12.3.26

Tendo sido, sendo

Esta cidade que é minha porque já foi minha e há coisas que sendo uma vez nunca deixam de ser.

11.3.26

Diário de Bordos - Avião Porto - Genebra, 11-03-2026

Povo trombudo e mal-educado, este meu. Não percebe uma ironia, não faz um sorriso que não seja por obrigação, nem quando tem o dever de cumprimentar o faz. Hoje um dos meus tabuleiros no filtro de segurança do aeroporto foi para o tapete secundário. Tinha o chapéu - um chapéu bonito, verde, da Fábrica de Chapéus, aba larga - e o saco do material fotográfico. Em vez de despachar aquilo o homem resolveu levar o tabuleiro antes do meu, vazio, para a parte da frente do tapete, deixando-me ali especado. Voltou sem uma palavra, pegou no tabuleiro, pô-lo à minha frente e eu, naturalmente, pego no chapéu e menos esperadamente levo uma descompostura porque não devia ter tocado em nada antes de ele me dar autorização. Vá para o raio que o parta, senhor, não lhe disse então porque não sou de peixeiradas e muito menos com trogloditas. Tão pouco o digo agora, que a coisa passou ao arquivo geral e já não penso no senhor do filtro de segurança do aeroporto e sim numa entidade mais vasta, esta porra deste povo de cobardolas carrancudos que mal têm uma cabo de chupa-chupa de poder se agarram a ele como se fossem imperadores do império austro-húngaro (se fossem, provavelmente seriam bem-educados mas isso é outra história).

Eu só exerço o meu direito à má criação - ou melhor, à rispidez - quando vejo erros de gramática daqueles imperdoáveis e de origens imperdoáveis. Hoje foi uma vírgula entre o sujeito e o predicado num convite para a apresentação de um livro! Com franqueza! Isso faz-se? Uma livraria (ou o editor, não sei quem redigiu aquilo) a dar erros de palmatória? E ainda há quem se admire da facilidade com que as nossas "elites" (aspas porque é irónico) adoptaram o AO90...

Sou um rapazinho bem-educado, mas tenho pouca tolerância para o excesso de vírgulas que se vê hoje em dia nos nossos textos. E menos ainda quando as pôem nos sítios errados. 

Ainda agora acaba de dar meio-dia (toque imaginário, estou no avião para a minha neta) e já para aí vai uma série de incidentes. Vá lá que a miúda do bar do aeroporto era simpática e sorridente e riu-se e respondeu quando eu lhe disse uma piada. Foi entre o incidente no filtro e o da leitura do convite, de maneira não posso queixar-me muito, faço-o apenas para passar o tempo, a minha vizinha é gorda, antipática e adormeceu com um filme no telefone que pousou na mesa mas eu não olho, aquilo não tem som e ando com pouca paciência para filmes, já ler tudo o que tenho de ler (diferente de "para ler") é uma seca para a qual me preparo em Genebra,  lá pelo menos tenho calma e não tenho tentações como a pastelaria Riviera, por exemplo. 

As duas senhoras ao meu lado (estou na janela mas nem assim adormeço) são gordas e as duas da fila da frente também. Estamos a americanizarmo-nos, que desespero. 

Uma lata de cerveja Moretti custa no avião seis euros e noventa e cinco cêntimos. Depois vendem produtos a "menos cem euros do que nas lojas físicas", aspas porque cito verbatim. O sacana do grego bem podia ir fazer companhia ao troglodita da segurança.

Os brincos da senhora do lado são feios. Pelo menos o que eu vejo, não sei se ela é adepta daquela opção estética de usar brincos diferentes,  uma vez conheci uma senhora assim. Duas, aliás e este domingo vou ver uma delas, vai ser dia de santa fondue e ela é convidada por defeito, é a maior fã das minha receita, sem fécula. Não tenho opinião formada sobre essa escolha de brincos diferentes. Desde que sejam bonitos cada uma usa o que quer. Já nos homens é diferente: uma pequena argola de ouro na orelha esquerda a indicar que se passou o Horn à vela é recomendável. Fora isso, nada. Ainda falta uma hora para chegar e vou mandar o grego para o diabo, outra vez. Duas cervejas pelo preço de um almoço. Bom, pode considerar-se, com legitimidade científica, que duas cervejas são uma refeição. E além disso o preço é seis euros e oitenta e cinco cêntimos, não noventa e cinco. Volta, Psoriadis (?), estás perdoado.  

Expliquei ao criado do avião que deviam aplicar às cervejas o mesmo desconto que aplicam aos perfumes. Nasci para exprimir os meus pontos de vista, sempre bem fundados em factos sólidos e não "políticos" como os do nosso ex-presidente, que de passagem se diga bem podia ir para o inferno também, pelo menos enquanto foi presidente. Agora é-me indiferente, tanto me faz que diga disparates ou que os faça.

Continua a faltar uma hora para chegar. Mudam os aviões, os donos deles, os destinos ou as partidas mas esta coisa de o tempo que falta não mudar permanece igual. Falta sempre a mesma quantidade de tempo desde a última vez que se olhou para o relógio. Pode a cerveja estar quase vazia quando há pouco estava cheia; pode faltar menos quilómetros; podem os minutos que se arredondaram ser mais, o tempo até estar no autocarro para casa da S. é sempre o mesmo (correctamente seria: até as rodas do trem de aterragem tocarem no tarmac. Nem sempre voo para os braços minúsculos de uma neta recém-nascida. Não faz mal. Estou cada vez mais tolerante).

Além de um brinco feio, do excesso de peso, de cabelos pintados e outras características, a vizinha tem uma argola na narina. Ainda não a tinha visto. Já do meu lado direito a paisagem é uniforme; cirrustratus e mais cirrustratus para eu não pensar que vou ter sol em Genebra. Estamos em Março, que diabo! O dia do Verão ainda não chegou. Verdade seja dita que me indifere bastante aonde cada um pendura o que bem quer e lhe apetece. Uma vez saiu-me na rifa uma senhora com uma argola no bico do seio, não me lembro se no esquerdo se no direito ou mesmo se nos dois. Não disse nada. Limitei-me a pensar que ninguém me obrigara a estar ali e que seria pouco provável que voltasse a estar, como talvez tenha acontecido, não me lembro bem, só para que se veja o pouco que ligo às argolas e assim, para além de achar aquilo feio e desconfortável. 

"We'll be landing soon" é a frase mais bonita que oiço num avião. 

Aterramos e uma parte do avião bate palmas. Nem sempre somos façanhudos tal como de resto nem sempre somos matarruanes. Só às vezes.

10.3.26

Esquerda, direita

Os extremos tocam-se? Tocam. A ponte que os une é o anticapitalismo.

9.3.26

Pertença, clorofila

Não é a primeira vez que tento viver no campo. Uma vez fui viver para uma aldeola suíça, a oitocentos metros de altitude, no Jura. Também vivi em St.-Ursanne, no Jura, mas isso não conta. Quando estou embarcado também passo muito tempo em portos pequenos, mas isso também não conta. Refiro-me apenas aos sítios aonde fui viver, de armas e bagagem. Mértola só conta metade: nunca aí passei muito tempo mas a ideia era instalar-me lá. Ou seja: viver em Vilarelho (ou Caminha, é ao lado) só parcialmente é uma novidade. À qual me habituo, pouco a pouco e com alegria. Já não fico zangado quando a loja de bicicletas está fechada apesar de serem horas de abertura - apanhar aquilo aberto é como ganhar à raspadinha, suponho. Às vezes está, outras não. Como o senhor não responde ao telefone, a solução é simples: "não telefone, vá"; se estiver fechado, volte. Já digo fino tantas vezes como imperial. Não me espanto quando vou a um café e o dono não sabe o que é um LBV ou um Irish Coffee. Não há uma livraria mas há uma papelaria que vende livros. Ainda não encontrei um restaurante que me encha as medidas,  como o saudoso Tamuge, em Mértola - ainda sendo a palavra-chave. Por outro lado, sou cliente da mercearia Crespo, da garrafeira Prova Cega, do restaurante Cais, da lavandaria que fica perto do mercado e cujo nome não sei mas é óptima, da casa Lubra logo ali ao pé, da Camitintas, do café Riviera... Casas respeitáveis e de qualidade. Gosto da paisagem daqui - das paisagens, no plural: são várias. Gosto das pessoas com quem me cruzo. Gosto da casa aonde tenho as armas e a bagagem e imagino-a facilmente no futuro, quando estiver mais quente e com mais iconografia nas paredes e eu menos ansioso. Gosto da pintura do Tiago Taron, que vejo frequentemente, cada vez que passo pela Rua Direita. Gosto dessa rua, do rio Minho, da praça a que chamam Terreiro, da estação de comboios. Há uma data de coisas de que gosto e não tarda mudo a minha residência oficial para aqui. A minha bicicleta BH Glasgow Vintage já se habituou às ruas e estradas de pedras, tão bonitas de se ver e tão chatas de pedalar, e eu à ideia de que a minha próxima vida - estatisticamente terá cerca de quinze anos - será aqui, entre a serra d'Arga e o Minho.

Não voltarei a apanhar uma intoxicação de clorofila como a que apanhei em Bassins, que me obrigou a regressar ao centro de Genebra de urgência.  Dois ou três dias em Lisboa, uma breve passagem pelo Porto, uns dias à beira do lago Léman e fico com o sangue limpo de verdura. E cheio de azul, com umas semanas de mar.

7.3.26

Pernas, vida

1 - Dòi-me aqui, dói-me ali, dói-me acolá.

2 - Desde que recuperei a BH fiz a subida para minha casa cerca de uma dezena de vezes. Primeiro dificilmente, agora é cada vez mais fácil.

Conclusão: habituam-se melhor as pernas à subida do que o resto do corpo à vida.

Diário de Bordos - Barcelos, Baixo Minho, Portugal, 07-03-2026

Sou fraco turista. Interesso-me pouco pela superfície das coisas (dos corpos também, mas isso fica para outro depois) e mais por o que lhe fica por baixo - ou por cima, no caso dos corpos. Hoje, por razões várias vim a Barcelos e estou a turistar. Isto é, turistar a sério: um grande momento num café na praça, um curto passeio por essa mesma praça e - imagine-se - até subi à torre que está na praça. Há sítios nos quais nos sentimos imediatamente bem e esta praça é um desses. Fiz fotografias da igreja no meio da praça, de um prédio em ruínas que acho uma vergonha (estas ruínas são um desafio ao meu liberalismo) e agora regresso ao mesmo café para mais um café e outras coisas, entre as quais se incluem a temperatura amena, o sol, as crianças a brincar, a ideia de que a terra tem quase tantas surpresas como o mar. Uma delas sendo que sei ler o mar mas não sei ler a terra e sinto falta disso. 

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A livraria está fechada (a outra. Não a Bertrand). O meu turistar vai incompleto mas com uma pequena satisfação: pouco a pouco, surpreendentemente, começo a gostar de lojas que fecham ao sábado à tarde, que fecham para o almoço, que fecham quando querem. Não perguntem. Não sei quanto tempo estes desvios à linha justa vão durar. (No mar não há sábados, domingos ou horas de refeições. Deve ser por isso.)

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Conheço melhor La Linea ou Belém do Pará do que Barcelos, coisa que por vezes me irrita e me desagrada sempre. (Substituir La Linea ou Belém por algumas dezenas de sítios e Barcelos também.)

5.3.26

Diário de Bordos - Vilarelho, Caminha Alto Minho, Portugal, 05-03-2026

Sou um rapazinho lento. Sempre fui. Já em Lourenço Marques era sempre o último a desaparelhar o meu Vaurien, ADN de seu nome. Não tinha muita pressa nem de me juntar aos outros nem de ir para casa. Talvez por isso compreendo tão mal a pressa dos meus compatriotas. Sempre apressados, sempre a correr - pelo menos em algumas coisas: no trânsito, no restaurante... Não sei no resto. Ou por outra: sei em alguma parte do resto. Chegam sempre atrasados e ao trabalho aplicam aquela velha máxima "O trabalho é para o preto". A tal ponto que quando recebo uma resposta rápida de um organismo público pergunto-me o que terei feito mal. Enfim, antes assim. Seja como for, não é por causa do ritmo de trabalho dos nossos manda-chuvas que me ocorreram os dias de vela em LM. É por causa de um cantor chamado Bonnie Prince Billy, que agora começo a descobrir. Tenho o disco em casa. Isto é, tenho o disco e tenho uma casa. Durante muitos anos faltaram-me ou um ou os dois, alternada ou simultaneamente. Sugiro Music for Seafarers, um CD que comprei por causa do título e agora oiço frequentemente por causa da música. Outro disco dele chama-se Black / Rich Music. A lentidão tem vantagens e ouvir esta música agora - isto é, só agora - é uma delas. 

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O vinho tinto da Casa Agrícola Rebelo Afonso, sita na região do Douro, ano 2024, 13,5º, uvas pisadas a pé em lagares tradicionais de granito e uvas de novas parcelas (...) representa a tradição desta casa (a casa Rebelo Afonso, claro). Não ponho aspas mas tudo é copiado do rótulo. 

Além de representar a tradição, etc. é um vinho bastante recomendável. Talvez um bocadinho mais de força no ataque, deixando o fim de boca como está? Não sei. Sei que a pouco menos de sete euros cada mililitro vale cada cêntimo.

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Às vezes parece-me que querer viver em terra é como querer voltar a entrar no ventre materno.

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Ontem acordei bi-avô e adormeci tri-avô. Para a semana vou conhecer a jovem recem-chegada, Olívia de seu nome. Fui o último dos meus amigos próximos a ser avô. A lentidão tem vantagens aonde menos se as esperam.

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Caminha

Às dez da noite peguei na burra e vim a Caminha. Cheguei às dez e quinze. Na rua Direita não havia um único bar aberto. Um. Unzinho.

No trajecto vinha a pensar numa velha boutade de há uns anos em Lisboa: sexta-feira é para amadores. A noite dos profissionais é a de quinta. Em Caminha não há profissionais?

Resultado: acabo no Mio, a quem ensinei a fazer Irish Coffee ("juro, palavra de honra, vou morrer aqui", o rapaz não sabia o que é um café irlandês).

Por estas e por outras a intoxicação por excesso de clorofila é tão perigosa. Nada como um pouco de poluição urbana. E ainda há quem queira acabar com as emissões de dióxido de carbono.

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Em defesa da honra de Caminha: o Mio fecha às dez e meia mas o Diner não só está aberto mas também o senhor sabe o que a mistura de café, Jameson e (infelizmente) chantilly. Esperar natas batidas seria como pensar que a Madre Teresa de Calcutá (em jovem) entrou em filmes pornográficos. A hipótese é entusiasmante mas demasiado perto do delírio para ser levada a sério. (Nota: o Diner fecha às onze.)

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Sabem aquelas comichões inconvenientes que não nos largam e às quais por vezes cedemos sem mesmo nos apercebermos? Hoje isso aconteceu-me com a vontade de escrever qualquer coisa à mão com uma caneta de tinta permanente (a Sheaffer, se por acaso, porque foi a última a juntar-se ao rebanho). Infelizmente não tinha nem caneta nem bloco-notas e tive de viver com a dita comichão até agora. 

Estou no Diner, o senhor é encantador e apagou uma das duas músicas que tocavam simultaneamente (apagou o rap) e se não tenho a Sheaffer tenho a Parker e é essa que agora uso. Caminha tem méritos. Basta não ter pressa.

4.3.26

Diário de Bordos - Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 04-03-2026

O problema sendo que a vida em terra tem que-saberes e eu não os sei todos. Por exemplo: organizar os menus. Quero comer batatas Hasselback, favas, ervilhas com ovos escalfados e caldo verde. Que ordem dar a tudo isto? No mar é fácil: come-se primeiro o que tem de ser comido primeiro e depois o que pode esperar. Em terra não é só assim. Há mais parâmetros.

Deixo-os para depois e faço as ervilhas. Em terra há menos resistência à vontade do que no mar. No mar aquilo que se quer tem menos peso. Menos força. Sabe-se aonde se está e para onde se quer ir. O resto não é definido por nós, ou só por nós. Aqui sim. Por exemplo: vinho da Quinta dos Termos. Vinhas Velhas. No mar não há vinho. Não se mistura bem com água salgada ( doce tão pouco, mas isso é outra história). 

Na verdade, pouco me interessam as diferenças. Estou aqui agora. Aonde estarei amanhã, aonde estive ontem? Não sei. Ontem já foi, «amanhã não me pertence.» 

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As ervilhas não estavam grande coisa. O vinho está cada vez melhor. Uma mão lava a outra. A voz de Sandy Denny limpa tudo.

3.3.26

Diário de Bordos - Tomiño, Galiza, Espanha, 03-03-2026

O almoço acabou? Não completamente. Os convidados já saíram mas agora começa a última parte de qualquer refeição que inclua hóspedes: lavar a loiça e arrumar a casa, recordar os momentos que acabam de passar e pensar nos que virão, com os mesmos ou com outras visitas. Uma refeição doméstica, qualquer que ela seja, tem quatro componentes: a escolha do menu, a sua elaboração, degustação e arrumação. Qualquer delas é agradável, se bem de maneiras diferentes. Hoje a escolha do menu foi rápida e não exigiu grande pesquisa: ainda tinha chili da festa de inauguração da casa e a inauguração ainda não acabou. A escolha era óbvia. A companhia foi óptima, como de resto era de esperar. Lavar a loiça e arrumar a cozinha foi um piscar de olhos, em todos os sentidos: foi rápido e foi bom. 

O segredo para lavar loiça com prazer é simples: consiste em organizar-se. Primeiro copos e loiça pouco suja, depois pratos, em seguida panelas e frigideiras.  Ir limpando e arrumando a pedido - a natureza seca a loiça tão bem como qualquer de nós e portanto não lhe devemos desperdiçar o mérito. Não esquecer que a lavagem da loiça tem uma característica: nunca acaba. Quando pensamos que acabou aparece sempre mais qualquer coisa até que, finalmente, sim, acabou. Já só falta limpar o fogão, pôr a toalha na máquina e sentar-nos tranquilamente com um copo de vinho na mão.

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Venho a Espanha comprar gás e no caminho de regresso paro numa cervejaria que há algum tempo tenho vontade de conhecer. É uma dessas casas de beira de estrada, feia por fora e ainda mais por dentro. A tapa é generosa, a televisão tem o som demasiado alto, sobretudo se considerarmos que nenhum dos três clientes - para além de mim - a está a ver e penso que mais valia estar em Caminha.

Aonde não tarda estarei.    

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A empregada da cervejaria Bugus usa uma máscara daquelas que vai até meio do nariz. É preta (a máscara), provavelmente para acordar com os móveis e com o ambiente. Isto podia ser o princípio de um filme do Hitchcock, se o bom Alfred fizesse maus filmes.

2.3.26

Solidão?

Não há solidão que uma mistura de vinho quente, lavar a loiça,  arrumar no armário a roupa que veio da lavandaria, a música do Vasco Duarte Abranches e o Cântico dos Cânticos não cure.

Pior: não faça pensar que poucas outras misturas são melhores.

Cântico

Uma noite que começa em busca de poesia acaba necessariamente no Cântico dos Cânticos. Neste caso, a versão de José Tolentino Mendonça (com desenhos de Ilda David, que não são grande coisa). Até amanhã.

Quem nos vê do mar?

«Não somos uma ilha
excepto para quem nos vê do mar.»

Qassim Haddad, in Antologia da poesia árabe, Ed. Contraponto, versões de Marta Vidal e André Simões.

Diário de Bordos - Caminha e Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 02-03-2026

Não tenhamos ilusões. Nunca ninguém pensou que seria fácil. Veni, vedi, vici não é para todos. Há que ir devagar, correr como um perdigueiro atrás da lebre e saber parar logo a seguir, farejar, olhar, esperar, aguentar os cavalos. Estar pronto a correr em todas as direcções mas escolhê-las primeiro. Poupar energia. Deixar sedimentar as ideias, equilibrar a impaciência, a pressa, a reflexão, a necessidade. Quem espera desespera? Sim, sem dúvida. Mas quem desespera não espera sequer.

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Amar alguém é amar-lhe os defeitos? É. Mas antes de amá-los há que habitá-los, conhecê-los bem e por fim deixá-los escorregar por nós como os pingos de um dia chuvoso depois da chuva. Além disso, há que expurgar do amor a gratidão. Separá-los. Não são miscíveis.

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A imobilidade é um sentimento estranho. Poderia escrever linhas sem fim sobre a vida em Vilarelho, quanto gosto de estar aqui, a dificuldade que tenho em ser aceite pela terra (no sentido lato, não só este lugar). 

Talvez devesse começar pelas ignorâncias que me afligem: não saber viver em terra, não saber trabalhar em Portugal, querer trabalhar numa área que no fim de contas me é estranha, à qual eu sou estranho. Habituar-me à falta de profissionalismo, à diferença de mundos... É como se agora alguém decidisse amarrar a Lua à porta de casa ou ir viver para Marte. Levaria tempo. 

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Tal como leva tempo fazer esta subida de bicicleta. Não é muito longa nem muito íngreme mas faz-se sentir mesmo quando a faço todos os dias; agora, há meses sem pedais nem selins, deixa marcas na chegada a casa. 

Felizmente, há ritos. Rituais. Reencontros. Acender o aquecimento e ligar o desumidificador. Às vezes, ouvir um bocadinho de música, nem sempre. Descansar as pernas e a cabeça. Pensar no que tenho de fazer amanhã. Perguntar-me se Li Bai é verdadeiramente a poesia que quero ler agora (não é, mas ainda não sei por que substituí-lo). Aquecer a panela de vinho quente que elegeu residência no meu fogão, para grande alegria minha. No Verão será substituída por um grande tacho de ponche tahitiano - sou capaz de programar as coisas adiantadamente, ao contrário do que muitas vezes penso.

........
Li Bai

«Queixume

O novo é gracioso como uma flor,
     O antigo é sólido como jade.
Inconstante, a flor vacila,
     puro, o jade permanece.
O antigo foi outrora novo,
     O novo será mais tarde antigo.
Vejam a mansão de ouro da imperatriz Zhen
     Com silenciosos cortinados de teias de aranha.»

(Ed. do Instituto Cultural de Macau, 1996. Trad. de António Graça de Abreu. Pág. 291, para quem quiser perceber a referência à impereatriz Zhen.)

«Um adeus triste

A proa afilada corta as águas,
     o grande barco desliza no rio,
A brisa fresca enfuna as velas,
     lá longe, o pôr-do-Sol.
Ainda aqui, as taças de vinho, a nossa despedida.
     Penso em ti, onde estás agora?
Esfumadas na distância e na bruma,
     Contemplo triste as águas azuis.»

1.3.26

O lento escorregar de uma noite

Refiro-me àquela velha história do velhinho que vai entrar gentilmente na noite escura. Ou àqueloutra do tigre que entra a arder nessa mesma noite, iluminada apenas pelas suas chamas, dele, tigre que arde sem se ver e não sente qualquer dor.

Entretanto, uma lebre corre nos sanfenos, a eternidade sai finalmente da gruta aonde estava escondida ("é o mar / que se foi com o Sol"). Num canto, alguém recita monotonamente "solo una cosa no hay. / Es el olvido" e dedica essas linhas à sua "desventura e ventura, inesgotável e pura".

Como se chama o tigre ardente? Poesia. E a noite escura? Poesia. E a floresta? E o esquecimento? E a sorte, a má-sorte, a pureza?

"Yo no sé de pájaros,
no conozco la historia del fuego. 
Pero creo que mi soledad debería tener alas."