7.12.22

TPC

Sou contra o aborto e a favor da sua legalização e a favor da eutanásia e contra a respectiva legalização. 

Há uma coerência nisto, mas fica para depois.

6.12.22

Preguiça, opiniões

Tenho opiniões muito firmes sobre poucas coisas e pouco firmes sobre a maioria dos temas.

Simples questão de preguiça: construir uma opinião exige muito trabalho e leva imenso tempo.

4.12.22

Gralhas, escrever

Escrever escorreito é um objectivo tão risível como viver escorreito, amar ou sequer pensar. Ele há gralhas em todo o lado.

Felizes cicatrizes

A vastidão do frio não tem fim. Nunca nos encontramos  nele, por mais edredões que ponhamos por cima de nós, por mais amores que estendamos por baixo. O frio é uma vasta planície deserta sem fim à vista. Ela era uma luz nesse deserto, uma fogueira, um fogo, um afogueamento, um nascer do sol, uma espada em cujo rasto eu me queimava. Ainda hoje tenho as cicatrizes desse lume. Felizes cicatrizes.

29.11.22

Diário de Bordos - Lagos, Algarve, Portugal, 29-11--2022

Tenho sessenta e cinco anos e trabalho, porque não tenho reforma. Versão um. Versão dois: tenho sessenta e cinco anos e trabalho porque gosto do que faço. É uma diferença do caralho (para rimar, só). Bom, venham noites, venham copos, venham longos e solitários passeios, venham saudades e outras que tais. Venha tudo. Sou o que sou, estou onde estou. Nada a dizer e menos ainda a fazer. Infelizmente não me posso queixar. Sou o que quero ser: bolino com vento contra, ando à popa  om vento de popa ou a um largo com ele de través. Mas não fujo ao vento, nunca. Pelo menos enquanto gostar de uma Lua em crescente, como deviam ser todas.

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Jantámos num restaurante chamado Casa do Prego. Dar-lhe-ia um suficiente mais, talvez bom menos. Desta vez conta, porque fui eu que a paguei. Farto que me paguem tudo.

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Ao jantar seguiram-se muitas bebidas no Bon Vivant. Dark and Stormy no limite do aceitável, conversa chata: avaliação dos clientes, já meio grossos. Tenho de parar de dar aulas, suponho. Ou então avisá-los previamente que não sou de paninhos quentes. Aposto que esta última alternativa teria um mercado. Basta ter a paciência que não tenho.

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Vamos passar o dia de amanhã em Lagos. Podia ser pior. 

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Vida: amo-te. Mas por favor não te estiques. 

Being alive is overrated

- Quando é que pensas (ou queres) morrer?
- Sei lá. Daqui a dez ou quinze anos, no máximo. 
- Queres morrer antes de ser velho, não é?
- Não. Quero morrer depois depois de explicar ao meu neto que a modernidade pode ser diferente.
- Diferente de quê?
- Daquilo que lhe vão vender como inevitável. 

27.11.22

Apologia do capitalismo

Os homens não são iguais. Porém, tendem a agrupar-se em função de determinadas características comuns. A desigualdade social é inevitável. 

Civilização é o esforço que a humanidade faz para reduzir o impacto dessa desigualdade. A melhor forma que a civilização encontrou, até hoje, para tal fim foi o capitalismo. 

20.11.22

Fábula

Uma jovem repórter aborda um velhinho numa paragem de autocarros.
- Bom dia. O senhor desculpe. Sou repórter da TVTU e estou a fazer um inquérito sobre a vida sexual da terceira idade. Importa-se de responder a umas perguntas?
- Não me importo nada, se a menina me explicar primeiro o que entende por vida.

16.11.22

Rios, ribeiros e raciocínios

Não receio a contradição, nem mesmo a que se manifesta entre duas linhas de um post. Um raciocínio é um ribeiro na montanha, não é um rio na planície.

Viajar

A única viagem é no interior de nós mesmos. Não se pode viajar para fora se não nos levarmos, nos conhecermos, compreendermos e - sobretudo - aceitarmos tal como somos. Viajar não é uma fusão com o outro, é um confronto. Viajar é uma dupla afirmação: eu sou eu e tu és tu. Muito mais do que a paisagem, é o outro que me atrai na viagem - e no que do outro eu tenho em mim, do que de mim há nele.

Floating in space

Exposição de Bárbara Assis Pacheco: mais do que ver, deixar-se submergir, como se estivéssemos numa piscina de água salgada - ou no Mar Morto, já agora. Não se vai ao fundo, mas deixamo-nos flutuar numa água que nos eleva. Faz-me pensar num disco de um grupo chamado Spiritualized, que começa com «Ladies and Gentlemen, we are floating in space». Ali não é bem no espaço que flutuamos, é na sensualidade, no amor (no sentido de «aquilo de que se gosta»). Um amor sólido, nada dessas coisas semi-imersas em pieguice. Um amor que nos eleva: pássaros e úteros. Impossível exprimir melhor a essência da coisa.

O pesadelo do urso

Deveria escrever sobre o choro, mas o choro sem lágrimas. Como sofrer sem mostrar que se sofre? Sofrer para dentro, por assim dizer. Patxi Andion fala disso muito bem; Leonard Cohen também, quiçá melhor ainda. É esse o defeito do fado: não sabe esconder-se.

O único sofrimento aceitável é o do urso que se mete na sua caverna para hibernar. Será que sonham enquanto dormem? E quanto tempo duram os sonhos? Meses, semanas, dias? Serão sonhos ou pesadelos? De que será feito o pesadelo de um urso? 

Pouco diferente dos meus, aposto. Com uma diferença: as minhas lágrimas não têm choro por trás.

A língua que falas com o amor

Flutuas num espaço que te é estranho. Um espaço que é o teu, mas no qual não te reconheces. Não te conheces, sequer. É noite e está frio, estás sozinho - como sempre estiveste. Não sabes porque não te reconheces nesse espaço, porque não te conheces. Nada mudou excepto o teu corpo, mais velho, mais dorido, mais rígido, mais... menos. Mais menos em tudo o que lhe pedes. O que lhe pedes é impossível: que se esqueça do tempo. Que o tempo passe por ele como a água do mar sobre a pele de uma foca, como o frio sobre um esquimó. Falas com o teu corpo uma língua que ele não entende, não reconhece sequer. 

É provavelmente essa a língua que falas com o amor, já pensaste nisso?  

Panegírico

Nós marinheiros não somos muito dados a ser fãs deste ou daquele. Sabemos que alguns de nós são melhores do que outros - seja porque ganham mais regatas ou fazem qualquer coisa de especial - mas sabemos também que ser melhor é sinónimo de ser humilde. O mar é um grande nivelador de egos e quando alguém se põe em pontas dos pés para fazer sobressair a cabeça não tarda muito a cortar-lhe os pés. Ou pior ainda, a cabeça. Tenho uma admiração enorme por Loïc Peyron, Eric Tabarly, Joshua Slocum - mas não sou fã. Nada sei deles, ou muito pouco, fora das suas vidas de mar e mesmo essa não a conheço em todos os pormenores.

Hoje fui ao lançamento de um livro de Henrique Pereira dos Santos e confirmei muitas coisas que já sabia. Uma, a de que ele é bom, é provavelmente um dos melhores na sua área - só alguém extremamente bom consegue ser tão humilde. "Eu não sou original. Vou buscar aquilo que sei a quem sabe mais do que eu", diz (a citação não é verbatim). Outra: Henrique Pereira dos Santos é tão bom de ouvir como de ler. 

O livro chama-se Das pedras, pão e não sei como sugerir que acorram a comprá-lo se não dizendo Acorram a comprá-lo. Além do mais tem fotografias de Duarte Belo, outra pessoa que é um prazer ouvir e - sobretudo - extremamente boa na sua área. 

15.11.22

Inofensivo

Há uma necessidade estranha, na maioria das pessoas, de exprimir opiniões sobre a vida de outras pessoas. Nunca a compreendi, se de "nunca" excluirmos os anos até à adolescência. Desde que percebi a dificuldade que é ter uma opinião sobre a minha vida deixei de a ter sobre a dos outros. Talvez o cerne da questão esteja aí: pessoas que sabem tudo sobre as suas vidas aventuram-se a opinar sobre as dos outros. Não sei. Talvez.

Às vezes interpretam esta atitude como desprezo, arrogância, desinteresse, superioridade ou algo nessas linhas. Não é. É simples incapacidade. Inabilidade, se preferirem.

Seja o que for: mal não faz a ninguém. 

14.11.22

Avenida da Memória

As palavras buscam, tacteiam. Como a bengala de um cego num passeio cheio de obstáculos. Apontam para ti, desvio-me a tempo; para A, B, C. Desvio-me de todas essas memórias, de todos esses olhares que, tocados pela bengala, ganham vida, ressuscitam, como se num antiquário entrasse um mágico que levasse cada um dos objectos à data em que foram feitos, rutilantes de novos. Olhares, mãos, peles. A memória é um filtro que me ajuda a caminhar por esta avenida. Automóveis passam velozmente. Oiço as vozes, os murmúrios, os pedidos: vai-te embora. Fica. Amo-te. Acabou. Volta. 

Palavras. Buscam um ouvido, as bocas que lhes deram forma, as mãos que lhes responderam. A avenida está bem iluminada. Ou seja: tem muitas sombras. Cada candeeiro faz três ou quatro delas, umas escondidas no recanto de uma parede outras bem visíveis, tangíveis, sólidas, de todas as cores.

As palavras e o tempo: pilares do templo onde vivemos - eu, as memórias, as palavras, a bengala que uma mão estranha maneja desajeitadamente. Essa mão é a da vida, irmã mais nova do tempo como as palavras são as irmãs mais velhas das peles, dos olhares. Relações familiares, frágeis, rompem-se a cada passo, reconstituem-se por vezes. Raramente. Tocadas pela memória, se e quando esta as vê, escondidas nos raros becos esconsos da avenida tão bem iluminada. Loja de antiguidades novas, loja de novidades velhas, lojas atrás de lojas. Caminho tacteando no escuro o teu amor. Caminho tacteando no escuro o meu futuro. Caminho, tacteando no escuro. Caminho. Tacteando. Em ti.

13.11.22

Começo

Os meus dias começam invariavelmente com um duche, ao qual se segue vestir-me e o pequeno-almoço. Excepto quando não começam. Este «invariavelmente» não deve ser levado à letra. Às vezes começo com tudo menos o duche. Procrastino e faço aquilo que toda a gente faz quando procrastina: nada, disfarçado de fazer qualquer coisa. Sei lá, arrumar loiça, fazer a cama, ver televisão, pensar em tudo o que devia estar a fazer e não estou, escrever disparates e repetir palavras de que não gosto, como procrastinar. Faço-o com o objectivo único e mais ou menos confesso de protelar o começo do dia, de fazer como se vivesse alternadamente nos dois pólos durante o respectivo inverno, passar de uma noite para outra com o mínimo possível de luz. Como se lava a loiça num igloo? Será que aquilo derrete e começa a pingar água em cima dos edredons, como nos barcos de madeira nos quais comecei a navegar? A televisão é muito depressiva e só fala de coisas que não interessam, como hoje, por exemplo: meia dúzia de putos querem «salvar o planeta». Invadiram umas instalações de não sei o quê porque estava lá um ministro e eles querem que o homem deixe de o ser. E ainda há quem queira baixar a idade do voto. Ver adultos a querer «salvar o planeta» já é doloroso; mas putos ainda é pior. Ainda por cima «apoiados» pelos professores e por políticos oportunistas, tão débeis mentais como os ditos «activistas climáticos» (quem esfregasse um pano sujo nas trombas de alguns jornalistas e repórteres de televisão mereceria uma medalha de mérito. E não é só por causa do «c» em activistas, é por causa da palavra toda). O planeta sobreviveu a terramotos, asteróides, incêndios, dilúvios, ciclones, extinções em massa e estes palermas querem «salvá-lo». Salvá-lo? Só se for da sua própria estupidez, que essa sim é uma ameaça. Enfim, o dia lá acaba por começar, expressão deliciosa, saborosa e maliciosa, «acabar por começar». Já o inverso não existe, as coisas não começam por acabar, nada começa...? Não sei: o dia começou por acabar a noite, por exemplo. Não é a mesma coisa. O dia continuou a começar, agora com Sonny Rollins no leitor de CD, eu a debitar disparates, saco de ontem desfeito, caldo verde comido, duche tomado, vinho tinto oxidado de tanto tempo aberto, há lá direito, estragar vinho tinto é pecado, de qualquer foma tenho de ir ao supermercado comprar leite e o vinho vem por arrasto, apesar de ter decidido que agora só compro vinho na adega aqui perto e na casa Cafélia, onde descobri Magarogipe da Nicarágua, um dos meus cafés preferidos, juntamente com o de Sumatra e também tem vinho bom e barato e assim se arrasta o começo de um dia que para variar não começou com um duche, começou cinzento e não começou no Pólo Norte mas sim a trinta e oito graus, quase trinta e nove (norte também, claro). Quase poderia dizer que o dia pegou de tchova, não fosse o duplo sentido do termo. Para clarificar: o dia pegou de tchova, não eu. 

E quem diz o dia diz a vida.

Adenda: «Salvar o planeta»? Pensar que o homem o poderia destruir já é uma insuportável hubris; que o poderia salvar (se fosse caso disso) é ainda pior.