25.4.26

Diário de Bordos - Braga, Minho, Portugal, 25-04-2026

É vinte e cinco de Abril e a Centésima Página está fechada. Uma desgraça nunca vem só. Corro porém o risco de ser mal interpretado.

O vinte e cinco de Abril não foi uma desgraça. (Aliás, é pena ter sido em setenta e quatro e não nos anos sessenta, ou cinquenta mas isso é outra história.) Prefiro de longe viver num regime democrático, por imperfeitos que sejam a democracia ou o regime. Isso não se discute sequer. A desgraça do vinte e cinco de Abril, para mim, são estas manifestações de gregarismo. Um senhor ao microfone grita «Abril sempre!» e cem vozes (mais ou menos, para menos) respondem «Fascismo nunca mais!» Antes disso falou de uma série de coisas que só existem na cabeça dele (e se calhar nas do rebanho) e que o «vinte e cinco de Abril» dele se encarrega de desmentir todos os dias. «Direito à habitação»? Sim, se for em casa dos pais; «trabalho estável»? Sim, no estrangeiro - aonde a legislação liberal é dez vezes mais flexível do que a portuguesa, de resto; «salários dignos»? Sim, para o Paquistão e para o Bangla Desh os nossos salários são de uma dignidade enternecedora. E ver esta gente de cravo vermelho à lapela, na mão, na orelha? Antigamente usavam-se cruzes, hoje é cravos. A função é a mesma.

O Homem não é um animal racional. É um animal simbólico, mitológico. Vive de símbolos e de mitos, com algumas ilhas racionais aqui e ali, espalhadas como árvores numa savana. Não deixa contudo de ser doloroso confirmá-lo num dia como este, cheio de sol, calor e gente na rua. De Braga só conheço a supra-mencionada livraria Centésima Página e o glorioso almoço de hoje ajudou a mitigar os gritos irracionais do senhor, rodeado de bandeiras da CGTP. Eram mais bandeiras do que ouvintes, diria eu se quisesse dar um colorido simbólico ao texto. Não quero. Não eram.

Esqueçamos os mitos e passemos à realidade. O almoço foi objectivamente glorioso. O restaurante chama-se A Livraria. Pela primeira vez a norte do Porto encontro um restaurante que me enche as medidas, que está ao nível do Tamuge de Mértola, que é excelente desde o início - o nome - até ao fim - a conta. Passando pela decoração, pelo serviço, pela simpatia do pessoal, pela qualidade de tudo - entradas, principais, vinhos, sobremesas, aguardentes. Tudo naquela casa é um cântico à Qualidade, assim mesmo em caixa alta. Incluindo os guardanapos, que são de pano. Peixinhos da horta, costeletinhas de porco preto, filetes de polvo e de pescada respectivamente acompanhados por arrozes de feijão e de espigos, mousse de chocolate, rabanadas, aguardentes - tudo isto no superlativo. Superlativo mais, se o houver. (Há.) Venham mais cinco.

Tudo isto por quarenta e cinco euros por boca, com uma ligeira (tosse) desigualdade (tosse) na partilha da conta (tosse). Há uma dúzia de restaurantes neste clube pelo mundo, para mim: Tamuge em Mértola, Solar do Moinho de Vento no Porto, La Bodeguiya em La Linea, Chez Jeannot em Paris, Gustar em Palma, Tentações de Goa em Lisboa... Há mais? Há, claro. O meu mundo é pequeno e além disso faltarão alguns que agora me fogem da memória gustativa. Mas enfim, isto chega. José Quitério diria que A Livraria o levou ao céu e eu subscrevo.

Depois do almoço os meus companheiros foram ver o recém inaugurado Muzeu. Eu refugiei-me na minha habitual forma de turistar: enfiar-me num café e esperar que a cidade passe por mim. Passa, mas um bocadinho longe e de qualquer forma este post já vai longo e o senhor das bandeiras encarnadas agora ouve-se porque entretanto eles voltaram e fomos para a esplanada e eu só penso no Sol, no calor que ele trouxe e no mar que vem junto e para o qual eu irei não tarda. 

24.4.26

Outra breve nota sobre harmonias

Como é do conhecimento geral, as pessoas que estão com o período não devem fazer maioneses ou bechameis. Isto aplica-se tanto a mulheres como a homens, que as regras são para todos. Pois eu hoje desafiei-as, as regras e fiz uma béchamel. Daqui a pouco terei o veredicto. As últimas maioneses têm falhado. Não gostam de desafios. A ver se a béchamel também é bégueule.

E não pus o avental encarnado. Talvez venha daí a asneira. A ausência de harmonia leva inevitavelmente ao desastre. A ver. Antecipações só depois de o jantar estar no prato.

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Para além da escolha do avental, a preparação de uma refeição - todas as refeições são de cerimónia, relembro, mesmo ou sobretudo as solitárias - exige um cuidado especial na escolha da bebida que vai acompanhar a cozinha. Para mim, só há duas adequadas: a cerveja e o vinho tinto. O vermute exige atenção, o gin tónico conversa e o vinho branco companhia. Restam as duas supra-mencionadas. 

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Para terminar esta série, que na verdade não teria fim, fosse eu um rapazinho sério:

A lavagem da loiça fez-se (o uso do passivo é propositado) ao som do Fado Bailado, de Rão Kiao. Digo-o contrito: é o único disco de fado que sou capaz de ouvir do princípio ao fim e recomeçar. A béchamel não ficou como eu queria mas tão pouco ficou do avesso, como tantas vezes me acontece quando tenho as hormonas arrepiadas. A loiça está lavada e maioritariamente seca e arrumada. A primeira parte da noite esvai-se tranquilamente, espécie de pequena hemorragia do dia; é este que se esvai, gota a gota. Não é a noite. Essa começa agora.

23.4.26

Harmonias, aventais

Devido a uma simples questão de harmonias, é essencial escolher o avental com o qual se vai cozinhar. Uso o plural propositadamente: são duas as harmonias às quais é necessário estar atento. A interna e a externa. O avental deve acordar-se com o menu e com o nosso estado de espírito (e excepcionalmente com os convidados, se os há e se corre o risco de eles chegarem quando ainda estamos a cozinhar - no meu caso, sempre: só tiro o avental quando vou para a mesa). O avental na cozinha é uma peça de roupa tão importante como a roupa do dia e combiná-lo com o que o envolve - ou, mais importante, ele envolve - é tão importante como combinar a cor das meias com a camisa (ou com a gravata) ou os sapatos com o cinto. Tal como a ninguém passa pela cabeça ir trabalhar para um escritório de mocassins castanhos ou de camisa havaiana, ninguém pensaria pôr o avental encarnado para fazer um jantar de cerimónia (refiro-me ao meu avental encarnado, o mais feio dos que tenho. Tudo isto é muito pessoal. Mas não esperem confidências. O DV não é um confessionário). Todos os meus jantares são de cerimónia, de passagem se diga, esteja sozinho ou acompanhado e por isso o meu avental por defeito é o chic, o da Zara, que não tem atilhos. Quando vai para lavar... Bom, pouco importa. Fica a nota. Hoje pus o encarnado. É o que mais raramente ponho, apesar de ultimamente o ter usado de vez em quando. Espero vivamente que tenha de ir para lavar e eu não precise dele por muito tempo.

22.4.26

Equilíbrios indefinidos

Comi demais e não bebi o suficiente para acompanhar tanta comida. É importante equilibrar o que se come e o que se bebe. Como amar e ser amado, outro equilíbrio importante e por vezes difícil de se conseguir. Durante muitos anos acreditei numa coisa que li em adolescente: "em todas as relações há um que ama e outro que se deixa amar". Hoje não amo, não sou amado e sei que aquilo não é verdade. Ou melhor: não é sempre verdade. Às vezes é mas não o é em todas as relações. 

Pior: às vezes é verdade mesmo quando não há uma relação. 

Outro equilíbrio instável é aquele de amar-se alguém "até que a morte nos separe". Conheço muitos casos em que foi a vida a separar-nos. Ou as vidas, mais exactemente, a dela e a dele. Aposto que só as mortes de cada um lhes permitirão unir-se, coisa que as vidas não deixaram. 

Na verdade, há mais desequilíbrios do que o contrário,  como de resto muito bem comprova o dia de hoje. Deveria ou ter comido menos ou ter bebido mais. 

Ou ter amado menos e ser mais amado?

21.4.26

Receita: frango recheado com alheira, ordem, desordem, Patxi Andion et al.

A cozinha é uma questão de ordem e caos, uma luta entre os dois. Há que ser ordenado e fazer face à desordem. Parece complicado mas não é. Basta ter presente aquela velha máxima dos logísticos ingleses segundo a qual é preciso ter um plano se se quer poder não o respeitar.

Assim, a primeira coisa a fazer é chegar a casa com as compras e arrumar tudo o que não vai ser necessário em breve - isto é, nada. Decidir se se acompanha a feitura do comer com cerveja ou vinho. Optar pelos dois, começando pelos cereais. Em seguida põe-se o frango numa marinada de sal e sumo de limão. Fazer a tapenade: azeitonas, anchovas, um bocadinho de rum, pimenta tigre, salsa (prefiro esta aos coentros, na tapenade), azeite. Frigorífico. Dali passa-se para as batatas: descascá-las, cortá-las às fatias e pô-las de molho em água. Ao mesmo tempo, preparar o recheio do frango: ligeira cozedura nas alheiras, improvisar uma massa de alho, enganar-se na paprika picante (o que se espera elimina a necessidade de massa de pimentão). Misturar tudo: alheiras, massa de alho, um pouco mais de azeite (a melhor cozinheira é a mais azeiteira). Rechear o frango e esperar que chegue o prato de ir ao forno. Completar a marinada do frango com vinho branco. Pôr as batatas em redor do frango e forno com tudo. Esperar hora e meia a cento e noventa graus. Esperar para ver o resultado. Entretanto vai-se ouvindo Patxi Andion e recebe-se as visitas.

(Cont. - Há que ver o resultado e uma hora e meia de forno é uma pipa de tempo. A música mudou: Music for seafarers, Will Oldham.)

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Cont.

Os convivas foram simpáticos e disseram que estava bom. Eu não acho, o que é frequente. Contudo, desta vez é forçoso reconhecer que quem tem razão sou eu. Não estava grande coisa. Paciência. Só me dá vontade de refazer e re-refazer, até acertar.

Palavras: espero (fragmento)

Se as palavras fossem flores, ou bombons, oferecer-te-ia um ramo delas, uma caixa. Mas não são. São palavras, só. Não lhes podes tocar, não as podes comer e só as podes ver se eu tas escrever como faço agora, que não te posso ver e muito menos tocar. Posso lembrar-me de ti como o papel, um dia, se lembrará delas, destas palavras que um dia lerás e no outro esquecerás, provavelmente, porque é esse o destino das palavras: serem esquecidas.

Enfim, nem todas. Algumas ficam. Como este beijo que aqui digo e escrevo e te envio e te chegará, um dia e em ti ficará muitos outros. 

Espero.

19.4.26

Ombros

"Agarra-te aos ombros", digo a mim próprio. Obedeço: mão direita no ombro esquerdo, esquerda no direito  e aperto com força, puxo-me para baixo. Nada mexe, claro, mas a energia aconchega-me e aquece-me. Nunca tive a quem me agarrar senão a mim? Outros ombros? Tive. Mas estes são os únicos que andam sempre comigo. Não me largam. E não vão para baixo.

Diário de Bordos - Vilarelho, Caminha, Alto Minho, Portugal,

Arre! Estou farto do frio e de gente com certezas. Para quando o calor? E: quando me tocará a mim ter uma certeza, uma só que seja, não importa sobre o quê?

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Acabo de tomar uma decisão agoniante mas a agonia prolonga-se. Foi uma batalha entre a intuição e a certeza: a intuição dizia-me que aquilo ia correr mal e a certeza confirma-me que agora não estou melhor. Ou seja: volto ao ponto de partida. Não é para isso que servem as decisões. 

Mas talvez seja esse o objectivo da intuição, não é? Se não fosse, teria outro nome. Certeza, por exemplo.

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Tento olhar para a situação pelo lado bom: vou ter frio mais uns tempos.

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(Cont.?)

Respeito, respeitinho


17.4.26

"Voo cego a nada"

Se a Terra fosse um enorme ringue de patinagem e as palavras fossem os traços que os patins deixam no gelo - que seriam os gestos, os arabescos que os patinadores traçam no ar e se não forem filmados só existirão enquanto houver memória?

Nada. Os rastos dos patins é que contam. Enquanto houver gelo, claro.

Ouvir ou ver

Procura palavras como os coleccionadores de conchas as procuram na praia mas gosta delas - palavras - menos retorcidas. Pelo menos à vista, que mesmo as mais simples escondem mais pregas do que o ventre de uma senhora gorda. Basta ouvi-las com olhos de ver, passe o trocadilho  que não o é tanto quanto parece porque os olhos também ouvem, quando querem e os deixam.

Somatizar, história curta sobre os benefícios comparados do gesto e da palavra

Somatizo mortalmente, dizia o doente na cama do hospital a quem de direito. Quem de direito não o ouvia: tinha mais que fazer do que ouvir pacientes dizer banalidades básicas. Alguém somatiza à vida? Alguém se sente menos morto ou menos vivo ou menos desmaiado ou menos assim-assim só porque meia dúzia de neurónios decidem mandar passear as suas preocupações? Ninguém, claro. Antonella, uma enfermeira italiana que um amor deslocalizado atraiu ao nosso país ouviu o senhor mas não percebeu bem o que ele dizia. Aproximou-se e debruçou-se; os seios - tinha-os grandes (e rijos porque era jovem) - tocaram a testa do homem - ateu, velho, via mal. Confundiu a enfermeira com Deus, o verdadeiro mas como delirava não pensou que o Senhor não tem mamas. Quem as tem são as deusas, esclareço não vá o leitor equivocar-se. Todas? Não. Só algumas. As que as partilham. As que as não guardam só para elas ou para o homem que amam. As que tocam com elas na testa de um homem doente, mesmo que involuntariamente. As que são suficientemente nobres para repetir o toque quando se apercebem do seu efeito positivo no doente. As que trazem às vagas da minha memória os momentos em que são fui tocado por essas, sim, deusas. O paciente delira menos, pacificado pelo efeito conjunto de um par de mamas na testa, uma cabeleira loira a preencher-lhe o campo visual e uns lábios que lhe dizem "calma, calma". O homem acalma-se, devido ao efeito do calor de um corpo junto ao dele, um cobertor de cabelos loiros, uma voz de que ouve o som mas não percebe a fala.

É o que se faz que conta, não o que se diz.

Serviço público - Restaurantes, cafés, etc. em Caminha

Quando se pesquisa no Google Maps «restaurantes Caminha» o sítio que aparece com a pontuação mais elevada chama-se Trincaria. Já cá tinha vindo duas ou três vezes para tentar perceber porquê. Hoje, finalmente, descobri: a Trincaria não é nem para tesos nem para deslocados no tempo. É para quem gosta de comida saudável - isto é, cara e sem interesse (a priori. Já lá vamos) - para quem bebe cerveja sem glúten ou sem álcool, para quem não bebe vinho tinto a copo - só têm meias garrafas e ainda por cima desse insuportável Tiago Cabaço - e para quem gosta de ambientes e decorações iguais à comida: saudáveis, assépticos e «modernos» (entre aspas porque é irónico). Tem algumas vantagens? Tem. O serviço é atencioso e sorridente (duas qualidades pouco vulgares por estas bandas, pelo menos nos primórdios. Depois muda e muito e bem). Hoje comi uma tosta que estava boa, sem dúvida. Também por aquele preço - mais do que um prato do dia em muitos sítios - melhor seria se não estivesse. Só pergunto é que espécie de talento é necessário para se fazer uma boa tosta?  Basta saber soletrar abacate, suponho. A música também é decente apesar de ser daquelas listas da Spotify com anúncios, coisa que me irrita ao mais alto ponto.

Bom, vamos resumir: está sempre cheio de estrangeiros, o que explica a atracção por comida «saudável» e «moderna» (ditto) e a indiferença aos preços. 

PS - Também é padaria. Idem ibidem.

14.4.26

Diário de Bordos - Lisboa, 14-04-2023

As minhas vagueações de ontem acabaram da melhor forma possível: jantar em casa da J., que é sempre uma adorável mistura de boa comida, boa cozinha, boas conversas e bons mexericos. J. conhece o mundo literário português de perto, muito perto e eu delicio-me, claro. 

Hoje - agradável simetria - começam da melhor forma: fui buscar a Coluer ao Fernando, uma loja de bicicletas em Alvalade que recomendo urbi et orbi (Fernando é o nome do dono. A loja chama-se Airaf. Fica ao lado do mercado de Alvalade) e daqui a pouco, depois desta pausa bloguística no Luanda, outro dos meus refúgios de antanho, almoço com o V. Tudo isto enquanto discuto dois trabalhos, um dos quais me interessa muito e outro menos. Não há fome que não dê em fartura.

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Desço a Almirante Reis depois de um almoço com o V. e encho-me de alegria. Vasos comunicantes. Sou cosmopolita, sou daqui e dali e de mais além. Não é o cosmopolitanismo que queremos? A pele é mais escura e os olhos menos azuis? Paciência. Ninguém manda ao sapateiro tocar rabecão. Temos os imigrantes que já fomos.

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Quel bonheur! Lisboa é um consolo. Daqui a um mês cá estarei, querida. Agora esperam-nos cinco horas de comboio. Morar na fronteira tem muitas vantagens. Mesmo podendo chamar Lisboa a uma das minhas casas.

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A viagem no comboio começa mal: não há lugares em primeira classe e caio do tamborete quando aquilo arranca. Já não há lugares nas mesas.

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No comboio.

Atravesso este pais que é o meu e pergunto-me "o que é meu, neste país?"

Nada, claro. Não me refiro a bens tangíveis. Refiro-me ao resto. Que tenho eu deste país? A língua. A história. A memória. A língua é tudo. Memórias e história partilho-as de boa vontade.

Este permanente debate entre a nacionalidade e o cosmopolitanismo aproxima-se do fim da maneira mais estranha: agora tenho uma casa e sei que ela é minha e não eu dela. (A casa é alugada, mas isso é outra história.)

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O comboio desfila pela paisagem, sem que se tenha de carregar no acelerador ou falar com o vizinho. Em contrapartida, não se pode cantar «Senhor chauffeur, por favor, ponha o pé no acelerador.»

(Cont.)

13.4.26

Diário de Bordos - Lisboa, 13-04-2026

Toda a gente sabe; quem não, aprenda: a melhor maneira de percorrer Lisboa é de bicicleta; a seguir, vem a marcha. Depois vêm os outros meios de transporte todos: metro, táxi e autocarro. Por fim, finalmente, essa forma moderna do táxi que são os Uber e quejandos.

O problema destes métodos todos - insisto: todos - é que exigem uma planificação da resistência às múltiplas tentações que nos saltam ao caminho e nos assaltam os sentidos todos mai-las memórias. O viajante avisado começa por fazer a opção de base: comer sentado a uma mesa ou depenicar aqui e ali? A escolha certa é: os dois. Exige, é certo, mais atenção.  O quê e onde petiscar e almoçar? Consoante a zona da cidade aonde se está. Hoje, por exemplo, comi um pastel de massa tenra no Frutalmeidas acompanhado por dois sumos de não sei quê chegados directamente do paraíso a que se seguiram dois Piratas no Pirata (apanharam decerto o mesmo autocarro do que os sumos). Passo alguns pormenores para não empanturrar o leitor e acabo a almoçar uma gloriosa feijoada no Moisés. Algo me diz - mas não tenho a certeza de estar a ouvir bem - que daqui irei à Versailles beber um café e comer um pastel de nata. Lisboa é isto: uma maçada. Apodei a feijoada de gloriosa porque não quero usar "divino": estou em dia de monoteísmos e Deus há só um, Lisboa e mais nenhum. O Moisés sendo, naturalmente, um dos seus apóstolos, digam as escrituras o que disserem. E a Versailles. E o Frutalmeidas. E centenas de outros: Lisboa é um deus pródigo e tem centenas - se não mesmo milhares - de locais de culto. Já comprei café na Cafélia, é importante mencionar isto agora que estou à frente da casa Pérola do Chaimite, aonde durante muitos anos me forneci. Mas a Cafélia tem Maragogipe e contra factos não há argumentos. Para além de que são muito mais simpáticos do que o senhor Tavares. Mas bom, este é um argumento secundário. A simpatia só sobe a primeiro plano quando o produto não está lá, como acontece com o senhor da loja de bicicletas de Caminha.

Próxima paragem: Versailles. A vantagem de Lisboa sobre a Via Dolorosa é que esta só tem catorze estações.

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A parte feminina da clientela da Versailles - aproximadamente metade - vai bastante bem com o estabelecimento em si. Não estou com isto a chamar velhinhas às senhoras que tão generosamente enchem a casa de beleza. Longe de mim tal grosseria e sobretudo tal falsidade. Estou simplesmente a dizer que as senhoras são bonitas, elegantes, têm classe e savoir-faire. O que, reconheçamos, é uma mistura bastante agradável de qualidades.

As minhas escolhas não são exclusivas. No Moisés estava um senhor, personagem da televisão e da cultura nacionais. Pois acaba de entrar na pastelaria e está agora acompanhado por uma outra personagem da cultura, da televisão e da poesia nacionais, de resto seu colega num dos programas de televisão. Vamos ver se os outros dois membros do painel se juntam. Se o Eduardo Pitta aqui estivesse ficaria composto um belo ramalhete de personalidades da cultura.

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Saio da Versailles e retomo o meu deambular pela cidade. Parte a pé e parte de táxi chego a Campo de Ourique, aonde decido fazer uma pausa bloguística. Agora só me resta esperar pela hora de jantar e depois de ir para a cama. Amanhã vou buscar a bicicleta e vou almoçar com o V. Estar em Lisboa de férias é um encanto.

(Cont.)

Casos, acasos

Tive um caso com o acaso e quis o acaso que eu não seja de fazer caso aos meus casos. Por isso multipliquei os meus casos e os meus acasos e por acaso agora encontro-me sem casos nem acasos. Pura sorte, claro. Ninguém gosta de acasos. 

12.4.26

Diário de Bordos - Sevilha, Espanha, Vila Real de Sto. António, Portugal, 12-04-2026

Mar, Espanha, Mediterrâneo, viagem, hotéis baratos, tascas em Sevilha e restaurantes bons numa praia é uma combinação à qual é difícil resistir e da qual não nos devemos arrepender, qualquer que seja o resultado da mistura. Escrevo no bar Zafiro, uma das poucas coisas abertas perto da Plaza de Armas aonde uma senhora me virá buscar para me levar o mais perto possível de Vila Real de Santo António. A plataforma Blablacar substitui muito vantajosamente o polegar no ar à beira da estrada: agora reservam-se as boleias com antecedência. As fraudes são raras, a companhia nas viagens oscila entre o irrelevante e o seu pólo oposto, e - sobretudo - permite-nos esperar nos bares Zafiro deste mundo em vez de nas bermas das estradas deste mesmo mundo.

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Vila Real de Santo António

Resumindo:  

Caminha - Porto                                           : carro, à boleia da L.;
Porto - Sevilha                                               : avião;
Sevilha - La Herradura - Sevilha           : carro de aluguer, com dois passageiros Blablacar à ida e sozinho à vinda;
Sevilha APT - Hostal Sierpes                         : táxi;
Hostal Sierpes - Plaza de Armas                     : a pé;
Sevilha - Lepe                                                 : Carro, Blablacar;
Lepe - Ayamonte                                             : táxi;
Ayamonte - Vila Real de Santo António         : ferry;
VRSA - Lisboa                                                : comboio;
Lisboa - Caminha : comboio.

E ainda há quem prefira o avião.

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Pequena nota àparte (ou à parte, para quem como pensa que esta é a forma correcta. M. M.?) O vinho da casa do restaurante aonde almoço, em Vila Real de Santo António, é o qualquer coisa do Marvão. Não retive o nome, apesar de tudo o que for vinho e tiver Marvão no nome me interessar bastante. Para substituir o ausente, a senhora propõe-me Herdade da Bombeira. Encomendo um jarro.
- Só temos garrafas.
- E quanto custa a garrafa?
- Quinze euros... Não, espere um minuto, por favor. Doze euros e cinquenta cêntimos.

Herdade da Bombeira 2023 num restaurante a doze euros e cinquenta cêntimos? Meus caros, isto existe. Penso na maravilhosa viagem que vou fazee até Lisboa, pergunto-me como conseguirei ficar com o copo (nos comboios só há aquelas abomináveis coisas em papel), pergunto-me que espécie de milagre me trouxe a este restaurante - são dois: é dominngo e está perto da estação dos comboios - e, sobretudo, pergunto-me o que anda o nosso legislador a fazer?

Isto é. Quero dizer. Penso que um bom legislador é aquele que decide tudo , mas tudo, em vez das pessoas. Desde a eutanásia até ao vinho da casa. Ou seja: o Herdade da bombeira devia fazer parte de uma lista obrigatória de vinhos da casa. Que faz o legislador quando mais precisamos dele? Cambada de inúteis...

No meu afã de ajudar em vez de me limitar a reclamar, publicarei aqui em breve uma lista de vinhos que o legislador devia tornar obrigatórios e com preços - obviamente - controlados. Para começar:
- Todos os vinhos da Quinta dos Termos;
- Os vinhos da Adega Cooperativa de Vila Real;
- Todos os vinhos da Herdade de Balanches;
- Vinhos do Tua;
- Vinhos monocasta de Baga e de Alfrocheiro.

Espero que em breve a Assembleia da República e a cambada que lá parlapateia dê a devida atenção a estes assuntos. É para isso que lhes pagamos: para se ocuparem de nós, do nosso bem estar, das nossas seguranças física e psicológica, dos aspectos importantes da nossa vida quotidiana.

De que o vinho da casa dos restaurantes que os tesos exigentes frequentam é uma componente relevante. (Apaguei a disjuntiva entre tesos e exigentes. Nada obriga um teso a aceitar tudo o que lhe põem à frente.)

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- Que sobremesas tem?
- Isto, mousse de chocolate, aquilo, aqueloutro.
- Em que supermercado compram a mousse?
- Creio que é no Recheio. Mas é muito boa. Eu gosto.

Isto não se inventa. (A mousse mereceria um suficiente menos, na antiga métrica de classificação escolar.)

- Que medronhos tem?
- Merda e merda.
- Bolas, isso não presta para nada. Não tem mais nada?
-...
-...
- Tenho um caseiro, que comprei para mim e para o meu pai. Está em minha casa, mas vou lá buscá-lo para si.

Meus amigos, repito: isto não se inventa. Experimentem um aeroporto ou um avião, para comprovar. Experimentem outro país.  (O medronho merece um bom mais, na mesma métrica.)

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Esperar por um comboio é melhor do que esperar por um avião. Por curiosidade, numa cidade da fronteira diagonalmente oposta àquela aonde vivo. O país é o mesmo.

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(Já no comboio que me levará a Lisboa, também atrasado, não vá o incauto passageito pensar que se tratava de um acaso.)

A falta de profissionalismo deste país é exasperante e adorável. Basta ter presente a segunda parte da equação (e não tentar escrever no comboio).

(Cont.)