14.9.26
Cartas - II
13.9.26
Cartas
Querida T.
Acabo de passar à frente do Lizarran aonde íamos jantar quando não queríamos jantar fora. Agora chama-se La Botana e nunca lá pus nem as alpergatas, quanto mais as botas. Depois vim ao Gibson. A mesa em que escrevia estava livre (apanhei-a por uma unha negra) e bebo uma cerveja enquanto "te" escrevo. Aspas porque é absolutamente improvável que um dia leias esta carta.
A nossa Palma quase desapareceu. Não foi só o Lizarran. A Ca na Chinchila fechou, levada pela enxurrada da pandemia. O Antiquari mudou de proprietário. O F. fartou-se e vendeu aquilo. Não resta nada. Felizmente fiz algumas fotografias. Do teu grupo de músicos só vejo o Diego, muito de vez em quando. Às vezes, essas vezes permitem-me ouvi-lo, se por acaso calha ele estar a tocar numa rua. Ainda toca bem. O Narada zangou-se comigo, não sei porquê e agora não me fala. Enfim, não me falava. Não me cruzo com ele há mais de um ano. A Mariana foi viver para Palmanova. Essa não a vejo há duas eternidades, pelo menos.
Tudo muda, não é? O meu amor por ti mudou, claro. Já lá vai década e meia que me deixaste, podre de razão. No outro dia vi uma fotografia de ti que fiz em Londres. Não sei se a apaguei. Ando a dar a volta às fotografias, a pôr o passado em ordem.
Não que queira morrer, repara. Quero só estar preparado e como este sacana deste passado é longo e não me deixa prefiro começar agora. Dir-me-ás "devias ter feito isso quando o passado ainda era presente". E eu respondo: "sim".
Devia ter-te dito "sim" mais vezes.
Teu,
Luís
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 12 e 13-09-2026
11.9.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 11-09-2026
De uma maneira geral evito ir jantar com os clientes. Mas desta vez o convite era para o La Rosa - a melhor vermuteria de Palma, se por acaso - e além disso seria mal-educado recusar outra vez a amabilidade. O grupo é simpático, nunca se perde nada em dizer a verdade, de forma que o jantar não foi o sacrifício que poderia ter sido. O salmorejo estava péssimo, estou rouco quase afónico - condição que me dispensa de falar muito -, sentei-me directamente à cabeceira da mesa para diminuir o número de pessoas com quem tinha de falar e a coisa passou, porque o resto da comida e o vinho estavam óptimos. Como entretanto tinha ido buscar a Btwin à Intermodal o regresso foi rápido. (Canto de louvor para o porta-bagagens da burra, que está ao nível do resto: excelente.)
E canto de inquietação para o ruído provocado por uma recente queda - da bicicleta, eu aguentei-me. Espero que não seja nada de grave. Amanhã tenho de ver se arranjo tempo para ir ao Ivo.
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De regresso ao RCNP. Este clube foi uma das minhas casas em Palma durante quatro ou cinco anos. A outra foi, ainda é, a Volta Dos. Suspeito que este o será também, para sempre. Se não sou eu a habitar a casa é ela que mora em mim.
9.9.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 09-09-2026
8.9.26
Diário de Bordos - Sevilha, Andaluzia, Espanha, 08-09-2026
Chegada a Sevilha. A única coisa que tinha para fazer era ir à loja do meu chapéu favorito, que por sorte é daqui, saber como fazer para o limpar e ver outros modelos, sobretudo agora que o Inverno está à porta e preciso de um chapéu porque os quinze que tenho não são suficientes, toda a gente sabe. Saio do Blablacar que me trouxe - uma viagem tranquila, prefiro de longe ser conduzido por mulheres que conduzem bem a sê-lo por bons condutores masculinos - e vou directamente para um táxi. Dou à senhora a morada da loja, sabendo que está fechada, tenho uma hora de espera mas o que não falta nesta cidade também maravilhosa são waterholes aonde esperar é um prazer e não uma seca.
Arrancamos e a taxista diz-me que aquela rua é pedonal e que se eu quero que ela me deixe no sítio mais perto terá que ir dar uma "volta turística", aspas porque cito. Em contrapartida, deixa-me a "trinta metros" (ditto) e a corrida será mais barata e mais rápida.
A loja - Fernández y Roche, para quem quiser dar um salto ao Google - estava efectivamente fechada, os trinta metros eram cinquenta (ou pouco mais) e o café que primeiro me acolheu chama-se Vinoque, fez-me descobrir um vermute que não conhecia (Misterio, de Huelva) e ia fechar dali a pouco.
Resumamos: o café Lobo-Lopez é lindo apesar de uma "obra" de Vihls que não acrescenta nada senão uma furiosa vontade de a cancelar (isto é iŕónico, se por acaso), faz um salmorejo superlativo, tapa de secretos idem, sobremesa ibidem e eu pergunto-me como é possível não ter nascido aqui? E em Málaga, não quero cenas de ciúmes. E em Cartagena? E em Palma? E em tantos outros lados?
Por que raio de carga de água nasci na língua portuguesa, uma das duas coisas que me liga a Portugal - a outra sendo este "povo de merdosos" e cobardolas, que tem defeitos, é certo, mas é hospitaleiro, generoso e tolerante e essas qualidades compensam largamente aqueles defeitos porque com elas convivo directa e quotidianamente e com os defeitos só através dos jornais?
Confesso que trocaria os amáveis portugueses pelos façanhudos maiorquinos ou pelos hipócritas suíços. Já a língua não a troco por nenhuma, com a possível excepção do francês e mesmo assim teria de o reaprender (isto é batota. Escrevia bem francês até dar a corrigir os textos. Depois, era um erro por parágrafo, no mínimo).
Atardo-me no Lobo López: o espaço é acolhedor e bonito (apesar da tal obra, repito. Depois digam que não sou tolerante e aberto e tudo), a música nada agressiva ao contrário do calor lá fora e estou sozinho, sem hordas de turistas ou de brasileiros com cães, isto é uma bênção, uma dádiva, um sacramento. Não sei como ir para o aeroporto, se de táxi se de autocarro. Meia-hora contra uma hora. Quanto vale o meu tempo? Nada. E o meu conforto? E não ter de andar vinte minutos até à Plaza de Armas? E se o autocarro está cheio, como de costume e tenho de ir de pé? Andar não seria um grande sacrifício, aliás era uma das coisas que queria fazer. Porém, este calor dissolve todas as vontades que impliquem não estar numa sala com ar condicionado.
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Conversa séria, franca e substantiva com a carteira. Decidi que íamos de autocarro para o aeroporto. Enfim, eu não decidi nada. Quem decidiu foi ela. Aplica-se às carteiras aquele velho dito francês: "o que mulher quer Deus quer". Fiz bem. Mais meia-hora na cidade teria feito menos diferença do que a diferença de preços. Acresce que o autocarro está quase vazio, pelo que tenho lugar sentado.
Além de que prefiro aplicar essa massa no táxi para casa, em Palma.
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PS - O avião está atrasado meia-hora. Carteiras e mulheres têm sempre razão.
7.9.26
O que tem de ser tem muita força
É a história breve de um gajo que um dia quis abrir um bar de alterne chamado Cona Mágica. O registo recusou, claro. O homem registou o nome Dona Mágica e fez um logo escrito em caixa baixa, fonte manuscrita com a haste do d quase invisível.
3.9.26
«On est tous le con de quelqu'un et tant pis pour lui»
De que o Ocidente está a entrar numa fase de estupidez colectiva restam poucas dúvidas. Ele é o «amor» pelos animais, coitadinhos (aspas porque se isto é amor eu sou a mulher do Papa. O amor não é - ou não deve ser - obsessivo, simbiótico, irracional e sobretudo maléfico: vejam as pessoas que andam com cãezinhos ao colo ou em carrinhos de bebé para animais); ele é o pânico com o «CO2» (aspas porque é irónico. Se tivesse escrito «Maligno» seria a mesma coisa); ele é a «indignação» (ditto); e por aí fora.
Acontece que eu não acredito que toda a gente esteja a ficar estúpida ao mesmo tempo. O QI é uma média e a distribuição em torno do cem é uma curva de Gauss perfeita. Ou seja: só uma parte desta mudança deve ser atribuída à estupidez. A outra é certamente devida a movimentos tectónicos das placas culturais. Ao contrário do que nos ensinam na escola primária o Homem (colectivamente, claro) não é um animal racional. É um animal de mitos e símbolos que pontualmente escorrega para a racionalidade.
Agora apareceu uma sub-espécie dos amigos dos animais: pensam que o mar é das orcas, não é nosso. Elas têm todo o direito de nos atacar porque nós é que estamos a invadir o território delas. Esta tese é tão mentecapta, tão idiota, tão indigente, tão imbecilóide que não vale sequer a pena perder tempo a desmontá-la. Normalmente limito-me a explicar a quem a defende que desejo que as aves não adoptem o mesmo comportamente da próxima vez que eles apanharem um avião.
Tenho de fazer um mea culpa, mea maxima culpa: intervenho por vezes para defender a ideia - que defendo - de que mais tarde ou mais cedo vai ser necessário matar uma orca ou duas (ou três) por puro divertimento. Gosto muito de ler as respostas - normalmente insultos - de pessoas que têm um QI igual ao dos ditos bichos, coitados. Em geral tratam-me de imbecil. Eu concordo. «Somos todos o imbecil de alguém», como disse um senhor chamado Jean Dion, québécois e jornalista (do tempo em que ainda os havia). «Azar o dele.»
2.9.26
It's far too late
É um casal jovem que cruzo numa dessas ruas pedestres de Lagos, igual a dois milhões de outras ruas pedestres em qualquer buraco de turistas. Devem andar os dois pelos vinte e poucos. Beijam-se com força, quase violência. Se fosse uma banda desenhada teriam coraçõezinhos a saltar-lhes dos corpos. Penso que é normal, estão na idade do acasalamento. Já eu estou na idade do desacasalamento, continuo. E daí pergunto-me "seria possível desamar as mulheres que amei?" Amei no sentido directo do termo, não no outro. Não sei. Não teria muito interesse, de qualquer forma. A primeira senhora que me vem à mente é uma portuguesa que vive no centro do país e me fez substituir - para sempre? - o nome da estação daquela cidade pelo nome dela. Passo por ali frequentemente, nas minhas andanças entre o norte e o Lisboa e vice-versa. Depois vou andando para trás no tempo. Não são muitas, nem a meia-dúzia chegam mas interrompo o exercício por falta de interesse. É demasiado tarde e de qualquer forma já cá não estão. Cá sendo o mundo aonde vivo, desacasalado, desapaixonado, desenamorado, a viver de memórias desencadeadas por dá cá aquela boca. Elas lá andam, pelo mundo delas. Algumas já me terão esquecido, outras desejarão talvez nem me terem conhecido. E eu, lembro-me de todas?
29.8.26
Tristezas, magrezas
A rapariga é magra, esquelética e trouxe-me à memória uma mini-aventura que tive uma vez já não me lembro bem aonde. Creio que foi em Ponta Delgada. A senhora também era muito magra. Estava noutro barco. Era francesa, disso tenho a certeza. Não recordo as circunstâncias. Só me lembro de que decidimos passar a primeira noite num hotel e quando chegámos ao quarto ela disse-me:
- Sabes, nós, as magras, somos boas para sair e péssimas para voltar para casa. - (Isto tudo em francês, daí recordar-me da nacionalidade dela: on est bien pour sortir mais pas bien du tout pour rentrer.) Enterneceu-me muito, a tristeza com que me disse aquilo. Passámos dois ou três dias juntos, até um de nós largar para outro sítio qualquer. E continuámos no hotel. Eu tinha um tripulante, ela uma tripulação e achámos os dois que há penas que não são de exportar, que ficam melhor entre duas pessoas que sabem de tristezas.