Venho jantar ao Fidel. Os franceses têm uma expressão bonita para descrever como me sinto: je suis lessivé. Estou lexiviado. Em português não funciona: demasiado perto de lixado e eu não o estou. Estou lessivé, simplesmente. A temperatura está finalmente no ponto certo, as mulheres comtinuam belas como só esta cidade (e Genebra) sabem fazê-las, o Fidel recebe-me com o abração de sempre, trouxe canetas para escrever à mão mas estão vazias. A praça está cheia e e comovido com isto tudo, esta mistura de dor, beleza, vermute, calma (Palma-a-calma não é só uma rima). Paguei a renda e dei um adianto para a Btwin, esta burra é boa demais para estar longe de mim. Não sei aonde a vou pôr, mas iso é um pormenor de somenos nesta grande ordem das coisas. O vermute é excelente. Não há nada nesta casa que não o seja. Já em mim é o contrário: parece que estou a apodrecer aos bocados.
O charter acabou ontem mas hoje ainda tive de ir a Portocolom. Bancas, fazer água e pagar os dias de bóia. Comi lula frita no Mestral e vim com o M. para Palma. A meio do caminho tivemos uma avaria no carro. M. é um dos deuses do meu Olimpo de mecânicos, passem-me por favor o lugar-comum. Era uma peça partida. Desenrascou aquilo e para além do atraso o único impacto foi que me deixou no passeio marítimo em vez de me levar a casa.
O jantar é uma espetada de carne com puré de batata picante, acompanhado por um Rioja que é "leve, fresco mas saboroso". Se há coisa que o Fidel e o Tom sabem fazer é escolher vinhos (e empregadas e cozinheiros - é o mesmo desde que os conheço). Vir comer aqui é como ir dar um passeio ao jardim das delícias, com estas elevadas à potência dez.
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Mantenho a decisão de acabar com os opióides: hoje sim, o meu analgésico será uma mistura de vermute, vinho e hierbas. O rum fica para depois, no Jaume.
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Está um bocadinho de vento mas parece-me demasiado tarde para ser térmico. É um sinóptico, ventos fiáveis, não estão de passagem. Mentira: vou ao ECMWF confirmar e diz-me que não há vento nenhum. Isto é um resto da térmica da tarde. Não tarda desvai-se. No meu quarto tenho sempre a ventoinha. É eléctrica, não depende de diferenças de temperatura nem de pressão.
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Tenho de encher as canetas. Não sei se pedirei uma sobremesa. Não tenho fome. Mas tão pouco tens sede e pediste mais um copo de vinho.
Desculpa: é tarde para discussões filosóficas. O que está em causa é: uma sobremesa aqui ou um gelado no Claudio? Ou os dois? Ou nenhum? Ou uma piña colada no After Landing? Ou ir para casa encharcar-me em comprimidos não opióides?
Ou, mais simplesmente, deixar que seja a cidade a decidir e ir a Santa Catalina beber um copo como deve ser?
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A cidade e a idade decidiram em conjunto: Santa Catalina é muito longe. Vim ao After Landing, pedi um pisco sour que está uma merda e não tarda estou na cama, feito uma merda eu também.
Raio de mania de "inovar". Vão prá pata que vos pôs mai-la inovação, foda-se! (Analgésico.)
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Há uma espécie de mimetismo entre mim e a cidade. Ela amplia-se e mingua em função do meu cansaço. Enfim, em função de mim. Eu não sou só cansaço.