Imagine-se uma pessoa que nunca sequer viu uma embarcação de vela. Imagine-se que essa pessoa assiste a uma conversa entre o Loïc Peyron ou a Ellen MacArthur e eu.
Quanto tempo levaria essa pessoa a perceber que tanto a Ellen como o Loïc sabem infinitamente mais de vela do que eu?
(Antes de continuar, isto precisa de um pouco de contextualização. Não sei como é nas outras áreas do saber, mas os grandes marinheiros são pessoas extremamente humildes. Dou um exemplo, tentando ser breve: Ellen MacArthur ganhava as regatas devido à sua sobrenatural capacidade de interpretar as previsões meteorológicas. Aquela mulher fazia opções de rotas que um dia levaram um do seus competidores directos a dizer-me "A Ellen vem de outro planeta".
Um dia veio jantar a minha casa, em Cascais. Entrou, trocámos as formalidades usuais e cinco minutos depois estava a fazer-me uma pergunta sobre um fenómeno meteorológico frequente em Portugal para o qual não encontrava explicação.
- Não sei, Ellen. Ando há meses a procurar, já perguntei em todo o lado, serviços meteorológicos, universidades, tudo. Ninguém soube responder-me... [Pausa. Um tempo.] Mas espera, quem tem de fazer essa pergunta sou eu a ti e não tu a mim.
Ellen encolhe os ombros e diz-me: "Há que perguntar tudo a todos. Não consigo perceber por que raio de carga de água aquilo acontece e alguém há-de saber [a tradução é minha e não é literal]".
Uma cena semelhante passou-se com o Loïc em Salvador da Bahia, mas poupo os pormenores aos leitores.)
Ou seja: não é preciso ser especialista numa área qualquer para se ser capaz de perceber de que lado a razão tem mais probabilidades de estar. A minha opinião sobre a Covid comecou a formar-se a partir das discussões (essas, sim, violentas, contrariamente às minhas supra-citadas) entre o André Dias e um aldrabãozeco cujo nome era João qualquer coisa, se bem me lembro. Foram essas discussões que me levaram a estudar o assunto, tanto quanto um leigo pode estudar e a inscrever-me num dos lados do debate. O mesmo se passa com o debate sobre a Palestina. Ouvi e li argumentos e só depois construí a minha opinião. (Nb: falta-me ler em primeira mão Edward Said, mas do que dele sei penso que não mudará muito a minha posição. Quando muito, aprofundá-la-á.)
No meu posicionamento político há obviamente um enorme factor pessoal, incontrolável: a minha incapacidade de me incluir em grupos, clubes, escolas, associações ou seja o que for que cheire a colectivo (com a notória excepção de uma tripulação e mesmo essas escolhidas) e portanto nunca poderia ser de esquerda. Contudo não é só por fatalidade genética que sou de direita. Como toda a gente passei pela esquerda e só depois decidi que a interpretação da realidade é mais fiel sem os óculos ideológicos e anti-biológicos dos colectivismos.
Talvez como método epistemológico isto não valha muito. Paciência. Tem pelo menos um mérito: as minhas opiniões são construídas, não me caem pré-fabricadas no regaço. E outro: sou capaz de as mudar quando me provam que estou errado. Não é fácil mas é possível.