18.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 18-08-2026
17.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 17-08-2026
Venho jantar ao Fidel. Os franceses têm uma expressão bonita para descrever como me sinto: je suis lessivé. Estou lexiviado. Em português não funciona: demasiado perto de lixado e eu não o estou. Estou lessivé, simplesmente. A temperatura está finalmente no ponto certo, as mulheres comtinuam belas como só esta cidade (e Genebra) sabem fazê-las, o Fidel recebe-me com o abração de sempre, trouxe canetas para escrever à mão mas estão vazias. A praça está cheia e e comovido com isto tudo, esta mistura de dor, beleza, vermute, calma (Palma-a-calma não é só uma rima). Paguei a renda e dei um adianto para a Btwin, esta burra é boa demais para estar longe de mim. Não sei aonde a vou pôr, mas iso é um pormenor de somenos nesta grande ordem das coisas. O vermute é excelente. Não há nada nesta casa que não o seja. Já em mim é o contrário: parece que estou a apodrecer aos bocados.
O charter acabou ontem mas hoje ainda tive de ir a Portocolom. Bancas, fazer água e pagar os dias de bóia. Comi lula frita no Mestral e vim com o M. para Palma. A meio do caminho tivemos uma avaria no carro. M. é um dos deuses do meu Olimpo de mecânicos, passem-me por favor o lugar-comum. Era uma peça partida. Desenrascou aquilo e para além do atraso o único impacto foi que me deixou no passeio marítimo em vez de me levar a casa.
O jantar é uma espetada de carne com puré de batata picante, acompanhado por um Rioja que é "leve, fresco mas saboroso". Se há coisa que o Fidel e o Tom sabem fazer é escolher vinhos (e empregadas e cozinheiros - é o mesmo desde que os conheço). Vir comer aqui é como ir dar um passeio ao jardim das delícias, com estas elevadas à potência dez.
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Mantenho a decisão de acabar com os opióides: hoje sim, o meu analgésico será uma mistura de vermute, vinho e hierbas. O rum fica para depois, no Jaume.
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Está um bocadinho de vento mas parece-me demasiado tarde para ser térmico. É um sinóptico, ventos fiáveis, não estão de passagem. Mentira: vou ao ECMWF confirmar e diz-me que não há vento nenhum. Isto é um resto da térmica da tarde. Não tarda desvai-se. No meu quarto tenho sempre a ventoinha. É eléctrica, não depende de diferenças de temperatura nem de pressão.
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Tenho de encher as canetas. Não sei se pedirei uma sobremesa. Não tenho fome. Mas tão pouco tens sede e pediste mais um copo de vinho.
Desculpa: é tarde para discussões filosóficas. O que está em causa é: uma sobremesa aqui ou um gelado no Claudio? Ou os dois? Ou nenhum? Ou uma piña colada no After Landing? Ou ir para casa encharcar-me em comprimidos não opióides?
Ou, mais simplesmente, deixar que seja a cidade a decidir e ir a Santa Catalina beber um copo como deve ser?
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A cidade e a idade decidiram em conjunto: Santa Catalina é muito longe. Vim ao After Landing, pedi um pisco sour que está uma merda e não tarda estou na cama, feito uma merda eu também.
Raio de mania de "inovar". Vão prá pata que vos pôs mai-la inovação, foda-se! (Analgésico.)
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Há uma espécie de mimetismo entre mim e a cidade. Ela amplia-se e mingua em função do meu cansaço. Enfim, em função de mim. Eu não sou só cansaço.
16.8.26
Diário de Bordos - Portocolom, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-08-2026
15.8.26
Diário de Bordos - Cala Mitjiana e cala Guya, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-08-2026
Para a semana haverá pouco trabalho, com o tempo que aí vem a partir de quarta ou quinta-feiras. Pode ser que consiga dedicar-me às cantigas, que tanto quero fazer. Os gajos do totomilhões não ligam nenhuma aos meus planos, está visto. Bem podiam dar-me um adiantamentozito, eu prometo que voltarei a comprar aquilo quando chegar a Portugal. Se os meus impulsos altruístas se mantiverem, claro, qu'isto de ajudar os pobres tem limites. Sejam eles portugueses ou togoleses. Enfim, filantropia um pouco egoísta, desconfio. Não é porque as probabilidades de ganhar alguma coisa são infinitamente inferiores às de ajudar quem precisa que se deve deixar de jogar.
Voltámos para cala Guya. É porreira. Poucos barcos e muito espaço. Pouco vento e uma óptima atmosfera a bordo. É como digo: a coisa aqui não está preta.
14.8.26
Diário de Bordos - Cala Guya, Mallorca, Baleares, Espanha, 14-08-2026
Cenas de bar
13.8.26
Diário de Bordos - Es Trenc, Mallorca, Baleares, Espanha, 13-08-2026
A semana vai bem: vi o meu primeiro e provavelmente último eclipse total do Sol, as dores na perna só me atacam com violência à noite na cama - durante o dia dão-me apenas uma breve lembrança de que ainda por aí andam, coisa que me alivia bastante porque os clientes de charter não costumam gostar de skippers que mal se podem mexer - estes clientes são impecáveis e já só faltam três dias para regressar ao meu refúgio na casa Volta Dos, que tantas vezes me acolheu.
A loucura provocada pela Lua a passar à frente do parceiro é descriptível mas não muito interessante: milhares de pessoas no cabo Ses Salines, outros milhares na costa da Colonia San Jordi, larguíssimas centenas de embarcações fundeadas em Es Trenc. Tive sorte, arranjei um poiso decente um bocadinho antes de Ses Covetes e aqui ficámos. Hoje passamos de novo a noite aqui. Amanhã, cala Mitjiana, que já foi pertença de uma grande família aqui da ilha e agora é pública. Por curiosidade, essa família é uma das clientes de uma das senhoras que trago a bordo e é consultora em transmissão de gerações em empresas familiares. Não sei se transmissão é o termo exacto. Já tive uma consultora em pricing e agora tenho uma em mudança de gerações.
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A vantagem destas dores para os meus leitores é que os posts são curtos.
12.8.26
Eclipse, século XXI
As pessoas que gostam de dizer "estamos no século vinte e um e..." segue-se uma coisa qualquer que elas pensam antiquada ou inaceitável nos tempos modernos deviam analisar a excitação que por aí vai com o eclipse. Não mudou desde os Neandarthal, aposto.
11.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, 11-08-2026
Vim finalmente jantar ao Gigi's Piccolo Ristorante. É igualzinho a um outro restaurante do género que conheço. Falta só esta réstea de oceano que os separa. Não recordo aonde era. Tendo a pensar em Marselha mas duvido: o ruído seria dez vezes pior; também não foi nas ihas Borromeo. Talvez Paris, talvez o restaurante não fosse italiano ou americano ou coisa que o valha. Talvez fosse apenas um pobre diabo a fugir de qualquer coisa: o cansaço, as dores, isto de a partir de amanhã ter mais cinco de charter, o seu país... que sei eu? Que quero saber? Nada, na verdade. Excepto ir para casa, arrumar a bicicleta, ir para a cama.
A qual cama é, de resto, um dos piores sítios aonde posso estar. É là que as dores são piores e menos suportáveis. Hoje no charter portou-se tudo bem, vá lá. A ver como vai ser amanhã. Cinco dias incluindo o do eclipse - amanhã, por sinal. Está tudo doido com o eclipse. Já vi um ou dois da Lua e um parcial do Sol. Este vai ser o primeiro total for Sol. Confesso que não estou muito excitado com o fenómeno. A ver vamos, dirão os sobreviventes. E eu, se for um deles.
Apesar do que bebi ao jantar, tomei um desses comprimidos que não se devem misturar com álcool. Paciência. Tudo é melhor do que a noite que passei ontem. Até não morrer.
9.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 09-08-2026
A livraria inglesa de Palma está fechada para férias. Encomendei is livros sugeridos pelo G. C. na de Lisboa. Vão ter de esperar pelo meu regresso. Esse pelo menos tem die.
8.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 08-08-2026
A farmácia que não me deixava entrar com a bicicleta fechou. Tenho pena. Não contribuí muito para tâo triste desfecho. Apesar de ter de deixar a burra à porta ia lá mais do que às outras. O senhor inspirava-me confiança. Hoje fui a uma das sobreviventes (Eram três. Agora são duas). Comprei vitamina B12. Parece que ajuda a combater o cansaço. Estou cansado de me ouvir dizer que estou cansado. Também comprei Voltarene, ver se curo esta porra desta inflamação no polegar direito. Três semanas de incómodo justificam o investimento. Aquela porcaria é cara pra burro mas a verdade é que é eficaz. Depois fui à roupa e agora tomo o pequeno-almoço no mercado. Vou comprar especiarias ao Cristian. Hoje vai ser o dia das paprikas e pimentões. Tenho de comprar um almofariz na Culinarium. Se tivesse de fazer um desenho da minha vida em Palma sairia um círculo com centro no Olivar? Circulo não, mas elipse sim e um dos focos seria aqui de certeza. O meu café favorito no mercado chama-se Can Jaume. "Artesans des de 1927", verbatim. Porém, é raro comer aqui. Prefiro os "restaurantes" - o Xisco, o Hugo, o Corner aonde já só vou para o vermute. As tapas são boas e caras. O Can Jaume é um sítio honesto, tem tapas correctas a preços idem. Hoje vou almoçar ao Xisco com o V. Se tiver secretos, claro. Se não vou à Selecta para uma sandocha de presunto. E se em vez de ser uma figura geométrica a minha vida em Palma fosse um sistema de caminhos de ferro? Carris, agulhas, estações, apeadeiros, salas de espera... Märklin de vida, deslumbramento infantil, com uma diferença: este não passará.
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O jantar foi metade do resto da arepa que trouxe do Cric & Croc, a sobra do vinho branco de ontem, a sobra da melancia (uma boa merda, de passagem seja dito), um mochi de maracujá e cento e vinte e cinco de sake da casa no Otaku. A resposta à pergunta "Porque é que todos gostam de Palma?", que eu tantas vezes me fazia quando aqui cheguei, está em cada esquina.