15.2.26
Diário de Bordos -Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 15-02-2026
13.2.26
Diário de Bordos - Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 13-02-2026
O DV tem andado mais calado que vivo, coitado. A razão é simples: ando muito ocupado e igualmente preocupado. Mudar de vida é fácil. Difícil é ter a certeza de que a nova vida me permitirá ter uma vida, coisa que está longe de ser segura. A pergunta que mais me ocorre nestes dias é: quanto tempo leva uma cobra a mudar de pele? Ou uma lagosta? Ou uma crisálida a transformar-se em borboleta? (Esta analogia não é muito boa, mas não faz mal. Por agora fica.) Quanto tempo leva um nómada a sedentarizar-se, esse verbo que tanto usei e depois saiu do meu horizonte e do meu vocabulário? Luto em duas frentes: a casa e o trabalho. Duas frentes diferentes: uma sei que a ganho, na outra sei que até agora perdi cada vez que tentei regressar a Portugal. Mais vale acreditar nas infinitas capacidades da aprendizagem, na qualidade inexpugável do trial and error, empirismo no seu melhor, no velho compincha que dizia «êxito é ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo». Sem perder a classe, acrescentaria eu se pudesse. Não posso acrescentar nada a nada: tenho os livros arrumados, a casa composta, o futuro em construção, o passado em recomposição, o presente esquivo e no leitor um disco de música sefardita pelo Hespèrion XXI.
Chama-se Diáspora Sefardí e a mente foge-me para a vertente fácil da «diáspora interior» e outras tretas do mesmo calibre. Nuno Júdice (?): «Comecei a fugir para dentro. É cada vez mais difícil deixar de fugir para dentro".
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Tudo isto para viver os dez anos que segundo as estatísticas me restam ou os quinze que o optimismo prefere.
1.2.26
Diário de Bordos - Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 01-02-2026
Volto ao meu ritmo habitual de acordar muito cedo, como se quisesse encolher a noite, encolher o pesadelo. (Isto é kalimerice. Eu reduzo as noites e a L. reduz o pesadelo a um mau sonho. Deixo-lhe aquí o meu obrigado. Já à RN deixo a minha praga, nada encolhida.)
Os dias ficam mais compridos apesar de ainda ser noite.
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Hoje vou votar "em mobilidade". Voto no Seguro, não porque veja nele o salvador da democracia ou no outro palerma o seu demolidor (dela, democracia). É simplesmente porque prefiro a decência à indecência, a civilidade à boçalidade. Entre duas mediocridades prefiro a educada. O outro não passa de um idiota que fugiu da taberna de onde nunca devia ter saído, um socialista disfarçado de catavento.
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Esta semana começo uma carreira de professor de português para estrangeiros e em breve começarei os primeiros passos para os jantares "ler por aqui" (desculpa-me a apropriação cultural, M. Não é a designação definitiva). A versão para estrangeiros vai chamar-se "dinner by the book", ideia genial, obra do O. (?) a quem também deixo aqui um obrigado que vai de Caminha ao Porto.
Quem tem amigos não tem pesadelos.
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E quem os tem (pesadelos) esmaga-os debaixo de vinte quilos de cobertores, bem esmagadinhos e espera que a sala aqueça - ou seja, sonha com ladrões. O único aquecimento para esta sala chama-se Verão, uma marca bastante presente no nosso país, graças a Deus e à geografía.
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O jantar de pendaison de la crémaillère será em breve. É outra forma de aquecer a sala e de esmagar pesadelos.
31.1.26
Fragmento
28.1.26
Diário de Bordos - Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 28-01-2026
Descubro a casa - nos dois sentidos, descobrir e des-cobrir - e a tentação seria acrescentar descubro-me (num só dos sentidos). Não seria verdade. Sempre fui dual, marinheiro com um pé no mar e outro nos livros, cara ao vento e alma à lareira. Balanço e abalanço-me, que os badanais desafiam tanto no mar como em terra, por diferentes que sejam.
Arrumo os livros, vejo quantos me faltam e quantos tenho, a ficção estrangeira está por ordem. Já só falta a poesia, a ficção nacional (desta vez decidi separá-las), as não-ficção - muitas -, as biografias e auto-biografias, a portugália, a marítima e a miscelânea. Duas semanas e duas estantes ou três. Duas navegações ou três. A lareira enche-me a casa de fumo, as paredes estão a ficar castanhas, o forno é novo, o fumo na casa faz-me pensar que estou a navegar no nevoeiro - estou, se se pensar que nevoeiro pode ter vários sentidos. A polissemia é a minha imagem de marca.
Descubro-me todos os dias, vai para quase setenta anos. Qual a novidade?
21.1.26
Curiosidades do aeroporto de Lamentin
19.1.26
Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 18-01-2026
17.1.26
Diário de Bordos - Marigot, St.-Martin, DOM-TOM França, 16-01-2026
Os dias têm sido de insónia. As noites também, a fortiori. Ontem dormi no melhor quarto (de hotel, pensão ou simili) dos últimos duzentos e cinquenta anos - anos de memória, leia-se. Hoje durmo no meu bem-amado Centr'Hotel. Amanhã não sei. Preencho a insónia com uma indomável vontade de amanhã acordar tarde, Santo Agostinho e vozes femininas. Sandy Denny à qual regressarei mal a Baez acabe de cantar, Maddy Prior, Karen Dalton. Sandy Denny: Who knows where the time goes; Baez: Sad eyed lady of the lowlands; Maddy e Karen: ainda não sei. As insónias não têm placas a indicar a direcção. Nada tem, de resto. "La où les routes sont tracées je perds mon chemin". Quem é que disse isto? Tagore (lê-se Togore)? St. John Perse?
Tagore:
12.1.26
Diário de Bordos - Fort-de-France, Martinique, DOM-TOM França, 12-01-2026
ADENDA
Alguém nas esferas políticas decidiu que o sistema era demasiado «terceiro-mundista» e resolveu implantar autocarros, como nas grandes metrópoles. À boa maneira destas ilhas, a coisa levou anos e anos a ser posta em prática, mas lá foi inagurada, nesse ano.
Resultado: os autocarros andam vazios, não têm horários (se os têm não os cumprem) e as pessoas puseram-se a comprar automóveis (o objectivo «oficial» da medida era diminuir os engarrafamentos crónicos) e se alguém quiser vir de Fort-de-France para o Marin depois das sete da noite (mais coisa menos coisa) das três uma: ou vem de carro, ou paga cem euros por um táxi ou não vem. Os engarrafamentos aumentaram, a mobilidade ficou pior e como os políticos são políticos o sistema está mal concebido e funciona pessimamente.
O fantástico nesta história é que há pessoas inteligentes que pensam que a solução para a maior parte dos problemas é o Estado. Não é. É um conjunto de homens e carrinhas ou o que quer que seja que faça o que estas fazem.
11.1.26
Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 11-01-2025
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A tarde escoa-se lentamente, ao ritmo do rum e do vento. Ao lado a banda faz testes de som sem parar. A música não é grande coisa mas a parede que por vezes me isola do mundo funciona particularmente bem nestas ocasiões. Já paguei e preparo-me para me ir embora, dormir uma merecida sesta. Fazer quase nada é muito cansativo.