14.8.26

Cenas de bar

O rapaz olha para ela com uns olhos de caramelizar mas não percebo se a consegue pôr à boa temperatura. 

13.8.26

Diário de Bordos - Es Trenc, Mallorca, Baleares, Espanha, 13-08-2026

A semana vai bem: vi o meu primeiro e provavelmente último eclipse total do Sol, as dores na perna só me atacam com violência à noite na cama - durante o dia só me dão uma breve lembrança de que ainda por aí andam,  coisa que me alivia bastante porque os clientes de charter não costumam gostar de skippers que mal se podem mexer - estes clientes são impecáveis e já só faltam três dias para regressar ao meu refúgio na casa Volta Dos, que tantas vezes me acolheu.

A loucura provocada pela Lua a passar à frente do parceiro é descriptível mas não muito interessante: milhares de pessoas no cabo Ses Salines, outros milhares na costa da Colonia San Jordi, larguíssimas centenas de embarcações fundeadas em Es Trenc. Tive sorte, arranjei um poiso decente um bocadinho antes de Ses Covetes e aqui ficámos. Hoje passamos de novo a noite aqui. Amanhã,  cala Mitjiana, que já foi pertença de uma grande família aqui da ilha e agora é pública. Por curiosidade, essa família é uma das clientes de uma das senhoras que trago a bordo e é consultora em transmissão de gerações em empresas familiares. Não sei se transmissão é o termo exacto. Já tive uma consultora em pricing e agora tenho uma em mudança de gerações.  

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A vantagem destas dores para os meus leitores é que os posts são curtos.

12.8.26

Eclipse, século XXI

As pessoas que gostam de dizer "estamos no século vinte e um e..." segue-se uma coisa qualquer que elas pensam antiquada ou inaceitável  nos tempos modernos deviam analisar a excitação que por aí vai com o eclipse. Não mudou desde os Neandarthal, aposto.

11.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, 11-08-2026

Vim finalmente jantar ao Gigi's Piccolo Ristorante. É igualzinho a um outro restaurante do género que conheço. Falta só esta réstea de oceano que os separa. Não recordo aonde era. Tendo a pensar em Marselha mas duvido: o ruído seria dez vezes pior; também não foi nas ihas Borromeo. Talvez Paris, talvez o restaurante não fosse italiano ou americano ou coisa que o valha. Talvez fosse apenas um pobre diabo a fugir de qualquer coisa: o cansaço, as dores, isto de a partir de amanhã ter mais cinco de charter, o seu país... que sei eu? Que quero saber? Nada, na verdade. Excepto ir para casa, arrumar a bicicleta, ir para a cama.

A qual cama é, de resto, um dos piores sítios aonde posso estar. É là que as dores são piores e menos suportáveis. Hoje no charter portou-se tudo bem, vá lá. A ver como vai ser amanhã. Cinco dias incluindo o do eclipse - amanhã, por sinal. Está tudo doido com o eclipse. Já vi um ou dois da Lua e um parcial do Sol. Este vai ser o primeiro total for Sol. Confesso que não estou muito excitado com o fenómeno. A ver vamos, dirão os sobreviventes. E eu, se for um deles. 

Apesar do que bebi ao jantar, tomei um desses comprimidos que não se devem misturar com álcool. Paciência. Tudo é melhor do que a noite que passei ontem. Até não morrer.

9.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 09-08-2026

É domingo (de manhã, preciso), está sol e Palma-a-calma anima-se devagarinho. Fui à Tipika gastar dinheiro - bem gasto, claro: siruells, postais e livros de cozinha, dois de cada - e depois vim ao Mise en Place, escritório matinal na Plaza Mayor. O meu projecto de ir à praia ficou adiado sine die. Tudo está adiado sine die, parece-me, excepto este desejo de emoldurar os postais que comprei hoje e os pendurar na parede ao lado do frigorífico, de pôr os siruells novos na estante aonde já estão os outros e de me deitar no sofá da sala com um copo de vinho verde branco. A vontade de ver este tinnitus desaparecer também se mantém viva. Vêm-me à memória as palavras de Cristo na cruz, um bocadinho adaptadas: «Corpo, corpo, porque me abandonaste?»

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O Mise en Place encheu-se com um grupo de franceses. Ocupam a mesa grande, a que está no meio da sala. São alguns catorze (doze, numa contagem mais atenta) e eu vou para casa cozinhar. Ontem comprei um avental e tenho de o estrear. Carne picada, beringelas, patató, cebolinho - alguma coisa daqui sairá, se Deus quiser. Tenho uma garrafa de tinto correcto no frigorífico. Só me faltam hierbaspalo e um pouco de rum. Pouco tenho bebido álcoois fort6es, lapso esse que compenso com cerveja em quantidades razoáveis.

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A livraria inglesa de Palma está fechada para férias. Encomendei is livros sugeridos pelo G. C. na de Lisboa. Vão ter de esperar pelo meu regresso. Esse pelo menos tem die.

(Cont.)


8.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 08-08-2026

A farmácia que não me deixava entrar com a bicicleta fechou. Tenho pena. Não contribuí muito para tâo triste desfecho. Apesar de ter de deixar a burra à porta ia lá mais do que às outras. O senhor inspirava-me confiança. Hoje fui a uma das sobreviventes (Eram três. Agora são duas). Comprei vitamina B12. Parece que ajuda a combater o cansaço. Estou cansado de me ouvir dizer que estou cansado. Também comprei Voltarene, ver se curo esta porra desta inflamação no polegar direito. Três semanas de incómodo justificam o investimento. Aquela porcaria é cara pra burro mas a verdade é que é eficaz. Depois fui à roupa e agora tomo o pequeno-almoço no mercado. Vou comprar especiarias ao Cristian. Hoje vai ser o dia das paprikas e pimentões. Tenho de comprar um almofariz na Culinarium. Se tivesse de fazer um desenho da minha vida em Palma sairia um círculo com centro no Olivar? Circulo não, mas elipse sim e um dos focos seria aqui de certeza. O meu café favorito no mercado chama-se Can Jaume. "Artesans des de 1927", verbatim. Porém, é raro comer aqui. Prefiro os "restaurantes" - o Xisco, o Hugo, o Corner aonde já só vou para o vermute. As tapas são boas e caras. O Can Jaume é um sítio honesto, tem tapas correctas a preços idem. Hoje vou almoçar ao Xisco com o V. Se tiver secretos, claro. Se não vou à Selecta para uma sandocha de presunto. E se em vez de ser uma figura geométrica a minha vida em Palma fosse um sistema de caminhos de ferro? Carris, agulhas, estações, apeadeiros, salas de espera... Märklin de vida, deslumbramento infantil, com uma diferença: este não passará.

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O jantar foi metade do resto da arepa que trouxe do Cric & Croc, a sobra do vinho branco de ontem, a sobra da melancia (uma boa merda, de passagem seja dito), um mochi de maracujá e cento e vinte e cinco de sake da casa no Otaku. A resposta à pergunta "Porque é que todos gostam de Palma?", que eu tantas vezes me fazia quando aqui cheguei, está em cada esquina. 

7.8.26

Diário de Bordos - Palma ,Mallorca, Baleares, Espanha, 07-08-2026

Convido V. para jantar. Frango à Gaston Gérard, uma dessas receitas francesas que requerem três panelas, duas frigideiras e um ralador de queijo por cada cem gramas de carne. Não me queixo do resultado: penso que pode ser um pouco melhorado, é tudo. V. gostou e provou-o servindo-se várias vezes. Não digo quantas por discrição. Depois do jantar fomos beber um sake ao Otaku. É uma escala importante antes do sono.

Chego a casa cansado, como ando sempre. L. mandou-me uma dessas tretas da net segundo a qual esta fatiga perene é provocada pela falta de vitamina B 12, ela mesma consequência da metformina. Amanhã vou comprar a tal vitamina - que de resto já tomei por recomendação da M. durante a parte aguda da crise. Por muito céptico que seja a respeito desses milagres do FB o efeito placebo não é mito nenhum.

J., a filha de M. (dona da casa) e o namorado dizem-me que me lavam a loiça e venho deitar-me.

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O charter com as miúdas acabou bem. Cinco raparigas jovens, bem educadas, bonitas. Não acredito que seja aqui o virar da maré mas se vier será muito bem recebido. Já tem pelo menos dois prenúncios.

6.8.26

Diário de Bordos - Puerto Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 06-08-2026

Estaria pronto a apostar que estes foram os piores saltimbocca alla romana da minha vida. Só não o faço porque não gosto de apostar quando tenho a certeza de que vou ganhar. A única coisa em meu favor é que não foi uma surpresa. Ou melhor, foi-o só parcialmente: estavam piores do que esperava. Vim a um restaurante que dantes era o melhor italiano de Puerto Andratx. Depois foi comprado por uns indianos que mantiveram o menu. Não é a primeira vez que aqui venho depois da mudança. Mas como hoje comi razoavelmente ao almoço, no Foradada com nova gerência (atenção: razoavelmente. A paella estava a léguas da do Sa Premsa) e como não quero gastar muito dinheiro e como continuo a não conseguir comer pizza e de qualquer forma estou em modo peregrinatio e... e... e... cá vim. E hei-de voltar, eu sei. Não preciso de um cilício para me mortificar. Um mau restaurante serve perfeitamente. 

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Quando chegou a hora de pagar mostro o cartão e o senhor, desolado,  aponta para uma folha de papel colada à porta e que aparentemente fazia referência à não aceitação de cartões. Digo "aparentemente" porque não a tinha visto e continuei a não lhe ler o conteúdo. Pergunto aonde é a máquina mais perto e o senhor diz-me que não é preciso. Posso pagar amanhã ou depois. Digo-lhe que não e vou levantar o dinheiro. Amanhã quero sair cedo. Não deixo porém de ficar igualmente impressionado com a técnica de marketing e comovido. Sou um rapazinho sensível, essa é que é essa.

Lá paguei ao homem e fui para bordo esvaziar o dinghy. Parecia uma piscina.

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Recupero desta mistura de emoções e esforço físico com um Negroni no bar N° 11, um bar calmo adequado a um senhor que sofre de excesso de aniversários. As piquenas estão no Tim's, mais feito para aquela faixa etária.

O Negroni estava bom e resolvi aventurar-me num Mai Tai. Grotesco. Tenho de voltar ao Trader Joe em Oakland. Acabar a noite no nível de qualidade com que a comecei faz-me pensar em elevadores circulares.

4.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 04-08-2026

Oito horas numa Saxdor 320. Dois motores Mercury fora-de-borda de trezentos cavalos cada, electrónica última geração, oito horas das quais pouco mais de uma a navegar e o resto fundeado em Ses Iletes. Deve ser a primeira vez que alguém me pede para passar um dia inteiro naquele sítio, mas bom. Estar seis horas parado a fazer nada senão prestar atenção a quem chega e a quem vai, ainda por cima sem comida por esquecimento (meu), tanto faz estar aqui, ali ou acolá. A «cala» - aspas porque aquilo não é propriamente uma cala - estava cheia, como sempre. Encontrei um canto perto da praia e por ali fiquei. Os clientes eram porreiros, não chatearam nem um minuto. Tinha o fato de banho no saco mas decidi não usar a velha desculpa do «vou verificar o ferro». Estoicismo, meu caro. Estoicismo. No regresso apanhei um táxi, uma senhora linda e deliciosa de mais para ser descrita em palavras. Acabámos a falar de política. Acha o Sanchéz um psicopata e tem pena de não poder sair de Maiorca porque o namorado não quer nem ouvir falar disso. Tudo numa voz juvenil, doce, suave, sorridente. É tão bom ter a idade que tenho e ser capaz de apreciar estas coisas só por elas, só porque são bonitas.

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Andava à procura de um sítio para vir comer, passei tudo em revista e acabei no Cric & Croc (o nosso Buca e Estica, para quem não sabe). Melhor ideia do dia. A arepa continua deliciosa e demasiado grande. O que sobrou vai para casa e amanhã faço um jantar de restos. Depois da praia, aonde irei sem falta. Só me resta decidir qual. A primeira escolha é Estellencs, cela va sans dire. A ver vamos o que será avec dire. Depende do horário dos autocarros e da força nas pernas, que subir aquilo à pata é um esforço que não sei se terei coragem de pedir aos meus músculos sofredores. (Pefiro pensar que são eles os doentes.)

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Amanhã não tenho hora para acordar. Preciso de mais dias assim. Tanto quanto preciso deles com horas.

2.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-08-2026

Não é o double bind perfeito, esse dilema tão querido aos teóricos (e práticos) da escola de Palo Alto. Antes, é muito desequilibrado: de um lado, uma enorme necessidade de descansar. Do outro, uma igualmente vasta necessidade de trabalhar. Claro que a balança pende imediatamente e sem apelo para o lado do trabalho e amanhã lá vou para outro day charter de meio-dia em Portocolom. Ou seja: quatro horas de trabalho e três de trajectos. Pouco importa. Um dos pratos da balança é mais pesado do que o outro, como toda a gente sabe. A vida é injusta.

En attendant, hoje vou cozinhar para a M. e companhia. Frango korma e bebo cerveja no Ivo (?), que por sinal está grosso e é ainda mais insuportável do que quando não está. Terça-feira vou comprar especiarias ao Cristian e em Outubro vou a Genebra. O plano não poderia ser melhor, mesmo que eu quisesse. Não quero. Encomendei frascos de vidro vai para duas ou três semanas e já devem ter chegado. O korma de hoje vai ser feito com um produto enfrascado, pré-fabricado, coisa de que não sou grande fã. Mas enfim. Mais vale ter trabalho amanhã do que não ter. O Watzlawick concordaria.

E a verdade é que hoje descansei. Saí da cama eram dez e meia da manhã e a tarde ainda me proporcionou uma belíssima sesta. Descubro que o Ivo do Bistrot Bar é mais ou menos família do Ivo das bicicletas: este era casado com uma sobrinha daquele. Quando eu falo aos meus tripulantes que quando chegamos a um porto as pessoas estão ligadas por fios que nós não vemos...