O comboio acaba de sair de Coimbra e já vai com meia-hora de atraso. Na casa de banho o autoclismo funciona mas o secador das mãos não e não há sabão. O revisor é smável, o ar condicionado funciona, la fora o dia está bonito e as costas não deixam de me doer. Parece um dia igual aos outros e se não fossem as dores sê-lo-ia. Não consegui fazer o IRM porque as dores eram demasiado fortes e foi-me impossível ficar imóvel o tempo todo que aquilo requer. Cada vez me convenço mais de que esta época vai pelo cano e nos intervalos da dor procuro maneiras de sobreviver. Seria preciso começar por fazer uma lista de tudo o que sei fazer e é monetizável mas depressa chego à conclusão de que o problema é sobretudo não saber vender-me. Situação frequente no meio artístico. O fim dos mecenas foi a maior tragédia da idade moderna. Algum mecenas pagaria a um tipo para prender uma banana a uma parede com fita isoladora? Creio que não. Pode sempre argumentar-se que o palerma que comprou aquilo é um benfeitor da arte e que comprou para sjudar o artista. Não creio mas enfim, é uma hipótese. Amanhã vou colar uma das minhas caixas de fotografias à vassoura, ver se alguém relaciona aquilo com bruxas ou com a necessidade de varrer a minha sala, na qual só estou de passagem. Já estou nas margens do Tejo. O comboio acelerou. Os livros também poderiam ser trocados por dinheiro, mas na trilogia dos f já esgotei friends e família. Preciso de encontrar tontos mas no que toca a pagar para ler (ou pelo menos para comprar livros) eles não abundam. Preferem ver televisão, que sempre é mais barato. Se calhar não são assim tão tontos.
Um gajo pode reclamar contra uma série de coisas nos comboios da CP mas de una coisa deve orgulhar-se: dizem para se ter cuidado com o espaço entre o cais e o comboio. Se isto não é civilizado não sei o que é. E até o dizem em inglês e tudo.
Só me falta encontrar uma fórmula assim. Compre os livros e as fotografias do Luís Serpa e nunca mais terá dores nas costas. (Falta saber quem não terá as tais dores.)