14.2.19

Tentativa de definição

No fundo a boa música é isto: acertar as notas com o tempo e tudo isto com as emoções.

12.2.19

Um desejo chamado tempo

Que se lixe o tempo, que se lixe o rio que por ele corre sem margens. O tempo é o rio e ambos não passam de uma insuficiente cópia do desejo, onde desaguamos cada dia ao nascer, cada noite quando chega: tu em mim e eu em ti, sem margens nem para dúvidas nem para mais nada. Somos um rio sem limites que se espraia pelo tempo.

Às escuras, ADN, dupla hélice

É sempre assim, não é?

Não. É sempre mais ou menos assim: deixamo-nos escorregar pela vida e deixamo-la escorregar por nós, como um miúdo escorrega num escorrega que é ele. Somos um, dois e muitos. Somos as palavras que fazemos e o que elas fazem de nós, dizem-nos para onde apontar o olhar porque para lá olhámos quando as dissemos. Talvez por isso o ADN seja uma dupla hélice: fazemos a vida que nos faz ser o que somos.

Talvez no fundo seja isto o amor: esta vontade de ser o outro e sermos nós, feitos pelo outro. Dupla hélice: tu e eu juntos e separados, enredados e livres, soma para sempre incompleta e para sempre única. O dia chegará em que diremos "Amo-te" e o eco não dirá "Tenho medo", em que diremos "Não tenhas medo, eu amo-te" a duas vozes.

Amor, medo: dupla hélice. Amor, vida: outra dupla hélice. O amor não se enrola em si próprio, precisa do outro. Amor: outro, vida, medo. Num pacote, foi assim que veio da loja. Amor, amo-te, temo-te, tenho-te, temo-me, vivo, vivo-te, vivo-me, vida. A hélice não é dupla: é múltipla, infinita. É o universo. Somos um universo.

Metade desse universo pensa em ti, como se tu o pensasses: processo borgesiano, biblioteca de espelhos, Alephes um do outro: contigo e por ti reifico o mundo que em mim recrias, que comigo recrias. Fazemos, refazemos: fazemo-nos, refazemo-nos fazendo e refazendo. Duas agulhas fazem uma camisola de lã. E duas vidas, que fazem? Que tecem?

Acontecem, como ontem e hoje fazem um amanhã que não é um nem outro, mas é um e outro. Uma vida vive-se a dois, duas vidas a um. O mesmo se poderia dizer da noite, de resto: uma noite faz-se a dois. Se não, não é noite: é o tempo a passar às escuras.

Palavras magnéticas

Talvez "Ritual" seja um bom ponto de partida. As palavras são magnéticas, já to disse tantas vezes. Procuram o Norte. Não: indicam o Norte. É por elas que sei o caminho. Poderias talvez troçar e dizer-me "O teu caminho é tão ondulante"; eu responder-te-ia "As palavras enganam-se". Ou "O Norte magnético das palavras não coincide com o Norte verdadeiro". Ou: "Estás desnorteado?"

Nada disto interessaria. Falamos de uma palavra que te busca como eu te busco. Na verdade, todas as palavras apontam para ti, todas as palavras te buscam, como eu te busco.

(Para a R., com um beijo).

11.2.19

Stendhal e o amor, a virtude e os demónios

"Fora-se-lhe a virtude, agora que se lhe eclipsara o amor", diz Stendhal algures no Vermelho e o Negro. A citação é duplamente traiçoeira: de memória e de uma tradução não sei de quem.

Pouco importa: esta oposição entre o amor e a virtude é muito bonita, mas só é possível no séc. XIX. No XX o amor é desvirtuoso por natureza e no XXI virtuoso porque os demónios regressaram à esfera pública, de onde tinham sido escorraçados.

No séc. XXI o amor é virtuoso. Todo ele: o amor, o poli-amor, as relações abertas, as relações fechadas, as relações tout court... tudo banha em virtude. O amor lava mais branco, como o Tide, o Omo ou os sabonetes artesanais.

O amor de hoje tem asas brancas resplandecentes e cai do céu, tal Gabriel a anunciar à Virgem que não tardaria um fósforo deixaria o ser.

10.2.19

Diário de Bordos - Lisboa, 10-02-2019

Dia oblíquo...

"O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol..."

(Chuva Oblíqua, Fernando Pessoa)

Para mim é o contrário: o dia é sombrio e pálido e eu sonho com portos cheios de sol.

II
É tão fácil ser piegas, não é? Tão tentador. Que se lixe a pieguixe. O dia começou oblíquo mas acabou bem, vertical, fixe, com o Gonçalo Marques no Mercado de Campo de Ourique, um bocadinho mais terno do que é habitual mas sempre bom, sempre um prazer, uma viagem para portos cheios de sol e de luz e de miúdas giras.

..........
Um abade e um filósofo combinam encontrar-se para almoçar. Espargos, de que um (o abade) gosta com azeite e o outro com molho. Acordam que fica metade com azeite e a outra metade com molho. Antes do almoço o abade morre de apoplexia, o filósofo salta do seu lugar na mesa, sobe as escadas a correr e grita para a cozinha "Façam todos os espargos com molho! Todos os espargos com molho!"

Leio a história num livro chamado Comimos y Bebimos, Notas de cocina y de vida, de Ignacio Peyró, ed. Libros del Asteroide, Barcelona 2018. Sugiro forte e intensamente que o leiam, é uma pérola, uma jóia, uma obra de fineza e finura, amor e humor, uma declaração à comida e à bebida. Ou seja, à vida.

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Lisboa, irritante Lisboa, impossível amar-te e mais ainda não te amar. Velha gaiteira a prometer as melhores sopas em panelas novas e vai a ver-se as panelas não são nada novas, são as de sempre só que limpas e areadas, ao contrário das ruas e das paredes, pareces um mictório gigante a céu aberto.

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Dia oblíquo.

"Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho... "

Lisboa?

Esta Lisboa toda grafitada, taggada, cagada que já não conheço e ainda amo, já não amo e ainda desejo, amor antigo revisto passada uma vida: que dele ficou do que dele amámos?

3.2.19

Revigorante / aconchegante

Fazer-lhe amor era como chegar num dia quente a uma sala com ar condicionado, não como entrar num quarto aquecido num dia frio.

Aterragem

Estava receptiva como uma pista de aterragem à noite, aquela longa linha de luzes a indicar o caminho, a direito até ao fundo.

2.2.19

Transformações

Poucas coisas excitam mais um homem do que uma mulher independente, senhora dos seus afectos e do seu corpo, livre e soberana.

O problema é que muitos deles não sabem o que fazer de tanta excitação, coitados e transformam-na em medo.

Aventura ferroviária

Outra vez no aeroporto. Sonho com o dia em que ir para a estação de comboios de Carcavelos seja uma aventura.

Mecânica newtoniana, infinito

Um puzzle do qual todas as peças encaixam como um corpo noutro, pelo qual está apaixonado; e os dois no universo, porque o amor é retribuído. Uma física que deixou de ser quântica e é agora arrumada, newtoniana, mecânica da qual se sabe o lugar de cada peça, de onde vem para onde vai. Não sabemos quanto tempo vai durar este estado, mas sabemos que é bom como se fosse infinito.

Por muito caro que tenhas de pagar. Cada segundo destes vale uma hora de inferno.

Complementaridade, diferença

O que une as pessoas não é o que têm comum. É o que têm diferente e se complementa.

São duas condições e não uma, eu sei, quase contraditórias: se se complementam não são assim tão diferentes.

1.2.19

Funâmbulo, vida

É como a arquitectura, no fundo: linhas e planos que se cruzam, se interpelam, se juntam para criar sentido.

A diferença está no funâmbulo que se passeia com a sua enorme vara sobre essas linhas e planos. É ele que transforma tudo aquilo em vida. Nem sequer precisa de cair para insuflar emoção naquele árido quadro. Olha: é impossível não o veres. Está no espelho mesmo à tua frente.

Cheguei

Espera. Não tenhas pressa. Calma. Há um corpo que te espera no palco. Há um palco que te espera no corpo. Não hesites: podes ter os dois, o corpo e o seu palco. Vai mostrar-se, vais mostrar-te, vais ver-te no outro corpo, no outro palco. Se tiveres sorte reconheces-te, o palco aceitar-te-á, o corpo também. Somos palcos com pernas e braços, dois olhos e dois ouvidos, um ventre e uma mente. É neles, no ventre e na mente, que se desenrolam as peças todas: dramas, tragédias, comédias e sobretudo - sobretudo - farsas. Tem calma. Espera. Vê primeiro qual a próxima peça e só depois te deixas arregimentar. Shangaiar, dirias.

Fecha os olhos, procura um corpo e respectiva mente. Quando os encontrares diz: "este sou eu. Estou em casa. Cheguei".

Puzzle, paciência

Como se fossem as peças do puzzle a dizer-te qual o lugar delas. Encaixam-se sozinhas, sem qualquer esforço teu. Pensas: "já estive aqui", mas não é totalmente verdade. A estrada é a mesma mas o puzzle mudou, os cruzamentos são outros, tu és diferente do que eras.

Pensas: "o cenário também é outro" mas sabes que isso é irrelevante. So há um cenário: tu. És o campo de batalha das guerras todas que viveste, o cenário não tem nada a ver com a história. As peças encaixam umas nas outras e lembras-te do nome português para puzzle: paciência.

31.1.19

Má-educação?

Bodega Bellver, Palma. O homem conhece-me há um ano e faz-me trombas como no primeiro dia. Faz a toda a gente, não é só a mim.  Creio que o vi sorrir uma vez, talvez duas. Pode dizer-se dele que é mal-educado?

Panamá: os panamianos desconhecem o uso de fórmulas de boa-educação. Bom dia, boa tarde, olá, obrigado, de nada, por favor são-lhes expressões tão estranhas como à maioria dos portugueses o Tao Te-King no original.

Pergunto-me se isto é verdadeira má educação. Esta requer que se infrinja um código, de antemão conhecido e partilhado com o interlocutor. O semi-anão da Bellver, os panamianos não estão a infringir código nenhum. Estão a ignorá-lo, na melhor das hipóteses. Na mais provável, ignoram-no.

Não é má-educação, nem sequer falta dela. É outra coisa, outro código.

Há um médico na sala?

Doutor, o sintoma é permanente e recorrente: quero estar em qualquer parte do mundo, excepto no sítio onde estou. É grave, Doutor? Cura-se?

Palavras, frutos

(Espalha-se-me radicalmente a palavra pelo corpo todo, no sentido mais radical do termo: raízes). 

Palavras que como raízes tu me espalhas pelo corpo, palavras regadas cada vez que respiras, cada vez que me olhas. Assim as palavras vão crescendo e delas os ramos, as flores, os frutos. Na azáfama da flor crescem sílabas, futuros, a mão hesitante de um amor nascente, um olhar que se interroga.

O que se constrói a dois, o que se diz, faz a dois? Que nome dar ao fruto da palavra?

Imagino a pele e nela a palma de uma mão, vejo-te simultaneamente fruto e raíz, palavra e silêncio. Espalhas-me silenciosamente raízes nas palavras. Frutos moldados a dois, digo-te, duram mais tempo, dispensam frigorífico, são mais apetitosos. Respondes-me com um rio, chuva e vento.

Talvez. As palavras dão frutos, é tudo o que agora sei.

(Para a R., com um beijo)

29.1.19

Diário de Bordos - Barcelona, Catalunha, Espanha, 29-01-2018

De novo nesta cidade que já amei, odiei, amei, detestei (e agora amo e detesto simultaneamente), uma cidade onde vivi alguns dos monentos mais estranhos da minha vida (e Deus sabe se ela os tem), mais horríveis, uma cidade que me esmaga com a sua imponência que não consigo deixar de pensar falsa, como se fosse de cartolina e na qual ja fui esmagado pela solidão e pela tristeza, a cidade mais cosmopolita e ao mesmo tempo chauvinista do mundo, aldeia complexada e fechada cheia de estrangeiros, mediterrânica sem nada que a assemelhe por exemplo a Marselha, cidade enganadora - até agora: tinha jurado nunca mais pôr os pés num gastropub, encontro-me no Obama, desde há muitos anos um dos meus locais favoritos e que descubro? - Que se tornou um gastropub, cheio de televisões enormes em tudo quanto é canto; mas continua a ser um sítio lindo "English American Bar", com um painel à porta a anunciar jogos de futebol, como é que um sítio tão bonito pode cair tão baixo? No fundo é um bom resumo de Barcelona: aldeia que se crê cidade, rameira que se imagina senhora,  pub que se anuncia gastropub. Desde quando? Terei eu vindo cá e isto já tinha estas televisões enormes? Penso que não, primeiro; depois fico-me nas tintas. Que importa? É Barcelona e o seu insuportável linguarejar, há restaurantes que já nem o menu têm em espanhol, puta que os pariu mai-lo catalão, parece uma língua falada por aldeões bêbedos de regresso de uma orgia com vacas e ovelhas.

Tive uma reunião de manhã que correu bem, muito bem, trouxe-me à memória aquele guru da gestão que dizia a Portugal "you have a brilliant future on your past", em inglês porque cito (de memória mas cito), pergunto-me quem era o homem, um daqueles consultores a quem demos milhões de euros para dizer baboseiras, evidências ou simples parvoíces. A mim ninguém me deu milhões de euros, claro, antes pelo contrário, só não fiquei de cuecas porque não as tenho, mas fiquei pior ainda. Aqui há uns tempos escrevi "tenho de ir ali pôr ordem no meu passado", ou coisa que o valha e sim, é verdade, é isso mesmo: tenho de pôr ordem no meu passado e esta reunião foi um grande passo nessa direcção.

Bom, mas nisto o melhor é sempre olhar para a frente e cagar no passado, de resto é assim que os respectivos orgãos estão organizados no nosso corpo, os olhos para a frente o cu para trás, alguma razão há-de haver para isso.

De maneira bebo um copo de Sirah e espero o senhor da reunião das seis, está quase a chegar, diz-me pelo whatsapp. Não olho para as televisões - uma está apagada, a outra estraga a decoração de uma parede inteira, isto chama-se Obama provavelmente porque tem uma decoração baseada em fotografias e objectos do período colonial em África. O Obama era preto, portanto compreende-se. A mesa onde estou sentado e as que estão ao lado até dizem The Metropolitan University of Mombasa, Cape Town and Durban, lá está, para fazer a ponte com o patrono do lugar, de quem de resto um gigantesco busto esculpido em madeira pintada de preto (não acredito que seja pau-preto) ornamenta a entrada.

Depois disto volto para o aeroporto. Apesar de tudo está mil Obamas abaixo disto. A menos que tenha tempo para ir a pé até à baixa e apanho lá o Metro, história de me esmagar mais um bocadinho.

Adenda - o busto do homem já lá não está. "Foi de férias", diz-me a empregada, que tem humor para dar e vender. E me explica o porquê das mudanças: o bar tem um novo dono. Não percebo por que raio de carga de água as pessoas compram coisas bonitas para as estragar. Antes comprá-las estragadas para as embelezar. Sim, consegui ir a pé até à Ciutat Vella e comer no La Viena Blanca, vermute soberbo, croquetes e lasanha idem, fica na Pintor Fortuny 10, caso precise de lá voltar. Precisarei de certeza.

28.1.19

Queda, tempo

Escorregamos pelo tempo, por aí abaixo sem termos onde nos agarrar excepto talvez às vezes, lá aparecem umas pegas: mar, nuvens, um sorriso que nos atrai mais do que os outros todos juntos, vá lá saber-se porquê, o trompete do Miles Davis ou os cânticos de Hildegarde, um olhar desajeitado, a ideia provavelmente falsa de que podemos adiar a queda.

Não podemos. Quando muito podemos dar-lhe sentido, o que já é muito e é uma sorte.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 28-01-2019

Hoje tive de ir ao STP. Cada vez que lá vou dou graças a Deus. O STP é o maior estaleiro de Palma. Recebe iates (poucos), super-iates e mega-iates (muitos). Os barcos estão fora de água e para quem gosta deles um passeio pelo STP equivale a um desfile de modelos para um tarado sexual. Com as senhoras todas nuas, claro  (enfim, não precisa de ser tarado. Basta ser sexual).

Os barcos mais bonitos do mundo estão à vista, varados, a receber cuidados - refits, reparações, manutenção periódica -. Não os há feios: só bonitos, muito bonitos, belos e obras-primas. Centenas de pessoas afadigam-se em torno deles. O STP tem cento e tal empresas lá dentro, sem contar com as que vêm de fora. Recentemente adquiriu o maior travelift da Europa, pelo que daqui a uns meses estará a receber botes ainda maiores (a maioria dos quais ainda mais bonitos).

Infelizmente a missão que me levou ao STP não correspondeu ao prazer que tive a visitá-lo e saí da lá com as mãos a abanar. Paciência. A vida é assim, feita de sins e de nãos, de subidas e descidas - e todos sabemos que aquelas são mais do que estas.

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Amanhã vou a Barcelona, falar com uma agência para ver se encontro um poiso para o P. no Verão. Continuo a acreditar que em breve estará pronto para trabalhar, apesar de ter poucos argumentos a favor desta ideia. É contudo inegável que os argumentos de nada valem contra factos e é por estes que devemos lutar. O resto não passa de esperança, que nem para encher chouriços é boa.