17.10.26

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 17-10-2026

Escrevo para mim. Sou uma audiência difícil, insatisfeita. É o que há. Os leitores, os outros, os que não são eu estão presentes porque tento escrever bem. Isto é, respeitando as regras da gramática e as do estilo, mais difíceis mas igualmente importantes. Não sei o que é escrever bem. Ser legível. Ser inteligível. Não sei. Ser adivinhável. Escrever é passear entre estas linhas, a de sombra e a da clareza, um exercício de funambolismo com uma vara infinita nas mãos. Para um escritor essa vara tem dois nomes: alfabeto e dicionário. Ou três, se lhes quisermos acrescentar a gramática, tão importante como as outras duas. 

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Jantar em casa da H. e do F. Fiz uma carne picada. Passo os pormenores. Usei sumac, loomi (pouco), o merken da Lyzamir, que é verdadeiramente excepcional; tudo isto afundado em natas e paprika fumada, juntamente com cogumelos, pimento e pimenta verdes. Acompanhado com um arroz de manteiga e por um Crozes-Hermitages de 2022. Foi bom, mas o melhor foi a companhia. A família é uma extensão do contrato que temos com a vida. Sobretudo quando é vertical: filha, netos. As horizontais já nos conhecem há muito tempo, passam bem sem nós.

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Pouco a pouco interesso-me pela política nacional. Pouco a muito pouco. Portugal é um circo e palhaços, equilibristas, trapezistas e domadores vão às televisões, que - coitadas - não têm dinheiro para mais. O interesse é efémero: quanto mais velho sou menos gosto de surrealismo. E mais aprecio a política suíça: é compreensível, racional - sem deixar de ser política. Na sua versão nobre, acrescento: é a pólis que decide, salvo duas ou três pequenas excepções. Uma senhora da UDC genebrina  (o partido da «extrema»-direita suíço) decidiu candidatar-se ao conselho federal (o governo federal, que é eleito pelo parlamento, segundo uma regra três-três-três-um. Ou seja: três membros dos três partidos mais votados e um do quarto). O seu partido é contra: quer que o lugar vá para a suíça alemã. Guerras do alecrim e da manjerona, porque no fim tudo se diluirá no «consenso», palavra-mestra da política suíça. Muito mais importante me parece o tema dos fogos de artíficio, que eu espero vivamente não seja aceite. É uma questão civilizacional, não confundir homens e animais.

Vitaminas, frugalidade

Há treze tipos de vitaminas, diz-me a inteligência artificial que me responde cada vez que pergunto qualquer coisa ao Google. A lista não me parece completa. Faltam pelo menos as duas preferidas de uma antiga colega minha, uma senhora zimbabweana, bem fornida de carnes e de humor. Eram essas as vitaminas "aaaahhh" e "fffff....". Por vezes mencionava-as de manhã, no escritório selecto aonde ambos fingíamos que trabalhávamos. Havia pouco que fazer e mesmo essa parca quantidade era tratada com muito cuidado, muita ternura, nada de a magoar. Nunca a ajudei a tomar essas vitaminas: a senhora tinha demasiadas carnes para o meu gosto. Sempre fui frugal nessas coisas. Além de que desconfio que ela tinha quem lhas fornecesse em quantidade. Não posso porém negar: por vezes lembro-me dela. Terá perdido peso?

16.10.26

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 16-10-2026

Passeio às Franches-Montagnes. Não sei se é a região mais bonita da Suíça. Para mim é mas estou longe de conhecer todas. É a minha favorita: estes campos que me trazem carapinhas à memória, casas que parece terem sido erguidas contra o tempo - e foram: no século XIV o príncipe de Basileia isentou de impostos quem fosse viver para ali. Daí o nome. A região não é amena e as casas tradicionais mostram-no bem. Gosto do amor dos naturais pela terra, é uma devoção. Fomos a uma loja de mulheres agricultoras, uma daquelas em que um tipo entra e tem vontade de comprar tudo: produtos exclusivamente da região, todos de altíssima qualidade. A loja chama-se assim porque é gerida pelas mulheres dos agricultores - que fazem igualmente alguns dos produtos à venda e se revezam na presença. Depois foi a vez do Café du Soleil, uma instituição em Saignelégier e do étang de Gruère, iluminado pela luz do fim da tarde, densa «como mel» (Leonard Cohen). O Jura é a mulher feita natureza, redonda e forte, doce e segura de si.

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Passámos muito de passagem por La Chaux-de-Fonds, uma cidade que absorveu a minha infelicidade como se fosse um mata-borrão e ainda hoje a mantém guardada, prestes a ser expelida à menor pressão. 

Penso no que fui infeliz ali e apercebo-me de que já o era muito, antes de para lá ir. E que foi de la Tchaux que o meu périplo começou: norte da Itália, Dunkerque, Aveiro, Zurique, Genebra. O mata-borrão funcionou eficazmente. Não que tenha ficado com a infelicidade toda, longe disso. Mas ensinou-me que passeá-la não servia de nada.

15.10.26

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 15-10-2026

Deambulações: 
- Photo Verdaine: sou cliente praticamente desde que cheguei a Genebra e hoje tive mais uma prova de que quando acerto num fornecedor acerto em cheio;
- Café - restaurante La Fresque, 6 rue des Marroniers: fui beber uma cerveja, o homem serviu-ma com uma tapa que estava para lá do excelente. A próxima etapa vai ser jantar para confirmar (aposto) ou infirmar (duvido) a primeira impressão;
- Les Férus, 19 bd. Helvétique: «Boutique de fromages, vins et épiceries fines à Genève». Mais uma daquelas lojas que transpira qualidade e não precisa de dizer que é gourmet ou paneleirices semelhantes. Basta olhar, ver e provar um dos vinhos a copo. Neste caso uma novidade para mim: um aligoté do cantão que vale cada um dos muitos cêntimos que custou. Seco, equilibrado, saboroso, cheio de boca e de nariz. 

Amanhã vai ser dia de passeio às Franches-Montagnes. O Jura sempre foi a minha região favorita da Suíça e dentro dele este distrito. O mês vai ser longo mas tem algumas amenidades.

14.10.26

Definição - passado

O passado é o melhor exemplo de morto-vivo que se pode encontrar.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 14-10-2026

Uma iniciativa popular na Suíça quer proibir os fogos de artifício por causa do bem estar animal. Como todas as iniciativas e referendos (estes vêm do governo, aquelas do povo, como o nome indica) o tema é objecto de debates na televisão, artigos na imprensa, comités e contra-comités. Como é evidente, aprovo o método e se votasse votaria contra, mil vezes contra.

Tenho muita pena dos animais que se assustam mas devemos impor limites. A civilização ocidental é a única que se despreza, menospreza, hostiliza a si própria. Esta auto-desqualificação tem vantagens, claro. Os fluxos migratórios demonstram-no à saciedade. Mas o que é de mais é de mais. As rampas escorregadias devem ter limites e as nossas sociedades estão a precisar muito de muitos.

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Isto dito, penso quão melhor seria aqui o debate caminhense sobre a ponte para a Guardia. Seria objecto de estudos, análises, contraditórios sem fim e quando as pessoas fossem votar talvez tomassem a opção errada (para mim e por agora). Mas pelo menos votariam informadas.

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À tarde fomos à costa de Lavaux: lago Léman, Alpes e vinhas em socalcos. A beleza desta mistura submerge-me numa melancolía sem fundo. Tão funda que não me apetece sequer falar nela. Fica aqui o registo, para um dia.

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Uma das poucas coisas que poderiam reconciliar-me com a televisão seria os telejornais suíços. Felizmente não quero e pouco os vejo. Mas lá que tenho inveja dos telespectadores suíços tenho. É possível fazer telejornais curtos, informativos, com um mínimo de micro-trottoir.

13.10.26

Receitas e notas a correr

Breve nota na brasa: frango piccata é muito bom, fácil, rápido e barato. Enfarinhar o frango, dourá-lo em azeite e manteiga, reservar; déglacer brevemente com vinho branco, juntar sumo de limão e alcaparras, deixar ferver, acrescentar manteiga e depois o frango para acabar de cozer. Não esquecer salsa picada fino.

É isto. Hoje deixei o frango previamente em sal e sumac um par de horas e como pimenta usei a verde fumada, que está um bocadinho gasta.

Outra: fazer muito molho. A smala adorou e repetiu e pouco sobrou....

Mais uma: a loja de especiarias fica na rua des Corps-Saints e chama-se Lyzamir. Hoje comprei lá merken, loomi e alcaravia.

(A título de curiosidade: o merken foi mais barato do que o que comprei recentemente no Bolhão.)

10.10.26

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 10-10-2026

Um deslumbramento que se repete continua a ser deslumbramento? Fascínio sim, sei que pode repetir-se: é o que sinto cada vez que chego a Genebra. A dobrar, de resto: pela cidade e pela minha estupidez, que me fazia detestá-la quando cá vivia. Este país é para velhos.

De certa forma compreende-se: os jovens não têm netos. E não apreciam ruas sem buracos nem transportes públicos bem geridos nem autocarros conduzidos por pessoas normais nem cidades limpas. Tudo isso só vem com a idade.

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A que, desta vez, se junta a minha irmã R., uma das muitas formas que a adorabilidade encontrou para se encarnar.

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Jantar de ontem: porco com um molho de mostarda, salsa, natas e sumo de limão (porque não havia vinho branco. Da próxima haverá. Pouco). É bom, fácil e barato, três qualidades apreciáveis.

Dourar a carne, reservar, na mesma frigideira refogar um pouco de cebola (não muita.  Aliás, até me pareceu dispensável), juntar o molho previamente preparado - natas, mostarda, salsa picada e vinho branco - deixar ligar brevemente, pôr a carne e cozer, cuidando que não fique muito seca. Uma boa pimenta preta - usei uma verde fumada que o F. trouxe de Palma e teria ganho com uma mais escurinha - e hey, messieurs dames, à table. 

Não houve acompanhamento porque nenhum dos convivas quis, mas um arroz branco teria ido a matar. 

Hoje vai ser um boeuf bourguignon. Um mês a cozinhar para a família e para alguns amigos que espero ver? O meu infinito obrigado ao serviço civil suíço, que está na raiz desta aubaine (bambúrrio, para quem não queira ir ao dicionário e aceite uma tradução livre).

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(Cont.?)

7.10.26

Retratos potenciais

Estava casado com a vida mas dormiam em quartos separados. 

6.10.26

Ad libitum e outras lamechices

Podem criticar-me ad libitum. Pouco me afecta: é como vivo.

4.10.26

Medo e outros receios

Penso no medo e de como é importante para a sobrevivência. Sem ele não não se vive. Com ele tão pouco: o medo paralisa. Daqui passo para alguns dos arraiais de porrada que apanhei no mar: não é durante a tempestade que temos medo. É depois. Durante o temporal está-se demasiado ocupado, não há tempo para receios - estratégia de sobrevivência, claro. A natureza conhece o poder incapacitante do medo. 

A associação de ideias prossegue e continua para a quantidade daquilo a que hoje chamo idiotices que fiz no mar: os passeios na retranca para rizar, as vezes em que voltei para bordo agarrado à escota da grande, os trabalhos no bico da proa - tudo sem arnês. Hoje continuaria a não o pôr (o medo aguça o engenho, não gosto de me sentir preso e sobretudo execro a ideia de ser arrastado pelo barco e não conseguir subir) mas penso que essas asneiras me ensinaram a ter medo de mim próprio, talvez o mais útil de todos os medos. 

30.9.26

Ricardo, (rei dos) Reis

Não só quem nos odeia ou nos inveja

Nos limita e oprime; quem nos ama

Não menos nos limita.

Que os deuses me concedam que, despido

De afetos, tenha a fria liberdade

Dos píncaros sem nada.

Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada

É livre; quem não tem, e não deseja,


            Homem, é igual aos deuses.


Ricardo Reis, in "Odes"