17.2.20

Diário de Bordos - Genebra, Genebra, Suíça, 17.02.2020

Estou a ficar relativamente farto desta merda deste gripe e hoje resolvi atacá-la de frente. Isto agora vai ser a case of do or die, como na canção. Comprei uma garrafa de rum HSE, nobre produto da Habitation St. Etienne. Cinquenta e cinco graus de bom gosto, tradição e gravitas. Se isto - misturado com chá, note-se, a cinquenta cinquenta - não tratar da saúde à gripe nada tratará.

Fui a França, não diria que de propósito - esse foi outro - mas com isto na lista. Como sempre, o velho fascínio pela França, aqui tão perto, ganhou-me. Isto deve ser um caso de estudo por este vasto mundo, eu é que não os conheço: o eléctrico agora passa a fronteira e chega ao centro de Annemasse, mas aquilo continua a ser um planeta diferente. Para além do rum, comprei manteiga salgada, almocei Oeufs Meurette, bebi um Marc de Bourgogne, comprei café de Sumatra a um terço do preço daqui e como prémio a mim mesmo trouxe xarope de curcuma (simples curiosidade, não me estou a render ao sabor do mês).

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Pergnta extemporânea: Torricelli descobriu o peso do ar. O peso do ar do tempo é superior ao do ar normal?

Vidas

O título "O fim de uma gripe" foi precoce. Esta é das peganhentas, das que não larga facilmente de mão. A ver se é para amanhã, se posso voltar a ter sonhos menos aflitivos, menos tão próximo da realidade.

Amanhã vou a França pôr uma coisa no correio e fazer alguns telefonemas urgentes. Isto de o roaming ser de borla para os países da União Europeia paga-se mal se sai da "Europa".

Felizmente ela está aqui ao lado, no fim da linha do eléctrico. Estivesse o fim da gripe tão perto como está a França.

E como estão os meus filhos. Hoje vi os dois: o T. à tarde, a H. à noite. Vieram aqui a casa fazer o que tinham a fazer e depois foram às suas vidas e eu fico siderado a perguntar-me que raio terei feito da minha, para que isto me comova tanto?

15.2.20

O fim de uma gripe

A S. chegou e com ela os remédios: spray nasal, muitos comprimidos, supositório, tudo. Ela queria ser veterinária mas a meio resolveu mudar para psicologia. Comigo pode praticar as duas disciplinas. Tentei reclamar com o supositório - não sou contorcionista nem artista de cabaret - mas não serviu de nada.

Acho isto tudo um pouco patético. Um médico amigo meu dizia «quando tens uma gripe, há duas alternativas: ou tomas um monte de remédios, vais para a cama e ao fim de três ou quatro dias aquilo passa; ou não tomas remédios, vais para a cama e ao fim de três ao quatro dias aquilo passa.» Tomo-os na esperança de que pelo menos me sinta um pouco melhor.

Enfim, seja como for, quinze anos de vida comum ensinaram-me que não serve de nada contrariar S. quando toca a remédios; mesmo que quisesse, falta-me energia. Pode ser que amanhã esteja melhor. Será o quarto dia.

Reciprocidade onírica

Esta noite não sonhei com a Romy Schneider, nem com a Jacqueline Bisset, a Lauren Bacall ou - meu Deus - a Gene Tierney. Nada disso. Gosto de ser correspondido nos meus sonhos, de ser desafiado. A Bisset um dia disse-me: "que raio estás aí a fazer parado, homem? Anda embora." Isso sim, é um sonho. Elas que sonhem comigo, que eu sonho-as nesses sonhos.

(Amanhã estarei bom.)

Gripe de género

As mulheres gozam com a nossa reacção às gripes porque elas não as têm. As mulheres têm gripinhas, gripes cor-de-rosa e não esta mistura de gripe e peste bubónica que nos aflige.

14.2.20

Os cactos e as máquinas de lavar loiça

Prefiro lavar a loiça à mão, sobretudo naqueles jantares com muita gente, muitos pratos e muita loiça. As pessoas vão-se embora e um gajo vai para a  cozinha, começa a ordenar a loiça - pratos com pratos, copos com copos, panelas e frigideiras - tudo por por ordem crescente de sujidade -, talheres imediatamente para o lava-loiça, de onde só sairão por ocasião da primeira mudança de água. Depois começa-se: primeiro os copos, depois os pratos menos sujos, a seguir os mais. Chega-se a um ponto em que é preciso mudar a água. Fazem-se os talheres, enxaga-se tudo o que já está lavado e recomeça-se com o material mais pesado. Acaba-se com a bancada, o fogão, o próprio lava-loiças, o chão, se for caso disso.

É uma excelente transição da animação do jantar para a calma pós-prandial. Pensa-se no que foi - os mais saudosistas - no que aí vem - os futuristas - revive-se os bons momentos, é-se invadido por tudo o que se devia ter dito e não disse... Quem inventou a máquina de lavar a loiça fez um grande favor às donas de casa e às mulheres a dias, sem dúvida. No que me diz respeito, bem podia ter inventado outra coisa qualquer.

Excepto quando estou em casa sozinho e doente como um cacto em dia de chuva, claro. 

Apitos

Apita o fogão, apita o micro-ondas, apita o frigorífico (e guicha o porco-da-Índia, mas isso não tem nada a ver). Isto dentro de casa, que sai-se à rua e apita o carro se não puseres o cinto, apita o semáforo, apita o eléctrico apesar de estar a dois quilómetros de ti.

Tanta gente preocupada com o meu bem-estar, a minha segurança, a minha saúde... Fossem todos apitar para o raio que os partisse e não se perderia grande coisa.

Do avesso

A doença vira um gajo do avesso. As costuras belas e regulares mostram a sua natureza interior e parecem-se com cicatrizes mal tratadas; as costuras das bainhas, até ali invisíveis, ficam a ver-se (e não são nada bonitas); e por aí fora: a tosse é de tal forma que se não tenho cuidado qualquer dia apanho os pulmões no céu da boca, a hiper-sensibilidade faz-me pensar que dormir em cima de lixa deve ser mais agradável do que nos lençóis. Nada apetece - nem estar deitado, nem sentado, nem de pé. A cama fica por fazer, a loiça por lavar... As lides domésticas (pelo menos aquelas de que gosto. As outras que se lixem) revelam-nos a sua faceta sisifiana. Há dois dias que não faço a barba. A fome desaparece (nem tudo é mau, vá lá...)

Só quando se está doente se pode compreender os hipocondríacos.

13.2.20

Diário de Bordos - Genebra, Genebra, Suíça, 13-02-2020

Isto é tudo muito bonito e tal até que o corpo se lembra de que sem ele a festa fica incompleta e hoje me pespegou uma gripe de caixão à cama.

Acho adequado e proporcional: ontem esvaziei uma magnum e meia garrafa de Haut Marbuzet 2014 (não estava sozinho mas os meus hóspedes delegaram em mim grande parte do trabalho insano que é extrair aquela quantidade de vinho das garrafas e metê-la na cabeça, via aparelho digestivo).

De modo estou na cama, à espera de que a gripe se esqueça do vinho. Abafa-te, avinha-te e abifa-te, comanda a sabedoria popular. Obedeçi, claro: sou rapazinho obediente.

O pior da gripe é a hipersensibilidade cutânea. Como se não bastasse a outra, a que me faz chorar por dá cá aquela palha ou comover-me com a beleza das mulheres de Genebra (para a qual contribuí honrosamente).

Verdade seja dita: não há estadia aqui que não inclua estes dois elementos, gripe e Haut Marbuzet. Esta continuidade é reconfortante. Tal como saber que sair daqui a pouco para assinar uns exemplares do livro e acabar o que ficou na garrafa não ajuda à gripe, nunca ajudou. Que se lixe. Há valores inconfrontáveis. A amizade e a gratidão aliadas podem mais do que um estúpido vírus que só acorda com o frio.

E frio está ele: a temperatura oscila entre os zero e os oito graus centígrados. Felizmente, a rede de transportes públicos de Genebra é boa e nunca se está muito tempo na rua. Pergunto-me se o nosso bem amado  presidente da Câmara não devia considerar uma visita rápida aqui, questão de perceber que é possível uma cidade organizar os seus transportes colectivos de modo a servir a população. (Farto de o saber está ele, claro. Só piora as coisas. Mas prefere gastar o dinheiro em idiotices circulares, aquela cabeça é um vazio redondo - pelo menos no que respeita à cidade. Ele deve governar-se bem.)

É preciso ser-se velho para apreciar a Suíça ao seu justo valor.

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O Avenida vai ser traduzido, graças à generosidade de Th. J. (não se limita aos bons vinhos). Não há-de um gajo andar por aí a espalhar lágrimas por tudo quanto é canto. Não há-de um gajo pensar que no jogo de Tetris não é só a sorte que decide? Há-de, claro, mas tem de resistir. Sorte, meu caro, sorte. Levou algum tempo, mas finalmente manifestou-se.

E ainda há quem não goste de pagar adiantado. 

Melancolia

Deve gerir-se a melancolia como se se estivesse a gerir a herança de uma tia da província de cuja existência estávamos pouco mais do que a par, o totomilhões ou algo do género: uma sorte merecida, por muita sorte que seja e discutível o merecimento.

Ou seja: nada como dilapidá-la o mais depressa possível, não vá ela fazer de nós homens ricos.

("Não se deve dizer mal dos ricos. Nunca se sabe o que pode acontecer-nos.")

12.2.20

Francophonies, francophilies, francofollies

La vie de couple a certains avantages et des désavantages certains, les premiers étant arrondis et les seconds pointus. Du moins d'un point de vue masculin...

Mesdames, mesdemoiselles - oserais-je ajouter Monsieurs? Après tout je suis à L'Ivresse - si vous voulez un mari, cherchez un marin. Avec nous vous aurez les avantages du mariage sans avoir à en subir les inconvénients.

Eutanásia (uma declaração)

Esta questão da eutanásia deixa-me relativamente indiferente, porque eu quero ser eutanasiado (ou assistido no suicídio ou outra coisa qualquer) quando e se o meu corpo ou a minha mente deixarem de funcionar de molde a permitir-me viver correctamente.

Por viver correctamente, entendo: não depender de terceiros, não ser obrigado a tomar medicamentos em excesso (este patamar é baixo. Os dois comprimidos diários que tomo para a diabetes já me parecem muitos), manter a capacidade de julgar e ser julgado. No dia em que isto deixar de acontecer, a minha vida acaba.

Se legal ou ilegalmente é-me tão indiferente que quase me faz rir.

11.2.20

Sorte

Há momentos assim em todas as vidas, suponho: um gajo tem de repente a impressão de que as peças de Tetris que andavam todas desencontradas se alinham e encaixam umas nas outras, como se Deus existisse, como se Deus tivesse de repente pensado "Porra, distraí-me deste tipo, tenho de lhe dar um jeito."

Há que resistir à tentação de crer que esse Deus és tu. Não és. Esse Deus tem um nome. Chama-se sorte.

10.2.20

Diário de Bordos - Genebra, Genebra, Suíça, 10-02-2020

Dia quase perfeito, dividido em partes desiguais e na desordem entre o P., os miúdos (até quando lhes vou chamar miúdos?) e eu. A única coisa que faltou para que aquele estúpido advérbio não estivesse ali foi um pouco mais de repouso. O meu corpo está biológica, genética e ludicamente preparado para dormir a sesta. Sem ela, desequilibram-se o dia e ele.

Enfim, o mundo não acaba amanhã, graças a Deus. E eu tão pouco.

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Vejo com curiosidade que continuo a conhecer esta cidade, apesar de ter deixado de aqui viver vai para dezoito anos.

Nunca a deixei verdadeiramente, é o que isto quer dizer.

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O chilli coze docemente, o caldo verde espera o momento de se tornar verde, os "convidados" estão quase a chegar. (As aspas servem para disfarçar a emoção.) S. está nas suas montanhas, tenho a casa para mim.

Um amor que evoluiu em amizade, como a tempestade em brisa, a noite em dia e este em noite, uma ressaca em memórias. Não sei quais serão as minhas últimas palavras, mas espero que sejam "Sorte" e "Obrigado".

Pontuação feita em casa

Chegas a mim à velocidade da luz: leio-te nas estrelas, ao luar desta Lua Cheia, encadeado pelo branco violento da página. Que me dizes que não pode ser dito? Que vês em mim que não pode ser visto? Qual dos silêncios queres que eu traduza para gestos, para um olhar, para um toque nessa pele tão branca? Suspeito desse branco: tu usa-lo para tapar as palavras que temes, as palavras que te fazem tremer. É um silêncio ruidoso...

(Esta frase leva ponto de interrogação em vez das reticências ponto de interrogação)

Não sei. Não sabemos. Temos de ser nós a construir a pontuação. Ponto de amor. Vírgula de dúvida. Ponto e vírgula de amor e dúvida. Dois pontos: dois amores ou um?

Sempre esta imagem da praia em cuja areia sabes que vais morrer; sempre estes ruídos de que não sabes a origem mas adivinhas o fim. Espraiado respiras, ouves, não falas, não vês. Não sabes se és visto. Talvez sejas. Talvez não. Ouves. Serás ouvido?

Quinta vida

Faz o que fizeres. Não te esqueças de o fazer bem feito. Tudo o que é feito ou é bem ou não é. Seja o que for. Só uma coisa é difícil fazer bem: ser amado. Deixar-se amar correctamente, sem assimetrizar. Ser amado tanto quanto amas. Como se sintonizasses um rádio nas ondas curtas: é aquele o ponto, o comprimento de onda, percebes tudo o que ela te diz, lá do seu lado da cortina. Leva muito tempo a aprender. Tens de começar por amar-te e só para isso já precisas de uma eternidade. Aceitar-te como és, antes de aceitares que alguém te queira como és. De nada serve fingir. Acertar contigo mesmo, coordenar-te, acordar contigo o que és. Como se a balança tivesse três pratos: dois para ti e um para ela. Depois quatro. E finalmente dois. O amor é uma balança de precisão. Chega um dia em que te descobres afinado, calibrado, equilibrado: estarás pronto para ser amado.

Uma vida, digo-te eu. Sei do que falo: oscilo entre a inquietante dúvida e a  certeza enganadora. O meu equilíbrio é instável. Estou desafinado. Olho com olhos de ver, mas não vejo com olhos de ser visto. Ainda não estou pronto para ser amado. Pelo menos, bem amado.

Já vou na quinta vida.

(Para a P. M.)

9.2.20

Diário de Bordos - Genebra, Genebra, Suíça, 09-02-2020

Genebra. Amanhã, mais dois clássicos familiares: chilli con carne (o prato que a H. me pediu para a sua festa dos dezoito anos, já lá vão estamos à beira de dez anos) e caldo verde. Vou ao mercado de Plainpalais comprar as especiarias. Custam-me mais do que o jantar todo teria custado em Lisboa. A barreira dos preços leva sempre um momento a ser ultrapassada, de maneira vou ao stand dos portugueses beber uma Sagres e lembrar-me das bifanas. Eram sublimes e ainda o parecem, mas hoje quero usufruir do que Genebra tem de melhor: de Portugal ao Peru pode dar-se a volta ao alfabeto geográfico todo: Itália, Médio Oriente, Egipto, Oriente... Que festa para quem gosta de comer o mundo.

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Estava a ficar preocupado: dois dias seguidos de sol em Fevereiro? Frio, claro, mas luminoso, aquele azul pálido de que ao fim de uns anos de vida aqui se esquece o qualificafivo e fica simplesmente azul.

Mas hoje a meio do dia as nuvens voltaram e o velho cinzento de sempre retomou o seu lugar no céu. Vai chover a semana toda. Estatisticamente é pouco provável que volte a ver sol na semana que vou passar aqui. Em vez de me chatear, dou graças por estes dois dias.

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Venho à Brasserie Lipp beber um café. Tento não pensar-lhes no preço (passa-se com o café o que se passa com o vinho: não sei beber um número ímpar) e vejo uma mesa de tias - Champel? Cologny? - quase ao meu lado.

Não consigo impedir-me de me membrar, quanto - oh quanto - as da Versailles (e do resto de Portugal) me pareciam saídas da de um filme de Claude Chabrol. A imagem volta-me inexoravelmente ao espírito. O Maître d'O respira mais classe do que vinte burgessos de Cascais mai-los respectivos Porsches, Alfas, Hummers et al.

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Não tem nada a ver com dinheiro. Tem a ver com tempo. Ou com a interacção entre os dois.

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Da copa chega-me um animado diálogo em português. Não me apetece.

Nada me apetece senão ver os meus filhos e pôr o P. a funcionar.

Chega-me um "Foda-se!" aos ouvidos e acabo por pedir ao chefe de sala que mande calar os empregados da copa. É a primeira vez que faço isto. Pergunto-me se será a última.

"A espera o esquecimento"

"Pára de falar, se queres que te oiça", diz uma personagem de Blanchot. O livro chama-se L'attente l'oubli, a citação não é verbatim mas anda lá perto (está traduzida, é só por isso. O original diz "Arrête de parler, si tu veux que je t'entende") e eu pergunto-me se comprar demasiados livros é realmente pecado, parece-me que sim porque só o pecado é recompensado com prazeres destes. "Pára de falar, se queres que te oiça."

Como esta, há muitas mais: "Les morts ressuscitaient mourants". "Elle avait mis toute sa foi dans cette chose à laquelle elle ne croyait pas". ("Os mortos ressuscitavam moribundos." "Ela tinha depositado toda a sua fé naquela coisa na qual não acreditava.")

"Quando eu lhe falo, é como se toda aquela parte de mim que me cobre e me protege me abandonasse e me deixasse exposta e muito frágil. Para onde vai essa parte de mim? É em si que ela se volta contra mim?"

Maurice Blanchot, in L'attente l'oubli, Gallimard, col. Imaginaires.

8.2.20

Diário de Bordos - Genebra, Genebra, Suíça, 08-02-2020

Genebra. Tradicional fondue da chegada. Pela primeira vez, seis à mesa: S., eu, os dois e respectivos consortes. O termo é um pouco exagerado e propositado: com sortes, tanto um como outra. Deixo-lhes duas provas vivas de que não falhei tudo, duas pessoas boas, bonitas e inteligentes. Também eu sou com sorte.

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"Detesto que um homem me faça andar no lado de dentro do passeio, mas irrita-me que não mo peça" (Helena S., Genebra, sete de Fevereiro de 2020).

Quem faz Serpas não faz bananas.

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O plano é simples e já sei que não será respeitado: relax, amigos, ler e escrever, passear.

Isto é, não será respeitado a cem por cento, mas vou fazer tudo por lá andar o mais perto possível. A única coisa que me impede de seguir tão magnífico plano à letra é sua Majestade o S/Y P., mas esse já estava de fora à partida.  É uma espécie de fora-de-jogo de posição. Ontem já tentou desestabilizar-me, mas aguentei: só segunda-feira pensarei nele.

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Comprei livros. Dois Blanchot e um Caillois, mai-lo Dubliners para a jovem senhora da coerência. Devia inventar-se uma confissão para quem peca comprando livros.

(Vou verificar o nome de padroeiro dos bibliotecários. É S. Jerónimo e o seu dia é o do meu aniversário. Não é com confissões que hei-de lá chegar.)

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Percorro as ruas desta cidade e é como se percorresse as da minha vida, ocorre-me. Penso nisso e vejo que não é verdade: estas são demasiado limpas, arrumadas, ordenadas. Faltam vielas, becos sem saída (visível), acidentes, buracos.

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Pequena mensagem para o W. A.: os suíços continuam sem noção dos preços.

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Em contrapartida, sabem fazer transportes públicos que funcionam, livrarias que nem uma dúzia de S. Jerónimos nos arranca delas e fizeram o melhor sistema político do mundo.

A única coisa difícil de se entranhar é o custo de vida. Ao resto, habituamo-nos a uma velocidade estonteante.

7.2.20

Falar, escrever

Entrevistas em rádios. Lembro-me de F. v. U.: dizia-me que eu devia falar menos e escrever mais, porque "você escreve melhor do que fala". Referia-se a assuntos de trabalho, mas quando penso nas entrevistas não consigo deixar de lhe dar razão.

O voo do dia

Pela primeira vez em muitos anos, voo com bagagem de porão. Chegado a Lisboa desembarco e vou para os carrosséis. Ando normalmente, nem depressa nem devagar e quando chego o saco já lá está. Parabéns à ANA. Mesmo admitindo que uma andorinha não faz a Primavera, conseguiu aparentemente resolver um dos cancros do aeroporto de Lisboa.

Mais parabéns à ANA: tem os melhores filtros de segurança que conheço, disponíveis em pouquíssimos aeroportos (pelo menos de entre os que frequento). Não ter de tirar os portáteis dos sacos é uma maravilha, bandejas suficientes - só tive de esperar por elas uma vez, estes últimos anos.

Desparabéns à ANA: o walk through de Lisboa é labiríntico. Atravesso-o e penso quão bons somos a sacar, desde a autoridade tributária mais selvaticamente predadora do mundo até uma merda de loja num aeroporto.

P-q-os-p os controladores aéreos franceses. Estou piurso. Enviei uma mensagem à S. S., que pelo menos há uns anos era quem organizava as greves todas daquela imunda canalhada de privilegiados. (Não respondeu).

Parabéns à TAP: continuamos a ter a melhor companhia aérea do mundo desde que se entra no avião. E desta vez, o atraso nem foi culpa da empresa. Estávamos prontos à hora. 

Descansa

E depois há este tipo de cansaço,  não se vai embora nem com um gajo de pé nem estando deitado. Recusa-se simplesmente a desaparecer, como a erecção de um priápico: o que é demais chateia, por bom que seja.

Amanhã levanto-me às cinco e meia da manhã e ainda por aqui ando, mão estendida à cata de mais uma frase, mais um parágrafo, sinto o cansaço entranhar-se-me células adentro e pergunto-me se o aumento da esperança de vida pode realmente incluir-se na lista das coisas que melhoraram para a humanidade.

Espero que a calma quase pantanosa de Genebra produza os seus efeitos em mim.