14.4.26

Diário de Bordos - Lisboa, 14-04-2023

As minhas vagueações de ontem acabaram da melhor forma possível: jantar em casa da J., que é sempre uma adorável mistura de boa comida, boa cozinha, boas conversas e bons mexericos. J. conhece o mundo literário português de perto, muito perto e eu delicio-me, claro. 

Hoje - agradável simetria - começam da melhor forma: fui buscar a Coluer ao Fernando, uma loja de bicicletas em Alvalade que recomendo urbi et orbi (Fernando é o nome do dono. A loja chama-se Airaf. Fica ao lado do mercado de Alvalade) e daqui a pouco, depois desta pausa bloguística no Luanda, outro dos meus refúgios de antanho, almoço com o V. Tudo isto enquanto discuto dois trabalhos, um dos quais me interessa muito e outro menos. Não há fome que não dê em fartura.

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Desço a Almirante Reis depois de um almoço com o V. e encho-me de alegria. Vasos comunicantes. Sou cosmopolita, sou daqui e dali e de mais além. Não é o cosmopolitanismo que queremos? A pele é mais escura e os olhos menos azuis? Paciência. Ninguém manda ao sapateiro tocar rabecão. Temos os imigrantes que já fomos.

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Quel bonheur! Lisboa é um consolo. Daqui a um mês cá estarei, querida. Agora esperam-nos cinco horas de comboio. Morar na fronteira tem muitas vantagens. Mesmo podendo chamar Lisboa a uma das minhas casas.

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A viagem no comboio começa mal: não há lugares em primeira classe e caio do tamborete quando aquilo arranca. Já não há lugares nas mesas.

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No comboio.

Atravesso este pais que é o meu e pergunto-me "o que é meu, neste país?"

Nada, claro. Não me refiro a bens tangíveis. Refiro-me ao resto. Que tenho eu deste país? A língua. A história. A memória. A língua é tudo. Memórias e história partilho-as de boa vontade.

Este permanente debate entre a nacionalidade e o cosmopolitanismo aproxima-se do fim da maneira mais estranha: agora tenho uma casa e sei que ela é minha e não eu dela. (A casa é alugada, mas isso é outra história.)

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O comboio desfila pela paisagem, sem que se tenha de carregar no acelerador ou falar com o vizinho. Em contrapartida, não se pode canat «Senhor chauffeur, por favor, ponha o pé no acelerador.»
(Cont.)

13.4.26

Diário de Bordos - Lisboa, 13-04-2026

Toda a gente sabe; quem não, aprenda: a melhor maneira de percorrer Lisboa é de bicicleta; a seguir, vem a marcha. Depois vêm os outros meios de transporte todos: metro, táxi e autocarro. Por fim, finalmente, essa forma moderna do táxi que são os Uber e quejandos.

O problema destes métodos todos - insisto: todos - é que exigem uma planificação da resistência às múltiplas tentações que nos saltam ao caminho e nos assaltam os sentidos todos mai-las memórias. O viajante avisado começa por fazer a opção de base: comer sentado a uma mesa ou depenicar aqui e ali? A escolha certa é: os dois. Exige, é certo, mais atenção.  O quê e onde petiscar e almoçar? Consoante a zona da cidade aonde se está. Hoje, por exemplo, comi um pastel de massa tenra no Frutalmeidas acompanhado por dois sumos de não sei quê chegados directamente do paraíso a que se seguiram dois Piratas no Pirata (apanharam decerto o mesmo autocarro do que os sumos). Passo alguns pormenores para não empanturrar o leitor e acabo a almoçar uma gloriosa feijoada no Moisés. Algo me diz - mas não tenho a certeza de estar a ouvir bem - que daqui irei à Versailles beber um café e comer um pastel de nata. Lisboa é isto: uma maçada. Apodei a feijoada de gloriosa porque não quero usar "divino": estou em dia de monoteísmos e Deus há só um, Lisboa e mais nenhum. O Moisés sendo, naturalmente, um dos seus apóstolos, digam as escrituras o que disserem. E a Versailles. E o Frutalmeidas. E centenas de outros: Lisboa é um deus pródigo e tem centenas - se não mesmo milhares - de locais de culto. Já comprei café na Cafélia, é importante mencionar isto agora que estou à frente da casa Pérola do Chaimite, aonde durante muitos anos me forneci. Mas a Cafélia tem Maragogipe e contra factos não há argumentos. Para além de que são muito mais simpáticos do que o senhor Tavares. Mas bom, este é um argumento secundário. A simpatia só sobe a primeiro plano quando o produto não está lá, como acontece com o senhor da loja de bicicletas de Caminha.

Próxima paragem: Versailles. A vantagem de Lisboa sobre a Via Dolorosa é que esta só tem catorze estações.

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A parte feminina da clientela da Versailles - aproximadamente metade - vai bastante bem com o estabelecimento em si. Não estou com isto a chamar velhinhas às senhoras que tão generosamente enchem a casa de beleza. Longe de mim tal grosseria e sobretudo tal falsidade. Estou simplesmente a dizer que as senhoras são bonitas, elegantes, têm classe e savoir-faire. O que, reconheçamos, é uma mistura bastante agradável de qualidades.

As minhas escolhas não são exclusivas. No Moisés estava um senhor, personagem da televisão e da cultura nacionais. Pois acaba de entrar na pastelaria e está agora acompanhado por uma outra personagem da cultura, da televisão e da poesia nacionais, de resto seu colega num dos programas de televisão. Vamos ver se os outros dois membros do painel se juntam. Se o Eduardo Pitta aqui estivesse ficaria composto um belo ramalhete de personalidades da cultura.

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Saio da Versailles e retomo o meu deambular pela cidade. Parte a pé e parte de táxi chego a Campo de Ourique, aonde decido fazer uma pausa bloguística. Agora só me resta esperar pela hora de jantar e depois de ir para a cama. Amanhã vou buscar a bicicleta e vou almoçar com o V. Estar em Lisboa de férias é um encanto.

(Cont.)

Casos, acasos

Tive um caso com o acaso e quis o acaso que eu não seja de fazer caso aos meus casos. Por isso multipliquei os meus casos e os meus acasos e por acaso agora encontro-me sem casos nem acasos. Pura sorte, claro. Ninguém gosta de acasos. 

12.4.26

Diário de Bordos - Sevilha, Espanha, Vila Real de Sto. António, Portugal, 12-04-2026

Mar, Espanha, Mediterrâneo, viagem, hotéis baratos, tascas em Sevilha e restaurantes bons numa praia é uma combinação à qual é difícil resistir e da qual não nos devemos arrepender, qualquer que seja o resultado da mistura. Escrevo no bar Zafiro, uma das poucas coisas abertas perto da Plaza de Armas aonde uma senhora me virá buscar para me levar o mais perto possível de Vila Real de Santo António. A plataforma Blablacar substitui muito vantajosamente o polegar no ar à beira da estrada: agora reservam-se as boleias com antecedência. As fraudes são raras, a companhia nas viagens oscila entre o irrelevante e o seu pólo oposto, e - sobretudo - permite-nos esperar nos bares Zafiro deste mundo em vez de nas bermas das estradas deste mesmo mundo.

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Vila Real de Santo António

Resumindo:  

Caminha - Porto                                           : carro, à boleia da L.;
Porto - Sevilha                                               : avião;
Sevilha - La Herradura - Sevilha           : carro de aluguer, com dois passageiros Blablacar à ida e sozinho à vinda;
Sevilha APT - Hostal Sierpes                         : táxi;
Hostal Sierpes - Plaza de Armas                     : a pé;
Sevilha - Lepe                                                 : Carro, Blablacar;
Lepe - Ayamonte                                             : táxi;
Ayamonte - Vila Real de Santo António         : ferry;
VRSA - Lisboa                                                : comboio;
Lisboa - Caminha : comboio.

E ainda há quem prefira o avião.

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Pequena nota àparte (ou à parte, para quem como pensa que esta é a forma correcta. M. M.?) O vinho da casa do restaurante aonde almoço, em Vila Real de Santo António, é o qualquer coisa do Marvão. Não retive o nome, apesar de tudo o que for vinho e tiver Marvão no nome me interessar bastante. Para substituir o ausente, a senhora propõe-me Herdade da Bombeira. Encomendo um jarro.
- Só temos garrafas.
- E quanto custa a garrafa?
- Quinze euros... Não, espere um minuto, por favor. Doze euros e cinquenta cêntimos.

Herdade da Bombeira 2023 num restaurante a doze euros e cinquenta cêntimos? Meus caros, isto existe. Penso na maravilhosa viagem que vou fazee até Lisboa, pergunto-me como conseguirei ficar com o copo (nos comboios só há aquelas abomináveis coisas em papel), pergunto-me que espécie de milagre me trouxe a este restaurante - são dois: é dominngo e está perto da estação dos comboios - e, sobretudo, pergunto-me o que anda o nosso legislador a fazer?

Isto é. Quero dizer. Penso que um bom legislador é aquele que decide tudo , mas tudo, em vez das pessoas. Desde a eutanásia até ao vinho da casa. Ou seja: o Herdade da bombeira devia fazer parte de uma lista obrigatória de vinhos da casa. Que faz o legislador quando mais precisamos dele? Cambada de inúteis...

No meu afã de ajudar em vez de me limitar a reclamar, publicarei aqui em breve uma lista de vinhos que o legislador devia tornar obrigatórios e com preços - obviamente - controlados. Para começar:
- Todos os vinhos da Quinta dos Termos;
- Os vinhos da Adega Cooperativa de Vila Real;
- Todos os vinhos da Herdade de Balanches;
- Vinhos do Tua;
- Vinhos monocasta de Baga e de Alfrocheiro.

Espero que em breve a Assembleia da República e a cambada que lá parlapateia dê a devida atenção a estes assuntos. É para isso que lhes pagamos: para se ocuparem de nós, do nosso bem estar, das nossas seguranças física e psicológica, dos aspectos importantes da nossa vida quotidiana.

De que o vinho da casa dos restaurantes que os tesos exigentes frequentam é uma componente relevante. (Apaguei a disjuntiva entre tesos e exigentes. Nada obriga um teso a aceitar tudo o que lhe põem à frente.)

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- Que sobremesas tem?
- Isto, mousse de chocolate, aquilo, aqueloutro.
- Em que supermercado compram a mousse?
- Creio que é no Recheio. Mas é muito boa. Eu gosto.

Isto não se inventa. (A mousse mereceria um suficiente menos, na antiga métrica de classificação escolar.)

- Que medronhos tem?
- Merda e merda.
- Bolas, isso não presta para nada. Não tem mais nada?
-...
-...
- Tenho um caseiro, que comprei para mim e para o meu pai. Está em minha casa, mas vou lá buscá-lo para si.

Meus amigos, repito: isto não se inventa. Experimentem um aeroporto ou um avião, para comprovar. Experimentem outro país.  (O medronho merece um bom mais, na mesma métrica.)

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Esperar por um comboio é melhor do que esperar por um avião. Por curiosidade, numa cidade da fronteira diagonalmente oposta àquela aonde vivo. O país é o mesmo.

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(Já no comboio que me levará a Lisboa, também atrasado, não vá o incauto passageito pensar que se tratava de um acaso.)

A falta de profissionalismo deste país é exasperante e adorável. Basta ter presente a segunda parte da equação (e não tentar escrever no comboio).

(Cont.)

5.4.26

Casa, estereoscopia, passado

Estendo-me no passado como me estendo debaixo desta camada de cobertores; escorrego no passado como um patinador desajeitado na pista de gelo; mergulho no passado como um mergulhador cuja garrafa de ar comprimido está vazia; ando no passado como um cego que esqueceu a bengala em casa; e nele pedalo numa bicicleta com os pneus furados.

Por exemplo: deixei de gostar de doce de figo e de doce de tomate. Não sei porquê. Era tão feliz quando gostava desses doces... Hoje sou mais feliz? Não sei.

Por exemplo: quando cheguei a Portugal um das coisas que mais detestava era os cães vadios. Quando não eram vadios estavam amarrados. Na melhor das hipóteses a um grande arame, na pior a uma argola. Hoje não há cães vadios e os que estão amarrados é ao colo dos donos ou, na melhor das hipóteses, a uma trela. São mais felizes? Não sei.

4.4.26

Diário de Bordos - Vilarelho, Caminha, Alto Minho, Portugal, 04-04-2026

Mexo e remexo as fotografias. Não é sequer como baralhar e dar de novo porque as baralho - nada de rimas, por favor - e não as dou de novo, ficam aonde estavam com uma ordem ligeiramente diferente. Não sei o que fazer daquilo, é o que é. Algumas são boas, ao contrário do que sempre pensei. Talvez efeito Vivian Maier, vá lá saber-se.

Não é verdade. Algumas, uma minoria de uma minoria, sempre soube que são boas. O que nunca soube bem é definir boas. Para quê? Para quem? Porquê? Quais? As do trampolim do Locle, por exemplo; as do patinador em Plainpalais; as do Krüger; muitos dos retratos; não teria de me envergonhar delas se as mostrasse. 

Comecei a publicar o blogue no dia em que decidi que pior do que os outros não seria. Ao fim de um ano ou dois tive a primeira proposta para o publicar em livro. Declinei, com uma desculpa mais desculpa do que justa. Por burrice? Por modéstia? Aposto mais na primeira: hoje vou na terceira compilação de posts e não pararei enquanto não chegar ao fim.

Na fotografia não foi assim. Primeiro, houve a história da galeria Nikon de Zurique, que me seleccionou seis diapositivos (de entre vinte, eles mesmo já seleccionados de entre algumas centenas) para uma exposição que teria lugar em breve. Infelizmente, arranjei maneira de os perder. Simplifico: na verdade, alguém os perdeu por mim. Depois houve o tipo da galeria já não sei aonde, creio que Nyon, talvez Genebra: «Reconheço um certo trabalho sobre a luz, mas não tem qualidade para uma exposição.» Aceitei sem mais.

É preciso dizer que a minha relação com a fotografia tem sido uma de amor e desamor permanentes, ambos. E que não me apetece falar dela. Gostaria simplesmente de ser um bocadinho menos como eu e um bocadinho mais como os outros. Lá chegarei, um dia: estaremos todos enterrados e não há maior similitude do que essa.

Suponho.

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A casa não é vasta mas é basta. Depende, claro: é vasta quando tenho que a limpar, como hoje fiz (parcialmente. O resto fica para o ano.) Quando não tenho de a limpar é pequena. E basta é mas não sei de quê nem porquê. Talvez porque me sinto bem nela, na música que nela oiço, nas imagens que já estão nas paredes e nas que ainda faltam, nas refeições, no vinho, na bicicleta na garagem, nos móveis de que a maioria me vem da minha Mãe - a decoração da casa não era uma área na qual o meu Pai se imiscuísse muito, com a possível excepção dos objectos náuticos -, nos livros que todos os dias vejo e todos os dias me dão vontade de pegar neles. (Só vontade. Nagumas coisas sou Schopenaueriano. Nas outras não sou porque não o conheço o suficiente.)

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«Um preto e uma mulher em missão à Lua», leio num sítio qualquer. Não consigo perceber a diferença entre um preto, uma mulher e uma pessoa. Acresce que a citação não é verbatim, claro A modernidade criou a diferença entre pretos e pessoas e apagou a palavra preto do léxico. Não percebo em que é que ficámos melhor. Nós e eles, pretos. 

Poucas coisas me permitem passar o abismo que me separa da actualidade: a navegação por satélite, o telefone portátil...

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Pastelaria Riviera: aqui não estou no Paris Texas mas sim num filme do Claude Chabrol. 

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Nesta última travessia tive um problema médico a bordo. Estava a três dias do porto mais próximo. Foi a conjugação do satélite e do telefone (obrigado, Elon) que me permitiu resolver a situação. Resolver é um exagero: hoje sei que a senhora não morreria do que sofria. Mas teria sofrido consideravelmente mais e eu também. Passei um dia a pensar que ia chegar a terra com um cadáver a bordo. Quando soube que não, o alívio foi considerável.

No fundo, o Starlink é a versão moderna da rádio de ondas curtas. É simplesmente mais eficaz e não serei eu, doravante, quem lhe vai negar a utilidade.

3.4.26

Quinta-feira, clientela

Noite de quinta-feira véspera de feriado. O bar está cheio mas a clientela não é muito variada: metade tem cara de arquitecto e a outra metade de cliente de arquitecto.

Impromptu ferroviário

Um pequeno imprevisto não previsto, passe o pleonasmo involuntário, claro, como tudo o que por aqui passa, passe a mentirita, um pequeno imprevisto, dizia, fez-me regressar a Caminha de comboio em vez de ir de carro como estava previsto antes do imprevisto. Tive uma vez mais direito aos habituais atrasos dos comboios da CP, que devia acrescentar um A ao nome e à proverbial simpatia do seu pessoal, que merece uma medalha. De caminho e como tinha quase uma hora de espera fui jantar a um restaurante indiano perto da estação (da Campanhã, a quem possa interessar) que bem poderia acrescentar um H ao nome. Ando com azar aos restaurantes, se bem o de ontem ainda não mereça o tal H. Uma andorinha não faz a Primavera e uma refeição merdosa não faz de um restaurante um local intragável, tanto mais que a primeira vez que lá comi não foi mau de todo. Foi só assim-assim, nem bom nem mau antes pelo contrário. Já o lamb madras de hoje estava péssimo, aquilo parecia mais molho de tomate do que outra coisa mas pronto, não faz mal, a verdade é que não esperava muito mais. De maneira aqui vou no intercidades atrasado, em primeira classe apesar de ter bilhete de segunda. O senhor revisor, quando lhe fui perguntar se podia mudar o bilhete disse-me «sente-se ali e não se preocupe» e obedeci-lhe em tudo: sentei-me e não me preocupo. A carruagem está um bocadinho fria, é certo, mas não sou eu quem vai reclamar, não reclamo de nada, aliás, sou um rapazinho obediente e já li o Cândido e sei que vivo no melhor dos mundos possíveis e portanto é uma sorte não estar ainda mais frio ou o atraso não ser ainda maior. Tanto mais que a espera passou bem, estou sem bateria no telefone mas tenho o tablet e no restaurante pude ler as notícias e aqui posso escrever apesar de o wifi não estar a funcionar, coisa que não me impede de todo de agradecer publicamente à CP e ao seu pessoal que é de uma simpatia estratosférica. Além disso tenho o blusão de cabedal (de carneiro) que comprei em Gibraltar a preço de saldo e portanto posso fazer jus à sentença do armador norueguês com quem naveguei de la Corunha a Copenhague: «Não existe "tenho frio". Existe "não estou suficientemente vestido"». O comboio leva-me velozmente e fende a noite escura como se esta fosse manteiga e ele (comboio) uma faca quente e eu começo a pensar que sem telefone não poderei chamar um táxi em Caminha e lá terei de fazer apelo à minha proverbial capacidade de me desenrascar de qualquer imprevisto por menos previsto que seja. Ou seja: terei de ir primeiro a um sítio qualquer que esteja aberto e tenha um carregador e um cabo USB-C e me deixe pôr o telefone a carregar um momento e daí chamar o táxi e tentar não pensar «porra!, só quero é estar em casa» que é aonde realmente queria estar agora, quanto mais daqui a não sei quanto tempo porque não sei a que horas chegarei a Caminha porque sem wifi não tenho acesso aos horários da CP e o simpático revisor ainda não veio para estas bandas. Está quase, vejo agora, vejo-o a chegar. Isto dos relatos em tempo real é outra coisa, não é? É, se bem ainda esteja à espera de que alguém me explique o que é o tempo irreal, mas isso fica para depois, tanto mais que o senhor revisor manteve a sua palavra e me disse «deixe estar» quando lhe mencionei a troca do bilhete. Isto faz-me pensar na TAP, que anda sempre atrasada e tem o melhor pessoal de cabine do mundo e arredores. Bom, tudo isto para dizer que hoje fui finalmente almoçar ao restaurante O Antunes e lá comi um excelente cozido à portuguesa em excelente companhia pré-imprevisto. Percorri de novo a zona entre a Cedofeita e o Bolhão, a única que conheço no Porto, pude uma vez mais asseverar a honestidade de um senhor a quem há anos paguei uma certa soma de dinheiro por uma peça que nunca mais fui buscar e que hoje me disse «o seu crédito continua válido», a citação não é verbatim mas o sentido é esse e estava o dia quente e eu feliz como sempre que o calor me harmoniza com o mundo, a vida e as ruas de uma cidade de que gosto muito, cheias de jovens, revoadas deles, rapazes e raparigas alegres, a alegria deles ecoa pelos prédios fora, tão velhinhos que eles são.
 
É isto o Porto, meus amigos: juventude, honestidade e boa comida. E é isto uma viagem de comboio: conforto e simpatia pela noite fora.

……..
A ida ao Porto tinha dois motivos e um deles era ver a exposição de Vivian Maier e tenho muitas coisas a dizer dela, refiro-me à exposição, mas agora só tenho uma: vinde. Vinde, estejais aonde estejais, vinde ao Centro Português de Fotografia, aquilo fica até Agosto, não perdais uma exposição que vos leva ao âmago da fotografia enquanto arte, da arte fotográfica, de tudo aquilo que a fotografia representa mas que agora é difícil de descrever porque por um lado ainda esta muito quente e por outro os solavancos destes comboios não ajudam – isto está longe de ser uma reclamação –, é preciso escrever cada palavra duas vezes. Quase. Imaginem agora o trabalhão que este texto me deu até aqui, já passa das novecentas palavras (escrevo no Word...)

........
Já o resto da viagem decorreu como o previsto, o único imprevisto sendo que o T. T. estava na estação à espera da mulher e deu-me boleia até à rua Direita. Ali, no bar Norte, carreguei o telefone, bebi um par de cervejas, chamei um táxi e esperei mais de meia hora por ele porque Caminha não é Manhattan e o senhor estava não percebi bem aonde e isto não é Manhattan nem nada que se pareça; a chegada a casa também foi como previra e pronto, agora sim, o dia acaba, coisa mais do que prevista: acaba um dia, começa outro, acaba um imprevisto e não tarda haverá outro, eu sei. Ou pelo menos espero, que isto de vidas nos carris não é para mim nem eu para elas, talvez infelizmente, sei lá.

2.4.26

Três efes confusos

Há uma confusão entre forma, fundo e função... Partilham algo mais do que a inicial? O Jaguar E-type é o carro mais bonito jamais feito,  mas é o "melhor"? (Aspas porque não sei o que é o melhor automóvel.  Nem o pior, de resto. Percebo pouco de automóveis.) E uma cara bonita e inteligente é mais completa do que a mesma mas burra? Qual é a função de uma cara, para além de servir de metonímia neste post? O que é o fundo de uma cara bonita (ditto)? E a função?

É um "textículo" sem fundo, sem forma e sem função, menos engraçado do que a casa sem paredes.

(Cont.)

1.4.26

Diário de Bordos - Vilarelho, Caminha, Alto Minho, Portugal, 01-04-2026

O termómetro do carro diz que estão sete graus centígrados; para a página da meteorologia, estão doze; para mim, está frio. demasiado frio. Desta vez não tive a sorte de principiante da outra e tenho uma dúzia de pessoas à minha frente na fila para o centro de saúde. Cá fora, claro, que isto de esperar num sítio aquecido não é para tesos.

........
Na Riviera testo as canetas. Um parágrafo cada. Só uma está vazia.

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O meu próximo livro, que em breve será publicado (dependendo do que cada um entende por breve) chama-se Não Sei e «é dedicado a todas as mulheres que me deixaram». Acrescento: «não liguem ao título. Eu sei porquê». É fácil: não sou miscível. Não sou compatível, por assim dizer. Nem eu nem a minha vida, se fossem duas coisas diferentes. Não são.

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Estou cansado, com frio, com sono, com ou sem não sei o quê. O almoço foi horrível. Quase duas horas de espera para comer uns mexilhões que só não estavam uma merda porque eram poucos. Duas porções faziam metade de uma deles na Flandres. Felizmente estavam maus e não sentimos a frugalidade da dose.

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A noite foi curta devido à conjunção de uma entrevista para a Rádio Voz de Alenquer, de madrugada e da necessidade de ir cedo para conseguir uma consulta médica. Depois do almoço fui deitar-me, acordei à hora de jantar e vim ao Diner, o único sítio de Caminha que se coaduna com o meu estado de espírito. Faz-me sentir que acabo de sair do Paris Texas. E com a minha vontade de não-jantar, depois do não-almoço.

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Como um arquitecto que desenhasse os planos da casa depois de esta construída... 

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A seguir à ponte de Cerveira para Espanha, já do lado espanhol, há uma placa a dizer «Bajo Miño». O chão de um homem é o tecto do outro. Até na geografia.

Explicação

Escrevo de dentro para fora e fotografo de fora para dentro.

30.3.26

Misturas, pessoas, o que somos e não seríamos, sem elas

Não sei se já vos aconteceu. Provavelmente já. Passarem por um sítio e pensarem "de toute façon on s'en fout. On est pas d'ici. Demain on s'en va." E depois vão-se embora, sim.

Só que o sítio não se vai embora de vocês. Não sai, por assim dizer. Não vos larga. De repente, descobrem que afinal não se estão nas tintas, muito longe disso. O sítio embrenhou-se por vocês adentro e vocês por ele e com o tempo, em vez de se decantarem e separarem, o sítio e vocês ficaram um. O lugar persegue-vos. A luz, uma rua, uma esquina, um café ou um restaurante, uma furtiva troca de olhares no mercado, uma conversa com um desconhecido no autocarro.

Aconteceu-me várias vezes. Poderia fazer uma lista enorme de lugares assim, do menos como Klintholm na Dinamarca - aonde fiquei talvez três dias - a Palma, aonde vivi seis anos, passando por S. Luís, no Maranhão. Tantos outros...

Agora façam um exercício e substituam sítio por mulher (no meu caso. A cada qual as suas preferências). Primeiro: o número reduz-se. Não é uma questão de quantidades relativas. Pouco importa se já passaste por mais mulheres do que lugares ou vice-versa. É que as pessoas (ditto) têm uma maneira diferente de se embrenhar em nós. Cada mulher foi um porto para mim, escrevi um dia para justificar o facto singelo de não ter tido uma mulher em cada porto. Não tive. Mas algumas mulheres foram mais do que um porto para mim. Para começar, porque não o foram: são-no. Ainda são. Serão sempre, enquanto sempre existir. Mas o pior, por assim dizer, é que não o serão para sempre: foram-no desde sempre, desde mesmo antes de as conhecermos, como se estivessem ali à nossa espera e nós tivéssemos nascido para um dia nos acolhermos nelas e elas em nós. Não é caso de se dizer «vivi para te conhecer». É: «vivo porque te conheci e amei e fui amado por ti.» (Tudo isto com os verbos no presente do indicativo: vivo... e amo... e sou...) 

Poder-se-ia, claro, aplicar o mesmo dispositivo de raciocínio aos livros e aos seus autores: penso em Borges, em Beckett, em Marguerite Yourcenar, penso na insubstituível poesia de Alejandra Pizarnik, em Conrad ou em Jack London, no fundamental Robert Pirsig. No fundo, é isto que somos? Sim. Não. É isto que trazemos em nós e nos faz: uma mistura de lugares, pessoas e livros.

Destas misturas, o que sobressai não é um porto ou um livro. É uma pessoa. Borges resumiu-o com a sua habitual maestria num poema chamado El enamorado, que termina assim: «Sólo tú eres, tu, mi desventura / y mi ventura, inagotable y pura

29.3.26

Diário de Bordos - Vilarelho, Caminha, Alto Minho, 29-03-2026

«Não magoes o alho!» Penso nesta injunção cada vez que cozinho, use ou não o que o bacalhau quer. A história foi-me contada pelo E. K., que conheci em Palma e é daquelas pessoas de quem lamento ter deixado a geografia separar-nos. O rapaz trabalhava em Bali num restaurante e a dona, uma senhora local já com uma certa idade (vendo a história ao preço a que o E. ma contou, ao qual acrescem as tarifas da memória)  viu-o e gritou «Não magoes o alho!» Não tenho mais pormenores: não sei como é que o E. estava a magoar aquilo nem como se é suposto fazê-lo para o evitar. Eu adaptei à minha maneira e tento tratar o alho o mais suavemente possível. Como de resto tudo o que me rodeia: «não magoes», digo a mim mesmo, sabendo que bastas vezes falho e que algumas dessas vezes o faço propositadamente porque não sou um santo (sou muitos mas só no apelido).

De maneira hoje não magoei o alho que pus na açorda que fiz para dar cabo do resto do pão, continuo a detestar deitar comida fora (mas ainda ainda não aprendi a fazer comida só para uma pessoa, o meu congelador todos os dias me diz que o estou a magoar de tanto o empanturrar e hoje tive de tirar a sopa do B., não gosto daquilo mas ele dá-me um monte dela constantemente e eu não sou capaz de deitar fora). Uma vida cheia de arrelias, como se pode ver. Mitigo-as, é certo: vinho da Quinta dos Termos, que se houver um céu para produtores de vinho e se nele houver justiça tem lá lugar reservado, à direita de Deus-Pai-dos-Vinhos. A música desceu um bocadinho na qualidade: passou dos Magnetic Fields para os Pink Floyd e este disco deles é uma merda, diga-se de passagem mas não tarde acaba e de qualquer forma vou ter de me levantar para reencher o copo, maldito frio, que não pára, maldito copo.

Ou seja: assim se faz  um domingo ou pelo menos a primeira parte dele: acho uma idiotice a mudança da hora mas esta da Primavera tem pelo menos a vantagem de me encurtar as manhãs, coisa que às vezes me apetece muito e outras nada. 

.........
Encontrei a minha prima A. S. D. no solar do Moinho de Vento, no Porto. Isto nada teria de extraordinário - O Solar é um dos meus restaurantes favoritos no Porto - se não estivesse concatenado numa cadeia de acasos que é demasiado longa para desencadear aqui. Basta dizer que gostei muito de a ver e gostaria que o próximo encontro fosse daqui a menos de vinte anos.

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Batalha em curso: fazer-me aceitar pela terra (terra em sentido lato. Talvez a devesse grafar em caixa alta, mas aí aparecer-me-iam os adoradores de Gaia e outras tretas. Fica terra no sentido em que os marinheiros lhe dão: vou à terra, estejam em que porto estiverem. Vou à terra. É bonito. Não dizem «vou a terra.» Dizem «Vou à terra», como se fosse a única ou a última ou como se fossem todas iguais, a terra de onde eles vêm e esta aonde agora estão.)

Vá lá. Tenho a Hildegarde a cantar para mim. Só me falta a segunda sinfonia de Mahler. Sou contra a pena de morte salvo algumas excepções. Uma dessas é para quem rouba CD. Outra bem merecida é para quem põe vírgulas entre o sujeito e o predicado de uma frase. Quem usa «colocar» em vez de «pôr» também deve ser incluído no grupo. Hifenizar verbos de uma forma errónea era um dos pilares dessas excepções até que recentemente vi uma senhora por quem nutro a maior das admirações incorrer nessa desgraça (admiração intelectual, preciso; estética também, mas como nunca a vi pessoalmente e devo basear-me nas imagens do FB esta componente da minha admiração é reduzida). Foi imediatamente despromovida (a desgraça, não a senhora. Agora merece um simples suspiro de desalento).