Ainda não domino a mini-burra a cem por cento mas já não estou longe; e nela a cidade, idem. (A propósito - ela - a mini - teve o seu primeiro piropo, ontem: «é bonita, a sua bicicleta», diz-me um colega ciclista montado numa dessas burras de milhão e meio de euros. «É nova?» «Obrigado! Não, é pré-histórica», respondo, algo injustamente, desestabilizado pelo inesperado do cumprimento e pela velocidade a que me ultrapassou. Quase consegui ver o contrail que de certeza deixaria se estivéssemos num sítio que permitisse velocidades mais elevadas.)
O método é simples: trata-se de não mudar de direcção nem um milímetro sem previamente assinalar a mudança, mantendo o braço no ar desde muito antes da manobra até esta estar bem iniciada. As faixas de rodagem são estreitas, as ciclovias também, as velocidades de carros e bicicletas eléctricas elevadas e estes em quantidades avassaladoras. A minha burrinha, coitadinha, é pequenina mas não é propriamente um peso-pluma, não tem mudanças e eu não sou o Joaquim Agostinho, de maneira a minha velocidade diverge bastante da dos outros veículos. Isto não me impede de fazer os quarenta minutos que separam a casa da S. da da L. e os trinta que o percurso inverso requer, consequência sem dúvida de para lá ser a subir e para cá a descer, por conseguinte. Sobretudo agora, que tenho luvas e não penso que precisarei de serrar os punhos para tirar as mãos do guiador, como fez aquele pescador da Terra Nova que quando sentiu que as mãos estavam a gelar e a colar-se aos remos deixou o processo continuar até que elas ficaram mesmo congeladas. Quando aterrou, finalmente - não me lembro se na Islândia se na Gronelândia - serrou os punhos (alguém os serrou por ele, presumo - e foi à sua vida. (Por curiosidade: mais tarde viria a fazer uma travessia do Atlântico à vela, em solitário, sem as mãos e mais rápido do que aquele aldrabão socialite do Alain Gerbault, que as tinha às duas.)
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Esperam-me quatro dias sozinho em casa, hoje está um bocadinho se sol - em Genebra nunca há mais do que um bocadinho, de Outubro ou Novembro a Março ou Abril - encontrei um Bordeaux a um preço perfeitamente bebível e comprei café Huehuetenango, descoberta recente e abençoada. O que lhe falta em cuisse sobra-lhe em sabor e em preço - metade do Ourang Outan de quando aqui cheguei. Este café é particularmente interessante porque vem da Guatemala e eu costumo dizer que não gosto de café das Américas salvo excepções e este é mais uma dessas excepções. A continuar assim ainda vou encontrar um café brasileiro de que goste.
(A genciana das Franche Montagnes acabou. É uma coisa que acontece frequentemente às garrafas, venham elas de onde vierem. Sobretudo quando são boas.)
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O dia do meu regresso a Portugal já está à vista. Portugal não é a palavra certa. Esta é: casa. sou mais caseiro do que patriota.
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O café chama-se La Paire, é na rue Maunoir e intitula-se café fripperie. O sítio é giro e pequeno, a música não muito má aoesar de ser moderna (pelo menos não é electrónica, hip hop ou assim), a empregada jovem e simpática e, finalmente, o vinho decente (até ver quanto custa). Leva-me imediatamente parao café em Buenos Aires que também vendia roupa em segunda mão e aonde ouvi uma das histórias mais engraçadas da minha vida. Muito muito resumidamente: o café em Sant Elmo era uma bar de tango e sextas e sábados organizava soirées de dança. Um austríaco e uma francesa, não garanto as nacionalidades, apaixonaram-se numa dessas noites, já a noite ia avançada e perguntaram ao dono aonde poderiam encontrar um padre para os casar. Buenos Aires não sendo Las Vegas, um padre era impossível, à meia-noite ou cois que o valha de sábado. Mas, as roupas vindo do teatro nacional não-me-lembro-do-nome, o dono do café e o homem que organizava a venda das roupas, funcionário do dito teatro, foram procurar no acervo de roupas as adequadas para um casamento e encontraram-nas. A cerimónia realizou-se ali mesmo, tudo vestido a rigor, desde a noiva ao oficial do estado civil, passando pelo padre e pelo noivo, ao som da Marcha Nupcial tocada no piano do estabelecimento.
O La Paire e a sua escolha de roupa em segunda mão são demasiado pequenos para reproduzir tal espírito de iniciativa. (Felizmente a minha memória tem muito espaço.)
Além de que aqui não há piano e não há tango, música propícia a arrebatos.