8.6.26

O SNS e o telefone

Responder ao telefone provoca cancro, tuberculose, sarna, miopia, distrofia muscular e outras DST. É por isso que os diversos componentes do SNS não o fazem. A pergunta que me faço - e de caminho faço aqui - é: porque põem eles um número na sua lista de contactos?

Verdade seja dita: responderem serviria de pouco. Situações como a minha devem eles ter trezentas por dia. Não há mecanismo de defesa que chegue para aguentar tamanha vaga de queixas, inquirições e provavelmente revoltas. O silêncio é o melhor remédio.

Ponto ao meio-dia

a) Hospital de Cascais - a consulta está agendada para daqui a duas semanas, «a menos que haja um buraco na agenda do doutor, em cujo caso ele o chamará antes»;
b) Hospital Egas Moniz - é preciso aguardar a referenciação pelo centro de saúde de Cascais;
c) A nova medicação (ainda?) não está a produzir resultados, pelo que as dores, a impossibilidade de me deitar e a de andar se mantém;
d) Continuam a aparecer possibilidades de trabalhos, às quais não posso dar uma resposta definitiva como explicado em a) e b);
e) Fisicamente a referenciação ao Egas Moniz poderia ter sido feita no sábado. Não o foi devido aos procedimentos do SNS, que impedem um centro hospitalar de referenciar pacientes para outro (se percebi correctamente, o que não é garantido. Parece-me absurdo demais);
f) Entretanto já me ligaram de uma clínica privada. Podem fazer-me um exame gratuito na quinta-feira. Disse que sim, claro;

Ou seja, só me resta esperar pela agenda do médico de Cascais e pela resposta do Egas Moniz. O resto é palha, conversa de encher chouriços, verborreia. Em resumo, perda de tempo. Tentativas de apoio psicológico ou de suscitar a compaixão alheia (da minha estou servido, obrigado). Ou então tentar concentrar-me no mais que tenho de fazer, apesar das dores, coitadinho de mim.

E ainda há quem tenha dúvidas sobre a eficácia do SNS! 

Diário de Bordos - Lisboa, 08-06-2026

O dia começa com as agora habituais dores na perna direita e eu pergunto-me por quanto tempo mais os terei a começar assim. Já lá vai semana e meia deste horror, remédios às dúzias, médicos, exames, raios X, TAC... Não há quem não tenha olhado cá para dentro ou ouvido-me contar a mesma história vinte vezes, ne varietur, anti-inflamatório para cá, analgésico para lá e eu só penso no anti-inflamatório que em Antigua pôs fim a dois anos de dor no calcanhar ou no que em Palma me receitaram já não sei para quê e agiu como varinha de condão nas mão de uma fada experimentada e por que raio de carga de água ninguém o tem aqui e ninguém acerta e ando para aqui a gastar um dinheirão em táxis, Uber, Bolts mai-los raios que os partam, para não mencionar a massa que deixo na farmácia e na que deixo de ganhar porque não posso trabalhar, saúde e massa andam sempre de mãos dadas, ou se tem massa ou se tem tempo.

Isto dito, se por acaso a senhora ministra da saúde precisar de um consultor para resolver o problema do SNS estou disponível. Dou-lhe uma dica, senhora ministra: centre o SNS no paciente, faça dos desgraçados que têm mais tempo do que massa (não é bem o meu caso, mas por agora não faz mal. Não tenho nem uma nem outro) o centro em torno do qual o SNS age e não o contrário, é fácil, há milhares de empresas por esse mundo fora que aplicam a receita em vez de ser eu a girar como uma andorinha que se enganou de cogumelos à volta do SNS. E quem diz eu diz os outros todos, não sou o único, antes fosse. E vejam lá se me põem um anti-inflamatório que me anti-inflame - analgésico já tentaram, eu sei, mas não resultou, já tirei os pensos, aquilo só servia para me irritar ainda mais.

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Pequena nota à margem: os queques de noz da Rialva são bastante bons. Ao menos isso. Imaginem a desgraça se fossem maus.

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Hoje comecei a preparar a mochila como se estivesse tudo normal, sem dores e com dinheiro e depois lá tive de a esvaziar de metade. A lista de afazeres vai levar poucos cortes, coitada. Também verdade seja dita: um só telefonema ou mensagem do Hospital de Cascais seria suficiente para me preencher o dia de alegrias. Enfim, dependendo do conteúdo.

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Não haverá por aí quem possa ensinar os empregados de café portugueses a não fazer barulho quando arrumam pratos e chávenas de café e talheres? Se por acaso as escolas de hotrelaria precisarem de um consultor, já sabem. O número 912 420 620 está à disposição.


(Cont.)

7.6.26

Diário de Bordos - Lisboa, 07-06-2026

Os meus três objectivos da última semana parecem-me simples e legítimos: poder dormir estendido na cama e não sentado; andar direito e não com o queixo ao nivel dos joelhos; não ter dores permanentemente. Nenhum desses objectivos foi atingido. Conheço pessoas que são contra o turismo médico - contra quem vem a Portugal beneficiar dos nossos recursos médicos. Eu tenho praticado o turismo hospitalar. Hoje calhou a vez de ir ao Egas Moniz. Em vão, claro: não tem urgências. Ou seja, na verdade o que eu quero é transformar o meu turismo hospitalar em turismo médico. Transformar os ensaios em golos, como no rugby. Beneficiar dos nossos recursos e não apenas visitá-los. Ontem passei oito horas no hospital de S. José, fui muito bem tratado - mas continua tudo na mesma. Enfim, tudo, não. Troquei a medicação que me tinha sido recomendada dois dias antes em Loulé por uma nova, que comecei hoje a experimentar. Talvez seja cedo, talvez precise de experimentar esta nova farmacopeia. Talvez precise apenas de uma boa dose de paciência. Talvez. Não sei. Só sei que continuo a dar voltas ao penico e estou cansado. Parece-me cada vez maior.

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Hoje não vou à feira do livro.

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ADENDA: parece que isto está a melhorar. À velocidade de um caracol bêbedo, mas a melhorar. Vamos assistir de novo a uma luta entre o pessimista e o optimista que me escolheram para morar? Agora vou à farmácia buscar remédios que ontem não tinha. Depois saberei qual dos dois farsantes tem razão.

PS: o caracol não está bêbedo. Nem sequer existe.

(Cont.)

6.6.26

Diário de Bordos - Hospital de S. José, Lisboa, 06-06-2026

Mais meia hora de conversa com o SNS 24 e resolvo-me fazer o que pretendia antes do colóquio: vir às urgências do S. José, aonde agora estou. A espera esperada era de quatro horas e dessa ainda só passaram duas e meia. Já comi (a cantina é gerida pela Versailles, que bem melhor teria feito ficando-se pela avenida da República. Os croquetes estão uma merda), dormi uma espécie de coisa breve em forma de sesta sentado à mesa, li e agora que acordei vou beber um café. Ganho coragem para ir ver se o prazo de quatro horas, dado a título indicativo, se mantém.

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Não. Vai ser menos.

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A jovem médica que me recebe é profissional e conscenciosa. Agora foi mostrar as imagens do TAC à equipa de... não retive qual delas. Espero nesta sala - sei agora que vou ficar por aqui algumas horas, pelo que não poderei ir à Feira do Livro como tinha planeado (ainda bem. Ir ali sem dinheiro para comprar livros seria uma tortura). O SNS é como a TAP: horrível até se estar lá dentro, bastante bom depois. Também já sei que a ser operado não será aqui e sim no Egas Moniz. Também já sei que estas dores abomináveis têm o sem fim à vista. 

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Vou organizar uma sessão de venda de livros e fotografias no hospital. Não para os outros pacientes,  porque a julgar pelo que me lembro do Egas não será muito mais dada à leitura do que a que tenho à vista mas si para os amigos mais dados à cusquice hospitalar. Egas Moniz, Avenida da Liberdade n° 1; Hospital Egas Moniz e outras histórias de vida e de maleitas; De Passagem pelo hospital vi a praia de Barbate... tudo isto com rum, cerveja e vinho tinto à discrição. E uns choquinhos à Algarvia, já agora. Ou frango em leite de coco. Ou assim. Ou tostas de pera-abacate sem gluten, com molho de soja e açaí de tomate-cherry em leito de pistacci. Haverá de tudo menos cerveja sem álcool, que é pecado mortal.

Ah, e pedimos um show às enferneiras, não? Já não são tão bonitas como dantes mas não faz mal. São bonitas na mesma.

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Esta sala faz-me pensar no Piranesi.

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Já a minha vida faz-me pensar, só, sem complemento directo.

«Nasci num país africano»

Resumindo e baralhando: fui ao Serviço de Urgência Básico (ou Básica?) - daqui em diante SUB - de Vila Real de Santo António; ao SUB de Loulé; à consulta de ortopedia do Hospital de Cascais. Fiz um TAC e uma radiografia; falei com médicos, enfermeiros e com os senhores do SNS24, de resto bastante eficientes. Continuo na mesma, com a possível excepção de agora ter uma grande quantidade de pílulas a tomar, andar com dois pensos de Fentanyl no antebraço esquerdo e com uma bengala quando não a esqueço na mão direita. O resto - isto é, o essencial - mantém-se: continuo sem saber a causa desta tortura, à espera de encontrar quem mo possa dizer e as dores continuam alegremente a dar-me cabo dos dias e, mais ainda, das noites.

Claro que ninguém me mandou nascer e viver num país que apesar de estar na Europa (e na «Europa», como dizia VPV) é africano, ninguém me mandou não ter massa para me tratar no sector privado do SNS e não gostar de pedir cunhas excepto quando tenho uma pistola apontada à cabeça. (- Além de que não sei a quem as pedir.)

Numa coisa estou de acordo com a metade (?) esquerdista do nosso país - tudo menos dar dinheiro a ganhar com a nossa saúde aos privados. Para os Torquemadas do «público» tudo o que dê dinheiro devido à saúde a um privado é passivo de fogueira. O sector que funciona do SNS está reservado a quem pode simultaneamente pagar impostos elevados e seguros privados. Nós, os tesos a quem são vedados uns e outros bem podemos arrastar-nos por este país fora que daí não vem grande mal ao mundo. E muito menos aos orangotangos que falam nas televisões sobre a alergia que têm «às reformas» (aspas porque cito), as reformas que vão fazer e as que «já fizeram» - aspas porque é irónico, claro.

E ainda há quem seja contra as cunhas! Eu não sou. Não gosto mas não sou contra. E se por acaso algum médico com influência num hospital deste país me puder ajudar - não hesite, por favor. Pode ser em Freixo de Espada à Cinta, Sebastianas de Baixo ou Trigos de Cima que eu vou lá.

Resta-me o consolo de termos o melhor jogador de futebol do mundo. Que seria de nós sem ele?

ADENDA - Liguei para o hospital privado aonde me fizeram o TAC e a resposta foi imediata (depois das tretas das gravações, etc.) Ou seja, há neste país que saiba para que serve um telefone. Infelizmente, essas pessoas não são admitidas no SNS.

4.6.26

Diário de Bordos - autocarro de Portimão para Lisboa, 04-06-2026

O plano era simples: entrava na camionete em Portimão,  adormecia, acordava em Lisboa Sete-Rios e ia para casa da A., que esta noite me dá hospitalidade. A primeira etapa decorreu de acordo com ele. Entrei no veículo. O segundo passo parece-me que vai falhar estrondosamente. Os chauffeurs nacionais são generosos e em vez de transporte proporcionam-nos experiências. "Venha andar connosco num autocarro de corridas!' dizem-nos. E acrescentam: "Se vier no lugar número dois terá ainda a vantagem suplementar de apreciar a perícia do nosso condutor a manejar simultaneamente o acelerador, o travão e o telefone portátil. Ou seja: rentabiliza a massa extra que pagou [o dobro do que já tinha pago pelo bilhete normal]. Terá ainda ocasião de ouvir as conversas do senhor [nota: reclamar porque ele tinha o auricular e só ouvia metade]." A condução do senhor é rápida, desportiva, com travagens igualmente bruscas e - graças a Deus - frequentes. A dor na coluna voltou. Pode ser que acalme agora que entramos na autoestrada. A conversa telefónica do condutor prolonga-se e dá-me oportunidade de avaliar o largo leque de interesses do senhor. Pessoalmente estou de acordo. Antes assim do que um monomaníaco limitado. Há pouco a razão do telefonema era de ordem familiar e limitou-se a coisas como quem ia buscar a filha (resposta: a mãe), a que horas ("vê com ela") e mais duas ou três ligadas a horas de chegada a casa, jantares, etc. que infelizmente me escaparam à atenção (as dores lombares estavam a começar).

Por falar em dores: o trajecto na autoestrada parece ter um efeito calmante. Será que a segunda parte do plano terá oportunidade de se pôr em prática? [Falso alarme. Parece que não.] 

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A perspectiva de passar o Verão em terra aborrece-me sobremaneira de dois pontos de vista: a) financeiro e b) não estar em Palma. Ou melhor, três: c) o provável uso de muletas, fisioterapeutas, hospitais et al. O resto, o vasto resto, agrada-me. 

(Cont.)

3.6.26

Diário de Bordos - Portimão, Algarve, Portugal, 03-06-2026

Badanal lá fora - nortada desfeita, a uivar como o levante em Barbate, isto tem sido uma viagem «abençoada» pelos ventos - e badanal cá dentro. Não durmo desde sexta-feira. Estas dores não me largam, coisa que acho injusta dada a quantidade de comprimidos que estou a tomar. E hoje ainda tiveram a gentileza de regressar em força, depois de uma manhã relativamente calma. Nem o Fentanyl (em patches) ajuda, porra! Amanhã desembarco, vou para Lisboa de camionete e daqui já estou a ver a beleza do trajecto. Se Deus existisse e o SNS fosse um dos seus apóstolos sexta de manhã entraria no hospital e já não saíria sem ter isto tudo tratado. Chama-se a isto sonhar com ladrões, mas antes com eles do que com virgens ofendidas. Não vai acontecer, obviamente - o que só acrescenta outro patamar à angústia - quando acontecerá? O que é demais enjoa, porra!

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Mini-discussão no FB por causa de um post sobre a greve. Fui buscar o Gide. Armas abaixo da Grosse Bertha hoje não me servem.

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Resultado das corridas: mal esteja outra vez capaz de pensar vou tratar da história da Bahia. As senhoras ficaram interessadas. E eu também, claro.

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O que mais me põe fora de mim é esta impossibilidade de me deitar. Um gajo estás exausto, de rastos, com a perspectiva de um Verão fodido. A primeira coisa que lhe vem à mente qual é? Ir deitar-se, obviamente. Pois não posso. A anca recusa-se terminantemente a estar noutra posição que não sentada. Ou seja: não é só nos aviões que durmo mal. É na minha cama também, se tiver de passar a noite sentado.

Da série Tempestades em copos de água

«É com bons sentimentos que se faz má literatura.» André Gide.

2.6.26

Diário de Bordos - Portimão, Algarve, Portugal, 02-06-2026

"Eram mais do que inimigos", escreveu um dia Pitigrilli. "Eram irmãos." Ele há fratrias e fratrias mas pelo sim pelo não sugiro sempre a toda a gente que complemente a sua com um bom grupo de amigos. 

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Como nem tudo pode correr sempre mal uma consulta no hospital de Cascais veio ter comigo de uma forma completamente inesperada. Sexta-feira às nove da manhã. Encontrámo-nos numa esquina e chocámos, ela e eu; vai daí resolvemos que um cafezinho juntos não nos faria mal. É que esta luta entre comprimidos e patches e uma coluna deficiente aliada a uma anca idem parece-me desigual. Pelo menos tem sido, até agora e quem está a ganhar é uma dor que requer intervenção superior. Não digo divina mas pelo menos de uma boa marca de bisturis, se possível manejado por um par de mãos competente.

Para quem pensava que ia passar o Verão a trabalhar em Mallorca não está mal. «É preciso ter um plano, se queres não o seguir.» Ou então: «A ver vamos, como dizia o ceguinho à mulher, que era surda.» A minha vida regulada por provérbios, máximas, adágios, ditados, piadas e por aí fora... Ou dentro, que dispensaria muito bem esta invasão.

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Ou seja: desta vez Portimão para mim resumiu-se a um jantar medíocre e um dia em que nem ao cockpit fui. Fiquei-me pelo salão e pelo camarote, dois metros difíceis de percorrer. Felimente tenho quem me poupe o metro e meio suplementar até à cozinha.

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O pior de tudo é saber que me espera uma noite sentado a tentar dormir  com o edredon pelos ombros e a acordar de meia em meia hora, com sorte. Venham-me com grande declarações de amor à carcaça que eu já vos digo.

Ou aos sindicalistas que fazem greve amanhã. Ainda se fossem as mãezinhas deles a fazerem-na... Sempre haveria menos pecado por essas esquinas fora.

Noite, dia e S. Fentanyl

Hoje o dia será passado a fazer activamente nada. Nada. Dedicá-lo-ei a S. Fentanyl, ver se faz algum efeito ou se o assunto é tão grave que nem isso ajuda. Isso sendo o Fentanyl, claro, a droga que anda a matar americanos como krill na boca da baleia. Até agora, se faz não noto. A impressão que tenho é que isto é como querer matar um elefante com um mata-moscas. Esta porra desta dor não me larga e envenena dias e noites. Mais estas do que aqueles, claro: são mais frágeis, sensíveis, susceptíveis, mais falíveis. A noite é a metade feminina do dia.

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O dia de S. Fentanyl ainda não acabou mas já devo começar a pensar que vai ficar em águas de bacalhau. Excepto a dor nas costas: essa não pára. Isto é: de crescer.

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A pior parte desta tortura - ou pelo menos a mais caricatural, passe o sarcasmo - é que não consigo deitar-me. A única posição que aguento é sentado. Há três dias que durmo sentado e que não estou mais de uns poucos segundos de pé; excepto quando quero andar, claro: ando curvado com a cabeça nos queixos. Resultado: tenho os pés que parecem balões de rugby e sonho com dez minutos estendido. Até cinco me deixariam feliz.

Correcção: não é quando quero andar. É: quando queria andar. Já não quero. 

Armazéns doridos

Todis nós, ao nascer, devíamos vir com um stock de dor. À medida que se ia vivendo, essa dor ia sendo gasta e hey, presto, monsignore, a sua velhice vai ser porreira. Porém, tudo indica que é ao contrário: nascemos com um armazém enorme e vazio e vamos enchendo-o à medida que vivemos.

O problema  é que o sacana do armazém é extensível e nunca está cheio.

Além disso, mistura tudo. É como aquelas prisões em que os presos políticos e os de direito comum não estão separados.

Entretanto, no armazém alguém resolveu organizar uma rave com dores de todos os tipos, tamanhos e feitios. Não sei quem é o disc jokey, mas sei que é uma valente merda. Para o chatear, organizei um baile de máscaras com as dores. Iam disfarçadas e ninguém as reconhecia.

(Para a M. A., com a esperança de que um dia a poesia substitua a merda toda que está no armazém.)

Encontro de artes

Aonde a arte de viver encontra a de morrer: não se matar mas deixar-se morrer.

1.6.26

Diário de Bordos - Portimão, Algarve, Portugal, 01-06-2026

Começando pelo fim: louvor e complexificação do SNS. Vi-lhe as duas faces de perto. Em Vila Real fui atendido por uma equipa que tinha a simpatia e a eficácia de um tractor russo avariado (com excepção de uma das enfermeras). Em Loulé foi exactamente o contrário: pessoal simpático, atencioso, afável, bonito e sobretudo competente. Tive de ir ao sector privado fazer um TAC - o SNS é um grande fornecedor de clientes para o sector privado da saúde. Só deviam era arranjar forma de essa colaboração sair ligeiramente mais barata. Ligeiramente é uma maneira de dizer, claro. Mas enfim, foi graças a essa colaboração, à ajuda dos dois primeiros componentes dos três f (family and friends. Faltaram os fools), à excepcional simpatia das médicas dos dois sectores, o público e o privado, que fiquei a saber que vou ter de ser operado à anca e à coluna.

Fiquei também a saber, mas isso foi graças a mim e a mim solo, que ir do lugar de amarração aonde estamos até ao velho restaurante Almeida releva da mais tremenda inconsciência, para não dizer estupidez. No regresso um dos seguranças deu-me boleia no buggy. À ida apanhei duas negas. Tudo isto para comer um frango assado para lá do medíocre e ouvir o supra-mencionado Almeida ralhar-me por ter pedido frango. 

Outra estupidez foi ter começado este post no computador. A dor nas costas não tolera estupidezes, sobretudo quando se seguem desta maneira. Mudar para o telefone - ou seja, do salão para o camarote  - pouco altera. A dor é teimosa e vingativa.

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Nem uma gota de álcool durante pelo menos os próximo mês. Vai ser interessante. Ainda estou para ver uma farmacêutica criar um medicamento que deva ser tomado com vinho ou com cerveja.

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A médica bonita, competente,  simpática e afável receitou-me fentanil (em pensos, não em comprimidos). Se isto não funcionar resta-me a morfina pura, suponho. Ou a eutanásia, claro. Aliás, os compartimentos da  caixa para as pílulas - a que os franceses dão o nome delicioso de semainier - estão a ficar cheios. Não cabe nem mais um. Carcaça, põe-te a pau.

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Carlos, o segurança que me trouxe ao portão de buggy teve a mesma coisa e diz que gritava de dor até ser operado (no sector privado. No público teria de esperar três meses, o que é impensável. Nem Cristo ficou três meses na cruz.) Eu grito de dor e de raiva. Esta temporada vai pelo cano.

31.5.26

Diário de Bordos - Vila Real de Santo António, Algarve, Portugal, 31-05-2026 (e um pensamento extemporâneo do dia)

A questão pode parecer complexa, interessante, metafísica e tudo o que se quiser. Revelar a nossa fragilidade, pequenez, impotência e sei lá que mais. Não é nada disso. A dor, sobretudo quando é tenaz, insuportável e nos deixa de mãos atadas é simplesmente um horror, uma merda, uma tortura. A miséria não merece discursos grandiloquentes.

Resisto à tentação de pensar que a médica parecida com um tractor russo avariado percebe tanto de receituário como de comunicação - isto é, nada. O corticóide, os analgésicos, o anti-inflamatório, o mio-relaxante que injectaram no centro de saúde e os comprimidos e os emplastros que ela me receitou deixaram-me exactamente como estava antes, se não um bocadinho pior. Agora já nem estando sentado a dor alivia.

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Pensamento extemporánea do dia: reduzir uma transacção comercial ao seu aspecto financeiro - ao preço - é como reduzir uma relação sexual ao sexo. Quem o faz perde mais de metade da coisa. Se calhar, a mais importante. 

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Há uns anos um médico disse-me que eu tinha uma bos resistência à dor. As perguntas que eu me faço são: a) Terei perdido essa resistência ou parte dela? e b) Como farão as pessoas que não resistem tão bem à dor? O meu pensamento e a minha solidariedade estão com elas.


30.5.26

Diário de Bordos - Vila Real de Santo António, Algarve, Portugal, 30-05-202_

A coisa começou anteontem em Cadiz e foi crescendo e saiu à luz do dia ontem em Mazagón e hoje em Vila Real de Santo António está exactamente na mesma com a diferença de ter passado quatro horas no centro de saúde, me terem injectado quatro substâncias diferentes, receitado comprimidos e emplastros que já pus e tomei, rapazinho bem-educado que sou. A coisa sendo uma dor excruciante na anca direita, uma dor lancinante que sim, ao contrário do que dizia em Cádiz o Tarzan que há em mim me impede de andar, de dormir, de pensar e me faz lamentar não ter uma moto-serra à mão que ia já perna e anca e tudo.

Pela primeira vez desde a Covid tive uma experiência pouco agradável com o pessoal do SNS. A médica era uma senhora gorda, feia, hispanófona e antipática como o raio que a parta; os enfermeiros não eram nem gordos nem feios e falavam todos português mas com excepção de uma senhora não eram particularmente simpáticos; as instalações levaram-me aos tempos de África. Cereja em cima do bolo: estou exactamente na mesma. Às voltas na cama sem encontrar uma posição que me permita dormir ao menos cinco minutos.

Escrevo isto para tentar diluir a dor mas não consigo. Ainda por cima a senhora doutora receitou-me uns comprimidos que me impedem de beber álcool. Vinte e cinco dias sem uma cervejita, um copo de vinho ou medronho. 

(Cont.)

28.5.26

Diário de Bordos - Cadiz, Andaluzia, Espanha, 28-05-2026

«Por que palavra começar, por que desordem?» Estas palavras de Eugénio de Andrade perseguir-me-ão até ao fim dos meus dias. Aproveito a dica e a boleia e começo por palavras e desordens: que diferença há entre conversa de chacha e conversa de caca? Assim de repente - que está longe de ser repentinamente - penso que nenhuma de fundo. O h está alí por educação, por gentileza, por aquilo a que os franceses chamam politesse e o DeepL cortesia. Prefiro esta última. Agrada-me a ideia de um h cortês, se bem o que me inspirou esta profunda reflexão não tenha nada de cortês. Estou farto de conversas de chacha - ou de caca - suporto cada vez pior a estupidez, sobretudo quando vem escoltada por uma espécie de amor aos animais que não é amor, não é paixão, não é nada se não uma patologia psiquiátrica. Pergunto-me, obviamente, se uma patologia psiquiátrica inteligente é melhor e vem-me de seguida à mente a M. de St. Martin. Por coincidência, esta também se chama M. e as patologias são completamente diferentes. Apesar de tudo, prefiro a desta. Pelo menos não me agride directamente. Limita-se a expor simultaneamente a sua incapacidade cognitiva e o seu «amor» por animais. 

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Ponhamos um pouco de ordem nisto. Estou em Cadiz e fui almoçar ao Cumbres Mayores. Fui com a M. e o F.. Depois eles «liberaram-me»: isto é, escapei-me. Desenfiei-me e vim vadiar por estas ruas que a cada metro me fazem pensar em Cartagena, mas com mais vida, mais gente na rua, mais classe. Ando à procura da praça que há alguns anos fotografei; não a encontrei. Na troca encontrei outras que não conhecia. Acho que fiquei a ganhar. Cada canto que não conheces vale dois dos outros.

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Um pouco como Barbate: o que eu perdi por só ter ido ontem ao mercado... 

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O embarque na lancha de cinquenta e cinco pés mudou para dia quatro em Sevilha. 

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F. precisou de três tentativas para atracar num sítio aonde havia lugar para o QUEEN ELIZABETH. Tento não me aborrecer (isto é, não me chatear) mas confesso que tenho uma certa dificuldade. Porra, eu também já falhei manobras. Muitas, mesmo. Mas nunca saí desses falhanços a dizer que a culpa é do vento. A culpa era minha, ponto final. É por isso que agora as falho cada vez menos. (Tal como a culpa, o mérito também é meu, mas isso são contas de outro rosário. Qualquer marinheiro sabe que tudo o que lhe corre bem é resultado da sorte e tudo o que não é consequência da sua nabice.)

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Procuro um sítio para turistar, escrever e passar fotografias para o computador. Tentei alguns e acabo no Mirador Las Cortes, o bar do hotel homónimo. Não é bem o local indicado mas as mesas de mármore e o sorriso do empregado compensam largamente. Cadiz é uma cidade mediterrânica travestida de atlântica, é uma cidade andaluza disfarçada de cidade espanhola (ou internacional, ma non troppo), é uma cidade tranquila e pachorrenta disfarçada de cidade normal. Talvez seja por isso que gosto tanto de aqui vir: desgosto do que se mostra, se dá a ver. Prefiro lugares - e pessoas - que se escondem, que não saltam à vista, como Lisboa ou Palma. Que têm de se descobrir e, simultaneamente, nos fazem descobrir-nos. Não há movimento para o exterior que não seja acompanhado por um outro igual e de sinal contrário, disse o senhor da maçã. E disse bem. 

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Continuo a ser atacado por dores miseráveis, quase não consigo andar. Isto é: não consigo andar depressa ou muito. Ando devagar e pouco. Não vou deixar uma porra de uma dor (ou duas) imobilizar-me. 

E o que não posso, compenso com táxis. Com a massa que neles deixei em Barbate poderia comprar um helicóptero e pagar o respectivo piloto durante um ano. 

Se ganhasse o totómilhões, claro.