Quando preciso de chorar e não tenho lágrimas vou a um restaurante indiano (ou chinês de Sichuan. Mas o picante chinês é diferente do indiano, menos imediato e por isso prefiro os caris e afins). Também poderia, claro, ir a casa de uma ou duas ou mais senhoras, tantas, mas isso não resolveria o assunto porque provavelmente foram elas que me esgotaram as lágrimas.
19.5.26
Científico?
18.5.26
Olissipo in perpetuum / II
Depois da bicicleta, o melhor meio de transporte em Lisboa é o aparelho locomotor com que nascemos, as pernas e os pés, aos quais se deve juntar, naturalmente, os olhos e o conjunto de sinapses envolvido no fabrico e na recuperação de memórias. A bem da verdade, deve dizer-se que olhos e memórias estão sempre lá, em todo o lado, até no metro. A fábrica das memórias não pára. Mas quando se anda a pé ela tem mais vagar e aprecia melhor o que vê.
E o que viu, ao longo das camadas cronológicas de que o tempo é feito.
........
Por exemplo: pequeno-almoço na Versailles. Em Palma não há uma Versailles, há uma quase. Em Genebra tâo pouco. Em Londres e Paris há muitas, claro. São cidades grandes, cheias de beleza e de história. Ontem andei muito a pé, atravessei Lisboa do Marquês até aos Anjos, duas áreas da cidade que conheço bem, ligadas por um trajecto que passa por lugares que também conheço bem. Em Palma e em Genebra também tenho sítios e trajectos que conheço bem. Andar a pé dá-nos mais oportunidades para comparar os passados, não é?
........
Uma parte de mim vive em Genebra. Chama-se netos, filha, ex-mulher e presente amiga; outra em Palma. Chama-se P., é uma embarcação de vela que me ocupou - e eu ocupei - mais de dez por cento da minha vida activa. Ou o Mercat de l'Olivar, meu refúgio durante o primeiro mês do confinamento.
Se eu empilhasse estes bocadinhos de vida activa e desse a cada um uma cor diferente - haveria cores suficientes? No arco-íris não.
Fragmento
15.5.26
Olissipo in perpetuum
Fui deixar os chapéus de Inverno (e um de Verão, mas isso é outra história) à chapelaria, a roupa à lavandaria, fui à apresentação do último livro do António Cabrita na Linha de Sombra, a livraria com o melhor nome da história da literatura e agora bebo um café na Confeitaria Nacional. Daqui vou à Ler Devagar fazer horas para o almoço com o A. G. Penso na Alejandra Pizarnik e na sua Extracción de la piedra de locura e transcrevo para Extracção da Pedra de Lisboa. Pesquiso o título e vejo que o primeiro livro dela se chama La tierra más ajena e parafraseio de novo: A terra mais perto. Perto? Não. Dentro. Não há maneira de me extrair esta pedra, por muito bem que me sinta em Caminha, em Palma, em Genebra ou no mar, que não é bem uma cidade nem uma terra mas é um lugar, com muitos bairros e às vezes becos escuros e ruas luminosas e tudo o que uma cidade tem, sobretudo se for uma das cidades do nosso coração.
(Cont.)
13.5.26
Prazeres da lusitanidade II
Sem graça nenhuma
Acreditar que trocar os automóveis de combustão por veículos eléctricos, cobrir os cumes dos montes com eólicas e os campos com painéis solares vai fazer o clima parar de mudar é uma tonteria equivalente a pensar que um dia um senhora deu à luz sendo virgem e depois andou a alpendurar-se em árvores para ser vista por pastorinhos (em Portugal. Em França foi pela filha de um moleiro numa gruta). Ou que um senhor crucificado e enterrado ressuscitou ao fim de três dias, depois de ter transformado água em vinho, andado num lago pela superfície da água ou multiplicado pães num casamento. Pode acreditar-se nessas coisas todas. Não deve é pensar-se que são reais. Que são factos.
Não discuto a fé religiosa. Desde que não voltem a obrigar-me a ir à missa e a lá comer rodelas de trigo ou beber "vinho" (entre aspas porque era pouco e mau), a Igreja católica traz-me mais benefícios do que chatices. Refiro-me à arte sacra, seja ela música, pintura, escultura, arquitectura e por aí fora. Até as belíssimas procissões de Maiorca me encantam e me fascinam. E a igreja não fez só mal, ao longo dos seus dois mil anos. Fez muito bem, igualmente.
Os automóveis eléctricos tão pouco me aborrecem. Poder acreditar em disparates e exibir essa crença pelas ruas faz parte dos direitos de cada um. Os padres e respectiva hierarquia também andam vestidos bizarramente à vista de toda a gente. E têm práticas anti-naturais, como o celibato, jejuns ou ouvir as asneiras dos outros. (Já o incenso acho bem. Tem um cheiro agradável.)
Porém, eólicas nos sítios mais bonitos, painéis solares nos campos em vez de plantas, litanias sobre os puns das vacas e o constante recurso às "alterações climáticas" como causa de tudo e mais alguma coisa - desde, naturalmente, que esse tudo seja mau. Para os crentes dessa fé, nada de bom pode provir das "alterações" - já isso, dizia, me põe cada vez mais fora de mim.
A Igreja Católica acabou por proibir a venda de indulgências. Será que a igreja das alterações climáticas do terceiro dia terá a mesma sabedoria e acabará com as tolices que a sua fé impõe mesmo aos não-crentes, também conhecidos por negacionistas ou climato-cépticos? Pejorativamente, claro, como se a verdade não fosse filha do cepticismo e da negação.
Atribuir as aparições de Fátima ãs sopas de cavalo cansado que se dava aos miúdos antes de irem para a escola talvez as explique e tem graça. Não sei. Mas dilapidar o erário público em ventoinhas fechando os olhos à Razão, ao bom senso, à estética e à História - isso sim, não tem graça nenhuma.
Prazeres da lusitanidade
- No trajecto de Caminha para Lisboa fazer uma paragem na Mealhada para comer leitão. Um ponto para os defensores do automóvel face ao comboio.
- Ir jantar a casa do amigo mais antigo, que se conhece desde os catorze anos e não precisar de acrescentar mais nada.
10.5.26
Automaticamente
Sou contra a ditadura do prático. Prefiro-lhe de longe a do belo, a do humano, a do tempo. "Isto é muito prático. Muito barato. Muito rápido. Muito qualquer coisa", dizem-me. Que me interessa? Que farei eu com a meia dúzia de euros ou de minutos ou de qualquer coisa que poupei com isso, "tão prático"? "É belo?", pergunto. "É humano? Precisa da minha atenção?" Abaixo os automatismos. Abaixo tudo o que é "prático". Os piscas-piscas voltam automaticamente ao lugar, depois da curva; os limpa pára-brisas pôem-se automaticamente em marcha; as luzes apagam-se automaticamente; a embarcação vai automaticamente para o novo rumo, chegada ao waypont. O frigorífico apita, se a porta fica aberta. O fogão desliga-se se retiro a panela. E eu que faço, no meio de tanto automatismo?
Ralho, automaticamente.
8.5.26
The Mandé Variations, larga de mão, vasta mescla de temas e desordens
The Mandé Variations? Be thyself!? Larga de mão? Daqui a pouco mais de uma semana embarco. Não me mexo em terra como no mar. «you know Orion always comes up sideways...» diz o Roberto Frost. Sim, sei. Só não sei se o verei desta vez. Vou navegar para norte e já estamos em Maio.
7.5.26
Fragmento
Trabalho para comer, beber e comprar livros. Esta é a versão curta, dir-me-ás e eu concordo. A essa trilogia haveria que acrescentar a fotografia e a compra de objectos bonitos. Mas estas são secundárias, se não em valor pelo menos em frequência. A renda da casa é paga pelo que já trabalhei. O resto? Não sei. Talvez pelas gotas de chuva, ou pela ocasional generosidade ou tolerância ou paciência ou amizade ou amizade, repito-me porque de qualquer forma tudo isto se repete, sempre, inlassablement e aqui só me repito uma vez.
Resumindo: comprei as obras completas do Eugénio de Andrade numa edição da Assírio, uma recolha de poemas do Robert Frost, poeta que conheço insuficientemente e outra ("Duzentos poemas") de Emily Dickinson, idem. A tradução é boa e é de Ana Luísa Amaral, já to posso afiançar, sentado à mesa do Pipa Velha a beber vinho do Porto e a lamentar-me em silêncio sobre a falta de qualidade dos cafés portuenses, pelo menos no que respeita ao vinho do Porto.
A jovem que serve ao balcão não sabe o que é um LBV, tem uma argola no nariz, tatuagens no braço e anéis nos dedos à la Harry Potter. A música não é má, o local é óptimo porque é escuro e está vazio. Ao contrário de mim, que estou cheio de claridade.
Escrever-te tem algumas vantagens: pelo menos posso dizer o que quero dizer-te sem ter como resposta o teu sorriso céptico nem o teu olhar crítico.
...
6.5.26
In
Não sei quem é esta Sónia em quem estou tantas noites mas aprecio-lhe a cultura. Fala tão bem inglês como latim.
5.5.26
Vastidões
Normalmente associa-se o termo vastidão a deserto, mar, estepe. A algo plano, em que nada interrompe o olhar. Não concordo. Falo, por exemplo, na vastidão da amizade; falei muitas vezes, a seu tempo, na vastidão do amor que sentia por esta ou por aquela senhoras. Continuo a sentir o sentido de vastidão quando leio estes versos (não o são, nas pouco importa):
"La vida es una mala noche en una mala posada."
"Vivir la vida de tal suerte que viva quede en la muerte."
"No son buenos los extremos aunque sea en la virtud."
"It is foolish to think that we will enter heaven without entering into ourselves."
Não sei quem quem traduziu a última frase. A vastidão da minha ignorância. A propósito: a autora é Santa Teresa d'Ávila.
A vastidão da beleza: ouvia há pouco Leonard Cohen e Julie Felix cantar em dueto e dali parti para aqui, diria se não soasse tão mal. Foi a primeira vez que ouvi aquele dueto. Depois da milésima, quero dizer. É sempre a primeira vez que se ouve Leonard Cohen.
Diria tantas coisas, se não estivesse perdido na vastidão do silêncio.
Na vastidão do deserto vêem-se torres dispersas nas quais o olhar esbarra. Estão ligadas por uma linha quase invisível chamada vida. Ou memória. É a mesma coisa, a mesma vastidão.
3.5.26
Em defesa da epistemologia intuitiva
Imagine-se uma pessoa que nunca sequer viu uma embarcação de vela. Imagine-se que essa pessoa assiste a uma conversa entre o Loïc Peyron ou a Ellen MacArthur e eu.
Quanto tempo levaria essa pessoa a perceber que tanto a Ellen como o Loïc sabem infinitamente mais de vela do que eu?
(Antes de continuar, isto precisa de um pouco de contextualização. Não sei como é nas outras áreas do saber, mas os grandes marinheiros são pessoas extremamente humildes. Dou um exemplo, tentando ser breve: Ellen MacArthur ganhava as regatas devido à sua sobrenatural capacidade de interpretar as previsões meteorológicas. Aquela mulher fazia opções de rotas que um dia levaram um do seus competidores directos a dizer-me "A Ellen vem de outro planeta".
Um dia veio jantar a minha casa, em Cascais. Entrou, trocámos as formalidades usuais e cinco minutos depois estava a fazer-me uma pergunta sobre um fenómeno meteorológico frequente em Portugal para o qual não encontrava explicação.
- Não sei, Ellen. Ando há meses a procurar, já perguntei em todo o lado, serviços meteorológicos, universidades, tudo. Ninguém soube responder-me... [Pausa. Um tempo.] Mas espera, quem tem de fazer essa pergunta sou eu a ti e não tu a mim.
Ellen encolhe os ombros e diz-me: "Há que perguntar tudo a todos. Não consigo perceber por que raio de carga de água aquilo acontece e alguém há-de saber [a tradução é minha e não é literal]".
Uma cena semelhante passou-se com o Loïc em Salvador da Bahia, mas poupo os pormenores aos leitores.)
Ou seja: não é preciso ser especialista numa área qualquer para se ser capaz de perceber de que lado a razão tem mais probabilidades de estar. A minha opinião sobre a Covid comecou a formar-se a partir das discussões (essas, sim, violentas, contrariamente às minhas supra-citadas) entre o André Dias e um aldrabãozeco cujo nome era João qualquer coisa, se bem me lembro. Foram essas discussões que me levaram a estudar o assunto, tanto quanto um leigo pode estudar e a inscrever-me num dos lados do debate. O mesmo se passa com o debate sobre a Palestina. Ouvi e li argumentos e só depois construí a minha opinião. (Nb: falta-me ler em primeira mão Edward Said, mas do que dele sei penso que não mudará muito a minha posição. Quando muito, aprofundá-la-á.)
No meu posicionamento político há obviamente um enorme factor pessoal, incontrolável: a minha incapacidade de me incluir em grupos, clubes, escolas, associações ou seja o que for que cheire a colectivo (com a notória excepção de uma tripulação e mesmo essas escolhidas) e portanto nunca poderia ser de esquerda. Contudo não é só por fatalidade genética que sou de direita. Como toda a gente passei pela esquerda e só depois decidi que a interpretação da realidade é mais fiel sem os óculos ideológicos e anti-biológicos dos colectivismos.
Talvez como método epistemológico isto não valha muito. Paciência. Tem pelo menos um mérito: as minhas opiniões são construídas, não me caem pré-fabricadas no regaço. E outro: sou capaz de as mudar quando me provam que estou errado. Não é fácil mas é possível.