofereceu ficou lindo. Vamos chegar "dez minutos antes da hora". O truque das companhias aéreas devia ser revelado. Tenho de tratar do transporte do BP para Portugal, mas com pavilhão espanhol. Ou português? Ou himalaiano? O P. volta ao espanhol, isso é certo. E eu, sob que pavilhão vou navegar estes próximos vinte anos? Haverá forma de os reduzir um bocadinho? Já paguei o jantar e aterramos daqui a pouco. Por um lado, espero não ser obrigado a pôr um boomjack rígido. Por outro, chateia-me navegar sem amantilho. Hoje fiz uma grande parte do trajecto entre o IMO e o Arco do Cego em ciclovia. É inegavelmente bom. O Tentações de Goa é excelente. Estes fluxos de consciência são uma seca, não são? São. Quase a tocar com os pneus na pista? Não. O trem ainda nem sequer saiu. Agora sim. Faltam as pancadas de Molière para os flaps, mas este avião parece ser dos silenciosos. Interromper o fluxo de consciência é fácil. Difícil é não o pespegar aqui. Quem começou foi ele, não fui eu. Aterragem Schweppes, como os pilotos lhes chamavam antigamente. Está na hora de interromper os fluxos.

16.7.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-07-2023

O Sa Ronda é um daqueles restaurantes aos quais chamo "resistentes".  Estão em zonas da moda mas não vendem pokes-wokes-yokes, fusion-gourmet-brunch, etc. Venho aqui muito de vez em quando porque está sempre cheio - suponho que enche quando abre as portas e só fica vazio quando as fecha. Gosto dos mexilhões e do sorriso da empregada, uma espécie de sorriso com pernas e com um nariz à Cleópatra do Astérix. O dono é maiorquino, aposto e a casa fica pertinho do clube. Para cima pedalo, para baixo deixo-me levar embalado no vinho branco, nas hierbas secas e no supra-mencionado sorriso. De vez em quando lá aparece um estrangeiro, mas a língua que se ouve é o espanhol (as empregadas não falam o dialecto local, claro).

O meu eco-sistema palmitano levou alguns anos a construir, mas agora está consolidado.

Ou seja: está na hora de me ir embora. Não nos devemos atardar lá aonde os nossos trajectos não têm dúvidas. 

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Acordo da sesta mais cansado do que antes dela. Sinal seguro de uma de três coisas:
a) A sesta foi demasiado longa;
b) Foi demasiado curta;
c) Foi da duração habitual e o cansaço não tem nada a ver com a duração da sesta.

Intuitivamente opto pela c) e tento atribuir o cansaço pós-sesteada a causas externas. Por exemplo, o meu cansaço generalizado. Nada funciona. Limito-me a pedalar vagarosa e pesadamente, a sonhar com regressar já ao camarote e a resistir a essa tentação porque não quero acordar às duas da manhã. Em Quelimane houve um ano em que saí de casa às cinco da madrugada (ali já o Sol nascia) para ir para as festas de Carnaval, que então se prolongavam até às seis ou sete. Porém aqui não há grande coisa aberta de madrugada e se houvesse faltar-me-iam cinquenta e dois anos a menos...

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Saí de bordo sabendo que tinha de fazer trajectos curtos. A minha bicicleta é de peso variável: às vezes pesa duas toneladas, outras é ligeira como alguns risos. Hoje está nos dias pesados: parei no Enco para um afogatto, fui ao Jardim da Rainha, aonde já não entrava há alguns anos e acabo finalmente no Al Punt, refúgio das tardes de domingo. Infelizmente o ar condicionado está fracote - o que se compreende porque a sala está vazia. Volta, Chinchilla. A falta que nos fazes (também fechava aos domingos, mas isto não é um texto do realismo italiano dos anos sessenta). 

15.7.23

Da falta de paciência à incompreensão vai um passo

A falta de paciência começa a assustar-me. É aflitivo que uma pessoa inteligente e - não escamoteemos o facto - que já foi objecto de desejo (no sentido amplo do termo) venha agora dizer-me que usar a palavra «preto» é sinal de racismo. Não é simplesmente confundir uma palavra com um conceito, esquecendo - ou ignorando - que a semântica evolui mais depressa do que os conceitos. O racismo - a ideia de que as pessoas são inferiores por causa das suas características morfológicas - é o mesmo há centenas de anos. Evoluiu pouco. As palavras mudam mais depressa e são erráticas. Não tarda, gay será tão pejorativo como hoje é maricas. 

O que me choca, contudo, não é isto. É a facilidade com que pessoas cultas e inteligentes se moldam ao zeitgeist e lhe atribuem valores absolutos. Como se os valores dependessem das palavras, como se as palavras fossem os valores. Não são. O racismo é errado, qualquer que seja a palavra que o tempo aceite para se designar um preto. Um negro. Um africano (não esquecendo que há africanos brancos, mas isso é outro debate).

Minha querida, não há ninguém menos racista do que eu. Já fiz provavelmente mais por pessoas de raça negra do que tu farás em três vidas. Nunca olhei para elas como pretas, castanhas, negras, chuabos, zulus, tutsis, hutus, macondes, macuas, bakongo e por aí fora. Para mim sempre foram, são e serão sempre pessoas. Qualquer que seja o termo que use para as designar.

13.7.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 13-07-2023

O dia amanheceu com uma lestada desbragada e eu com uma molestada ainda pior.

Pouco a pouco, porém, as coisas vão ao sítio. A avaria do BP está em vias de resolução, o Enver não acaba a pintura nem hoje nem amanhã tal como eu tinha previsto - puro hábito do pandemónio, não sabia nada desta ventosga - e o limoncello do Hugo no mercat de l'Olivar continua a fazer milagres. Hoje precedida de uns sushi do alemão, que são para lá de muito bons e para cima de muito caros - uma combinação que nem sempre é tão fácil de deglutir como se pensa. Vou lá uma vez por trimestre, quando muito, o que é pouco mas é o que há. Tenho saudades dos sushi do Gonçalo no Estoril e desde aí tenho limitado o consumo dessas coisas.  É aquela velha dicotomia da qualidade e da quantidade, se não estou enganado. ou do bom gosto e da pouca massa, vá saber-se.

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Esta coisa da lestada tem vantagens e desvantagens. Por exemplo: os trajectos de bicicleta com uma componente leste-oeste são fortemente facilitados; ou: a tinta ainda está no pincel e já está seca. Claro que todas as moedas têm duas faces e ir de bicicleta num trajecto para os quadrantes leste é um sacrifício. Ou querer pintar a porra do convés com tinta que se espalhe (pelo nosso convés e não pelo do vizinho a sotavento).

12.7.23

Milan

A insustentável leveza da vida deixou-nos hoje, mais pesados.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 12-07-2023

O gordo é segurança aqui no clube. Só trabalha de noite. Tem uma voz esganiçada, fala altíssimo e só diz disparates. O conjunto vai tão bem com o meu estado de espírito como mousse de chocolate e vinagre. De manhã vem à cantina envenenar as manhãs de uns e fazer sorrir outros (integro o primeiro grupo). Nos outros irrita-me a condescendência, que para mim é equivalente ao paternalismo. Aceitam aqueles disparates, gritos, «cantorias» (uma coisa tenho de lhe agradecer, canta pior do que eu) como se aceitam as traquinices de um miúdo. Combinado com o barulho das máquinas que vem do Audax é infernal. Infelizmente, o sacana do Corb Marí a) abre mais tarde, b) não gosta de me ver lá com o computador (e eu, c), detesto-o, apesar de reconhecer que a cozinha é boa, mas isso é outra história.) 

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A expressão correcta não é: «Isso é demasiada areia para a minha camioneta.» Mas: «Isso é demasiada merda para a minha fossa.» Não tenho espaço para muito mais.

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Uma das verdades teóricas mais espalhadas é: «as coisas são como são, não como nós queremos que fossem.» Digo teóricas porque na prática poucos a lembram quando é precisa. Todos temos uma tendência a crer que as coisas são como nós queremos. Às vezes conseguimos: hoje, por exemplo, consegui adiar a instalação do lazybag para terça-feira, isto depois de ter passado dois dias a ouvir que não podia ser. Hoje a resposta foi: «Sim, até me dá jeito, não tenho a certeza de que as réguas cheguem amanhã.» Depois foi a vez do rigger: «Bem. não dá muito jeito mas vou falar com o D., ver se ele consegue. Tem os lazyjacks todos do ---- (segue-se nome de super-iate que esqueci) para fazer e estava a contar acabá-los amanhã para na sexta ir ao P.» «Na pior as hipóteses pode ir na segunda. Quero ter a tinta do convés bem seca antes de ser espezinhada por duzentos matulões.» (Invento, mas pouco.)

Não deixa de ser irónico que tenha andado meses atrás destes dois para agora ter de lhes pedir que adiem o trabalho.  

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O BP está com problemas de parto e se calhar amanhã tenho de ir de escantilhão para Blanes. Sexta-feira tinha prevista uma ida ao galope do mastro. Pergunto-me se não devia transmutar-me em estilita e ficar lá em cima por uns anos.

11.7.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 11-07-2023

A melhor maneira de secar lágrimas é dar-lhes um banho de realidade: não sabem nadar quando o real lhes bate à porta. Quem diz real diz vida. De maneira cá estou outra vez, atascado no dia a dia até ao pescoço: pintura do convés - tem de se deixar para o fim da tarde, está demasiado calor; lazybag - vem na sexta-feira e não dá para mudar porque tem o trabalho todo planeado; rigger - tem os mastros do CREOLE e ninguém no seu perfeito juízo o troca pelo meu P., pir muito que eu o ame. Acho que consegui convencê-lo. Amanhã à tarde saberemos. De manhã vou buscar o carro para mais uma sessão no armazém, o objectivo sendo tornar o P. habitável. Talvez o consiga alugar para habitação temporária. Paga pouco mas mais do que zero. O problema é o calor.

Enfim, isto é uma piada privada. Fosse o calor o único problema. 

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No lado das boas notícias - as anti-lágrimas ou seca-lágrimas - há uma só, mas relevante: a dor no ombro direito está cada vez mais fraca. O movimento já vinha de antes do produto "natural" que a pequena da farmácia me impingiu,  mas este pelo menos mal não fez. Amanhã vou comprar mais uma caixa.

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Já dos olhos estou na mesma. Não se pode querer tudo. Dia dezoito saberei melhor com que linhas se vão coser. 

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Carta de condução,  Guides V. O., exposição, BP, a página do P., o traveller, cuja história ainda não acabou (ou melhor, insiste em não se por na alheta, passe o jogo de palavras): o meu cérebro parece um albergue para ratos que tentam desesperadamente escapar e voltam resignados ao cativeiro.

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Ainda não são dez da noite e já estou cheio de sono. Depois acordo às quatro da manhã, claro. No tempo em que conseguia ler estes horários eram uma benesse. Agora são uma quermesse, passe a inevitabilidade da analogia. Uma quermesse com todas as barraquinhas aos gritos, numa cacofonia insuportável. 

Tento alegrar-me pensando que o prémio de todas as rifas do arraial é um banho na piscina do dia-a-dia, a tal que seca lágrimas, tristezas e outros arrebatamentos.

Carnaval

O homem vive de mitos. sempre viveu. O que separa as mitologias actuais das anteriores é que as de hoje estão mascaradas de ciência. Vivemos um carnaval permanente. 

10.7.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 10-07-2023

Passam a vida a dizer que um homem não chora. Sou um homem, portanto não choro. Isto é lógica para principiantes. O que a lógica não menciona é que por vezes os homens precisam de chorar. Ou então de beber rum com sumo de laranja no Jaume, depois de um gelado de kefir e arándanos no Claudio, combinação fatal para as lágrimas, conhecida desde os estóicos. É um segredo de Polichinelo: as lágrimas dissolvem-se em rum e em gelados do Claudio. Para alguma coisa hão-de servir: por exemplo, lembrar-nos pérolas da sabedoria antiga.

Ah, também fui comprar calções Napapijri número trinta e quatro, mas isso foi truque da minha metade feminina, a que não se deixa enganar por rum e gelados esquisitos. Agora tenho aproximadamente duzentos calções dessa marca para vender, números quarenta, trinta e oito e trinta e seis. A Rossella disse-me para parar no trinta e dois. Expliquei-lhe que não fiz nem faço nada para aumentar o volume de negócios dela: a culpa é do Trulicity, abençoado seja.

Escrever também ajuda. A palavra lágrimas, por exemplo, escrita com a caneta Parker que comprei na feira da Ladra substitui as lágrimas reais que quero chorar. Ou preciso? Chorar é uma necessidade ou um capricho?

Não sei. Sei porém que pouco a pouco aquilo que me provocou esta vontade - ou necessidade? - de chorar se vai entranhando em mim, dissolvido em rum, gelados e calções. Como toda a gente sabe desde os estóicos, chorar é uma necessidade superficial. À medida que a dor se afunda e sedimenta o choro dá lugar à vontade de encontrar alternativas às lágrimas. Também conhecidas por soluções, paliativos e assim.

O P. vai passar mais um Verão em Palma. Abriu a época de caça às alternativas, também conhecidas por soluções. Parece-me que a minha vida tem sido isto: procurar soluções. A primeira já está no horizonte. Vai ser testada amanhã. 

Vá lá. Consegui escrever um post inteiro sem mencionar as mamas da senhora que acabou de entrar no Jaume, salvo seja. A mulher acertou em cheio: entrou no momento em que eu julgava ter acabado de escrever. O homem que está com ela é feio para burro, mas enfim. Acredito na sorte e na capacidade que tem de se espalhar. São quase oito da tarde e os turistas começam a entrar para jantar. Palma é uma das plataformas escolhidas pela evolução feminina para mostrar aquilo de que é capaz.

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Palma está sob uma "onda de calor". Antigamente, a isto chamava-se Verão. Suspeito fortemente que as alterações são tanto climáticas como lexicais.

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O processo de dissolução de lágrimas continua, desta vez no Antiquari. Quem não tem casa tem muitas casas. Não ter onde cair morto é uma coisa; ter onde chorar é outra, melhor.

(Cont.)

Deux ou trois réflexions de dimanche

Statistiquement, il me reste vingt ans de vie. Peut-être un peu moins, improbablement un peu plus. J’envisage ces vingt ans avec un mélange de sentiments très vif, quasi douloureux. Côté cour : la famille, les bouquins, la mer ; côté jardin, une grosse question, à multiples ramifications : qu’avons-nous fait de notre temps ? Qu’allons-nous laisser à nos enfants et à nos petits-enfants ? Comment avons-nous transformé un monde où la liberté était une valeur absolue en un monde dans lequel la censure est devenue une vertu ? Dans lequel le deuxième degré a presque complètement perdu le droit de cité et tout discours est réduit (et pris) au premier degré ? Un monde dans lequel l’on prête aux mots des pouvoirs surnaturels, comme s’ils seuls pouvaient changer les choses qu’ils désignent et les sentiments et émotions qu’ils entraînent ? Comment vivre dans un monde où l’individu a perdu sa lutte – vieille lutte, faut-il le dire – contre le groupe, après quelques années qui nous ont fait croire que cette victoire était acquise ? 

Nul n’a le droit d’être qui il est car ce qu’il est peut offenser n’importe qui et le poids d’une offense est supérieur au poids de la liberté d´être ce que l’on est. Que la génération de nos enfants, de Helena et de Thomas veuille vivre ainsi est pour moi un signe d´échec, d’une débâcle : nous nous sommes tant battus pour la liberté et maintenant elle est volontairement mise de côté. Et le pire est qu’une grande partie de notre génération accepte cet état de choses. Pire : y participe activement. (Je ne comprends pas encore entièrement pourquoi et je laisserai ça pour une autre fois).

L’offense, la censure, l’indignation, la certitude sont devenus les valeurs qui guident le zeitgeist. Le doute, le scepticisme, l’esprit critique, l’humour ne sont permis qu’enfermés dans des baies. La rationalité est devenue un ennemi ; aujourd’hui il n’y a que les sentiments qui vaillent. Les émotions. L’offense. L’indignation. 

De « nous sommes tous égaux » on est passé à « on est tous différents » mais ces différences sont groupées en tribus qu’il convient de ne pas toucher, soit-il par l’humour (qui n’est pas toujours une critique, il n’est jamais trop de le rappeler. Je lis souvent des cartoons dont je ne suis pas du tout d’accord avec l’idéologie d’où ils viennent mais qui me font rire à me taper le cul par terre, car l’humour est une valeur en soi). La société « inclusive » crée plus d’exclusions que la société libre, tolérante et permissive pour laquelle nous nous sommes tant battus. 

La lutte de l’individu contre le groupe est ancestrale, évidemment. L’histoire n’a pas de sens mais si elle en avait un, ça serait justement la libération de la personne du groupe duquel elle vient. Aujourd’hui, il n’y a plus un groupe duquel se libérer : il y en a des dizaines. Je ne suis pas sûr d’avoir envie – ou du moins l’énergie – de recommencer ces lutes, aujourd’hui plus difficiles car « l’ennemi » est fragmenté en mille mots. Les mots ont toujours été mon échafaudage. C’est sur eux que je me suis toujours appuyé. Je n’ai pas envie de les surveiller, de les dompter, de les enfermer dans des cellules comme si l’on vivait dans une énorme prison - avec plusieurs cours, mais toutes encerclés par les hauts murs de l’indignation d’autrui.

Blanes, 09-07-2023

8.7.23

Diário de Bordos - Blanes, Catalunha, Espanha, 08-07-2023

Querido diário: tu sabes. Quanto mais cheios os dias mais vazio tu ficas. É uam injustiça. Devia ser ao contrário. Mas não é.

Bom, enfim, posso tentar resumir: ontem obtive o NIE. O processo foi simples e rápido, se dele excluirmos os quarenta minutos de comboio para Rubí e outros tantos de regresso a Barcelona. Depois foi a viagem para Roses, que desta vez me pareceu menos chata - apanhei um comboio mais lento e em contrapartida safei-me de uma das camionetas. Conversa simpática com a dona da Roses Nautic, onde chegámos à conclusão de que o grande culpado disto tudo foi o azar. Fui dormir a um desses «hotéis» abomináveis em que tudo se passa por intermédio do telefone. Vi uma pessoa porque a porta do meu quarto não abria e o homem chegou esbaforido. Afinal era só preciso empurrar com força. Fui jantar a uma tasca na qual lamentei não ser ainda mais surdo. Completamente surdo. Os espanhóis até para falarem consigo próprios gritam, aposto.

Acordei descansado, dormido de A a Z. Tenho o maldito NIE na carteira, dinheiro na conta, a viagem da Suécia a precisar-se, a neta quase a nascer, o BP à minha espera - na verdade acabei por ser eu a esperar por ele, mas isso é irrelevante - e cada vez menos dores no ombro direito. Esperar que um estaleiro ou uma empresa de charter entreguem um barco no prazo é como querer que a Virgem Maria participe numa orgia. A resposta é não, ponto. Vá lá que a espera não foi longa: saí uma hora e meia mais tarde do que o previsto, o que é razoável. Vinha mentalmente preparado para ter de passar mais uma noite naquele poço de mau-gosto, vulgaridade, banalidade e quinquilharia.

A viagem de Roses para Blanes correu magnificamente. O bote é uma maravilha. Três horas e um cagagésimo para fazer pouco mais de quarenta milhas. O casco passa na vaga como o meu olhar pelos seios desnudos de uma jovem na praia. Quase quatorze nós de média, vinte e seis litros de combustível. Verdade que tive de reduzir bastante porque à tarde entrou a térmica e nem as minhas costas nem o BP gostamos de ter a impressão de estar a ser esmagados por uma horda de elefantes tailandeses. Cheguei exausto, claro, mas antes de me deitar fui tratar de mim, depois fui ao chandler (felizmente estava fechado quando cheguei. Se estivesse aberto não teria desculpa. Assim tive a oportunidade de comer num mexicano um dos almoços mais indescritivelmente maus da minha vida. É que não era só um mau mexicano. Era mau tout court.)

Deitei-me, não dormi praticamente nada porque quero guardar-me para a noite, dei um passeio por Blanes porque fui comprar um creme «pós-sol». Gosto muito mais de Blanes do que de Roses, que não passa de um buraco para turistas igual a todos os buracos desses que há no mundo e agora preparo-me para ir jantar e dormir.

Espero que aprecies o esforço que fiz para te contar estas coisas todas. As tensões e distensões destes dois dias mereciam mais, mas fica para depois. 

PS - Espera, esqueci-me de te dizer: amanhã tenho um dia de folga. Uma reunião com o Marc e avião para Palma. Não é maravilhoso? É.

5.7.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 05-07-2023

Queixarmo-nos constantemente cansa; tal como dizer «estou cansado». Felizmente não cansa apenas quem o diz: quem o ouve também se farta. É pena partilhada, por assim dizer. Passo portanto para as boas notícias: o traveller não vai voar à primeira cambadela. Nem à segunda. Vai ser preciso trocá-lo antes de irmos para as Caraíbas, mas até lá vai aguentar-se como um grande. E o próximo leva a mesma contraplaca, que já está feita e bem feita. Outra boa notícia: creio que não haverá mais obstáculos entre mim e o BP (M/V BABY PANDA, de seu nome completo). Agora é questão de o pôr a trabalhar sem levar muitos tiros.

A expressão é um plágio, confesso-o aqui apesar de saber que o seu autor nunca sonhará sequer que tenho um blogue. E se soubesse teria de aprender português. Telefonei ao Mauro recentemente para saber como estava o barco dele a funcionar em Tarragona. «Levei um tiro», respondeu. «Quem to deu?» «A bandeira polaca». «Meu irmão de armas...» suspirei mas não lhe disse. Ele optou por continuar, eu por regressar à espanhola. Vamos ver. Até agora, parece-me que a espingarda que lhe deu o tiro tinha menos chumbo do que a que mo deu a mim, mas isso é sempre assim: o jardim do vizinho tem a relva mais verde e as galinhas maiores, toda a gente sabe. Para nós ficam reservados os calibres maiores, as galinhas mais magras e a relva mais amarela.

De maneira sexta de madrugada lá estou a caminho do aeroporto, sexta à noite durmo em Roses e sábado de manhã venho por aí fora até Blanes, sozinho como vim ao mundo. O azul salgado e eu e o barulho de um motor atrás. A ideia é vir devagar para não gastar muito combustível. E para fazer durar...

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Ontem à tarde comprei um maço de cigarros. Já foi quase todo. Ao mesmo tempo, continuo esta entrada - começada no Lo Divino - no P. Soma de mais um menos um é igual a zero, diz a álgebra. Não sou assim tão pessimista. Escrever no P. vale mais do que um: hierbas secas no fim de um braço direito quase sem dores (e sem analgésicos), os salmos de Orlande de Lassus, a ideia de que não tarda o P. estará habitável... As parcelas da soma não estão correctas. Claro que se fizesse uma fotografia de como isto está quem a visse pensaria que não percebo nada de álgebra. Não entro nessa discussão. A minha álgebra é melhor do que a tua pela razão simples e inexpugável de que é minha.

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Mudo para as Vésperas do Rachmaninov. Quero ouvir uma coisa que conheço. Estou farto de descobertas. Amanhã de manhã tenho o Enver. Vai acabar o traveller e começar a pintura do convés. Para a semana tenho o J. W. e o Dimitri. A porta fecha-se. Tenho é não sei quantos dedos entalados, mas isso é outra história. Há cinco anos que não vivia aqui, onde espero viver os próximos cinco. Ou dez. Ou vinte. O único senão são os livros, coitados, Sem mim não dormem.

4.7.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 04-07-2023

Têm sido complicados, os dias; e se quisesse ser honesto diria as semanas, os meses. Não quero. Os dias bastam-me, tal como basta dizer que quando cheguei a Palma em Abril pensava que hoje, quatro de Julho, estaria a chegar a Blanes. Não estou. Sinto-me vítima de uma injustiça diabólica, mas quem não se sentiria assim nesta sequência de merdas? As tribos sujeitas à punição das canhoneiras de Sua Majestade não se sentiam muito diferentemente, quando as balas dos canhões desabavam sobre elas, aposto. É como se o diabo tivesse decidido dar-me um passaporte novo, de uma terra chamada Inferno. Não deu. Sou português, com tudo o que isso tem de bom e de mau. Já lá vamos. 

Em troca venho à Rambla ver as flores, as que estão nos stands e as de duas pernas que passam à minha frente para um lado e para outro. As primeiras enchem o espaço de cheiros; as segundas enchem-me a vista - o que por enquanto resta dela, há-de melhorar - de sábias sensações. Sábias de saborosas e de sapiência. Não há homem digno dessa condição que não se orgulhe dos seus prodígios manuais e passados. Roald Dahl tem um conto sublime sobre o tema. Espero que não tenha sido censurado.

A Ca na Chincilla fechou e o lugar que a substituiu está fechado hoje «para uma reunião». Vou à do lado, reiterando que um dia terei de fazer a lista dos meus lugares em Palma que fecharam ou desapareceram e das implicações ontológicas desses desaparecimentos. Nesta peço um vermute e uma gilda, ambos aceitáveis, cheiro umas flores e olho para as outras. Tenho pelo menos a sorte de poder reciclar estas coisas em disparates.

A verdade é que ser português tem vantagens: prepara-nos para uma série de defeitos da humanidade - a pequenez, a inveja, a falta de visão (a outra) e para algumas qualidades imprescindíveis: a resiliência, o desenrascanço, a poesia, a capacidade de conviver com o fado aceitando-o quando não há alternativa e resistindo-lhe quando há.

Vou jantar à Infame com o V., que está em Palma. Enquanto espero venho à Primavera beber um copo e transcrever os disparates, duas actividades que se coadunam facilmente. A música é infame, mas penso no jantar que aí vem (ou mini-jantar, mas isto não é um confessionário) e finjo que não oiço. Já gostei muito deste sítio, quando ainda se chamava Índico. Mudaram-lhe o nome, o resto continua igual. Não me lembro de como era a música. Devia ser melhor. Antigamente tudo o era, porque não aqui também?

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O diabo não me deu um passaporte novo mas deu-me um traveller da escota da grande que faz a mesma coisa. Hoje chamei o Carl B., ver se com uma contraplaca em aço inox resolvo aquilo de vez e mando o diabo ao diabo. 

Falava com ele (Carl), um inglês jovem e redondo - metade de gordura e metade de músculos - e pensava que com a experiência deste refit estou pronto para qualquer um. Desde que não me apaixone pela merda do bote, claro. Fazer isto num barco que se adora é uma tensão permanente. Se não se amar a embarcação, o n de tensão cai, não cai? Aposto que sim.

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Acabei a recensão ao livro do Alberto Gonçalves e mandei-a ao PAV. O homem não merece coisa tão fraca, mas enfim. Pode ser que daqui a uns anos me pareça boa.

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O empregado do Primavera não só escolhe música abominável mas também a assobia enquanto trabalha atrás do balcão, fazendo um ruído infernal com a arrumação de pratos e copos. O diabo está em todo o lado, como Deus e a esperança, essa vaca.

3.7.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 03-07-2023

Eu sabia que o dia ia ser difícil. Não imaginava era que seria esta sucessão de bombas atómicas, interrompida de vez em quando por um abrigo ou pelo menos pela hipótese de um abrigo.

Falemos destes, que das bombas não reza a história: em princípio sexta-feira terei o NIE e sábado o BP nas mãos - ou seja: uma horinhas no mar, sozinho. E daqui a duas semanas vou a Lisboa fazer mais um exame ao olho esquerdo. O coitado deve ter chumbado a todos os que fez até agora. Foram tantos... Desta vez o médico está optimista. Não diz mas digo eu: talvez venha a recuperar a visão desse lado (o que tradicionalmente não vê e não é só em mim).

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Encontrei a Agustine, uma rapariga que é simultaneamente música e empregada de mesa, combinação suficientemente rara para merecer menção. Está no desemprego porque não lhe apetece trabalhar "num sitio qualquer". Tem direito a mais três meses e meio de férias pagas pelos contribuintes e tenciona aproveitá-los bem. Para a semana vai dez dias a Londres, por exemplo. Ia tocar na Drassana mas apareceu a polícia e pô-la a andar (ou melhor, a sentar-se comigo para uma cerveja). É preciso uma "credencial", outorgada pela câmara, para tocar na rua - e na praça Drassana nem com isso se pode tocar. Já a pediu três vezes, mas foi sempre recusado. Não fazem audições (se fizessem pagar-lhe-iam para tocar na rua, a mulher toca bem que se farta) e ignora quais os critérios usados para conceder tal graça. 

Ia tocar para a Bosch mas eu fui à lavandaria buscar roupa e voltei para bordo. Isto de ser alvo de bombas de cinco em cinco minutos maça, parecendo que não. 

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É possível que chova. Vou cobrir o traveller com um plástico. É a melhor maneira de ter a certeza de que não chove.

Adenda: cobri e está a chover. As alterações climáticas não respeitam nada.

2.7.23

Diálogos possíveis

- Está calado e fode-me.
- Outra vez? Ainda ontem fodemos.
- ......

- Além disso, foder é um verbo que só se conjuga no plural. Não tem singular, nem mesmo no imperativo.
- Oh, que ternura. Aonde é que aprendeste isso?  Nos Salesianos?
- Não. Nas livrarias, nas bibliotecas e nos bordéis. São os únicos lugares onde se aprende qualquer coisa de jeito.

Diário de Bordos - Port de Valldemossa e Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-07-2023

A «quase-necessidade imperiosa» de uma piña colada de ontem transmutou-se hoje na quase-necessidade imperiosa de sol e água salgada na pele. Fui cedo para Estellencs mas não tive sorte: «as mesas estão todas reservadas e não se pode ocupar uma mesa cinco horas e blábláblá», tendo este bláblá sido emitido num tom a raiar o desagradável. A raiar, só: estavam ainda a pôr as mesas na esplanada, que é minúscula. Pouco importa: comecei por ir a Port des Canonges, que não me convenceu por falta de sítio para me sentar à beira-mar. Acabei em Port de Valldemossa, no velho es Port, do qual a simpatia do pessoal, a hospitalidade e a qualidade da comida compensam largamente os quilómetros a mais que tem de se fazer. De modo lá dei sol e azul salgado à pele e aos miolos, que lhe estão intimamente ligados (cf. Neurociencia del cuerpo, um livro que mudou a minha maneira de olhar para o mundo. Isto é, para mim. Para tudo) e filetes de peixe-galo e vinho branco e café e hierbas secas e tudo aquilo de que o meu corpo precisa para se pacificar e esquecer por momentos o P., que parece cada vez mais fazer parte dos meus circuitos neuronais.

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Fui cedo, ainda o Sol rasava o cume das montanhas. A luz oblíqua e densa da manhã (tal como a da tarde, de resto) acrescenta dimensões àquilo que de si é tridimensional. Parece que a paisagem adquire uma quarta dimensão, ou quinta.

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Querido diário: há muito que andas a desafiar-me para te falar dos carros do meu amigo Egidio, a minha empresa favorita de aluguer de automóveis (a seguir vem a Olivauto, em Lisboa. Aproveito estar em modo publicidade grátis). Chamar empresa ao Egidio está algures entre o exagero e o insulto (para as empresas, não para o senhor, que é muito mais do que uma empresa). O seu modelo de negócio é simples: compra os carros que as empresas «normais» já não querem e aluga-os a um preço ligeiramente reduzido. Duas notas: Um - digo «ligeiramente» sem saber se é verdade. Nunca me passou sequer pela cabeça alugar carros noutro sítio, quando em Palma. Na «peninsula» aluguei uma vez e foi uma catástrofe. Dois - Por vezes acontece-me pensar que ele também compra carros no ferro-velho, mas isso é só quando estou de mau-humor, o que é felizmente raro.

Mas antes de te falar dos carros do Egidio - já falei - devia ter-te contado uma grande novidade: parece que resolvi o problema dos cafés para escrever / trabalhar / flanar pelas redes aos domingos à tarde. O café Al Punt tem tudo o que é preciso: mesas com tomadas, ar condicionado, não muito longe do porto. A mesa é um bocadinho baixa demais, mas penso que uma vez por semana poderei viver com isso.

Volto então aos carros do Egidio: fazem-me lembrar os carros do então Zaire (se bem lá estes passassem por automóveis saídos do stand). São automóveis contra-indicados para quem goste de uma condução confortável, digamos. Ora as coisas não funcionam, ora funcionam e não param de funcionar, ora o carro vibra quando chega aos cento e dez ou não chega sequer aos cem, ora têm o alarme do óleo aos gritos ora... Não, isto não é ora. É sempre: o Egidio está sozinho, de maneira os carros saem da sua «garagem» (um terreno ao ar livre que acolhe duas ou três empresas, não sei de quê) com a gasolina que o cliente anterior lá deixou. A combinação sendo «deixas o depósito como o encontraste». Nem sempre é possível. Já me aconteceu sair dali com um carro a perguntar-me se chegaria à bomba de gasolina que fica a quinhentos metros. Aquela luzinha vermelha que acende quando o carro precisa de combustível já não era vermelha. Era infravermelha. Ultravioleta. Não era luz sequer, era um grito, um pedido de socorro, um náufrago na água agitar o colete de salvação: «dá-me de beber!» Claro que ninguém com um mínimo de empatia pelo próximo (não me refiro apenas ao próximo cliente, mas ao próximo no sentido genérico do termo, outrèm) deixa um carro assim. Como me acontecia por vezes deixar o carro com mais gasolina do que a que tinha quando saíra com ele e nunca me aconteceu sair com um tanque nem que fosse a meio, um dia perguntei-lhe o que fazia ele com a gasolina. Vendia-a? «Não», respondeu. «O que entra é o que sai.»

Os carros têm as avarias mais diversas (já me calhou basicamente de tudo, o que é uma boa escola. Mas nunca fiquei parado na estrada) e o Egidio nem sempre se apercebe porque nem todos os clientes lho dizem (eu digo, quando me lembro). As viaturas têm um preço fixo qualquer que seja o seu tamanho, ano ou estado - com excepção, por vezes, dos que estão sujos («este não está muito limpo») que têm uma redução de cinco euros ao dia. Pago um euro para os aspirar, pelo que fico a ganhar. Não há seguros: ou estão incluídos no preço, se os riscos e mossas são pequenos; se são grandes paga-se um ligeiro suplemento na entrega do carro. Uma vez parti-lhe o vidro de um pisca-pisca traseiro. Disse-me que ia comprar um ao ferro-velho e me cobraria o que lhe custasse (no que acredito). Na vez seguinte calhou-me o mesmo carro. Tinha um pouco de fita isoladora encarnada no sítio do buraco e até hoje não apareceu conta nenhuma. Podem dizer o que quiserem do Egidio. Para mim é um herói. (Ele denomina-se «louco», mas não concordo. É um homem bom e sério.)

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Pronto, querido diário. Já tens a tua históra sobre os carros do Egidio. Agora vou comprar um desodorizante, se não te importas. Pouco mais há a dizer, de qualquer forma. O dia passou sozinho, sem a minha ajuda. Enfim, quase. Mas não te quero aborrecer hoje com as chatices que me esperam amanhã. Seria uma falta de educação enorme, não é? É.

1.7.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-07-2023

Talvez se pudesse considerar isto um dia de excessos, se beber muito fosse excessivo. Não é, claramente. Beber muito é uma questão de bom senso, quando esse bom senso parece desvanecer-se em torno de nós. Desaparecer. Inexistir. Não sequer se manifestar. De maneira a noite - ou o dia? - acabou no 7 Machos com a L. a pôr-nos a garrafa de mezcal à frente e a dizer-nos: "Bebam. Estão em minha casa".

Bebemos. Somos rapazinhos obedientes e bem educados, o V. e eu.

Penso muitas vezes nisto: seria capaz de reproduzir este eco-sistema em Portugal? Nada é mais incerto. Intuitiva e repentinamente diria "Não!"

Que faltaria? Ser estrangeiro. A maneira como sou recebido aqui deve-se ao facto de não ser de cá. 

Talvez. Esta hipótese precisa de ser estudada.

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V. arranjou um embarque desses de última hora e fui levá-lo a Cala d'Or. No regresso tive vontade de um cocktail, um verdadeiro e bem feito cocktail. A vontade foi crescendo até se transformar na quase necessidade imperiosa de uma piña colada no café Lisboa, aonde a tinha prometida. O homem (chama-se Adriano e é mais italiano do que Roma, Milão e Nápoles juntas) diz-me "a melhor piña colada de Mallorca". "Não sei", respondo. "Mas que uma das melhores que tenho bebido é". Exagero bastante mas ele não sabe e regozija-se com a resposta.

A música no café Lisboa é insuportável, o ambiente simpático  - está praticamente vazio, ainda é cedo - a piña colada bastante aceitável e amanhã vou à Tramuntana. Isto é como nas autoestradas: é preciso uma zona de repouso de vez em quando.

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Se tudo tivesse corrido como o plano queria, hoje ou amanhã estaria a largar para Blanes.

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As pilas conadas (estas coisas andam aos pares) abrem-me o apetite, que previra reduzido depois da sublime paella do almoço. Acabo no Johnny Dhaba a comer um caril de frango e um naan. A senhora que está na mesa à frente da minha tem um cu de ir ao céu, para adoptar a taxonomia do Xisco. Está de perfil para mim e só ocasionalmente lhe vejo a face. Não é só o rabo. É o olhar, o sorriso, a expressão, tudo o que de intangível um corpo tem. De vez em quando endireita as costas, projecta o peito e o rabo, os cabelos longos meio castanhos meio louros parece que se animam.

O homem está sentado de lado para a mesa e para ela, de frente para mim. Pouco a pouco vai cedendo. Vejo-o sorrir e abrir-se cada vez mais. Há felicidades, mesmo alheias, que nos levam ao céu.