A livraria inglesa de Palma está fechada para férias. Encomendei is livros sugeridos pelo G. C. na de Lisboa. Vão ter de esperar pelo meu regresso. Esse pelo menos tem die.
9.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 09-08-2026
A livraria inglesa de Palma está fechada para férias. Encomendei is livros sugeridos pelo G. C. na de Lisboa. Vão ter de esperar pelo meu regresso. Esse pelo menos tem die.
8.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 08-08-2026
A farmácia que não me deixava entrar com a bicicleta fechou. Tenho pena. Não contribuí muito para tâo triste desfecho. Apesar de ter de deixar a burra à porta ia lá mais do que às outras. O senhor inspirava-me confiança. Hoje fui a uma das sobreviventes (Eram três. Agora são duas). Comprei vitamina B12. Parece que ajuda a combater o cansaço. Estou cansado de me ouvir dizer que estou cansado. Também comprei Voltarene, ver se curo esta porra desta inflamação no polegar direito. Três semanas de incómodo justificam o investimento. Aquela porcaria é cara pra burro mas a verdade é que é eficaz. Depois fui à roupa e agora tomo o pequeno-almoço no mercado. Vou comprar especiarias ao Cristian. Hoje vai ser o dia das paprikas e pimentões. Tenho de comprar um almofariz na Culinarium. Se tivesse de fazer um desenho da minha vida em Palma sairia um círculo com centro no Olivar? Circulo não, mas elipse sim e um dos focos seria aqui de certeza. O meu café favorito no mercado chama-se Can Jaume. "Artesans des de 1927", verbatim. Porém, é raro comer aqui. Prefiro os "restaurantes" - o Xisco, o Hugo, o Corner aonde já só vou para o vermute. As tapas são boas e caras. O Can Jaume é um sítio honesto, tem tapas correctas a preços idem. Hoje vou almoçar ao Xisco com o V. Se tiver secretos, claro. Se não vou à Selecta para uma sandocha de presunto. E se em vez de ser uma figura geométrica a minha vida em Palma fosse um sistema de caminhos de ferro? Carris, agulhas, estações, apeadeiros, salas de espera... Märklin de vida, deslumbramento infantil, com uma diferença: este não passará.
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O jantar foi metade do resto da arepa que trouxe do Cric & Croc, a sobra do vinho branco de ontem, a sobra da melancia (uma boa merda, de passagem seja dito), um mochi de maracujá e cento e vinte e cinco de sake da casa no Otaku. A resposta à pergunta "Porque é que todos gostam de Palma?", que eu tantas vezes me fazia quando aqui cheguei, está em cada esquina.
7.8.26
Diário de Bordos - Palma ,Mallorca, Baleares, Espanha, 07-08-2026
Convido V. para jantar. Frango à Gaston Gérard, uma dessas receitas francesas que requerem três panelas, duas frigideiras e um ralador de queijo por cada cem gramas de carne. Não me queixo do resultado: penso que pode ser um pouco melhorado, é tudo. V. gostou e provou-o servindo-se várias vezes. Não digo quantas por discrição. Depois do jantar fomos beber um sake ao Otaku. É uma escala importante antes do sono.
Chego a casa cansado, como ando sempre. L. mandou-me uma dessas tretas da net segundo a qual esta fatiga perene é provocada pela falta de vitamina B 12, ela mesma consequência da metformina. Amanhã vou comprar a tal vitamina - que de resto já tomei por recomendação da M. durante a parte aguda da crise. Por muito céptico que seja a respeito desses milagres do FB o efeito placebo não é mito nenhum.
J., a filha de M. (dona da casa) e o namorado dizem-me que me lavam a loiça e venho deitar-me.
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O charter com as miúdas acabou bem. Cinco raparigas jovens, bem educadas, bonitas. Não acredito que seja aqui o virar da maré mas se vier será muito bem recebido. Já tem pelo menos dois prenúncios.
6.8.26
Diário de Bordos - Puerto Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 06-08-2026
Estaria pronto a apostar que estes foram os piores saltimbocca alla romana da minha vida. Só não o faço porque não gosto de apostar quando tenho a certeza de que vou ganhar. A única coisa em meu favor é que não foi uma surpresa. Ou melhor, foi-o só parcialmente: estavam piores do que esperava. Vim a um restaurante que dantes era o melhor italiano de Puerto Andratx. Depois foi comprado por uns indianos que mantiveram o menu. Não é a primeira vez que aqui venho depois da mudança. Mas como hoje comi razoavelmente ao almoço, no Foradada com nova gerência (atenção: razoavelmente. A paella estava a léguas da do Sa Premsa) e como não quero gastar muito dinheiro e como continuo a não conseguir comer pizza e de qualquer forma estou em modo peregrinatio e... e... e... cá vim. E hei-de voltar, eu sei. Não preciso de um cilício para me mortificar. Um mau restaurante serve perfeitamente.
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Quando chegou a hora de pagar mostro o cartão e o senhor, desolado, aponta para uma folha de papel colada à porta e que aparentemente fazia referência à não aceitação de cartões. Digo "aparentemente" porque não a tinha visto e continuei a não lhe ler o conteúdo. Pergunto aonde é a máquina mais perto e o senhor diz-me que não é preciso. Posso pagar amanhã ou depois. Digo-lhe que não e vou levantar o dinheiro. Amanhã quero sair cedo. Não deixo porém de ficar igualmente impressionado com a técnica de marketing e comovido. Sou um rapazinho sensível, essa é que é essa.
Lá paguei ao homem e fui para bordo esvaziar o dinghy. Parecia uma piscina.
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Recupero desta mistura de emoções e esforço físico com um Negroni no bar N° 11, um bar calmo adequado a um senhor que sofre de excesso de aniversários. As piquenas estão no Tim's, mais feito para aquela faixa etária.
O Negroni estava bom e resolvi aventurar-me num Mai Tai. Grotesco. Tenho de voltar ao Trader Joe em Oakland. Acabar a noite no nível de qualidade com que a comecei faz-me pensar em elevadores circulares.
4.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 04-08-2026
Oito horas numa Saxdor 320. Dois motores Mercury fora-de-borda de trezentos cavalos cada, electrónica última geração, oito horas das quais pouco mais de uma a navegar e o resto fundeado em Ses Iletes. Deve ser a primeira vez que alguém me pede para passar um dia inteiro naquele sítio, mas bom. Estar seis horas parado a fazer nada senão prestar atenção a quem chega e a quem vai, ainda por cima sem comida por esquecimento (meu), tanto faz estar aqui, ali ou acolá. A «cala» - aspas porque aquilo não é propriamente uma cala - estava cheia, como sempre. Encontrei um canto perto da praia e por ali fiquei. Os clientes eram porreiros, não chatearam nem um minuto. Tinha o fato de banho no saco mas decidi não usar a velha desculpa do «vou verificar o ferro». Estoicismo, meu caro. Estoicismo. No regresso apanhei um táxi, uma senhora linda e deliciosa de mais para ser descrita em palavras. Acabámos a falar de política. Acha o Sanchéz um psicopata e tem pena de não poder sair de Maiorca porque o namorado não quer nem ouvir falar disso. Tudo numa voz juvenil, doce, suave, sorridente. É tão bom ter a idade que tenho e ser capaz de apreciar estas coisas só por elas, só porque são bonitas.
2.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-08-2026
1.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-08-2026
Janto no Mestis, restaurante de que me tenho mantido afastado não sabia bem porquê. O principal impedimento talvez fosse o nome: demasiado perto do meu bem-amado Café Métis, em Genebra; ou porque é demasiado zeitgeist para meu gosto. Não sei. Sei que saí de lá nem vencido nem convencido. Terei de lá voltar, tirar dúvidas. Amanhã, contudo, não será a véspera desse dia. Agora só quando aparecer mais trabalho. Nunca vi nada de errado em trabalhar para comer e não é agora que vou começar. Tanto mais que os dias que aí vêm são de forte contenção.
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Pequeno incidente na cala S'Algar: ia atropelando três nadadores. É um daqueles casos em que a culpa ou não é de ninguém ou é de todos mas apanhei um susto que me pôs o sangue a circular à velocidade de um Fórmula Um na recta final de um percurso. Felizmente não aconteceu nada e as três quase vítimas - que seriam tão culpadas como eu e como o skipper do barco aonde estavam - riram-se e disseram que estava tudo bem. Esta é uma daquelas vezes em que penso nas invectivas que Paulo Pernão faz aos skippers de charter. Numa cala enorme e cheia de espaço para fundear aquele idiota vem fundear mesmo em cima de mim e do barco que estava à minha proa. Quando fui para levantar ferro houve confusão, claro. Bom, um lembrete para mim e uma boa lição para o marinheiro, que estava à proa no ferro e também não viu as pessoas na água. As quais pessoas tinham abandonado o sítio aonde estavam quando isto tudo começou e se dirigiam para a sua embarcação sem ter a precaução de olhar. Não tarda paro de vez com o charter.
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A entidade que gere as instalações da estação Intermodal de Palma aumentou o parque de estacionamento de bicicletas. Continua insuficiente, claro. O que me intriga é porque não multiplicaram logo o número de lugares por três ou quatro. Tenho encontrado lugar, mas à custa de malabarismos para os quais me faltam a agilidade e a paciência.
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Descansar, esperar que a injecção esteja à boa temperatura, relaxar e dormir. Assim de repente parece-me um bom programa. Só falta ver qual as partes que não se concretizam.
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A injecção não estava à boa temperatura. Não é grave: dói um bocadinho mas passa depressa. Tentei ler, mas a luz é horrível e não consigo. As alpergatas velhas vão para o lixo. Com sorte, amanhã terei o meu cinto, que tanta falta me faz. E ainda há quem creia que isto é uma vida monótona?
31.7.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 31-07-2026
Este chauffeur pertence claramente à divisão racing dos TIB - Transportes das Ilhas Baleares, numa tradução à letra - e eu dou graças a Deus. Vamos para Oeste, o Sol já se pôs debaixo de água mas o dia ainda não cedeu o lugar à noite, a autoestrada parece uma tábua de passar a ferro, estou exausto (isto vai tornar-se o meu segundo nome), amanhã tenho mais um dia inteiro de charter, o marinheiro que me saiu na rifa é impecável e a minha grande dúvida agora é: aonde ir jantar? Hesito entre o Piccolo e o Otaku. Aquele é um do melhores italianos de Palma; este, o mesmo mas em japonês. Gyozas ou milanesa? Saké ou vinho tinto? Vou deixar a burra decidir. Ambos são ao lado de casa (o japonês um bocadinho mais porque não é ao lado, é por baixo) e na verdade estou-me nas tintas. O que não for hoje será amanhã.
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A bicicleta optou claramente pelo Otaku. Hesitou ligeiramente quando passámos à frente do francês - ando para o conhecer desde que aqui cheguei, em dois mil e dezoito - mas foi coisa relâmpago. Dois minutos depois estava estacionada à frente das gyozas e do saké e em outros tantos estava eu com dois decilitros e meio do coiso da casa na mão. A burra é esperta. É uma Btwin que saiu excepcionalmente bem. O Ivo chama-lhe "a tua bicicleta" e eu "a minha". No fim da época veremos quem tem razão. Algo me diz que a teremos os dois.
A especialidade do Otaku são os ramen, coisa de que não sou grande fã. Já dos gyozas sou e muito. E do dono disto, também. Admiro o seu sentido do serviço. Este homem desconhece a palavra Não.
Enfim, a verdade é que sou fã de Palma e agora - isto é, depois do miso - só espero que Btwin concorde em levar-me ao Claudio, que não terá uma fila de cem metros. Tanto mais que o Otaku já não tem o gelado de chá verde. E que eu estou ligeiramente grosso e muito menos cansado. O meu almoço foi um cachorro quente no xiringuito da cala Domingos e isso visivelmente não chega, tanto mais que o pequeno-almoço se ficou por um croissant no Pepe.
É preciso reconhecer qualidade ao dito cachorro. Estava ao nível do preço.
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Despacho os meus decilitros de saké e decido que vou ao Claudio, quer a burra queira quer não. Se estiver de bicha logo se verá. Aí, Samurai!
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A fila no Claudio não chegava à Lua mas andava lá perto. Venho ao After Landing beber uma "pila conada" (aspas porque tem direitos de autor). A burra não tugiu nem mugiu. Amanhã vou ao Jazz Voyeur. Diz que está óptimo. Por onde é que andará o Stéphane do Porta 13? Porque é que não há um Procópio (ou um dos seus irmãos) em Palma? Porque é que tenho de me levantar cedo amanhã? Detesto adiar noitadas.
29.7.26
Sedentarização, nomadismo
Sou de três cidades - Lisboa, Genebra e Palma -, digo isto e apercebo-me de que Moçambique está fora da lista e de que estive de passagem por meio mundo. Sorte? Azar? Se tivesse de escolher, escolheria a primeira opção. É uma sorte, por muito maus que sejam os dias. Ou os anos ou o que seja. Viajar não nos torna melhores nem piores. Faz de nós, simplesmente, o que somos: nómadas em busca de sedentarização, sedentários à procura de diferenças.
A cada um a sua Casablanca
Coincidências, netas e livros
Assimetrias
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 29-07-2026
28.7.26
Breve interlúdio sobre a troca de preconceitos musicais
Ando para aqui a dar voltas ao penico e isto não me sai. Uma das razões é o Paco Ibañez que oiço: nada do que escreverei será melhor. Mas esta não é a única e eu pergunto-me se não é melhor contar a história em linha recta. Começa porque uma senhora que muito aprecio ler me recomendou um músico de rap / hip hop. Comecei a ouvi-lo de vez em quando e gosto bastante - pelo menos do que ouvi até agora. Falta-me contudo perceber o que o homem canta (ou declama). O artista chama-se Kendrick Lamar e parece muito mais sofisticado e complexo do que aquilo que normalmente (não) oiço com etiqueta rap ou hip hop. A ouvir vamos, como dizia o surdo.
Isto dito, o post não arranca porque este desafio - é o termo correcto - me fez pensar em todos os a priori musicais que o tempo, pela voz de várias pessoas, me levou a transformar em novos a priori, exercício ao qual me dedico com deleite e não só na área musical, longe disso.
"Não gosto de jazz", dizia até o M. R. me fazer ouvir jazz. "Não consigo perceber o raio da música electrónica. Podes dar-me um nome que seja uma boa porta de entrada?" pergunto já não sei a quem. "Ouve o Swayzak. Vais gostar". Gosto, muito. Já o amor pela música de Hildegarde von Bingen não precisou de nenhuma pirueta mas isso são contas de outros rosários. Ou as Vésperas de Rachmaninoff, ainda de outros.
Derivo. Depois de amanhã vou poder ouvir o dito Lamar e acompanhar as letras. De uma coisa já estou certo: aquilo é uma fusão de música e poesia como não oiço desde o Leonard Cohen (se bem lhe fique a anos-luz. Isso não é critério. Todos lhe ficam a anos-luz).
O meu ziguezague musical parece mais um labirinto no qual de vez em quando se abre um novo caminho, uma nova bifurcação. É preciso trocar de preconceitos como a lagosta muda de carapaça: para crescer.