25.9.21

Tudo o que vejo, tu

Vejo fotografias lindas deste mundo e pergunto-me como seriam contigo nelas, nele.

Concluo que pouco mudariam: estás em tudo o que vejo.

Quantidade, qualidade et alia

Há quem treine em ginásios, em tapetes rolantes, bicicletas fixas, halteres. Eu treino no passado e no futuro. Corro com um e faço o outro, milímetro a milímetro. Ambos me são gentis, como se tivesse sido eu a fazer um e a esperar o outro, braços abertos e mente fechada. É mais ou menos isso: fiz o meu passado tanto quanto modelo o que aí vem.

Só não é inteiramente isso porque o passado também me fez, tal como o futuro: sou o que fiz e o que serei.

Em partes iguais? Não sei, mas espero que sim. Não é a quantidade, meu caro. É a qualidade que conta.

Presente, passado, futuro?

Ainda agora estávamos deitados, não é? Um ao lado do outro, ou dentro (se preferires) e eis-nos aqui agora de repente deitados a milhas um do outro, ligados apenas pela memória e pelo desejo. Separa-nos o presente, miserável presente. 

Enfim, verdade seja dita: prefiro estar separado de ti pelo presente a estar longe no futuro, ou a não ter sequer estado perto no passado.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 24-09-2021

Lá vamos nós de novo a escorregar por este rinque de patinagem no gelo, sem patins e sem objectivo. Sem nada em frente, digamo-lo já, de seguida. E com tudo atrás: anos de patinagem no gelo, figuras lindas, confusas, mistas como as tostas nos cafés: queijo e fiambre, mas nem um nem outro têm sempre a mesma qualidade. As combinações são várias: bom queijo, bom fiambre, bom pão. Assim de repente creio que há nove delas mas não as vou enumerar todas: falta-me paciência e sabedoria para tanto.

Não sei nada (saber que nada sei é mais do que o que sei). Ou melhor: sei pouco e o pouco que sei é imediato: estou cheio de dores, por exemplo. Estou meio grosso. Estou em Palma. Oiço Lou Reed (Magic and Loss). Quero que as dores se fodam, que vão para longe. Gostaria de ter uma capacidade ilimitada de absorção de vinho tinto, coisa que não tenho, apesar dos anos de treino, note-se. Gostaria de muitas coisas: que o meu P. estivesse pronto, por exemplo. Que todas as cidades do mundo me fossem como Palma. Que o meu amor estivesse aqui (está. O que está longe é o objecto desse amor).

Gosto demasiado de Palma para dizer bem ou mal de Palma: como dizer bem ou mal de mim?

Amanhã largo para Ibiza e Formentera. Forçoso é dizer que podia ser pior: não gostar de uma ou outra é um luxo ao qual me entrego com voluptuosidade, consciente de que é um luxo quase a roçar no pedante. Quase. Entre mim e a pedantice a fronteira é fluida.

Que se lixe a pedantice.

Nada sabemos do que fizemos, quanto mais do que vamos fazer.

24.9.21

Comoção, reclamações

Não consigo, por mais que tente, deixar de me comover quando leio automobilistas reclamar contra as ciclovias. As quais existem, nunca é demais relembrá-lo, devido a esses mesmos automobilistas. Reclamam contra uma coisa que pediram, o que não deixa de me trazer à memória aquele velho provérbio não sei de onde segundo o qual "Deus te proteja de teres aquilo que pedes". Ou coisa que o valha. 

Por mim, trocava todas as ciclovias do mundo pelo fim de buzinadelas, razias, insultos, gritos etc. e poder usufruir das ruas, como os reclamantes.

Bar Rita

Não consigo vir ao bar Rita - uma das minhas casas em Palma - sem pensar numa senhora de nome muito parecido por quem um dia me apaixonei. Foi há muito tempo, há mais vidas do que as que os meus poucos dedos podem contar. Foi um daqueles amores possíveis, impossíveis e belos que nos acontecem poucas vezes em cada vida. Ou no conjunto das várias vidas que cada um de nós vive. Acabou bem: o que começa mal acaba pior, o que começa bem acaba melhor. Ainda penso nela frequentemente, apesar de ter acabado há muito tempo: os amores antigos são como a comida da avó: não voltam e nunca nos deixarão. 

Tal como a comida da avó nos constrói as bases do gosto, os velhos amores constroem as bases dos presentes: nada como uma boa plataforma de velhas dores para edificar - ou evitar - as novas.

O amor durou pouco, mas foi infinito enquanto durou. A prova é que o bar Rita mo traz à memória, como se na cicatriz bem fechada a memória - esse sádico cirurgião - se entretivesse com um bisturi.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-09-2021

Fui buscar um copo de vinho para tomar os comprimidos da noite. Os da manhã tomo com leite. Evito beber água, faz-me pedras nos rins e pedregulhos na cabeça. 

Enfim, o tema do parágrafo anterior não são os líquidos mas os comprimidos que agora tenho de tomar quotidianamente. Vejo isto como uma ingratidão do meu corpo, a quem sempre alimentei muito e bem. Doses enormes de álcool, hidratos de carbono e gorduras animais (os três pilares da minha dieta), poucos legumes e vegetais (tenho sérias dúvidas quanto à clorofila, não acredito numa coisa que torna as plantas verdes como os marcianos ou os enjoados), pouca água (sempre associei sede à cerveja). Além da alimentação: deixei muito cedo de fumar cigarros, um pouco mais tarde de fumar outras substâncias, sempre fiz pouquíssimo exercício - o menos possível, diga-se; enfim, sempre tratei bem a carcaça e que ela agora me retribua com comprimidos de manhã, à tarde e à noite acho repugnante. Tentei, verdade seja dita, dissuadir os médicos que me receitaram tais horrores mas não consegui. Foram taxativos: ou isso ou uma punição que não consigo sequer nomear, de tão infame. Resignei-me às coisas e aconchego-as o melhor que posso.

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Acabei a noite no 7 Machos a beber tequila picante. Três euros e cinquenta o cálice, convenientemente acompanhado de sumo de tomate, sal e limão. A tequila é para lá de boa e reconcilia-me com tudo o que me perseguiu esta noite. A saber, a não-pertença. Isto é, a pertença a um sítio ao qual não pertenço. De todas as cidades às quais não-pertenço, Palma é aquela a que mais me entrego, porque é quase como se fosse minha. Não é, mas é como se fosse. Este debate chateia-me porque foi o tema da minha crise dos quarenta anos, só que nessa altura falava de países e não de cidades - Moçambique, Portugal e Suíça. Hoje falo de cidades: Palma, Genebra e Lisboa, se bem a primeira pudesse ser - e se calhar será - substuída por muitas outras. Espero que não, sei que sim, espero que sim, sei que não: ele há turbilhões que nem o mais poderoso dos tremores de terra fará desaparecer. Vá lá, pelo menos vão reduzindo o alcance: hoje falo de cidades onde antes falava de países. Não tarda falo de bairros, que é o que na verdade menciono quando falo de Palma, Lisboa ou Genebra: bairros, no sentido de arrondissements em Paris (XIII, XIV e XV, se por acaso).

¡Qué vaya!: vivi até hoje como viverei a partir de hoje, com a possível excepção dos livros, que quero perto de mim. Que nunca mais me deixem. Eu retribuirei, prometo. O que não daria para ter agora um livro do Cavafys na mão, em vez de ter de me chatear com o Google. E daí saltar para o Quarteto de Alexandria percorrendo lombadas de livros... Puta que pariu o que vivi até hoje: tenho a morte inteira para morrer. Até lá, continuarei a viver. A prova é que estou enamorado, coisa que aos sessenta e quatro anos não sabia possível.

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Tudo é possível. Basta quereres, poderes e teres tempo. De uma simplicidade arrebatadora, eu sei. Mas gosto da simplicidade, cosa fare?

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Sempre gostei de focais longas em fotografia e agora apercebo-me de que as grande-angulares são importantes também. Muito mais do que sempre pensei, o que só demonstra que «sempre» tem uma duração limitada, como os iogurtes, o leite e o pão.

22.9.21

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 22-09-2021

Não tenho nem nunca tive uma mulher em cada porto, mas tenho uma bicicleta. Enfim, em cada um dos que frequento mais. A saber, Lisboa e Palma. Na verdade em Lisboa tenho duas: uma de estrada e outra de cidade. Aquela, vou vendê-la. Pouco a uso. Já a Coluer, só a troco por melhor e à vista não está nada melhor (mentira: uma Alps Vintage está no horizont. Porém, como este vai-se afastando à medida que avanço, é como o Teide que se vê três dias antes de se chegar à ilha).

Em Palma tenho uma Órbita branca, bonita e confortável, embora não tanto como a Coluer. Não percebo o suficiente de bicicletas para saber de onde vem esta diferença - isto é, sei que vêm do quadro, mas não sei o que as origina. Interesso-me pouco pelo tema. Não quero saber nada sobre a mecânica das bicicletas, por exemplo. Se uma mudança não entra bem, levo-a ao Ivo (em Palma) ou ao Fernando (em Lisboa). Ajo com as burras como os armadores comigo em relação aos botes: quero que isso ande e é tudo.

Hoje fui jantar ao Alfredo, um galego que tem bons vinhos, boas tapas e bons preços. Também tem uma mulher bonita, mas isso indifere-me. Só penso que o homem tem um bom gosto abrangente (ou circular, se preferirem).

Fui finalmente buscar a máquina fotográfica e o The invention of yesterday, uma sugestão do V. P. que a julgar pelas primeiras páginas parece bastante interessante. Verdade seja dita que do V. não seria de esperar outra coisa: com a excepção das opiniões políticas, tudo o que dali vem é ou bom ou excelente. Sendo estas, regra geral, a faceta menos importante das pessoas, pouco interesse lhes dou. Com a possível excepção de um bom debate intelectual, sem pretensões de convencer ninguém, o que as pessoas pensam sobre um partido qualquer é-me tão indiferente como o que pensam sobre o pão-de-ló de Arraiolos.

Mesmo que esse partido seja de esquerda.

19.9.21

Diário de Bordos- Lisboa, 19-09-2021

Estou numa esplanada a beber vinho tinto fresco e a apanhar sol quente. O vinho custa oitenta cêntimos o copo e é honesto, sem pretensões mas correcto. O Sol não custa nada, antes pelo contrário: recebo dele mais do que lhe dou. Costumo dizer que a saúde é a única área da minha relação com o meu país em que sou claramente o ganhador, mas não é verdade: também fico a ganhar na minha relação com o clima e com os preços dos copos de vinho (isto é uma sinédoque, se por acaso). Agora poderia também dizer que fico a ganhar em relação às mulheres: o país tem-mas dado claramente melhores do que eu tenho para troca. Enfim, isto é um tema delicado - ou pelo menos sujeito a variações tão labirínticas como as Variações Mandé que agora oiço, cheio de sol, amor e vinho tinto, tudo coisas que recebi do meu país e não retribuí à altura.

As Mandé Variations levam-me de passeio, de divagação em divagação. É um dos meus discos favoritos, já aqui o tenho dito muitas vezes. Não é de música africana, é música, ponto. Prova provada - como se fosse necessário - de que a música é como as pessoas: não tem passaporte. Classificá-las por origens é uma facilitação de linguagem e de raciocínio e como tal deve ser tomada. Não mais. Não há chineses: há pessoas que nasceram na China, ou são de ascendência chinesa. Não há portuguesas: há uma mulher que eu amo e nasceu em Portugal, nos Açores, ilhas encantadas s'il en est.

Uma mulher que eu amo e esse amor vai subido como sobe a maré. Qual maré, pergunta o marinheiro em mim: a do Mont Saint Michel, mais rápida do que o galope de um cavalo? Ou a do Mediterrâneo, invisível? Fiquemo-nos pelas marés abstractas, «normais», semi-diurnas. Fiquemo-nos pelos amores concretos, os que dia a dia sobem como sobe a maré abstracta. Fiquemo-nos pelo amor, o que não tem passaporte nem carimbos nem renovações: é uno e sempre uma viagem, com a Lua por companheira, como as marés.

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Antes do sol e do vinho tinto fresco o que me apetecia era uma imperial e um croquete na Portugália. Felizmente pediram-me o «certificado» e face à sua ausência não me deixaram entrar. Fiquei a ganhar com a troca - o meu país é generoso, no fundo - mas lembrei-me da minha adopção da bicicleta como meio de transporte. Foi em Genebra, cidade que tinha um grave problema de tràfego automóvel e resolvera resolvê-lo. O método escolhido foi simples: tornar insuportável a vida dos automobilistas. É o que as nossas autoridades estão a fazer com estas regras: forçar as pessoas a vacinarem-se pelo cansaço, já que os benefícios das «medidas» são risíveis e os malefícios da doença são pouco visíveis, contrariamente aos problemas de trânsito automóvel na cidade de Genebra. 

Haveria talvez de fazer um distinguo entre os problemas automobilísticos de Genebra e os «problemas» ligados ao vírus Sars-CoV-2 (as aspas não são um acaso): pergunto-me (e já agora pergunto a quem sabe) quantas das dezoito mil pessoas que até hoje morreram com Covid em Portugal teriam morrido no prazo de um ano, sem vírus? Talvez este não tenha passado de um catalisador, um acelerador, não? 

Claro que é preferível morrer um ano mais tarde a morrer um ano mais cedo, não ponho isso em causa nem um segundo. A questão não é essa. É: o preço que pagámos todos (e ainda estamos a pagar) é proporcional a essa vantagem? Justifica-a? Respectivamente: não e sim, mas só muito parcialmente. Eu estou disposto a ceder uma parte da minha liberdade para que o meu vizinho viva mais seis meses, sem dúvida. Não estou é disposto a pagar tudo o que paguei para isso - tanto mais que as autoridades poderiam ter tratado melhor do meu vizinho velhinho, em vez de concentrar a sua fúria benfeitora em mim, homem são e sem grande temor da morte (não por valentia, por estatística).

NÃO SEI - LISTA NÃO EXAUSTIVA

Estou no restaurante Zebras do Combro, sito à calçada do Combro e penso que tenho de ir para casa. A Coluer espera-me, amarrada a um poste. Contudo, o cansaço e o ziguezagueante raciocínio levam-me pelos carreiros da vida, forma simpática de me manter aqui sentado. Para fazer qualquer coisa - seja o que for - é necessário um misto de tempo, vontade e meios. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, estes são fundamentais: procurem levar um contentor de Lisboa a Nova Iorque num barco a remos ou numa prancha de SUP e verão o resultado, por muito tempo e vontade de que disponham. «A boa ferramenta faz o bom operário», diz um provérbio judeu aplicável qualquer que seja o sentido que se dê a ferramenta.

Ou seja: ponhamos provisoriamente de lado o terceiro termo da equação. É uma constante, não é uma variável. Tenho os meios para ir para casa: a supramencionada Coluer, bicicleta preta, quadro clássico feminino, sete velocidades, cesto dianteiro e gira como o dono, acabo de explicar a uns senhores cabo-verdianos que ma gabavam há pouco. Tenho os meios, tenho tempo, falta-me a vontade, é tudo. Tendo dois dos três ingredientes, exploro nos tais ziguezagueantes labirintos todas as outras coisas que tenho de fazer.

O restaurante Zebras é horrível. As únicas coisas que o salvam são a cozinha, a simpatia do pessoal, a decoração - toda de azulejos - a localização (perto do Largo Camões) e a dimensão (pequeno). Além disso, nada. As favas, por exemplo: sublimes. Quem faz favas assim no Verão vai para o céu na Primavera (alegoricamente falando, claro. Espero vivamente que seja daqui a muitas primaveras). O igualmente sublime bagaço da casa. O preço deste frugal jantar: qualquer calvinista o aceitaria sem ser submetido a tortura. Que tenho de fazer, além de pedalar até casa, confortavelmente sentado numa poltrona com duas rodas, dois pedais e um guiador? Escrever estes textos, por exemplo. Tudo me falta, mas à vez: ora é o tempo, ora a vontade. Os meios não: papel, caneta, telefone portátil e computador há sempre, por atacado ou a retalho. Tenho de responder à D.: falta-me o tempo. Tenho de... Falta-me a vontade. Enfim, não quero maçar os leitores com as minhas divagações pelos labirintos do dever: a lista é interminável. Ora me falta isto, ora aquilo, ora tudo ao mesmo tempo.

Retomemos o caminho, antes de parecemos formigas ébrias com um ataque de solipsismo: não sei por onde vou, mas sei que não vou por aí. Pergunto-me o que levaria uma formiga a perder-se? Primeiro, como seria possível em termos físicos. Segundo, que sobraria da psique de uma formiga se se perdesse? Nada, claro. Nem da psique nem de mais nada. Uma formiga perdida perde-se em todos os sentidos do verbo perder-se: nada sobra, no fim. Não é o nosso caso: perdemo-nos por estas veredas mas encontramo-nos algures na Baixa para um último copo, espero, se possível na ginjinha da rua das Portas de Santo Antão.

Raio do texto está a fugir-me, como a formiga individualista. Problemas de quem leu Sterne em jovem, o que não foi o meu caso, prova provada de que a minha infância não foi tão feliz como a imagino. Falava simultaneamente de dois temas: o restaurante Zebras do Combro – está arrumado: é excelente; e a mistura de componentes de que se necessita para fazer qualquer coisa: tempo, vontade e meios. Creio também que algures aí pelo meio falei da fatiga – a que outros chamariam exaustão, mas esses são ou exagerados ou meninos urbanos poliamorosos. Não sou nem uns nem outros. Exaustão tem para mim o significado que sempre teve: vazio, cheio de coisas para fazer. Talvez não fosse má ideia rever o conceito. Se não tiveres nada que fazer, não podes estar exausto, porque a exaustão tem a ver como futuro e não com o passado. Não estás cansado porque fizeste, mas sim porque não podes fazer mais nada. Só se está exausto ab ante: antes de fazer qualquer coisa, não depois.

Bom, passemos. On s’en fout. O que é importante, no fundo?

Resposta: importante é o que queres e consegues fazer depois de estar exausto. Depois de estares morto, de não saberes como te chamas, onde nasceste ou onde queres morrer. Não há melhor critério para delinear «importante»: o que fizeste depois de morto. (Antes disso tudo foi secundário, aceita-o de uma vez por todas.)

Por que caminhos andarão as formigas a direito?

Estamos a falar de carreiros labirínticos. De coisas que partem de um restaurante na calçada do Combro e acabam na exaustão, no cansaço – nos cansaços: o físico e o metafísico, do qual tão bem falou o Álvaro, amigo meu íntimo do coração.

« Estou cansado, é claro,

Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.

De que estou cansado, não sei:

De nada me serviria sabê-lo,

Pois o cansaço fica na mesma.»

 

Depois, vem o verso chave:

«E a luxúria única de não ter já esperanças?»

Reconheçamos: ele estava menos cansado do que eu. «Esperança» é uma palavra banida do meu léxico. Já «Luxúria» não sei. A luxúria ou é destemperada ou não é. Nada espero e consigo que isso seja diferente de «De tudo desespero.» Como naqueles quadros do Klee, eu sei: a relação entre o nome do quadro e o que ele dá a ver é muito ténue e reclama grande participação de quem o vê.

Bom, tentemos ordenar isto: os bons jantares terminam num labirinto fantasmático, cansaço metafísico, carreiros ondulantes ou simplesmente na espera pela senhora que decidiu agraciar-nos com o seu amor e receber o nosso?

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Não sei.

As discussões devidas à minha recusa em usar máscara diminuiram em quantidade e aumentaram de alacridade. Suponho que do meu lado há cada vez menos paciência; do lado de quem tenta implantar regras absurdas também, porque há cada vez mais pessoas a recusar cumprir as tais regras.

Isto não é o resultado de um estudo «científico». Talvez seja apenas a minha esperança a parir, uma vez mais. Parece um peixe de que todas as ovas dão origem a um descendente: a minha esperança tem uma prole infinita, pare ao menor pretexto, emprenha por autogénese, não pára.

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A Covid tocou os fundamentos da nossa sociedade, minou-os (mas não de morte. Cf. supra). Infelizmente a verdade é que isto não começou com o maldito vírus, vai muito mais longe, muito mais atrás. O C. M. F. diz que vem do fim dos impérios. Não o creio, mas tão pouco sei onde começou o pêndulo a oscilar no outro sentido. Talvez na segunda guerra mundial, quando a ciência eclodiu em Nagasaki e em Hiroxima? Talvez na primeira, com o gás mostarda e a aviação?

Será que vai ser precisa uma nova guerra para pôr o pêndulo a mudar de direcção?

Pergunta: o pêndulo pára no seu ponto mais baixo. O que lhe garante que ele manterá o seu movimento? De onde vem a energia necessária para isso?

TPC – Descreva em menos de mil palavras o que sabe da entropia, da neguentropia e da vida sexual dos pêndulos.

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«A ciência tornou-se a nova religião», diz-me o C. Verdade, claro, mas num sentido secundário: é vista, seguida, ouvida como se fosse uma religião. A ciência não pode ser uma religião, pelas simples razões de que a) é amoral. «O nosso trabalho é inventar a bomba atómica. O seu é decidir se, onde e quando a usa», poderiam os cientistas do projecto Manhattan ter dito a Truman (atenção, isto não é uma lição de história. Houve demissões no projecto Manhattan por razões morais. Tão pouco tem a ver com teologia. Há moral sem religião, mas não há religião sem moral). b) Não há deuses e diabos na ciência. Que as coisas caiam a nove vírgula oito metros por segundo ao quadrado ou a cinquenta é indiferente. Já para as religiões é importante saber quantas vezes comeste carne à sexta-feira, bebeste álcool ou comeste marisco. A aceleração da gravidade é o que é; desejar a mulher do próximo uma vez é diferente de a levares para a cama todos os dias e serás punido diferentemente, se acreditares que é pecado (é, se pecado for sinónimo de errado, mas isso é outra história e fica para depois).

Sem Diabo Deus não existe, não é nada, é um verbo de encher. Sem um nem outro, a ciência vive muito bem; quem não suporta a sua (deles) ausência são os proto-religiosos do nosso tempo, os que queimam livros do Tintim e atribuem a escrever tod@s em vez de todos o poder da poção mágica do Panoramix. Ou acreditam que o vírus se transmite em função do comportamento das pessoas. «Portas-te bem, mascaras-te, limpas as mãos com hidromel e o vírus não sai de ti, ele gosta de rapazinhos bem comportados e de meninas fiéis. Já se andares por aí feito homem livre matas metade daqueles que te rodeiam e metade da metade que só de olhar para ti se vê com um tubo na boca, deitado de bruços numa cama de hospital».

Gosto de Deus e do Diabo mas só nas histórias aos quadradinhos e no pouco que me ficou da Bíblia. Na vida real exasperam-me, prendem-me os braços, asfixiam-me.

Pergunto-me se há verdadeiramente uma necessidade neurológica, evolutiva, darwiniana de religião, de medos fundamentais (no sentido dos que vão aos fundamentos, como o vírus, as alterações climáticas – dantes conhecidas por arrefecimento global primeiro e por aquecimento depois –, a bomba atómica ou que o paquistanês da esquina já esteja fechado)?

Não sei.

Luís Serpa, Lisboa, 17-18/09/2021 (Texto para o Luso Magyar News)

16.9.21

Sugestão aos governos

As pessoas que - como eu - recusam a vacina deviam ser obrigadas a usar um sinal distintivo na roupa. Proponho a estrela amarela porque tem várias vantagens:

a) Já foi testada historicamente com óptimos resultados;
b) É bastante visível;
c) Tem uma conotação pejorativa forte e portanto uma boa capacidade de influenciar comportamentos;
d) É barata e fácil de implantar.

Os governos deviam pensar nisto, em vez de desbaratar o dinheiro dos contribuintes em publicidade estática.

15.9.21

Untermenschen

O vírus concretizou o sonho dos nazis: somos todos untermenschen. Mascarados, vacinados, confinados, com o cu que não lhe entra um feijão e convencidos de que estamos a fazer isto "para o bem de todos". A colectivização da cobardia. A terceirização da boa consciência. A mediocridade dá-se a ver e orgulha-se de si mesma.

Aceitacionismos, razão,liberdade et al.

Ser corajoso não é não ter medo. Isso é ser idiota. Ser corajoso é vencer o medo. Deixar-se vencer por ele é ser cobarde. Cobardolas. Medricas. Mariquinhas pé-de-salsa. Forçoso é reconhecer, contudo, que por vezes a cobardia ganha. Somos humanos imperfeitos, não somos máquinas perfeitas e infalíveis. Às vezes a cobardia ganha e compreende-se - isto é, aceita-se.

Já a estupidez - sobretudo quando vem de pessoas inteligentes - é mais difícil de aceitar. Os estúpidos - grupo do qual faço parte, com grande pena e revolta - têm pelo menos a desculpa da deficiência cognitiva. Os inteligentes - grupo no qual tento escolher os meus amigos, porque para sair com iguais ou piores do que eu basta-me sair comigo - quando fazem ou dizem uma estupidez não têm essa desculpa. Ficam ali, sozinhos no meio da estrada, vestidos (ou despidos) com os farrapos de inteligência que o medo, condescendentemente, lhes deixou.

Ver uma pessoa inteligente desperdiçar esse dom para ceder ao medo está para lá do que se pode aceitar. É desolador, como ver um mendigo nu e esfomeado à porta de nossa casa e não poder ajudá-lo.

Pensar que o livre arbítrio, a liberdade, a razão - tudo aquilo por que o século XIX lutou - vai para as urtigas com um vírus é revoltante. Para a maioria das pessoas a liberdade e a razão não são armas suficientes para lutar contra o medo. O irracionalismo - escola filosófica que fez as delícias da minha adolescência  e abandonei mal cresci um pouco - afinal estava certo. 

A esquerda já foi a ideologia da luz, da razão, da ciência,  da revolta e do progresso. Hoje está reduzida ao aceitacionismo irracional. Não é por acaso que a maioria dos «negacionistas» invoca a liberdade e usa dados objectivos para defender as suas opiniões. 

Volta, Friedrich. Esquece o supra-homem e volta. Estás perdoado.

Isco

À pesca do sono, o vinho nem sempre funciona bem como isco. Melhor tentar outros.

Parece que sim

Dois livros publicados não é o dobro de um livro publicado.  É mais. Não sei como explicar isto. Seria preciso um autor confirmado ou um matemático especialista em séries não lineares, suponho. Tanto mais que três livros publicados é o triplo de um. Há um espasmo qualitativo entre o primeiro e o segundo, creio, que desaparece depois.

Não sei. Só sei que tenho um segundo livro a caminho e que isso me deixa imensamente feliz, apesar de igualmente incrédulo. Alguém achou aquilo bom? Parece que sim.

14.9.21

Diário de Bordos - Lisboa, 14-09-2021

Circular em bicicleta na cidade tem inúmeras vantagens. Vou enumerar três. (Há aqui um subtil jogo de palavras - ou de vogais, para os mais preciosistas -: troca-se uma vogal e a palavra gira de cento e oitenta graus. Espero que tenham visto e apreciado.) As três qualidades da circulação em bicicleta que seleccionei para hoje são:

a) Podemos andar à velocidade que nos apetece. Não há sinais a limitar-nos a velocidade máxima ou mínima, não há filas de carros cujas velocidade temos de respeitar. Nada disso. Rolamos tranquilamente na ciclovia - ou na via, tout court - e aquela malta das caixas verdes ou amarelas com bicicletas eléctricas passa-nos como quer. Avisa-nos gentilmente com um toque de campainha ligeiro, nada agressivo e passa. 

b) Não precisamos de nos preocupar com a EMEL. Uma bicicleta estaciona-se praticamente onde se pode estacionar e ninguém - salvo os condóminos mais idiotas - nos vem chatear. E mesmo para esses há remédio: deixa-se a burra na rua ou subimo-la para o apartamento.

c) O prazer, o simples mas rigoroso prazer de pedalar pela - por exemplo - Baixa de Lisboa, ver lentamente prédios que vimos centenas de vezes, reconhecer apartamentos onde amámos ou deixámos de ser amados. Em espanhol pedalar diz-se pedalear e aquela vogal faz uma diferença enorme, prolonga a palavra e o prazer, adoça-os, por assim dizer. Prolonga-os. «Pedalar» é das raras palavras da nossa língua que podia ter mais dez sílabas e ficaria a ganhar com isso. 

Pedalar é uma das raras actividades físicas que acrescenta prazer à existência (são três, na verdade. A outra é a condução de uma embarcação de vela).

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Um dia terei tempo para ler todos os livros que compro. É para isso que os compro: para ter tempo de os ler, um dia.

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Continuo sem saber o que me faz ser desta cidade e não de outra qualquer porque não consigo definir o que sinto quando as ruas da Baixa desfilam por mim, parado na minha bicicleta e me olham, cumprimentam, dizem «Olá, Luís. Por cá de novo? É bom ver-te.» Como explicar este sentimento? Ficando calado, suponho. Retribuindo o cumprimento. 

Ouvindo Philip Glass enquanto se rememora o dia, que decorreu ao mesmo ritmo.

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A expressão francesa para «estou apaixonado» é «je suis tombé amoureux». Obviamente prefiro-a: «caí» transmite melhor a sensação de surpresa. Caí amoroso. Tropecei no amor. «Estou» é demasiado estático para este sentimento extático - mais uma palavra que muda completamente mudando-se-lhe uma letra. Êxtase. Amor. Espanto. Como traduzir isto?

Como supra: uma aflitiva falta de palavras. Ou então uma só: amo-te. O mundo que se arrepie. Eu já estou.

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Mais um almoço na Merendinha do Arco. Desde as pataniscas - as melhores de Lisboa e arredores, incluindo nestes arredores o Minho e o Algarve - até ao xiripiti tudo é perfeito. Desde a simpatia dos funcionários da casa até à companhia, levemente abordada no parágrafo acima deste, passando pelo bacalhau à Braz, arrozes de polvo e doce. Abençoada seja a D. Fátima, abençoada seja esta Lisboa de que sou, de que serei sempre, abençoada esta flor que me picou e prendeu como se dela eu fosse a cor. Ou ela o nome e eu o espinho, vá saber-se.

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A Ler por aí... mudou para a Casa Independente. De todas as livrarias pequenas que conheço - são muitas - é a mais bonita. De todas as livrarias bonitas que conheço - ditto - é a mais pequena. Duas poderosas razões para a visitardes. Das cinco às nove da tarde, quase todos os dias: faltam o domingo e a segunda-feira. 

(Esta apreciação é completamente objectiva, independente, não tem nada que ver com a intensa amizade que me liga à Margarida e muito menos com a admiração que tenho por ela.)

13.9.21

Imperfeição, tolerância

Sendo como sou um ser imperfeito - ou, provavelmente, mais imperfeito do que a média - habituei-me a aceitar a imperfeição nos outros. Evito julgar, excepto quando inevitável ou inescapável - tenho, por exemplo e como toda a gente um horror absoluto à pedofilia, apesar de o saber cultural (não tenho nada contra a minha cultura, antes pelo contrário); detesto a cobardia, embora por vezes a compreenda; a maldade gratuita; etc. 

Daí talvez a minha inextinguível tolerância: na sua génese está um defeito irremediável.

11.9.21

Amor, mundo

Amo-te. É espantoso como duas palavras e um tracinho chegam para preencher o mundo.

Amor em loop

Talvez pudesses também divagar sobre o inefável: fantasma flutuando sobre outro fantasma, ideia repousando sobre efabulações, amor apoiando-se noutro amor, tão simétricos quanto dois amores o podem ser. Isto é: nada. Não há amores simétricos: cada um deles é único, auto-referenciado. Amar-te é amar-me por teu intermédio. Amar-me é amar-te.

Cores, talvez. Hades. Vida

Talvez pudesses também divagar sobre cores: o efeito mirambolante que o azul marinho tem sobre ti, as dúvidas que o encarnado te provoca, a rejeição absoluta do cor-de-rosa em roupa masculina, o dourado de um rum ou de umas hierbas secas, o tinto profundo ou claro de um bom tinto (ou de um clarete).

Talvez. 

Talvez pudesses fazer muito mais do que o que fazes e talvez pudesses fazer menos. Deixa as cores em paz. Não depende delas. «Ele tinha tomado o autocarro local em Hades» (Anne Carson, Autobiografia do Vermelho). De que cor é Hades? Vermelho, diz o título. Que interessa, digo eu? Só interessam as cores da vida.

Uma cama

Andava a patinar pela vida fora como um paraplégico a quem alguém pusera patins nos pés e empurrara para a pista. Levantava os braços a pedir ajuda e os seus gestos desesperados e descoordenados eram interpretados como forma de se equilibrar: ningém acorria. Assim atravessou o ring de uma ponta à outra, sem aprender a elegância, caindo muitas vezes, mas chegando de pé, que era o que lhe interessava. Chegar de pé. Morrer de pé a olhar para a frente, como se para lá do horizonte ainda houvesse mundo. Como se lhe interessasse o que há para lá do horizonte. «Nem para cá, quanto mais para lá», dizia entre dois desequilibranços. Verdade: nada lhe interessava mais do que não cair, aqui e agora. Antes e depois eram automática e sistemáticamente relegados para o saco do lixo dos dias, um saco assíncrono e talvez por isso sempre cheio.Os marxistas, recordou, chamam-lhe «o saco do lixo da história», mas para isso é preciso acreditar na história. Acreditava, mas não lhe atribuía importância suficiente para o distrair das suas desajeitadas tentativas de não cair. «Imagina uma piscina na qual nadas sem direcção. A piscina é infinita: só tem dois limites - o princípio e o fim. Uma vez dentro dela, fazes o que queres, nadas para onde queres. Só há uma condição: não podes voltar atrás. Não podes voltar a de onde saltaste para a água. Podes tentar todos os estilos: crawl, bruços, costas, mariposa; podes mesmo inventar um estilo só teu. Podes fazer tudo o que queres menos voltar atrás. A piscina só tem uma direcção. Tem uma corrente e nadar contra ela é impossível. Podes divagar, podes perder-te, podes mesmo imaginar que não queres nadar e que vais à rola. Podes imaginar curvas - sinusóides. de Gauss, ciclóides, epiciclóides, parábolas, espirais, trissectrizes de MacLaurin (obrigado, Google). Podes imaginar um mundo plano, em forma de pera, de maçã oun de ananás. Podes imaginar o mundo como o queres - ele nunca deixará de ser o que é: o  ring de patinagem no qual alguém te deixou e no qual nadas ao sabor da corrente, tentando traçar curvas com nomes esquisitos enquanto ouves música com ritmos, melodias e harmonias esquisitas.

A vida não passa disso: um gigantesco desencontro onde por vezes e por acaso encontramos. Encontramos o quê? 

Um corpo, uma mente e uma cama onde juntá-los.

Diário de Bordos - Lisboa, 10-09-2021 / II

Melancólico e solitário jantar no Santa Marta, restaurante que não sendo bom nem mau - antes pelo contrário - tem várias vantagens e poucas desvantagens.

Penso nos vinte anos que me restam de vida - estatisticamente - e pergunto-me se serão iguais aos primeiros vinte. A minha vida uma curva de Gauss? Nunca tinha pensado nisso. Penso também numa «escola de felação para senhoras das classes média e alta» cuja ideia me ocorreu hoje à tarde. Teria êxito? Não posso dar aulas práticas porque nunca fiz nenhuma felação a ninguém, mas talvez pudesse orientar as senhoras alunas, baseado nas que já me fizeram. Não sei. Em Dunkerque a dona do bar do clube (náutico) perguntou-me se eu tinha experiência de bar, para me dar trabalho. Respondi-lhe: "Deste lado sim, muita. Desse não." Ela deu-me o trabalho e correu bem. Talvez com a escola de bicos acontecesse o mesmo, não? Talvez. Penso também na fantochada da Covid. Carmo Gomes, marionestista auto-apontado e malabarista apreciado começa a fazer marcha a ré. Oxalá não lhe caiam as bolas. Ou oxalá sim: não houvesse justiça esta gente pagaria o mal que fez. Mas há e não pagará. Sair-se-á airosamente do inferno em que enfiou o país e o meu estado de espírito, condenado a sonhar com escolas de broches, curvas de Gauss e os últimos vinte anos de vida, tudo isto admitidamente temas interessantes para opor à melancolia e apoiar a solidão. 

O empregado do restaurante percebe de vinhos e conversamos sobre o Porto que bebo, um vintage da Ramos Pinto. Quer vender-mo a seis euros, provo-o e ofereço-lhe três e meio, ficamos nos quatro. O vinho só precisava de arejar para ficar francamente bom e mesmo assim não é melhor do que um bom LBV, mas vá lá, salvou o jantar - um pica-pau decente mas não extraordinário - e o queijo, de Azeitão, agora numa caixa pronto para ser levado a domicílio. 

Não penso só nestas coisas, claro, mas fujo do risco de ser maçador e lembro-me do trajecto que me espera: subir pouco e fazer uma distância maior, subir muito e pedalar menos? Dilema constante na vida de um ciclista urbano, impossível de lhe escapar. Enfim, fossem todos os dilemas assim.

Decido que não quero ver a minha vida feita gaussiana. Da infância pouco recordo, mas por nada deste mundo reviveria a adolescência. Obrigado, Ramos Pinto.

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Acabei por subir a Duque de Loulé, não é assim tão difícil. Antevê-se sempre pior do que o que acontece na realidade, não é? É. O medo é uma droga que tanto pode ser doce como dura, tal qual outras coisas.

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A designação «Escola de felação para senhoras das classes média e alta» apresenta vários problemas: a) felação ou fellatio? b) Porquê só para senhoras? Muitos senhores apreciariam igualmente saber fazer bicos. c) Porquê só para classes média e alta? Os maridos das senhoras (e senhores) do povo também têm direitos, ou não? d) Quem pagaria o curso - as senhoras? Os maridos? «Olhe, se faz favor [ler com pronúncia de Cascais] o meu marido faz anos e quero oferecer-lhe um bom bico.» Ou: «A minha mulher morde-me todo quando me chupa o pénis. Gostava que vocês a ensinassem a não usar os dentes, ela não acredita em mim»?

A ideia parece-me pouco exequível e arrumo-a na gaveta das ideias à Braz: saborosas mas desfeitas. Sorte, porque entretanto chego à parte descendente do percurso e como a paisagem desfila mais depressa (e sozinha) tenho menos tempo para cozinhar fantasias.

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Olho retrospectivamente para o jantar e decido que o restaurante Santa Marta tem mais pontos positivos do que negativos. Há que repor a verdade e a justiça.

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Penso também nas vantagens da vida doméstica, sobretudo quando acoplada ao amor. São muitas, tantas que decido não pensar mais nelas e vivê-las, apenas. Uma e outro. São uma maravilha, quando andam juntos. Prémio Casal do ano? Não: casal da vida. O lado direito da curva andará por alturas que nem o centro sonhou.

10.9.21

Diário de Bordos - Lisboa, 10-09-2021

O meu ombro direito fez-me uma chantagem ignóbil: "Ou tratas de mim ou..." Atrás das reticências vieram dores insuportáveis que - percebi imediatamente - eram só para amostra. De maneira ontem lá fui ao melhor SNS do mundo. Atendeu-me uma médica colombiana e bonita, passe o pleonasmo. Além disso era competente (pelo menos pareceu-me). Saí dali com mais uma carga de remédios, ecografias, fisioterapias e a reconfortante informação de que só naquele centro de saúde há vinte e dois mil utentes sem médico de família. Estou a tratar de um cartão que me permitirá ser atendido em Espanha pelo SNS local, que apesar de não ser o melhor do mundo funciona infinitamente melhor do que o nosso, o melhor do mundo como toda a gente sabe. Aborrece-me um bocadinho que a única coisa na minha relação institucional com Portugal em que era eu o indiscutível ganhador se tenha degradado tanto. Em Espanha também não pago impostos, mas pelo menos tenho quase vontade de os pagar. Quase, claro. Nada de exageros. Não são assim tão melhores do que nós.

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O programa de viagens para as próximas semanas está definido: Lisboa, Palma, Genebra, Bordéus, Palma, Açores, Palma, Caraíbas. Xavier de Maistre não sabe a inveja que tenho dele. 

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Soberbo jantar no Qosqo com A. I. Ele há combinações imbatíveis. A comida peruana é sempre boa; quando é boa, é sublime.