20.2.24

Diário de Bordos - Z'Abricots, Martinique, DOM-TOM França, 20-02-2024

A maionese não me saiu muito boa. Quando muito, boa. Já fico contente: é sinal de que a minha menstruação está a passar. Ou no meu caso, como dizia uma piada da minha infância, monstruação. Deve estar a acabar. Para acelerar o processo procuro os Cânticos da Liturgia Eslava no Youtube pelo coro dos monges de Chevetogne, farto de saber que não há o disco da Musique d'Abord completo. Não faz mal: oiço o que há e penso no que falta, como na maionese penso no que falta - na verdade, no que está a mais - para ter ficado muito boa e não só boa. Penso também no clarete de Bordeaux com que acompanhei os fish fingers, nos runs com que os precedi, no prazer que me vai dar ir no sábado para o Marin sem motor mas com o T. para me ajudar e talvez um vizinho de pontão, vamos ver, dar-me-á uma resposta amanhã. E eu que sonhava com navegar por essas ilhas fora...

Não me queixo. Mais vale este Inverno do que muitos que tenho passado nos últimos anos. Pelo menos posso escrever frases infindas, com montes de vírgulas em tudo quanto é sítio, ao ritmo dos cânticos, não há melhor maneira de nos ligarmos à eternidade, digam o que disserem. Não é ligar. É entregar. Não há melhor maneira de nos entregarmos à eternidade, mesmo para um ateu como eu. Não tem nada a ver, não depende sequer do nome que se dá à eternidade, seja ele Deus seja outro qualquer, como amor, por exemplo, ou mar, ou vida ou seja lá o que for desde que seja profundo, infinito e azul. Sim, azul. É a cor do infinito, a cor infinita. As outras não passam de Pantones.

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Fiz queixa do puto do Impératrice. Excedeu-se, no sábado. Fi-lo não só por estar verdadeiramente chateado com ele mas também por curiosidade. É a segunda que faço aqui. A primeira foi contra uma empregada de uma agência de rent-a-car. Serviu para demonstrar que a rapariga tem as costas quentes e - sobretudo - que nestas latitudes há valores mais importantes do que o serviço ao cliente. Pergunto-me se desta vez o resultado vai ser o mesmo. Enviei uma queixa à direcção do hotel - duvido muito que chegue - e outra à direcção do turismo. A ver vamos, como dizia o ceguinho. Aceitar certas coisas porque são pretinhos ou porque não sabem é uma forma de racismo e de paternalismo que não suporto. Estou-me nas tintas para a cor da pele. Pode ser preto, amarelo, castanho ou encarnado - antes disso é empregado de mesa, ponto. Detesto esta espécie de racismo que consiste a desculpar pessoas por causa da cor da pele. Enfim, na verdade detesto todas as espécies de racismo. Como também, de resto, detesto os gritos de «racismo» quando o racismo não tem nada a ver com a causa dos gritos. 

Na verdade falta-me uma enorme quantidade de paciência para o racismo, seja ele qual for. Sempre fui daltónico e não é agora que vou ficar sensível às cores.  

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Afinal parece que o disco está todo no youtube. Há sempre um lugarzinho para o infinito, não é?

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Avanço no Labro, um nome que conheca muito mal quando andava por aqueles lados e agora lamento. O homem é brilhante. É uma espécie de faz-tudo: cinema, jornalismo, romances, rádio, televisão. Acho que o meu livro devia ter-se chamado Alheado, em vez de De Passagem.

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Hesito entre um rum e um copo de vinho e opto por lavar a loiça. Chama-se a isto pensar fora do copo.

Auto-disparates

A grande vantagem de se escrever sobre si próprio é poder dizer todos os disparates que nos vêm à mente. Ninguém sabe que o são.

Input, entropia e pensos (inclui um exercício)

A médica insiste em que eu arranje uma enfermeira para me fazer os pensos e eu insisto em fazê-los eu.

(Penso-me, logo existo.)

A verdade é que acredito na capacidade regenerativa da carcaça. Por velha que esteja, vai aguentando e vai-se reconstruindo. Com falhas, claro, a entropia faz o seu trabalho. Apesar de tudo o que ponho como entrada no sistema, ele consome mais e vai-se gastando. Andamos às voltas, o "meio de transporte" e eu, em simbiose. (Como se pudéssemos andar separados.)

Exercício: rearrume os pronomes reflexos na oração "Penso-me, como e gasto-me".

17.2.24

Diário de Bordos - Z'Abricots, Martinique, DOM - TOM França, 17-02-2024

Posso estar enganado, claro. Estou muitas vezes. Mas o homem tem todo o aspecto de ser «artista» e está acompanhado por duas senhoras que têm todo o aspecto de ser «senhoras que acompanham artistas». Tudo isto entre aspas porque posso estar enganado. 

O restaurante é caro. É o tipo de lugar de que os artistas gostam, sobretudo quando são de esquerda, passe o pleonasmo e aonde nós, mortais meros, vamos quando precisamos de alguém que nos acarinhe e só nos temos a nós próprios para isso.

O que é a qualidade? Ainda não sei. Em contrapartida, sei que preciso dela como um peixe de água e aqui estou, finalmente em França. Hallelujah! Finalement, la vraie France!

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Comprei uma Parker na Feira da Ladra. Deita tinta por tudo quanto é possível deitar tinta. Não sei se por ser Parker se por ser Feira da Ladra. Foi caríssima. A ideia não era comprar uma Parker mas sim comprar a caneta e a esferográfica que o meu Pai me ofereceu e eu perdi em Antigua. Caíram à água, demasiado fundo para mergulhar. Foram juntas com uma máquina fotográfica. Lembro-me como se fosse hoje e dói-me e por isso perdoo a tinta toda que o raio da caneta larga em todo o lado.

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Qual é o antónimo de felicidade? Ansiedade? Tristeza? Não sei. Felicidade sim, sei: é o que sinto quando não estou nem ansioso nem triste. É o que sinto neste restaurante e esqueço que amanhã existe. Talvez seja essa a definição de felicidade. Talvez os budistas tenham razão: felicidade é a ausência de amanhã.

O problema sendo: aonde arrumam eles o passado?

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Felicidade é a ausência de passado e de futuro.

- Uma vida sem passado nem futuro não é vida.
- Quem é que está a falar de vida? Falo de um jantar num restaurante caro de Fort-de-France. Daí até «vida» vai um passo.

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A minha caligrafia está cada vez pior e eu cada vez melhor. Não há uma relação directa entre a caligrafia e a qualidade.

Se este restaurante escrevesse à mão como seria a sua escrita?

Não sei. Sei que estava a precisar de um havre de qualité. Um abrigo de qualidade. Um porto de abrigo. Saio daqui com a camisa cheia de nódoas - culpa de um bocado de pão que me caiu na sopa - a cabeça cheia de bem-estar e a carteira bastante mais vazia, o que só prova que os contrários se equilibram. 

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Num país em que até à mediocridade é cara, como poderia a excelência não o ser?

Nota bene

(Memoradum)

JM VSOP

O resto é conversa

A minha geração (e muitas outras antes dela, verdade seja dita) atribuía qualidades mírificas ao coito. Ele era «encontro de almas», «descobrir o outro» e sei lá que mais. Tretas, claro. Como dizia uma namorada que um dia tive: conversas de iroku (a namorada do pai era japonesa e ela não gostava por aí além da senhora).

A verdade é que molhar o pincel é bom e não molhar é mau (ou pelo menos é uma ausência de bom, o que para certas idades são equivalentes). O resto é conversa de encher chouriços, versão portuguesa da tal senhora. A verdade foi muito bem expressa por Reiser numa série de cartoons: «On ne baise plus, on s'aime». Basta fazer uma pesquisa no Google e eles aparecem.

O resto é conversa.

Definição ( ceci n'est pas un cour de mathématiques)

O que é o luxo? É uma combinação de bom gosto e de ostentação nas proporções correctas. Noventa e nove porcento de bom gosto e zero  vírgula zero um por cento de ostentação. 

Do uso das coisas e outras histórias

Gosto de ver as coisas usadas (mas não negligenciadas, que é muito diferente). Uma das razões da minha aversão aos «iates», sejam super, mega ou o raio que os parta vem dessa necessidade que eles têm de ter tudo sempre como se tivesse acabado de sair do estaleiro. Tudo tem de estar como novo, como se não fosse usado. Tem nada a ver com valor de revenda nem com a estética. É uma simples manifestação de poder - coisa à qual sou mais ou menos alérgico, forçoso é reconhecer. Uma coisa usada e bem tratada é, para mim, mais bonita e tem mais histórias para contar do que uma que parece não ter vivido um dia que fosse.

Claro que este princípio (mutatis mutandis) pode aplicar-se a pessoas, sobretudo se forem do sexo feminino. Mas isso é outra história.

16.2.24

A maravilha das verdades simples

«À défaut d'être intelligents, soyez intelligibles

Pierre Lazareff, citado por Philippe Labro in J'irais nager dans plus de rivières.

«Le corps, ce n'est rien. Ce n'est qu'un moyen de transport

15.2.24

Um comboio para lado nenhum

Nada disto aconteceu, nada disto se passou como digo que aconteceu. Toumani Diabaté não está a tocar as Mandé Variations, um dos discos mais belos que a humanidade produziu e que se lixe a world music, com f grande se faz favor; a ventoinha do meu camarote não foi apagada agora mesmo e não estou tapado com o lençol; a médica não me disse nada àcerca de cuidados enfermeiros; não me encharquei em rum - nem sequer acabei o copo; nada disto aconteceu num dos planetas em que habito. Destapei-me. Parei a ventoinha. Não bebi o rum todo até ao fim. Nada disto é verdade, nem isto nem o seu contrário. Acabo de beber quase um decilitro de água. Disse à médica que sim, tinha bebido quase dois litros de água por dia, a seguir à operação. Também lhe disse que nem numa semana bebi essa água toda, mas ela não ouviu. Tenho de treinar o meu talento de ventríloquo. Tenho de beber mais água. Tenho de ouvir o Diabaté mais vezes. A vida passa por mim como aquele comboio das feiras, que apanhamos mas nos quais não acreditamos - de qualquer forma não nos levam a lado nenhum. Não sei sequer se estou sentado ao lado do condutor se no meu lugar favorito, ao fundo da última carruagem, a dos retardatários, a dos que apanharam o comboio com mais dúvidas do que certezas. "Nesta carruagem não há lugar para certezas", poderia um cartaz dizer. "Só dúvidas". Penso na quantidade de músicos que poderia incluir na viagem mas são muitos. E excluir, claro. É muito tarde para fazer listas, destapei-me, parei a ventoinha, Diabaté faz-me desviar do que escrevo para o ouvir, sei que vou ter de beber mais água porque estou com sede e sei que vou acabar o rum. Quer se queira quer não o universo é um gato que cai sempre de pé, venha de onde vier.

Amanhã terei de ver se consigo resolver o problema do motor. Amanhã terei de ver se consigo resolver o problema do comboio da feira. Tem uma carruagem que diz "Só para boçais" mas ninguém se reconhece como boçal e a carruagem vai vazia. Talvez se soubessem escrever uma frase completa, com sujeito, predicado e complemento directo. Talvez. 

Talvez devesse haver uma carruagem para quem desliga a ventoinha do camarote porque não sabe se prefere ter frio ou ter calor, se prefere tapar-se com o lençol ou destapar-se, se prefere caras ou coroas. Talvez.

Ou uma carruagem para quem gosta de beber água, dois litros por dia "para limpar os circuitos" (aspas porque me cito). A mesma pessoa poderá ocupar várias carruagens simultaneamente? Do género "não tenho certezas, não bebo água, gosto de Toumani Diabaté, bebo rum e abro excepções a todas estas afirmações". Todas elas são verdade e o seu oposto é igualmente verdade. Cada uma delas mereceria uma carruagem, se a justiça funcionasse. (Não sei de que justiça se trata aqui.)

Não sei e sei que não sei, o que demonstra que sei. O comboio não leva a lado nenhum senão ao lado de onde saiu, chamado precisamente "nenhum".

Não há esforços inúteis

"II n'y a pas d'efforts inutiles. Sisyphe se faisait des muscles."

Roger Caillois, citado por Philippe Labro in J'irais nager dans plus de rivières.

Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 14 e 15-02-2024

14-02-2024

Começo este diário de hoje por sugerir aos meus leitores um disco de Sonny Rollins chamado Way Out West. É do melhor que podem ouvir de Rollins. Ou seja: é do melhor que podem ouvir.

Está feito. 

Continuo por sugerir a roulotte do Joel, quando por acaso estiverem nos Z'Abricots,  for fim-de-semana ou equiparado e não quiserem gastar muito dinheiro em comida. Tem frango, costeletas de porco, às vezes lagostim. É sempre bom, barato, simpático e fica pertíssimo da marina.

A lista de recomendações aproxima-se do fim. Já só falta o livro de Philippe Labro de que já aqui tenho falado e de que vou falar mais em pormenor mais em breve, quando o tiver terminado.

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15-02-2024
A minha médica favorita, uma jovem e bonita senhora com apelido de filósofo e olhos de deusa deu-me más notícias. Vou precisar de «soins infirmiers à domicile» por duas ou três semanas mais. Morro de vontade de cagar nos ditos cuidados, mas como a minha experiência com as mortes de vontade é relativamente má vou seguir a recomendação.

(Além de que penso que duas semanas serão mais do que suficientes.)

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É isto um dia? É, é isto um dia. Pharoah Sanders, fish fingers, vinho tinto com limonada (noutras longitudes / latitudes designado por tinto de verano), confirmação de um velho dito francês segundo o qual «à quelque chose malheur est bon», que eu traduziria por «para qualquer coisa o azar é bom», se alguém me pedisse para traduzir, enfermeira contactada e decisão tomada: se não houver enfermeira faço eu o tratamento. Ninguém trata melhor de mim do que eu (isto é uma afirmação que a história desmente facilmente, mas eu quero que a história se foda). Ah, e pedido de amarração no Marin aceite.

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Vou fritar os fish fingers, encher a maionese de pimentos picantes, encher-me de rum Trois Rivières e de cerveja Lorraine (não tenho cigarros), ler Labro, dormir e pensar na sorte que tenho (tudo isto quase ao mesmo tempo, num intervalo temporal de para aí umas duas horas no máximo). Quantos milhões de pessoas quereriam estar agora a ouvir Pharoah Sanders enquanto bebiam um tinto de verano e esperavam por fish fingers? Milhões, meus caros. Milhões.

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Entretanto o meu harém imaginário vai-se desfazendo. A competição dos homens da terra é terível. Eles têm uma vantagem sobre nós, marinheiros: estão sempre lá. 

Claro que isto é uma vantagem ilusória. Ao fim de algum tempo, transformar-se-á em «Eles têm uma desvantagem: estão sempre aqui». O problema é saber quanto tempo é «ao fim de algum tempo». Para mim, uma eternidade e meia.

13.2.24

Diário de Bordos - Saint-Pierre, Martinique, DOM-TOM França, 13-02-2024

Dia feriado aqui (e em todo o lado, imagino). Venho almoçar ao La Vague, em Saint-Pierre, que descobri recentemente. 

Abençoo uma vez mais a minha intuição  - para restaurantes. Fosse ela tão perspicaz para outras coisas e teria um harém ao lado de uma frota de embarcações de recreio (ou dentro da frota, não sei. Tenho de pensar nisso). Imaginem uma daquelas casas das margens do Léman mas noutro sítio, com um porto privativo, três ou quatro embarcações de vela e outras tantas de motor, um harém de senhoras seleccionadas a dedo, a olho e - igualmente importante - a ouvido (é possível que a ordem não seja esta)... Só me resta decidir aonde seria essa casa mas como é um trabalho árduo deixo-o para depois.

Por agora decido a composição da frota, penso na casa, nas ocupantes e usufruo a paz pós-prandial. Talvez seja fugaz, como paz, mas é a que hás.

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O restaurante chama-se La Vague, fica em Saint-Pierre (norte da Martinica) e qualquer sítio capaz de inspirar tão profundos pensamentos vai directamente para o respectivo céu.

A vista é linda de morrer - mar e meia dúzia de gajos fundeados - e a clientela maioritariamente franco-francesa traz-me inelutavelmente à memória uma velha piada: 

- Qual é o cúmulo do pleonasmo?
- A expressão "um francês médio".

É difícil combinar o francês médio com o resto do que eu amo nesta cultura, mas a tarde não está para combinações difíceis. Está para olhar para o mar e para os gajos fundeados - o vento já rondou algumas três vezes desde que aqui cheguei -, para sonhar com mansões, frotas privadas e uma dúzia de poetisas, escritoras, músicas, artistas a acompanhar.

Ou mais seguramente a estruturar, mas isso fica para conversas sobre o tempo que passou e não sobre o que está a passar.

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O T. propôs-se fazer comigo a viagem para o Marin. Por muito que um gajo tente é impossível falhar tudo. Mais fácil me parece acertar tudo, mas isso faz parte das divagações pós-prandiais.


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Lembram-se daquela piada do Voltaire a respeito do Rousseau? «Il fait envie, Monsieu, de marcher à quatre pattes quand on lit vos ouvrages». Pois aqui dá vontade de a parafrasear, mas no primeiro grau: dá vontade de me transformar em árvore, tão belos são estes muros, estas muralhas, cascatas de verde. Só lamento não as saber identificar pelo nome. Conheço o nome de algumas estrelas, o de quase todas as nuvens (admitidamente menos do que aquelas), mas de árvores sei distinguir os bambus das palmeiras e pouco mais.

Partilho-me entre a necessidade de conduzir, a de olhar para a paisagem e a de pensar, todas elas contraditórias entre si.

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Paro numa tasca de beira de estrada. Três velhotes a jogar dominó, dois a olhar para ontem, um ou outro sentados sozinhos ou a ver o jogo. Preço do ti'punch (HSE, um dos meus runs favoritos): Um euro e cinquenta cêntimos (até agora, o mais barato que bebi foi três paus). Sinto-me como o Cônsul debaixo do vulcão. Só espero que não me saia nenhum cavalo à estrada. Bebo o punch ao som, mais ou menos ritmado, dos dominós na mesa. A temperatura esta magnifica, ligeiramente acima do limite do frio: vinte e cinco, vinte e seis. O vento em altitude está fraco, a senhora que olha para o mar continua lá, o punch chega ao fim e decido que é hora de retornar ao volante.

Estes raids são a única utilidade indiscutível que vejo num automóvel. Chego a bordo cansado e a precisar urgentemente de uma cerveja, mas com os olhos e os neurónios cheios de paisagens sublimes. E ir ao Joel comer uma costeleta de porco, beber mais um punch e mais uma cerveja e pensar que a gestão quântica que faço da massa tem algumas vantagens. Pelo menos, tantas quanto as desvantagens, o que significa que é bastante equilibrada.

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Fecho o dia com os madrigais do Gesualdo. Lembro-me de qualquer coisa dele que incluía Tenebras, coisa de que o homem tinha um conhecimento íntimo. Matou a mulher, o amante dela e provavelmente o filho. Daí parto para pensar que tanto gostaria de perceber mais de música, como de árvores.

11.2.24

Diário de Bordos - Z'Abricots, Martinique, DOM-TOM França, 11-02-2024

Da maneira como as coisas se encadeiam independentemente da nossa vontade. Ou: de quão impotente é a nossa vontade face às coisas. Vinha para bordo, cheio de boas intenções. Enfim, duas: a) Dormir uma sesta, necessariamente curta; b) Dar rédeas livres à minha veia artística. Acontece que entre mim e o bordo havia o Joel e os seus punch, a sua simpatia, o vento (já lá vamos). Ou seja: a sesta foi para o galheiro e aqui está a minha veia artística a esganar-se para produzir sangue que se veja.

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O vento rondou finalmente a leste e até tem algumas quartas de norte. É improvável que seja a primeira vez que isto acontece desde que aqui cheguei, mas é garantido que nunca o notara antes. Alísios com quartas de norte costumam acontecer mas para o fim da época. A pergunta que me faço é: se tiver de ir à vela para o Marin isto vai manter-se assim? 

A experiência leva-me a duvidar e como infelizmente não está só nessa dúvida vou mantê-la (a dúvida, não a experiência, que essa muda todos os dias).

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Carnaval em Fort-de-France: a música tem dois defeitos. É abominável e está altíssima. Já nas pessoas é diferente: é um por cada uma e elas são inúmeras. Mascaradas, não mascaradas, meio nuas, vestidos de mulher ou despidas de mulher (não há mulheres vestidas de homem, não sei porquê), gordos - e gordas, meu Deus, gordas, parecem formigas depois de uma bomba atómica - com aquele ar apatetado do prescrutador de alegria. 

Faço mais uma tentativa de comer qualquer coisa (isto tendo aqui o significado específico de boudin) e decido que é a última. Se não encontrar - ou se a Kaze Kréole continuar cheia, é o mais provável, ainda por cima, como se o Carnaval não chegasse, está um paquete no porto - volto para bordo.

Não voltei para bordo. Fui ao Djol Dou, que continuo a achar uma fraude mas estava aberto e tinha boudin. A nossa vontade vale bem pouco, face a essa fortaleza a que nós, os realistas, chamamos real e os estóicos chamam «fraca vontade».

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Felizmente, entre mim e o real havia aqueloutra fortaleza chamada Joel, mai-lo seu seu sócio (suponho) Eddie. Tenho uma conversa com este último - Joel tratava de outros clientes - e confirmo que o modelo de fixação de preços é uma incógnita para muita gente. Será muito complicado ensinar durante a escolaridade obrigatória o que são a oferta e a procura? E já agora, a sua influência sobre os preços? Simplificaria tanto a vida a tanta gente e - sobretudo - melhoraria a sua (dessa gente) opinião sobre a espécie humana. Em vez de a deixar pensar que os preços são «irracionais» porque alguém quer foder o povo, ou assim.

(O povo deve ter uma vagina gigante, à vista da quantidade de gente que o quer comer.)

Cioran

"Une conversation avec quelqu'un qui n'a pas souffert est une perte de temps."

(Citado por Philippe Labro in J'irais nager dans plus de rivières.)

10.2.24

De que ausência?

A questão não está clara. Nada de resto está claro na minha mente, nem as questões nem as por assim dizer certezas. Sei que é dia porque posso ver a ausência de barcos e de mulheres, as únicas coisas que dantes via. Agora não há uma à vista. Se fosse noite talvez as visse, não sei. Imaginadas, claro. Uma mulher bonita. Uma embarcação bem desenhada, de linhas finas, daquelas que se olham e se vê imediatamente a água a escorrer-lhe pelo casco. Sei que estou longe do mar, mas não percebo se num deserto se numa pradaria. Não há árvores? Não. Há ervas e montanhas ao longe. Perdi a noção das cores ou perdi-lhes apenas os nomes? O meu léxico encolheu mortalmente: sem palavras morro. Ocorre-me que posso viver sem barcos e sem um corpo feminino, mas não sem palavras e ignoro se é verdade ou se estou simplesmente a inventar. Nada está claro, nem mesmo as certezas de antanho. Penso: que é feito dos meus amigos? Já tive uma família? Já tive um barco de linhas escorreitas, harmoniosas, daqueles que fazem parar os transeuntes num porto? Não sei.  Não sei sequer o que nunca tive, quanto mais o que tive. Sei que é dia: posso ver as ausências. De noite é difícil distinguir o que se vê do que se imagina. Talvez porque sonhe em três dimensões. O casco de uma embarcação. O corpo de uma mulher, elegante, racée. Um prado delimitado ao longe por montanhas. Estará frio? Será Verão ou Inverno? Em que latitude estou? Se chover terei aonde me abrigar? O meu vocabulário não está assim tão reduzido: lembro-me das estações do ano. Lembro-me do frio, do calor e da chuva. Lembro-me de latitude e longitude. Sempre gostei de longitude porque tem longe em si e porque nunca acaba. As latitudes sim, têm fim. Acabam nos pólos. A pradaria acaba numa cadeia de montanhas cujo nome ignoro. Também ignoro o meu nome mas isso parece não me preocupar. Penso: enquanto tiver palavras estarei vivo. Como? Como surge-me simultaneamente advérbio e verbo. Sobressalto-me. De onde me saem estas palavras? De que ausência?

A beleza da linguagem e outros contos

Sou um péssimo tradutor; felizmente, detesto traduzir. (Se alguém vir uma ligação entre as duas coisas: está podre de razão.) Não é só uma questão de modéstia: custa-me destruir qualquer coisa que alguém se esforçou por fazer. É também um reconhecimento de incapacidade. Por exemplo:

«Ses doigts essayaient d'introduire dans ma bouche un minuscule bâtonnet cottoneux mais, prisonnier de la machine, je me contractais et refusais de l'aider. ... L'infirmière insistait et dit, sur un ton calme, courtois et posé, ferme mais doux:
- Je souhaite atteindre votre palais.
La précision et délicatesse de sa phrase ont attenué mes craintes. J'ai senti comme une détente, une décontraction, une minuscule libération de ma constante angoisse, ce qui a permis à l'infirmière d'effectuer sa tâche de nettoyage de ma gorge. Alors, je l'ai aimée.»

Para traduzir, como para escrever, há que ter uma distância entre nós e o papel (ou o computador, ou o que seja): como vou traduzir aquilo que sinto? Como traduzir a força, a importância capital da linguagem? «Desejo chegar ao seu palato»? Por amor de Deus! 

(O excerto vem de J'irais nager dans plus de riviéres, de Philippe Labro.)

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Não tenho a minha biblioteca ao alcance do braço e se me ponho a pensar «Qual é o melhor conto de todos os tempos?» foge-me logo a boca para a verdade: essa pergunta não faz sentido. Não há melhor conto nem todos os tempos. (O mesmo se aplica a livros, romances, discos, esculturas, fotografias, etc.)

Para responder a essa pergunta teria de reler os contos de Borges, as Nouvelles Orientales da Yourcenar, alguns contos do O'Henry (não todos, nem pouco mais ou menos), os contos do Nick Adams de Hemingway, Maupassant... Sei lá, um nunca mais acabar.

Há, porém, um conto que não me sai nunca da memória. Chama-se A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água. Não sei se é o melhor conto de todos os tempos, mas é daqueles que me acompanham todo o tempo.

Diário de Bordos - Fort-de-France, Martinique, DOM-TOM França, 10-02-2024

Saber que se vai gastar trinta euros mais líquidos numa feijoada brasileira - mesmo sabendo que vai ser boa - exige balanço prévio; balanço esse que foi adquirido no Impératrice. Tive sorte, era a miúda simpática que estava de serviço, pelo que os punch foram baratos. O sítio é absolutamente magnífico, mas os preços variam em função do empregado. Ao início ainda resistia. Agora acho que faz parte do charme do local, rio-me, agradeço quando é esta senhora que me serve, a quem deixo uma gorja correspondente à diferença de preços entre ela e o colega que tem cara de parvo (não deve ser só a cara, mas não gosto de falar do que só intuo e não conheço).

A feijoada estava dez vezes melhor do que esperava. O Pain de Sucre é o restaurante brasileiro do qual já aqui tenho falado várias vezes. A cozinha é excelente, o restaurante é caro mas arranjei uma fórmula acessível, gosto da simpatia da dona e da cozinheira, etc. Hoje tudo isto foi elevado ao superlativo e o meu gosto pelo local transformou-se em amor para a vida. Quem faz feijoadas destas não pode ser má pessoa e vai para o céu de certeza. Só desejo que não seja amanhã.

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Em breve irei para o Marin e terei saudades do Pain de Sucre. Hoje à noite perguntava-me se a minha vida não consiste simplesmente em construir saudades como outros constroem prédios, barcos ou intrincados projectos de Mecano.

Enfim, as saudades não são para amanhã. Isto são projectos de longo prazo.

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Problema no motor do S. D. Algo me diz que terei de ir sem ele (o motor, não o S. D.) para o Marin e algo me diz que a) o vento vai cair e b) nunca mais me queixarei do excesso de vento. Isto dito, a perspectiva de fazer o canal do Marin à vela alegra-me para lá de todas as medidas. É coisa que só raramente fazia mas que me dava sempre um prazer sem fim. Sobretudo a passagem à frente de Saint-Anne. 

Será que ainda sei navegar sozinho?

(Isto são efabulações pós-prandiais. O mais provável é conseguir ter o motor reparado até lá.)

9.2.24

Diário de Bordos - Z'Abricots, Martinique, DOM-TOM França, 09-02-2024

Parece-me importante informar a humanidade de que o meu álbum favorito de Lou Reed é Magic and Loss. Depois, Songs for Drella. Depois, os outros, quase todos. Coney Island Baby, por exemplo. New Sensations. E por aí fora, tenho pouca paciência para o Google. Ou os álbuns com a Nico, foi através dele que fiquei a conhecê-la. The Raven... lembro-me mal deste, mas o youtube recorda-mo. A ver. 

Há aquela música com a Laurie Anderson que é uma maravilha. Call on me? Não sei, talvez. Coitada da humanidade, tão mal informada que fica sobre as minhas preferências reedianas.

Aliás: tenho pouca paciência para a maioria das coisas, o que é uma das vantagens da idade. Cada vez sou mais tolerante e menos paciente, como naqueles gráficos sobre o preço das coisas e a respectiva qualidade. Há um ponto em que se encontram, as curvas fazem um X. Não sei em que ponto estou de cada uma dessas linhas, mas sei que não me apetece nada ir percorrer o Google mais do que o que já o fiz. Em termos de qualidade não estou grande coisa, isso é seguro. Já de preço não sei.

Isto porque oiço Magic and Loss e penso nuns anos em que fui particularmente miserável e ouvia este disco em loop no Fiat que o meu Pai me dera, em casa, em todo o lado (se bem me lembro até cheguei a ter um Walkman da Sony). 

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Horas mais tarde: oiço a Nico do álbum Desertshores e penso nas pessoas que são contra a imigração. Pior: que fazem disso uma agenda política. Viver aonde se quer viver não é só um direito básico. É o que está na base da hominização. O homem é hoje o que é porque sempre andou de um lado para o outro. Vejam os mapas das migrações pré-históricas. Migrar - seja antecedido por um e seja por um i - é muito anterior à invenção das fronteiras, passaportes, bilhetes de identidade e «papéis». «Sou de onde estou» não foi inventado por mim: é uma máxima da Idade Média (perdão, não encontro a fonte. Fica para outro dia. Devo dizer que a «inventei» muito antes de a ver escrita num sítio qualquer. Passo a vida a «inventar» coisas já inventadas).

Que seria o homem sem migrações? Duvido muito que tivesse inventado a roda, quanto mais os anticonceptivos orais ou o cálculo diferencial.

O problema não são as migrações. Essas são um direito e como todos os direitos vêm acompanhadas de deveres. Não há um sem outro. Nos anos sessenta, o Ocidente «esqueceu-se» da segunda parte da equação, por duas razões: interesse (era preciso mão-d'obra) e ideologia (o «fardo do homem branco»). A primeira era real - os «trinta gloriosos» precisavam de gente; a segunda era uma invenção. O homem branco não tem fardo nenhum a carregar. Antes pelo contrário. Fizemos mais bem do que mal, de longe.

Como sempre, resolver um problema que não se resolveu atempadamente cria problemas maiores do que o original.

Sabiam que a Nico morreu em Ibiza? Pouco importa. Já estou na Marianne Faithfull, a ouvir Broken English

Sugestão de leitura: Éloge du Cosmopolitisme, Guy Scarpetta.

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Fui à FNAC da Galleria e comprei três livros: Tahar Ben Jelloun, Philippe Labro e Le Clézio. Não tinham a Cidade de Deus - encomendado - nem a Política, de Aristóteles. Ter a sua biblioteca ao alcance da mão é, para um homem, a mesma coisa do que para um bebé ter uma mama cheia de leite ao alcance da boca. E não ter é como para um bebé não ter.

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Hoje tive luz verde do armador: antes do fim do mês vou para o Marin. Seja para uma bóia, um pontão ou fundeado. 

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Vou ler. 

Etimologia lógica

A "patia" de apatia sendo a mesma que o "pato" de patologia, pode concluir-se que apatia é saúde. Estar apático é estar saudável. 

O jardim das pontes que se bifurcam

Podes sempre pegar numa palavra e deambular por ela ou com ela. Escolhe uma ao acaso: tempo, por exemplo. Esta tem a vantagem de te abrir vários sendeiros, o acaso escolheu bem. Podes falar do tempo que faz: uma merda. Nublado, abafado, ou demasiado ventoso ou completamente calmo. Este é um ano de El Niño, não vale a pena esperar grandes milagres. Podes pensar no tempo que te falta viver, mas esse é um tema que te interessa relativamente pouco porque te leva imediatamente à questão "define viver" e tu respondes "ser autónomo, física e mentalmente" e daí passas para corpo, outro grande coleccionador de veredas por onde te podes perder. Pode ser o tempo na música mas tu és amúsico e tão sensível aos tempi musicais como um elefante à beleza intrínseca da física quântica. Como era aquele conto de que tanto gostavas? O jardim dos sendeiros que se bifurcam? A ver. Não sei. Pouco importa. A verdade é que a ausência do livro te provoca uma punhalada que te rasga o corpo de alto a baixo, de um lado ao outro. Corpo, livros, ausência. As veredas bifurcam-se infinitamente. Precisas dos teus livros em estantes perto de ti, precisas de tempo para os ler, reler, folhear, acariciar e precisas de um corpo que te deixe fazer isso tudo. De vez em quando pões um disco a tocar, não muito alto e sem palavras, porque estas te distraem, mesmo as que não percebes. Se for de tarde, levantas-te para ir à cozinha buscar um copo de vinho (deixas propositadamente a garrafa longe de ti para te forçares a levantar-te). De manhã a bebida é café, de que gostas forte, morno, feito numa panela. Os livros - feitos de palavras - são como elas: bifurcam-te, levam-te de um para outro. Voltas às palavras, as tuas: as que levaste contigo e as que te levaram com elas. 

Sonhas. A embarcação aonde vives tem uma conversa animada com o mar. O vento calou-se. Ouves o diálogo e tentas compreendê-lo. Lembras-te de algo que escreveste há anos: um barco não faz barulhos. Um barco fala, seja contigo seja com o mar, com o vento, com outros barcos. Esta sendo aquela de que menos gostas, claro. A que segues com mais atenção. Um barco fala com o tempo, também. Com os tempos, todos os tempos: há um ritmo nessas conversas ao qual tu és sensível e cujas mudanças te fazem intervir.

Voltamos ao tempo. Pensas "se eu avanço no tempo como uma embarcação de vela no mar, que me acontece quando o barco pára, amarrado a um pontão? Pára o tempo também?" Conversa fiada. Retórica, se preferires. 

De retórica saltas para qualidade. Não percebes a relação. Talvez a ponte seja Santo Agostinho. É. Como o tempo, de resto. Tens - e leste - as Confissões mas não A Cidade de Deus. Precisas de tempo, dos livros e de um corpo que te permita usufruir deles. A ponte foi Pirsig, também. Zen e a Arte da Manutenção das Motocicletas. O jardim das pontes que se bifurcam.

8.2.24

Diário de Bordos - Z'Abricots, Martinique, DOM-TOM França, 08-02-2024

Mais um destes dias frustrantes, exasperantes, desesperantes e tudo o que acabe em antes. Hoje nem perguntas houve. Continuo confiante de que vou conseguir clientes mas não sei se confiante se integra bem naquele grupo de "antes". Amanhã faço mais um assalto às malditas plataformas. 

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Ainda amanhã (isto parece um diário do que vai acontecer, não do que já aconteceu...) a Alice - a cozinheira do restaurante brasileiro de que já aqui falei, que viveu muito tempo em Portugal - diz que vai fazer bacalhau para o almoço. Tenho lá ido, porque têm uma fórmula de almoço que é a mais barata que conheço e porque a cozinha é soberba. Ou seja, amanhã... O pequeno-almoço de bacon com ovos estrelados fica para sábado. 

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A biblioteca Schoelcher é linda, tanto por fora como por dentro. Vou começar a frequentar aquilo, parece-me.

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O próximo Inverno será passado em St. Martin e o resto da minha vida na Europa, muito provavelmente em Portugal, diga o que disser. A única coisa que me aborrece é ser um país tão tropical, tão africano (sem desprimor para África, claro). O espectáculo político dos últimos meses só confirma a certeza que há vinte anos me caiu em cima: isto não muda. Eça nunca deixará de ser um autor actual. E o que mudar será apenas o estritamente necessário para que tudo fique na mesma.

Digo "isto", como se estivesse em Portugal. Cioran, sempre ele, dizia "não se habita um país, habita-se uma língua. Um país não passa disso mesmo" (citação de memória).

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Fevereiro ainda agora começou e não tarda está a acabar. É o mês que antecede Março, mês do equinócio e tem a elegância de ser o mais curto do calendário. Daqui a uma semana tenho a consulta pós-operatória. Tudo indica que será uma formalidade simples (e uma excelente oportunidade de ver a jovem médica que me operou).

Só nesse dia tirarei este episódio da lista de bolas no ar, na qual de resto já está na última posição. 

E só nesse dia saberei se ganho ou perco a aposta: até lá não receberei nenhuma informação do melhor SNS do mundo sobre a intervenção cirúrgica solicitada pelo médico do centro de saúde a 14 de Setembro. 

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Lista essa que se reduz como a esperança de vida de um louva-a-deus que acabou de fazer amor: os dois botes, a exposição, a tradução para francês do Avenida, o olho direito (este muito lá no fim). Quando comparo isto com o que tinha há seis meses penso que devo ter reencarnado e não me apercebi.

Deitar, dormir

- Fosse eu a ti, deitar-me-ia;
- Fosse eu a mim, dormiria.

7.2.24

Casa, música?

Tudo isto por causa da Pietra Montecorvino, que tem todos os defeitos: uma voz rouca, canções do Mediterrâneo, uma urgência de cantar como não há em muitas. 

Casa é o país de onde vem a tua música?

Diário de Bordos - Z'Abricots, Martinique, DOM-TOM França, 07-02-2024

As manhãs começam com os barcos: primeiro o P., depois o S. D. Parece um programa político, mas não é: simples ordem cronológica. Despacho o que posso, tomo um duche e vou para F-d-F. Quando não passeio pela cidade a pé passeio de carro, devagarinho, à procura de um sítio onde estacionar, esperando não o encontrar tão depressa. Tento ver cada edifício com olhos de hoje e de ontem (e alguns de amanhã também).

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Primeiro jantar de confraternização a bordo do S.D. Jantar devia levar aspas: estava para ser um apéro. Transformou-se em jantar pela força das circunstâncias. Correu bem. Fomos três e lavei duzentas e cinquenta peças de loiça. Um dia terei de fazer uma lista exaustiva das razões pelas quais gosto de lavar a loiça. Não é só para engatar miúdas - se fosse, bem tramado estaria, parece que isto já não seduz ninguém.

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Loiça lavada e arrumada, planteur para a estrada, que é longa: pelo menos dois metros até ao camarote. O S. D. mexe-se desalmadamente, consequência da ventosga de hoje: quase vinte nós na marina. Oiço Evanthia Reboutsika, de quem estou a ficar fã mas decido passar para Pietra Montecorvino, de quem já o sou há muito tempo. Penso na viagem que fiz recentemente da Suécia para Cascais: só me senti em casa desde que cheguei a França, por muito que tenha gostado da Dinamarca e da Alemanha (e do pouco da Suécia que vi). Não se trata de gostar. Trata-se de estar em casa. E não tem nada a ver com a língua, tem a ver com outra coisa que agora não sei definir por excesso de planteur, palavra francesa s'il en est.

(Prova da minha inesgotável generosidade; se não conhece Pietra Montercovino, conheça-a e dê por perdidos todos os anos que viveu sem a ouvir.)

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O meu corpo trai-me. Abandona-me, pouco a pouco. Se pensa que vou correr atrás dele está enganado.