15.6.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-06-2024

Palma num fundo de constipação, alergia, quase-gripe, não tarda. Tomo comprimidos atrás de comprimidos: mais de sessenta anos a não saber o que isso era vingam-se. Ou a não querer saber, vai dar no mesmo.

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Hoje comecei por ir ao mercado de Santa Catalina. Lulas a quarenta e nove euros o quilo. Breves a dezasseis. Cerejas a doze. Bebi um vermute no bar do Mercat e voei para o Olivar, a lamentar não ter energia para ir ao Pere Garau.

Resultado: o jantar hoje vai ser um prato com frango do campo, pancetta, tomate e pimento branco (?), o mais doce, suave e acolhedor de todos os pimentos.

Poc a poc o frigorífico do P. enche-se e poc a poc aterro. Poc a poc entro por esta terra dentro e ela em mim. Poc a poc olho para o P. e ele responde, pisca-me o olho e diz "És homem para mim? Olha que um homem é um homem e um gato é um bicho."

"Sim, meu sacana", respondo. "Sou homem para ti, nem que tenha de ir aos tréfonds buscar-me."

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Há algo injusto - ou incorrecto - em apanhar uma constipação destas em Palma em Junho. O culpado é o aquecimento global, claro, que nem aquece nem globa.

14.6.24

Tolices

Por razões que eu não entendo bem, a maioria das pessoas prefere acreditar em ideias a acreditar em factos.

Quer se queira quer não, é uma tontice dos diabos.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 14-06-2024

Chego a Palma e como de costume os primeiros dias são dedicados à logística. Desta vez um pouco mais do que o habitual: problemas na bicicleta, no computador e no telefone (problemas no sentido lato: situações que exigem tempo e atenção). Trato de tudo mais ou menos em paralelo, tentando manter uma corredorzinho estreito para ver os amigos. 

Xisco, Fidel - o melhor vitello tonnato do mundo e arredores, mais cf. infra - a miúda que me vende as tâmaras medjoul (não é bem uma amiga, mas não faz mal), o Ismael e o Alberto da Cantina, o Pepe do Corb Mari, o Hugo da Bottega Bolognese,  o Claudio... Ainda faltam tantos. Amanhã vou ao Joan, ao François, irei visitar a Paloma, que tem uma loja linda e o José Luís, da Babel - uma livraria e um livreiro que me fazem tanto pensar na Caroline e na Galileu, apesar do oceano de diferenças - o Jaume da Bodega Ca'n Rigo, o façanhudo da Bodega Belver que nem a S. C. conseguiria fazer rir e por quem desenvolvi uma ternura mesclada de admiração - e inveja -, a Bodega Morey.

O Es 20 de Bonaire fechou. Agora é uma loja de decoração / mobiliário chic. Volto a Palma, volto a casa e penso na quantidade de sítios que frequentava e fecharam: o Ca na Chinchilla, o Abracadabra, a Sifoneria... Não há melhor prova de que em Palma estou em casa do que esta: também as famílias diminuem de um lado e crescem do outro. 

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Chego a Palma e apanho uma constipação (misturada de episódios de alergia) de caixão à cova. Acontece-me tantas vezes em Genebra, essoutra casa. Como se precisasse desta necessidade de me enfiar na cama debaixo de uma pilha de cobertores para ter a certeza de que sim, estou em casa. Sim, estou, estúpida carcaça. Não precisas de me fazer cenas de ciúmes só porque desta vez andei longe muito tempo (mentira. Estive cá em Março).

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As ruas turísticas de Palma já estão cheias, mas ainda não a abarrotar. Ainda se consegue pedalar, desde que se vá devagar e atento. Daqui a duas semanas isso será impossível. Com sorte terei trabalho nessas semanas e só verei Palma sextas à tarde e sábado de manhã. 

O meu P. reclama: trabalho tens sempre, parvalhão. Tenho, P., eu sei, mas de vez em quando preciso de ver outras paragens e de ser pago para isso.

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A mise en place do computador avança. Lentamente mas avança. O telefone é mais complicado. A burra está resolvida: "não desfazendo" (aspas porque cito) o Ivo é o melhor mecânico de bicicletas do mundo. 

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O raio do telefone tem sete meses, bolas! Suponho que os problemas venham dos arraiais de pancada que apanhei nas saídas de Saint-Martin. Já não tenho garantia, porque o abri em Marigot. Vá lá, pelo menos essa "reparação" serviu para alguma coisa. O telefone ficou exactamente na mesma, mas a garantia foi-se. E com ela cinquenta paus, não fosse o senhor queixar-se de ter "trabalhado" por nada.

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Parágrafo importante sobre o vitello tonnato: é um prato do Piemonte (como toda a gente sabe, um sítio que regurgita atum e anchovas).  Consiste em finas fatias de vitela, frias, cobertas por um molho (na verdade uma espécie de maionese) que inclui os dois peixes acima mencionados e mais meia dúzia de ingredientes. É relativamente simples. Só tem duas ou três dificuldades:

1 - A qualidade da carne e respectiva cozedura (tem de ser com alguns legumes e durante muito tempo);

2 - A espessura das fatias de carne: entre o carpaccio e o scallopini;

3 - A delicada proporção de atum e anchovas na maionese;

4 - A delicada proporção de limão e alcaparras nessa mesma maionese;

5 - A delicada proporção de especiarias na... adivinhem;

6 - A simpatia do serviço e a beleza do local.

O cozinheiro e restante pessoal do Gustar ultrapassam estes obstáculos com uma perna às costas e apresentam um prato sublime. É sempre o que como, quando aqui venho após uma ausência de Palma.

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Acrescente-se a tudo isto um par de hierbas secas. Ou seja: vou para debaixo da minha pilha de cobertores de alma cheia.

Há melhor justificação para um dia? Para uma vida?

13.6.24

De novo novo

Não tardará nada e eu serei de novo novo, jovem cheio de ideias sobre o passado. Refarei o caminho no sentido inverso, mas pela primeira vez. Cairei nas mesmas curvas e contracurvas, começando pela queda e acabando de pé a olhar para elas. Como faço agora, na verdade, mas olhando para trás e não para a frente, como será em breve, quando for de novo novo.

12.6.24

O Sul de ti

Descontrolado, o tempo volteja(*) em torno do corpo. Perdeu ou o norte e está desnorteado ou o oriente e está desorientado. Talvez devesse estar desolado, também, por não encontrar o Sul. O Sul é o mais desejado dos pontos cardeais. 
- Vou para o sul - dizes-me. E eu respondo: 
- Para o sul de quê?
- Não sei. É como se vivesse no pólo norte e todas as direcções fossem o Sul. 
- Todas são, quando se vive no pólo norte. Mas tu não vives. Estás a sul de umas terras e a norte de outras. 
- Vou para o Sul de mim. 

Longo silêncio. 

- No sul... - Pausa.  - Suspiro. - Pausa - Deitar-me-ei durante uma tempestade de areia... 
- Isso é o contrário do que se deve fazer. 
- ... E ficarei soterrada - prossegues como se não me tivesses ouvido. - Quando a tempestade acabar desenterrar-me-ei... 
- Desarear-te-ás... 
- ... E tudo estará coberto de areia. Tudo será igual e tudo será diferente. O sul de mim é assim. Tudo igual e tudo diferente. 
- Aonde ficarei eu, nesse teu sul de ti? 
- Aonde sempre estiveste. És o meu Norte de mim.

(*) - Inspirada de um verso de Yeats.

Diário de Bordos - Aeroporto de Lisboa, 12-06-2024

Ler livros à noite e no Inverno viajar para sul, sugeria Eliot. Segui esse conselho com uma certa frequência. Passei alguns anos sem invernos, a tal ponto que uma vez em Abril fui à Suíça e pedi à S. que me levasse a um sitio com neve. Estava com saudades do frio. Lembro-me dos meses que passei em Nakhodka (temperaturas entre menos vinte e cinco e mais doze) e penso que tal como não seria capaz de viver em altas latitudes não poderia voltar a viver sem invernos. A conta que Deus fez não foram três. Foram quatro: Verão, Outono, Inverno e Primavera. Por muito bom que pareça, não se pode passar o ano de calções azuis e pólo branco. Calças e camisa de mangas compridas, casaco ou camisola fazem falta. 

Como a solidão e a companhia: nem sempre uma nem sempre a outra.

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O avião atrasou mais de uma hora. Acontece muitas vezes, neste voo. Os atrasos do dia vão-se adicionando. É possível que desta vez fique por aqui. Às vezes é mais. Refugio-me num café (Grandcafé, se por acaso) e bebo vinho a um preço revoltante.

Há alguma coisa que não seja revoltante, num aeroporto?

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Conheci recentemente a G. I. e leio-lhe os livros, duas breves recolhas de poesia. A primeira é um tratado sobre as relações do corpo com a pele e o tempo. Fossilizadas, a acreditar no título, que o conteúdo desmente. Leio em ziguezague, de trás para a frente, da frente para o lado, do lado ora para trás ora para a frente. O livro tem uma lógica, uma progressão quase circular. Começa e acaba com "ontem". Lê-lo aleatoriamente faz ressaltar esse percurso. "Lembro o futuro no caminho de ontem / (...)" "Na pele, um anel de pedras pretas / o caminho de ontem."

Respectivamente do último e do primeiro poemas. Como se a pele e o corpo fossem um círculo cujo centro é o tempo.

Como se?

10.6.24

Vida, biologia

Nada a fazer, como dizia Beckett. Sou filho adoptivo da vida e nunca encontrarei os meus pais biológicos.

Como como

Como cerejas. Como: advérbio e verbo. Vida, acção. Vida: como cerejas. Acção: como cerejas.

Como: como a vida como como cerejas. Vida: como cerejas como como a vida. Cerejas: entre a vida a noite e o sono.

Não há hiatos entre a vida e a noite.

Não há nada. Seriam uma e a mesma coisa, não fossem os advérbios ou os verbos, como como.

Vim, vi, vivi

Os equilibristas que andam em cordas bambas por cima de precipícios usam umas grandes varas para os ajudar. Em francês, essas coisas chamam-se balanciers. Não sei o nome em português e agora o Google está fechado, fecha a horas escandalosamente escandalosas. Pouco importa. Essas varas servem para os ajudar a manter o equilíbrio. 

Viver consiste em atravessar muitos e profundos precipícios. Pensar também. Precisamos de balanciers para viver e pensar, duas coisas que estranhamente andam sempre juntas. Por mais que as queiramos separar: viver, pensar e manter o equilíbrio entre elas. 

Isto é: separar viver em dois. Vi e ver. O que vi, o que vejo. O que devo ver. O que vi. Talvez viver seja essa mistura do que vi e do que vejo. Talvez ver seja consequência de viver. Parte de. Talvez o que vi seja parte do que vivi. Metade.

Talvez vi, vivi, viver, ver sejam gomos da grande laranja que a vida é: "meu fruto de morder, todas as horas."

Um leitão no forno

- Viva. Como estás?
- Olá. Cansado, angustiado, ansioso, triste, zangado, incapaz de me concentrar e descontente.
- Há-de passar. Ciao, vou ali a casa da minha prima, tem um leitão no forno. 

9.6.24

Pele, corpo, tempo

O meu corpo é uma associação de membros e órgãos que não se entendem lá muito bem. Tento coordená-los e eles insistem em ir cada um para seu lado. É só graças aos tendões e às articulações que se mantêm juntos.

E à pele, claro, essa pele que tu habitas e teces pacientemente, todos os dias, todo o dia. À noite aplicas-te: fazes-me dela o relvado que os teus dedos escavam, percorrem, exploram, cada um deles em forma de ponto de interrogação. Essa pele que te ofereço, expectante, mantém-me inteiro, uno. É tua. 

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Abrigo-me debaixo desta manta de retalhos: retalhos debaixo de outros, outros que és tu, mesma pele, mesmos dedos, mesmo frio, mesma hesitação. As vastas planícies da pele oferecem-se-te, horizontes embrenhados um no outro. Vastas planícies: até onde a vista alcança. Até onde o tempo chega. 

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O tempo é um comboio que vai inventando paragens à medida que avança. 

Língua, eu

A minha pátria é a língua portuguesa?

Não. A língua portuguesa sou eu. Eu sou a língua que falo, escrevo e leio.

8.6.24

De para onde vou, raízes

Nómada de mim, oscilo como um junco em busca de raízes, à mercê de ventos que eu próprio criei e de outros que me chegam de fora. Ventos desencontrados, ventos cruzados, ventos com e sem chuva. Raízes de mim. Raízes nómadas. Sou de onde estou e de onde venho mas não sei se sou de para onde vou.

7.6.24

Transferências, transcendências

Aonde quer que me sente, só oiço pessoas a falar de futebol. Abro uma página de um jornal e leio dez vezes a expressão "alterações climáticas". A transcendência não desapareceu. Foi simplesmente desaguar a outras praias - admitidamente mais tristes e pobres.

Definição - memórias, sonhos

As memórias - tal como os seus primos direitos, os sonhos - são o presente a reconstruir-se, com as patines do passado ou do futuro.

6.6.24

Diário de Bordos - Lisboa, Portugal, 07-06-2024

Faltar: estar em falta. Faltar aos deveres. Já o outro falava disso, mas não tinha ainda o Távola à disposição. Eu tenho. Resultado: oiço o Romeu Tristão no baixo (está cem vezes melhor do que estava no Tati), o João Moreira no trompete - maravilha simples - e outro moço na viola, tão bom como os anteriores. E um gajo não consegeu impedir-se de pensar «Porra! Não fiz um caralho hoje e estou cansado como se tivesse tido a Marilyn Monroe todo o dia debaixo (ou por cima, ou ao lado) de mim. «Ir ao mar cansa», dizem-me. «¡No jodas! Já fui ao mar dois milhões de vezes e não saí tão cansado.» A ver.

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O jazz calmo e apaziguante do João Moreira (trompete).

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Mulher vestida com um grande decote nas costas e a a parte de trás do soutien à vista: não. Não dá vontade de desapertar o coiso e é para isso que eles foram feitos: para serem desapertados com um gesto hábil. Ou inábil, depende.

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Uma gorjeta é dinheiro que nos cai do céu e deve ser gasto no inferno rapidamente.

(Ambos estão dentro de nós.)

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A rapariga - jovem - está à minha frentre, de costas para mim. Vejo-lhe os cabelos - suspeita mistura de encaracolados e lisos - a t-shirt (feia. Branca com motivos que não percebo se eram de rosas se de morangos) e as nádegas, que se esponjam lindamente no banco. Saia curta, ajustada ao esplendor.

Não me é difícil imaginar aquele rabo esponjado noutro sítio. Fosse eu pintor e aquelas coxas estariam plasmadas até ao infinito. Enfim, nádegas.

- As coxas: o rabo:
- Os braços: o rabo;
- Os cabelos; ....

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Bom jazz é a melhor  forma de tornar audível as «coisas» do nosso interior.

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Há uma mão que a acaricia. Apercebo-me de que é a dela, por causa dos anéis e pulseiras. O seu companheiro vira-lhe as costas, absorvido pela música e ela acaricia-se a cintura. 

Como se fosse eu.

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Esta mistura de linhas rectas e de curvas é o que faz da vida o que ela é: o desejo de a endireitar por vezes e o de a tornar menos rígida outras.

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Irei para casa quando a necessidade de escrever for maior do que a de beber música. 

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Outra fonte de patriotismo: ouvir jazz no Távola.

3.6.24

Fantasmas, lei da conservação da energia e outras deambulações sobre o cansaço

Há de certeza uma lei na física sobre a conservação do cansaço. Isto é: sobre a equivalência do cansaço à energia que o gerou. A energia transforma-se em trabalho e em cansaço e de repente, numa espécie de fenómeno físico, este sobrepõem-se àquele é o trabalho desaparece da equação e fica só a fatiga.

É por isso, suponho, que desta há vários tipos, dos quais destaco dois: a física e a emocional. Ou seja: a lei da conservação da energia aplica-se. Uma pessoa gasta energia numa determinada actividade, desta resultam consequências e fatiga, ao fim de algum tempo os resultados saem de equação, ficam só os cansaços, um gajo pergunta-se "como é isto possível?" e a resposta vem sob a forma de cansaço intangível.

O dia chega ao fim, um gajo deita-se, os cansaços reagrupam-se, reconstituem-se, começam a sair-lhe pelos poros e a operação - que nesta altura já não sei se é química se física - refaz-se no sentido inverso: os resultados ficam, a fatiga dissipa-se e transforma-se numa indescritível melancolia.

A lei da conservação da energia confirma-se de novo, maravilhoso milagre quotidiano, nocturno, arrebatador. Há alguém na sala que não acredita em fantasmas? Eles existem. São o resultado da transformação da energia do dia. Saem-nos da pele em hordas muito calmas, controladas, lentas como algmas exibições hípicas de dressage. Basta dar-lhes oportunidade para isso e estar atento. Basta procurar os restos do dia como os mendigos procuram comida no lixo. Basta pensar que dormir é a dádiva das dádivas e o caminho do sono não é só nosso.

É dos fantasmas também.