2.4.21

Variações apologéticas em torno do absinto Angélique

Absinthe rima com absente (enfim: quase, mas a diferença é tão pequena que nem um teste PCR a detectaria), coisa que só por si demonstra uma série de coisas importantes, todas elas conducentes ao mesmo: as razões para não o beber estão ausentes.

Se o absinto fosse a rainha das bebidas alcoólicas, o absinto Angélique, feito artesanalmente no Val-de-Travers, Jura suíço, por um senhor chamado Claude-Alain Bugnon seria a rainha-mãe. É.

A beleza do absinto começa no cheiro quando se abre a garrafa, continua na cor quando se o põe no copo (para quem não sabe: põe é como coloca, mas em melhor), prolonga-se quando se lhe junta a água e se o vê mudar de cor e acaba na explosão de sabores campestres, históricos, poéticos e profundamente inspiradores. A arte moderna deve muito ao absinto e o senhor Claude-Alain Bugnon (que ainda não conheço - sublinho ainda) e todos os que o antecederam na nobre arte de distilar plantas como (cito) grande absinthe, angélique e outras dez (fim de citação) deviam ser erigidos patronos das artes e grandes encorajadores da vida no campo.

O pastis está para o absinto Angélique como uma prostituta de rua para Mata Hari. 

Ao primeiro gole de absinto a vida muda para (muito) melhor. Os goles seguintes não fazem mais do que prolongar essa mudança; afiná-la, por assim dizer. Refiná-la. Dar-lhe um sentido, uma direcção, uma razão de ser. Quem não acredita no progresso nunca bebeu absinto Angélique.

O simples facto de o senhor que faz este absinto pôr o seu nome no contra-rótulo diz tudo: as obras de arte assinam-se.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 02-04-2021

Vou passar o fim-de-semana a casa do J. no cantão de Berna. Jura Bernois, para ser mais preciso. As temperaturas caem para níveis relativamente baixos: a máxima dos três dias vai ser um grau positivo. O resto dos dias têm todos o tracinho antes do algarismo. A ver se isto me arrefece o entusiasmo pelo Jura (sei que não, mas na verdade estou a marimbar-me para a temperatura, desde que tenha roupa para ela). O que me impressionou foi o processo de compra dos bilhetes de comboio. Os CFF adoptaram métodos de estabelecimento de preços dignos de uma companhia aérea. Não vejo razão nenhuma para os privatizar - não há ideologia que valha uma coisa que funciona - mas estas variações nos preços (acoplada a uma panne de informática que me fez ir duas vezes à estação) deixou-me pensativo.

Os correios também estão a avaliar a privatização do banco postal. Sabiamente escolheram um socialista para gerir o projecto - às papas e bolos alguém devia acrescentar as palavras, às quais a modernidade atribui poderes mágicos. Suporíferos, na verdade.

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Na Migros da estação exigiram-me que pusesse gel nas mãos para entrar. Mandei-os passear e vim-me embora. Prefiro um colombo sem fenogrego a pactuar com idiotices. Disse ao homem que sou alérgico, mas ele insistiu na «obrigatoriedade». Não insisti: estava muita gente na fila para entrar e de qualquer foma de nada teria servido precisar-lhe que a minha alergia é à connerie, não ao gel. De qualquer forma o colombo vai ser um exercício de flexibilidade, tolerância e criatividade. Mais fenogrego menos fenogrego não mudaria grande coisa.

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We belong together, cantado pela Ricki Lee Jones, é uma canção que não me larga. É tão bonita. Era dedicada ao Tom Waits, diz-me o google. 

Apologia do cepticismo

Não sou arqueólogo, mas estou pronto a apostar que o cepticismo já vem dos primeiros tempos da hominização: sem dúvida não há progresso.

1.4.21

A tentação securitária

As latas de conserva já não têm bordos cortantes. Alguém se preocupou em torná-las inofensivas. Alguém nos tratou como crianças? Não. As crianças aprendem e aprendem depressa. Basta cortarem-se uma vez ou duas  numa lata e aprendem. Alguém se preocupou em tratar-nos como idiotas; alguém pensou que não se consegue suportar um corte num dedo nem aprender a evitá-lo.

Confesso que a história das latas me é relativamente indiferente. Cortei-me como toda a gente umas poucas de vezes e nunca atribuí a isso grande importância - como não atribuo às que agora têm bordos que não cortam. O que me inquieta verdadeiramente é que essa preocupação não acaba nas latas. Estende-se, por exemplo, à falta de fé na capacidade de o sistema imunitário da esmagadora maioria das pessoas responder por si a um vírus que se sabe ser-lhes inofensivo. E a muitas outras coisas: a desresponsabilização atingiu níveis inconcebíveis. Ele é atravessar uma rua: há sinais para peões, porque estes obviamente não têm olhos para ver e cabeça para julgar. Ele é o aviso sobre a temperatura elevada do café nos recipientes (pelo menos nos EUA); ele é um sem número de situações nas quais alguém pensa sistematicamente que somos incapazes. 

O que me inquieta é a aceitação bovina desse statu quo, como se fosse normal. Como se fôssemos todos incapazes e irreponsáveis. Como se? A continuar assim, em breve sê-lo-emos, todos.

Misantropia prática

Tal como uma das grandes dificuldades que os darwinistas tiveram foi fazer aceitar o acaso como motor da evolução - a girafa não tem o pescoço comprido para comer as folhas mais altas das árvores. Come-as porque tem o pescoço comprido - compreendo que esta vastíssima e profundíssima mistura de acaso, incompetência, histeria, estupidez, ignorância e zeitgeist seja mais bem absorvida se lhe for atribuída um objectivo, uma necessidade. Não sou historiador, mas penso não me enganar se disser que nunca na História se viveu tão inverosímil e abrangente mescla. 

Não, caros colegas cépticos: não há ninguém a coordenar isto, não há objectivos escondidos, não há um diabo a manipular o Costa, o Macron, o Johnson ou o Sanchez. A menos que por diabo designem, claro, a incapacidade deles, a pequenez, a miséria, a capacidade que as pessoas têm de trocar a liberdade por um ersatz de segurança, a inimaginável aceitação do absurdo (suponho que mesmo os mais ferrenhos apoiantes das «medidas» reconhecerão o absurdo delas) e - sobretudo - a incalculável reserva de maldade que se esconde na maioria dos seres humanos. A haver um diabo, talvez seja a crueldade com que se aceita o que se está a fazer a crianças impedidas de brincar e aprender, a velhos impedidos de abraçar quem amam e os ama, a adultos impedidos de trabalhar e reduzidos à categoria de pedintes. 

A misantropia ontológica é uma coisa; vê-la mais do que justificada na prática outra, bem pior.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 01-04-2021

Saio do Halle de Rive e esqueço-me de tirar a máscara. Só dei por ela já no Jardim Inglês. Isto assusta-me de várias formas:

1- Não gosto de dar maus exemplos na rua;

2- Não quero que a malta dos Governos pense que tem aqui um adepto;

3- Estarei a ficar tão habituado que...? (A mera hipótese assusta-me tanto que não a enuncio. Sei perfeitamente que é impossível.)

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Encontrei Red Stripe, na Drinks of the World. Já de Moynt Gay barato nem sombras. Só há XO a uma pipa de massa - e muitos outros runs, a muitas pipas de massa. «O rum está na moda», diz-me S. Pergunto-me porque nunca ninguém me reconheceu o papel de trendsetter que sou desde a mais tenra infância... Quando aqui cheguei havia três marcas, ou se calhar nem isso. Paciência, para fazer molho picante vai de Baccardi. Fica pelo menos a garantia de que vou poder fazer muito mais molho. Encontrei um tipo no Halle de Rive que mos quer comprar. Isto não se inventa: vender os meus piripiris é um futuro de sonho - e penso na A., que em Palma me disse «Tu podes fazer uma pipa da massa com isto» (a transcrição é de memória; ou de vontade, não sei). Imagino-me bem no campo a fazer molho picante - seria bastante semelhante a isto da escrita, que toda a gente diz ser muito boa mas pagá-la tá quieto. Ou da reciclagem, eu tão bom cidadão a separar o vidro escuro do transparente, o plástico do papel, o alumínio das  cascas de banana e ninguém quer reconhecer o enorme valor desse tempo.

Até ter vontade de fazer 'ti ponches, o Baccardi chegará para muito molho.

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S. fala-me de uma componente das relações amorosas, a «pertença». Diz-me que é - ou pode ser - independente das relações que subtende: uma relação amorosa não existe (ou não é sustentável) sem essa «pertença», mas esta pode sobreviver-lhe. Passo alguns pormenores, mas gosto da conclusão a que chegou. 

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A França reconfina, a Finlânia não. Este vírus é claramente cultural. E político: quanto mais democrático o país, menos poder o vírus tem.

30.3.21

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 30-03-2021

Pouco a pouco, nos supermercados o verde substitui as outras cores todas. As pessoas querem «natureza» e é na secção «bio» das super-lojas que a vão procurar, embrulhada em todas as espécies de plástico - mas na caixa já só têm sacos de papel, o «verde» começa quando se vai para a rua. Antes disso, impera o transparente. Não se pode dar um passo sem dar com iogurtes «bio», leite «bio», carne «naturaplan», alfaces «sem glúten», fruta «sem fosfatos» - tudo embrulhado em plástico. Salva-se o peixe - é preciso perguntar e auscultar cada etiqueta cuidadosamente para se saber se a peça é de piscicultura se de pesca. Ninguém se preocupa com o salmão - um dos grandes crimes ecológicos da nossa época, sobretudo o da Noruega, esse país que se prepara para proibir nos fiordes embarcações a combustíveis fósseis. Não tenho nada contra a hipocrisia - sem ela não se viveria em sociedade e não haveria supermercados - nem contra os mitos - cada época tem os seus, grand bien leur fasse. Tenho contra a ignorância, contra a mentira, contra o holier than you que invadiu esta porra deste tempo, contra esta esquizofrenia dicotómica, maniqueísta.

Vá lá que a meio da tarde de uma terça-feira o supermercado está praticamente vazio, as caixeiras - quase todas obesas, até nisto o tempo apanhou a cidade desprevenida - aproveitam um erro qualquer do planeamento para olharem os tapetes vazios e de caminho as unhas ou os telefones portáteis. 

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Já o verde que vejo da janela é outro, melhor e menos invasivo: as árvores aproveitaram estes dias de calor para se vestirem de folhas novas. Por enquanto pequenas e poucas, mas mais e maiores a cada dia. Não tarda vem frio outra vez, mas as jovens folhas resistirão e depois disso as ruas, parques e jardins estarão cheias de verde e de flores. Genebra no Verão é menos austera - ou parece, pelo menos.

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As «coisas» avançam, as bolas continuam a girar no ar. Parece-me que descobri finalmente um porto onde amarrar os dias que faltam até tudo se transformar num pasto de insectos e bactérias variadas, castanho escuro ou negro. A ver. Um monitor do tamanho de uma piscina, filmes, livros, música, ervas na horta - se alguém um dia me tivesse dito que sonho ter ervas plantadas por mim ter-lhe-ia respondido para se ir tratar com urgência, eu que mal olho para uma planta a faço morrer, coitada - e viagens com bilhete de ida e volta, como toda a gente. 

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Enquanto espero, apareceu no horizonte uma luz fraquinha de um transporte para o Canadá. Está muito longe e é mesmo fraca, mas estou tão sedento de mar que é suficiente para me fazer sonhar.

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Entretanto, vou cozinhando, dormindo e fazendo muito menos do que queria fazer. «Aproveita». diz-me S., cujos dias estão cheios como um ovo. Gostaria de aproveitar muito mais, sim, mas ainda não estou capaz. A encosta está cada vez menos íngreme e verde, a pedra cada vez menos pesada e a Lua ontem estava fascinante, de tão branca e brilhante. O resto virá por acréscimo, degrau a degrau.

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A demência continua, em todo o lado. Tento não pensar nela, mas depois ocorre-me que representa muito provavelmente noventa e nove por cento do peso da pedra e amaldiçoo-a de novo: que chovam asteróides sobre os malditos que nos condenam a esta sub-vida, como se fosse um substituto de vida, como se valesse a pena não-viver para sobreviver, como se um ano de palhaçada não fosse um ano a mais, um ano demais, um ano subtraído a uma vida traída. Que morram esmagados pela sua demência, exalto-me no sonho, como se os asteróides fossem teleguiados e não obra do acaso, o grande - o verdadeiro - mestre disto tudo.

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A vida não me deve nada, mas eu devo-lhe muito. Deve ser a única assimetria de que sou claramente ganhador.  

27.3.21

Holofote encarnado

Não sou pessimista, não acredito que vamos ficar confinados mentalmente para o resto dos tempos, mas cada vez que penso nisso tenho uma luz encarnada a acender-se e essa luz é cada vez mais potente. «Isto não pode ser senão passageiro» e o raio do holofote acende-se. Não vamos passar o resto do tempo a desconfiar uns dos outros, a não perceber como funciona um sistema imunitário, a ouvir - e acreditar em - charlatões, a respeitar governos para quem a lei ou a constituição valem menos do que o papel higiénico com o qual se limpam (refiro-me à merda não metafórica, a literal. Da outra, não só não se limpam como se orgulham), não vamos transformar a ciência numa sessão da IURD, o jornalismo vai corrigir-se e voltar a ter um módico de decência, deixar de ser o megafone dos governos...

Raio do holofote.

O circunflexo no a

 «Il n'y a pas d'âge pour être heureux», diz-me uma publicidade qualquer numa montra, não sei se com o circunflexo no âge - é cada vez menos usado, o AO90 é simplesmente um cume numa cordilheira de conneries, não é de modo algum uma colina isolada. Não reparo no acento - reparo apenas neste assalto constante - ou melhor, na minha hiper-sensibilidade a este assalto constante, permanente, insistente como o cheiro de um esgoto. A vulgaridade, a banalidade, o lugar-comum, clichés saídos da cabeça de gajos pagos a peso de ouro para descobrir o menor denominador comum, o ponto mais baixo que atinje mais gente - necessariamente, naquilo que têm de mais básico: o lugar-comum, o lugar comum. Cada vez suporto menos esta modernidade, eu sempre tão tolerante, tão «il faut être moderne», tão «não deixes atingir-te aquilo que não te toca», tão «não deixes tocar-te aquilo que não te atinge», tão ao lado deste mundo. Não é uma frase feita, sempre estive ao lado e de repente agora parece-me que deixo de o estar, uma frase idiota numa montra fere-me, as idas aos supermercado estão cada vez mais difíceis, cedo às promoções só para não me chatear e para me despachar mais depressa, para não pensar, não procurar - para sair dali o mais depressa possível. 

Isto seria um sinal do além, se acreditasse em aléns, mas não acredito. Acredito no aqui e agora, no que vejo e sinto e imagino e penso e adivinho, mas em aléns não sou grande crente. Aliás, não vejo sequer a modernidade como um inferno - não passa de um lugar cheio de merda com muitas coisas boas (cada vez menos? Não sei. Só quem tinha grandes ilusões sobre a humanidade pode estar desiludido com esta palhaçada toda. Eu tinha, mas não deviam ser assim tão grandes porque me apercebi rapidamente do que nos esperava. Pelo menos percebo melhor agora porque sempre estive ao lado, porque nunca fui «parte disto», nunca integrei um rebanho. Nem um grupo, sequer, quanto mais uma manada. Só não percebo porque me magoa tanto, como se estivesse em carne viva, como se o mundo se tivesse transformado em papel de lixa quarenta, como se isto tudo me fosse dirigido a mim, só a mim).

Enfim, não tanto. «Não há idade para ser feliz»? Não reparei sequer se tinha o circunflexo no a, quanto mais que empresa era... 

25.3.21

Acontece a todos

"Ler maus livros ajuda-me a detectar melhor as minhas falhas do que ler bons. Os bons livros reduzem-me ao desespero."

(William Gaddis, in ágape, agonia, ed. Ahab)

Um primário binário...

Aos sessenta e três anos descubro-me binário: gosto de portas ou abertas ou fechadas. Tudo, menos entreabertas.

Direito de cidadania

Não estará já na altura de conceder a «constatar» direito de cidadania plena? «Detalhe» concordo em manter no limbo dos estrangeirismos porque temos «pormenor», muito mais bonito. Mas «constatar» não tem equivalentes tão bons na nossa língua. Enfim, talvez «comprovar». Não sei. A verificar.

Ao engano

Metade de nós anda à ròla do tempo e a outra metade tem um leme e um rumo.

Ambas estão enganadas. É o tempo que passa por nós, imóveis como as colunas do Cais. São o rio e a luz, para cima e para baixo, que lhes dão forma e vida.

Estação terminal

A linha (de metro? De comboio? De autocarro?) "Amo-te" tem imensas paragens. Pergunto-me se terá um término e se sim, quando lá chegarei?

24.3.21

Baça, vida

A beleza baça de uma vida sem lustro. Talvez levá-la ao engraxador dos Restauradores, à frente dos correios. É muito bom e é surdo-mudo, uma vantagem para algumas vidas. Já o L. da rua das Portas de Santo Antão, ao lado da Ginginha Popular, fala que se farta; mas não engraxa mal. Não tão bem como o Surdo (é a alcunha do outro), mas enfim, merece gorjeta e tem a vantagem de podermos comer uma tira de  choco enquanto esperamos. 

Não sei. Talvez seja melhor manter baça a vida.

Falar do silêncio...

... Com palavras?

Redundância

Farto de transparência. Quero opacidade, obscuridade, certezas. Farto de dúvidas. Dai-me a escuridão da certeza, o seu caminho balizado, alcochoado, almofadado. Duvidar cansa. É tão bom, acreditar. Olhai bem para os olhos termos do crente, tão suaves. Quase mortiços. Creis que é por acaso, o "vida" de dúvida? Desenganai-vos. Será quando muito uma redundância. Cansativa, como todas as redundâncias.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 24-03-2021

Passeio grande por este fantasma no qual me sinto o único sólido. Tudo o resto são sombras, plasmas, sapatos Loubotin a mais de mil euros (e horrorosos, ainda por cima), um Rolls que parece um Porsche, relógios Franck Muller que nem o preço têm marcado, canetas no Brachard a mil e quinhentos francos. Bem vindo à terceira cidade mais cara do mundo, a cidade na qual se fundem Calvin, o Mediterrâneo e o resto do mundo - separados, antitéticos mas não conflituosos porque estamos na Confederação Helvética, ao fim e ao cabo - a cidade em cujas ruas os meus fantasmas se dissolvem a tal ponto que invadem o espaço e se transformam nele. 

As mulheres continuam lindas, mas agora menos porque têm de usar máscara nas lojas e nos autocarros; valem-nos as ruas, a nós estetas adeptos de Darwin. E vale-nos este dia lindo, azul do céu e branco da neve nos cumes do Jura, as ruas limpas, os tramways quilométricos, enormes tapetes voadores que de cinco em cinco minutos traçam silenciosamente um risco na cidade.

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Dia de B. vir cá jantar. Lulas recheadas e St. Saphorin. Parece-me uma boa mistura.

Monólogo do poço

- Isto da solidão é como um poço sem água.

- Não digas nada a quem não te ouve.

- A quem te ouve tão pouco digas o que quer que seja.

- Limita-te a cair por esse buraco abaixo.

- Um poço ao qual não sabes se caíste empurrado, se por acidente...

- ... Se por escolha. Não sei.

- O poço não tem água. 

- Isso já tu sabias, a meio da queda.

- Não sabia. Era uma hipótese.

- É bom confirmar hipóteses. 

- Deixei de te ouvir.

Primavera

Amanhã,  a temperatura vai subir para uns estonteantes dezassete graus. A mínima, porém, continua cá por baixo, nos dois ou três. O mar, esse grande atenuador, não chega cá. 

As máximas voltarão a descer, a subir, as mínimas também e um dia as mulheres sairão à rua sem os aprestos de inverno. Esse sim, será o começo da Primavera.

Branco e limpo

Fazer nessa pela, nessa estepe, um plano de voo. Mergulhar em voo picado como os Stukas ou - sei que preferes - os cormorans. Perder-me na alvura das manhãs, reencontrar-te nas florestas, nos meandros do desejo, na gruta de onde nasce o Sol, nessas luzes com que me olhas e alumias . 

Perder-me em ti, reencontrar-me em nós, navegar nesse corpo de neve, esquecer-me do frio, abraçar essa vastidão, branca e limpa como o tempo.

23.3.21

Estratégia vencedora

O império do mal apercebeu-se de que com esse nome não ia lá. Mudou-o e agora sim, está vencedor. Chama-se império do bem.

A Besta está de volta

Um senhor acha que quem não acredita nas «medidas» (aspas porque é trocista) é estúpido, ignorante e arrogante. O modus cogitandi do tempo é sem dúvida religioso: os «negacionistas» são os novos hereges, a fogueira real é substituída por fogueiras virtuais nas redes sociais - apropriadamente chamadas flaming. Cada micro-religião laica tem as suas santas - santa Greta, santa Marielle e por aí fora - e a comunicação social faz de nova igreja, imitando a da Idade Média cuja uma das funções era transmitir ao povo as informações reais. Nada disto me parece glorioso. Malraux dizia que não disse mas afinal disse que o século XXI seria religioso ou não seria. O que não previu foi que a religião não seria uma - pelo menos no Ocidente - mas sim uma colecção de crenças laicas. O Frederico do final do século XXI não anunciará a morte de Deus, mas sim a dos deuses. A intolerância instala-se, vestida de «cidadania», «bem público», «altruísmo», «bondade». Por uma curiosa torção do bom senso, os que querem promover a «igualdade» e a «inclusão» fazem-no criando divisões e clivagens onde elas não existiam ou aprofundando as que sim.

A Besta está aí, de novo. É preciso lutar contra ela.

Pequeno-almoço no hotel do tempo

Enigma com ovos estrelados, bacon e duas torradas, se faz favor.

Reconhecimento

Sobrevoar memórias futuras, como os aviões de reconhecimento das guerras: o que é hoje não será amanhã. 

Abismos e abismos

Gosto de cair para os abismos que estão por cima de mim. Às vezes engano-me, é verdade, e vou parar aos que estão por baixo.

22.3.21

Zeitgeist e fontes de informação

Não sou historiador e não posso afiançar, mas pergunto-me se o peso do zeitgeist hoje não estará ao nível do da Idade Média? Na Idade Média éramos poucos e a principal fonte de informação oficial era a Igreja - sublinho oficial: havia outras, como o rumor e o boato (que se mantiveram até hoje, mas com um alcance e uma rapidez bastante diferentes).

Não deixa de ser curioso - ou assustador - viver uma época na qual analisar problemas com recurso a dados quantificados seja visto como burrice, idiotice e outros mimos e acreditar acriticamente no que dizem governos e comunicação social seja sintoma de inteligência. (Só esta associação de governos e jornais tem que se lhe diga...) É como acreditar na Igreja da Idade Média, com uma vantagem: a alternativa não são apenas rumores e boatos. 

21.3.21

Dia do sono

Os dias disto e daquilo dão-me imenso sono, mas não consigo deixar de pensar em todas as pessoas que gostariam de os trocar todos por uma simples «Noite do sono». 

Se eu morrer (testamento covidiano)

A minha vida deixou de ter ameaças de morte («ameaças» no sentido de possibilidades), seja por minha «culpa», seja devido aos progressos da meteorologia, seja porque me meto menos em aventuras - ou ninguém me quer para elas, não sei. Pouco importa. Tenho o cabaz cheio de foices que me passaram ao lado, muito perto. Às vezes penso nelas, em tudo o que não teria feito se me tivessem acertado, na sorte que tive em quem as manejava ter sido desajeitado naquele dia, naquele momento, comigo. É possível que ainda me apareça alguma, claro - não tenciono passar o resto da vida confinado para não morrer - e se aparecer cá estarei para desafiar a sorte, a habilidade ou a carcaça, a quem tanto devo.

De todas, aquela de que tenho menos probabilidades de morrer é a Covid. Nem sequer de a apanhar, claro, porque sabe-se hoje que o vírus é muito menos contagioso do que se vendeu no início, porque ser gordo não é ser obeso, porque a diabetes que tenho não passa de uma ilusão de óptica (o meu médico de família não lê o DV, é um homem sensato), porque tudo indica que já a tive, porque - enfim - não me «apetece» (isto não é infantilidade, mas não vou desenvolver muito).

Aconteça o que acontecer, se o vírus me apanhar é a mim que apanha. Não mereço que se feche o país para eu não morrer de - ou, estatisticamente mais provável, com - Covid. 

Nem eu, nem ninguém. A morte, seja ela provocada pela doença, pelas escolhas de vida de cada um ou pela escolha simples de cada um é um processo individual, por muito que o Dylan diga que não é o fim. Mas não falo pelos outros - falo por mim, eu, rapazinho maior e vacinado (não contra a Covid), cujo cabaz de foices apesar de cheio ainda tem lugar para mais uma, inevitável. Não fechem o país por tão pouco, não fechem os cafés e bares e restaurantes onde espero que a minha morte seja celebrada com um inesgotável chorrilho de rhum punches, Alexanders, vinho tinto Haut Marbuzet, ti' ponches, cervejas Red Stripe e Smithwicks, whiskies Talisker, Lagavulin ou Laphroaig, rum Mount Gay (ou El Dorado ou Flor de Caña ou Trois Rivières ou assim), mai-los nacos de carne com três centímetros de espessura entre o cru e o mal passado, chili con carne picante de fazer um cavalo chorar, garoupa assada nas brasas ou no forno, as Vésperas de Rachmaninov, a Ressurreição de Mahler, as Suites Inglesas de Bach tocadas por Glenn Gould, a música eterna de Hildegarde von Bingen, leituras de Borges, Yourcenar, Beckett, García Márquez, Pessoa, Alexandra Pizarnik, Cavafis e miúdas giras, muitas e muito... E vida, vida, vida. Não vai acabar comigo - nem com mais ninguém. 

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 21-03-2021

Genebra recebe-me luminosa e fria, nobre e seca. Fria e nobre sempre foi. A novidade nesta altura do ano é não estar a chover. O dia está lindo, cheio de sol e de  vento - está de bise, esse vento gélido que vem do Norte e no Verão faz as delícias de quem navega à vela no lago. Sinto-me a visitar um fantasma - curiosa inversão do habitual, costumam ser eles a visitarem-nos e não nós a eles. Genebra é o fantasma de uma mulher bela quem em tempos amei e me recebeu e no qual agora passeio neste parque cheio de gente mas sem barulho, nestas ruas igualmente silenciosas. Plasma sem pés, desliza a meio metro do solo e atravessa-me sem que o veja, mas sinto-o. 
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Quase ninguém de máscara, menos de cinco por cento das pessoas, numa estimativa a olhómetro. Mas a loucura é a mesma - os cafés e restaurantes estavam para abrir por estes dias e vão continuar fechados mais um mês. Muda o grau. mas não a substância. Isto dito, não se cospe na sopa - aqui pelo menos não tenho de andar mascarado na rua e alegro-me com isso. Não tarda tenho uma bicicleta e safo-me dos transportes públicos. Sobrarão as lojas, nada a fazer. 

«Guernesey, severa e doce» E: «J’ai voulu indiquer que, lorsqu’il s’agit d’être aimé, Tout faire est vaincu par Ne rien faire.«»

«Je dédie ce livre au rocher d’hospitalité et de liberté, à ce coin de vieille terre normande où vit le noble petit peuple de la mer, à l’île de Guernesey, sévère et douce, mon asile actuel, mon tombeau probable.»

V. H.

«La religion, la société, la nature, telles sont les trois luttes de l’homme. Ces trois luttes sont en même temps ses trois besoins ; il faut qu’il croie, de là le temple ; il faut qu’il crée, de là la cité ; il faut qu’il vive, de là la charrue et le navire. Mais ces trois solutions contiennent trois guerres. La mystérieuse difficulté de la vie sort de toutes les trois. L’homme a affaire à l’obstacle sous la forme superstition, sous la forme préjugé, et sous la forme élément. Un triple ananké1 pèse sur nous, l’ananké des dogmes, l’ananké des lois, l’ananké des choses. Dans Notre-Dame de Paris, l’auteur a dénoncé le premier ; dans les Misérables, il a signalé le second ; dans ce livre, il indique le troisième. 

À ces trois fatalités qui enveloppent l’homme se mêle la fatalité intérieure, l’ananké suprême, le cœur humain. »

...


«J’ai voulu glorifier le travail, la volonté, le dévouement, tout ce qui fait l’homme grand. J’ai voulu montrer que le plus implacable des abîmes, c’est le cœur, et que ce qui échappe à la mer n’échappe pas à la femme. J’ai voulu indiquer que, lorsqu’il s’agit d’être aimé, Tout faire est vaincu par Ne rien faire, Gilliat par Ebenezer. J’ai voulu prouver que vouloir et comprendre suffisent, même à l’atome, pour triompher du plus formidable des despotes, l’infini.»

Victor Hugo

20.3.21

Biologia, ética

O homem é um animal gregário, como os elefantes, os golfinhos, os lobos ou os cães, por exemplo. Mas destas espécies todas, é a única que está sujeito a duas forças centrípetas, por assim dizer: a biologia (que tanto pode ser centrípeta como centrífuga) e a ética. Sobre a primeira, pouco ou nada pode agir; sobre a segunda, não só pode como deve.

A mecânica das coisas

A questão não é atribuir culpas. Cada um dos actores desempenhou o seu papel: 

  • Os media rentabilizaram a crise e (espero) capitalizaram-se. Fica por definir o papel dos media públicos, como a RTP, mas isso é outra história; 
  • Os políticos geriram a sua carreira política - o verdadeiro trabalho de um político é ser reeleito. Eleito qualquer um é; 
  • As pessoas tiveram medo - uma emoção primária. Ninguém «escolhe» ter medo. Todos temos níveis diferentes  de aceitação do risco e pode eventualmente elaborar-se, mas o medo não é uma opção voluntária.

Nada disto é questão de complots ou «great resets». É simplesmente a mecânica das coisas. Poderia ter sido diferente? Sim, claro. Mas isso implicaria políticos que fossem homens de Estado ou não tivessem acesso às rédeas - como na Suécia -, media que ainda fossem media - coisa que deixaram de ser há muito tempo - e pessoas que se informassem antes de reagir - suponho que nunca houve. Só nos indignamos agora porque pensamos que a informação está acessível e blablablá. Não está. A informação só está acessível para quem a ela quer aceder. Só somos gansos a quem enfiam o que querem pelas goelas abaixo para parte da informação, não para a totalidade. E - ao contrário dos gansos - engolimos porque «queremos». Porque temos medo. Porque a biologia é o que é.