É a história breve de um gajo que um dia quis abrir um bar de alterne chamado Cona Mágica. O registo recusou, claro. O homem registou o nome Dona Mágica e fez um logo escrito em caixa baixa, fonte manuscrita com a haste do d quase invisível.
7.9.26
3.9.26
«On est tous le con de quelqu'un et tant pis pour lui»
De que o Ocidente está a entrar numa fase de estupidez colectiva restam poucas dúvidas. Ele é o «amor» pelos animais, coitadinhos (aspas porque se isto é amor eu sou a mulher do Papa. O amor não é - ou não deve ser - obsessivo, simbiótico, irracional e sobretudo maléfico: vejam as pessoas que andam com cãezinhos ao colo ou em carrinhos de bebé para animais); ele é o pânico com o «CO2» (aspas porque é irónico. Se tivesse escrito «Maligno» seria a mesma coisa); ele é a «indignação» (ditto); e por aí fora.
Acontece que eu não acredito que toda a gente esteja a ficar estúpida ao mesmo tempo. O QI é uma média e a distribuição em torno do cem é uma curva de Gauss perfeita. Ou seja: só uma parte desta mudança deve ser atribuída à estupidez. A outra é certamente devida a movimentos tectónicos das placas culturais. Ao contrário do que nos ensinam na escola primária o Homem (colectivamente, claro) não é um animal racional. É um animal de mitos e símbolos que pontualmente escorrega para a racionalidade.
Agora apareceu uma sub-espécie dos amigos dos animais: pensam que o mar é das orcas, não é nosso. Elas têm todo o direito de nos atacar porque nós é que estamos a invadir o território delas. Esta tese é tão mentecapta, tão idiota, tão indigente, tão imbecilóide que não vale sequer a pena perder tempo a desmontá-la. Normalmente limito-me a explicar a quem a defende que desejo que as aves não adoptem o mesmo comportamente da próxima vez que eles apanharem um avião.
Tenho de fazer um mea culpa, mea maxima culpa: intervenho por vezes para defender a ideia - que defendo - de que mais tarde ou mais cedo vai ser necessário matar uma orca ou duas (ou três) por puro divertimento. Gosto muito de ler as respostas - normalmente insultos - de pessoas que têm um QI igual ao dos ditos bichos, coitados. Em geral tratam-me de imbecil. Eu concordo. «Somos todos o imbecil de alguém», como disse um senhor chamado Jean Dion, québécois e jornalista (do tempo em que ainda os havia). «Azar o dele.»
2.9.26
It's far too late
É um casal jovem que cruzo numa dessas ruas pedestres de Lagos, igual a dois milhões de outras ruas pedestres em qualquer buraco de turistas. Devem andar os dois pelos vinte e poucos. Beijam-se com força, quase violência. Se fosse uma banda desenhada teriam coraçõezinhos a saltar-lhes dos corpos. Penso que é normal, estão na idade do acasalamento. Já eu estou na idade do desacasalamento, continuo. E daí pergunto-me "seria possível desamar as mulheres que amei?" Amei no sentido directo do termo, não no outro. Não sei. Não teria muito interesse, de qualquer forma. A primeira senhora que me vem à mente é uma portuguesa que vive no centro do país e me fez substituir - para sempre? - o nome da estação daquela cidade pelo nome dela. Passo por ali frequentemente, nas minhas andanças entre o norte e o Lisboa e vice-versa. Depois vou andando para trás no tempo. Não são muitas, nem a meia-dúzia chegam mas interrompo o exercício por falta de interesse. É demasiado tarde e de qualquer forma já cá não estão. Cá sendo o mundo aonde vivo, desacasalado, desapaixonado, desenamorado, a viver de memórias desencadeadas por dá cá aquela boca. Elas lá andam, pelo mundo delas. Algumas já me terão esquecido, outras desejarão talvez nem me terem conhecido. E eu, lembro-me de todas?
29.8.26
Tristezas, magrezas
A rapariga é magra, esquelética e trouxe-me à memória uma mini-aventura que tive uma vez já não me lembro bem aonde. Creio que foi em Ponta Delgada. A senhora também era muito magra. Estava noutro barco. Era francesa, disso tenho a certeza. Não recordo as circunstâncias. Só me lembro de que decidimos passar a primeira noite num hotel e quando chegámos ao quarto ela disse-me:
- Sabes, nós, as magras, somos boas para sair e péssimas para voltar para casa. - (Isto tudo em francês, daí recordar-me da nacionalidade dela: on est bien pour sortir mais pas bien du tout pour rentrer.) Enterneceu-me muito, a tristeza com que me disse aquilo. Passámos dois ou três dias juntos, até um de nós largar para outro sítio qualquer. E continuámos no hotel. Eu tinha um tripulante, ela uma tripulação e achámos os dois que há penas que não são de exportar, que ficam melhor entre duas pessoas que sabem de tristezas.
26.8.26
Diário de Bordos - Lisboa, 26-08-2026
24.8.26
Definição: cozinhar
Cozinhar é a arte de transformar uma série de operações químicas em alquimia (quando o resultado é bom. Quando não: ficaram na área da química).
23.8.26
Retratos
Eram duas irmãs. Mais do que beleza, os seus rostos mostravam carácter, temperamento, raça, força - e essa série de qualidades transformava-se em beleza, movimento circular que prova a ausência de fronteiras entre o interior e o exterior.
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-08-2026
Ou seja: o programa está cumprido. Basta trocar a leitura por uma BA. O Enco é um café muito agradável e eu recomendo-o.
22.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 22-08-2026
21.8.26
Sortante, entrante
20.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 20-08-2026
Hoje fui à Bottega Bolognese comer uma carbonara. (Lembrete: a melhor que já comi fora da Itália e uma das melhores se incluir as italianas - a de Cannigione não me sairá da memória até morrer.) A Silvia contou-me esta história, que eu acho magnífica, daquelas que nem a imaginação delirante do Valério Romão ou do Pynchon conseguiriam inventar: duas alemoas, turistas, pedem um copo de pinot grigio e um de chianti. A Silvia serve-lhes os copos e uma delas pergunta: qual é o pinot grigio e qual é o chianti?
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Não sei se por causa da vitamina B12, se devido ao magnésio se - quanto a mim o mais provável - à quantidade de água que estou a beber diariamente, ando ligeiramente menos cansado e a minha capacidade de concentração aumentou. Pouco mas melhorou. Já consigo ler três ou quatro páginas do Padura - escritor que lamento só agora ter conhecido. O Pynchon também avança. O problema que tenho com a história do Trotsky é que me é difícil absorver notícias tristes. A ver se a água e ou as pílulas ajudam. Ou a fruta: todos os dias como metade do meu peso em melancia, melão, figos, pêssegos, ameixas e paraguaios. Ah, hoje comprei uvas moscatel.
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Fiz um tzatziki. Amanhã saberei como ficou. A novidade sendo que é preciso mais pepino do que até agora pensava. A receita sobre a qual por acaso caí e me motivou dizia "na verdade, é preciso ver o tzatziki como uma salada de pepino envolta em iogurte grego e não este com pepino". Pimenta Tellicherry com um toque de pimenta fumada e sal de cocó, claro. Aneto, menta, azeite, vinagre. O iogurte "grego" não é grande coisa mas é o que há. Qualquer dia encontrá-lo-ei sem aspas.
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Está a chover. O badanal previsto para hoje e amanhã limitou-se ao lado oeste da ilha.
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Hoje a Btwin levou-me a passear pelas ruas estreitas, sinuosas e frescas de Calatrava, um bairro que estranhamente sobrevive à ganância turística. Não creio que a sobrevivência se prolongue por muito mais tempo.