29.3.26
Diário de Bordos - Vilarelho, Caminha, Alto Minho, 29-03-2026
28.3.26
Mais aspectos menos conhecidos da vida de F.
F., de quem já aqui falámos há várias meias dúzias de meias dúzias de anos, apercebeu-se um dia de que a sua vida era feita de muitos e de nadas, sem nada no meio. Ele cambaleava entre uns e outros e a esses ziguezagues chamava vida. Sendo a pessoa organizada que era e familiarizado com as coisas do mar um dia resolveu que os muitos lhe ficavam por bombordo e os nadas por estibordo. Questão de mnemónica, claro. Poderia ter sido ao contrário. O que é muito é bom, pensou nesse dia. Não precisou de muito mais do que uma dúzia de cambaleios para descobrir que o raciocínio era falacioso mas decidiu mantê-lo, por inércia e preguiça. "São coisas diferentes", pensou, porque era dado à introspecção. A que dava o nome, quiçá errado, de "hermenêutica da vida quotidiana" (aspas porque o cito, apesar de saber que ele, sendo tímido e reservado, detestava ser mencionado). E assim vivia, de braço dado com a vida, apoiado em raciocínios falazes. Trocava de braço, contudo: quando guinava para bombordo apoiava-se no braço esquerdo e no direito quando a vida o levava para o outro bordo.
"Porém, entre o muito e o nada alguma coisa há-de existir, porque se não flutuo no vazio. No espaço. Ora isso não é possível. Não faço parte da banda Spiritualized... e que fizesse. Aquilo é uma canção: Ladies and gentlemen, we are floating in space. Não passa de um conjunto de sons. Com nomes diferentes, é certo: palavras e notas musicais. Nada mais do que isso. Ar a passar através de cordas vocais e de cabos eléctricos. Uma vida não é feita de ar. Mas entre muitos e nadas que tenho eu?"
O dilema, percebe-se facilmente, é difícil: se houver muitos nadas a vida de F. é feita de muitos e de nadas, mas se houver poucos é feita de muitos nadas. F. resolve arquivar a questão no armário "Insónias", o qual, diga-se de passagem, está bastante cheio. É um armário que só se abre à noite. O processo é sempre igual: F. está cheio de sono, vai para a cama, apaga a luz e o sono desaparece. As sinapses que durante o dia não registaram qualquer passagem de neurotransmissores transformam-se em barragens a descarregar excesso de água. O armário "Insónias" abre as portas, incapazes de conter o jorro. Hoje, num desses comboios descontrolados apareceu a banda Spiritualized, como supra se viu. De Floating in space F. vai para a estranha origem desta inicial. O seu nome de baptismo é Fulano de tal, verbatim, apesar da forte oposição da mãe, da funcionária da Conservatória do Registo Civil, do padre que o baptizou e dos padrinhos. Abreviou o nome para a inicial desde que aprendeu o seu significado. Por isso, aliás, é tímido e reservado. Na escola... ah, na escola. F. evita pensar na escola e pára a música que ouve no telefone. Detesta ouvir música nesse aparelho mas à noite na cama não se levanta para pôr o disco, que de qualquer forma não tem, perdido num dos milhares de zigues ou zagues que passaram desde que o comprou, já lá vão alguns decénios. Daqui passa para o magno problema da meia-vida da betahistina, que é de três horas e meia. Bom, isto é estranho.
Cont.
27.3.26
25.3.26
Divisão do trabalho
21.3.26
Devagar, café
A ideia base - ou será antes a base da ideia? - é adormecer devagar, cozinhar devagar, ler, amar, sorrir, viver, olhar devagar. Morrer devagar, de certa maneira. Que o escorrega pelo qual se desliza seja o menos inclinado possível.
Verdade: qualquer que seja o declive não se o conseguirá subir. Só se desce. Mas pelo menos que se desça devagar. E que esse vagar infiltre tudo o que se faz.
Até o café ganha em ser feito lentamente.
19.3.26
Diário de Bordos - Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 19-03-2026
O vinho chama-se Vale d'aldeia Grande Reserva Sousão e é de 2022. É muito bom, vinho português como gosto deles, taninos que ficam mas não magoam, corpo denso e fino... Parece uma mulher portuguesa, não é? Algumas.
Mas alguém morre com nada por fazer? Sorte...
Não sei. Chegou a vez do You want it darker porque já não há mais nada dele para ouvir e a resposta «é não, Leonard, não quero isto mais escuro nem estou pronto, não me importo de morrer e deixar um monte de coisas por fazer mas chateia-me deixar a carcaça em mau estado para os vermes que a hão-de comer.»
Hoje é o aniversário da minha primeira namorada. É uma das raras datas que retive nestes últimos cinquenta e tal anos.
Conhecem um poeta espanhol chamado Antonio Gamoneda? É das melhores coisas que a língua espanhola produziu e produziu tantas.
Ahora,
Melancolia? Lê Blake, meu caro. Cura-te isso mais depressa do que um paracetamol te cura a dor de cabeça.
«He who binds to himself a joy
But he who kisses the joy as it flies
18.3.26
Pequena nota à parte
Sesta, falhar, Cohen, Carson e outras coisas fúteis como o tempo e o espanto
16.3.26
14.3.26
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 14-03-2026
Tive dois dias de sol e agora a normalidade regressou: chuva e frio até me ir embora. A minha previsão no avião estava portanto parcialmente errada e certa. Acontece frequentemente com as previsões feitas ab ante: às vezes acertam, às vezes falham e outras acertam e falham. A questão de quantificar cada uma dessas é ociosa. Pelo menos para mim, que aprendi faz décadas a conviver com a incerteza, o acaso e as coisas sobre as quais não tenho qualquer espécie de controle. (Nem quero ter, mas isso é outra história.)
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Fui comprar o queijo à queijaria Au Gruyère, também conhecida por Oberson, provavelmente a melhor queijaria de Genebra e arredores. Não sei. Para mim é a única, por isso não faço comparações. Espero com ansiedade que alguém me demonstre que estou errado e há uma melhor.
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No regresso passei pelo Globus, faltava-me pão e alho. Aquilo é como ir ao jardim zoológico, mas em vez de se ver macacos vêem-se ricos. Prefiro estes àqueles, e ainda mais quando se trata da parte feminina das respectivas espécies.
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De manhã vou beber um café e ler o jornal. É um hábito civilizado: ler o jornal de manhã no café. Felizmente em Genebra os estabelecimentos continuam a permitir-nos mantê-lo, apesar de haver cada vez menos títulos.
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Poucos, mas bons. Veja-se esta notícia:
"On aura tout vu.
On a voté la semaine passée en Argovie sur la limitation des radars fixes accusés de remplir les caisses de l’État. La loi est passée. Au fait, il y en a combien de radars fixes en Argovie? Un. Mais gouverner, c’est prévoir!"
12.3.26
Tendo sido, sendo
Esta cidade que é minha porque já foi minha e há coisas que sendo uma vez nunca deixam de ser.