Fotografo. Escrevo com a luz. Estou aqui, não estou noutro lado qualquer. Estou aqui mas não sei se estou de passagem: a fotografia é aqui e agora. Só amanhã saberás se ontem estavas de passagem ou se estavas para ficar. Tu sabes: estás aqui. A luz sabe: agora. De toda a sucessão de agoras de que os dias são feitos a fotografia escolhe um, que tu dás a ver. Escreves-te. Dás a ver. Dizes: estou aqui. Sou aqui. Como sou me dou. De onde sou me dou. Vejo. Vejam-me.
21.2.26
Diversos dispersos, 21-02-2026
19.2.26
Breves reflexões sobre Portugal e as aventuras do major Alvega
A ideia de que Portugal sairá um dia da cauda da Europa é infantil, ingénua e infundada. Há várias razões para isso;
a) Portugal não é pobre por causa da corrupção, do centralismo ou da ausência de reformas. É pobre porque os portugueses não querem ser ricos. Ou pelo menos a maioria dos portugueses. As provas são mais do que muitas e não vale a pena mencioná-las. Os que querem emigram pela razão simples e imbatível de que sabem que mudar "o sistema" é impossível. Aspas em sistema: cito e troço, simultaneamente;
b) Portugal é um país corporativista. Chamai lobbies às corporações se quiserdes ser modernos, ou quintinhas se preferirdes. Como em todos os "sistemas" (ditto) há quem beneficie e quem se acomode. A maioria dos portugueses que ficam acomoda-se. Ora acontece que ninguém cede voluntariamente poder. O poder conquista-se, não se doa. Um acomodado não luta, por definição. Não faz pela vida. Faz-se à vida se emigra e à vidinha se fica. E quem beneficia? Obviamente não vai mudar nada. Mesmo que a sua "riqueza" seja pobrezinha se comparada com a dos ricos de outros países: é preferível ser rico num país pobre a sê-lo numa terra de ricos;
c) Quando aparece um iluminado tipo Ventura as pessoas - os acomodados - descarregam a "raiva". Isso é mais ou menos como esperar engravidar a mulher masturbando-a: até pode ser que ela dê uns gritinhos mas dali não sairá mais nada.
Conclusão: ou emigras ou arranjas uma quinta que generosamente te aceite no seu seio. Acreditar em aventuras? Acredita antes no major Jaime Cook e Alvega. Esse ao menos não enganava ninguém.
Diário de Bordos - Porto, Portugal, 19-02-2026
Dois euros e cinquenta cêntimos um rissol de carne que era muito mais rissol do que carne; mais um por um pastel de bacalhau ("grande". Não experimentei. Grande era o preço); tartares de animais exóticos; não me fui aos portos. O Bolhão encontrou o seu destino e é um buraco para turistas. Estava escrito, a oeste nada de novo. Já o restaurante O Buraco continua um valor seguro, apesar de o arroz de pato não estar famoso. Culpa da minha Mãe, claro: quem provou o seu (dela, minha Mãe, tia Blá) arroz de pato tem uma enorme dificuldade em encontrar outro que lhe chegue aos calcanhares - isto para quem come com os pés, o que por sorte não é o meu caso mas poderia muito bem ser, se não tivesse braços. O senhor da mesa atrás de mim felicita o simpatiquíssimo empregado: "Parabéns. O Buraco continua a ser o Buraco." Volto-me para confirmar. É um casal de Lamego que vem aqui há "quarenta anos". Eu não venho há tanto tempo e pergunto-me se o Buraco aguentará outros tantos sem se transformar num buraco. Espero que não, mas se tiver de acontecer que seja daqui a outros muitos.
O senhor é advogado. Despediu-se de mim com um passou-bem. Resisti a dizer-lhe o meu nome.
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Outro local do Porto: a Casa Chineza. Comprei cacau em pó e chá preto, um bocadinho de cada que a vida não está para chinezisses caras. Só baratas.
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Daqui vou beber um café e um comer um bolo à Império. Pobre sim, miserável não.
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As ruas e estradas continuam cheias de cartazes das eleições. Da primeira volta. O Marques Mendes promete umas coisas, o Gouveia e Melo outras, o comunista outras ainda, o ventríloquo diz que vai acabar com a corrupção.
Já com a incivilidade todos convivem bem.
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Vilarelho
Regresso a casa, depois de uma paragem em Moledo para uma fotografia e uma cerveja em Espanha com a L. Nada a fazer: fui feito para viver na fronteira. Nas fronteiras.
16.2.26
O espelho imperfeito
Decúbito fetal. Joelhos o mais perto possível do queixo (mesmo assim, ficam longe: as tuas capacidades de contorcionismo são limitadas), mãos sobre os ombros (ditto. Cruzadas: a direita sobre o esquerdo, a esquerda sobre o direito), queixo no V dos antebraços. Apertas-te como se abraçasses alguém que amas e não vês há muito tempo. Não são os casos, nem um nem outro. O teu amor por ti próprio não anda muito longe da tua agilidade, da tua maleabilidade; convives contigo quotidianamente, por muito que desejes abandonar-te como a alma deixa o corpo, para sempre, sem possibilidade de regresso. Prosaicamente, procuras apenas gerar calor, aquecer-te, dando ao pronome dois sentidos, activo e passivo. Como se estar encolhido numa cama, debaixo de três camadas de cobertores pudesse ser uma acção. É. Pode. Concentras-te nela. Pouco a pouco o corpo aquece-te, a manhã aproxima-se a grandes passos do relógio. Escrever traz-te de volta ao frio. Traste. Divides-te entre duas necessidades que se excluem: aquecer-te, escrever-te. Como se o papel em que escreves fosse o ecrã de um telefone. É. Como se esse ecrã fosse um espelho. É, mas imperfeito. Regressas à tua posição, apertas-te com a força da saudade: estiveste ausente de ti. O reencontro é caloroso: apertas-te com força, reencontras a paz da imobilidade, aqueces-te, esqueces-te. Talvez um dia te ames, até. Hoje o objectivo é mais modesto: limar as imperfeições do teu espelho.
15.2.26
Diário de Bordos -Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 15-02-2026
13.2.26
Diário de Bordos - Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 13-02-2026
O DV tem andado mais calado que vivo, coitado. A razão é simples: ando muito ocupado e igualmente preocupado. Mudar de vida é fácil. Difícil é ter a certeza de que a nova vida me permitirá ter uma vida, coisa que está longe de ser segura. A pergunta que mais me ocorre nestes dias é: quanto tempo leva uma cobra a mudar de pele? Ou uma lagosta? Ou uma crisálida a transformar-se em borboleta? (Esta analogia não é muito boa, mas não faz mal. Por agora fica.) Quanto tempo leva um nómada a sedentarizar-se, esse verbo que tanto usei e depois saiu do meu horizonte e do meu vocabulário? Luto em duas frentes: a casa e o trabalho. Duas frentes diferentes: uma sei que a ganho, na outra sei que até agora perdi cada vez que tentei regressar a Portugal. Mais vale acreditar nas infinitas capacidades da aprendizagem, na qualidade inexpugável do trial and error, empirismo no seu melhor, no velho compincha que dizia «êxito é ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo». Sem perder a classe, acrescentaria eu se pudesse. Não posso acrescentar nada a nada: tenho os livros arrumados, a casa composta, o futuro em construção, o passado em recomposição, o presente esquivo e no leitor um disco de música sefardita pelo Hespèrion XXI.
Chama-se Diáspora Sefardí e a mente foge-me para a vertente fácil da «diáspora interior» e outras tretas do mesmo calibre. Nuno Júdice (?): «Comecei a fugir para dentro. É cada vez mais difícil deixar de fugir para dentro".
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Tudo isto para viver os dez anos que segundo as estatísticas me restam ou os quinze que o optimismo prefere.
1.2.26
Diário de Bordos - Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 01-02-2026
Volto ao meu ritmo habitual de acordar muito cedo, como se quisesse encolher a noite, encolher o pesadelo. (Isto é kalimerice. Eu reduzo as noites e a L. reduz o pesadelo a um mau sonho. Deixo-lhe aquí o meu obrigado. Já à RN deixo a minha praga, nada encolhida.)
Os dias ficam mais compridos apesar de ainda ser noite.
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Hoje vou votar "em mobilidade". Voto no Seguro, não porque veja nele o salvador da democracia ou no outro palerma o seu demolidor (dela, democracia). É simplesmente porque prefiro a decência à indecência, a civilidade à boçalidade. Entre duas mediocridades prefiro a educada. O outro não passa de um idiota que fugiu da taberna de onde nunca devia ter saído, um socialista disfarçado de catavento.
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Esta semana começo uma carreira de professor de português para estrangeiros e em breve começarei os primeiros passos para os jantares "ler por aqui" (desculpa-me a apropriação cultural, M. Não é a designação definitiva). A versão para estrangeiros vai chamar-se "dinner by the book", ideia genial, obra do O. (?) a quem também deixo aqui um obrigado que vai de Caminha ao Porto.
Quem tem amigos não tem pesadelos.
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E quem os tem (pesadelos) esmaga-os debaixo de vinte quilos de cobertores, bem esmagadinhos e espera que a sala aqueça - ou seja, sonha com ladrões. O único aquecimento para esta sala chama-se Verão, uma marca bastante presente no nosso país, graças a Deus e à geografía.
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O jantar de pendaison de la crémaillère será em breve. É outra forma de aquecer a sala e de esmagar pesadelos.
31.1.26
Fragmento
28.1.26
Diário de Bordos - Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 28-01-2026
Descubro a casa - nos dois sentidos, descobrir e des-cobrir - e a tentação seria acrescentar descubro-me (num só dos sentidos). Não seria verdade. Sempre fui dual, marinheiro com um pé no mar e outro nos livros, cara ao vento e alma à lareira. Balanço e abalanço-me, que os badanais desafiam tanto no mar como em terra, por diferentes que sejam.
Arrumo os livros, vejo quantos me faltam e quantos tenho, a ficção estrangeira está por ordem. Já só falta a poesia, a ficção nacional (desta vez decidi separá-las), as não-ficção - muitas -, as biografias e auto-biografias, a portugália, a marítima e a miscelânea. Duas semanas e duas estantes ou três. Duas navegações ou três. A lareira enche-me a casa de fumo, as paredes estão a ficar castanhas, o forno é novo, o fumo na casa faz-me pensar que estou a navegar no nevoeiro - estou, se se pensar que nevoeiro pode ter vários sentidos. A polissemia é a minha imagem de marca.
Descubro-me todos os dias, vai para quase setenta anos. Qual a novidade?