21.8.26
Sortante, entrante
20.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 20-08-2026
Hoje fui à Bottega Bolognese comer uma carbonara. (Lembrete: a melhor que já comi fora da Itália e uma das melhores se incluir as italianas - a de Cannigione não me sairá da memória até morrer.) A Silvia contou-me esta história, que eu acho magnífica, daquelas que nem a imaginação delirante do Valério Romão ou do Pynchon conseguiriam inventar: duas alemoas, turistas, pedem um copo de pinot grigio e um de chianti. A Silvia serve-lhes os copos e uma delas pergunta: qual é o pinot grigio e qual é o chianti?
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Não sei se por causa da vitamina B12, se devido ao magnésio se - quanto a mim o mais provável - à quantidade de água que estou a beber diariamente, ando ligeiramente menos cansado e a minha capacidade de concentração aumentou. Pouco mas melhorou. Já consigo ler três ou quatro páginas do Padura - escritor que lamento só agora ter conhecido. O Pynchon também avança. O problema que tenho com a história do Trotsky é que me é difícil absorver notícias tristes. A ver se a água e ou as pílulas ajudam. Ou a fruta: todos os dias como metade do meu peso em melancia, melão, figos, pêssegos, ameixas e paraguaios. Ah, hoje comprei uvas moscatel.
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Fiz um tzatziki. Amanhã saberei como ficou. A novidade sendo que é preciso mais pepino do que até agora pensava. A receita sobre a qual por acaso caí e me motivou dizia "na verdade, é preciso ver o tzatziki como uma salada de pepino envolta em iogurte grego e não este com pepino". Pimenta Tellicherry com um toque de pimenta fumada e sal de cocó, claro. Aneto, menta, azeite, vinagre. O iogurte "grego" não é grande coisa mas é o que há. Qualquer dia encontrá-lo-ei sem aspas.
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Está a chover. O badanal previsto para hoje e amanhã limitou-se ao lado oeste da ilha.
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Hoje a Btwin levou-me a passear pelas ruas estreitas, sinuosas e frescas de Calatrava, um bairro que estranhamente sobrevive à ganância turística. Não creio que a sobrevivência se prolongue por muito mais tempo.
19.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-08-2026
18.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 18-08-2026
17.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 17-08-2026
Venho jantar ao Fidel. Os franceses têm uma expressão bonita para descrever como me sinto: je suis lessivé. Estou lexiviado. Em português não funciona: demasiado perto de lixado e eu não o estou. Estou lessivé, simplesmente. A temperatura está finalmente no ponto certo, as mulheres comtinuam belas como só esta cidade (e Genebra) sabem fazê-las, o Fidel recebe-me com o abração de sempre, trouxe canetas para escrever à mão mas estão vazias. A praça está cheia e e comovido com isto tudo, esta mistura de dor, beleza, vermute, calma (Palma-a-calma não é só uma rima). Paguei a renda e dei um adianto para a Btwin, esta burra é boa demais para estar longe de mim. Não sei aonde a vou pôr, mas iso é um pormenor de somenos nesta grande ordem das coisas. O vermute é excelente. Não há nada nesta casa que não o seja. Já em mim é o contrário: parece que estou a apodrecer aos bocados.
O charter acabou ontem mas hoje ainda tive de ir a Portocolom. Bancas, fazer água e pagar os dias de bóia. Comi lula frita no Mestral e vim com o M. para Palma. A meio do caminho tivemos uma avaria no carro. M. é um dos deuses do meu Olimpo de mecânicos, passem-me por favor o lugar-comum. Era uma peça partida. Desenrascou aquilo e para além do atraso o único impacto foi que me deixou no passeio marítimo em vez de me levar a casa.
O jantar é uma espetada de carne com puré de batata picante, acompanhado por um Rioja que é "leve, fresco mas saboroso". Se há coisa que o Fidel e o Tom sabem fazer é escolher vinhos (e empregadas e cozinheiros - é o mesmo desde que os conheço). Vir comer aqui é como ir dar um passeio ao jardim das delícias, com estas elevadas à potência dez.
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Mantenho a decisão de acabar com os opióides: hoje sim, o meu analgésico será uma mistura de vermute, vinho e hierbas. O rum fica para depois, no Jaume.
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Está um bocadinho de vento mas parece-me demasiado tarde para ser térmico. É um sinóptico, ventos fiáveis, não estão de passagem. Mentira: vou ao ECMWF confirmar e diz-me que não há vento nenhum. Isto é um resto da térmica da tarde. Não tarda desvai-se. No meu quarto tenho sempre a ventoinha. É eléctrica, não depende de diferenças de temperatura nem de pressão.
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Tenho de encher as canetas. Não sei se pedirei uma sobremesa. Não tenho fome. Mas tão pouco tens sede e pediste mais um copo de vinho.
Desculpa: é tarde para discussões filosóficas. O que está em causa é: uma sobremesa aqui ou um gelado no Claudio? Ou os dois? Ou nenhum? Ou uma piña colada no After Landing? Ou ir para casa encharcar-me em comprimidos não opióides?
Ou, mais simplesmente, deixar que seja a cidade a decidir e ir a Santa Catalina beber um copo como deve ser?
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A cidade e a idade decidiram em conjunto: Santa Catalina é muito longe. Vim ao After Landing, pedi um pisco sour que está uma merda e não tarda estou na cama, feito uma merda eu também.
Raio de mania de "inovar". Vão prá pata que vos pôs mai-la inovação, foda-se! (Analgésico.)
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Há uma espécie de mimetismo entre mim e a cidade. Ela amplia-se e mingua em função do meu cansaço. Enfim, em função de mim. Eu não sou só cansaço.
16.8.26
Diário de Bordos - Portocolom, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-08-2026
15.8.26
Diário de Bordos - Cala Mitjiana e cala Guya, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-08-2026
Para a semana haverá pouco trabalho, com o tempo que aí vem a partir de quarta ou quinta-feiras. Pode ser que consiga dedicar-me às cantigas, que tanto quero fazer. Os gajos do totomilhões não ligam nenhuma aos meus planos, está visto. Bem podiam dar-me um adiantamentozito, eu prometo que voltarei a comprar aquilo quando chegar a Portugal. Se os meus impulsos altruístas se mantiverem, claro, qu'isto de ajudar os pobres tem limites. Sejam eles portugueses ou togoleses. Enfim, filantropia um pouco egoísta, desconfio. Não é porque as probabilidades de ganhar alguma coisa são infinitamente inferiores às de ajudar quem precisa que se deve deixar de jogar.
Voltámos para cala Guya. É porreira. Poucos barcos e muito espaço. Pouco vento e uma óptima atmosfera a bordo. É como digo: a coisa aqui não está preta.
14.8.26
Diário de Bordos - Cala Guya, Mallorca, Baleares, Espanha, 14-08-2026
Cenas de bar
13.8.26
Diário de Bordos - Es Trenc, Mallorca, Baleares, Espanha, 13-08-2026
A semana vai bem: vi o meu primeiro e provavelmente último eclipse total do Sol, as dores na perna só me atacam com violência à noite na cama - durante o dia dão-me apenas uma breve lembrança de que ainda por aí andam, coisa que me alivia bastante porque os clientes de charter não costumam gostar de skippers que mal se podem mexer - estes clientes são impecáveis e já só faltam três dias para regressar ao meu refúgio na casa Volta Dos, que tantas vezes me acolheu.
A loucura provocada pela Lua a passar à frente do parceiro é descriptível mas não muito interessante: milhares de pessoas no cabo Ses Salines, outros milhares na costa da Colonia San Jordi, larguíssimas centenas de embarcações fundeadas em Es Trenc. Tive sorte, arranjei um poiso decente um bocadinho antes de Ses Covetes e aqui ficámos. Hoje passamos de novo a noite aqui. Amanhã, cala Mitjiana, que já foi pertença de uma grande família aqui da ilha e agora é pública. Por curiosidade, essa família é uma das clientes de uma das senhoras que trago a bordo e é consultora em transmissão de gerações em empresas familiares. Não sei se transmissão é o termo exacto. Já tive uma consultora em pricing e agora tenho uma em mudança de gerações.
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A vantagem destas dores para os meus leitores é que os posts são curtos.
12.8.26
Eclipse, século XXI
As pessoas que gostam de dizer "estamos no século vinte e um e..." segue-se uma coisa qualquer que elas pensam antiquada ou inaceitável nos tempos modernos deviam analisar a excitação que por aí vai com o eclipse. Não mudou desde os Neandarthal, aposto.