4.4.26

Diário de Bordos - Vilarelho, Caminha, Alto Minho, Portugal, 04-04-2026

Mexo e remexo as fotografias. Não é sequer como baralhar e dar de novo porque as baralho - nada de rimas, por favor - e não as dou de novo, ficam aonde estavam com uma ordem ligeiramente diferente. Não sei o que fazer daquilo, é o que é. Algumas são boas, ao contrário do que sempre pensei. Talvez efeito Vivian Maier, vá lá saber-se.

Não é verdade. Algumas, uma minoria de uma minoria, sempre soube que são boas. O que nunca soube bem é definir boas. Para quê? Para quem? Porquê? Quais? As do trampolim do Locle, por exemplo; as do patinador em Plainpalais; as do Krüger; muitos dos retratos; não teria de me envergonhar delas se as mostrasse. 

Comecei a publicar o blogue no dia em que decidi que pior do que os outros não seria. Ao fim de um ano ou dois tive a primeira proposta para o publicar em livro. Declinei, com uma desculpa mais desculpa do que justa. Por burrice? Por modéstia? Aposto mais na primeira: hoje vou na terceira compilação de posts e não pararei enquanto não chegar ao fim.

Na fotografia não foi assim. Primeiro, houve a história da galeria Nikon de Zurique, que me seleccionou seis diapositivos (de entre vinte, eles mesmo já seleccionados de entre algumas centenas) para uma exposição que teria lugar em breve. Infelizmente, arranjei maneira de os perder. Simplifico: alguém os perdeu por mim. Depois houve o tipo da galeria já não sei aonde, creio que Nyon, talvez Genebra: «Reconheço um certo trabalho sobre a luz, mas não tem qualidade para uma exposição.» Aceitei sem mais.

É preciso dizer que a minha relação com a fotografia tem sido uma de amor e desamor permanentes, ambos. E que não me apetece falar disso. Gostaria simplesmente de ser um bocadinho menos como eu e um bocadinho mais como os outros. Lá chegarei, um dia: estaremos todos enterrados e não há maior similitude do que essa.

Suponho.

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A casa não é vasta mas é basta. Depende, claro: é vasta quando tenho que a limpar, como hoje fiz (parcialmente. O resto fica para o ano.) Quando não tenho de a limpar é pequena. E basta é mas não sei porquê. Talvez porque me sinto bem nela, na música que nela oiço, nas imagens que já estão nas paredes e nas que ainda faltam, nas refeições, no vinho, na bicicleta na garagem, nos móveis de que a maioria me vêm da minha Mãe - a decoração da casa não era uma área na qual o meu Pai se imiscuísse muito, com a possível excepção dos objectos náuticos -, nos livros que todos os dias vejo e todos os dias me dão vontade de pegar neles. Só vontade. Nagumas coisas sou Schopenaueriano. (Nas outras não sou porque não o conheço o suficiente.)

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«Um preto e uma mulher em missão à Lua», leio num sítio qualquer. Não consigo perceber a diferença entre um preto, uma mulher e uma pessoa. Acresce que a citação não é verbatim, claro A modernidade criou a diferença entre pretos e pessoas e apagou a palavra preto do léxico. Não percebo em que é que ficámos melhor.

Poucas coisas me permitem passar o abismo que me separa dos dias de hoje: a navegação por satélite, o telefone portátil...

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Riviera: aqui não estou no Paris Texas mas sim num filme do Claude Chabrol. 

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Nesta última travessia gtive um problema médico a bordo. Estava a três dias do porto mais próximo. Foi a conjugação do satélite e do telefone (obrigado, Elon) que me permitiu resolver a situação. Resolver é um exagero: hoje sei que a senhora não morreria do que sofria. Mas teria sofrido consideravelmente mais e eu também. Passei um dia a pensar que ia chegar a terra com um cadáver a bordo. Quando soube que não, o alívio foi considerável.

No fundo, o Starlink é a versão moderna da rádio de ondas curtas. É simplesmente mais eficaz e mais barato e não serei eu, doravante, quem lhe vai negar a utilidade.

3.4.26

Quinta-feira, clientela

Noite de quinta-feira véspera de feriado. O bar está cheio mas a clientela não é muito variada: metade tem cara de arquitecto e a outra metade de cliente de arquitecto.

Impromptu ferroviário

Um pequeno imprevisto não previsto, passe o pleonasmo involuntário, claro, como tudo o que por aqui passa, passe a mentirita, um pequeno imprevisto, dizia, fez-me regressar a Caminha de comboio em vez de ir de carro como estava previsto antes do imprevisto. Tive uma vez mais direito aos habituais atrasos dos comboios da CP, que devia acrescentar um A ao nome e à proverbial simpatia do seu pessoal, que merece uma medalha. De caminho e como tinha quase uma hora de espera fui jantar a um restaurante indiano perto da estação (da Campanhã, a quem possa interessar) que bem poderia acrescentar um H ao nome. Ando com azar aos restaurantes, se bem o de ontem ainda não mereça o tal H. Uma andorinha não faz a Primavera e uma refeição merdosa não faz de um restaurante um local intragável, tanto mais que a primeira vez que lá comi não foi mau de todo. Foi só assim-assim, nem bom nem mau antes pelo contrário. Já o lamb madras de hoje estava péssimo, aquilo parecia mais molho de tomate do que outra coisa mas pronto, não faz mal, a verdade é que não esperava muito mais. De maneira aqui vou no intercidades atrasado, em primeira classe apesar de ter bilhete de segunda. O senhor revisor, quando lhe fui perguntar se podia mudar o bilhete disse-me «sente-se ali e não se preocupe» e obedeci-lhe em tudo: sentei-me e não me preocupo. A carruagem está um bocadinho fria, é certo, mas não sou eu quem vai reclamar, não reclamo de nada, aliás, sou um rapazinho obediente e já li o Cândido e sei que vivo no melhor dos mundos possíveis e portanto é uma sorte não estar ainda mais frio ou o atraso não ser ainda maior. Tanto mais que a espera passou bem, estou sem bateria no telefone mas tenho o tablet e no restaurante pude ler as notícias e aqui posso escrever apesar de o wifi não estar a funcionar, coisa que não me impede de todo de agradecer publicamente à CP e ao seu pessoal que é de uma simpatia estratosférica. Além disso tenho o blusão de cabedal (de carneiro) que comprei em Gibraltar a preço de saldo e portanto posso fazer jus à sentença do armador norueguês com quem naveguei de la Corunha a Copenhague: «Não existe "tenho frio". Existe "não estou suficientemente vestido"». O comboio leva-me velozmente e fende a noite escura como se esta fosse manteiga e ele (comboio) uma faca quente e eu começo a pensar que sem telefone não poderei chamar um táxi em Caminha e lá terei de fazer apelo à minha proverbial capacidade de me desenrascar de qualquer imprevisto por menos previsto que seja. Ou seja: terei de ir primeiro a um sítio qualquer que esteja aberto e tenha um carregador e um cabo USB-C e me deixe pôr o telefone a carregar um momento e daí chamar o táxi e tentar não pensar «porra!, só quero é estar em casa» que é aonde realmente queria estar agora, quanto mais daqui a não sei quanto tempo porque não sei a que horas chegarei a Caminha porque sem wifi não tenho acesso aos horários da CP e o simpático revisor ainda não veio para estas bandas. Está quase, vejo agora, vejo-o a chegar. Isto dos relatos em tempo real é outra coisa, não é? É, se bem ainda esteja à espera de que alguém me explique o que é o tempo irreal, mas isso fica para depois, tanto mais que o senhor revisor manteve a sua palavra e me disse «deixe estar» quando lhe mencionei a troca do bilhete. Isto faz-me pensar na TAP, que anda sempre atrasada e tem o melhor pessoal de cabine do mundo e arredores. Bom, tudo isto para dizer que hoje fui finalmente almoçar ao restaurante O Antunes e lá comi um excelente cozido à portuguesa em excelente companhia pré-imprevisto. Percorri de novo a zona entre a Cedofeita e o Bolhão, a única que conheço no Porto, pude uma vez mais asseverar a honestidade de um senhor a quem há anos paguei uma certa soma de dinheiro por uma peça que nunca mais fui buscar e que hoje me disse «o seu crédito continua válido», a citação não é verbatim mas o sentido é esse e estava o dia quente e eu feliz como sempre que o calor me harmoniza com o mundo, a vida e as ruas de uma cidade de que gosto muito, cheias de jovens, revoadas deles, rapazes e raparigas alegres, a alegria deles ecoa pelos prédios fora, tão velhinhos que eles são.
 
É isto o Porto, meus amigos: juventude, honestidade e boa comida. E é isto uma viagem de comboio: conforto e simpatia pela noite fora.

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A ida ao Porto tinha dois motivos e um deles era ver a exposição de Vivian Maier e tenho muitas coisas a dizer dela, refiro-me à exposição, mas agora só tenho uma: vinde. Vinde, estejais aonde estejais, vinde ao Centro Português de Fotografia, aquilo fica até Agosto, não perdais uma exposição que vos leva ao âmago da fotografia enquanto arte, da arte fotográfica, de tudo aquilo que a fotografia representa mas que agora é difícil de descrever porque por um lado ainda esta muito quente e por outro os solavancos destes comboios não ajudam – isto está longe de ser uma reclamação –, é preciso escrever cada palavra duas vezes. Quase. Imaginem agora o trabalhão que este texto me deu até aqui, já passa das novecentas palavras (escrevo no Word...)

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Já o resto da viagem decorreu como o previsto, o único imprevisto sendo que o T. T. estava na estação à espera da mulher e deu-me boleia até à rua Direita. Ali, no bar Norte, carreguei o telefone, bebi um par de cervejas, chamei um táxi e esperei mais de meia hora por ele porque Caminha não é Manhattan e o senhor estava não percebi bem aonde e isto não é Manhattan nem nada que se pareça; a chegada a casa também foi como previra e pronto, agora sim, o dia acaba, coisa mais do que prevista: acaba um dia, começa outro, acaba um imprevisto e não tarda haverá outro, eu sei. Ou pelo menos espero, que isto de vidas nos carris não é para mim nem eu para elas, talvez infelizmente, sei lá.

2.4.26

Três efes confusos

Há uma confusão entre forma, fundo e função... Partilham algo mais do que a inicial? O Jaguar E-type é o carro mais bonito jamais feito,  mas é o "melhor"? (Aspas porque não sei o que é o melhor automóvel.  Nem o pior, de resto. Percebo pouco de automóveis.) E uma cara bonita e inteligente é mais completa do que a mesma mas burra? Qual é a função de uma cara, para além de servir de metonímia neste post? O que é o fundo de uma cara bonita (ditto)? E a função?

É um "textículo" sem fundo, sem forma e sem função, menos engraçado do que a casa sem paredes.

(Cont.)

1.4.26

Diário de Bordos - Vilarelho, Caminha, Alto Minho, Portugal, 01-04-2026

O termómetro do carro diz que estão sete graus centígrados; para a página da meteorologia, estão doze; para mim, está frio. demasiado frio. Desta vez não tive a sorte de principiante da outra e tenho uma dúzia de pessoas à minha frente na fila para o centro de saúde. Cá fora, claro, que isto de esperar num sítio aquecido não é para tesos.

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Na Riviera testo as canetas. Um parágrafo cada. Só uma está vazia.

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O meu próximo livro, que em breve será publicado (dependendo do que cada um entende por breve) chama-se Não Sei e «é dedicado a todas as mulheres que me deixaram». Acrescento: «não liguem ao título. Eu sei porquê». É fácil: não sou miscível. Não sou compatível, por assim dizer. Nem eu nem a minha vida, se fossem duas coisas diferentes. Não são.

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Estou cansado, com frio, com sono, com ou sem não sei o quê. O almoço foi horrível. Quase duas horas de espera para comer uns mexilhões que só não estavam uma merda porque eram poucos. Duas porções faziam metade de uma deles na Flandres. Felizmente estavam maus e não sentimos a frugalidade da dose.

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A noite foi curta devido à conjunção de uma entrevista para a Rádio Voz de Alenquer, de madrugada e da necessidade de ir cedo para conseguir uma consulta médica. Depois do almoço fui deitar-me, acordei à hora de jantar e vim ao Diner, o único sítio de Caminha que se coaduna com o meu estado de espírito. Faz-me sentir que acabo de sair do Paris Texas. E com a minha vontade de não-jantar, depois do não-almoço.

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Como um arquitecto que desenhasse os planos da casa depois de esta construída... 

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A seguir à ponte de Cerveira para Espanha, já do lado espanhol, há uma placa a dizer «Bajo Miño». O chão de um homem é o tecto do outro. Até na geografia.

Explicação

Escrevo de dentro para fora e fotografo de fora para dentro.

30.3.26

Misturas, pessoas, o que somos e não seríamos, sem elas

Não sei se já vos aconteceu. Provavelmente já. Passarem por um sítio e pensarem "de toute façon on s'en fout. On est pas d'ici. Demain on s'en va." E depois vão-se embora, sim.

Só que o sítio não se vai embora de vocês. Não sai, por assim dizer. Não vos larga. De repente, descobrem que afinal não se estão nas tintas, muito longe disso. O sítio embrenhou-se por vocês adentro e vocês por ele e com o tempo, em vez de se decantarem e separarem, o sítio e vocês ficaram um. O lugar persegue-vos. A luz, uma rua, uma esquina, um café ou um restaurante, uma furtiva troca de olhares no mercado, uma conversa com um desconhecido no autocarro.

Aconteceu-me várias vezes. Poderia fazer uma lista enorme de lugares assim, do menos como Klintholm na Dinamarca - aonde fiquei talvez três dias - a Palma, aonde vivi seis anos, passando por S. Luís, no Maranhão. Tantos outros...

Agora façam um exercício e substituam sítio por mulher (no meu caso. A cada qual as suas preferências). Primeiro: o número reduz-se. Não é uma questão de quantidades relativas. Pouco importa se já passaste por mais mulheres do que lugares ou vice-versa. É que as pessoas (ditto) têm uma maneira diferente de se embrenhar em nós. Cada mulher foi um porto para mim, escrevi um dia para justificar o facto singelo de não ter tido uma mulher em cada porto. Não tive. Mas algumas mulheres foram mais do que um porto para mim. Para começar, porque não o foram: são-no. Ainda são. Serão sempre, enquanto sempre existir. Mas o pior, por assim dizer, é que não o serão para sempre: foram-no desde sempre, desde mesmo antes de as conhecermos, como se estivessem ali à nossa espera e nós tivéssemos nascido para um dia nos acolhermos nelas e elas em nós. Não é caso de se dizer «vivi para te conhecer». É: «vivo porque te conheci e amei e fui amado por ti.» (Tudo isto com os verbos no presente do indicativo: vivo... e amo... e sou...) 

Poder-se-ia, claro, aplicar o mesmo dispositivo de raciocínio aos livros e aos seus autores: penso em Borges, em Beckett, em Marguerite Yourcenar, penso na insubstituível poesia de Alejandra Pizarnik, em Conrad ou em Jack London, no fundamental Robert Pirsig. No fundo, é isto que somos? Sim. Não. É isto que trazemos em nós e nos faz: uma mistura de lugares, pessoas e livros.

Destas misturas, o que sobressai não é um porto ou um livro. É uma pessoa. Borges resumiu-o com a sua habitual maestria num poema chamado El enamorado, que termina assim: «Sólo tú eres, tu, mi desventura / y mi ventura, inagotable y pura

29.3.26

Diário de Bordos - Vilarelho, Caminha, Alto Minho, 29-03-2026

«Não magoes o alho!» Penso nesta injunção cada vez que cozinho, use ou não o que o bacalhau quer. A história foi-me contada pelo E. K., que conheci em Palma e é daquelas pessoas de quem lamento ter deixado a geografia separar-nos. O rapaz trabalhava em Bali num restaurante e a dona, uma senhora local já com uma certa idade (vendo a história ao preço a que o E. ma contou, ao qual acrescem as tarifas da memória)  viu-o e gritou «Não magoes o alho!» Não tenho mais pormenores: não sei como é que o E. estava a magoar aquilo nem como se é suposto fazê-lo para o evitar. Eu adaptei à minha maneira e tento tratar o alho o mais suavemente possível. Como de resto tudo o que me rodeia: «não magoes», digo a mim mesmo, sabendo que bastas vezes falho e que algumas dessas vezes o faço propositadamente porque não sou um santo (sou muitos mas só no apelido).

De maneira hoje não magoei o alho que pus na açorda que fiz para dar cabo do resto do pão, continuo a detestar deitar comida fora (mas ainda ainda não aprendi a fazer comida só para uma pessoa, o meu congelador todos os dias me diz que o estou a magoar de tanto o empanturrar e hoje tive de tirar a sopa do B., não gosto daquilo mas ele dá-me um monte dela constantemente e eu não sou capaz de deitar fora). Uma vida cheia de arrelias, como se pode ver. Mitigo-as, é certo: vinho da Quinta dos Termos, que se houver um céu para produtores de vinho e se nele houver justiça tem lá lugar reservado, à direita de Deus-Pai-dos-Vinhos. A música desceu um bocadinho na qualidade: passou dos Magnetic Fields para os Pink Floyd e este disco deles é uma merda, diga-se de passagem mas não tarde acaba e de qualquer forma vou ter de me levantar para reencher o copo, maldito frio, que não pára, maldito copo.

Ou seja: assim se faz  um domingo ou pelo menos a primeira parte dele: acho uma idiotice a mudança da hora mas esta da Primavera tem pelo menos a vantagem de me encurtar as manhãs, coisa que às vezes me apetece muito e outras nada. 

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Encontrei a minha prima A. S. D. no solar do Moinho de Vento, no Porto. Isto nada teria de extraordinário - O Solar é um dos meus restaurantes favoritos no Porto - se não estivesse concatenado numa cadeia de acasos que é demasiado longa para desencadear aqui. Basta dizer que gostei muito de a ver e gostaria que o próximo encontro fosse daqui a menos de vinte anos.

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Batalha em curso: fazer-me aceitar pela terra (terra em sentido lato. Talvez a devesse grafar em caixa alta, mas aí aparecer-me-iam os adoradores de Gaia e outras tretas. Fica terra no sentido em que os marinheiros lhe dão: vou à terra, estejam em que porto estiverem. Vou à terra. É bonito. Não dizem «vou a terra.» Dizem «Vou à terra», como se fosse a única ou a última ou como se fossem todas iguais, a terra de onde eles vêm e esta aonde agora estão.)

Vá lá. Tenho a Hildegarde a cantar para mim. Só me falta a segunda sinfonia de Mahler. Sou contra a pena de morte salvo algumas excepções. Uma dessas é para quem rouba CD. Outra bem merecida é para quem põe vírgulas entre o sujeito e o predicado de uma frase. Quem usa «colocar» em vez de «pôr» também deve ser incluído no grupo. Hifenizar verbos de uma forma errónea era um dos pilares dessas excepções até que recentemente vi uma senhora por quem nutro a maior das admirações incorrer nessa desgraça (admiração intelectual, preciso; estética também, mas como nunca a vi pessoalmente e devo basear-me nas imagens do FB esta componente da minha admiração é reduzida). Foi imediatamente despromovida (a desgraça, não a senhora. Agora merece um simples suspiro de desalento). 

28.3.26

Mais aspectos menos conhecidos da vida de F.

F., de quem já aqui falámos há várias meias dúzias de meias dúzias de anos, apercebeu-se um dia de que a sua vida era feita de muitos e de nadas, sem nada no meio. Ele cambaleava entre uns e outros e a esses ziguezagues chamava vida. Sendo a pessoa organizada que era e familiarizado com as coisas do mar um dia resolveu que os muitos lhe ficavam por bombordo e os nadas por estibordo. Questão de mnemónica, claro. Poderia ter sido ao contrário. O que é muito é bom, pensou nesse dia. Não precisou de muito mais do que uma dúzia de cambaleios para descobrir que o raciocínio era falacioso mas decidiu mantê-lo, por inércia e preguiça. "São coisas diferentes", pensou, porque era dado à introspecção. A que dava o nome, quiçá errado, de "hermenêutica da vida quotidiana" (aspas porque o cito, apesar de saber que ele, sendo tímido e reservado, detestava ser mencionado). E assim vivia, de braço dado com a vida, apoiado em raciocínios falazes. Trocava de braço, contudo: quando guinava para bombordo apoiava-se no braço esquerdo e no direito quando a vida o levava para o outro bordo.

"Porém, entre o muito e o nada alguma coisa há-de existir, porque se não flutuo no vazio. No espaço. Ora isso não é possível. Não faço parte da banda Spiritualized... e que fizesse. Aquilo é uma canção: Ladies and gentlemen, we are floating in space. Não passa de um conjunto de sons. Com nomes diferentes, é certo: palavras e notas musicais. Nada mais do que isso. Ar a passar através de cordas vocais e de cabos eléctricos. Uma vida não é feita de ar. Mas entre muitos e nadas que tenho eu?"


O dilema, percebe-se facilmente, é difícil: se houver muitos nadas a vida de F. é feita de muitos e de nadas, mas se houver poucos é feita de muitos nadas. F. resolve arquivar a questão no armário "Insónias", o qual, diga-se de passagem, está bastante cheio. É um armário que só se abre à noite. O processo é sempre igual: F. está cheio de sono, vai para a cama, apaga a luz e o sono desaparece. As sinapses que durante o dia não registaram qualquer passagem de neurotransmissores transformam-se em barragens a descarregar excesso de água. O armário "Insónias" abre as portas, incapazes de conter o jorro. Hoje, num desses comboios descontrolados apareceu a banda Spiritualized, como supra se viu. De Floating in space F. vai para a estranha origem desta inicial. O seu nome de baptismo é Fulano de tal, verbatim, apesar da forte oposição da mãe, da funcionária da Conservatória do Registo Civil, do padre que o baptizou e dos padrinhos. Abreviou o nome para a inicial desde que aprendeu o seu significado. Por isso, aliás, é tímido e reservado. Na escola... ah, na escola. F. evita pensar na escola e pára a música que ouve no telefone. Detesta ouvir música nesse aparelho mas à noite na cama não se levanta para pôr o disco, que de qualquer forma não tem, perdido num dos milhares de zigues ou zagues que passaram desde que o comprou, já lá vão alguns decénios. Daqui passa para o magno problema da meia-vida da betahistina, que é de três horas e meia. Bom, isto é estranho. 

Cont.

27.3.26

Espelho meu

Tenho mais pele do que músculos e mais pelos do que pele.

25.3.26

Divisão do trabalho

Se os optimistas não tivessem razão, hoje viveríamos em grutas e seríamos caçadores-colectores. Quem faz o mundo mudar somos nós, optimistas. Os pessimistas apenas servem para consolidar aquilo que nós idealizamos.

21.3.26

Devagar, café

A ideia base - ou será antes a base da ideia? - é adormecer devagar, cozinhar devagar, ler, amar, sorrir, viver, olhar devagar. Morrer devagar, de certa maneira. Que o escorrega pelo qual se desliza seja o menos inclinado possível.

Verdade: qualquer que seja o declive não se o conseguirá subir. Só se desce. Mas pelo menos que se desça devagar. E que esse vagar infiltre tudo o que se faz.

Até o café ganha em ser feito lentamente.