7.11.26
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 07-11-2026
6.11.26
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 06-11-2026
5.11.26
F. e a geologia do pânico
"Tenho o cérebro cheio de buracos", explicava-me F. "Um psi para me compreender teria de ser espeleólogo. Isto se eu fosse de frequentar tal raça. Não sou." F. sorriu e abriu as mãos, palmas para cima. "Os meus pânicos acumulam-se, uma espécie de camadas geológicas e ninguém sabe de onde vêm. Deve ser dessas grutas, segregam coisas que depous sedimentam. Escreve coisas em itálico, por favor. Sei muito bem que mal chegues a casa vais transcrever isto. Estou de acordo, desde que a) me dês uma cópia e b) prometas que não mostras a ninguém. Ninguém, ouviste? Nem a essa tua mulher... Como é que ela se chama? Fátima?" "Rosário e não é minha mulher. Não somos casados." "São as mesmas coisas, Rosário e Fátima, casados e amancebados. Uma rosa não deixa de ser uma rosa se se tiver outro nome, disse já não sei quem..." "Sabes", interrompi-o. "Pouco importa. Estávamos nas camadas geológicas. Pânicos em cima de pânicos em cima de pânicos. Todos diferentes. Isto é, as cores, as texturas, as densidades específicas são diferentes. Mas se os puseres na mó o que sai é igual. Os alemães chamam-lhe angst. É toda igual, depois de moída. Mais vale deixá-las inteiras, as cores e as formas dão ritmo aos dias." "E às noites?" F. gostava que eu o provocasse. Era assim que as suas ideias nasciam. Do confronto. "E não F., não escrevo tudo o que me dizes. Não teria memória para tal." "Óptimo. Então dá-me uma cópia do que não escreves, para pôr no meu baú." F. gostava de paradoxos. Desestabilizavam os interlocutores e divertiam-no. No dia em que tivemos esta conversa já estava perto do fim e sabia-o.
Sim, transcrevi-a quase toda e dei-lhe uma cópia para o baú. Não falei dos seus ataques de pânico - que já vinham de muito atrás, não tinham nada a ver com a proximidade da morte - a ninguém. Muito menos à Rosário. Seria como falar de mim, coisa que não faço de todo.
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 05-11-2026
Ainda não domino a mini-burra a cem por cento mas já não estou longe; e nela a cidade, idem. (A propósito - ela - a mini - teve o seu primeiro piropo, ontem: «é bonita, a sua bicicleta», diz-me um colega ciclista montado numa dessas burras de milhão e meio de euros. «É nova?» «Obrigado! Não, é pré-histórica», respondo, algo injustamente, desestabilizado pelo inesperado do cumprimento e pela velocidade a que me ultrapassou. Quase consegui ver o contrail que de certeza deixaria se estivéssemos num sítio que permitisse velocidades mais elevadas.)
O método é simples: trata-se de não mudar de direcção nem um milímetro sem previamente assinalar a mudança, mantendo o braço no ar desde muito antes da manobra até esta estar bem iniciada. As faixas de rodagem são estreitas, as ciclovias também, as velocidades de carros e bicicletas eléctricas elevadas e estes em quantidades avassaladoras. A minha burrinha, coitadinha, é pequenina mas não é propriamente um peso-pluma, não tem mudanças e eu não sou o Joaquim Agostinho, de maneira a minha velocidade diverge bastante da dos outros veículos. Isto não me impede de fazer os quarenta minutos que separam a casa da S. da da L. e os trinta que o percurso inverso requer, consequência sem dúvida de para lá ser a subir e para cá a descer, por conseguinte. Sobretudo agora, que tenho luvas e não penso que precisarei de serrar os punhos para tirar as mãos do guiador, como fez aquele pescador da Terra Nova que quando sentiu que as mãos estavam a gelar e a colar-se aos remos deixou o processo continuar até que elas ficaram mesmo congeladas. Quando aterrou, finalmente - não me lembro se na Islândia se na Gronelândia - serrou os punhos (alguém os serrou por ele, presumo - e foi à sua vida. (Por curiosidade: mais tarde viria a fazer uma travessia do Atlântico à vela, em solitário, sem as mãos e mais rápido do que aquele aldrabão socialite do Alain Gerbault, que as tinha às duas.)
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Esperam-me quatro dias sozinho em casa, hoje está um bocadinho se sol - em Genebra nunca há mais do que um bocadinho, de Outubro ou Novembro a Março ou Abril - encontrei um Bordeaux a um preço perfeitamente bebível e comprei café Huehuetenango, descoberta recente e abençoada. O que lhe falta em cuisse sobra-lhe em sabor e em preço - metade do Ourang Outan de quando aqui cheguei. Este café é particularmente interessante porque vem da Guatemala e eu costumo dizer que não gosto de café das Américas salvo excepções e este é mais uma dessas excepções. A continuar assim ainda vou encontrar um café brasileiro de que goste.
(A genciana das Franche Montagnes acabou. É uma coisa que acontece frequentemente às garrafas, venham elas de onde vierem. Sobretudo quando são boas.)
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O dia do meu regresso a Portugal já está à vista. Portugal não é a palavra certa. Esta é: casa. sou mais caseiro do que patriota.
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O café chama-se La Paire, é na rue Maunoir e intitula-se café fripperie. O sítio é giro e pequeno, a música não muito má aoesar de ser moderna (pelo menos não é electrónica, hip hop ou assim), a empregada jovem e simpática e, finalmente, o vinho decente (até ver quanto custa). Leva-me imediatamente parao café em Buenos Aires que também vendia roupa em segunda mão e aonde ouvi uma das histórias mais engraçadas da minha vida. Muito muito resumidamente: o café em Sant Elmo era uma bar de tango e sextas e sábados organizava soirées de dança. Um austríaco e uma francesa, não garanto as nacionalidades, apaixonaram-se numa dessas noites, já a noite ia avançada e perguntaram ao dono aonde poderiam encontrar um padre para os casar. Buenos Aires não sendo Las Vegas, um padre era impossível, à meia-noite ou cois que o valha de sábado. Mas, as roupas vindo do teatro nacional não-me-lembro-do-nome, o dono do café e o homem que organizava a venda das roupas, funcionário do dito teatro, foram procurar no acervo de roupas as adequadas para um casamento e encontraram-nas. A cerimónia realizou-se ali mesmo, tudo vestido a rigor, desde a noiva ao oficial do estado civil, passando pelo padre e pelo noivo, ao som da Marcha Nupcial tocada no piano do estabelecimento.
O La Paire e a sua escolha de roupa em segunda mão são demasiado pequenos para reproduzir tal espírito de iniciativa. (Felizmente a minha memória tem muito espaço.)
Além de que aqui não há piano e não há tango, música propícia a arrebatos.
3.11.26
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 03-11-2026
As alterações climáticas sofreram uma interrupção, coitadas: a bise caiu e o tempo voltou ao normal - céu nublado, frio, ausência de vento. Pode ser que logo à tarde venha um bocadinho de sol. Se vier, será isso mesmo: um bocadinho.
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Fui à Saveurs d'Italie comprar pecorino para a carbonara desta noite. Não sou homem de regras, excepto no sentido de menstruação (que tenho, como toda a gente, se bem menos regulares do que as das senhoras) - e excepto também no que a certas coisas se referem essas normas (este termo é menos ambíguo). Carbonara quer pecorino, ponto. E quando se tem a sorte de ter aquela mercearia italiana a meia dúzia de metros não se a deve deitar fora (a sorte). Mercearia sendo uma metonímia - o termo no primeiro grau é paraíso; e meia dúzia de metros uma sinédoque (basta multiplicar por algumas centenas, poucas).
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Ou seja: a mini-burra trabalha. E só não o faz mais porque sem luvas a temperatura é excessivamente baixa para as minhas mãos delicadas. Pobrecitas.
Mas, porém, todavia, contudo: cada pedalada confirma o velhíssimo adágio "mini-burra, maxi-prazer".
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Quando se está na Suíça é difícil lembrarmo-nos de que isto já foi um país pobre e mais difícil ainda de que deixou de o ser por causa do turismo.
Apresso-me a esclarecer que foi um turismo diferente do que temos em Portugal. O que tirou a Suíça da miséria foram os nobres ingleses que o senhor Thomas Cook cá começou a trazer em meados do século XIX. A esse respeito sugiro fortemente a leitura do livro Slow Train to Switzerland, de Diccon Bewes. Tem as vantagens de ser um excelente livro de viagem, de História e de ser de agradável e instrutiva leitura. E destruir o mito de a Suíça ser rica por causa dos bancos. É ao contrário: o país tem bancos porque é rico (e estável e etc.)
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Fiz iscas de vinha d'alhos para o almoço. Um falhanço, clara e previsivelmente. Há coisas que não posso fazer, porque os fantasmas da avó Filipa e da minha Mãe pairam sobre elas e assombram as minhas tentativas rascas e de antemão votadas ao fracasso. Iscas, fatias recheadas, arroz de pato, por exemplo. (Infelizmente são inúmeras, demais para serem nomeadas.)
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Para mim, que gosto de uma boa conversa, um bom copo de vinho e um bonito par de olhos à mão de semear, este recém descoberto prazer em estar sozinho parece estranho. Não é - nem estranho nem recente. O que mudou foi ter deixado de ser simplesmente um prazer e ter-se tornado uma necessidade.
1.11.26
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 01-11-2026
Ontem à tarde esteve sol e hoje também, quase todo o dia. Genebra amarela-se por cima, com a luz e pelas ruas, com as folhas caídas. Infelizmente está frio e ventoso: são dias de bise, vento forte de norte que arrefece o ar e limpa o céu. A partir de amanhã as temperaturas máximas vão ter um só dígito e eu vou continuar a não sair: sem luvas isto é insuportável. Agradável é estar em casa e olhar pela janela, pensar que daqui a poucas semanas as árvores não terão folhas de todo e só haverá sol nos dias de bise. Quando navegava no lago eram os meus preferidos, os únicos com vento (também há bise no Verão e os efeitos são os mesmos: céu limpo e baixa acentuada de temperatura).
Aproveito para pôr em dia algumas discussões facebookianas (poucas, que cada vez me falha mais a paciência). Continuo a não conseguir ler mas creio que também isto passará em breve e poderei finalmente continuar o Padura que comecei há uns meses.
As insurreições chegam à Suiça. Compreende-se: as escolas neste país são horríveis, como toda a gente sabe. A extrema-esquerda está a concretizar a sua internacional. E ainda há quem aredite que os protestos são pela habitação ou pela escola.
31.10.26
F., amores pegajosos e mulheres ideais
29.10.26
Arrumações
Hoje, sozinho em casa, com poucas probabilidades de ser assaltado por bandidos estúpidos, penso que é da gestão do espaço que devo falar. Espaço devia estar no plural: espaços, se bem um deles, o exterior, seja simples e fácil: cada coisa tem o seu lugar, cada lugar tem a sua coisa e ambos estão sabidos de antemão. Copos, pratos, talheres, jornais, livros, roupa, remédios - tudo tem o seu lugar. Da música posso escolher entre a rádio e o computador portátil. Opto por este: a música é a mesma (Espace 2, concerto em directo de Lausanne) e o som é melhor. Fica portanto o espaço interior por estivar. É mais difícil: está cheio de pessoas, coisas, gestos, olhares, histórias, memórias, lugares e não sei como seleccioná-los. As ordens sobrepõem-se: cronológica inversa? Afectiva? Ordem do espaço que ocuparam quando ocorreram? Ordens sincrónica, diacrónica, assincrónica? Impossível arrumá-las devido à impossibilidade absoluta de definir critérios. Não sei o que oiço, para além de saber que é barroco e que a soprano é Ana Vieira Leite, uma portuguesa que estudou em Genebra. A voz é sublime, bebo um Chianti assim assim e penso no espaço interior. Nos espaços: talvez seja boa ideia começar por organizá-los antes de saber como os preencher. Boas memórias para a esquerda, más para a direita, lugares ali em cima, filhos, netos e família aqui em cima à mão de semear... Não sei. A mulher tem uma voz fascinante. Ganhou montes de prémios e é jovem - mas nem a IA nem a Wikipedia sabem a idade. Pela voz parece mais velha. Espero pelo fim do programa para ver se dizem o que é. Daqui a duas semanas e meia tenho consulta com a médica de família e desta vez decidi fazer uma «lista de compras» dos males todos que me afligem. É difícil fixá-la porque vêm e vão, como as marés mas menos regular e previsivelmente. Também aqui há decisõesa tomar: deixar a carcaça apodrecer lentamente ou tratá-la para que o momento de a deitar ao lixo chegue mais tarde? Pô-la no lixo agora, de repente, está fora de questão. Ainda tenho muito por arrumar.
PS - Messiah, de Haendel.
A burguesia e a revolução
27.10.26
Democracia? Sim, directa e bela
Dia vinte e nove de Novembro é a data das próximas votações federais (e em Genebra cantonais). Deixemos estas últimas para outras núpcias. Há quatro assuntos a votos federais. Um já aqui foi mencionado: trata-se de proibir os fogos de artifício - com algumas excepções - para não assustar os animais. Não tenho seguido os debates mas intuitivamente diria que é pouco provável que passe. Outro, mais entusiasmante, tem a ver com a introdução de um décimo terceiro mês nas reformas. Para a pagar, o governo federal propõe um aumento de zero vírgula quatro por cento no IVA (com excepção dos bens de primeira necessidade, que ficam inalterados). Como há uma subida de impostos o referendo é obrigatório e como recebo uma pequena reforma suíça gostaria muito que o bom povo helvético aceitasse. Há porém muitas oposições. Se isto fosse um totobola meteria X. As duas outras interessam-me menos: acabar com uma norma fiscal que penaliza os casais casados e beneficia os casais não casados e modificar a legislação sobre exportações e revenda do material de guerra fabricado na Suíça. O governo federal recomenda que o povo aceite dois temas (o aumento do IVA e a lei sobre o material de guerra) e vote não aos outros dois mas o bom povo nem sempre segue as recomendações dos seus governantes. Estes, coitados, têm de governar em função das escolhas populares e não daquilo que pensam ou desejam.
Isto dito, o "soberano", como aqui é conhecida a vontade popular, por vezes engana-se. Menos, contudo, do que os políticos.
Nota: quem quiser aprofundar estes temas e ver como funciona a democracia directa pode ir a https://www.admin.ch/en/popular-vote-on-29-november-2026.
PS - Pelo que percebi ao fazer as consultas para escrever este post, que não foram exaustivas, o décimo terceiro mês já foi aceite e será pago já a partir deste ano. O que está em causa agora é o financiamento. Só me resta esperar que faça parte dos beneficiados. E que o referendo passe, para que o sistema de pensões suíço aguente mais uns anitos.
25.10.26
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 25-10-2026
Crimes do colonialismo
Fala-se muito nos crimes do colonialismo mas ninguém menciona o maior e pior deles todos: as potências colonizadoras terem entregado as colónias a movimentos de "libertação" marxistas, a "elites" corruptas e predadoras. Foi uma das grandes provas do egoísmo e da falta de empatia do Ocidente. Hoje os povos africanos - salvo raras e honrosas excepções - vivem pior e têm menos liberdade do que no tempo colonial e estão prontos a pagar fortunas e a morrer para reencontrar os antigos colonizadores.
24.10.26
Transacções
Tal como o sexo não é tudo numa relação amorosa, o dinheiro é apenas uma parte numa transacção comercial.