17.8.22

Venham mais cinco

Diz que vai chover dilúvios, hoje à noite e amanhã. Rajadas de sessenta nós. É nestes momentos que gosto do trabalho que fiz no meu P. Se partir alguma coisa, não será do bote. Só não garanto (ainda) cem por cento de impermeabilização: mas anda lá pertíssimo. Venha ela!

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 17-08-2022

Li recentemente que o equivalente árabe - ou chinês? - do nosso «Era uma vez» é «Isto foi assim e não foi assim». É uma questão que ressalta muitas vezes no que escrevo: «Nada disto aconteceu». Ou: «Isto não aconteceu assim». Como é aquele dito, tantas vezes erradamente atribuído a Hemingway (é de Blake)? Tudo o que é possível é uma imagem da verdade? Tudo o que é possível de ser acreditado é uma imagem da verdade? É assim, mas a tradução está péssima. «Tudo aquilo em que se pode acreditar...» está errado. «Tudo aquilo em que se pode acreditar é uma imagem da verdade» Não. O original diz: «Everthing possible to be believed is an image of the truth.» Tudo aquilo passível de ser acreditado é uma imagem da verdade. O que transforma qualquer coisa numa verdade somos nós. Para um terraplanista, a Terra é plana. Para um político, a Covid foi uma catástrofe e só não foi pior graças à sua intervenção iluminada. Claro que tudo isto leva a dúvidas: a Terra não é plana; se os políticos tivessem feito menos a Covid ter-se-ia espalhado e teria tido as mesmas consequêncis do que teve com as «medidas». Talvez a solução seja dizer que a verdade não existe enquanto tal mas deve ser um objectivo. Não há uma verdade estável? Há. A aceleração da gravidade é de nove vírgula oito metros por segundo ao quadrado e desafio quem quer que seja a dizer que isto não é verdade. Não é: varia com o lugar e com a altitude. É possível acreditar que a aceleração da gravidade é de nove vírgula oito metros por segundo ao quadrado e isso faz daquilo uma verdade; e é igualmente possível acreditar que esse valor varia, o que é igualmente verdade. Paul Veyne escreveu um livro liminar sobre o tema, chamado Les Grecs ont-ils cru à leurs Mythes, onde fala dos diferentes tipos de crença e de verdade.

Não sou filósofo nem historiador: sou um marinheiro para quem a verdade é o que tem à frente dos olhos  - se o vento está Norte não está Sul e se o mar está desencontrado não está chão; e por vezes um escritor, para quem a verdade é o que tem na mente. São duas verdades com as quais me dou bem e coabitam facilmente. O resto deixo aos filósofos e aos «especialistas». 

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Fui à Babel. Já lá não ia há para aí um ano ou mais. Saí com quatro livros que não sei quando lerei. «Gastas o teu dinheiro todo em livros», diz-me a minha cunhada L. «Eu sei, L. eu sei. Mas é-me mais fácil viver sem dinheiro do que sem livros». Mentira, claro. Paciência. Isto é assim e não é assim.

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São cada vez menos, mas de vez em quando ainda vejo pessoas ´de máscara na rua. Aqui só é obrigatório nos transportes públicos e nos estabelecimentos de saúde. Não acredito muito (muito = nada) em teorias da conspiração e ainda acredito menos na estupidez de quem nos goverma. É óbvio que estas obrigações não têm nada a ver com a saúde pública. 

Um dia, esta «pandemia» será mais estudada em ciências políticas do que em saúde pública.

(Nota bene: uso aspas em pandemia não porque duvide que o tenha sido, mas porque não sei se o foi. Não sei, no sentido literal e básico do termo: não sei se foi ou se não foi. Sei - e disso só tenho as dúvidas que qualquer saber exige - que não foi o cataclismo que as autoridades nos querem fazer crer que seria não fosse a sua (delas) intervenção assisada. Crença essa, de resto, para a qual contribuem os pobres que andam por aí de máscara acreditando que aquilo os protege da morte certa.)

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Escrevo no Antiquari. Ao meu lado está um senhor parecido com o Tom Wolfe que também escreve à mão num bloco-notas, como eu, mas muito maior. O Antiquari é um bocadinho de Paris em Palma. O homem está bem vestido e visto assim de perfil parece bonito. Escreve mais do que eu, com menos interrupções. Não tem sequer um telefone à vista. Precisa realmente de um caderno maior do que o meu. Será que o Wolfe também escrevia em cafés, impecavelmente vestido?

(A inveja é tão bonita... Que pena tenho de não ser invejoso. Aposto que teria um livro escrito em menos de um fósforo.)

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Entre não acreditar em teorias da conspiração e não acreditar na estupidez de quem nos governa há um fino traço sobre o qual se deve andar com muito cuidado e muito equilíbrio. Igual ao que há entre a verdade e a crença, não é?

Civilização, caos e o pêndulo

Não consigo viver na Suíça - nem nas outras sociedades "civilizadas" -  porque me desapropriam do meu tempo; não consigo viver em Portugal porque me desapropria da ordem, isto é: da civilização. 

É entre estes dois pólos que o pêndulo oscila: o tempo e a ordem, o caos e a civilização, o eu e os outros.

Não há um lado melhor e outro pior. Os que hoje são bons amanhã serão maus e vice-versa. A única solução é sair do trajecto do pêndulo: o mar, o deserto, a montanha.

Visitas de paciente

Estas visitas de médico ao 7 Machos são exactamente o contrário do que parecem. É  como se fosse o paciente a visitar o médico e não este aquele.

16.8.22

O presente e os cães

Passam duas senhoras por mim. Estão a passear os cães. Não sei de que barco vêm: para mim, saíram directamente da Vogue. Uma delas traz um desses cães chiques pela trela, deve ser um afegão ou coisa que o valha. A outra traz o seu mini-cachorro ao peito, como se fosse um bebé ou uma medalha pesada.

Ainda há quem pense - e diga - que eu sou maluco.

Sedutor, seduzido

Pergunto-me se todas as mulheres que andam pelo Facebook pensam que os homens que frequentam a coisa andam ao engate?

Espero sossegá-las:

a) Tenho quase sessenta e cinco anos e o tempo corroeu - feliz ou infelizmente, ainda está por decidir -  a maioria dos meus entusiasmos. Afagou-os, por assim dizer;

b) Apesar de ter tido uma vida afectiva da qual não me posso honestamente queixar, nunca fui um grande sedutor. Nem ser seduzido sei, quanto mais sedutor. (Na volta vamos a ver e é por causa disto que não me posso queixar, mas isso é outra história. )

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-08-2022

Regresso a Palma: regresso a casa. Larguei à sete da manhã de Pollença, como previsto; sem pequeno-almoço, ao contrário do que pensara. Fiz bem: duas horas e meia de navegação, mangueirar o bote, recolher roupas de cama e toalhas sujas para a lavandaria e hey, presto, uma pratalhada de bacon e ovos que me aguentou até agora, duas tapitas no Jaume depois de um duche no clube, de ir buscar a bicicleta ao Ivo, a roupa à 5 à Sec (pequeno milagre, ainda lá estava uma senhora). Nos entretantos, dois ou três pequenos pormenores a resolver. 

A isto chama-se um regresso activo. A qual actividdade não me impediu o habitual deslumbramento da todas as chegadas a Palma. As cidades, escrevi recentemente, são feitas de repetições (e de pessoas, a auto-citação é diacrónica). Ou seja: de reencontros. Com o Ivo falamos da incapacidade comum de viver sem uma bicicleta, com o Jaume da próxima vinda da minha filha e companhia (uma estadia de três dias em Palma é pior do que pôr o Rossio na rua da Betesga) e por aí fora. Passo os pormenores. Sei que tenho de os levar ao bar Rita, ao Gustar (reservado), ao Jaume, à Vermuteria Rosa, ao Divino, ao Antiquari, ao 7 Machos, à Cuadra de los Maños - a minha filha é pouco amiga de carne, talvez a faça mudar de ideia - à Tramuntana e improvavelmente à Catedral e ao museu Miró (isto é muito egoísta, mas não se diz a ninguém. Ando há anos para lá ir). Além de bares, cafés, restaurantes e montanhas há que ver a cidade e aproveitar as praias. Outro sítio indicado para quem não gosta de carne é o rodízio brasileiro de Portixol, que é magnífico. Enfim, um puzzle interessante, apaixonante e - principalmente - ansiógeno.

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Uma das origens do cansaço: atracar um bote como o WANDERLUST consome tanta energia como duas horas de pesos e alteres, apesar de a parte complicada não levar mais de cinco minutos. Na verdade, prefiro as lanchas maiores: sendo mais pesadas são menos parecidas com um sabonete em cima de um ringue de hóquei no gelo.

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O «meu» P. mantem esta sua irresistível capacidade de me fazer olhar para ele e em vez de ver um barco em trabalhos vê-lo pronto e a navegar. Suponho que a rivalidade ancestral entre as mulheres e os barcos venha daqui. É certo que conheço várias histórias de homens a quem as mulheres disseram «ou eu ou o mar» e optaram pela mulher. Esses homens - dos quais o meu Pai fez parte, mais ou menos (a formulação foi diferente) - são uma minoria, é preciso dizê-lo. Sacana do bote entranhou-se-me de tal forma que separar-me dele seria como amputar um braço.

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Isto tudo dito, só me resta esperar que o transporte do Lagoon de La Rochelle para Mallorca se confirme. Preciso de uns dias de mar a sério.

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O Ivo não quer vender-me a BH Glasgow que lhe tenho alugado durante estas breves passagens por Palma. Diz que demora muito tempo a pôr uma bicicleta como deve ser para a poder alugar.

Como eu o compreendo. A burra está perfeita. Até já conhece o caminho do 7 Machos.

15.8.22

Diário de Bordos - Port de Pollença, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-08-2022

Todos os dias passo à frente do restaurante La Llonja, que fica imediatamente antes do clube (para quem entra, claro. Para quem sai é depois). Está sempre cheio a abarrotar, tem toalhas de pano, copos bonitos, talheres de peixe e clientes bem vestidos. Ou seja, não é o sítio indicado para um pobre marinheiro longe de casa ir jantar todos os dias.

É, porém e sem sombra de dúvida o local adequado para celebrar o fim de um charter chato, longo, interminável, quotidianamente ou quase com duzentas e cinquenta crianças a bordo, movidas a energia nuclear e que rendeu a esperada gorja de zero euros e zero cêntimos. (Acho tão triste estas pessoas podres de ricas e patologicamente forretas que nem me chateio. Além disso, a verdade é que fiquei a conhecer bem o noroeste da ilha e descobri que o combustível nuclear de um grupo de crianças são as outras crianças. Aquilo alimenta-se a si próprio, cada uma delas activa a outra, numa reacção em cadeia sem fim. Não vale uma gorjeta decente mas um gajo agarra-se ao que pode.)

Ou seja: vim jantar ao La Llonja. As pessoas que enchem isto todos os dias estão prenhes de razão, como cantava o brasileiro bonitão. Só tenho pena de já não conseguir comer como antigamente: uns mexilhões em porção de entrada e não consigo acabar a sobremesa. Que desperdício...

Oops, no melhor pano cai a nódoa: só têm hierbas Tunel, uma mistela que está para as verdadeiras hierbas como o Nutella está para chocolate preto.

Claro que neste género de lugares a frugalidade não serve de nada. Aposto que por menos de cinquenta paus não saio daqui. Que se lixe. O vinho de sobremesa é demasiado doce - uma surpresa, tratando-se de um vinho de sobremesa - e este foi o melhor jantar desde que deixei o B., há duas semanas e pouco.

Tenho de escrever isto de novo e quando chegar a bordo vou verificar: duas semanas e pouco. É inacreditável. Parece que foram duas vidas e um bom pedaço de outra. Antes do B., com o casal de marroquinos também me deliciei. Não se pode dizer que esta época esteja a correr mal, do ponto de vista gastronómico. E se o transporte de La Rochelle se concretizar, vou continuar a comer bem. Mesmo que o vinho de sobremesa seja intragável. Mesmo que às nove e um quarto da noite só pense em ir para a cama dormir. Mesmo que este charter tenha sido uma tortura (enfim, sejamos justos: quase uma tortura).  Mesmo que. Esta época está a correr bem qualquer que seja o ponto de vista e a cereja sobre ela vai ser a chegada do Leonardo e respectivo séquito.

Bom, vamos a meças.

Perdi a aposta. 

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Esqueci-me de ir ao supermercado e de entregar a peça da água e o cartão da marina. Aparentemente, a ideia de largar de madrugada não apela ao meu eu interior. O problema é saber onde vou encontrar uma porcaria qualquer aberta às sete da manhã. A massa do cartão e da peça é recuperável noutro dia qualquer que cá venha. O pequeno-almoço não.

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A juntar às descobertas: a excelente qualidade do serviço do RCNPP (Reial Club Nàutic de Port de Pollença, em maiorquino no original).

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Enviei a candidatura à residência artística da Fundação Eça de Queiroz. A probabilidade de ser aceite é praticamente nula, mas prefiro perder a não tentar. Segui o meu lema: "Como sou me dou", que já serviu aquando da admissão ao Conservatório.  (Dessa vez, a probabilidade era de dez por cento. Quanto será desta?)

14.8.22

AO90, coluna

Jornalistas, escritores, televisões, professores... A quantidade de acéfalos que em Portugl aceitou e aderiu ao AO90 é aterradora. Como é que se diz coluna vertebral em português?

13.8.22

Modernidade, palavras

Uma das «curiosidades» da modernidade é pensar que as palavras mudam o mundo. Coitada dela - e dos que a alimentam -: não sabem que é o mundo que muda as palavras e não o oposto.

O passado (para o Iago)

Está na mesa à minha frente uma senhora a pôr gelo no seu rosé; ainda por cima, pega no copo pelo vaso e não pelo (generoso) pé. Penso imediatamente na minha irmã J., que também é muito bonita, como esta senhora, só que mais.

"Não tens saudades da tua família?", perguntou-me ontem o Iago, o meu miúdo favorito da fratria.

"Tenho, Iago", respondi. "Muitas." 

Sobretudo quando vejo uma senhora bonita a pôr gelo no seu vinho, ou quando penso no adorável sorriso da monha irmã R., ou quando falo com orgulho do meu irmão V., que conheço tão pouco comparado ao que queria conhecer. Tenho, Iago, quando penso nos meus primos, com quem ia passar férias à Meia-Praia, ainda os teus pais não eram nascidos. Tenho, Iago, tenho saudades da minha família toda, a próxima e a mais afastada, porque a família é a nossa primeira ligação com o passado e o passado é como aquela pedra que o outro tentava levar para cima da montanha e lá chegado rolava pela encosta abaixo: nunca te larga. Não há cumes de montanha onde arrumar o passado, Iago. Aproveita bem o presente: ele transforma-se em pedra e depois vem por aí abaixo e não te larga,  nunca mais.

Violência, religiões

Talvez se possa argumentar que as religiões são a forma que a humanidade inventou para justificar a sua violência, dar-lhe um sentido, canalizá-la. Com elas, a violência deixa de ser «animal» e passa a ter uma razão superior.

11.8.22

Diário de Bordos - Port de Pollença, Mallorca, Baleares, Espanha, 11-08-2022

Uma das coisas boas deste charter é fazer-me conhecer uma série de calas do noroeste da ilha, até agora todas elas lindas. 

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Por causa da porcaria do dinghy do Robert tenho apanhado o autocarro para ir comprar material. (Dou-me por muito feliz. Não ter que pagar o trabalho é uma sorte.)

Cada vez que entro no veiculo da TIB penso nos autocarros dos Estados Unidos (vá lá, da Florida. De West Palm Beach. Dos de S. Francisco não me lembro e em Galveston nunca apanhei nenhum) que não saíam da paragem enquanto houvesse alguém de pé. Na altura chateava-me e achava um excesso de precaução. 

Agora acho uma excelente prática. Sobretudo quando os autocarros são conduzidos por pilotos de corrida frustrados.

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Restaurante en Port de Pollença: Can Ferrá. É perto do porto e deve haver mais barato, mas a diferença de preço compensa largamente a diferença de qualidade com a cervejaria Albero.

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Acabam de me propor um charter de três semanas em Ibiza. Não posso. Primeiro porque teria de começar este sábado e segundo porque quero estar em Mallorca com a L., o Leonardo e o F. 

Na verdade, não penso noutra coisa.

10.8.22

Altos, vidas

Ao contrário do que muita gente pensa - ridícula, patética e lamentavelmente, de passagem seja dito - a vida não é feita de altos e baixos.

É de baixos, mais baixos, muito baixos e baixíssimos. Os altos só acontecem nos contos de fadas e nos discursos dos politicos.

Explicar, compreender

Esta ânsia de tudo explicar, de procurar uma razão para tudo cansa-me.

Quem tudo explica nada compreende.

9.8.22

Diário de Bordos - Pollença, Mallorca, Baleares, Espanha, 08 e 09-08-2022

Hoje tive mais um dia de folga inesperada e aproveitei a ausência de cansaço para explorar um bocadinho a cidade. Estou farto destes restaurantes perto do porto onde me pedem seis euros (!!!!) por um tinto de verano e só há menus very typical. Descobri a Cerveceria Albero, onde o tinto de verano custa dois euros e meio e os preços do resto são à escala.

[Adenda: hoje voltei cá. É a ultima vez. O dinheiro não é tudo.]

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A última vez que fiz danos num barco foi há dez ou onze anos, em St. Martin. Esta semana fiz dois. Basta perceber um bocadinho de estatísticas para ver que estou bom para vinte anos, não é?

[Adenda: isto não é inteiramente verdade, mas por agora fica.]

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O sacana do escocês a quem lixei o bote é uma mistura de gajo porreiro com um chato de primeira apanha. Percebo a segunda parte - é chato ver um bote que se construiu partido, seja por que razão for - e alegro-me com a primeira. Antes isso.

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Hoje fiquei a conhecer mais uma cala fantástica, no cabo Ferratxu. Pollença (ou, para ser mais exacto, o porto de Pollença) não é por assim dizer fascinante. Já as costas aqui perto são interessantíssimas. Passam para o roteiro, sobretudo fora de Julho e Agosto.

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Estes posts vão mudar a localização. Não estou em Pollença, mas sim em Puerto de Pollença. São sítios diferentes. 

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Viver no e do mar. Só falta uma preposição,  não é?

Para.

7.8.22

Cansaço

Estou tão cansado que nem deitado a fatiga desaparece. Sinto-me uma baleia encalhada na praia, com os órgãos a esmagarem-se uns aos outros. (Não é bem assim, mas pouco importa.)

Diário de Bordos - Pollença, Mallorca, Baleares, Espanha, 07-08-2022

Começa-se por dizer que:

a) Isto não é questão de trabalho físico e
b) tão pouco tem a ver com a idade.

O trabalho físico é pouco, quase nenhum; e a velhice - ou antiguidade, é melhor - não é a causa desta fatiga. Todos nos queixamos do mesmo, seja qual for a década que nos viu nascer.

O que me leva a concluir que há aqui uma forte componente de esforço intelectual, o qual cansa tanto ou mais do que o outro, como toda a gente sabe. Não deixa porém de ser verdade que quando me apanho na cama, luz apagada e telefone pousado, vejo a fatiga sair de mim como condensação num dia frio, ou como as almas a abandonar os corpos nas imagens da Idade Média. É um fumo branco que saúda a inactividade total. Às vezes tenho vontade de o seguir, de tão potente é a sensação. 

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Para quem raramente dá um toquedurante uma manobra, este charter está rico deles. À chegada, foi um toque na plataforma de popa do vizinho. Tenho uma desculpa, claro; ou mesmo várias: o espaço era pouquíssimo, não conhecia o bote, tinha  cliente à espera e cheia de pressa. Felizmente foi uma coisinha de nada. Estou à espera de que a dona do barco me diga quanto vai custar a reparação, mas sei que vai ser pouco.

Hoje dei mais um toque, mas desta vez a explicação é só uma: má sorte. A cala é pequena,  estamos todos encavalitados uns nos outros. À minha amura tinha um veleiro do qual não tirava os olhos. Estava pronto a arrear mais corrente, dois metros ou três, caso fosse preciso. Durante uma hora os botes giraram, mexeram-se, passaram perto mas nunca estiveram em situação de se pegarem. Nisto passa um semi-rígido propriedade de um amigo da cliente e começa a recolher alguns dos miúdos  dela. Não pára o motor, o que já de si é estúpido. Mas o pior veio depois: um dos miudos não subiu, o semi-rígido continuou e o miúdo fica a trinta centímetros do motor. Eu estava a seguir a cena - foram dois minutos se tanto - preocupado, claro (isto é um understatement, se por acaso).

Foram dois minutos, os únicos dois minutos em que tirei os olhos do veleiro; como é óbvio, foram estes dois minutos que ele e o meu escolheram para passarem a vias de facto e dei-lhe um toque no dinghy, que estava pendurado nos turcos. 

Bom, resumindo: aquilo repara-se com epoxi e uma camada de tecido, foi ele que construiu a chata e pode fazer ele o trabalho, é um gajo porreiro e vou outra vez safar-me com cinquenta euros se tanto.

Ou seja: dois toques numa semana. Isto é de fazer explodir as estatísticas todas, por muito baratos que me tenham saído.

Adenda: é pior do que parece. Mais más notícias amanhã. 

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O dia começou às sete e meia da manhã e está a acabar agora, nove da noite. Na volta vamos a ver e é por isto que ando cansado.

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Vá lá que as crianças estão muito mais suportáveis. Até já começo a gostar delas.

6.8.22

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 5 e 6-08-2022

A cliente decidiu que hoje não saíamos, eu agradeci e meti-me no autocarro para Palma. Fui ao Ivo buscar a bicicleta que lá tinha deixado a correr na segunda-feira. Algumas horas mais tarde estava no bar Rita a "jantar" (aspas porque ainda não me habituei a chamar jantar a uma quantidade de comida que deixaria um periquito cheio de fome). O Juan Carlos apareceu e passámos o tempo à conversa. Ofereceu-me um quarto para quando precisasse. 

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A Lua está em crescente. Eu também.  É bom saber-me bem acompanhado.

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O eixo Passeig des Born / Rambla foi repavimentado. Para Lisboa, aquilo estava em óptimas condições. A câmara municipal de Palma não tem, visível e justificadamente, a mesma opinião. Pergunto-me se não se poderia enviar os autarcas de Lisboa fazer estágios aqui. Poderiam tentar começar como varredores de rua, vulgo almeidas. Com um bocadinho de sorte talvez fossem aceites.

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Mais uma viagem de autocarro. A mascarada é obrigatória. Sinto-me um puto: mostro a máscara na mão quando entro e o chauffeur aponta imediatamente para o nariz dele (toda a gente está tansformada numa espécie de Lucky Luke das máscaras. Apontam mais depressa do que a sombra. Aqui e em todo o lado). Depois vou sentar-me ao fundo, arrumo o trapo e pronto: a minha viagem à adolescência está feita.

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Faltam dezassete dias para o meu neto Leonardo chegar a Palma com os pais. Pergunto-me quando começarei a contar os segundos.

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Chegarei a Pollença à hora a que a cliente me diz cada dia que quer sair. Até hoje, nunca saímos a essa hora. Espero que hoje aconteça o mesmo. 

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PS - A saída foi marcada para as quatro da tarde. A sorte é uma droga muito potente.