Almoço na Casa Oscar, sugestão do taxista que me trouxe. Não fiquei nem muito entusiasmado nem muito desiludido, antes pelo contrário. Tem duas vantagens: as empregadas são giras, sorridentes e eficazes; e vejo o mar, que não se cansa de me repetir «como vês, nem pensar em largar». E uma desvantagem: a comida não é exaltante. É assim-assim, nem bom nem mau. Para desempatar: não é caro.
Jantar
Não vejo a cara da senhora que está sentada na mesa à minha frente. Vejo-lhe metade das costas, esguias, finas; os braços, que parecem postos ali para suportar o conjunto, quando ela se inclina para um lado ou para o outro; o cabelo, amarrado em trança e pendurado para a frente. A camisa é larga ma non troppo e bonita. Deve ter piada, a julgar pelos risos do homem que está com ela e que só muito ocasionalmente vejo. Faz-me inevitavelmente pensar na S., quando comecei a andar com ela, num concerto do António Variações em Gouveia. Isto não se inventa, anda um gajo a lavar vidros, a trabalhar numa quinta e a limpar telhados no Jura suiço para engatar finalmente a miúda em Gouveia. Ou na outra S., parisiense de Marselha, com quem atravessei o Atlântico em mil novecentos e oitenta e cinco e só engatei em dois mil e cinco, tudo isto a precisar de afinações. Não sei bem se é o corpo dela que me atrai se a atitude, esta mistura de energia que se adivinha e agilidade e humor que se observa. (Há muitos eufemismos para sensualidade, não há?)
Vão-se embora. Não lhe vi a cara. Desculpa, Vinicius, mas a beleza só é fundamental às vezes.
Saio do restaurante - La Peña del Atún, ou coisa que o valha, outra sugestão de um taxista. Melhor que a casa Oscar mas longe do 4 Veinte ou da Tienda - e venho a pé até ao paseo marítimo. O Bar Europa está fechado e sou acolhido com os habituais sorrisos e braços abertos no Jarana. São onze da noite, a cidade está deserta, o restaurante tem uma mesa ou duas além de mim. Não conheço a Andaluzia toda, tant s'en faut, mas aquilo que conheço enche-me o coração de amor, passe a pieguice.
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Com um bocadinho de sorte largamos quarta-feira. O próximo porto será Cádiz ou Rota, se houver lugar. Daí vai ser Algarve, se Deus existir e quiser. Existir não existe, eu sei. Mas pode ser que queira. Os deuses sempre tiveram uma benevolência especial para com os marinheiros, mesmo quando não existem.
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Poderia dizer que já houve uma altura na minha vida em que este vento (agora seis Beaufort) me encheria de alegria, mas estaria a mentir. Já tive uma vida em que este vento, etc. seria a forma correcta de exprimir o que sinto. Foi noutra vida, pá. Como as S. e as costas sensuais de uma senhora a quem nem viste a cara.