2.6.26

Noite, dia e S. Fentanyl

Hoje o dia será passado a fazer activamente nada. Nada. Dedicá-lo-ei a S. Fentanyl, ver se faz algum efeito ou se o assunto é tão grave que nem isso ajuda. Isso sendo o Fentanyl, claro, a droga que anda a matar americanos como krill na boca da baleia. Até agora, se faz não noto. A impressão que tenho é que isto é como querer matar um elefante com um mata-moscas. Esta porra desta dor não me larga e envenena dias e noites. Mais estas do que aqueles, claro: são mais frágeis, sensíveis, susceptíveis, mais falíveis. A noite é a metade feminina do dia.

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O dia de S. Fentanyl ainda não acabou mas já devo começar a pensar que vai ficar em águas de bacalhau. Excepto a dor nas costas: essa não pára. Isto é: de crescer.

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A pior parte desta tortura - ou pelo menos a mais caricatural, passe o sarcasmo - é que não consigo deitar-me. A única posição que aguento é sentado. Há três dias que durmo sentado e que não estou mais de uns poucos segundos de pé; excepto quando quero andar, claro: ando curvado com a cabeça nos queixos. Resultado: tenho os pés que parecem balões de rugby e sonho com dez minutos estendido. Até cinco me deixariam feliz.

Correcção: não é quando quero andar. É: quando queria andar. Já não quero. 

Armazéns doridos

Todis nós, ao nascer, devíamos vir com um stock de dor. À medida que se ia vivendo, essa dor ia sendo gasta e hey, presto, monsignore, a sua velhice vai ser porreira. Porém, tudo indica que é ao contrário: nascemos com um armazém enorme e vazio e vamos enchendo-o à medida que vivemos.

O problema  é que o sacana do armazém é extensível e nunca está cheio.

Além disso, mistura tudo. É como aquelas prisões em que os presos políticos e os de direito comum não estão separados.

Entretanto, no armazém alguém resolveu organizar uma rave com dores de todos os tipos, tamanhos e feitios. Não sei quem é o disc jokey, mas sei que é uma valente merda. Para o chatear, organizei um baile de máscaras com as dores. Iam disfarçadas e ninguém as reconhecia.

(Para a M. A., com a esperança de que um dia a poesia substitua a merda toda que está no armazém.)

Encontro de artes

Aonde a arte de viver encontra a de morrer: não se matar mas deixar-se morrer.

1.6.26

Diário de Bordos - Portimão, Algarve, Portugal, 01-06-2026

Começando pelo fim: louvor e complexificação do SNS. Vi-lhe as duas faces de perto. Em Vila Real fui atendido por uma equipa que tinha a simpatia e a eficácia de um tractor russo avariado (com excepção de uma das enfermeras). Em Loulé foi exactamente o contrário: pessoal simpático, atencioso, afável, bonito e sobretudo competente. Tive de ir ao sector privado fazer um TAC - o SNS é um grande fornecedor de clientes para o sector privado da saúde. Só deviam era arranjar forma de essa colaboração sair ligeiramente mais barata. Ligeiramente é uma maneira de dizer, claro. Mas enfim, foi graças a essa colaboração, à ajuda dos dois primeiros componentes dos três f (family and friends. Faltaram os fools), à excepcional simpatia das médicas dos dois sectores, o público e o privado, que fiquei a saber que vou ter de ser operado à anca e à coluna.

Fiquei também a saber, mas isso foi graças a mim e a mim solo, que ir do lugar de amarração aonde estamos até ao velho restaurante Almeida releva da mais tremenda inconsciência, para não dizer estupidez. No regresso um dos seguranças deu-me boleia no buggy. À ida apanhei duas negas. Tudo isto para comer um frango assado para lá do medíocre e ouvir o supra-mencionado Almeida ralhar-me por ter pedido frango. 

Outra estupidez foi ter começado este post no computador. A dor nas costas não tolera estupidezes, sobretudo quando se seguem desta maneira. Mudar para o telefone - ou seja, do salão para o camarote  - pouco altera. A dor é teimosa e vingativa.

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Nem uma gota de álcool durante pelo menos os próximo mês. Vai ser interessante. Ainda estou para ver uma farmacêutica criar um medicamento que deva ser tomado com vinho ou com cerveja.

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A médica bonita, competente,  simpática e afável receitou-me fentanil (em pensos, não em comprimidos). Se isto não funcionar resta-me a morfina pura, suponho. Ou a eutanásia, claro. Aliás, os compartimentos da  caixa para as pílulas - a que os franceses dão o nome delicioso de semainier - estão a ficar cheios. Não cabe nem mais um. Carcaça, põe-te a pau.

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Carlos, o segurança que me trouxe ao portão de buggy teve a mesma coisa e diz que gritava de dor até ser operado (no sector privado. No público teria de esperar três meses, o que é impensável. Nem Cristo ficou três meses na cruz.) Eu grito de dor e de raiva. Esta temporada vai pelo cano.

31.5.26

Diário de Bordos - Vila Real de Santo António, Algarve, Portugal, 31-05-2026 (e um pensamento extemporâneo do dia)

A questão pode parecer complexa, interessante, metafísica e tudo o que se quiser. Revelar a nossa fragilidade, pequenez, impotência e sei lá que mais. Não é nada disso. A dor, sobretudo quando é tenaz, insuportável e nos deixa de mãos atadas é simplesmente um horror, uma merda, uma tortura. A miséria não merece discursos grandiloquentes.

Resisto à tentação de pensar que a médica parecida com um tractor russo avariado percebe tanto de receituário como de comunicação - isto é, nada. O corticóide, os analgésicos, o anti-inflamatório, o mio-relaxante que injectaram no centro de saúde e os comprimidos e os emplastros que ela me receitou deixaram-me exactamente como estava antes, se não um bocadinho pior. Agora já nem estando sentado a dor alivia.

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Pensamento extemporánea do dia: reduzir uma transacção comercial ao seu aspecto financeiro - ao preço - é como reduzir uma relação sexual ao sexo. Quem o faz perde mais de metade da coisa. Se calhar, a mais importante. 

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Há uns anos um médico disse-me que eu tinha uma bos resistência à dor. As perguntas que eu me faço são: a) Terei perdido essa resistência ou parte dela? e b) Como farão as pessoas que não resistem tão bem à dor? O meu pensamento e a minha solidariedade estão com elas.


30.5.26

Diário de Bordos - Vila Real de Santo António, Algarve, Portugal, 30-05-202_

A coisa começou anteontem em Cadiz e foi crescendo e saiu à luz do dia ontem em Mazagón e hoje em Vila Real de Santo António está exactamente na mesma com a diferença de ter passado quatro horas no centro de saúde, me terem injectado quatro substâncias diferentes, receitado comprimidos e emplastros que já pus e tomei, rapazinho bem-educado que sou. A coisa sendo uma dor excruciante na anca direita, uma dor lancinante que sim, ao contrário do que dizia em Cádiz o Tarzan que há em mim me impede de andar, de dormir, de pensar e me faz lamentar não ter uma moto-serra à mão que ia já perna e anca e tudo.

Pela primeira vez desde a Covid tive uma experiência pouco agradável com o pessoal do SNS. A médica era uma senhora gorda, feia, hispanófona e antipática como o raio que a parta; os enfermeiros não eram nem gordos nem feios e falavam todos português mas com excepção de uma senhora não eram particularmente simpáticos; as instalações levaram-me aos tempos de África. Cereja em cima do bolo: estou exactamente na mesma. Às voltas na cama sem encontrar uma posição que me permita dormir ao menos cinco minutos.

Escrevo isto para tentar diluir a dor mas não consigo. Ainda por cima a senhora doutora receitou-me uns comprimidos que me impedem de beber álcool. Vinte e cinco dias sem uma cervejita, um copo de vinho ou medronho. 

(Cont.)

28.5.26

Diário de Bordos - Cadiz, Andaluzia, Espanha, 28-05-2026

«Por que palavra começar, por que desordem?» Estas palavras de Eugénio de Andrade perseguir-me-ão até ao fim dos meus dias. Aproveito a dica e a boleia e começo por palavras e desordens: que diferença há entre conversa de chacha e conversa de caca? Assim de repente - que está longe de ser repentinamente - penso que nenhuma de fundo. O h está alí por educação, por gentileza, por aquilo a que os franceses chamam politesse e o DeepL cortesia. Prefiro esta última. Agrada-me a ideia de um h cortês, se bem o que me inspirou esta profunda reflexão não tenha nada de cortês. Estou farto de conversas de chacha - ou de caca - suporto cada vez pior a estupidez, sobretudo quando vem escoltada por uma espécie de amor aos animais que não é amor, não é paixão, não é nada se não uma patologia psiquiátrica. Pergunto-me, obviamente, se uma patologia psiquiátrica inteligente é melhor e vem-me de seguida à mente a M. de St. Martin. Por coincidência, esta também se chama M. e as patologias são completamente diferentes. Apesar de tudo, prefiro a desta. Pelo menos não me agride directamente. Limita-se a expor simultaneamente a sua incapacidade cognitiva e o seu «amor» por animais. 

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Ponhamos um pouco de ordem nisto. Estou em Cadiz e fui almoçar ao Cumbres Mayores. Fui com a M. e o F.. Depois eles «liberaram-me»: isto é, escapei-me. Desenfiei-me e vim vadiar por estas ruas que a cada metro me fazem pensar em Cartagena, mas com mais vida, mais gente na rua, mais classe. Ando à procura da praça que há alguns anos fotografei; não a encontrei. Na troca encontrei outras que não conhecia. Acho que fiquei a ganhar. Cada canto que não conheces vale dois dos outros.

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Um pouco como Barbate: o que eu perdi por só ter ido ontem ao mercado... 

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O embarque na lancha de cinquenta e cinco pés mudou para dia quatro em Sevilha. 

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F. precisou de três tentativas para atracar num sítio aonde havia lugar para o QUEEN ELIZABETH. Tento não me aborrecer (isto é, não me chatear) mas confesso que tenho uma certa dificuldade. Porra, eu também já falhei manobras. Muitas, mesmo. Mas nunca saí desses falhanços a dizer que a culpa é do vento. A culpa era minha, ponto final. É por isso que agora as falho cada vez menos. (Tal como a culpa, o mérito também é meu, mas isso são contas de outro rosário. Qualquer marinheiro sabe que tudo o que lhe corre bem é resultado da sorte e tudo o que não é consequência da sua nabice.)

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Procuro um sítio para turistar, escrever e passar fotografias para o computador. Tentei alguns e acabo no Mirador Las Cortes, o bar do hotel homónimo. Não é bem o local indicado mas as mesas de mármore e o sorriso do empregado compensam largamente. Cadiz é uma cidade mediterrânica travestida de atlântica, é uma cidade andaluza disfarçada de cidade espanhola (ou internacional, ma non troppo), é uma cidade tranquila e pachorrenta disfarçada de cidade normal. Talvez seja por isso que gosto tanto de aqui vir: desgosto do que se mostra, se dá a ver. Prefiro lugares - e pessoas - que se escondem, que não saltam à vista, como Lisboa ou Palma. Que têm de se descobrir e, simultaneamente, nos fazem descobrir-nos. Não há movimento para o exterior que não seja acompanhado por um outro igual e de sinal contrário, disse o senhor da maçã. E disse bem. 

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Continuo a ser atacado por dores miseráveis, quase não consigo andar. Isto é: não consigo andar depressa ou muito. Ando devagar e pouco. Não vou deixar uma porra de uma dor (ou duas) imobilizar-me. 

E o que não posso, compenso com táxis. Com a massa que neles deixei em Barbate poderia comprar um helicóptero e pagar o respectivo piloto durante um ano. 

Se ganhasse o totómilhões, claro.

27.5.26

Diário de Bordos - Barbate, Andaluzia, Espanha, 26-05-2026

Venho almoçar à Taberna de Abelardo, que concluiu com êxito e distinção a sua prova de inclusão no meu pódio Barbate. Vim a pé, o que é uma asneira, claro. Tive de parar no El Gordo para meter combustível e confirmar a minha intuição: não vai para o tal pódio, nem perto. Já o Abelardo satisfaz todos os meus diferentes eus: o gastrónomo, o esteta, o vagabundo que gosta de valores locais, o teso que gosta de comer bem, o explorador sedentário (ou vice-versa). Somos muitos e não é fácil chegar a todos ao mesmo tempo. 

A Taberna de Abelardo está dividida em duas salas. Uma é o «restaurante» (aspas para sublinhar as minhas tolerância e generosidade) e outra a taberna propriamente dita, que é a minha favorita. Sou um troglodita que sabe comer de garfo e faca, um taberneiro com boas maneiras e boa educação, um esteta capaz de filtrar e eliminar o feio e só ver o bonito.  

26.5.26

Considerações importantes sobre a conservação da natureza

Esta coisa da conservação da natureza irrita-me ligeiramente. Há muitas razões, todas elas ligeiras, claro. Por um lado, acho muito bem que algumas espécies desapareçam. Não gostaria nada de viver num mundo cheio de dinossauros e apreciaria bastante um sem orcas ibéricas, moscas ou mosquitos. Por outro, sendo ateu - céptico define-me melhor, mas enfim - não gosto de que me impinjam mitos, crendices, fés, superstições ou fetichismos como se fossem dogmas. Finalmente, chateia-me o negócio que está por detrás de tanta beatitude. Nada tenho contra o negócio, note-se. Se há tolos suficientes para o sustentar, ainda bem. Feliz por eles. O que me chateia é o engano, por um lado; e o gasto de dinheros públicos, por outro. 

E estragarem-me as paisagens com eólicas, naturalmente (o jogo de palavras é intencional). Infelizmente, essa natureza não entra nas considerações dos conservadores da outra.

PS - se eu tivesse de escolher entre o fim das moscas, dos mosquitos ou das orcas ibéricas, votaria por estas últimas. Coitadinhos dos atuns que elas comem.

25.5.26

Diário de Bordos - Barbate, Andaluzia, Espanha, 25-05-2026 / II

Almoço na Casa Oscar, sugestão do taxista que me trouxe. Não fiquei nem muito entusiasmado nem muito desiludido, antes pelo contrário. Tem duas vantagens: as empregadas são giras, sorridentes e eficazes; e vejo o mar, que não se cansa de me repetir «como vês, nem pensar em largar». E uma desvantagem: a comida não é exaltante. É assim-assim, nem bom nem mau. Para desempatar: não é caro.

Jantar

Não vejo a cara da senhora que está sentada na mesa à minha frente. Vejo-lhe metade das costas, esguias, finas; os braços, que parecem postos ali para suportar o conjunto, quando ela se inclina para um lado ou para o outro; o cabelo, amarrado em trança e pendurado para a frente. A camisa é larga ma non troppo e bonita. Deve ter piada, a julgar pelos risos do homem que a acompanha e que só muito ocasionalmente vejo. Faz-me inevitavelmente pensar na S., quando comecei a andar com ela, num concerto do António Variações em Gouveia. Isto não se inventa, anda um gajo a lavar vidros, a trabalhar numa quinta e a limpar telhados no Jura suiço para engatar finalmente a miúda em Gouveia. Ou na outra S., parisiense de Marselha, com quem atravessei o Atlântico em mil novecentos e oitenta e cinco e só engatei em dois mil e cinco, tudo isto a precisar de afinações. Não sei bem se é o corpo dela que me atrai se a atitude, esta mistura de energia que se adivinha e agilidade e humor que se observa. (Há muitos eufemismos para sensualidade, não há?)

Vão-se embora. Não lhe vi a cara. Desculpa, Vinicius, mas a beleza só é fundamental às vezes.

Saio do restaurante - La Peña del Atún, ou coisa que o valha, outra sugestão de um taxista. Melhor que a casa Oscar mas longe do 4 Veinte ou da Tienda - e venho a pé até ao paseo marítimo. O Bar Europa está fechado e sou acolhido com os habituais sorrisos e braços abertos no Jarana. São onze da noite, a cidade está deserta, o restaurante tem uma mesa ou duas além de mim. Não conheço a Andaluzia toda, tant s'en faut, mas aquilo que conheço enche-me o coração de amor, passe a pieguice.

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Com um bocadinho de sorte largamos quarta-feira. O próximo porto será Cádiz ou Rota, se houver lugar. Daí vai ser Algarve, se Deus existir e quiser. Existir não existe, eu sei. Mas pode ser que queira. Os deuses sempre tiveram uma benevolência especial para com os marinheiros, mesmo quando não existem.

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Poderia dizer que já houve uma altura na minha vida em que este vento (agora seis Beaufort) me encheria de alegria, mas estaria a mentir. Já tive uma vida em que este vento, etc. seria a forma correcta de exprimir o que sinto. Foi noutra vida, pá. Como as S. e as costas sensuais de uma senhora a quem nem viste a cara.

Não tenho a certeza

Estes versos de Santa Teresa de Ávila fazem-me perguntar-me se ela os escreveria estando em Barbate à espera do fim do levante. A resposta está no título.

Nada te turbe, 
nada te espante, 
Todo se pasa, 
Dios no se muda.
La paciencia 
Todo lo alcanza.

(...)

Diário de Bordos - Barbate, Andaluzia, Espanha, 25-05-2026

Estou farto de vento até à ponta dos cabelos, que estariam esvoaçando se os tivesse, cada vez que saio do salão, seja para ir ao duche seja para ir à «cidade». Como tenho poucos e cortados curtos não esvoaçam, só me dão um referencial para a expressão. Não que fosse preciso: este uivo permanente é cansativo, com cabelos ou sem eles. Acresce que Barbate não é propriamente o meu ideal de porto para passar mais de dois ou três dias e esse limite vai ser alegremente ultrapassado. Alegremente sendo uma maneira de dizer, claro.

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Saio do Oscar, que não me entusiasmou (cf. infra, não tarda) e venho ao Abelardo.  Pouso em Barbate já tenho. Só me falta encontrar uma Heloísa.

Perguntas matinais

1 - Desde quando é que ser-se "jornalista" dispensa conhecer o significado das palavras?

2 - Desde quando é que "jornalismo" começou a ser sinónimo de evangelização?

Respostas:

1 -Desde os anos sessenta;

2 - Mas alguma vez não foi? Alguma vez os jornalistas não foram os "eleitos", imbuídos de deveres (e direitos) transcendentais, que excedem em muito as suas duas funções primordiais: a) informar; b) escrutinar o Poder?

24.5.26

Serviço público - restaurantes em Barbate

Aos já mencionados bar Europa, taberna Abelardo, restaurante La Tienda, há que acrescentar o restaurante 4 Veintes (mesmo ao lado da Tienda e em face do bar Mateo). 

É mau, caro, feio, antipático e não sei bem que mais. Em sima: uma maravilha.

Hesitações semânticas

A modernidade tem tendência a esquecer que "a Vénus de Milo é tão bela como o binómio de Newton" e isso é uma das coisas que a torna tão detestável.

(Ia dizer repelente, nas contive-me.)

Diário de Bordos - Barbate, Andaluzia, Espanha, 24-05-2026

Se o ECMWF e o GFS estiverem certos, não saímos daqui antes de quinta-feira. Como estão os dois de acordo - na verdade três, porque fui confirmar com o ICON - é pouco provável que a coisa mude. E sonhava eu fazer a troca com o V. na Corunha. Chegar a Portimão já será uma sorte.

Entretanto o badanal faz das suas: frio e o T. J. que não pára de se queixar e vibra por todos os lados. Passo muito tempo a bordo, por questões ligadas à baixa altura da maré ou à falta de chuva. Mas também porque o casal não é desagradável e Luna, a mini-cadelita não chateia nada. Mal dou por ela. Não gosto de navegar com cães - se não é a primeira vez anda lá perto - mas enfim, desta não me queixo. Acho doentia a relação da M. com os animais - agora deu em dar de comida a uma colónia de gatos vadios que vive na marina, apesar dos avisos em contrário; falar em dar um tiro a uma orca à frente dela é como sugerir a um crente que talvez se devesse enviar a Virgem Maria para um prostíbulo. Enfim, é uma boa pessoa, O F. adora-a com razão e a vida a bordo é agradável. 

Melhor seria se estivéssemos a navegar mas enfim, não se pode ter tudo.

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Passei uma hora e meia a calcorrear Barbate à procura de um sítio para beber uma cerveja que não fosse no paseo marítimo porque a ver o mar passo eu os dias e não preciso de o ver mais. Acresce que que olhar para ele é perceber porque não podemos sair daqui. Acabo no Europa, o meu bar favorito do supra-mencionado paseo. Favorito é um exagero: não conheço mais nenhum. Venho aqui por causa do episódio do rum Cacique que achei demasiado barato e porque é o menos armado ao pingarelho. A minha busca por uma cerveja produziu um resultado pouco habitual, numa espécie de roulotte  de churros e bolerías aonde um grupo de senhores locais conversava animadamente e abriu um lugar para mim, na extremidade do grupo que estava ao sol mas a verdade é que apreciei bastante o gesto e a cerveja. Antes dessa tinha bebido uma no bar Matteo mas não aceitam cartões e lá tive de calcorrear a rua à procura de uma «máquina de spaghetti», agora rebatizada «máquina de imperiais». Depois caí na asneira de ir comer um gelado - deitei metade fora, os gelados do Claudio são horríveis, têm o monopólio dos gelados - e pronto, ecco, signori, bar Europa depois de umas ovas de atum, de uma mojama, de quase meio litro de mazagran e outro tanto de vinho branco, métodos infalíveis de acelerar o relógio. Ou pelo menos de o enganar. Verdade seja dita: o rapaz é crédulo, deixa-se influenciar por tudo e por nada. Umas vezes parece que anda às arrecuas, outras dispara como o cavalo louco do outro, Desta vez bastou dar-lhe uns copitos de vinho branco e umas tapas e lá foi ele, desarvorado e feliz, porque o tempo gosta de galopar.

O bar Europa esvaziou-se, o sol cai devagarinho, a luz alaranja-se, perde este branco irritante, ofuscante, abafador como nos jogos de berlinde do antigamente. Agora o que nos leva é energia e não bilas. Daqui a pouco terei frio, aposto.

(Cont.)

23.5.26

Diário de Bordos - Barbate, Andaluzia, Espanha, 23-05-2026 / II

Os cafés de cápsulas estão para o verdadeiro café como um rapaz que decidiu que é mulher para uma mulher de nascença. Tem parecenças, nada mais. Bebo um desses trans-cafés acompanhado por um pseudo-rum e vou deitar-me. F. vê uma série na televisão - nunca hei-de perceber um aparelho desses numa embarcação - M. uma série no telefone e eu digo boa noite, agradeço-lhes a simpatia - real, enorme - e venho deitar-me. O T. J. fala pelos cotovelos,  consequência da ventosga que lhe chega apesar da protecção da marina. Aqui a terra chegam-nos cinco ou seis Beaufort. Esta noite foi mais. M. dizia-me "Parecia que estávamos fundeados". Não iria tão longe mas na verdade ficaria perto. Só faltavam as vagas.

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Queria sair e deixei de querer. Fico a bordo a ouvir as queixas do T. J. e a pensar em tudo o que ainda tenho para fazer: organizar o passado e planear o futuro. Este é curto e aquele interminável. Entre os dois, o meu coração hesita e opta por viver o presente, em toda a sua simplicidade.  Versão pessoal do chutar para canto, suponho. Os cantos estão cheios de bom-senso.

Mix, modernidade

No mix que a opinião publicada (que é cada vez maior, forçosa e infelizmente é reconhecê-lo) usa para analisar a modernidade há cada vez mais moralidade e menos racionalidade.

Diário de Bordos - Barbate, Andaluzia, Espanha, 23-05-2026

Se não fosse esta porra deste Levante que nos impede de sair a praça Francisco Tato Anglada estaria um forno. Acho que nunca ninguém encontrou uma moeda só com uma face. É meio-dia, os cafés e restaurantes da praça começam a abrir (mas a Tienda já está aberta, graças a Deus) e o barulho vai aumentando em crescendo rápido. A luz é branca, cega-me, obriga-me a pôr os óculos escuros com os quais me é difícil escrever. Como sem eles é pior, vou alternando. Umas linhas com, outras sem. Estou a preparar-me para comer umas croquetas e para me habituar à ideia de que vamos ficar aqui mais dois ou três dias. A cozinha para o almoço só abre à uma e meia da tarde: há tempo para as croquetas e para a resignação ao inevitável. Não sei se resignação é o termo certo e se resignar-se ao inevitável não será um pleonasmo. Provavelmente sê-lo-á, mas estou-me nas tintas. Qual a parte da minha vida que não é um pleonasmo? Ou melhor, quantos pleonasmos já vivi? Quantas vezes já esperei que o vento mude, que uma cozinha abra, que a luz deixe de me cegar, mesmo a periférica, que entra pelas margens dos olhos? Andalucía, me ciegas de amor y de luz y de ruído y de paz y de pasados, esses pleonasmos teimosos como caracóis, levam anos a sair-nos da vista, mesmo cega pela luz.

Barbate já tem alguns turistas mas por enquanto são poucos e visivelmente espanhóis. Quando olho para os prédios da cidade nova imagino isto em Julho e duvido muito que teceria grandes cânticos de amor, se por cá andasse. Não andarei. Estarei em Palma. Não há moedas só com uma face e há-as com duas brilhantes.

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Para informação: comi croquetas de atún encebollado, provavelmente o prato que Eva cozinhou para o Adão quando aqui chegaram (nessa altura os homens não entravam na cozinha). E o convenceu a ficar.


(Cont.?)