14.10.26

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 14-10-2026

Uma iniciativa popular na Suíça quer proibir os fogos de artifício por causa do bem estar animal. Como todas as iniciativas e referendos (estes vêm do governo, aquelas do povo, como o nome indica) o tema é objecto de debates na televisão, artigos na imprensa, comités e contra-comités. Como é evidente, aprovo o método e se votasse votaria contra, mil vezes contra.

Tenho muita pena dos animais que se assustam mas devemos impor limites. A civilização ocidental é a única que se despreza, menospreza, hostiliza a si própria. Esta auto-desqualificação tem vantagens, claro. Os fluxos migratórios demonstram-no à saciedade. Mas o que é de mais é de mais. As rampas escorregadias devem ter limites e as nossas sociedades estão a precisar muito de muitos.

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Isto dito, penso quão melhor seria aqui o debate caminhense sobre a ponte para a Guardia. Seria objecto de estudos, análises, contraditórios sem fim e quando as pessoas fossem votar talvez tomassem a opção errada (para mim e por agora). Mas pelo menos votariam informadas.

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À tarde fomos à costa de Lavaux: lago Léman, Alpes e vinhas em socalcos. A beleza desta mistura submerge-me numa melancolía sem fundo. Tão funda que não me apetece sequer falar nela. Fica aqui o registo, para um dia.

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Uma das poucas coisas que poderiam reconciliar-me com a televisão seria os telejornais suíços. Felizmente não quero e pouco os vejo. Mas lá que tenho inveja dos telespectadores suíços tenho. É possível fazer telejornais curtos, informativos, com um mínimo de micro-trottoir.

13.10.26

Receitas e notas a correr

Breve nota na brasa: frango piccata é muito bom, fácil, rápido e barato. Enfarinhar o frango, dourá-lo em azeite e manteiga, reservar; déglacer brevemente com vinho branco, juntar sumo de limão e alcaparras, deixar ferver, acrescentar manteiga e depois o frango para acabar de cozer. Não esquecer salsa picada fino.

É isto. Hoje deixei o frango previamente em sal e sumac um par de horas e como pimenta usei a verde fumada, que está um bocadinho gasta.

Outra: fazer muito molho. A smala adorou e repetiu e pouco sobrou....

Mais uma: a loja de especiarias fica na rua des Corps-Saints e chama-se Lyzamir. Hoje comprei lá merken, loomi e alcaravia.

(A título de curiosidade: o merken foi mais barato do que o que comprei recentemente no Bolhão.)

10.10.26

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 10-10-2026

Um deslumbramento que se repete continua a ser deslumbramento? Fascínio sim, sei que pode repetir-se: é o que sinto cada vez que chego a Genebra. A dobrar, de resto: pela cidade e pela minha estupidez, que me fazia detestá-la quando cá vivia. Este país é para velhos.

De certa forma compreende-se: os jovens não têm netos. E não apreciam ruas sem buracos nem transportes públicos bem geridos nem autocarros conduzidos por pessoas normais nem cidades limpas. Tudo isso só vem com a idade.

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A que, desta vez, se junta a minha irmã R., uma das muitas formas que a adorabilidade encontrou para se encarnar.

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Jantar de ontem: porco com um molho de mostarda, salsa, natas e sumo de limão (porque não havia vinho branco. Da próxima haverá. Pouco). É bom, fácil e barato, três qualidades apreciáveis.

Dourar a carne, reservar, na mesma frigideira refogar um pouco de cebola (não muita.  Aliás, até me pareceu dispensável), juntar o molho previamente preparado - natas, mostarda, salsa picada e vinho branco - deixar ligar brevemente, pôr a carne e cozer, cuidando que não fique muito seca. Uma boa pimenta preta - usei uma verde fumada que o F. trouxe de Palma e teria ganho com uma mais escurinha - e hey, messieurs dames, à table. 

Não houve acompanhamento porque nenhum dos convivas quis, mas um arroz branco teria ido a matar. 

Hoje vai ser um boeuf bourguignon. Um mês a cozinhar para a família e para alguns amigos que espero ver? O meu infinito obrigado ao serviço civil suíço, que está na raiz desta aubaine (bambúrrio, para quem não queira ir ao dicionário e aceite uma tradução livre).

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(Cont.?)

7.10.26

Retratos potenciais

Estava casado com a vida mas dormiam em quartos separados. 

6.10.26

Ad libitum e outras lamechices

Podem criticar-me ad libitum. Pouco me afecta: é como vivo.

4.10.26

Medo e outros receios

Penso no medo e de como é importante para a sobrevivência. Sem ele não não se vive. Com ele tão pouco: o medo paralisa. Daqui passo para alguns dos arraiais de porrada que apanhei no mar: não é durante a tempestade que temos medo. É depois. Durante o temporal está-se demasiado ocupado, não há tempo para receios - estratégia de sobrevivência, claro. A natureza conhece o poder incapacitante do medo. 

A associação de ideias prossegue e continua para a quantidade daquilo a que hoje chamo idiotices que fiz no mar: os passeios na retranca para rizar, as vezes em que voltei para bordo agarrado à escota da grande, os trabalhos no bico da proa - tudo sem arnês. Hoje continuaria a não o pôr (o medo aguça o engenho, não gosto de me sentir preso e sobretudo execro a ideia de ser arrastado pelo barco e não conseguir subir) mas penso que essas asneiras me ensinaram a ter medo de mim próprio, talvez o mais útil de todos os medos. 

30.9.26

Ricardo, (rei dos) Reis

Não só quem nos odeia ou nos inveja

Nos limita e oprime; quem nos ama

Não menos nos limita.

Que os deuses me concedam que, despido

De afetos, tenha a fria liberdade

Dos píncaros sem nada.

Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada

É livre; quem não tem, e não deseja,


            Homem, é igual aos deuses.


Ricardo Reis, in "Odes"

27.9.26

Pancada, pimenta

Móis a pimenta no almofariz. Os grãos partem-se a cada golpe do pilão e libertam o odor que procuras. Sê como a pimenta: mostra o que vale quando leva pancada. Não ligues ao que está partido.

24.9.26

Palma, redundância e aliterações

A julgar pelo meu FB, devo ser o único português que nunca ouviu uma canção completa do Jorge Palma. Paciência. Não estou, contudo, completamente arredado: convivi de perto com uma senhora que o conhecia bem e me garantiu que era "um gajo porreiro". Chega-me. Prefiro de longe um gajo porreiro a um cantor cheio de talento. Há-os cheios de talento e execráveis. Cantores, pintores, escritores, escultores e outros ores. O carácter é mais importante do que o talento. 

Pelo menos para quem quer ser amigo do artista. Quem lhe quiser apenas consumir a arte deve prestar mais atenção ao que o homem faz do que ao que é. Não se deve é misturar as duas coisas. São como o trabalho e o conhaque: a degustar separadamente. 

PS - Aplico a mesma grelha aos políticos, às putas e aos palhaços,  passem a redundância e as aliterações. 

Retrato - distracção

Era um tipo muito distraído e desinteressado. Vivia porque se esquecia de morrer.

Megaprojecto, microprojectos

Uma vida cujo projecto geral é construir-se a si própria, constituída por microprojectos de autodestruição. Acabou como todas acabam: num jarro de cinzas.

23.9.26

Cartas - III

Querida R. 

Acontece-me por vezes não me esquecer de ti. Dito de outra forma: nunca me acontece esquecer-me de ti. E não é preciso passar pela estação de comboios que rebaptisei com o teu nome, nada disso. Basta-me pensar na alegria, na leveza, na beleza, no desejo, na sensualidade, no riso, na beleza (outra vez. Agora refiro-me à tua), na minha incapacidade em seguir normas que a mim mesmo prescrevo. Não sair com mulheres casadas. Saí. Mais: apaixonei-me.

Com razão, dir-me-ias se me lesses, o que é improvável. Com razão, digo-me para me explicar e para me justificar: tolice teria sido não te amar como te amei.

Há amores assim: começam na cama e acabam na alma. Entram-nos pela pila, pelas mãos, pelos olhos, pela boca e nós pensamos que vão ficar por ali, fazemos tudo para que fiquem por ali porque afinal tu eras casada e eles escapam-se, entram em nós pelos poros, entranham-se como se os sentimentos também tivessem poros tal essas peles que tantas vezes cruzámos. 

- Sentimentos porosos? 

- Sê-lo-iam, se o não fossem?

Pouco a pouco foste saindo de mim. Ou melhor: migraste da pele para a memória. O teu nome  está gravado naquela área de mim aonde pára tudo o que de bom e bonito me aconteceu. 

Enfim, não é só o nome.

Teu,

Luís