31.10.26
F., amores pegajosos e mulheres ideais
29.10.26
Arrumações
Hoje, sozinho em casa, com poucas probabilidades de ser assaltado por bandidos estúpidos, penso que é da gestão do espaço que devo falar. Espaço devia estar no plural: espaços, se bem um deles, o exterior, seja simples e fácil: cada coisa tem o seu lugar, cada lugar tem a sua coisa e ambos estão sabidos de antemão. Copos, pratos, talheres, jornais, livros, roupa, remédios - tudo tem o seu lugar. Da música posso escolher entre a rádio e o computador portátil. Opto por este: a música é a mesma (Espace 2, concerto em directo de Lausanne) e o som é melhor. Fica portanto o espaço interior por estivar. É mais difícil: está cheio de pessoas, coisas, gestos, olhares, histórias, memórias, lugares e não sei como seleccioná-los. As ordens sobrepõem-se: cronológica inversa? Afectiva? Ordem do espaço que ocuparam quando ocorreram? Ordens sincrónica, diacrónica, assincrónica? Impossível arrumá-las devido à impossibilidade absoluta de definir critérios. Não sei o que oiço, para além de saber que é barroco e que a soprano é Ana Vieira Leite, uma portuguesa que estudou em Genebra. A voz é sublime, bebo um Chianti assim assim e penso no espaço interior. Nos espaços: talvez seja boa ideia começar por organizá-los antes de saber como os preencher. Boas memórias para a esquerda, más para a direita, lugares ali em cima, filhos, netos e família aqui em cima à mão de semear... Não sei. A mulher tem uma voz fascinante. Ganhou montes de prémios e é jovem - mas nem a IA nem a Wikipedia sabem a idade. Pela voz parece mais velha. Espero pelo fim do programa para ver se dizem o que é. Daqui a duas semanas e meia tenho consulta com a médica de família e desta vez decidi fazer uma «lista de compras» dos males todos que me afligem. É difícil fixá-la porque vêm e vão, como as marés mas menos regular e previsivelmente. Também aqui há decisõesa tomar: deixar a carcaça apodrecer lentamente ou tratá-la para que o momento de a deitar ao lixo chegue mais tarde? Pô-la no lixo agora, de repente, está fora de questão. Ainda tenho muito por arrumar.
PS - Messiah, de Haendel.
A burguesia e a revolução
27.10.26
Democracia? Sim, directa e bela
Dia vinte e nove de Novembro é a data das próximas votações federais (e em Genebra cantonais). Deixemos estas últimas para outras núpcias. Há quatro assuntos a votos federais. Um já aqui foi mencionado: trata-se de proibir os fogos de artifício - com algumas excepções - para não assustar os animais. Não tenho seguido os debates mas intuitivamente diria que é pouco provável que passe. Outro, mais entusiasmante, tem a ver com a introdução de um décimo terceiro mês nas reformas. Para a pagar, o governo federal propõe um aumento de zero vírgula quatro por cento no IVA (com excepção dos bens de primeira necessidade, que ficam inalterados). Como há uma subida de impostos o referendo é obrigatório e como recebo uma pequena reforma suíça gostaria muito que o bom povo helvético aceitasse. Há porém muitas oposições. Se isto fosse um totobola meteria X. As duas outras interessam-me menos: acabar com uma norma fiscal que penaliza os casais casados e beneficia os casais não casados e modificar a legislação sobre exportações e revenda do material de guerra fabricado na Suíça. O governo federal recomenda que o povo aceite dois temas (o aumento do IVA e a lei sobre o material de guerra) e vote não aos outros dois mas o bom povo nem sempre segue as recomendações dos seus governantes. Estes, coitados, têm de governar em função das escolhas populares e não daquilo que pensam ou desejam.
Isto dito, o "soberano", como aqui é conhecida a vontade popular, por vezes engana-se. Menos, contudo, do que os políticos.
Nota: quem quiser aprofundar estes temas e ver como funciona a democracia directa pode ir a https://www.admin.ch/en/popular-vote-on-29-november-2026.
PS - Pelo que percebi ao fazer as consultas para escrever este post, que não foram exaustivas, o décimo terceiro mês já foi aceite e será pago já a partir deste ano. O que está em causa agora é o financiamento. Só me resta esperar que faça parte dos beneficiados. E que o referendo passe, para que o sistema de pensões suíço aguente mais uns anitos.
25.10.26
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 25-10-2026
Crimes do colonialismo
Fala-se muito nos crimes do colonialismo mas ninguém menciona o maior e pior deles todos: as potências colonizadoras terem entregado as colónias a movimentos de "libertação" marxistas, a "elites" corruptas e predadoras. Foi uma das grandes provas do egoísmo e da falta de empatia do Ocidente. Hoje os povos africanos - salvo raras e honrosas excepções - vivem pior e têm menos liberdade do que no tempo colonial e estão prontos a pagar fortunas e a morrer para reencontrar os antigos colonizadores.
24.10.26
Transacções
Tal como o sexo não é tudo numa relação amorosa, o dinheiro é apenas uma parte numa transacção comercial.
22.10.26
Revolução, Covid
Em vez de "Aonde estavas no 25 de Abril?" deve perguntar-se "Aonde estavas durante a Covid?"
É muito mais importante.
E o presente?
É a história de um bêbedo que cambaleia na rua entre duas vozes. Oscila, vacila, cai à esquerda e ouve vozes que lhe gritam "É mentira! É mentira!" Cambaleia para a direita e outras vozes respondem "É mentira! É mentira!"
"Se tudo é mentira tudo é verdade", raciocina. E vice-versa: se tudo é verdade, a mentira desaparece. Talvez nem tudo seja verdade ou mentira. Talvez haja um pouco de cada uma em cada uma. Talvez não haja verdades ou mentiras absolutas. Talvez haja graus, umas mais mentiras outras mais verdades." Dá mais uns passos hesitantes, fecha um olho para não ver a dobrar. Continua a ouvir os gritos, de um lado e do outro.
"E se em vez de ser dos lados da estrada as vozes me chegassem do passado e do futuro?", pergunta-se. Hesita. A ideia não lhe parece má mas uma dúvida permanece-lhe no espírito: "E o presente, aonde é que o pões?"
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 22-10-2026
Hoje foi dia de inaugurações: primeira queda na bicicleta e primeira micro-reparação - que teve pelo menos a vantagem de me permitir confirmar em primeira mão que posso andar nos autocarros com a burra. Têm um local específico para elas, com cintas e tudo. Mal uma pessoa entra com a bicicleta na mão a ou as pessoas que estão nessa área afastam-se para ceder o espaço. Já a queda resulta de uma dupla aprendizagem: a) andar numa bicicleta tão pequena e b) redescobrir Genebra a pedais. As cidades mudam muito, consoante o meio que usamos para as viver e eu já não pedalo em Genebra há mais de vinte anos. Resultado: hoje mudei de direcção sem prevenir e sem olhar para trás e uma jovem senhora montada numa bicicleta eléctrica - a esmagadora maioria, aqui - não teve tempo nem oportunidade para se desviar e fui ao chão. Felizmente ela aguentou-se e do meu lado os danos foram poucos: um minúsculo buraco nas calças. Nem o ego se magoou, veja-se. Uma ou duas horas depois o selim saiu do espigão e tive de levar a mini-burra de autocarro até à loja, aonde me emprestaram uma chave de doze e um spray tipo WD40 mas melhor (não é difícil) e a coisa ficou como nova. Como ainda tenho para mais duas semanas, aproximadamente, terei tempo de aprender. Sem quedas, claro. E a olhar para trás.
A verdade é que a quantidade de bicicletas em Genebra aumentou exponencialmente e agora são quase todas eléctricas. Transportes públicos magníficos, ruas limpas, bem pavimentadas e bem sinalizadas - com os sinais respeitados. Isto faria inveja a um santo. A mim não faz porque não sou santo.
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Não sei está a avançar visivelmente. Daqui por um mês, mais coisa menos coisa estará nas livrarias. Vai ter a mesma quantidade de páginas do que os outros mas com metade dos anos - dois em vez de quatro. Foram dois anos e peras, é o que é. Entretanto lembro-me de que o DV vai fazer vinte e três anos daqui a dois meses. Tem sido um companheirão e vai continuar a sê-lo, espero. Prefiro escrever disparates a não escrever de todo.
18.10.26
Teias, funâmbulos, balancé e Paul Klee
17.10.26
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 17-10-2026
Escrevo para mim. Sou uma audiência difícil, insatisfeita. É o que há. Os leitores, os outros, os que não são eu estão presentes porque tento escrever bem. Isto é, respeitando as regras da gramática e as do estilo, mais difíceis mas igualmente importantes. Não sei o que é escrever bem. Ser legível. Ser inteligível. Não sei. Ser adivinhável. Escrever é passear entre estas linhas, a de sombra e a da clareza, um exercício de funambolismo com uma vara infinita nas mãos. Para um escritor essa vara tem dois nomes: alfabeto e dicionário. Ou três, se lhes quisermos acrescentar a gramática, tão importante como as outras duas.
Vitaminas, frugalidade
Há treze tipos de vitaminas, diz-me a inteligência artificial que me responde cada vez que pergunto qualquer coisa ao Google. A lista não me parece completa. Faltam pelo menos as duas preferidas de uma antiga colega minha, uma senhora zimbabweana, bem fornida de carnes e de humor. Eram essas as vitaminas "aaaahhh" e "fffff....". Por vezes mencionava-as de manhã, no escritório selecto aonde ambos fingíamos que trabalhávamos. Havia pouco que fazer e mesmo essa parca quantidade era tratada com muito cuidado, muita ternura, nada de a magoar. Nunca a ajudei a tomar essas vitaminas: a senhora tinha demasiadas carnes para o meu gosto. Sempre fui frugal nessas coisas. Além de que desconfio que ela tinha quem lhas fornecesse em quantidade. Não posso porém negar: por vezes lembro-me dela. Terá perdido peso?
16.10.26
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 16-10-2026
Passeio às Franches-Montagnes. Não sei se é a região mais bonita da Suíça. Para mim é mas estou longe de conhecer todas. É a minha favorita: estes campos que me trazem carapinhas à memória, casas que parece terem sido erguidas contra o tempo - e foram: no século XIV o príncipe de Basileia isentou de impostos quem fosse viver para ali. Daí o nome. A região não é amena e as casas tradicionais mostram-no bem. Gosto do amor dos naturais pela terra, é uma devoção. Fomos a uma loja de mulheres agricultoras, uma daquelas em que um tipo entra e tem vontade de comprar tudo: produtos exclusivamente da região, todos de altíssima qualidade. A loja chama-se assim porque é gerida pelas mulheres dos agricultores - que fazem igualmente alguns dos produtos à venda e se revezam na presença. Depois foi a vez do Café du Soleil, uma instituição em Saignelégier e do étang de Gruère, iluminado pela luz do fim da tarde, densa «como mel» (Leonard Cohen). O Jura é a mulher feita natureza, redonda e forte, doce e segura de si.
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Passámos muito de passagem por La Chaux-de-Fonds, uma cidade que absorveu a minha infelicidade como se fosse um mata-borrão e ainda hoje a mantém guardada, prestes a ser expelida à menor pressão.
Penso no que fui infeliz ali e apercebo-me de que já o era muito, antes de para lá ir. E que foi de la Tchaux que o meu périplo começou: norte da Itália, Dunkerque, Aveiro, Zurique, Genebra. O mata-borrão funcionou eficazmente. Não que tenha ficado com a infelicidade toda, longe disso. Mas ensinou-me que passeá-la não servia de nada.