Pelas praias por onde a vontade se espraia, com o mar à vista mas fora do alcance da vontade, a galope, a galope num cavalo estropiado, a vontade pergunta-se:
- Para que sirvo?
- Para nada -, respondem em uníssono a praia, o cavalo e o mar.
Pelas praias por onde a vontade se espraia, com o mar à vista mas fora do alcance da vontade, a galope, a galope num cavalo estropiado, a vontade pergunta-se:
- Para que sirvo?
- Para nada -, respondem em uníssono a praia, o cavalo e o mar.
A luta é desigual. Acabo de aprender uma palavra que entra directamente para o léxico pessoal, sem um minuto de pausa, tão adequada parece: policrise. Pelo menos à primeira vista. De um lado, temos dores que agora sei serem provenientes da coluna. A anca saiu do filme. Do outro temos a indústria farmacêutica, os cuidados da L. e o repouso, juntos. De um ponto de vista sintomático a coligação está a ganhar, claramente. Do ponto de vista da patologia propriamente dita já a coisa levanta mais dúvidas.
Como justificar esse novo termo? Todos os dias tenho de recusar propostas de trabalho, o que me provoca uma crise de angústia financeira. Duas crises simultâneas justificam o prefixo poli. Mas há uma terceira: a da paciência que se esvai pelo ralo, aspirada por uma bomba de sucção hiperpotente. De vez em quando penso que esta última é a pior mas depois sobe-me o realismo à cabeça e ela volta directamente para o seu lugar na lista, o último. Ou talvez não. Estar em terra em vez de no mar vem muito antes da falta de paciência.
Ou seja: talvez no fundo isto não passe de uma monocrise com várias ramificações, uma heroína: a L., que tem mais paciência para mim do que eu. E a ajuda de tanta gente que não tarda terei uma crise de gratidão: como agradecer tanto a tantas (são todas senhoras, por coincidência)?
Lisboa, luminosa Lisboa, clara como o amor que tenho por ti, mesmo que esse amor hoje esteja ferido e seja partilhado. Não és a única. Nunca foste, na verdade. Mas que linda estás, que clara, límpida, nesta manhã em que te deixo, ainda magoado, ainda ferido, ainda nesta mistura de felicidade e melancolia que têm sido os últimos... os últimos quantos? Cinquenta, sessenta anos? Meses? Semanas? Não sei e pouco me importa. Encho os olhos com esta tua luz que só me fala de alegria, da sorte que tenho em ter-te na minha vida, por muito mutilada que esta agora ande.
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A guerra entre as dores (no plural) e a indústria farmacêutica está a ser ganha por esta última. Não sei se sao tréguas, se é o resultado de estar sentado há três horas - andei do meu lugar até ao bar, pouco mais de trinta ou quanrenta metros - mas seja o que for a tonelada de comprimidos que tomo diariamente é a causa principal, não tenho dúvidas. Ã vitória ainda não é clara, definitiva, mas estou no bom caminho. Ou eu ou o meu optimismo indestrutível.
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A felicidade tem graus? Tem, claro. Esses graus podem é ter nomes diferentes, talvez. A verdade é que três horas sentado e mais possibilidades de trabalho quando esta guerra acabar deram um empurrão ao meu estado de espírito, que está agora muito mais perto do júbilo do que estava quando entrei no comboio em Lisboa.
Ou então é a proximidade do meu outro amor, vã lá saber-se.
(Cont.)
Para Benjamin Franklin, "tempo é dinheiro". Para o SNS - e, sejamos justos, todos os sistemas semelhantes, seja aonde forem - também. Mas numa relação inversa: ou tens dinheiro e vais à parte privada do SNS ou tens tempo e vais ao sector público.
Porquê? Porque mais importante do que curar doentes é não dar dinheiro a ganhar a privados. O esquema falha parcialmente: os privados continuam a ganhar dinheiro; e acerta parcialmente: os tesos continuam a esperar eternidades para serem tratados.
Parece-me justo: ninguém os manda ser pobres. Bastaria quererem e seriam ricos, como os privados.
A dor - sobretudo esta dor crónica, estrutural - torna-se um englobante. Tudo gira em torno dela. É um buraco negro: até absorve o tempo, que deixa de existir. Sei o que vou fazer daqui a duas horas: ir ao médico. Depois disso? Mistério. Já nem Lisboa me encanta: a dor transforma em obstáculo e inconveniente tudo o que toca. «On n'oublie rien. On s'habitue, c'est tout» não se aplica à dor.
Contrariamente ao que eu pensava (ou desejava, a diferença é por vezes difícil de estabelecer) - e tal como me tinham sugerido - continuo sem saber o que tenho. Dei um pequeno passo em frente: sei o que não tenho. As dores vêm exclusivamente da coluna;
b) O m]edico do Hospital de Cascais não pode pedir uma IRM porque o hospital não tem máquina para tal e só podem pedir exames que possam ser efectuados internamente;
c) Referenciou-me para outro ortopedista (creio) com um nível de prioridade «normal»: aparentemente esse médico está com um prazo de espera «bastante alargado» (aspas porque cito a funcionária do balcão encarregada de marcar a consulta) e de nada serve marcar «urgência» na referenciação.
Estou um pouco desorientado. Como toda a gente já passei pela fase estóica, «um homem não chora», «nada de pieguices», «não sejas mariquinhas-pé-de-salsa», etc. mas pergunto-me se com a idade o estoicismo não desbota, como jeans já muitas vezes lavadas. O que me mantém é uma velha máxima marinheira: never let go. Quanto tempo mais me aguentará não sei. Sei que esta mistura de dores, medicação a quilo e impossibilidade de trabalhar está a exigir muito de mim. E sei que ficaria muito grato a quem conseguisse abreviar esta situação.
Reinício Fisiológico dos Pulmões: O cérebro possui neurônios no tronco cerebral ("botões dos suspiros") que detectam quando os alvéolos pulmonares colapsam ou a troca de oxigênio/dióxido de carbono fica comprometida. O suspiro é um reflexo automático que reinfla os alvéolos, permitindo a entrada de dobro do volume de ar necessário, garantindo a sobrevivência celular independentemente da presença de outras pessoas.
Comunicação Instintiva (Mesmo em Solidão): Embora o suspiro seja uma forma de comunicação social para pedir apoio, o hábito é profundamente enraizado no instinto humano. O corpo executa esse padrão respiratório para buscar homeostase (equilíbrio psicológico e físico), aliviando a sensação de angústia associada à dor, mesmo na ausência de um ouvinte externo.
Em resumo, o suspiro durante a dor é um reflexo de sobrevivência para oxigenar os pulmões e um ajuste neuroquímico para processar e aliviar o sofrimento emocional, ocorrendo naturalmente e sem necessidade de interação social.
Envelhecer e vencer sim, mas com "graça e majestade". Sem elegância, o envelhecimento e a vitória não passam de vinganças.
Não sei vender-me. Nem os talentos, nem as fraquezas nem - muito menos - as dores. Em português o verbo jeremiar existe. Em francês não. Jérémiades é um substantivo sem verbo. Chega-se lá caindo do céu, provavelmente. Une jérémiade não requer que Jeremias jeremie. Uma jeremiada sim, requer acção e vontade do agente. Prefiro a vontade e a simplicidade: adopto jeremiar, apesar de não ser grande adepto da prática.
Saio da neurocirurgiã e sento-me um bocadinho no parapeito de um canteiro de flores. A minha agulha perdeu momentaneamente o norte e o oriente. Pouco e momentaneamente, é preciso que se note. Desnorteado, desorientado.
Quem não tem norte nem oriente tão pouco tem sul ou ocidente. Mais vale ficar parado e esperar que a agulha no cérebro se resolva.
(Lisboa, 11-06-2026)
O comboio acaba de sair de Coimbra e já vai com meia-hora de atraso. Na casa de banho o autoclismo funciona mas o secador das mãos não e não há sabão. O revisor é amável, o ar condicionado condiciona, lá fora o dia está bonito e as costas não deixam de me doer. Parece um dia igual aos outros e se não fossem as dores sê-lo-ia. Não consegui fazer o IRM porque eram demasiado fortes e foi-me impossível ficar imóvel o tempo todo que aquilo requer. Cada vez me convenço mais de que esta época vai pelo cano e nos intervalos da dor procuro maneiras de sobreviver. Seria preciso começar por fazer uma lista de tudo o que sei fazer e é monetizável mas depressa chego à conclusão de que o problema é sobretudo não saber vender-me. Situação frequente no meio artístico. O fim dos mecenas foi a maior tragédia da idade moderna. Algum mecenas pagaria a um tipo para prender uma banana a uma parede com fita isoladora? Creio que não. Pode sempre argumentar-se que o palerma que comprou aquilo é um benfeitor da arte e que comprou para ajudar o artista. Não creio mas enfim, é uma hipótese. Amanhã vou colar uma das minhas caixas de fotografias à vassoura, ver se alguém relaciona aquilo com bruxas ou com a necessidade de varrer a minha sala, na qual só estou de passagem. Já estou nas margens do Tejo. O comboio acelerou. Os livros também poderiam ser trocados por dinheiro, mas na trilogia dos f já esgotei friends e família. Preciso de encontrar tontos mas no que toca a pagar para ler (ou pelo menos para comprar livros) eles não abundam. Preferem ver televisão, que sempre é mais barato. Se calhar não são assim tão tontos.
Um gajo pode reclamar contra uma série de coisas nos comboios da CP mas de uma coisa deve orgulhar-se: dizem para se ter cuidado com o espaço entre o cais e o comboio. Se isto não é civilizado não sei o que é. E até o dizem em inglês e tudo.
Só me falta encontrar uma fórmula assim. Compre os livros e as fotografias do Luís Serpa e nunca mais terá dores nas costas. (Falta saber quem não terá as tais dores.)
Fui procurar a tradução de desarçonné. Tem o sentido literal de desmontado, derrubado, caído (do cavalo) e figurativo de desconcertado, surpreso, confuso. Acho que desta vez opto pelos dois sentidos: passo as viagens de comboio a reclamar contra os selvagens que falam ao telefone nas carruagens; hoje descobri que um dos meus melhores amigos não só fala mas também ouve em alta-voz. Isto é, os passageiros tiveram dieito à totalidade do diálogo e não só a metade dele, como até aqui tem sido norma.
Este meu amigo é das pessoas que eu conheço que está mais longe de ser selvagem e é isso que me surpreende, desconcerta e confunde. Ou a selvajaria está pouco a pouco a subir a pirâmide social ou eu uso o qualificativo com demasiada liberalidade e excessivo rigor.
Mais uma razão para a CP assumir o seu papel de árbitro e proibir o uso de telefones portáteis em algumas carruagens. Assim, ficaríamos ambos bem na fotografia. O meu amigo continuaria a ser a pessoa selecta, educada e distinta que é e eu o Torquemada do telefone portátil.
Graças à boa cooperação que há entre os dois sectores do SNS - o público e o privado - a minha agenda médica vai-se preenchendo. Não tão depressa quanto eu quereria mas enfim, é o que há. A metade pública é lenta. A pergunta que me faço é: o sector privado paga comissões ao seu parceiro? Se não paga, devia pagar. Libertaria dinheiro dos nossos impostos, dinheiro esse que poderia ser dilapidado alegremente pelos nossos políticos em vez de dolorosamente gasto pelos nossos pacientes.
Os quais não são assim tão pacientes, a julgar pela explosão das subscrições de seguros de saúde.
Responder ao telefone provoca cancro, tuberculose, sarna, miopia, distrofia muscular e outras DST. É por isso que os diversos componentes do SNS não o fazem. A pergunta que me faço - e de caminho faço aqui - é: porque põem eles um número na sua lista de contactos?
Verdade seja dita: responderem serviria de pouco. Situações como a minha devem eles ter trezentas por dia. Não há mecanismo de defesa que chegue para aguentar tamanha vaga de queixas, inquirições e provavelmente revoltas. O silêncio é o melhor remédio.
O dia começa com as agora habituais dores na perna direita e eu pergunto-me por quanto tempo mais os terei a começar assim. Já lá vai semana e meia deste horror, remédios às dúzias, médicos, exames, raios X, TAC... Não há quem não tenha olhado cá para dentro ou ouvido-me contar a mesma história vinte vezes, ne varietur, anti-inflamatório para cá, analgésico para lá e eu só penso no anti-inflamatório que em Antigua pôs fim a dois anos de dor no calcanhar ou no que em Palma me receitaram já não sei para quê e agiu como varinha de condão nas mão de uma fada experimentada e por que raio de carga de água ninguém o tem aqui e ninguém acerta e ando para aqui a gastar um dinheirão em táxis, Uber, Bolts mai-los raios que os partam, para não mencionar a massa que deixo na farmácia e na que deixo de ganhar porque não posso trabalhar, saúde e massa andam sempre de mãos dadas, ou se tem massa ou se tem tempo.
Isto dito, se por acaso a senhora ministra da saúde precisar de um consultor para resolver o problema do SNS estou disponível. Dou-lhe uma dica, senhora ministra: centre o SNS no paciente, faça dos desgraçados que têm mais tempo do que massa (não é bem o meu caso, mas por agora não faz mal. Não tenho nem uma nem outro) o centro em torno do qual o SNS age e não o contrário, é fácil, há milhares de empresas por esse mundo fora que aplicam a receita em vez de ser eu a girar como uma andorinha que se enganou de cogumelos à volta do SNS. E quem diz eu diz os outros todos, não sou o único, antes fosse. E vejam lá se me põem um anti-inflamatório que me anti-inflame - analgésico já tentaram, eu sei, mas não resultou, já tirei os pensos, aquilo só servia para me irritar ainda mais.