Não sei se já vos aconteceu. Provavelmente já. Passarem por um sítio e pensarem "de toute façon on s'en fout. On est pas d'ici. Demain on s'en va." E depois vão-se embora, sim.
Só que o sítio não se vai embora de vocês. Não sai, por assim dizer. Não vos larga. De repente, descobrem que afinal não se estão nas tintas, muito longe disso. O sítio embrenhou-se por vocês adentro e vocês por ele e com o tempo, em vez de se decantarem e separarem, o sítio e vocês ficaram um. O lugar persegue-vos. A luz, uma rua, uma esquina, um café ou um restaurante, uma furtiva troca de olhares no mercado, uma conversa com um desconhecido no autocarro.
Aconteceu-me várias vezes. Poderia fazer uma lista enorme de lugares assim, do menos como Klintholm na Dinamarca - aonde fiquei talvez três dias - a Palma, aonde vivi seis anos, passando por S. Luís, no Maranhão. Tantos outros...
Agora façam um exercício e substituam sítio por mulher (no meu caso. A cada qual as suas preferências). Primeiro: o número reduz-se. Não é uma questão de quantidades relativas. Pouco importa se já passaste por mais mulheres do que lugares ou vice-versa. É que as pessoas (ditto) têm uma maneira diferente de se embrenhar em nós. Cada mulher foi um porto para mim, escrevi um dia para justificar o facto singelo de não ter tido uma mulher em cada porto. Não tive. Mas algumas mulheres foram mais do que um porto para mim. Para começar, porque não o foram: são-no. Ainda são. Serão sempre, enquanto sempre existir. Mas o pior, por assim dizer, é que não o serão para sempre: foram-no desde sempre, desde mesmo antes de as conhecermos, como se estivessem ali à nossa espera e nós tivéssemos nascido para um dia nos acolhermos nelas e elas em nós. Não é caso de se dizer «vivi para te conhecer». É: «vivo porque te conheci e amei e fui amado por ti.» (Tudo isto com os verbos no presente do indicativo: vivo... e amo... e sou...)
Poder-se-ia, claro, aplicar o mesmo dispositivo de raciocínio aos livros e aos seus autores: penso em Borges, em Beckett, em Marguerite Yourcenar, penso na insubstituível poesia de Alejandra Pizarnik, em Conrad ou em Jack London, no fundamental Robert Pirsig. No fundo, é isto que somos? Sim. Não. É isto que trazemos em nós e nos faz: uma mistura de lugares, pessoas e livros.
Destas misturas, o que sobressai não é um porto ou um livro. É uma pessoa. Borges resumiu-o com a sua habitual maestria num poema chamado El enamorado, que termina assim: «Sólo tú eres, tu, mi desventura / y mi ventura, inagotable y pura.»