12.6.21

A farsa que mudou o mundo. 7 Machos. Palma.

Continuo a minha via dolorosa. Hoje vim ao 7 Machos beber uma Margarita como deve ser. A Lina lembra-se de como eu as quero (secas, com gelo em cubos), o Johnson está de regresso à cozinha e - prémio - o Mark agora trabalha aqui. Santa Catalina está a abarrotar, cheia de gente na rua e ninguém (enfim, quase) com máscara. No canto vizinho do meu, uma cubana (suponho) faz-me pensar na sorte que o meu Pai teve e no maldito elástico que tenho nas costas cada vez que me aproximo de Cuba: puxa-me para trás, não me deixa pôr pé em terra. Já tentei três vezes.

É curioso como as nossas apreciações mudam com as circunstâncias. Sempre detestei Sant Magi e nunca aqui vinha ao fim-de-semana, porque detesto esta boémia que mais parece uma inundação. Hoje foi um gozo sem fim vê-la. O mundo não será decididamente o mesmo depois desta farsa. A farsa que mudou o mundo.

PS - A senhora não é cubana. É equatoriana. 

Prequelas

Sabe-se que a Covid pode ter sequelas graves. Menos conhecido é o facto - comprovado - de ter prequelas. As mais frequentes sendo: independência de espírito, indefectível sentimento de liberdade, espírito crítico e racionalidade.

Curiosamente, estas prequelas imunizam a pessoa e protegem-na ab ante.

Descarrilar

Ser contra a modernidade é como querer parar um comboio que vem a toda a velocidade contra nós? É, sem dúvida. De nada serve especarmo-nos no meio da linha e tentar pará-lo. Ele esmagar-nos-á.

Mais vale dar um passo para o lado e deixá-lo passar. Descarrilar, por assim dizer.

Tempos interessantes?

A modernidade erigiu o medo em virtude suprema. Ter medo é bom, é ser inteligente, altruísta, pensar nos outros. Já não se pode "negociar" com o medo (que é o que os valentes fazem. Ser valente não é não ter medo. Isso é ser idiota. Ser valente é lidar com o medo). Tem que se destroçar o que provoca o medo, destruir a causa do medo, aniquilá-la, reduzi-la a nada, suprimi-la. Ser valente, enfrentar o medo é ser irresponsável - e pior ainda, irresponsável social. Ninguém é nada pessoalmente: somos todos parte de um grupo, de uma "identidade".

O medo como valor, a biologia relegada para o caixote de lixo da ideologia, a mentira aceite se for em nome do medo, da paz social ou de outra fé qualquer, a crença no poder da palavra («os confinamentos funcionam porque funcionam, porque Macron diz que funcionam e porque Trump ou Bolsonaro dizem que não funcionam», por exemplo. Mas há muitos mais). Ouvir é preferido a ver, a olhar, a procurar: privilegia-se a passividade - o que não é de espantar: a única acção socialmente aceite passa-se nos monitores dos computadores. À rua, as crianças só vão acompanhadas, protegidas. O pensamento mágico ressurgiu, reemergiu após este breve período de racionalidade que o Ocidente viveu no século XIX e na primeira metade do XX.

Como é aquela maldição chinesa sobre viver tempos interessantes?

Gente perigosa

"Solo viaja la gente peligrosa: soldados, mercenarios y traficantes de esclavos", leio no Prólogo de El infinito em un junco, de Irene Vallejo. É uma história do livro, li recentemente uma crítica bastante positiva e fiquei curioso.

Mas o que me interessa não é isso. É: "Só a gente perigosa viaja". Nunca me vi como perigoso, longe disso, mas à face da Covid compreendo e ilumino a frase. Nós nómadas somos perigosos. Com ou sem vírus, o  nómada é aquele que viu outras coisas. Que viu e não pode desver o que viu. Aprendeu o cepticismo pela via da prática e não pela teoria. Nós nómadas sabemos que há várias verdades, porque as vemos; e sabemos que a nossa é a melhor porque a transportamos connosco, porque resiste, porque se adapta, acrescenta. A cada paragem a nossa verdade engorda e confirma-se, num processo dúbio, biunívoco, fágico. Por isso somos perigosos: aprendemos, comparamos, vivemos com e pela diferença. 

O nómada é perigoso numa ordem estática, tal como o sedentário seria perigoso numa tribo nómada: a erva é mais verde no prado do vizinho.

Isto tudo dito, concordo com a asserção inicial: a gente que viaja é perigosa. 

Inevitabilidade

A noite estival cai em Palma como a mulher de um casal antigo sobre o homem que conhece há trinta anos: com uma mistura de desejo e inevitabilidade. 

11.6.21

Palma, Cohen

Palma chama por mim e diz-me adeus ao mesmo tempo. Parece uma história de amor de Leonard Cohen.

A praça e os copos esvaziam-se ao mesmo ritmo: lento. O ritmo de uma história de amor que chega naturalmente ao fim. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 11-06-2021

Se bem me lembro, a Via Dolorosa tinha doze estações. Uso o pretérito imperfeito porque agora já só uso a expressão num sentido jocoso. A Via Dolorosa jocosa de Palma tem muito mais do que doze estações: Lo Divino, Antiquari, Mise en Place, La Cantina, Bodega Bellver, La Bodeguita del Centro, Gustar, Abracadabra, Quinta Puñeta, Mini-restaurante Casa Julio (sic), La Quadra del Maño, Makaria, Sete Machos, Bar Rita, Ca na Chinchilla, Viniloteca, Mercat de l'Olivar (só aqui há quatro ou cinco estações), Plaça D'en Coll, o Toni na praça de Sta. Eulália, onde agora como uma tortilha  e duas almôndegas (estas presente da casa)... a lista é interminável e bom praticante que sou vou percorrendo o caminho todo, cruz aos ombros e copo na mão. Ontem bebi metade do álcool que Palma tem disponível (sou um rapazinho sensato. Se não fosse teria esgotado os stocks) de modo hoje o percurso vai mais lento e mais frugal. Cada vez que me reencontro com Palma ela entra-me pela boca abaixo, pelos olhos acima, pelo espanto: chego aqui e é a primeira vez, cada vez. As mulheres continuam lindas e mascaradas mas as ruas têm hoje mais gente do que da última vez e menos do que da próxima, aposto. Palma vive e respira, apesar de estar ainda manietada. Já eu ando mais solto. O I. não tinha a Órbita pronta e a minha reacção foi je m'en fous, me dá igual, poco importa, who cares. Tê-la-ei amanhã, palavra mágica que acolhe a metade do mundo que já foi e a metade que está para ser. Tudo aconteceu amanhã, dia em que tudo vai acontecer.

.........
«Aluguei» uma BTwin ao I. (entre aspas porque se se atreve a cobrar-me seja o que for... eu pago, ponto. Sei que não vai cobrar-me nada), pedalo por essas ruas fora e sinto-me como se estivesse num tapete rolante daqueles dos ginásios: pedalo imóvel e a cidade desliza por baixo de mim, ela mexe-se, chama-me, acena-me e eu sentado imperialmente na minha burra vejo-a passar e páro em cada estação, na medida do possível. 

........
Hoje varei o P. Vi-o claramente a fazer cabriolas de alegria - também ele sente o fim próximo, já estamos na última linha do último parágrafo e qualquer dia viramos a página. Ó tempo abensonhado, como lhe chamou o Mia Couto, se não me engano. Abensonhado, tanto que eu sonhei com ele a bem, tanto que desesperei dele, tanto que o insultei e lhe rezei. Está aí, à porta, a última linha do último parágrafo deste capítulo. Não tarda começa outro.

.........
O amor bateu-me à porta e eu abri-a. Tem nome de flor e é uma flor. Deixei-a entrar e fechei a porta: daqui não sais, daqui ninguém te tira.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha - 10-06-2021

Regresso a Palma vazio de emoções. Ou melhor: vazio de emoções que não tenham a ver com esta fraude que me enche, recheia, hipnotiza, asfixia. Entra-se no aeroporto e ouve-se «A máscara por cima do nariz» e é até ao sacana do táxi, seis horas depois - por inacreditável coincidência o mesmo que me trouxe da última vez, quando tivemos quase a mesma conversa. Quase, porque na altura ainda não me pegava por sistema, como hoje tenho tendência a fazer. É um puto novo, trinta e poucos anos, mas acredita firmemente que quando a pandemia acalma é por causa das medidas e quando desacalma é porque as pessoas se portam mal. Os países protestantes talvez sejam melhor para viver este tipo de crises, não? Não sei.

A verdade é que este «vazio de emoções» não é inteiramente verdade: penso no Harry Belafonte e na «little girl» que ele deixou em Kingston Town.

But I'm sad to say I'm on my way
Won't be back for many a day
My heart is down, my head is turning around
I had to leave a little girl in Kingston Town

Penso nas «casas» que vou reencontrar em Palma: a Chinchilla (cf. infra), Lo Divino, que reabriu agora que as regras «aliviaram» (isto de as pessoas ficarem contentes com esse "alívio das regras" é como uma senhora ser violada e ficar agradecida porque o violador lhe oferece um lenço para se limpar), o Antiquari... todas, todas.

(Cena de hoje na Chinchilla: antes de me ir embora deixei vinte euros para pagar uma despesa de quatro, porque o táxi chegara e não podia esperar. Hoje, o A. deu-me o troco, que estava guardado. Foi há quase um mês...)

E assim o dia / noite vai decorrendo. Sublime jantar de boquerones fritos e involtini de pez no Divino, um Dark and Stormy que não é nem dark nem stormy e é carérrimo depois. 


6.6.21

Hipocrisia, irracionalismo

No fundo, aquilo que agora se designa por hipocrisia não passa do irracionalismo que o Ocidente erigiu em sistema de "pensamento", entre aspas porque é um oxímoro. «Tanto a Ilíada como a relatividade são filhas da imaginação», diz Veyne. Verdade incontornável, mas isso não as põe no mesmo plano. No mesmo cenário, digamos. Cenários esses que a modernidade confunde, talvez por causa do relativismo, que faz equivaler todas as verdades. Estranhamente, esse relativismo esvai-se perante sociedades que o não partilham. Isto é: todas menos a ocidental. Só defendemos as nossas opções em casa. Fora, aceitamos sem vacilar as regras do outro. Não por deferência ou educação, mas porque nos esquecemos das nossas.

On n'a pas gagné

«Ce n'est donc pas une histoire édifiante que nous racontons ici, celle de la raison contre le mythe. Car la raison n'a pas gagné, on le verra...» 

P. Veyne, in Les Grecs ont-ils cru à leurs mythes?

5.6.21

Granito, sorriso, tangível

Nada disto é simples. Quero dizer: se por exemplo deres uma volta ao mundo e regressares ao lugar de onde partiste - a chamada volta ao mundo perfeita - o lugar mudou durante a tua ausência; e tu mudaste, mesmo estando sempre presente em ti. As coisas acontecem com ou sem nós, como se não  passássemos de meras ilusões ópticas. Ou tácteis, se preferires, tu que tanto gostas de tocar, do que é tangível.

Tens, é certo, uma noção peculiar do que é tangível: um sonho, um seio, um ventre, uma vaga, meia dúzia de sílabas juntas ou separadas... Nada do que te toca te foge ao toque. Tudo o que te toca é imediatamente tangível. Há uma certa ingenuidade nisso, ambos o sabemos: acreditar que a pessoa com que agora sonhas é tangível porque o seio com que sonhas o é demonstra - estou seguro de que concordarás - uma certa inocência, uma espécie de virgindade do espírito, a lisura aquática de um lago num dia sem vento, o luar que nessa lisura se reflecte sem querer, o sonho de uma folha de árvore desse dia sem vento, o sorriso da jovem que de repente descobre que já não é adolescente e te pode esperar ao seu lado, nessa noite lisa, sem vento e prateada.

Todo este tempo a realidade limou as garras em ti mas tu não lhe sentes as marcas, envolto nessa ingenuidade tangível que construiste com o pó das garras que a realidade foi deixando em ti. Cicatrizas depressa, cais e levantas-te ainda mais depressa, sorris como se não soubesses chorar.

Tu, que tanto e tão bem choras, sorris e tocas a ausência, a presença, o mundo do qual e ao qual regressas com uma granítica e palpável certeza.


(Para os meus filhos T. e H.)

3.6.21

Abismo, gravidade, amor

Deixa-me explicar-te: amar é um risco. Só um imbecil se entrega ao amor como se mergulhasse em água de que desconhece a profundidade, sem ao menos pôr os braços à frente. Como se mergulhasse de cabeça com os braços ao longo do corpo, soldadinho de chumbo atirando-se para as chamas do fundidor. Nada disso. Amar-te é um risco porque amar é um risco mas ser amado por ti é um risco ainda maior. 

Não te esqueças: o metalúrgico está lá em baixo, a nossa espera. À espera do primeiro que caia. Mergulhemos sim, mas com precauções: passo a passo. Mais vale cair devagar no abismo, minha querida.

Verdade seja dita: não temos escolha, pois não? Conheces algum abismo que resista à gravidade? Eu não. 

Vergonha, decência, passado

Post em linha recta.

Pergunto-me se a decência de um homem se pode medir pela quantidade de coisas de que se envergonha no seu passado?

Talvez no fundo a decência não seja mais do que o cúmulo dos erros, asneiras, actos e omissões que vão ficando para trás e não se repetem por... porquê?

Diário de Bordos - Bissau, Guiné, 02-06-2021

Hoje tive sorte: saí do Kais a pensar que teria de voltar a pé para o hotel e em dois minutos pára um moto-táxi à minha frente. Hoje tive sorte: voltei ao Kais, a música era aceitável, a caipirinha "tropical" era excelente. Tive sorte: o caldo verde de caldo verde só tinha o nome e a boa vontade do cozinheiro, mas o hambúrguer era quase um hambúrguer e o vinho não era mau.

Na mesa ao meu lado estavam sentadas três jovens "não governamentais". Uma era obesa, portanto não conta, perdoem-me os inclusivistas todos. As outras duas eram giras. Há uns anos teriam sido... Como se diz em português? Caça? Terreno de jogos? Desafio? Não sei. Pouco me interessa hoje o que hoje não me interessa de todo. (Isto faz lembrar aquela fábula do La Fontaine, não faz? Faz.)

África ainda é para mim o mesmo turbilhão de há uns vinte anos. Porque aceitamos aqui o que não aceitaríamos nos nossos países: ruas que são esgotos a céu aberto, com mais buracos do que as crateras lunares, pobreza (verdade seja dita: não vi miséria, aqui), nepotismo, o desprezo das castas superiores pelas inferiores, a pesporrência, o desperdício? Porque continuamos a viver na ilusão de que as independências foram boas, que trouxeram liberdade e prosperidade a esta gente? Porque desprezamos tanto estas pessoas que alimentamos tantas ilusões? Porque aceitamos lidar com estes governos corruptos?

Hoje olho para trás, lembro-me dos dez por cento de comissões que pagava (indirectamente. A agência para a qual trabalhava ignorava totalmente que estava a fazê-lo) ao governador da província na qual decorria a operação (trinta e seis mil pessoas, entre refugiados e IDP) lembro-me de quando ele nos veio pedir quinze por cento e lhe dissemos não, lembro-me disso tudo e admiro o meu pragmatismo. Hoje não seria capaz de fazer a mesma coisa.

Isto revolta-me. Cada vez sou menos capaz de compactuar com a mentira, com a hipocrisia, com o sofrimento alheio. Deve ser a isto que se chama velhice, não sei. Se for, a velhice não é tão má como a pintam.

O meu saco de pedras - todos nós carregamos um aos ombros - aligeirou-se bastante: as pedras grandes saíram e foram fazer brita para cimento; as outras deixaram de chocalhar. Brevemente juntar-se-ão às grandes na britadeira. A verdade é que nos últimos tempos não tive grande disponibilidade para fazer muita coisa. (Quando olho para trás, vejo que a entrevista com o ministro foi ontem, só. Chamar "últimos dias" a um dia e quase meio é um exagero.)

Não sei se tudo isto vai servir para alguma coisa, mas sei que prefiro tê-lo feito a não o ter feito. Talvez no fundo seja este o critério: não sei se perdi dinheiro, se perdi tempo,  mas sei que prefiro tê-los perdido a não ter sequer experimentado. Há sempre um moto-táxi à minha espera, nos momentos mais complicados.

1.6.21

Crenças, Covid e religião

Há quem acredite que comprar bilhetes do totómilhões é um investimento razoável ou que Jesus transformou água em vinho; na Idade Média, quase toda a gente acreditava que os surtos de  peste foram debelados graças às orações e ao Divino. Há uma certa racionalidade nisto: a melhor explicação para um fenómeno é a mais fácil, a mais evidente, a que está à mão de semear, por assim dizer. Já a ciência, o método científico exigem investigação. Um cientista investiga, não crê. Põe em causa, não aceita. Por outro lado, as religiões sempre foram o antídoto para o medo. Os marinheiros eram religiosos porque precisavam de um aliado na sua faina num meio que eles sabiam ser infinitamente mais forte do que eles. O medo - um fenómeno eminentemente racional ou pelo menos racionalizável - leva naturalmente à religião, à crença de que alguém está ali para nos ajudar.

O que se está a passar com a Covid tem tudo de um fenómeno religioso: o pânico levou à crença histérica em procedimentos que são tão eficazes na «luta contra o vírus» (esta expressão faz-me lembrar «luta contra o mar», como se alguém alguma vez na vida tivesse sequer sonhado com lutar contra o mar) como as rezas dos marinheiros eram para aplacar os temporais. Não aplacavam nada senão o medo. Davam-lhe um porto de abrigo. Acolhiam-no e levavam-no para o céu. Quantas vezes com os ditos marinheiros atrás, de resto.

A crença religiosa e a crença na aficácia das vacinas têm muito em comum. Incluindo, apercebi-me hoje quando espicaçado por um amigo pró-Covid, de que a comunhão também tem duas fases, como as vacinas: a «Tomai e comei, este é o meu corpo» segue-se «tomai e bebei, este é o meu sangue». Primeira fase e segunda fase. QED.

Noite, olhar

Deixa a noite cobrir-te com um lençol, qual olhar de quem amas: não a vês, mas sente-la, leve e acolhedora como esta noite, como este lençol. 

Nota bene : feitiços

Há feitiços que não duram para sempre, mas marcam para sempre, não é?

Capirinhas, passado e presente

Há muitos anos li um livro de Luís Sepúlveda.  Pouco depois li outro. Do primeiro gostei bastante, o segundo achei uma xaropada intragável. 

Retrospectivamente, apercebo-me de que o primeiro também era uma xaropada. Há um nome para isto: retroacção,  feedback retroactivo, não é? Isto é, quando o presente ajuda a definir o passado e ilumina os nossos erros de julgamento? Claro que se pode pensar que a minha primeira apreciação era correcta e a segunda incorrecta, mas não acredito nessa hipótese. 

Nada a ver com a força do negativo. Já me aconteceu o contrário, bastas vezes. O Dersu Ouzala, por exemplo. Saí da sala a pensar "Que merda de filme" e nas semanas seguintes não conseguia deixar de pensar nele, até chegar à conclusão de que era o que é: uma obra-prima.

Luís Sepúlveda não é nenhuma obra-prima. É um chato xaroposo vestido à moda. Enganadoramente, como todas as modas fazem. (É para isso que servem, de resto.)

Não sei porque penso nisto agora, mas deve ter alguma relação escondida com as caipirinhas do Papa Loka. Como se elas servissem para me rearreanjar o passado, em vez de me ajudar, simplesmente, a interpretar o presente.

Diário de Bordos - Bissau, Guiné, 31-05-2021

A questão é simples: ou penso na glicemia e mando lixar-se a dor na anca, ou penso na anca e manda o açúcar para o raio que o parta. Faço como fez o outro com o bebê e mando os dois para o diabo que os carregue. Não vão ser uma algia idiota ou um açúcar invasor a impedir-me de viver a minha vida. Se ela tiver de ser mais curta, mais coxeante ou mais ou menos qualquer coisa, que seja. Vou ao Papa Loka beber uma caipirinha  (sem açúcar) e ando tão longe quanto consigo. O resto vai de táxi, que é para isso que eles servem.

Adenda: não precisei de táxi nenhum. Os comprimidos devem estar a fazer efeito.

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África sendo África, estou agora como estava quando cheguei: ainda não sei quando será a entrevista com o ministro. Será sempre assim: o tempo é sinuoso, por estas bandas. Como os meandros dos seus rios ou o andar das suas serpentes. Já gostei mais. Isto é: já tive mais paciência para suportar esta capacidade de nos pôr no nosso lugar. Em nenhuma parte do mundo que conheço "o que é" tem tanta força como aqui. É assim, ponto. A ideia de que se fosse diferente seria melhor não passa sequer um milésimo de segundo na mente de quem decide: é assim. Ouvir um político africano falar do bem comum (como ouvi hoje, com a ressalva de que não sei se era um político ou um funcionário) é tão risível como ouvir o Papa discursar sobre o Kama sutra. 

A lógica das interacções é diferente, obedece a outros critérios. Penso que tenho sorte, apesar de tudo: conheço essa lógica, sei interpretá-la e lidar com ela, sei que tenho stocks infinitos de paciência. Tal como sei que quero muito a este projecto, do qual tive a ideia há pouco menos de quarenta anos. Uma vida é muito tempo, tempo demais para a ceder à impaciência. 

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A vida é cara. O "hotel" onde estou (aspas para sublinhar a generosidade) custa o dobro do que custaria o seu equivalente em Portugal. As refeições são quase ao mesmo preço. Verdade que ainda não me aventurei pelos circuitos locais, mas o restaurante onde hoje jantei não deve ver muitos meninos das ONG (e muito menos funcionários das OG).

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Ninguém - nem uma porra duma anca - me tira o prazer de um passeio à noite por estas ruas largas, arejadas - há uma térmica que entra ao princípio da tarde e se esvai ao princípio da noite, mas parece-me que o vento de agora é sinóptico. Vejo a condução, muito mais ordeira do que a de Kinshasa mas mesmo assim excitante e tenho vontade de conduzir. As pessoas ignoram-me totalmente, que é o melhor sinal de segurança. Sou tão transparente como nas Caraíbas. Não há miúdos a perseguir-me nem homens a interpelar-me, há mulheres nas ruas. A tentação de deixar o modo "trópicos" é grande e cedo-lhe facilmente, com a excepção do atravessamento de ruas: aqui o automóvel tem a prioridade de um cavaleiro na idade média. 

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Foi em África que a hominização começou e a humanidade nunca parou de aqui regressar. Talvez no fundo seja na África sub-sahariana que se encontre o cerne do homem, com o que tem de pior e de melhor. A essência do homem, como diria um filósofo alemão. 

31.5.21

Diário de Bordos - Bissau, Guiné, 30-05-2021

A fatiga começa a esbater-se, substituída pela depressão post partum. Isto é a entropia a fazer o seu trabalho: não houve entrada de energia, só houve saída. Duas sestas, uma pré e a outra pós-prandial, um almoço de Philadelphia steak (a versão americana do nosso prego) no Royal Hotel, o cinco estrelas onde consigo trocar dinheiro em cartão por dinheiro em notas a um preço que me parece elevado mas é o único que encontrei até agora (admitidamente, não procurei outro). Acessoriamente, tem sinal, coisa que o meu hotel não tem. O jantar foi no restaurante A Padeira Africana, um restaurante português cujo menu tem a variedade e originalidade dos de uma tasca de Lisboa mas que tem a vantagem de ter um bom vinho da casa, de o prego no prato ser correcto e a deprimente desvantagem de os empregados andarem de máscara. Ontem, no Dona Fernanda, o senhor pôs a coisa na cara quando me viu e substituíu-a por um sorriso daqui até à Lua quando lhe disse que não precisava daquilo para nada.

Contratei um táxi para me passear pela cidade. O chauffeur chama-se José, é muito alto e magro e disse-me (com aparente orgulho) a sua etnia, que infelizmente esqueci. Os táxis estão algures a meio caminho entre os do Zaire - uma espécie de museu de arqueologia industrial ao vivo - e os de Bujumbura ou Maputo, mais bem tratados. Estou à vontade com este sistema de táxis colectivos, um aproveitamento de recursos muito mais inteligente do que os nossos, em que uma pessoa ocupa o lugar de quatro. Cheguei ontem e não tenho ainda muito onde me apoiar, mas quando fui jantar o taxista perguntou-me se eu queria companhia, interpretei mal e disse que não e lá fui sozinho no carro. Paguei o triplo do que o homem do hotel me disse que ia pagar, devido a essa má interpretação. A pergunta referia-se a companheiros de viagem e não àquilo que primeiro pensei. 

Na União Soviética (ou melhor, em Nakhodka. Em Tuapse não me lembro) era ilegal andar sozinho no táxi, mas pagando os quatro lugares conseguia-se. No Panamá os táxis também são colectivos, mas eu alugava um ao dia, fiquei amigo do chauffeur e ainda hoje me lembro dele e me pergunto se está bem. Qualquer dia pergunto-lhe, saberá responder melhor, de certeza. Tenho uma lista de números de telefones de táxis por esse mundo fora de fazet inveja às páginas amarelas da galáxia. 

A arte da pirueta, da resposta rápida, da ironia não é tão valorizada aqui como no Zaire.

A pobreza num continente que tem o potencial deste é irritante, como é a do Brasil, por exemplo. Hoje comprei um livro de contos populares guineenses e duas cartas. Paguei uma pipa - não digo quanto por recato - após uma rápida barganha, que perdi, claro. Sou um teso, mas aos olhos do rapaz que vendia os livros na rua passo por milionário. O erro de que falava ontem é nos dois sentidos: eles vêem-nos como nós nos vemos quando aqui chegamos.

Em Moçambique, o meu Pai proibia-nos de pedir o que quer que fosse aos empregados, com a explicação - legítima - de que era ele quem os pagava e não nós, as crianças. Aprendi muito com Ele - quanto mais envelheço mais me apercebo disso e Lho agradeço - mas esta é uma das minhas mais queridas lições. Por muito que me tenha custado. É provavelmente ao meu Pai que devo este daltonismo, esta incapacidade de ver a cor da pele da pessoa com quem estou a falar. (O qual daltonismo ainda recentemente originou um episódio cocasse, de passagem seja dito.)

.........

Depois do jantar fui para o hotel, mas as duas sestas deram a sentir os seus efeitos e voltei a sair. Bebo caipirinhas no restaurante Papa Loca, uma espécie de reconstituição africana de um diner americano. O menu é chato como a cabeça de uma adolescente. Penso nos menus polifacetados dos restaurantes de Buja e digo-me "Pensas demais, rapaz. Tens demasiada carga no carrinho de mão da memória. As duas palavras chave são aqui e agora. Esquece todas as outras."

Obedeço.

PS - Uma brasileira duvidaria da ortodoxia destas caipirinhas. Eu aprecio-lhes a qualidade, esplêndida. 

30.5.21

Luso Magyar News - DEBATE, GUINÉ, MISCELÂNEA

A primeira indicação que me deram foi um italiano, uma pizzaria aparentemente muito boa. É verdade que a minha repulsa pelas pizze se atenuou bastante e até me acontece comer uma, quando o rei faz anos. Mas daí a ir jantar uma pizza logo na primeira noite em Bissau vai um passo de gigante. De maneira fui jantar ao restaurante D. Fernanda, encontrado via a habitual estratégia de perguntar a um local de uma classe social não muito elevada «aonde é que V. Leva a sua mulher a jantar, quando lhe quer oferecer um bom momento?» Normalmente funciona. Desta também, apesar de não acreditar que o senhor a quem fiz a pergunta – um empregado do bar do hotel onde finalmente consegui levantar dinheiro – já lá tivesse ido muitas vezes. Pelo menos, a julgar pelas outras mesas.

O restaurante é grande, circular, tem talvez umas dez mesas redondas elas também. Quando cheguei estava vazio, mas pouco depois entrou o inevitável casal «inter-racial» e, mais tarde, uma família claramente com massa, francófona (isto soube quando saíram. As mesas estão demasiado afastadas para se ouvir seja o que for). O menu é relativamente pobre, o serviço lento mas atencioso. O empregado encheu-se de cuidados para servir o vinho – um Gazela que a cinco ou seis euros me pareceu a melhor escolha da parca escolha que o D. Fernanda propõe. Gosto destes restaurantes africanos e ponho-me a comparar – como seria, no Burundi, no Zaire, em Moçambique? Pouco diferente. Haveria talvez mudanças na dimensão – no Burundi seria mais pequeno –, na pavimentação – este é em ladrilho - , e pouco mais.

África não é um país, mas há mais semelhanças de país para país do que há diferenças. Será? Não sei, não os conheço todos, longe disso. Vejo uma grande diferença, por exemplo: a segurança. Aqui, dizem-me e eu sinto, posso andar em segurança na rua tanto de dia como de noite. Em Bujumbura nem atravessar uma rua se podia. Em Kinshasa idem. De resto, tudo é igual: o pó vermelho-ocre que cobre a cidade de uma cor uniforme, os magotes de gente em todo o lado, o desperdício. Há ruínas e restos de automóveis, casas, barcos em todo o lado. É uma das consequências da «ajuda» ao desenvolvimento: tanto quem dá como quem recebe extrai mais benefícios da doação de um autocarro do que da sua manutenção. O resultado é isto: carcaças de autocarros, restos de embarcações, casas em ruínas por todo o lado. O senhor que está à frente do projecto que aqui me trouxe, político, familiar do governo diz-me que este está a preparar uma lei para obrigar as pessoas a acabar as casas, não as deixar a meio. Não respondo, mas penso que não é assim que se vai lá. Ninguém deixa uma casa a meio se tiver meio de a acabar. Não é com leis – muito menos absurdas – que se impõe a estética da classe dominante. É dando às outras a possibilidade de lhe aceder.

Mas da Guiné falarei no próximo capítulo, quando isto estiver mais visto. Hoje preferiria falar do debate – ainda só tive oportunidade de ouvir dois painéis, o que representa cinquenta por cento. É pouco, mas suficiente para poder dizer que os meus objectivos foram atingidos: pôr pessoas literatas, capazes de reflexão e de elaboração do pensamento a discutir assuntos complexos. Acabamos de passar pouco mais de um ano em que as emoções tomaram o controlo do debate público e social. É tempo de voltar a deixar entrar a racionalidade. O processo foi alucinante, os dias que antecederam o debate não foram dias, foram alucinações, mas agora tudo parece acalmar. A entropia faz o seu trabalho, a calma reinstala-se.

O que mais me surpreendeu neste debate foi um zé-ninguém como eu ter conseguido reunir um leque de gente como a que se juntou nesta sexta-feira. (O debate pode ser visto na página do Facebook da Oficina da Liberdade – 1ª parte: Facebook; 2ª parte: Facebook.) Quando tiver tempo – e internet – tentarei pô-lo num canal do Youtube e no meu Don Vivo.) Bem sei que tive o respaldo da UAL e, mais tarde, da Oficina da Liberdade – a quem aqui deixo, uma vez mais, o meu agradecimento – mas o osso do trabalho estava feito. Não digo isto para «armalhar» (como se dizia em Moçambique), mas porque penso que o tema era necessário e se impôs de per si.

A minha vida sendo o hino à ironia que é, só consegui assistir a um painel, o último. Agora estamos sem rede (não sei se só no hotel, se em todo o bairro, ou toda a cidade) e terei de esperar para ouvir os outros dois.

II

Enquanto espero pela net, penso numa das coisas que mais me irrita em África: qualquer borra-botas europeu, por jovem e ignaro que seja, chega aqui e imagina-se um misto de Rockfeller com Einstein. Vi muitos assim: lembro-me perfeitamente do puto suíço acabadinho de sair da universidade a dar «lições» a um engenheiro zairense com idade para ser pai dele. Hoje, no meu passeio pela cidade, passei pelos inevitáveis sinais das organizações «não governamentais»: jeeps, sedes, miúdos de pouco mais de vinte anos a pavonear-se ao lado dos chauffeurs. Se os governos europeus quisessem realmente ajudar os países africanos, parariam com esta palhaçada toda. Não querem. A ajuda humanitária tornou-se uma ferramenta da política externa dos países «doadores» (termo do jargão politiquês). Basta verificar as contas das auto-proclamadas Organizações não-governamentais e ver qual a percentagem do seu orçamento que vem dos governos. O «Não-governamentais» é a expressão de um desejo, não da realidade. (Quando é um desejo. Nem sempre nem desejo é.)

  

Luís Serpa, Bissau, 30-05-2021

Debate «Comunicação social: liberdade de expressão e responsabilidade social»

 1ª parte

2ª parte

25.5.21

Publicidade

À atenção das empresas publicitárias: Não seja gay. Seja Mount Gay.

Ausências, descobertas

De como as ausências conduzem a descobertas: o senhor não tem medronho e o whisky Pig's Nose é inesperadamente bom. 

A visibilidade das coisas

As coisas são como são, não são como são,  são mas não se vêem, vêem-se mas não como são... As combinações são múltiplas, mas não é hora para discutirmos a visibilidade ou invisibilidade do ser ou não-ser das coisas. Temos que abordá-las como as pinças manejam as brasas no fogo: aceitar que as coisas são como são e não como queremos que sejam; e revoltar-nos por não serem como deviam ser. Devemos tornar visível o invisível, jogar às escondidas com a nossa inabilidade fatal, como lhe chamou o Arthur no inferno. Ou terá sido nas Iluminações? As coisas também são o que a memória faz delas, ou desfaz. Uma biblioteca é uma memória de papel, tinta e cola. Numa biblioteca, as coisas são como queremos que sejam. Basta escolher o livro certo.

Sólo una cosa no hay. Es el olvido.
Dios, que salva el metal, salva la escoria
y cifra en su profética memoria
las lunas que serán y las que han sido.
 
Ya todo está. Los miles de reflejos
que entre los dos crepúsculos del día
tu rostro fue dejando en los espejos
y los que irá dejando todavía.
 
Y todo es una parte del diverso
cristal de esa memoria, el universo;
no tienen fin sus arduos corredores
 
y las puertas se cierran a tu paso;
sólo del otro lado del ocaso
verás los Arquetipos y Esplendores.

O soneto chama-se Everness e é daquele senhor que percebia mais de bibliotecas com os olhos fechados do que o resto do mundo com eles abertos. Só os livros, a memória, as palavras podem resolver o dilema das coisas serem ou não serem como são ou não são. Deixemos a vontade fora do palco. Ela é o espectador que da plateia assobia ao actor ou ao músico que fez uma fífia. 

(Tu és o actor, o músico.)

23.5.21

LMN 5 - Pertença

 

PERTENÇA

 

Escrevo estas linhas em Mértola, numa noite de sábado, depois de um jantar no Tamuje.

Porque menciono tudo isto? Porque, suponho, estas três coisas estão ligadas. Mértola, escrever a um sábado o que tinha planeado escrever na quarta ou o mais tardar quinta-feira, Tamuje. Não sei se já vos aconteceu chorar por estarem a comer uma coisa excepcionalmente boa. A mim já, se bem raramente. Uma dessas vezes foi no Tamuje, com um coelho em vinho tinto. Hoje aconteceu de novo com um ensopado de cabrito. Chorar porque se está a comer algo de particularmente bom deve parecer esquisito, eu sei. A mim parece, mesmo enquanto choro. É a comoção, a mistura de sabores, este sentimento inefável de que algo nos liga à terra e essa ligação tem – neste caso – um nome: senhora Ana Isabel. Quando esta senhora morrer vai para o céu dos cozinheiros e para o céu dos apreciadores de comida e provavelmente para muitos outros céus, não sei. Para os dois primeiros vai de certeza. Só espero é que não seja muito em breve. Que a ceifeira leve o seu tempo. Cozinhar cabrito é difícil: tem que se tirar o gosto a cabritum, (a minha Mãe dizia carnum) sem tirar o gosto à carne e dar ao palato o gosto dos condimentos. Há coisas que me fazem chorar e uma delas é um ensopado de  cabrito bem feito.

Mértola: a questão é a da pertença. De onde venho? De onde sou? De onde quero ser? Uma vez morei no Príncipe Real. Um sinaleiro fazia parar o trânsito todo para me deixar passar na bicicleta. Sentia-me um misto de M. Hulot e Jean Gabin. Por causa desse sinaleiro escrevi um texto sobre as emoções, sobre a pertença. Venho a Mértola esvaziar a casa, na qual terei talvez dormido vinte noites em dois anos. Ou terão sido trinta? Não creio. Pensei que seria fácil: foi só o hotel de cinco estrelas mais caro que já experimentei. Não foi, não é. Isto é uma casa, foi a minha casa, por pouco que tenha sido. Revolta-me ter de a deixar, não pela casa mas por mim. Não quero. Somos de onde queremos ser e eu quero ser de Mértola. Somos de onde estão as nossas coisas, somos de onde estão os nossos, somos de onde estão as nossas memórias, somos de onde um dia nos repousamos. Pode ser Mértola, Lisboa, Genebra, Palma, pode ser onde for – desde que tenha um nome, uma latitude e uma longitude. Mértola tem essas coisas todas e tem beleza. Não poderia ser de um sítio feio. Nunca serei de um sítio feio.

No armário estão umas centenas de livros por ler, nas janelas cortinas rasgadas e comidas pelos ratos, em todo o lado fotografias de mim e dos meus. Amanhã começo a desmontar a casa e é como se começasse a desmontar-me: não quero. Não estou a deixar Mértola: estão a arrancar-me Mértola de mim, a cru, sem anestesia.

Durante muito tempo pensei que somos de onde estamos. Se estou no Panamá sou panamiano, se no Brasil brasileiro, se na Itália italiano. Depois comecei a ver os limites dessa teoria, que são sobretudo de ordem temporal e linguística. Para ser de algum sítio tenho de lhe falar a língua e de lá estar alguns meses. (No mínimo, digo agora sabendo que é n’importe quoi, três meses.) Ou seja: não sou de onde estou agora, por acidente, acaso, desígnio ou – não é impossível – vontade. Sou de onde quero ser, de onde estão as partes de mim que querem ser «de mim», de onde me quedei. Mértola está cheio delas, de partes de mim, de mim.

Partes de mim: a música de Cecil Taylor que agora escuto. As fotografias para as quais tento olhar de raspão, como se pusesse o dedo grande do pé na água para lhe ver a temperatura e nada mais; as hierbas secas que bebo sem gelo porque não há gelo. Os livros. Se Walt Disney me conhecesse faria a piscina do Tio Patinhas com livros em vez de notas. A ideia de que amanhã começo a empacotar tudo isto, como um assassino arruma os membros da vítima que decepou e cortou em pedaços.

Não se pode dizer que a cada partida cortamos um pouco de nós: para isso ser verdade, a cada chegada juntaríamos um pouco a nós, não é?

É. Partir é um desmembramento e chegar um re-membramento. Questão simples de os equilibrar. (Gosto da palavra simples... É a melhor das ironias, das metáforas, dos eufemismos, dos subentendidos.)


Bebimos, en la sombra,
Nuestros llantos
confundidos…

Yo no supe cuál era
el tuyo.
¿Supiste tú cuál era el mío?

(Juan Ramón Jiménez, in Diario de Poeta y Mar)

Assim se entra numa noite: pés juntos, mãos serradas, tronco em pedaços, alma fragmentada em tantos bocados, cada um deles à procura do sítio ao qual pertence.

 

(Para o C. M. F., com um abraço.)

Luís Serpa, Mértola, 23/05/2021