6.6.26

Diário de Bordos - Hospital de S. José, Lisboa, 06-06-2026

Mais meia hora de conversa com o SNS 24 e resolvo-me fazer o que pretendia antes do colóquio: vir às urgências do S. José, aonde agora estou. A espera esperada era de quatro horas e dessa ainda só passaram duas e meia. Já comi (a cantina é gerida pela Versailles, que bem melhor teria feito ficando-se pela avenida da República. Os croquetes estão uma merda), dormi uma espécie de coisa breve em forma de sesta sentado à mesa, li e agora que acordei vou beber um café. Ganho coragem para ir ver se o prazo de quatro horas, dado a título indicativo, se mantém.

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Não. Vai ser menos.

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A jovem médica que me recebe é profissional e conscenciosa. Agora foi mostrar as imagens do TAC à equipa de... não retive qual delas. Espero nesta sala - sei agora que vou ficar por aqui algumas horas, pelo que não poderei ir à Feira do Livro como tinha planeado (ainda bem. Ir ali sem dinheiro para comprar livros seria uma tortura). O SNS é como a TAP: horrível até se estar lá dentro, bastante bom depois. Também já sei que a ser operado não será aqui e sim no Egas Moniz. Também já sei que estas dores abomináveis têm o sem fim à vista. 

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Vou organizar uma sessão de venda de livros e fotografias no hospital. Não para os outros pacientes,  porque a julgar pelo que me lembro do Egas não será muito mais dada à leitura do que a que tenho à vista mas si para os amigos mais dados à cusquice hospitalar. Egas Moniz, Avenida da Liberdade n° 1; Hospital Egas Moniz e outras histórias de vida e de maleitas; De Passagem pelo hospital vi a praia de Barbate... tudo isto com rum, cerveja e vinho tinto à discrição. E uns choquinhos à Algarvia, já agora. Ou frango em leite de coco. Ou assim. Ou tostas de pera-abacate sem gluten, com molho de soja e açaí de tomate-cherry em leito de pistacci. Haverá de tudo menos cerveja sem álcool, que é pecado mortal.

Ah, e pedimos um show às enferneiras, não? Já não são tão bonitas como dantes mas não faz mal. São bonitas na mesma.

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Esta sala faz-me pensar no Piranesi.

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Já a minha vida só me faz pensar, sem complemento directo.

«Nasci num país africano»

Resumindo e baralhando: fui ao Serviço de Urgência Básico (ou Básica?) - daqui em diante SUB - de Vila Real de Santo António; ao SUB de Loulé; à consulta de ortopedia do Hospital de Cascais. Fiz um TAC e uma radiografia; falei com médicos, enfermeiros e com os senhores do SNS24, de resto bastante eficientes. Continuo na mesma, com a possível excepção de agora ter uma grande quantidade de pílulas a tomar, andar com dois pensos de Fentanyl no antebraço esquerdo e com uma bengala quando não a esqueço na mão direita. O resto - isto é, o essencial - mantém-se: continuo sem saber a causa desta tortura, à espera de encontrar quem mo possa dizer e as dores continuam alegremente a dar-me cabo dos dias e, mais ainda, das noites.

Claro que ninguém me mandou nascer e viver num país que apesar de estar na Europa (e na «Europa», como dizia VPV) é africano, ninguém me mandou não ter massa para me tratar no sector privado do SNS e não gostar de pedir cunhas excepto quando tenho uma pistola apontada à cabeça. (- Além de que não sei a quem as pedir.)

Numa coisa estou de acordo com a metade (?) esquerdista do nosso país - tudo menos dar dinheiro a ganhar com a nossa saúde aos privados. Para os Torquemadas do «público» tudo o que dê dinheiro devido à saúde a um privado é passivo de fogueira. O sector que funciona do SNS está reservado a quem pode simultaneamente pagar impostos elevados e seguros privados. Nós, os tesos a quem são vedados uns e outros bem podemos arrastar-nos por este país fora que daí não vem grande mal ao mundo. E muito menos aos orangotangos que falam nas televisões sobre a alergia que têm «às reformas» (aspas porque cito), as reformas que vão fazer e as que «já fizeram» - aspas porque é irónico, claro.

E ainda há quem seja contra as cunhas! Eu não sou. Não gosto mas não sou contra. E se por acaso algum médico com influência num hospital deste país me puder ajudar - não hesite, por favor. Pode ser em Freixo de Espada à Cinta, Sebastianas de Baixo ou Trigos de Cima que eu vou lá.

Resta-me o consolo de termos o melhor jogador de futebol do mundo. Que seria de nós sem ele?

ADENDA - Liguei para o hospital privado aonde me fizeram o TAC e a resposta foi imediata (depois as tretas dsas graações, etc.) Ou seja, há neste país que saiba para que serve um telefone. Infelizmente, essas pessoias não são admitidas no SNS.

4.6.26

Diário de Bordos - autocarro de Portimão para Lisboa, 04-06-2026

O plano era simples: entrava na camionete em Portimão,  adormecia, acordava em Lisboa Sete-Rios e ia para casa da A., que esta noite me dá hospitalidade. A primeira etapa decorreu de acordo com ele. Entrei no veículo. O segundo passo parece-me que vai falhar estrondosamente. Os chauffeurs nacionais são generosos e em vez de transporte proporcionam-nos experiências. "Venha andar connosco num autocarro de corridas!' dizem-nos. E acrescentam: "Se vier no lugar número dois terá ainda a vantagem suplementar de apreciar a perícia do nosso condutor a manejar simultaneamente o acelerador, o travão e o telefone portátil. Ou seja: rentabiliza a massa extra que pagou [o dobro do que já tinha pago pelo bilhete normal]. Terá ainda ocasião de ouvir as conversas do senhor [nota: reclamar porque ele tinha o auricular e só ouvia metade]." A condução do senhor é rápida, desportiva, com travagens igualmente bruscas e - graças a Deus - frequentes. A dor na coluna voltou. Pode ser que acalme agora que entramos na autoestrada. A conversa telefónica do condutor prolonga-se e dá-me oportunidade de avaliar o largo leque de interesses do senhor. Pessoalmente estou de acordo. Antes assim do que um monomaníaco limitado. Há pouco a razão do telefonema era de ordem familiar e limitou-se a coisas como quem ia buscar a filha (resposta: a mãe), a que horas ("vê com ela") e mais duas ou três ligadas a horas de chegada a casa, jantares, etc. que infelizmente me escaparam à atenção (as dores lombares estavam a começar).

Por falar em dores: o trajecto na autoestrada parece ter um efeito calmante. Será que a segunda parte do plano terá oportunidade de se pôr em prática? [Falso alarme. Parece que não.] 

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A perspectiva de passar o Verão em terra aborrece-me sobremaneira de dois pontos de vista: a) financeiro e b) não estar em Palma. Ou melhor, três: c) o provável uso de muletas, fisioterapeutas, hospitais et al. O resto, o vasto resto, agrada-me. 

(Cont.)

3.6.26

Diário de Bordos - Portimão, Algarve, Portugal, 03-06-2026

Badanal lá fora - nortada desfeita, a uivar como o levante em Barbate, isto tem sido uma viagem «abençoada» pelos ventos - e badanal cá dentro. Não durmo desde sexta-feira. Estas dores não me largam, coisa que acho injusta dada a quantidade de comprimidos que estou a tomar. E hoje ainda tiveram a gentileza de regressar em força, depois de uma manhã relativamente calma. Nem o Fentanyl (em patches) ajuda, porra! Amanhã desembarco, vou para Lisboa de camionete e daqui já estou a ver a beleza do trajecto. Se Deus existisse e o SNS fosse um dos seus apóstolos sexta de manhã entraria no hospital e já não saíria sem ter isto tudo tratado. Chama-se a isto sonhar com ladrões, mas antes com eles do que com virgens ofendidas. Não vai acontecer, obviamente - o que só acrescenta outro patamar à angústia - quando acontecerá? O que é demais enjoa, porra!

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Mini-discussão no FB por causa de um post sobre a greve. Fui buscar o Gide. Armas abaixo da Grosse Bertha hoje não me servem.

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Resultado das corridas: mal esteja outra vez capaz de pensar vou tratar da história da Bahia. As senhoras ficaram interessadas. E eu também, claro.

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O que mais me põe fora de mim é esta impossibilidade de me deitar. Um gajo estás exausto, de rastos, com a perspectiva de um Verão fodido. A primeira coisa que lhe vem à mente qual é? Ir deitar-se, obviamente. Pois não posso. A anca recusa-se terminantemente a estar noutra posição que não sentada. Ou seja: não é só nos aviões que durmo mal. É na minha cama também, se tiver de passar a noite sentado.

Da série Tempestades em copos de água

«É com bons sentimentos que se faz má literatura.» André Gide.

2.6.26

Diário de Bordos - Portimão, Algarve, Portugal, 02-06-2026

"Eram mais do que inimigos", escreveu um dia Pitigrilli. "Eram irmãos." Ele há fratrias e fratrias mas pelo sim pelo não sugiro sempre a toda a gente que complemente a sua com um bom grupo de amigos. 

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Como nem tudo pode correr sempre mal uma consulta no hospital de Cascais veio ter comigo de uma forma completamente inesperada. Sexta-feira às nove da manhã. Encontrámo-nos numa esquina e chocámos, ela e eu; vai daí resolvemos que um cafezinho juntos não nos faria mal. É que esta luta entre comprimidos e patches e uma coluna deficiente aliada a uma anca idem parece-me desigual. Pelo menos tem sido, até agora e quem está a ganhar é uma dor que requer intervenção superior. Não digo divina mas pelo menos de uma boa marca de bisturis, se possível manejado por um par de mãos competente.

Para quem pensava que ia passar o Verão a trabalhar em Mallorca não está mal. «É preciso ter um plano, se queres não o seguir.» Ou então: «A ver vamos, como dizia o ceguinho à mulher, que era surda.» A minha vida regulada por provérbios, máximas, adágios, ditados, piadas e por aí fora... Ou dentro, que dispensaria muito bem esta invasão.

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Ou seja: desta vez Portimão para mim resumiu-se a um jantar medíocre e um dia em que nem ao cockpit fui. Fiquei-me pelo salão e pelo camarote, dois metros difíceis de percorrer. Felimente tenho quem me poupe o metro e meio suplementar até à cozinha.

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O pior de tudo é saber que me espera uma noite sentado a tentar dormir  com o edredon pelos ombros e a acordar de meia em meia hora, com sorte. Venham-me com grande declarações de amor à carcaça que eu já vos digo.

Ou aos sindicalistas que fazem greve amanhã. Ainda se fossem as mãezinhas deles a fazerem-na... Sempre haveria menos pecado por essas esquinas fora.

Noite, dia e S. Fentanyl

Hoje o dia será passado a fazer activamente nada. Nada. Dedicá-lo-ei a S. Fentanyl, ver se faz algum efeito ou se o assunto é tão grave que nem isso ajuda. Isso sendo o Fentanyl, claro, a droga que anda a matar americanos como krill na boca da baleia. Até agora, se faz não noto. A impressão que tenho é que isto é como querer matar um elefante com um mata-moscas. Esta porra desta dor não me larga e envenena dias e noites. Mais estas do que aqueles, claro: são mais frágeis, sensíveis, susceptíveis, mais falíveis. A noite é a metade feminina do dia.

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O dia de S. Fentanyl ainda não acabou mas já devo começar a pensar que vai ficar em águas de bacalhau. Excepto a dor nas costas: essa não pára. Isto é: de crescer.

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A pior parte desta tortura - ou pelo menos a mais caricatural, passe o sarcasmo - é que não consigo deitar-me. A única posição que aguento é sentado. Há três dias que durmo sentado e que não estou mais de uns poucos segundos de pé; excepto quando quero andar, claro: ando curvado com a cabeça nos queixos. Resultado: tenho os pés que parecem balões de rugby e sonho com dez minutos estendido. Até cinco me deixariam feliz.

Correcção: não é quando quero andar. É: quando queria andar. Já não quero. 

Armazéns doridos

Todis nós, ao nascer, devíamos vir com um stock de dor. À medida que se ia vivendo, essa dor ia sendo gasta e hey, presto, monsignore, a sua velhice vai ser porreira. Porém, tudo indica que é ao contrário: nascemos com um armazém enorme e vazio e vamos enchendo-o à medida que vivemos.

O problema  é que o sacana do armazém é extensível e nunca está cheio.

Além disso, mistura tudo. É como aquelas prisões em que os presos políticos e os de direito comum não estão separados.

Entretanto, no armazém alguém resolveu organizar uma rave com dores de todos os tipos, tamanhos e feitios. Não sei quem é o disc jokey, mas sei que é uma valente merda. Para o chatear, organizei um baile de máscaras com as dores. Iam disfarçadas e ninguém as reconhecia.

(Para a M. A., com a esperança de que um dia a poesia substitua a merda toda que está no armazém.)

Encontro de artes

Aonde a arte de viver encontra a de morrer: não se matar mas deixar-se morrer.

1.6.26

Diário de Bordos - Portimão, Algarve, Portugal, 01-06-2026

Começando pelo fim: louvor e complexificação do SNS. Vi-lhe as duas faces de perto. Em Vila Real fui atendido por uma equipa que tinha a simpatia e a eficácia de um tractor russo avariado (com excepção de uma das enfermeras). Em Loulé foi exactamente o contrário: pessoal simpático, atencioso, afável, bonito e sobretudo competente. Tive de ir ao sector privado fazer um TAC - o SNS é um grande fornecedor de clientes para o sector privado da saúde. Só deviam era arranjar forma de essa colaboração sair ligeiramente mais barata. Ligeiramente é uma maneira de dizer, claro. Mas enfim, foi graças a essa colaboração, à ajuda dos dois primeiros componentes dos três f (family and friends. Faltaram os fools), à excepcional simpatia das médicas dos dois sectores, o público e o privado, que fiquei a saber que vou ter de ser operado à anca e à coluna.

Fiquei também a saber, mas isso foi graças a mim e a mim solo, que ir do lugar de amarração aonde estamos até ao velho restaurante Almeida releva da mais tremenda inconsciência, para não dizer estupidez. No regresso um dos seguranças deu-me boleia no buggy. À ida apanhei duas negas. Tudo isto para comer um frango assado para lá do medíocre e ouvir o supra-mencionado Almeida ralhar-me por ter pedido frango. 

Outra estupidez foi ter começado este post no computador. A dor nas costas não tolera estupidezes, sobretudo quando se seguem desta maneira. Mudar para o telefone - ou seja, do salão para o camarote  - pouco altera. A dor é teimosa e vingativa.

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Nem uma gota de álcool durante pelo menos os próximo mês. Vai ser interessante. Ainda estou para ver uma farmacêutica criar um medicamento que deva ser tomado com vinho ou com cerveja.

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A médica bonita, competente,  simpática e afável receitou-me fentanil (em pensos, não em comprimidos). Se isto não funcionar resta-me a morfina pura, suponho. Ou a eutanásia, claro. Aliás, os compartimentos da  caixa para as pílulas - a que os franceses dão o nome delicioso de semainier - estão a ficar cheios. Não cabe nem mais um. Carcaça, põe-te a pau.

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Carlos, o segurança que me trouxe ao portão de buggy teve a mesma coisa e diz que gritava de dor até ser operado (no sector privado. No público teria de esperar três meses, o que é impensável. Nem Cristo ficou três meses na cruz.) Eu grito de dor e de raiva. Esta temporada vai pelo cano.

31.5.26

Diário de Bordos - Vila Real de Santo António, Algarve, Portugal, 31-05-2026 (e um pensamento extemporâneo do dia)

A questão pode parecer complexa, interessante, metafísica e tudo o que se quiser. Revelar a nossa fragilidade, pequenez, impotência e sei lá que mais. Não é nada disso. A dor, sobretudo quando é tenaz, insuportável e nos deixa de mãos atadas é simplesmente um horror, uma merda, uma tortura. A miséria não merece discursos grandiloquentes.

Resisto à tentação de pensar que a médica parecida com um tractor russo avariado percebe tanto de receituário como de comunicação - isto é, nada. O corticóide, os analgésicos, o anti-inflamatório, o mio-relaxante que injectaram no centro de saúde e os comprimidos e os emplastros que ela me receitou deixaram-me exactamente como estava antes, se não um bocadinho pior. Agora já nem estando sentado a dor alivia.

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Pensamento extemporánea do dia: reduzir uma transacção comercial ao seu aspecto financeiro - ao preço - é como reduzir uma relação sexual ao sexo. Quem o faz perde mais de metade da coisa. Se calhar, a mais importante. 

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Há uns anos um médico disse-me que eu tinha uma bos resistência à dor. As perguntas que eu me faço são: a) Terei perdido essa resistência ou parte dela? e b) Como farão as pessoas que não resistem tão bem à dor? O meu pensamento e a minha solidariedade estão com elas.


30.5.26

Diário de Bordos - Vila Real de Santo António, Algarve, Portugal, 30-05-202_

A coisa começou anteontem em Cadiz e foi crescendo e saiu à luz do dia ontem em Mazagón e hoje em Vila Real de Santo António está exactamente na mesma com a diferença de ter passado quatro horas no centro de saúde, me terem injectado quatro substâncias diferentes, receitado comprimidos e emplastros que já pus e tomei, rapazinho bem-educado que sou. A coisa sendo uma dor excruciante na anca direita, uma dor lancinante que sim, ao contrário do que dizia em Cádiz o Tarzan que há em mim me impede de andar, de dormir, de pensar e me faz lamentar não ter uma moto-serra à mão que ia já perna e anca e tudo.

Pela primeira vez desde a Covid tive uma experiência pouco agradável com o pessoal do SNS. A médica era uma senhora gorda, feia, hispanófona e antipática como o raio que a parta; os enfermeiros não eram nem gordos nem feios e falavam todos português mas com excepção de uma senhora não eram particularmente simpáticos; as instalações levaram-me aos tempos de África. Cereja em cima do bolo: estou exactamente na mesma. Às voltas na cama sem encontrar uma posição que me permita dormir ao menos cinco minutos.

Escrevo isto para tentar diluir a dor mas não consigo. Ainda por cima a senhora doutora receitou-me uns comprimidos que me impedem de beber álcool. Vinte e cinco dias sem uma cervejita, um copo de vinho ou medronho. 

(Cont.)

28.5.26

Diário de Bordos - Cadiz, Andaluzia, Espanha, 28-05-2026

«Por que palavra começar, por que desordem?» Estas palavras de Eugénio de Andrade perseguir-me-ão até ao fim dos meus dias. Aproveito a dica e a boleia e começo por palavras e desordens: que diferença há entre conversa de chacha e conversa de caca? Assim de repente - que está longe de ser repentinamente - penso que nenhuma de fundo. O h está alí por educação, por gentileza, por aquilo a que os franceses chamam politesse e o DeepL cortesia. Prefiro esta última. Agrada-me a ideia de um h cortês, se bem o que me inspirou esta profunda reflexão não tenha nada de cortês. Estou farto de conversas de chacha - ou de caca - suporto cada vez pior a estupidez, sobretudo quando vem escoltada por uma espécie de amor aos animais que não é amor, não é paixão, não é nada se não uma patologia psiquiátrica. Pergunto-me, obviamente, se uma patologia psiquiátrica inteligente é melhor e vem-me de seguida à mente a M. de St. Martin. Por coincidência, esta também se chama M. e as patologias são completamente diferentes. Apesar de tudo, prefiro a desta. Pelo menos não me agride directamente. Limita-se a expor simultaneamente a sua incapacidade cognitiva e o seu «amor» por animais. 

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Ponhamos um pouco de ordem nisto. Estou em Cadiz e fui almoçar ao Cumbres Mayores. Fui com a M. e o F.. Depois eles «liberaram-me»: isto é, escapei-me. Desenfiei-me e vim vadiar por estas ruas que a cada metro me fazem pensar em Cartagena, mas com mais vida, mais gente na rua, mais classe. Ando à procura da praça que há alguns anos fotografei; não a encontrei. Na troca encontrei outras que não conhecia. Acho que fiquei a ganhar. Cada canto que não conheces vale dois dos outros.

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Um pouco como Barbate: o que eu perdi por só ter ido ontem ao mercado... 

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O embarque na lancha de cinquenta e cinco pés mudou para dia quatro em Sevilha. 

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F. precisou de três tentativas para atracar num sítio aonde havia lugar para o QUEEN ELIZABETH. Tento não me aborrecer (isto é, não me chatear) mas confesso que tenho uma certa dificuldade. Porra, eu também já falhei manobras. Muitas, mesmo. Mas nunca saí desses falhanços a dizer que a culpa é do vento. A culpa era minha, ponto final. É por isso que agora as falho cada vez menos. (Tal como a culpa, o mérito também é meu, mas isso são contas de outro rosário. Qualquer marinheiro sabe que tudo o que lhe corre bem é resultado da sorte e tudo o que não é consequência da sua nabice.)

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Procuro um sítio para turistar, escrever e passar fotografias para o computador. Tentei alguns e acabo no Mirador Las Cortes, o bar do hotel homónimo. Não é bem o local indicado mas as mesas de mármore e o sorriso do empregado compensam largamente. Cadiz é uma cidade mediterrânica travestida de atlântica, é uma cidade andaluza disfarçada de cidade espanhola (ou internacional, ma non troppo), é uma cidade tranquila e pachorrenta disfarçada de cidade normal. Talvez seja por isso que gosto tanto de aqui vir: desgosto do que se mostra, se dá a ver. Prefiro lugares - e pessoas - que se escondem, que não saltam à vista, como Lisboa ou Palma. Que têm de se descobrir e, simultaneamente, nos fazem descobrir-nos. Não há movimento para o exterior que não seja acompanhado por um outro igual e de sinal contrário, disse o senhor da maçã. E disse bem. 

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Continuo a ser atacado por dores miseráveis, quase não consigo andar. Isto é: não consigo andar depressa ou muito. Ando devagar e pouco. Não vou deixar uma porra de uma dor (ou duas) imobilizar-me. 

E o que não posso, compenso com táxis. Com a massa que neles deixei em Barbate poderia comprar um helicóptero e pagar o respectivo piloto durante um ano. 

Se ganhasse o totómilhões, claro.

27.5.26

Diário de Bordos - Barbate, Andaluzia, Espanha, 26-05-2026

Venho almoçar à Taberna de Abelardo, que concluiu com êxito e distinção a sua prova de inclusão no meu pódio Barbate. Vim a pé, o que é uma asneira, claro. Tive de parar no El Gordo para meter combustível e confirmar a minha intuição: não vai para o tal pódio, nem perto. Já o Abelardo satisfaz todos os meus diferentes eus: o gastrónomo, o esteta, o vagabundo que gosta de valores locais, o teso que gosta de comer bem, o explorador sedentário (ou vice-versa). Somos muitos e não é fácil chegar a todos ao mesmo tempo. 

A Taberna de Abelardo está dividida em duas salas. Uma é o «restaurante» (aspas para sublinhar as minhas tolerância e generosidade) e outra a taberna propriamente dita, que é a minha favorita. Sou um troglodita que sabe comer de garfo e faca, um taberneiro com boas maneiras e boa educação, um esteta capaz de filtrar e eliminar o feio e só ver o bonito.  

26.5.26

Considerações importantes sobre a conservação da natureza

Esta coisa da conservação da natureza irrita-me ligeiramente. Há muitas razões, todas elas ligeiras, claro. Por um lado, acho muito bem que algumas espécies desapareçam. Não gostaria nada de viver num mundo cheio de dinossauros e apreciaria bastante um sem orcas ibéricas, moscas ou mosquitos. Por outro, sendo ateu - céptico define-me melhor, mas enfim - não gosto de que me impinjam mitos, crendices, fés, superstições ou fetichismos como se fossem dogmas. Finalmente, chateia-me o negócio que está por detrás de tanta beatitude. Nada tenho contra o negócio, note-se. Se há tolos suficientes para o sustentar, ainda bem. Feliz por eles. O que me chateia é o engano, por um lado; e o gasto de dinheros públicos, por outro. 

E estragarem-me as paisagens com eólicas, naturalmente (o jogo de palavras é intencional). Infelizmente, essa natureza não entra nas considerações dos conservadores da outra.

PS - se eu tivesse de escolher entre o fim das moscas, dos mosquitos ou das orcas ibéricas, votaria por estas últimas. Coitadinhos dos atuns que elas comem.