13.5.26
Prazeres da lusitanidade II
Sem graça nenhuma
Acreditar que trocar os automóveis de combustão por veículos eléctricos, cobrir os cumes dos montes com eólicas e os campos com painéis solares vai fazer o clima parar de mudar é uma tonteria equivalente a pensar que um dia um senhora deu à luz sendo virgem e depois andou a alpendurar-se em árvores para ser vista por pastorinhos (em Portugal. Em França foi pela filha de um moleiro numa gruta). Ou que um senhor crucificado e enterrado ressuscitou ao fim de três dias, depois de ter transformado água em vinho, andado num lago pela superfície da água ou multiplicado pães num casamento. Pode acreditar-se nessas coisas todas. Não deve é pensar-se que são reais. Que são factos.
Não discuto a fé religiosa. Desde que não voltem a obrigar-me a ir à missa e a lá comer rodelas de trigo ou beber "vinho" (entre aspas porque era pouco e mau), a Igreja católica traz-me mais benefícios do que chatices. Refiro-me à arte sacra, seja ela música, pintura, escultura, arquitectura e por aí fora. Até as belíssimas procissões de Maiorca me encantam e me fascinam. E a igreja não fez só mal, ao longo dos seus dois mil anos. Fez muito bem, igualmente.
Os automóveis eléctricos tão pouco me aborrecem. Poder acreditar em disparates e exibir essa crença pelas ruas faz parte dos direitos de cada um. Os padres e respectiva hierarquia também andam vestidos bizarramente à vista de toda a gente. E têm práticas anti-naturais, como o celibato, jejuns ou ouvir as asneiras dos outros. (Já o incenso acho bem. Tem um cheiro agradável.)
Porém, eólicas nos sítios mais bonitos, painéis solares nos campos em vez de plantas, litanias sobre os puns das vacas e o constante recurso às "alterações climáticas" como causa de tudo e mais alguma coisa - desde, naturalmente, que esse tudo seja mau. Para os crentes dessa fé, nada de bom pode provir das "alterações" - já isso, dizia, me põe cada vez mais fora de mim.
A Igreja Católica acabou por proibir a venda de indulgências. Será que a igreja das alterações climáticas do terceiro dia terá a mesma sabedoria e acabará com as tolices que a sua fé impõe mesmo aos não-crentes, também conhecidos por negacionistas ou climato-cépticos? Pejorativamente, claro, como se a verdade não fosse filha do cepticismo e da negação.
Atribuir as aparições de Fátima ãs sopas de cavalo cansado que se dava aos miúdos antes de irem para a escola talvez as explique e tem graça. Não sei. Mas dilapidar o erário público em ventoinhas fechando os olhos à Razão, ao bom senso, à estética e à História - isso sim, não tem graça nenhuma.
Prazeres da lusitanidade
- No trajecto de Caminha para Lisboa fazer uma paragem na Mealhada para comer leitão. Um ponto para os defensores do automóvel face ao comboio.
- Ir jantar a casa do amigo mais antigo, que se conhece desde os catorze anos e não precisar de acrescentar mais nada.
10.5.26
Automaticamente
Sou contra a ditadura do prático. Prefiro-lhe de longe a do belo, a do humano, a do tempo. "Isto é muito prático. Muito barato. Muito rápido. Muito qualquer coisa", dizem-me. Que me interessa? Que farei eu com a meia dúzia de euros ou de minutos ou de qualquer coisa que poupei com isso, "tão prático"? "É belo?", pergunto. "É humano? Precisa da minha atenção?" Abaixo os automatismos. Abaixo tudo o que é "prático". Os piscas-piscas voltam automaticamente ao lugar, depois da curva; os limpa pára-brisas pôem-se automaticamente em marcha; as luzes apagam-se automaticamente; a embarcação vai automaticamente para o novo rumo, chegada ao waypont. O frigorífico apita, se a porta fica aberta. O fogão desliga-se se retiro a panela. E eu que faço, no meio de tanto automatismo?
Ralho, automaticamente.
8.5.26
The Mandé Variations, larga de mão, vasta mescla de temas e desordens
The Mandé Variations? Be thyself!? Larga de mão? Daqui a pouco mais de uma semana embarco. Não me mexo em terra como no mar. «you know Orion always comes up sideways...» diz o Roberto Frost. Sim, sei. Só não sei se o verei desta vez. Vou navegar para norte e já estamos em Maio.
7.5.26
Fragmento
Trabalho para comer, beber e comprar livros. Esta é a versão curta, dir-me-ás e eu concordo. A essa trilogia haveria que acrescentar a fotografia e a compra de objectos bonitos. Mas estas são secundárias, se não em valor pelo menos em frequência. A renda da casa é paga pelo que já trabalhei. O resto? Não sei. Talvez pelas gotas de chuva, ou pela ocasional generosidade ou tolerância ou paciência ou amizade ou amizade, repito-me porque de qualquer forma tudo isto se repete, sempre, inlassablement e aqui só me repito uma vez.
Resumindo: comprei as obras completas do Eugénio de Andrade numa edição da Assírio, uma recolha de poemas do Robert Frost, poeta que conheço insuficientemente e outra ("Duzentos poemas") de Emily Dickinson, idem. A tradução é boa e é de Ana Luísa Amaral, já to posso afiançar, sentado à mesa do Pipa Velha a beber vinho do Porto e a lamentar-me em silêncio sobre a falta de qualidade dos cafés portuenses, pelo menos no que respeita ao vinho do Porto.
A jovem que serve ao balcão não sabe o que é um LBV, tem uma argola no nariz, tatuagens no braço e anéis nos dedos à la Harry Potter. A música não é má, o local é óptimo porque é escuro e está vazio. Ao contrário de mim, que estou cheio de claridade.
Escrever-te tem algumas vantagens: pelo menos posso dizer o que quero dizer-te sem ter como resposta o teu sorriso céptico nem o teu olhar crítico.
...
6.5.26
In
Não sei quem é esta Sónia em quem estou tantas noites mas aprecio-lhe a cultura. Fala tão bem inglês como latim.
5.5.26
Vastidões
Normalmente associa-se o termo vastidão a deserto, mar, estepe. A algo plano, em que nada interrompe o olhar. Não concordo. Falo, por exemplo, na vastidão da amizade; falei muitas vezes, a seu tempo, na vastidão do amor que sentia por esta ou por aquela senhoras. Continuo a sentir o sentido de vastidão quando leio estes versos (não o são, nas pouco importa):
"La vida es una mala noche en una mala posada."
"Vivir la vida de tal suerte que viva quede en la muerte."
"No son buenos los extremos aunque sea en la virtud."
"It is foolish to think that we will enter heaven without entering into ourselves."
Não sei quem quem traduziu a última frase. A vastidão da minha ignorância. A propósito: a autora é Santa Teresa d'Ávila.
A vastidão da beleza: ouvia há pouco Leonard Cohen e Julie Felix cantar em dueto e dali parti para aqui, diria se não soasse tão mal. Foi a primeira vez que ouvi aquele dueto. Depois da milésima, quero dizer. É sempre a primeira vez que se ouve Leonard Cohen.
Diria tantas coisas, se não estivesse perdido na vastidão do silêncio.
Na vastidão do deserto vêem-se torres dispersas nas quais o olhar esbarra. Estão ligadas por uma linha quase invisível chamada vida. Ou memória. É a mesma coisa, a mesma vastidão.
3.5.26
Em defesa da epistemologia intuitiva
Imagine-se uma pessoa que nunca sequer viu uma embarcação de vela. Imagine-se que essa pessoa assiste a uma conversa entre o Loïc Peyron ou a Ellen MacArthur e eu.
Quanto tempo levaria essa pessoa a perceber que tanto a Ellen como o Loïc sabem infinitamente mais de vela do que eu?
(Antes de continuar, isto precisa de um pouco de contextualização. Não sei como é nas outras áreas do saber, mas os grandes marinheiros são pessoas extremamente humildes. Dou um exemplo, tentando ser breve: Ellen MacArthur ganhava as regatas devido à sua sobrenatural capacidade de interpretar as previsões meteorológicas. Aquela mulher fazia opções de rotas que um dia levaram um do seus competidores directos a dizer-me "A Ellen vem de outro planeta".
Um dia veio jantar a minha casa, em Cascais. Entrou, trocámos as formalidades usuais e cinco minutos depois estava a fazer-me uma pergunta sobre um fenómeno meteorológico frequente em Portugal para o qual não encontrava explicação.
- Não sei, Ellen. Ando há meses a procurar, já perguntei em todo o lado, serviços meteorológicos, universidades, tudo. Ninguém soube responder-me... [Pausa. Um tempo.] Mas espera, quem tem de fazer essa pergunta sou eu a ti e não tu a mim.
Ellen encolhe os ombros e diz-me: "Há que perguntar tudo a todos. Não consigo perceber por que raio de carga de água aquilo acontece e alguém há-de saber [a tradução é minha e não é literal]".
Uma cena semelhante passou-se com o Loïc em Salvador da Bahia, mas poupo os pormenores aos leitores.)
Ou seja: não é preciso ser especialista numa área qualquer para se ser capaz de perceber de que lado a razão tem mais probabilidades de estar. A minha opinião sobre a Covid comecou a formar-se a partir das discussões (essas, sim, violentas, contrariamente às minhas supra-citadas) entre o André Dias e um aldrabãozeco cujo nome era João qualquer coisa, se bem me lembro. Foram essas discussões que me levaram a estudar o assunto, tanto quanto um leigo pode estudar e a inscrever-me num dos lados do debate. O mesmo se passa com o debate sobre a Palestina. Ouvi e li argumentos e só depois construí a minha opinião. (Nb: falta-me ler em primeira mão Edward Said, mas do que dele sei penso que não mudará muito a minha posição. Quando muito, aprofundá-la-á.)
No meu posicionamento político há obviamente um enorme factor pessoal, incontrolável: a minha incapacidade de me incluir em grupos, clubes, escolas, associações ou seja o que for que cheire a colectivo (com a notória excepção de uma tripulação e mesmo essas escolhidas) e portanto nunca poderia ser de esquerda. Contudo não é só por fatalidade genética que sou de direita. Como toda a gente passei pela esquerda e só depois decidi que a interpretação da realidade é mais fiel sem os óculos ideológicos e anti-biológicos dos colectivismos.
Talvez como método epistemológico isto não valha muito. Paciência. Tem pelo menos um mérito: as minhas opiniões são construídas, não me caem pré-fabricadas no regaço. E outro: sou capaz de as mudar quando me provam que estou errado. Não é fácil mas é possível.
1.5.26
O acaso e o livro
Hoje, o livro que o acaso escolheu para mim chama-se a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer (sic). O autor é Stig Dagerman, a editora a Fenda Edições. A "versão" (aspas porque cito) é de Paula Castro e José Daniel Ribeiro.
A "versão" (ditto) é abominável e tem ainda menos desculpas porque este exemplar é a quinta edição. Podiam tê-la revisto.
Dagerman não é um hino à alegria (de resto suicidou-se aos trinta e um anos) e este livro parece mais uma apologia da depressão do que uma sua descrição. Volto a Gamoneda, o acaso de ontem, que ainda está na mesa de cabeceira. Ainda não chegou o tempo de ser homem para aventuras de uma noite.
"Cada distancia tiene su silencio"
Antonio Gamoneda, in Descripción de la mentira.
Superlativos
Entrámos num tempo de superlativos. Já não basta gostar. Há que amar. Não gostar de transformou-se em odiar. Continuo a viver num mar sem marés, numa planície sem altos e baixos. Gosto de ti porque não sei amar-te. Gosto de ti porque não sei ser amado. O meu horizonte está demasiado longe, bendito seja. Transforma elefantes em formigas, crocodilos em lagartixas, girafas em miúdos curiosos que se escondem atrás de uma árvore para espiar a vizinha. Quando se vão embora atiram pedras às janelas e tocam às campainhas. O mundo vinga-se: crescem. Superlativizam-se. Um dia morrerão.
Sólo es legible el libro de lo incierto
El óxido se posó en mi lengua como el sabor de una desaparición.
El olvido entró en mi lengua y no tuve otra conducta que el olvido,
y no acepté otro valor que la imposibilidad.
Como un barco calcificado en un país del que se ha retirado el mar,
escuché la rendición de mis huesos depositándose en el descanso;
escuché la huida de los insectos y la retracción de la sombra al ingresar en lo que quedaba de mí;
escuché hasta que la verdad dejó de existir en el espacio y en mi espíritu,
y no pude resistir la perfección del silencio.
No creo en las invocaciones pero las invocaciones creen en mí:
han venido otra vez como líquenes inevitables.
La fermentación del verano se introduce en mi corazón y mis manos se deslizan cansadas en la lentitud.
Vienen rostros sin proyectar sombra ni hacer crujir la sencillez del aire;
sin osamenta ni tránsito, como si consistieran únicamente en el contenido de mis ojos, en la unidad de mis palabras, en el espesor de mis oídos.
Son obedientes y yo siento su reunión como una salud que se refugia en la oscuridad.
Es una amistad dentro de mí mismo;
es un estambre urdido por manos que son suaves en el interior de los días.
Ahora es verano y me proveo de alquitranes y espinas y lápices iniciados,
y las sentencias suben hacia las cánulas de mis oídos.
He salido de la habitación obstinada.
Puedo hallar leche en frutos abandonados y escuchar llanto en un hospital vacío.
La prosperidad de mi lengua se revela en cuanto fue olvidado durante mucho tiempo y sin embargo visitado por las aguas.
Éste es un año de cansancio. Verdaderamente es un año muy viejo.
Éste es el año de la necesidad.
Durante quinientas semanas he estado ausente de mis designios,
depositado en nódulos y silencioso hasta la maldición.
Mientras tanto la tortura ha pactado con las palabras.
Ahora un rostro sonríe y su sonrisa se deposita sobre mis labios,
y la advertencia de su música explica todas las pérdidas y me acompaña.
Habla de mí como una vibración de pájaros que hubiesen desaparecido y retornasen;
habla de mí con labios que todavía responden a la dulzura de unos párpados.
* * *
La naturaleza de los cuerpos es fingir la existencia y este conocimiento es el fin de un espíritu rodeado por ávidas gallinas en los preámbulos.
Lee en las láminas de vidrio: los argumentos del placer y los capítulos de la destrucción atravesados por una sola mirada. ¿Quién habla en esta transparencia?
Sólo es legible el libro de lo incierto.
El afilador que posee en sus cánulas una sola nota, clara como una serpiente, creadora de la niñez en un espacio de hombres vigilados, no es más feliz que su propia música destinada al invierno.
Así es el rostro de tu madre.
Nuestra pasión es trivial: una enseñanza atribuida a pájaros sobre la nieve, a los volúmenes cuya visión es la forma más perfecta de la tristeza.
Y la convicción crece únicamente en el paladar de hombres aptos para la administración de la muerte, hombres cuyas azumbres están llenas de líquidos más decisivos que el dolor.
Mas, los incrédulos, desposeídos de conducta, ¿qué iglesia luce en nuestros gemidos?
Hay indicios en narraciones impecables: el vendedor de higos chumbos cuya pobreza está bajo la luz y sonreía cerca del cuchillo y la limpieza de su acto era una lámpara increíble, una prueba exquisita de la inexistencia coronada de gritos en la celebración del mercado.
O, en los jardines del verano, el muro quieto en la imposibilidad, externo a un espesor de líneas invisibles, un espesor dotado de melancolía.
O, más aún, en tu chaqueta abandonada y entreabierta, es decir, en una forma que describe tu desaparición.
Esta perplejidad es la conciencia. El miedo ejerce de pastor, pero no sabes más de ti que un animal absorto sobre el agua.
* * *
El olvido es mi patria vigilada y aún tuve un país más grande y desconocido.
He retornado entre un silencio de párpados a aquellos bosques en que fui perseguido por presentimientos y proposiciones de hombres enfermos.
Es aquí donde el miedo ve la fuerza de tu rostro: tu realidad en la desaparición
(que se extendía como la lluvia en el fondo de la noche; más lenta que la tristeza, más húmeda que labios sobre mi cuerpo).
Eran los grandes días de la traición.
Me alimentaba la fosforescencia. Tú creaste la mentira entre las piernas de mi madre; no existía el dolor y tú creaste la compasión.
Tú volvías a las hortensias.
Y sollozaste bajo la lente de los comisarios.
Y vi la luz de la inutilidad.
Mi boca es fría en las plegarias. Este relato incomprensible es lo que queda de nosotros. La traición prospera en corazones inviolables.
Profundidad de la mentira: todos mis actos en el espejo de la muerte. Y los carbones resplandecen sobre la piel de héroes aún despiertos en el umbral de la imbecilidad.
Y ese alarido entre cristales, esas heridas que no son visibles más que en el instante del amor…
¿Qué hora es ésta, qué yerba crece en nuestra juventud?
Antonio Gamoneda in Descripción de la mentira, ed. Abada editores.
Só a (boa) poesia pode descrever a noite quando esta se transforma em silêncio.
Eu?
Todos chegamos a uma idade em que a noite já não é o futuro. É o passado. O "touro furioso" abandonou a arena e fica-se entregue a si mesmo. Já não há animais a domar nem a vertigem de se ser domado. A idade da contemplação e da reflexão (o passado é um espelho e uma interrogação).
É para isto que se vive. Para se poder olhar para trás e ver-se ao espelho e poder perguntar-se "Sou eu? Fui eu?"
27.4.26
Se há vinte anos
"Tudo o que vês é estilo. Só superfícies planas, brilhantes, sem ponta por onde se hes pegue. Essas não se vêem. O que importa está escondido." A relação entre o que se é e o que se mostra, entre o que se vê e a realidade era uma das obsessões de F. e resumia-a numa fórmula para mim vazia de conteúdo: "É preciso separar a espuma dos dias" que ele achava brilhante e repetia com frequência. "Por exemplo, vês aquela mulher ali ao fundo? A que vai para a casa de banho a andar como se tivesse depilado o jardim há dois dias e agora aquilo pica?"
(Cont.?)