Lisboa, 12-06-2026
A espera de avião desta vez foi diferente. Ou melhor, está a ser diferente. Pedi a uma senhora que estava sozinha à mesa se podia sentar-me, ela disse que sim; no lugar oposto (a mesa é redonda e grande) sentou-se uma miúda de vinte e poucos, calculo. A senhora inicial revelou-se exuberantemente extrovertida e em menos de um fósforo a conversa estava instalada - com poucas intervenções minhas porque não percebo esta porra deste sotaque. A miúda é estudante de filosofia e professora (?) de yoga. Tem ou quer ter uma escola à qual chamará Yoga and Chaos, nome que me atrai, claro. Gosto de oxímoros. A outra é uma escocesa que esteve em Portugal duas semanas num programa de reabilitação, creio que alcoólica. A primeira hora passou depressa graças a estas duas companhias imprevistas. Agora preciso de enfrentar o que me espera e juntar mais uma dúvida ao meu saco delas: a coluna aguentará? Durante quanto mais tempo o mar me aceitará? Que farei, quando esse dia inevitavelmente chegar?
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Palma, 13-06-2026
É fácil: consolar-me-ei com esta mistura de Palma, Genebra e Lisboa e provavelmente Marigot em St. Martin: cidades aonde devia ter nascido e isso só aconteceu em Lisboa. Nem tudo é azar na vida de um homem. Ou nas vidas, mais correctamente, que já lá vai para cima de um ou dois pares de elas.
Palos sifonados no Cliff - descubro agora que também é um ávido leitor - jantar no Gustar com a A., gelados no Claudio. À tarde ainda passei pelo Mise en Place, na praça Mayor. Está um calor demasiado elevado para as minhas idade e condição física. Estou cansado. Estou feliz. Amanhã vou para o mar.
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Palma tem esta capacidade bizarra de nos envolver no aqui e agora e fazer-nos esquecer o que foi e marimbar no que será. Talvez porque tem camadas de felicidade como os terrenos arqueológicos têm camadas de tempo: só conta aquela que estamos a visitar, a ver.
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Amanhã tenho de me levantar de madrugada. Ou seja: tenho de parar de escrever.