6.10.26

Ad libitum e outras lamechices

Podem criticar-me ad libitum. Pouco me afecta: é como vivo.

4.10.26

Medo e outros receios

Penso no medo e de como é importante para a sobrevivência. Sem ele não não se vive. Com ele tão pouco: o medo paralisa. Daqui passo para alguns dos arraiais de porrada que apanhei no mar: não é durante a tempestade que temos medo. É depois. Durante o temporal está-se demasiado ocupado, não há tempo para receios - estratégia de sobrevivência, claro. A natureza conhece o poder incapacitante do medo. 

A associação de ideias prossegue e continua para a quantidade daquilo a que hoje chamo idiotices que fiz no mar: os passeios na retranca para rizar, as vezes em que voltei para bordo agarrado à escota da grande, os trabalhos no bico da proa - tudo sem arnês. Hoje continuaria a não o pôr (o medo aguça o engenho, não gosto de me sentir preso e sobretudo execro a ideia de ser arrastado pelo barco e não conseguir subir) mas penso que essas asneiras me ensinaram a ter medo de mim próprio, talvez o mais útil de todos os medos. 

30.9.26

Ricardo, (rei dos) Reis

Não só quem nos odeia ou nos inveja

Nos limita e oprime; quem nos ama

Não menos nos limita.

Que os deuses me concedam que, despido

De afetos, tenha a fria liberdade

Dos píncaros sem nada.

Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada

É livre; quem não tem, e não deseja,


            Homem, é igual aos deuses.


Ricardo Reis, in "Odes"

27.9.26

Pancada, pimenta

Móis a pimenta no almofariz. Os grãos partem-se a cada golpe do pilão e libertam o odor que procuras. Sê como a pimenta: mostra o que vale quando leva pancada. Não ligues ao que está partido.

24.9.26

Palma, redundância e aliterações

A julgar pelo meu FB, devo ser o único português que nunca ouviu uma canção completa do Jorge Palma. Paciência. Não estou, contudo, completamente arredado: convivi de perto com uma senhora que o conhecia bem e me garantiu que era "um gajo porreiro". Chega-me. Prefiro de longe um gajo porreiro a um cantor cheio de talento. Há-os cheios de talento e execráveis. Cantores, pintores, escritores, escultores e outros ores. O carácter é mais importante do que o talento. 

Pelo menos para quem quer ser amigo do artista. Quem lhe quiser apenas consumir a arte deve prestar mais atenção ao que o homem faz do que ao que é. Não se deve é misturar as duas coisas. São como o trabalho e o conhaque: a degustar separadamente. 

PS - Aplico a mesma grelha aos políticos, às putas e aos palhaços,  passem a redundância e as aliterações. 

Retrato - distracção

Era um tipo muito distraído e desinteressado. Vivia porque se esquecia de morrer.

Megaprojecto, microprojectos

Uma vida cujo projecto geral é construir-se a si própria, constituída por microprojectos de autodestruição. Acabou como todas acabam: num jarro de cinzas.

23.9.26

Cartas - III

Querida R. 

Acontece-me por vezes não me esquecer de ti. Dito de outra forma: nunca me acontece esquecer-me de ti. E não é preciso passar pela estação de comboios que rebaptisei com o teu nome, nada disso. Basta-me pensar na alegria, na leveza, na beleza, no desejo, na sensualidade, no riso, na beleza (outra vez. Agora refiro-me à tua), na minha incapacidade em seguir normas que a mim mesmo prescrevo. Não sair com mulheres casadas. Saí. Mais: apaixonei-me.

Com razão, dir-me-ias se me lesses, o que é improvável. Com razão, digo-me para me explicar e para me justificar: tolice teria sido não te amar como te amei.

Há amores assim: começam na cama e acabam na alma. Entram-nos pela pila, pelas mãos, pelos olhos, pela boca e nós pensamos que vão ficar por ali, fazemos tudo para que fiquem por ali porque afinal tu eras casada e eles escapam-se, entram em nós pelos poros, entranham-se como se os sentimentos também tivessem poros tal essas peles que tantas vezes cruzámos. 

- Sentimentos porosos? 

- Sê-lo-iam, se o não fossem?

Pouco a pouco foste saindo de mim. Ou melhor: migraste da pele para a memória. O teu nome  está gravado naquela área de mim aonde pára tudo o que de bom e bonito me aconteceu. 

Enfim, não é só o nome.

Teu,

Luís 

20.9.26

Crítica teatral (por um ingénuo que acredita nas palavras)

Há para cima de muitos anos anos tive uma namorada canadiana-judia. Era bonita, alta, muito sensual, com um sentido de humor do outro mundo. Mal chegava a minha casa despia-se e metia-se na cama. Um dia disse-lhe para esperar um bocadinho, talvez pudéssemos falar, sei lá. "Falar? Falar o quê? Ó homem, deita-te e fode."

Foi nela que comecei a pensar ao fim de dez minutos de peça e continuei ao longo da longuíssima hora e meia que aquilo durou.

O texto é de um poeta de cuja poesia já não sou grande fã. Recebeu há meses um prémio qualquer, não me lembro qual. A continuar assim ainda lhe vão dar outro, pelo teatro. Na vida real o senhor é cirurgião. Espero vivamente, o jogo de palavras é propositado, que ele seja melhor em anatomia do que em poetria (ditto).

ADENDA 

O tema da peça é o poder redentor da ficção. De como a ficção em geral e o teatro em particular nos podem ajudar a surmonter (a senhora era Québécoise, on baisait en français) os problemas da vida. A peça sendo portuguesa, esses problemas implicam culpa, arrojar-se para o chão e só não inclui arrancar cabelos e bater-se no peito porque é português moderno.

Não se pode dizer que o tema esteja ferido de originalidade. Não está. Isso porém incomoda-me pouco. Se a originalidade fosse o único critério noventa e cinco por cento da arte que conhecemos e apreciamos deixaria de o ser. É simplesmente esta convicção de que as coisas têm de ser lentas, as frases declamadas, os movimentos pouco naturais, as marcações com a suavidade de um tipo (de chez Reiser, de preferência) que manobra um martelo pneumático. 

18.9.26

Diário de Bordos - Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 18-09-2026

Ontem decidi ir ver o preço da Btwin nova. O dobro do que dei por ela. E eu este tempo todo a pensar que a paguei demasiado caro. 

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O meu chapéu Fernández y Roche suscita muitos piropos na rua. É coisa a que já me habituei. Vêm de homens e mulheres. Porém, recentemente tive um elogio inesperado. Um desses senegaleses que andam pelos bares e pelos restaurantes a vender bugigangas disse-me que gostava do chapéu e mo comprava. Respondi-lhe que não, obrigado. Ele insistiu, o diálogo prolongou-se um bocadinho (sempre em termos corteses). No dia seguinte, de manhã, cruzo-me com ele na baixa (de Palma) e hey, signore, a coisa recomeça. Não cedi, claro, mas apreciei a persistência do homem. O raio do chapéu é bonito, nada a fazer. Tenho suores frios, tremeliques e outras manifestações cada vez que imagino que um dia o perderei.

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Casa: reaproprio-me dela, reaprendo-a. Sou o nómada mais sedentário do mundo ou o sedentário mais nomádico. Mais provavelmente, os dois: um marinheiro é tudo e o seu contrário. 

Música, livros, papéis, loiças, roupas, fotografias nas paredes, móveis e respectivas peças decorativas, tapetes... Uma casa não é um vida mas é o que mais se lhe assemelha. 

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Domingo vou ao teatro ver uma sobrinha da L. Faz-me tanta falta (o teatro)... Ainda me lembro da primeira peça que vi: Fuenteovejuna, pelo TEC em Lourenço Marques. Fui com o meu Pai, que saiu de lá escandalizado e arrependido de me ter levado. Cito muito o início: "A cada minuto que passa o perigo aumenta." Os actores estavam espalhados pela sala e aquela frase começou como um murmúrio e foi aumentando de nível. Impressionou-me bastante. Regra geral acho o teatro português fraco. Com excepção do Teatro Meridional, aonde só tenho agradáveis surpresas - e da minha querida I. L., claro.

17.9.26

Cavaleiros do asfalto

Hoje vim de Caminha para Viana do Castelo de bicicleta. O passeio é agradável, sem grandes subidas nem descidas e permitiu-me verificar um fenómeno português extremamente interessante: nas nossas estradas, os sinais com números que em todo o lado se associam a limites de velocidade máxima indicam velocidades mínimas. Como em Portugal é obrigatório ter aulas de condução fornecidas por escolas autorizadas e certificadas para o efeito, depreendo que essas escolas já tenham integrado essa peculiaridade e a transmitam aos seus alunos com diligência.

Além disso, deduzi que deve haver um prémio para os condutores que circulem ao dobro da velocidade mínima indicada nos sinais. Parece-me bem. Esta coisa de um gajo gastar uma pipa de ordenados num automóvel e depois não ganhar nada por mostrar a outrém o poder que tem na ponta do pé direito é um abuso e, nestes tempos de combustível caro, uma injustiça. O Estado ou, no seu lugar, a associação nacional das vítimas de acidentes rodoviários deve compensar os nossos cavaleiros do asfalto e ajudar nos custos da gasolina (ou gasóleo. Os eléctricos não entram neste campeonato).

Por outro lado, os nossos condutores - que é pouco provável serem imigrantes e muito serem portugueses - merecem um prémio porque matando e morrendo nas estradas ajudam a compensar a entrada desses mesmos imigrantes. Mais um esforço, meus caros automobilistas. Ainda há uma enorme discrepância entre as entradas por avião ou lancha rápida e as mortes na estrada. Façam um esforço, bolas. Mostrem que as têm!

14.9.26

Cartas - II

Minha querida L.,

Foste a minha primeira paixão a sério, lembras-te? A primeira pessoa que me fez ir a correr, mal acordava, à caixa do correio para ver se havia uma carta tua. O primeiro beijo de línguas enredadas, como se quisessem fazer nós, fazer-nos. Por ti fui para o Brasil com o dinheiro do FAOJ no bolso, três contos de réis e um bilhete de ida simples. Contigo e com a tua família descobri a beleza da educação, da cultura, da delicadeza, da cortesia, da amabilidade.

Regressei do Brasil, acabei o curso, embarquei, dei a volta ao mundo desembarquei e um dia saio de uma discoteca em Cascais, madrugada, meto-me num táxi, digo-lhe para ir para o aeroporto (passando por casa para ir fazer um saco de roupa). No aeroporto perguntei para onde ia o primeiro avião. "Milão". "Quero um bilhete, se faz favor".

Acordo quando o avião aterrou:  a hospedeira sacudia-me furiosamente para apertar o cinto. Lembro-me repentinamente de que tu estavas na Itália porque o teu Pai lá tinha sido colocado. São oito ou nove da manhã, ainda no aeroporto roubam-me a carteira aonde tinha divisas - naquela altura era um sarilho encontrar moeda estrangeira - troco escudos por liras, meto-me num táxi para o consulado do Brasil. Ou embaixada, talvez. Ainda estava fechada. Sento-me nos degraus, ainda com a roupa da véspera, provavelmente a cheirar a tabaco e álcool.  Quando as portas abrem, pergunto à funcionária do balcão em que cidade está o teu Pai. Diz-me que não pode dizer. Eram os anos de chumbo, das Brigadas Vermelhas e eu não estava propriamente apresentável. Proponho uma alternativa à senhora: ela telefona ao teu Pai e se ele concordar diz-me aonde está.

Estava em Milão, recebeu-me como se eu fosse a pessoa de que precisava para que o seu dia fosse perfeito e informa-me de que tu ainda estavas a dormir. Pequeno-almoço. Falar com o dr. Luiz Octávio (ou Octávio Luiz?) era uma das duas melhores maneiras de passar o tempo. Apareceste, demos um beijinho casto - afinal tinhas-me despedido há mais de um ano.

Fomos para Veneza. Lembras-te da pensão aonde ficámos, com uma hospedeira cujo marido também era marinheiro e andava pela casa com um papagaio no ombro (e em camisa de noite, ou será imaginação minha?)

Voltaste para Milão, eu fiquei em Veneza, um dia telefono à minha Mãe para lhe dizer aonde estava, diz-me que vão todos para a Venezuela e pergunta-me se quero ir. Digo que sim. Não voltei a ver-te e nunca mais deixei de pensar em ti. Fizeste-me muito do que sou hoje (ou pelo menos uma grande parte da parte boa de mim).

A canção de amor mais bonita de sempre chama-se L'un part, l'autre reste. É de Charlotte Gainsbourg. Parece que foi escrita para nós. Ainda estás em Tegucugalpa? Já voltaste para o Rio? Ainda te lembras de mim?

Escrevo-te e beijo-te de Palma, de Milão, do Rio, de S. Domingos de Rana, de Veneza, de Lisboa, de Lourenço Marques,  aonde nos conhecemos, de todos os lugares por onde andei e de todos aqueles por onde passarei. Les grandes amours n'ont pas d'adresse / quand l'un part et l'autre reste.

Teu,

Luís