30.9.22

Cidades, semanas. Ou: em louvor do nomadismo

"Lisboa tem qualquer coisa de bom?", pergunta com muito menos palavras um dos meus "amigos" favoritos do Facebook. Ia responder-lhe "sim, nas três ou quatro primeiras semanas" mas lembrei-me imediatamente de que quando aqui vivia, costumava gostar de Genebra durante as duas primeiras semanas que se seguiam a cada regresso; e que de Palma gosto das primeiras quatro ou cinco semanas; já Paris não é suportável mais do que uma; Londres duas; Barcelona um dia; e assim por diante. Talvez se devesse fazer uma classificação das cidades cujo critério fosse durante quanto tempo são suportáveis depois de uma ausência de no mínimo dois meses, por exemplo. Ou três, vá, que é o tempo que alguns pormenores demoram a sedimentar. Penso na cidade de Panamá, que detestei durante quatro meses e apreciei bastante os seguintes; S. Luis do Maranhão, aonde tanto quero regressar e que, aposto, suportaria muitas semanas, muitos meses; Cape Town - qual, a de hoje? Duvido. Le Marin, Marigot, Bequia não são cidades mas são admitidas a concurso e serão testadas este Inverno.

Estas coisas devem ser medidas com critérios objectivos, replicáveis e - sobretudo - empíricos.

28.9.22

Neve negra

Espalho-me pela vasta noite com o passado a reboque. Pinto-a com amplas demãos do conteúdo do carro. Muito cedo, a escuridão atenua-se. O passado aligeira-a. O carro que puxo atrás de mim não fica, porém, mais leve. Cada pincelada da tinta clara de hoje é substituída pela mesma quantidade de outra, mais escura. Provavelmente, a que será usada para a noite de amanhã, se estivermos em periodo de alternância. Trago o carro - carroça seria um termo mais correcto - amarrado por um cabo à cintura. Caminho inclinado para a frente, quase deitado, como aqueles exploradores polares que se substituem aos cães de trenó. A noite - ou a neve - é escura. Aplico a tinta do passado sem qualquer ordem. A ideia do tempo em forma de espiral é falsa. Parece-se mais com lava em ebulição. 

A carroça afunda-se no lamaçal. Em breve será dia e o passado deixar-se-á substituir com alegria pelo presente e pelo futuro. Eu desfaço-me em minúsculos braços. Os traços de tinta são cada vez mais pequenos. O caminho vai-se desenrolando à medida que avanço. A neve continua negra.

O absoluto e a vida

Une vie en quête d'absolu, de laquelle il avait essayé de remouvoir tout éphémère. Pour découvrir, à la fin, que le seul absolut est l'éphémère. Tout est éphémère, y compris l'absolu.

Marinheiro, escritor

A semelhança entre um marinheiro e um escritor é que ambos só fazem o que os faria morrer se não fizessem.

Votar com os pés

Nunca fui muito patriota e menos ainda nacionalista. É dificil sê-los quando se chega aos treze ou catorze anos no Portugal (Moçambique, no meu caso) de 1970; depois disso viajei o suficiente para saber que não somos nem melhores nem piores do que muitos outros. Temos qualidades que aprecio - a disponibilidade, a simpatia, a tolerância, o brio profissional - e defeitos que abomino - a cobardia, a mesquinhez, o deixa-andar, o respeitinho - (que não são consequência, mas sim a causa, da nossa indigência).

Algumas das melhores pessoas com quem naveguei são portuguesas; nunca deixa de me espantar a quantidade de elogios que recebo sobre os portugueses em geral quando me perguntam de onde venho.

Tudo isto porque tenho o neto no hospital e tenho ido lá todos os dias, naturalmente, para permitir aos pais que vão trabalhar. Não vale a pena bater no ceguinho e falar da diferença abissal entre um hospital público suíço e um português. As diferenças entre Portugal e a Suíça são muitas e quase todas elas abissais. O que me fascina é ver que em termos clínicos não há desnível nenhum entre os médicos portugueses e os seus colegas suíços. A diferença não está aí. Está no resto: na limpeza, na organização, na ausência de pessoas aos molhos nas salas de espera, nos corredores vazios de macas. Consequência da falta de dinheiro? Não. Da tolerância, da falta de exigência, da capacidade de adaptação, do medo de reclamar. 

Toda esta ordem tem um preço, claro. A questão que se põe é saber se estaríamos dispostos a pagá-lo para viver como os suíços. Centenas de milhar de compatriotas nossos respondem com os pés a esta pergunta. Os outros - alguns milhões - também.

26.9.22

Diário de Bordos - Genebra, Genebra, Suíça, 24 e 26-09-2022

Genebra é uma cidade pequena que a organização torna ainda mais pequena. Menos de uma hora depois de aterrar estava em casa da S., do outro lado do burgo. Está frio e chove, claro. Estamos no Outono. O autocarro passa por sítios que me são familiares mas que agora vejo com - ou por - outros olhos. Fui um pai ausente, não o serei avô. 

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26-09-2022

Leonardo dá murros e pontapés no ar volta-se e, numa palavra, revolta-se. Estamos no hospital de Nyon, para onde veio hoje de manhã com uma doença do foro respiratório, não letal mas aflitiva. Hoje já limpei os canais lacrimais e já os pus a produzir para pelo menos um mês. É compungente ver esta coisa a tentar respirar, cheio de tubos e sondas e encorajador vê-lo zangar-se e lutar. Chegada a hora de comer, sopra como uma locomotiva mas não perde o apetite.

S. e eu revezamo-nos nos cuidados. Os pais foram trabalhar. H. prepara-se para vir passar a noite aqui. Provavelmente o miúdo tem para mais três ou quatro dias e a partir de amanhã estarei aqui sozinho o dia todo. Felizmente está sozinho num quarto e se há uma coisa que a Suíça tem de bom são os cuidados de saúde, de maneira isto tudo não vai passar, daqui a uns tempos, de uns dias excruciantes, dolorosos de ver a dor naquele molho de mini-membros que se debate com a energia do Mike Tyson, grita, resfolga, insurge-se.

23.9.22

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-09-2022

É forçoso reconhecer que as Margaritas do 7 Machos já não são o que eram. A Cantina também. Está má para tudo o que não seja um café e um croissant de manhã. Em contrapartida, aposto singelo contra dobrado que o caril do Johnny Dhaba continua a merda que sempre foi. (Aproveito para pedir aos meus amigos do Porto que me encontrem aí um restaurante indiano ou goês decente, por favor. Estou ansioso por um caril correcto.)

Isto põe um problema interessante ao conservador que habita em mim e que eu resolvo de forma expedita: as coisas mudam ou não independentemente da nossa vontade. Lutar para as conservar tal qual é uma luta perdida. Mais vale ir controlando a mudança. Aceitá-la com a alegria que se deve pôr na mudança de preconceitos, que é muita. Devemos mudar de preconceitos como a serpente muda de pele ou o camaleão de ramo: devagar, pouco a pouco e para sempre. (A palavra-chave aqui é sempre, caso não tenham percebido.)

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O charter acabou com uma gorja que raia o insultuoso. Não o é, claro, porque os clientes eram alemães,  se fartaram de me pagar bons jantares e foram super-simpáticos. Mas, meus caros, isso tudo não é mais do que a vossa obrigação. Uma gorja correcta é apenas o corolário disso tudo. Não lhe é exterior. Nota bene: tenho de falar com o Th. a esse respeito. Nota male: pqvp. Nota intermédia e válida: ¡qué vaya!

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Adenda: o caril do Johnny estava uma merda, mas desta vez não me chateei porque estava à espera disso. Aqui está uma estratégia para os conservadores: tornai-vos pessimistas militantes .

(Já o são. Não percebo o que vos agarra ao passado, se está cheio de maldades. O futuro não é melhor? Não, sem dúvida. É igual. Não há muitas razões para o recusar a priori.)

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O que era bom na rua Sant Magi acabou, o que era mau ficou. Dois pontos para os conservadores, dois.

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Acabo na Cantina a beber um Cacique e a perguntar-me se isto é uma vida e se sim, qual? Th. diz-me que sou "o seu melhor skipper", aspas porque cito e porque não é trinta e um de boca. Já tenho trabalho para o ano, se for preciso, a começar em Fevereiro. Isto metece bem um rum, sobretudo depois do preço delirante da coisa no Club Náutic de Cala Ratjada.

Tudo isto tem a ver com o movimento das moléculas e com o fluir das unidades de tempo e com o facto de um dia um gajo saber que é parte disso tudo.

22.9.22

Diário de Bordos - Portopetro, Mallorca, Baleares, Espanha, 22-09-2022

Metade dos meus teutões vai-se embora amanhã de madrugada, de maneira fizemos hoje o jantar de despedida - de qualquer forma, amanhã eu não poderia jantar. Escusado será dizer que foram adoráveis. Tentaram traduzir uma grande parte das conversas ou pelo menos dos temas, encomendaram comida suficiente para um batalhão de cossacos, fiquei a saber as profissões de quase todos eles. Um é dono de um restaurante italiano, juntamente com o irmão gémeo, que ficou a trabalhar; outro é dono de uma padaria "grande" - aspas porque não percebi se a padaria era grande ou se é uma grande caseia de padarias; o cantor afinal não é cantor a tempo inteiro. Tem uma representação da Ford e só canta como passatempo. Finalmente, há um dachdecker, couvreur - não sei como se diz em português: empresa que faz, repara e mantém telhados.  Com este tive uma conversa interessante sobre o mundo que estamos a deixar, eu mais em breve do que ele. O excesso de regulamentação, que na Alemanha é pior do que em Portugal porque não se pode "dar um jeitinho"; as "alterações climáticas", que lhe provocam má consciência cada vez que usa o bote que possui na Manga del Mar Menor (um Mastercraft, de passagem seja dito). A liberdade, que se nos escapa entre os dedos como areia de uma ampulheta partida.

Não conheço velho nenhum que se orgulhe do mundo que está prestes a deixar aos filhos e aos netos. É porém forçoso reconhecer que entre a Idade Média e o século XX  o mundo que os descendentes herdavam era melhor do que o que os velhos tinham encontrado à nascença. Hoje não é o caso. Tomam-nos por imbecis e quem fez isto, insisto, foi a minha geração,  não foi a dos meus filhos.

Pequenos-almoços que não podem ser tomados dentro dos carros - a dimensão da obra requer um contentor - trabalhadores proibidos de trabalhar em tronco nu por causa do Sol... 

Não me reconheço neste mundo. Em nada contribuí para ele. Se alguma coisa um dia deixarei, é um rasto de liberdade, liberdade e nada mais. 

Diário de Bordos - Cala Ratjada, Mallorca, Baleares, Espanha, 21-09-2022

Comecemos então pelo contexto: estou fundeado em Cala Ratjada, uma baía completamente exposta a qualquer vento que não tenha uma ponta de W na designação. Compreende-se que tenha passado o dia a olhar para as previsões meteorológicas - as quais este ano estão com o índice de exatidão próximo de zero, mas enfim. É o que há - e que tenha jantado a correr o pior caril de frango da minha vida, no restaurante do Clube Nàutico de Cala Ratjada. Dir-me-ão que comer um caril de frango ali é receita certa para o desastre e quem o fizer estará podre de razão. Acontece que não foi uma surpresa, não estava muito pior do que esperava. Lá comi aquilo a correr e voltei para bordo. O bote tem um motor de cinquenta cavalos, um exagero e a manette não está boa, de maneira pilotar aquilo é um sacrifício. O cata está no sítio, a mexer-se um bocadinho mas pouco: o vento anda pelos cinco nós se tanto e apesar de ser Leste não chateia muito. A ver quando forem quatro ou cinco da manhã e os jovens voltarem para bordo. Desta vez aposto que um deles pelo menos vai parar ao molho. É possível que cresça um bocadinho, lá para a madrugada, mas a essa hora estarão a dormir encharcados e não acordarão nem com um ciclone. É um grupo adorável, apesar da merda de música que ouve, têm as bebedeiras ligeiras e de qualquer forma depois de amanhã às cinco da tarde despedir-me-ei deles com muitas manifestações sinceras de apreço mútuo. De metade, porque outra metade vai já amanhã, tem de voltar para Düsseldorf por causa do casamento de um amigo. Um dos que vai já é o único que fala inglês mais ou menos correctamente. Os outros ou não falam de todo ou falam mal. É coisa que me surpreende, cada vez que tenho clientes alemães, o pouco que falam inglês. Um deles é músico e como por coincidência é o entertainer do grupo. Perguntei-lhe que tipo de música cantava e respondeu-me «Canções em alemão». Dado o estilo de música que ouve suponho que seja pimba do mais pimba. Vá lá, aqui a bordo não canta, por isso não me queixo. Tem um humor infantil, um pouco à base de partidas aos outros, mas são partidas ingénuas. É o mais novo de todos, se não estou em erro. Não sei o que fazem os outros, excepto que são todos empresários do mittelstand, esse pilar da prosperidade alemã. Têm as piadas de qualquer grupo de rapazes de trinta ou quarenta anos, estão a divertir-se à grande e eu estou-me nas tintas para a banalidade que dali exala.

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A Cantina Club Náutic não tem só o pior caril de frango da história do universo. Agora conseguiu arruinar um rum que já de si não é grande coisa. Pedi um rum com uma rodela de lima, se possível. Não parece muito difícil, pois não? O rapaz trouxe-me um rum com uma casca de limão descascada em espiral, como a minha Avó gostava de fazer, três gigantescos cubos de gelo e o dito limão cortado às rodelas. É preciso querer muito, para arruinar um rum desta maneira. A quantidade de trabalho, energia e esforço que ele ou a rapariga que está atrás do bar desperdiçaram é impressionante. Se bem tenha funciuonado, do ponto de vista deles: fui obrigado a pedir outro, aquilo mesmo sem o gelo e o limão sabia mais a limonada do que a rum.

(Sim, voltei a terra. Não tenho sono e de qualquer forma a noite vai ser passada à espera deles, de maneira quanto mais tempo passar aqui melhor, menos passo a bordo a acordar de dez em dez minutos.)

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Uma das coisas que aprecio ver neste grupo é a quantidade de piadas machistas, brejeiras, a maioria de franco mau gosto. Confirma a minha opinião (esperança?) de que no fim a biologia vencerá. Boys will be boys, dizem os ingleses desde mil quinhentos e oitenta e nove, diz-me a Wikipedia, justificando assim os cinco euros que lhe verso por mês. Não será amanhã que deixarão de o ser.

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O vento caiu. Nem cinco nós estão. Um dos modelos previa isso mesmo, mas não me lembro qual e não me apetece ir ver. Uma grande desilusão: o Arome. Está mais vezes enganado nas previsões do que eu sobre os resultados do Totobola. Dizer qwue aquilo vem da Météo France, o melhor serviço meteorológico da galáxia e arredores. Não exagero. Se alguém precisar de uma previsão de tempo para Antares aposto que a Météo France encontra uma combinação modelo / previsionista que vai acertar noventa e nove por cento das vezes. Já o Arome cheira mal que se farta, coitado. 

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Nada como um par de runs para sintonizar um homem. 

20.9.22

Diário de Bordos - Alcudia, Mallorca, Baleares, Espanha, 20-09-2022

Quando um gajo não sabe por onde começar um post tem três soluções, das quais duas sérias e uma fantasiosa e a exigir mais talento do que o que um gajo tem à disposição: ou começa pelo princípio e segue em frente; ou pelo fim e desenrola a meada para trás; ou pelo meio e ziguezagueia como um marinheiro bêbedo (coisa de que não há registo na História, mas enfim, passemos). Claro é que isto dito assim parece muito mais fácil do que na realidade é. Começa por não se poder definir o que é o fim - questão essa que resolvi decidindo agora mesmo que o fim é agora; o mesmo se aplica ao princípio. Enfim, deixemo-nos de picuinhices e avancemos directo ao assunto. Vim jantar ao restaurante Xaloc, sugestão absolutamente bem sucedida do marinheiro semi-carrancudo que me recebeu na marina de Alcudia. A história acaba como o dia começou: isto é, muito bem. Excepto que durante o dia não tive a sorte que agora me acolheu de braços abertos, sorriso rasgado e uma empregada gira como tudo, em bónus. Ou seja, os meus clientes (no lingaurejar do métier diz-se guests, que se pode traduzir por hóspedes porque neste negócio não há clientes, há hóspedes e somos todos amigos e por aí fora) são seis jovens alemães com idades compreendidas entre os trinta e os cinquenta anos, visivelmente em viagem de rapazes. São a simpatia personificada, mas têm um pequeno defeito, ligeiríssimo: ouvem uma música abominável, aos berros, o dia todo. Hoje imaginei um cenário de filme em que lhes lançava o altifalante pela borda fora e depois explicava que fora um acto de insanidade passageira, coisa completamente contraditória com a «realidade»: se o tivesse feito teria sido um acto de sanidade. Mas enfim, deixemo-nos de degressões semânticas, olhemos uma vez mais para a empregada que substituiu a que me recebeu - um salto esteticamente qualitativo de um factor dez, no mínimo. O importante na história - recentremo-nos - é a empregada inicial: chego ao supra-mencionado restaurante Xaloc (que me foi indicado pelo marinheiro, como já aqui disse) e qual é a música? Pois adivinharam: a mesma da dos clientes. Não sei como se chama. Creio que é reggaeton, mas não tenho a certeza. É insuportável, abominável, insofrível, emético, é um insulto à música, está praticamente ao nível do hip-hop, vejam bem.

Resumindo: pedi à senhora para pôr a música mais baixo e ela não só acedeu mas ainda me perguntou se tinha sido o suficiente. Dise-lhe que não, claro, pedi um pouco mais e agora já só tenho aquele ruído em pano de fundo quase imperceptível.

A bordo não posso fazer isto, escusado é dizer. De modo venho o dia todo a ouvir este esterco, não tem outro nome. Felizmente os rapazes são simpáticos e bebem muita cerveja - começam de manhã cedo e só terminam à noite, pelo que fazem longas sestas durante o dia - e quando estão todos a dormir aproveito e baixo o volime do altifalante que não tive coragem para deitar borda fora.

Enfim: uma mistura de clientes porreiros, má música, um restaurante bastante aceitável, vento pela proa o dia todo e um jantar em Alcudia, o primeiro porto onde toquei quando vim pela primeira vez a Maiorca. Não há coincidências, meu caro, há repetições e padrões escondidos e uma empregada capaz de pôr um cemitério inteiro a pensar noutras coisas que não na morte.

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Do princípio pouco há a dizer: saímos de Palma no domingo porque sábado estava mau tempo, viemos para Andratx e agora estamos em Alcudia - uma barbaridade - porque estão todos doidos para ir a Cala Ratjada - escuso-me às explicaçõrs porque não quero que os meus leitores pensem mal dos meus clientes (ou hóspedes, para quem prefrir o linguarejar). Verdade seja dita que o vento pela proa não estava previsto. Não era muito forte - dez, doze nós - mas para estas bestas (um Lagoon 46, neste caso) é suficiente: de menos de quatro horas para fazer trinta milhas passa-se a mais de cinco e em vez de navegar dá-se marretadas na água. Isto enquanto se ouve reggaeton e se tem  seis jovens moçoilos a dormir ao nosso lado na ponte.

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Alcudia acolhe-me agora como me acolheu hà dez anos, mas ainda mexe por tudo quanto é sítio. É sempre a mesa coisa: chego a terra e vejo tudo a balançar durante horas, como se estivesse no mar. Ao fim destes anos todos já devia estar habituado, mas não. 

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A minha vista está cada vez pior. Se continuo a este ritmo não tarda ando de bengala branca. Vá lá, também ajuda para o equilíbrio.

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É que um gajo olha para a empregada e vê-se imediatamente à cabeça de uma prole de dez crianços, em escada, todos eles bem arranjados e carinhosamente tratados. É a atracção sexual reduzida à sua função básica. Não há um miligrama de artificialidade na senhora. Nasceu para fazer bebés com o homem mais selecto da área. (Aposto que vai no segundo ou no terceiro.) É a natureza, aquela que os tipos que têm com ela a relação que eu tenho defendem. É um leão na savana e não numa jaula de jardim zoológico, como são todas as outras que por aqui passam, com raríssimas excepções.

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Um bom jantar ao fim de um bom dia de mar, meia dúzia de disparates, uma empregada bonita, algumas fotografias porreiras: a vantagem de se ser um tipo básico é que os dias se enchem com pouca coisa.

18.9.22

Fragmento

Gosto mais de ti do que de tudo o que agora de repente me ocorre e é muito. Quase tudo, diria, se me restassem palavras depois de pensar em ti. Restam poucas. Memória, por exemplo. És a parte mais forte dela, sabias? Uma das. A memória é uma fortaleza e tu ocupaste-a, tornaste-a mais doce e mais robusta. Não me perguntes como. São coisas que penso à noite quando penso na noite. Tu és parte dessa noite, dessas noites, dessa ideia que se constrói à noite. Parte não é a palavra certa. Modelo. Pilar. Fundação. 

Há memórias que transbordam das margens do passado, não há? Há, como um rio numa cheia. Vêm para o presente, com "graça e majestade". Vêm para o presente e nele ficam. Habitam-no para sempre. Fazes para sempre parte desse presente. Não te falo do futuro, repara. Falo-te do presente, só do presente: estás para sempre nele e nunca serás futuro pela iniludível razão de que o presente é mais importante do que o futuro.

Lembra-te: "Graça e majestade". Porta-te mal, fica-te bem. Transformas o tempo em graça e esta em majestade? Sim. Fá-lo.  Elas não te deixarão nunca.

17.9.22

Dor, ubiquidade

Dores migratórias: vão para um lado  e ficam no de onde vieram. 

Tempo, contratempo

O tempo encalha por vezes nestes contratempos. Por isso se chamam contratempos. Encalha o tempo e encalho eu, que sou o maior contratempo do tempo. Mais vale dizê-lo já, de resto: a única forma de fazer face ao tempo é recorrer a um contratempo. Ir contra o contratempo de pouco serve, antes pelo contrário: o tempo só se adiciona, nunca se subtrai. E como o tempo, os contratempos. Em favor dos contratempos deve porém dizer-se que são eles os únicos a fazer face ao tempo. 

Como se o tempo se esparramasse nesta mesa da Casa Júlio onde em breve jantarei, feito relógios de Dali, ajudado é certo pelo vinho tinto da casa e empurrado pelo blues da maré baixa. O copo de vinho que a senhora me traz é pouco demais; peço-lhe mais, não vá o tempo fugir-me. Com um copo só o tempo não fica onde está, foge, corre por essa noite fora. Para o aprisionar preciso de mais. 

E ali está ele, na garrafa que por milagre aparceeu na mesa. Tempo parado à espera de vinho a seis euros a botelha. Vende-se barato, o raio do tempo. Eu pediria muito mais, fosse eu a ele. Mas não sou. Não passo de um marinheiro melancólico encalhado no tempo, contratempo perdido no fluido do tempo, rocha no meio das águas a dividi-las, balsa encalhada na margem de um barril de vinho, inebriada e equivocada. Sou um contratempo no caminho do tempo, um atraso de vida, contracorrente na corrente, contravida na vida.

Antes dedicar-me ao vinho, tempo preso no vidro, liberto em mim. Isto é, em mim o tempo espraia-se de novo, a cada gole de vinho. Tanto tempo = tanto vinho. Tenho tempo = tenho vinho. Uma das vitórias do vinho sobre o tempo é não haver contravinhos como há contratempos. Face ao tempo, o vinho leva a melhor, por falta de comparência do adversário.

E face à vida, quem ganha?

A luta e as economias

A seis euros a garrafa de vinho na Casa Júlio e quatro o rum Cacique na Cantina não se pode dizer que eu não sou económico no combate à diabetes.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 17-09-2022

Aguaceiros com intervalos desanuviados

À lista dos lugares desaparecidos em Palma tenho de juntar os Maños, no Mercat. Foi lá que conheci o Aurélio, lá comi algumas das melhores tapas de sempre, bebi orujos, vinho verde em malgas, passei horas. Hoje está uma merda irrecomendável (salvo as amêijoas, que continuam boas e as raolas que não são de camarão mas são excelentes). Os boquerones fritos estavam intragáveis, o vinho branco uma coisa que nem péssima era, o tempo de espera suficiente para ver um jogo de futebol e respectivos acrescentos. (Aumentaram a capacidade mas não aumentaram a cozinha.)

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Afinal o charter só começa amanhã. O Ivo deixou-me ficar com a BH sem pagar mais um dia. Expliquei-lhe que preciso da burra para ir jantar, coisa que ele percebe e ademais é verdade. Ao blues da maré baixa vem juntar-se o de ser como sou, mas essa é musica velha, não tarda faz sessenta e cinco anos, conheço-a de cor e salteado.

Vim ao Aurélio queixar-me e beber uma aguardente. À quelque chose malheur est bon.

Agora trata-se de levar a roupa toda da 5 à Sec para bordo. Vou fazer várias viagens, imagino. Pensava ir de táxi. Isto de pensar adiantado de pouco serve, ou nada.

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Nada de lamentações: sem derrocadas não há cidades novas.

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A cidade está insuportável. Hordas de turistas. Mercado cheio, ruas cheias, passadeiras imobilizadas. Uma coisa que não deixa nunca de me surpreender nos teutões - um povo que deu ao mundo o Porsche, o Mercedes, o BMW, o von Braun, Berlin e as autoestradas sem limite de velicidade - é a sua ilimitada humildade perante um semáforo. Para aquela gente, um sinal cego e estúpido é capaz de decidir melhor do que cada um deles quando atravessar a rua. Tudo isto estaria muito bem se não bloqueassem o acesso à rua. Em vez disso, alinham-se à beira dos passeio como para uma partida das vinte e quatro horas de Le Mans e alu ficam, aespwra de que o sinal lhes de3ordem para avançar. 

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Consegui trazer a roupa toda da lavandaria. Foi uma seca - as ruas estão cheias de gente, relembro - mas teve uma vantagem inesperada: pela primeira vez em muitos meses sei exactamente a quantidade de cada peça de roupa que tenho. Parece que não mas é importante. 

(Cont.)

Diversidade, espanto, vermuterias

Da diversidade do género humano e concomitantes espantos: há pessoas que vêm a uma das melhores vermuterias de Palma - a saber  o Corner 37, no Mercat de l'Olivar (ex-Laterio, nome de que um bar em Bilbao se queixou e tiveram de mudar para esta pirosice) - e bebem Sprite.

Só de pensar que é por causa de gente assim que esta merda está a rebentar pelas costuras fico às avessas.

16.9.22

Serenidade

Estas palavras que entram à sorrelfa e depois não saem... Que chatas são, peganhentas, piores do que as canções que fazem o mesmo, estas afinal têm a desculpa da música. 

Agora foi serenidade. Entrou não sei por onde, por um texto que li, uma frincha na memória (aquela de que o Cohen fala, por onde entra a luz?) e ficou. Não quer sair. Já há pouco a utilizei, mas mesmo assim diz que não sai enquanto eu não confessar quanto a quero.

Ganhaste, serenidade: quero-te muito. Amo-te. Gostaria de te ter para sempre ao meu lado, na minha vida. Serenidade. Digo-te o nome com deleite e esperança, mistura tão rara em mim, como tão bem sabes.

Espero que chegues depressa à minha vida e deixes de me chagar o espírito. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-09-2022

A esta melancolia dei um nome, já há muito tempo. Chamei-lhe «Melancolia da maré baixa», esta de agora ligeiramente exacerbada por tudo o que a antecedeu. Para a combater venho ao Juanita, um lugar daqueles que conjugam ser esplêndidos e eu não os frequentar suficientemente. É um restaurante como eu gosto: dono caracterial, empregada ainda pior, dois ou três pratos que mudam todos os dias, em função do que ele encontra no mercado e do que lhe apetece fazer. Fica numa rua estreita ao lado da plaça Raimundo Clar. A esplanada deve ser uma das menos atraentes de Palma, mas a verdade é que é um sítio especial e agora decidi renovar a minha carta de Palma. A última vez que estive aqui quase fui corrido, porque havia uma discussão entre o dono (ainda não sei o nome dele) e a empregada (ditto). Hoje a atmosfera está consideravelmente mais leve e fui recebido com profissionalismo e competência. A mulher deu-me um vinho que me fez dar um salto na cadeira, não por ser excepcionalmente bom mas porque ando há anos à procura de um vinho assim, aqui em Palma, e só agora o encontrei. O salto é simultaneamente de alegria e de exasperação. Porquê só agora, meu Deus?

(Chama-se L'Abrunet, a cave Frisach, vem de Terra Alta, na Catalunha, nas margens do Ebro. Um sítio que, aqui fica a promessa solene, visitarei um dia, em turista endinheirado e curioso, sedento de vinho, de vistas e de visitas a caves.)

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A chuva já veio, violenta e já se foi, pela calada. Os problemas de impermeabilização do meu P. ainda não estão completamente resolvidos. Às vezes sinto-me um cão às voltas a um poste para saber onde mijar. Voltas e mais voltas e não há maneira. E mais voltas. E mais voltas. Acho que o bote devia mudar de nome e passar a chamar-se SÍSIFO. 

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A agenda das próximas semanas está feita e fechada, bilhetes comprados e reservas feitas. Até dia oito de Outubro sei onde estarei. Fui ao calendário contar: três semanas. (Como dia oito é um sábado, provavelmente ficarei um pouco mais, mas não entremos em picuinhices. Já me basta o espanto de ter um bilhete de avião comprado com duas semanas e meia de antecedência. Vá lá que ainda só os compro de ida simples. Quando chegar a vez da ida e volta pergunto-me como será. Um terramoto? Um maremoto? Um aeromoto?)

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Hoje avancei bastante na selecção de fotografias. Percorri quase um por cento do caminho. Por este andar, no dia de S. Nunca terei as fotografias prontas e imprimidas, o que já representa um avanço em relação à situação anterior. Não sabia de todo quando começaria a seleccioná-las. Penso no digitalizador Epson que tenho em casa, nunca utilizado e bebo mais um copo de vinho. Se a memória pensa que me passa rasteiras está muito enganada. O L'Abrunet trata bem de mim, atenciosa e delicadamente.

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Saio do Juanita com os calções cheios de nódoas. Comprei-os ontem, usei-os hoje pela primeira vez e catrapaz, lá vão para as mãos cuidadosas e profissionais da Joana, a senhora da  à Sec que me atende e trata de minha roupa. Claro que a tentação é atribuir isto ao emagrecimento: antes, as nódoas estariam na camisa. Seria mentira, mas ele há coisas... e de qualquer forma o DV é um diário de ficção, por isso vamos assumir que uma roupa comprada por causa de ter perdido peso vai para lavar pela mesma razão. 

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As noites começam a exigir um lençol por cima da pele. Razão tinha o Nougaro, que chamava a Setembro o mês mais terno. E o mais sereno  acrescento eu: um lençol. Nada de excessos, nem de frio nem de calor. 

Amanhã o cobertor vai a lavar. Já só cá volto em Outubro e esse é um mês mais emotivo. Tanto lhe dá para um lado como para outro.

15.9.22

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-09-2022

O Ca la Seu fechou, o Santa Fé idem, a Ca na Chinchilla também. Ontem a Núria deu-me a entender que talvez fechem o Lo Divino. O Moltabarra - onde não entrava há anos - continua igual: o mesmo cenário, a mesma fauna (agradável) e a mesma merda de comida. Foi isso que me fez deixar de cá vir, mas apercebo-me agora que vou voltar a frequentar o sítio, sem comer. Ou então - não é impossível - talvez encontre qualquer coisa acima do medíocre. As bravas e as albóndigas que agora  como não estão,. Safam-se o espaço e os meus co-clientes, todos mais bonitos do que eu, todos engajados em animadas conversas. Ainda é cedo, pouco passa das oito da noite. Daqui a pouco estará cheio e insuportável, tanto mais que hoje é a Nit des Arts, a noite das artes, noite de festa para galerias e bares.

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Comprei mais uns calções na Napapijri. Emagrecer é bom mas é caro, mesmo com os saldos (se estivessem ao preço normal nem os veria). Não consigo deixar de pensar no meu Pai mai-los seus três armários de roupa: gordo, magro e intermédio. Não tenho armários de roupa, mas tenho calções Napapijri para as três situações.

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Um dos sintomas da idade - a idade é uma doença? - é esta dificuldade crescente em lidar com a incerteza. Não sei que fazer: reaprender a ser jovem e a ser capaz de viver dia-a-dia ou aprender a ser velho e começar a medir o tempo em semanas?

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Devia ter ligado à U., ela terá de certeza boas ideias para hoje. Agora é tarde. (Isto é desculpa atrás de desculpa. Se calhar a velhice não passa de um revelador deste teu de sempre feitio, um catalizador. Só sabes ser seduzido, não sabes seduzir. Se calhar. Ainda por cima a rapariga já te explicou que dezasseis anos de diferença de idade é demasiado para ela, leider. Este leider foi acrescentado por mim, mas juro que não está desafinado. Está perfeitamente no tom com que nos rimos os dois sobre isso. Tiens, às vezes encontrava-a aqui. Mudou para o campo, anda a organizar passeios campestres, educativos, flores comestíveis e esse género de coisas. Na volta vamos a ver e está vegetariana, ou vegan, ou insectívora. Não sei, nunca mais a vi. Espero que tenha arranjado um namorado da idade dela.)

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Para quem não se interessa pela vida dos outros falo bastante da minha. Aliás: só falo da minha. Solipsismo em acção. Felizmente tenho uma vida variada, se não seria de uma monotonia insuportável. 

(Provavelmente já é insuportável, mas passemos. Isto não está para auto-críticas.)

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Hoje lavei o P., estava cheio de barro. Amanhã vai chover e vai ficar igual. As pessoas queixam-se da poluição e não fazem nada para acabar com a merda da poeira que anda por aí e foi de certeza provocada pelos homens (brancos, europeus, sexo masculino) e o seu frenesi consumista. Ou pelo capitalismo em geral. Ou pelas alterações climáticas. Sei lá: a modernidade precisa tanto de mitos como as épocas anteriores.  Não há razão nenhuma para me insurgir contra os de hoje. Amanhã haverá outros. On n'avance pas vers la vérité. On change de dogme, c'est tout. Esta frase resume a humanidade tão bem como todos os tratados de psicologia, antropologia e sociologia juntos.

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As pessoas abraçam-se. Em França o ministério da saúde aconselha o fim dos abraços, beijos, apertos de mão e outras formas de contacto físico. Este vírus provocou a maior palhaçada da história da humanidade.

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Dito com toda a simplicidade de que sou capaz: o Claudio faz os melhores gelados que comi até hoje, Santini incluidos. Depois do Moltabarra fui lá. Comi um de kefir com mirtilos porque queria uma coisa qualquer inesperada, desconhecida. Disse-me que a ideia veio da mulher dele. Abençoada senhora, abençoada humildade, abençoiada perseverança. O homem vive para aquilo, para experimentar sabores, sempre com os melhores ingredientes que encontra, sempre com uma dedicação e um brio que já não são deste tempo. Ou são cada vez menos, vá.

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A minha noite das artes vai ser passada a bordo, se Deus quiser a dormir. No caminho passo à frente do bar Dia - . A rua está cheia de turistas, claro. Aquilo é um buraco negro para a espécie, é a zona de Palma de que menos gosto. Uma senhora portuguesa diz para o marido: «Esta zona é a que prefiro para a noite». Os aviões deviam andar cheios de intelectuais melancólicos e com bom gosto, mas não andam.

Enfim: resta-me esperar que se mantenha por ali. O bar Dia já foi uma referência, um pilar da resistência, mas acabou por render-se à avalanche. A rua sempre foi insofrível, desde que a conheço. Fiquem por aí e deixem-me o Sindicat, a Calatrava, o Mercat, Monti-Sion.

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O dia acaba assim, docemente, com um rum Cacique na Cantina. Sei onde estarei até ao sábado depois deste: num charter. Depois, não sei: ou Genebra ou Porto. Uma semana é muito tempo, não é? É. «Dou graxa» ao Alberto (entre aspas porque não é graxa, é genuína admiração), peço-lhe mais um rum, despeço-me pouco a pouco do dia. Amanhã vai chover, dizem os oráculos. Pois que chova. Sábado não terei tempo para mangueirar o bicho, mas se tiver fá-lo-ei com amor e ternura e afecto e todas aquelas parvoíces que sinto por ele.

14.9.22

Diário de Bordos - Macinaggio, Bastia, Genebra e Palma, 14-04-2022

Vai-se de Macinaggio a Bastia por uma estrada rente ao mar, cortada na encosta da montanha, sinuosa e estreita como todas as estradas de montanha. O piso é óptimo e o condutor do autocarro escolar conhece-a de cor e salteado, claro, como conhece os jovens estudantes que vão embarcando ao longo do percurso. O dia está lindo, a vista é de cortar a respiração.  A Leste, o Sol nasce entre as ilhas de Capraia e Elba. Entre nós e ele uma fila continua de nimbus deixa cair uns aguaceiros dispersos e que se adivinham fracotes. Para cá dos nimbus, uns poucos cumulus, céu azul e a Lua, mentirosa. A mistura é cinzenta, melancólica - para a frente só vejo a nebulosidade, para a esquerda o mar em dois tons de cinzento: escuro debaixo dos nimbus, mais claro, quase azul, para cá. Toda a gente sabe que a Córsega é bela (não por acaso os franceses chamam-lhe Île de Beauté) mas uma coisa é sabê-lo e outra percorrê-la.

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O idioma corso está muito menos presente do que o maiorquino em Mallorca. Parece-se com o italiano, mas cheio de u, a vogal mais feia das cinco, para mim.

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Ainda não são sete e meia da manhã e há montes de cafés abertos nas aldeias por onde passamos; e trânsito na estrada: de camiões a ciclistas vê-se tudo. Terra para matinais, ao contrário de Espanha, que o é de vespertinos.

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Tomei o pequeno-almoço na praça Saint-Nicolas, como o P. me sugeriu. É uma praça grande, rectangular, com duas estátuas e muitas árvores. Comi pão com manteiga, muita manteiga até pelos meus padrões. Já não podia com os doces que o P. tinha. Devia ter-lhe dito logo no princípio, mas não disse e depois é tarde. Não vi de quem eram as estátuas. Do outro lado da praça estavam atracados três ferries. Um dia disse a alguém que cresci a ver navios, mas não é inteiramente verdade: toda a minha vida foi passada a ver navios.

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Aeroporto de Genebra 

As três horas de espera no aeroporto de Genebra acabaram por passar depressa: esperarpela bagagem, fazer outro check in, ir à Migros do aeroporto comprar uma pasta e escovas de dentes, beber um copo de vinho e eis-me de novo na fila para o filtro de segurança. A língua que mais ouvi até agora foi português; as mulheres continuam magras e bonitas, mas não tantas nem tanto como na cidade. Deve haver um filtro para elas também. 

É doloroso estar tão perto daqueles que amo e não poder ficar uma noite sequer, mas a verdade é que não fazia sentido nenhum. Demasiado caro para demasiado pouco tempo. De qualquer forma, não tarda estou aqu. Questão de ter a vista a ver de novo.

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Cedo piaste. O avião tem hora e meia de atraso e o copo de vinho no sítio onde costumo esperar aqui no aeroporto custa nove euros e vinte e sete cêntimos. Duas verdades dificilmente conciliáveis, tanto mais que este bar é o mais barato do Aeroporto, mera coincidência, claro.

Aqui não posso fazer o que faço em Lisboa:--------- (apagado a pedido de várias famílias). Na Suíça a pobreza não faz amigos. Quando muito, suscita aquela mistura de desprezo e compaixão que não suporto e à qual nunca me submeteria.

De maneira lá vou tentando fazer durar o vinho, com uma taxa de insucesso bastante elevada porque é bom como o raio que o parta. Se ao menos fosse mau.

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Às vezes pergunto-me se os aeroportos não serão como as mulheres: não se pode viver com elas, mas sem elas é pior ainda.

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Palma, finalmente! Vim ao Lo Divino, Estou cansado, desde manhã a andar de um lado para o outro e a esperar em aeroportos. O Lo Divino está cheio. Infelizmente têm música ao vivo, mas estava cheio de saudades da Núria e do Roberto. É uma mistura frequente em mim, esta: saudades e fome. A Núria está resplandecente, o vinho que me recomendou é óptimo - desde que lhe disse de que tipo de vinhos gosto nunca se enganou - e se tudo correr bem a rapariga (que por sinal não canta mal mas podia cantar infinitamente melhor) vai calar-se daqui a pouco. 

O problema disto tudo é que cada vez mais me apercebo de que quero viver em Portugal. Não perguntem.

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Não se calou e agora dedica-se a assassinar canções da bossa nova. A última que reconheci era uma das minhas favoritas, cantada pela Maria Creuza, «eu sem você não tenho porquê». Dou graças pelo cansaço, que me permite alhear-me completamente do que me rodeia, ruído incluído. 

(Cont.)

Eternidade, morte

Ali chegada, o seu maior sonho era que os últimos anos de vida fossem poucos, curtos e começassem depressa, mas o seu código genético não lhe fez a vontade e viveu até aos noventa, cheia de energia. Para ela, saber quem obedece a quem - se nós aos genes, se eles a nós - deixou de fazer sentido. "Separaram-nos à nascença', dizia. "É um diálogo de surdos, o nosso. Digo-lhes uma coisa e eles fazem outra, querem forçar-me a fazer isto ou aquilo e eu faço o que me apetece." Pouco antes de morrer - teve uma morte feliz, rápida e indolor - deixou uma nota: "o tempo é a parte da eternidade que se atrasa (Milorad Pavić, in Dicionário Khazar). Pois eu fiz a eternidade esperar e fiz muito bem."

Árvore seca, palavra

"Quem não tem dinheiro não tem palavra", dizia-me já não sei quem. É verdade. Tendo massa, é fácil respeitar o que se diz. Difícil é fazê-lo quando se está à sec de toile.

13.9.22

Casa, dias, vida

Procuro casa, de novo. Quem não me grama diria talvez que procuro vida, mas quem não me grama estaria enganado, se o dissesse. Procuro casa para os meus livros, que são muitos e para os meus dias, que espero poucos e curtos. De vida estou cheio, obrigado. 

Diário de Bordos - Macinaggio, Córsega, França, 13-09-2022

Voltei ao U Culombu (e não Culombo, como escrevi ontem, não tarda corrijo). O jantar foi magnífico, uma espécie de carpaccio mas morno e com as fatias de carne mais grossas. Não consigo perceber porque é que fora de Portugal se pede carne muito mal passada e ela vem muito mal passada e no nosso país vem hiper cozida. Enfim, o nosso vinho é melhor do que o corso, que mais parece uma mistura de vinagre com açúcar mascavado.

Mas a parte interessante do jantar não foi essa. Foi ficar a saber pelo dono lui-même que é casado com uma senhora portuguesa de Braga e que no fim do Verão fecha o restaurante e vai para Portugal, onde passa seis meses por ano. Acha aquilo "muito melhor, mais aberto, apesar de ser corso". Confesso que concordo com o homem. As sociedades mediterrânicas não são um modelo de abertura, por um lado; por outro, se há coisa de que gosto em Portugal é da nossa tolerância, do nosso laisser-faire. Bastante erodidos, é verdade (a modernidade tem o dom da ubiquidade), mas o que sobra chega para dar cartas.

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Último dia de trabalho com o P. Amanhã vou-me embora. A psicologia da forretice é uma coisa que me fascina - já fui ajudado por pessoas extremamente forretas, coisa que acho mais extraordinária do que sê-lo por quem é naturalmente generoso. Hoje assisti a uma cena que não tem a ver com ser agarrado ao dinheiro, mas que é ilustrativa. 

Tratava-se de subir, esvaziar e arrumar o dinghy, que estava amarrado à proa (estamos no Mediterrâneo, as amarrações são de popa para o  cais). Do outro lado do cais e dois lugares para o lado está um lugar vazio. Foi lá que pusemos o bote na água, novinho em folha. À tarde, o lugar ao lado de nós ficou vazio e quando se tratou de tirar o coiso da água pensei que usaríamos esse lugar, mesmo ao nosso lado. Não. P. foi dar a volta ao cais. Os franceses têm um termo para isto, chamam-lhe psico-rigidez. Numa pessoa inteligente, educada, amável como ele não deixa de ser surpreendente. 

Isto dito, continuo a achar a alta-burguesia francesa muito mais interessante do que a nossa. O equivalente português do P. teria comprado no mínimo um cinquenta pés e teria vindo o caminho todo a dar-me explicações de navegação. P. comprou um trinta e um (pés, não chatices) e veio todo o caminho a tomar notas do que eu lhe dizia.

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Telefone de A. Diz-me que tem possibilidade de trabalhar num Swan 68 e pede-me algumas informações. Já não sei quem dizia que não é o talento que paga, é a perseverança. A esta deve acrescentar-se o talento para se vender. Deus sabe que não sou invejoso, mas porra, bem podia ter-me dado um bocadnho mais de jeito para a conversa. Ou para o dinheiro: verdade seja dita, entre o meu P. e um Swan 68 escolheria o primeiro, sem sombra de hesitação. A liberdade não tem preço, por muito cara e chata que seja.

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Vou ter de ir ao Porto tratar da vista e das amizades, duas coisas igualmente importantes.

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Gosto de Setembro: acabou o calor e não chegou o frio. Amanhã levanto-me às cinco e meia da manhã e tenho de pôr o casaco de lã que comprei em Barcelona. Mas nas pernas levo os calções. É uma boa mistura. Ainda não sei onde vou basear-me nas Caraíbas este Inverno, mas se for em Saint-Martin terei muitas noites assim.

Adenda: afinal o casaco foi para o saco e isso deixa-me contente. Va savoir.

12.9.22

Diário de Bordos - Macinaggio, Córsega, França, 12-09-2022

Jantar com P. no restaurante U Culombo. Pazes feitas com a gastronomia francesa: uma araignée sublime, ultra mal-passada e um colonel que a esta hora deve ter sido promovido a general, de tão grande e bom. A forretice manifesta-se e eu dou-lhe uma volta, se bem hoje um pouco maior do que o habitual: o que eu queria mesmo era um copo de vinho. Optei pelo colonel pelas razões simples e criticáveis de que a) era mais caro e b) P. escolheu por mim a bebida inicial (cerveja) em vez de me perguntar o que eu queria (pastis). Ficou-lhe ligeiramente mais caro, mas um gajo que colecciona casas e tem cavalos pode bem com a diferença. Amanhã é o ultimo dia. Quarta-feira saio daquk às seis e meia da manhã, para Bastia. 

A viagem é estúpida: vou passar três horas no aeroporto de Genebra porque a diferença de preço para lá passar uma noite era demasiado grande.

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A falta de visão está a tornar-se chata. Preciso mesmo de ir ao Porto tratar disto. Mas agora põe-se-me o aniversário pela frente. Nunca liguei nenhuma ao dia de anos, verdade seja dita. Este só é importante por causa das circunstâncias. E porque sessenta e cinco é uma idade bonita,  vá. É quando um gajo começa a ter descontos nos comboios. (Pena não acontecer o mesmo nos aviões.)

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A viagem de Loto para aqui é uma maravilha. Ao contrário de Mallorca, as costas não estão construídas. Macinaggio é minúscula (hoje pareceu-me que a marina - ou, mais correctamente, o porto de recreio - é maior do que a aldeia) mas fica-se com vontade de cá passar mais tempo. Desvaneceu-se a má impressão que tinha da Córsega, provocada pelo incidente de há quarenta anos, pela violência política e por pensar que do sitio onde Napoleão nasceu não se pode esperar  nada de bom. A verdade é que as pessoas são simpáticas e hospitaleiras. 

(O vinho ainda não me convenceu, mas isso é outra história.)

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Mais três dias de castigo no Facebook por ter escrito num comentário que os portugueses são um povo de cobardolas e merdosos. Transcrevi para um post, não usei a palavra portugueses e desse lado não levei sanções. Não há censuras inteligentes, mas há-as mais estúpidas do que as outras todas juntas.

11.9.22

Loto, Lua

Estou fundeado numa baía do norte da Córsega. Chama-se Loto. Em si mesma não é particularmente bonita. O que é lindo de morrer são as montanhas ao longe, a Lua que acaba de nascer, cheia, feliz, radiante, por trás de uma delas. D. desembarcou, estou sozinho com o P. e a verdade é que estou a gostar da sua calma, da sua parcimónia. É simpático, nada chato. 

Contudo, é-me impossível não pensar nas pessoas que gostaria de ter aqui, em vez do P. A primeira que me vem à mente - terá dela alguma vez saído? - é a R., cuja alegria e vitalidade são iguais à da Lua, nascendo cheia e sorridente, sensual e longe. A noite está muito clara, não há uma nuvem no céu, P. diz-me que se vê nitidamente a cara  na Lua. É verdade, mas a cara que eu vejo é a de uma miúda loira, linda, com quem um dia sonhei e que me fez sonhar muitos mais. Penso na R., na Lua, em mim, na baía de Loto: trajectórias imutáveis que um dia a vida juntou e separou, com o sentido de fatalidade que lhe é próprio. 

Gosto desta ideia de inevitabilidade. A Lua cheia vai subindo, o mar reflecte-lhe a luz como se fosse um caminho, eu olho para essa estrada prateada: tudo previsto, previsível, impossível de mudar. O carreiro que a Lua agora acendeu tem um princípio, mas não tem fim: os grandes amores são assim, nascem e crescem na beira de um precipício. Um cai, o outro segue, o precipício acolhe os dois, separados e juntos. Como é aquela canção da  Charlotte Gainsbourg, "les grandes amours n'ont pas d'adresse / quand l'un part et l'autre reste"? É tão bonita, essa canção... Oiço-a agora, enquanto escrevo e o homem na Lua começa  chorar, como de cada vez que a ouve.

O F. balança suavemente, preso ao ferro pela corrente, como a R. estava presa à sua vida, à sua cidade e eu à minha vida, ao mar. Dois planetas que um dia se aproximaram, tocaram e a gravidade afastou, como esta Lua que agora se afasta da montanha de onde saiu, feliz e cheia. 

Perdi a R., ganhei-a no Loto: abençoada gravidade, que afasta mas não separa, que separa mas não nos deixa largar quem já uniu. Num precipício, bem sei. Num abismo. Na Lua. No mar.

(Para a R., claro. Com um beijo redondo e límpido como esta Lua.)

Serviço publico - Restaurante em Calvi, Córsega

Restaurante A Piazzetta, place Marchal, Calvi.

Boa comida, bom serviço, preço correcto. Decidi retomar o controlo das operações restaurante.

10.9.22

Diário de Bordos - Calvi, Córsega, França, 10-09-2022

Força seis e sete à popa arrasada não é a situação mais confortável para se passar uma noite, sobretudo quando o camarada não sabe navegar. Chegámos a Calvi às duas da tarde, já com força oito. São dias destes que me fazem reposicionar o conceito de cansaço: pode ir sempre um pouco mais longe. 

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D. desembarcou em Marselha. Foi a melhor ideia que teve, no meio de um monte delas. Teria sido necessário enchê-lo de comprimidos para dormir e fechá-lo num camarote. Ao princípio o mar ainda estava bastante regular, mas a partir das cinco começou a ficar cruzado. A depressão não se mexe há duzentos anos, começámos a receber mar de norte e a coisa ficou francamente chata. O bote tem trinta e um pés,  é pouco.

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F. queixa-se de que "ça bouge vraiment beaucoup".  Ben oui, F., sept dans le cul n'est pas de tout confort, penso mas não digo. O homem não é má pessoa, mas está longe de ser o meu cliente favorito desta época. Quando penso - é raro mas acontece  - vejo que não é a sua forretice que me incomoda. É outra coisa, talvez resumida no seu jantar solitário de hoje, a bordo, com a desculpa de que pensou que eu ia dormir seguido, sem acordar até amanhã. Nem sequer é ascetismo, é parcimónia. De tudo: dinheiro, prazer, gratidão (é mais uma incapacidade de expressão do que ingratidão.)

Enfim, a regra universal e perene do "que se lixe" aplica-se de novo, como sempre e a tudo. Quarta-feira volto para Palma, sábado começa outro charter e a mulher de calças brancas e camisola cor de rosa na mesa ao lado atrai toda a minha atenção. 

Esta sim, é uma teoria conspirativa da qual tenho provas: Deus (e quem O  substitui quando está de folga) criou mulheres assim para me envenenar o juízo. Como? Activando os mecanismos da teoria da selecção natural com que presenteou Darwin. Para quê? Para me chatear, toda a gente sabe. Tenho provas, apesar de agora não estar chateado, Deus nem sempre acerta e eu nem sempre sigo o guião.

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O século vinte acabou, a última apagou a luz et en avant pour le suivant. (Já tinha acabado, em dois mil e um em Nova Iorque, mas a senhora demorou a sair.)

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Isto dito, a noite foi magnífica: a Lua quase cheia, céu limpo, o bote a andar bem, eu sozinho no poço. Venham muitas mais.

9.9.22

Diário de Bordos - No mar, entre Marselha e Córsega, França, 09-09-2022

O jantar de ontem foi uma merda. É incompreensível como duas pessoas com tanto dinheiro e tanto gosto (pelo menos o D.) acordam tão pouca importância à escolha de um restaurante. Ainda por cima o D. convidou-nos, como despedida. Resolveu desembarcar, por causa do enjoo. Por muito que gostasse da companhia dele - imenso - encorajei-o. Passar o dia todo deitado no salão sem sequer poder levantar-se não é vida.

Depois do jantar - num desses buracos para turistas sem ponta de interesse -  fui em peregrinação ao café des Arts beber um rum. O rum era Trois Rivières, estava sozinho: deliciei-me. A seguir vim para bordo. Discussão agradável com P. Começou já não sei onde e acabou na eutanásia e na - quanto a mim - necessidade de zonas cinzentas no direito, quando os assuntos são demasiado pessoais e, sobretudo, dependem da moral de cada um para se encaixarem na arbitrariedade da lei. P. discorda, claro. O argumento é o habitual: o que não está legislado é passível de abuso. Sim, é. O ser humano é imperfeito e temos de viver com essa imperfeição. Querer corrigi-la leva-nos mais depressa à ditadura do que a ausência de lei em algumas áreas nos leva à anarquia.

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Largámos cedo, ao nascer do dia. É tão bonito, este porto. Sou um trans: levo uma vida de rico com um porta-moedas de pobre. Um milagre com pernas.

(Esclareço rapidamente que isto é auto-ironia. Um rico não anda num trinta e um pés, rumo à Córsega, a cinco nós.)

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Até nos pontos cardeais há hierarquias. As pessoas podem estar desnorteadas ou desorientadas, mas não des-suladas ou des-ocidentadas. O Sul e o Oeste deviam ter a possibilidade de serem referentes, tanto quanto os outros dois. Espero que os wokes se interessem rapidamente por este flagrante cado de injustiça cardeal.

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Gosto de andar no mar. Ponto. Não há barulho de motor nem ausência de vento que me consigam convencer de que estar no mar não é agradável. 

Enfim, agradável não é o termo adequado. 

Et ceteris paribus

A semelhança entre um marinheiro e um escritor é que ambos só fazem o que os faria morrer se não fizessem.

7.9.22

Paz, merecida paz

Sentado à beira da vida vejo-me no carrossel. O vento continua furioso e de proa, eu sem casa e sem dinheiro, o mar sem paz, fustigado por esta incessante lestada. Esta noite ronda a noroeste, dizem os oráculos. Com esta fúria, custa a acreditar. Como eu e a casa para os meus livros: os cavalos sobem e descem mas não saem do mesmo sítio. Os miúdos montam-nos, tão contentes quanto enganados. Estou farto do vento: dêem-me a brisa ligeira, térmica, da noite, a que nos empurra docemente para o mar, para o fim.

Beberei tranquilo o último gole da cicuta, não farei barulho nem reclamarei, prometo. Mas parem-me este vento, peguem fogo ao carrossel, ponham os miúdos em casa da avó, prometam ao mar a paz que ele merece.

E eu também. 

Diário de Bordos - Saintes-Maries-de-la-Mer, Camargue, França, 07-09-2022

As Saintes-Maries-de-la-Mer de que me lembrava estavam a quarenta anos-luz destas que agora visito e onde espero que o vento mude para continuar viagem. Pensando bem, não é necessário acrescentar luz aos anos: de uma tranquila e pitoresca aldeia da Camargue ao buraco negro turistico de hoje quarenta anos chegam largamente. É de tal ordem que nem fora de época deve ter o menor interesse.

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Cheguei a França sábado e desde esse dia até hoje ainda não comi uma refeição decente. Bebi dois copos de um vinho excelente em Montpellier e é tudo. Das Saintes então não se fala. Horror atrás de horror. La France foût le camp, diz D. Discordo, mais para não perder o hábito do que por convicção, mas é forçoso compreendê-lo.

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Não é só o vento que nos retem neste mini-inferno. Temos também um problema com a bomba de água salgada do motor, uma junta que precisa de ser mudada. E outro com as baterias domésticas. Estão mortas. A ideia inicial era parar em Marselha para reparar isto tudo, mas com o tempo como está decidimos tentar fazer as reparações aqui, com uma empresa de Port-Camargue, a meia hora das Saintes. Estou à espera da chegada do orçamento. Ontem quando saíram as previsões e vi que não poderíamos largar (íamos sair à noite, para chegar a Marselha de manhã) fiquei chateado, coisa que não me acontecia há muito tempo. O lugar é verdadeiramente horrível. Vá lá, tenho sorte com os clientes, dois homens de negócios / quadros superiores franceses e simpáticos, engraçados, Parece um remake da dupla P. / P. do BLANCA, mas em melhor: ali, havia um gajo porreiro e um chato. Aqui são dois porreiros, apesar de muito diferentes - D. vem da publicidade, era dono de uma grande agência, P. é financeiro e vem da indústria. Ao menos isso. 

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Confusão para encontrar fornecedores. O de Port-Camargue não envia o orçamento, o de Marselha (com quem me chateei hoje de manhã) diz que não vem às Saintes. Lá consegui convencê-lo, mas em contrapartida não pode vir hoje, só amanhã. Curiosamente, é um dos lados deste trabalho (e dos outros) de que mais gosto. Acho que sou bom a adaptar-me à mudança e às circunstâncias, a desenrascar-me, a resolver problemas. 

3.9.22

Noite em Palma

É quase uma da manhã e daqui a três horas tenho de acordar. É bom ter amigos como o N., que em pouco tempo passou de amigo a amigo. Não sei onde pôr o itálico, se no primeiro se no segundo amigo. Fica para o segundo, pronto. Amigo. Tapas no Toni, jantar no Fidel, gelados no Cláudio. O Antiquari estava fechado. Voltámos todos para casa. O pessoal do sono há-de acabar por dar cabo das cidades e ainda o hão-de lamentar. Por mim, podiam ir já todos para a puta que os pariu. Se não gostam de barulho mudem-se. Não nos impeçam de viver.

2.9.22

Marretadas

Um gajo leva uma marretada na cabeça, uma daquelas marretas que pesam dezenas de quilos e são manejadas pelos gajos das obras com a energia que a merda de vida que levam lhes dá. Porém, um gajo sabe que não foi um desses tipos a manejar a marreta e pergunta-se quem terá sido.

Foi ele próprio, claro. Não vale a pena procurar mais longe. Ninguém é capaz de acertar tão em cheio na nossa cabeça como nós próprios. A analogia só falha porque a marretada do gajo das obras é quase imediata e a nossa levou anos a apontar-nos para a tola.

Um gajo e as piranhas

Um gajo está a ser comido vivo por uma picanha e deixa-se comer. Um dia a picanha ir-se-á embora. Basta a carne acabar.

Enfim, não é uma. São muitas. Quando se forem estas embora, outras virão. 

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Um gajo nada entre piranhas e agradece-lhes cada vez que o mordem. Não fossem elas, estaria sozinho. Nem mordido seria.

Não tarda, paga para nadar num tanque cheio delas. 

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Não tarda?

1.9.22

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-09-2022 / II

As opções pós-prandiais são muitas, mas acabo por vir para bordo (bordo tendo aqui o sentido de casa). Penso que se o beliche me rejeitar posso sempre ir para outro lado qualquer. E que devo tomar o sacana do comprimido, já agora. Montei a ventoínha num instante, dois bons goles nas hierbas da Pamboleria (como é que ele se chama?)  e estou pronto para enfrentar o beliche.

A luta é desigual, eu sei, mas é dessas que eu gosto, não é?  Não. São essas que eu não sei evitar, o que é diferente. E como não sou gajo de não ir à luta, o resultado está à  vista.

Excepto, claro, nas lutas que se evitam com dinheiro, ou cujo adversário é a irracionalidade. Dessas afasto-me: ou seja, vou ao 7 Machos beber uma margarita. Ou uma tequila. Não se pode chamar a isto conceder a derrota. É antes reconhecer a superioridade do medo ou da raiva ou dos dois sobre a razão. 

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Peroro sobre estas coisas, olho para o meu P. e penso em quanto o amo, em quão irracional é este amor  e pergunto-me: há amores racionais?

É como se vivesse numa cave, vindo de um palácio. O I. até máquina de fazer gelo tinha. E máquina de lavar loiça  - nunca usada, diga-se em defesa das senhoras. Mudar dali para aqui é como mudar de galáxia.

Como se pode gostar disto, depois de um Verão naquilo? Que pergunta mais estranha, não é?

Gostamos do que somos e somos coisas diferentes. 

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Há anos havia um teste de personalidade do qual uma das perguntas era se o sujeito preferia uma fotografia de mar revolto ou de mar chão.  Confesso que nunca me interessei o suficiente por esse tipo de testes para pensar muito no assunto. Hoje, todavia, voltava para casa e o mar estava liso como o ventre da mulher que amei aos dezoito anos e pensei que cada vez me sinto mais atraido por estes mares lisos, espelhos, chãos. Não sei se é a idade, se o bom senso que finalmente penetra nesta cabeça dura. 

Espero que seja da idade. Continuo a ter sérias dúvidas sobre o bom senso.


Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-09-2022

Há vários tipos de melancolia. Hoje vinha a pensar em como qualificá-las, mas acabei reduzido ao ponto de partida: a boa e a má. Aquela sendo a de que se desconhece a causa, a ou as desta sendo conhecidas. Uma melancolia cuja nascente é conhecida sem explorações à la Livingstone não merece esse nome. É má. Só as melancolias que não se sabe de onde vêm têm um mínimo de qualidade e merecem sê-lo. É, portanto, má. Péssima. No limite do suportável. Sei de onde vem, sei o que devia fazer para acabar com ela - que vale uma tristeza de que se almeja o fim? - sei que o farei mal possa: pagar. Trabalhar para acabar com a melancolia? Querem melhor prova de que é da má? A boa não se deixa convencer seja pelo que for.

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Os clientes confirmaram com números o que me diziam com palavras; ou, dito de outra forma, puseram o porta-moedas onde tinham a boca. Cada vez mais acredito em números e menos em palavras, consequência sem dúvida da idade e das experiências. 

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Acabei no Vi Vermell, que se junta definitivamente à lista. O empregado (ou patrão) que no outro dia chorava quando falava de um jogador do Sporting hoje parece-me completamente bêbedo. Os outros, contudo, asseguram. Os secretos estavam óptimos, o vinho é francamente bom apesar de não estar suficientemente frio, o sítio está vazio no interior, pelo que posso escrever à vontade.

Ainda pensei jantar no Glória, que substituiu a gloriosa Quinta Puñeta. Glória coisa nenhuma. Um dia vou lá explicar-lhe como receber clientes solitários e dizer-lhe que volta e meia um gajo sozinho lhe traz cinco ou seis clientes cheios de guito.

Tudo isto precedido por um palos sifonado na Bodega Bellver, onde pela primeira vez fui recebido com um sorriso - pelo filho / empregado, riscar o que não é verdade. O dono continua carrancudo como sempre. Um dia arranquei-lhe um sorriso, mas não me lembro da tecnologia que usei. Pouco importa. O sítio é bom e o resto é conversa de encher chouriços.

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A vida que eu levo não tem rigorosamente nada a ver com aquilo que as pessoas pensam que ela é, excepto num ponto: seria incapaz de viver outra. Mesmo que quisesse e nada está mais longe da minha vontade do que mudar de vida, excepto eventualmente por breves períodos.

Como a residência literária à qual me candidatei, por exemplo. Isso sim, atrai-me. Ser pago para escrever, mesmo que seja num mês o que ganho aqui numa semana.

De qualquer forma, o que ganho aqui entra por um lado e sai pelo outro, intocado. Se entrar menos, sai menos, é tudo.

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Este charter foi-me arranjado por um alemão chamado Thomas (o nome vai por extenso porque é pareceido com o do meu filho). Thomas tem uma qualidade: é um dos poucos alemães joviais que encontrei na vida. Já tinha outro charter engatilhado, mas infelizmente estarei no sul de França, a atravessar para a Córsega. Para o ano é provável que trabalhe o Verão todo para ele. Aposto que a minha melancolia será da boa. A má já estará paga.

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Entrou Setembro, o mês mais terno. O meu mês, o que traz com ele o fim do horrível Agosto.

Agosto é um mês de boçais. Com algumas excepções, das quais os meus clientes são geralmente a prova viva.