Se escrevesse agora uma autobiografia daquelas «do princípio ao fim» o título que primeiro me ocorre seria Uma vida incompleta. Claro que este seria o título de noventa e nove por cento das autobiografias por publicar - e provavelmente das publicadas também, se os respectivos autores não tivessem optado por qualquer coisa menos banal. Ironicamente, o que talvez salve este ano - insisto no talvez, neste caso concreto só conta quando estiver cá fora, ao contrário do habitual - seja a saída do Não Sei, continuação desta espécie de autobiografia às pastilhas que o Don Vivo é. Uma alternativa seria O halterofilista da ansiedade, por enganador ou parcial que fosse: só há pouco tempo me parece demasiado pesada. Coisa de poucos anos. Sempre lhe fui particularmente receptivo, é verdade, mas também sempre a suportei. Talvez porque tivesse muito tempo pela proa. Agora que esse tempo se reduz a coisa parece mais pesada. Ou porque a proa está cheia de rombos, talvez.
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Ontem fui à Biblioteca de Babel pela primeira vez desde que aqui cheguei. Comprei dois livros e deixei outros dois a clamar por mim. O José Luis não estava, não pude falar com ele. Penso que da incompleição da minha vida não faz parte ter tido a sorte de conhecer livreiros extraordinários. O dono da Babel, a senhora da Galileu, a da Palavra de Viajante, os da Snob... Tenho pelas livrarias o amor que tenho por cafés, bares e restaurantes. São duas profissões nobres, dar de comer e dar a ler. Prenhes de responsabilidade.
Bem sei que faltam milhares deles mas enfim, uma vida não dá para tudo. Não há vidas completas.
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Grandes manifestações de amizade da Paloma, que me viu chegar à Babel. Que já estava com saudades minhas, que se passa com ele que nem à livraria vem... Não consigo deixar de considerar infantil o apreço que tenho por ser bem recebido em todo o lado e tão pouco consigo deixar de gostar.
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Jantar al fresco no terraço da Volta 2. Febras compradas na Terravera, precedidas por uma salada de tomate, pimento branco e cebola, tudo isto acompanhado por um vinho maiorquino chamado Ciclop. A pimenta foi a de Tellicherry, uma pimenta que conheci em casa da irmã da L. e que é simplesmente fascinante: parece uma pimenta normal e depois vê-se que não é. É uma sublimação. Sal: de cocó, claro. Esse vê-se logo à partida que não é normal. Quando vos vierem falar de flor de sal, perguntem imediatamente se essa pessoa conhece o sal de cocó de Mallorca. Exagerei um bocadinho na paprika picante. Tudo isto precisa de um período de aprendizagem, de ajustamento. Mecanismos delicados.
O fresco acentua-se. Vou lavar a loiça, parte integrante do jantar.
PS - Manda-me a honestidade dizer que a pimenta do Cristian é melhor do que a do El Corte Inglés.
PPS - Acabei por ir a Santa Catalina. Bebi uma piña colada no Lisboa e outra no Diem, coisa que não conhecia. O primeiro estava excelente mas a música era uma merda. No segundo isto invertia-se. Paciência. Volto para casa - é a subir, a bicicleta precisa de assistência muscular. O elevador da Praça Mayor ainda estava aberto. Em cima havia uma festa popular: música, pessoas a dançar. Tão bonito. Folclore, não sei se daqui. Uma grande roda de dançarinos, mesas com comidas e bebidas. Apanho uma cadeira vazia, sento-me e sou prontamente informado de que aquilo é um BYO. Bring your own. Tenho pena, gostava de ficar ali mais um bom momento, ando muito emocional, eu sei mas enfim, mais vale aproveitar, não é todos os dias (é).
Decido que tanta emoção precisa de um saké, ninguém consegue dormir neste estado. O empregado serve-me e diz-me que o saké acabou. Isto é, não há mais. Isto anda tudo ligado. Se há alcunha que nunca tive e bem mereceria ter é seca-adegas. Tudo aquilo de que eu gosto tende a acabar.
Percebo o porquê do aviso do empregado: ele serviu-me uma dose maior do que devia para acabar com a garrafa. Agora só na sexta. Gostava que amanhã chovesse.