15.8.26

Diário de Bordos - Cala Mitjiana e cala Guya, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-08-2026

Não se pode dizer que a coisa aqui esteja preta. Não está. Mas tão pouco está branquinha. Ele é a dor nas costas, a vista que continua a chatear, a concentração que não se concentra. É como se estivesse no meio de uma batalha e não soubesse exactamente para que lado vou cair. Enfim, para que lado eu sei. Só não sei é quando. Estamos fundeados em cala Mitjiana, a outra. Esta é na costa norte de ilha. É uma baía enorme com uma praia pequenina ao fundo. Os clientes falam, eu tento ler, tratar das fotografias e agora escrever. Tudo com pouco êxito. Também tentei dormir uma sesta  mas não estou muito à vontade: e se quiserem ir para outro lado? Acordam-me? Ná. Prefiro ir enganando a dor nas costas fazendo-lhe crer que logo vai ter direito à sua dose de comprimidos (vai, menor do que a habitual porque alguns acabaram e outros estão quase). Esta tarde não houve sol. Foi bom, um bocadinho de frescura. Agora está quase a reaparecer. A temperatura já subiu, a térmica foi-se e só temos um mar residual, mal se sente. Amanhã volto para Palma, pago a renda e vou comer ao 7 Machos. Ou seja: amanhã nada de opióides. Quero beber cerveja sem pensar nos efeitos aterradores da mistura daqueles com esta - pelo menos é o que dizem as bulas, consultadas em papel e na net. Verdade seja dita, já o fiz. Mas sou adepto daquele velho ditado segundo o qual púcaro que vai muitas vezes à fonte um dia deixa lá metade.

Enfim, isto é uma questão em aberto: esta rampa vai continuar a descer sem parar ou vai voltar a subir? Estatisticamente ainda tenho dez anos de vida e não vejo grande vantagem em vivê-los neste estado. Por outro lado, também não vejo grande benefício em não os viver. Não ver os meus netos crescer como não vi os meus filhos não me parece uma ideia atractiva por aí além. 

Parece uma vida aos bocados, não parece? Puzzle ao qual faltam peças e agora é tarde para as procurar.

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Para a semana haverá pouco trabalho, com o tempo que aí vem a partir de quarta ou quinta-feiras. Pode ser que consiga dedicar-me às cantigas, que tanto quero fazer. Os gajos do totomilhões não ligam nenhuma aos meus planos, está visto. Bem podiam dar-me um adiantamentozito, eu prometo que voltarei a comprar aquilo quando chegar a Portugal. Se os meus impulsos altruístas se mantiverem, claro, qu'isto de ajudar os pobres tem limites. Sejam eles portugueses ou togoleses. Enfim, filantropia um pouco egoísta, desconfio. Não é porque as probabilidades de ganhar alguma coisa são infinitamente inferiores às de ajudar quem precisa que se deve deixar de jogar.

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Voltámos para cala Guya. É porreira. Poucos barcos e muito espaço. Pouco vento e uma óptima atmosfera a bordo. É como digo: a coisa aqui não está preta.

14.8.26

Diário de Bordos - Cala Guya, Mallorca, Baleares, Espanha, 14-08-2026

Fundeado em Cala Guya, no canto nordeste da ilha. Da vida a bordo pouco há a dizer: entendo-me com os clientes como Deus com os anjos - ou um anjo com os deuses, para ser mais preciso.

O único senão é a porra da dor nas costas, que não me deixa beber nem uma cerveja por causa dos remédios e que ainda por cima só se torna francamente incomodativa à noite na cama. Durante o dia mexo-me como um cabritinho selvagem.  Para adormecer vejo-me e desejo-me e tenho de carregar no opióide - o tal que me faz andar a água e Coca-Cola há não sei quanto tempo. Devo estar a pagar caro esta incapacidade de vergar a coluna. Ou então de a ter vergado demais,  naquela versão "vergar a mola" com que na marinha mercante se designava trabalhar. Não sei. Sei que isto é uma porra infecta, é o que é e já não é pouco.

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Este charter acaba domingo. Não tenho mais nada marcado depois. Vai cair ao pingos, como água da chuva de uma folha de árvore. Talvez até tenha tempo e disponibilidade mental (e física) para me dedicar às cantigas de amor. O plano de ganhar o totomilhões está temporariamente suspenso: aqui em Espanha não compro aquela porcaria. Ajudo os pobres, sim, mas os portugueses. Os espanhóis que tratem dos deles.

Cenas de bar

O rapaz olha para ela com uns olhos de caramelizar mas não percebo se a consegue pôr à boa temperatura. 

13.8.26

Diário de Bordos - Es Trenc, Mallorca, Baleares, Espanha, 13-08-2026

A semana vai bem: vi o meu primeiro e provavelmente último eclipse total do Sol, as dores na perna só me atacam com violência à noite na cama - durante o dia dão-me apenas uma breve lembrança de que ainda por aí andam,  coisa que me alivia bastante porque os clientes de charter não costumam gostar de skippers que mal se podem mexer - estes clientes são impecáveis e já só faltam três dias para regressar ao meu refúgio na casa Volta Dos, que tantas vezes me acolheu.

A loucura provocada pela Lua a passar à frente do parceiro é descriptível mas não muito interessante: milhares de pessoas no cabo Ses Salines, outros milhares na costa da Colonia San Jordi, larguíssimas centenas de embarcações fundeadas em Es Trenc. Tive sorte, arranjei um poiso decente um bocadinho antes de Ses Covetes e aqui ficámos. Hoje passamos de novo a noite aqui. Amanhã,  cala Mitjiana, que já foi pertença de uma grande família aqui da ilha e agora é pública. Por curiosidade, essa família é uma das clientes de uma das senhoras que trago a bordo e é consultora em transmissão de gerações em empresas familiares. Não sei se transmissão é o termo exacto. Já tive uma consultora em pricing e agora tenho uma em mudança de gerações.  

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A vantagem destas dores para os meus leitores é que os posts são curtos.

12.8.26

Eclipse, século XXI

As pessoas que gostam de dizer "estamos no século vinte e um e..." segue-se uma coisa qualquer que elas pensam antiquada ou inaceitável  nos tempos modernos deviam analisar a excitação que por aí vai com o eclipse. Não mudou desde os Neandarthal, aposto.

11.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, 11-08-2026

Vim finalmente jantar ao Gigi's Piccolo Ristorante. É igualzinho a um outro restaurante do género que conheço. Falta só esta réstea de oceano que os separa. Não recordo aonde era. Tendo a pensar em Marselha mas duvido: o ruído seria dez vezes pior; também não foi nas ihas Borromeo. Talvez Paris, talvez o restaurante não fosse italiano ou americano ou coisa que o valha. Talvez fosse apenas um pobre diabo a fugir de qualquer coisa: o cansaço, as dores, isto de a partir de amanhã ter mais cinco de charter, o seu país... que sei eu? Que quero saber? Nada, na verdade. Excepto ir para casa, arrumar a bicicleta, ir para a cama.

A qual cama é, de resto, um dos piores sítios aonde posso estar. É là que as dores são piores e menos suportáveis. Hoje no charter portou-se tudo bem, vá lá. A ver como vai ser amanhã. Cinco dias incluindo o do eclipse - amanhã, por sinal. Está tudo doido com o eclipse. Já vi um ou dois da Lua e um parcial do Sol. Este vai ser o primeiro total for Sol. Confesso que não estou muito excitado com o fenómeno. A ver vamos, dirão os sobreviventes. E eu, se for um deles. 

Apesar do que bebi ao jantar, tomei um desses comprimidos que não se devem misturar com álcool. Paciência. Tudo é melhor do que a noite que passei ontem. Até não morrer.

9.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 09-08-2026

É domingo (de manhã, preciso), está sol e Palma-a-calma anima-se devagarinho. Fui à Tipika gastar dinheiro - bem gasto, claro: siruells, postais e livros de cozinha, dois de cada - e depois vim ao Mise en Place, escritório matinal na Plaza Mayor. O meu projecto de ir à praia ficou adiado sine die. Tudo está adiado sine die, parece-me, excepto este desejo de emoldurar os postais que comprei hoje e os pendurar na parede ao lado do frigorífico, de pôr os siruells novos na estante aonde já estão os outros e de me deitar no sofá da sala com um copo de vinho verde branco. A vontade de ver este tinnitus desaparecer também se mantém viva. Vêm-me à memória as palavras de Cristo na cruz, um bocadinho adaptadas: «Corpo, corpo, porque me abandonaste?»

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O Mise en Place encheu-se com um grupo de franceses. Ocupam a mesa grande, a que está no meio da sala. São alguns catorze (doze, numa contagem mais atenta) e eu vou para casa cozinhar. Ontem comprei um avental e tenho de o estrear. Carne picada, beringelas, patató, cebolinho - alguma coisa daqui sairá, se Deus quiser. Tenho uma garrafa de tinto correcto no frigorífico. Só me faltam hierbaspalo e um pouco de rum. Pouco tenho bebido álcoois fort6es, lapso esse que compenso com cerveja em quantidades razoáveis.

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A livraria inglesa de Palma está fechada para férias. Encomendei is livros sugeridos pelo G. C. na de Lisboa. Vão ter de esperar pelo meu regresso. Esse pelo menos tem die.

(Cont.)


8.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 08-08-2026

A farmácia que não me deixava entrar com a bicicleta fechou. Tenho pena. Não contribuí muito para tâo triste desfecho. Apesar de ter de deixar a burra à porta ia lá mais do que às outras. O senhor inspirava-me confiança. Hoje fui a uma das sobreviventes (Eram três. Agora são duas). Comprei vitamina B12. Parece que ajuda a combater o cansaço. Estou cansado de me ouvir dizer que estou cansado. Também comprei Voltarene, ver se curo esta porra desta inflamação no polegar direito. Três semanas de incómodo justificam o investimento. Aquela porcaria é cara pra burro mas a verdade é que é eficaz. Depois fui à roupa e agora tomo o pequeno-almoço no mercado. Vou comprar especiarias ao Cristian. Hoje vai ser o dia das paprikas e pimentões. Tenho de comprar um almofariz na Culinarium. Se tivesse de fazer um desenho da minha vida em Palma sairia um círculo com centro no Olivar? Circulo não, mas elipse sim e um dos focos seria aqui de certeza. O meu café favorito no mercado chama-se Can Jaume. "Artesans des de 1927", verbatim. Porém, é raro comer aqui. Prefiro os "restaurantes" - o Xisco, o Hugo, o Corner aonde já só vou para o vermute. As tapas são boas e caras. O Can Jaume é um sítio honesto, tem tapas correctas a preços idem. Hoje vou almoçar ao Xisco com o V. Se tiver secretos, claro. Se não vou à Selecta para uma sandocha de presunto. E se em vez de ser uma figura geométrica a minha vida em Palma fosse um sistema de caminhos de ferro? Carris, agulhas, estações, apeadeiros, salas de espera... Märklin de vida, deslumbramento infantil, com uma diferença: este não passará.

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O jantar foi metade do resto da arepa que trouxe do Cric & Croc, a sobra do vinho branco de ontem, a sobra da melancia (uma boa merda, de passagem seja dito), um mochi de maracujá e cento e vinte e cinco de sake da casa no Otaku. A resposta à pergunta "Porque é que todos gostam de Palma?", que eu tantas vezes me fazia quando aqui cheguei, está em cada esquina. 

7.8.26

Diário de Bordos - Palma ,Mallorca, Baleares, Espanha, 07-08-2026

Convido V. para jantar. Frango à Gaston Gérard, uma dessas receitas francesas que requerem três panelas, duas frigideiras e um ralador de queijo por cada cem gramas de carne. Não me queixo do resultado: penso que pode ser um pouco melhorado, é tudo. V. gostou e provou-o servindo-se várias vezes. Não digo quantas por discrição. Depois do jantar fomos beber um sake ao Otaku. É uma escala importante antes do sono.

Chego a casa cansado, como ando sempre. L. mandou-me uma dessas tretas da net segundo a qual esta fatiga perene é provocada pela falta de vitamina B 12, ela mesma consequência da metformina. Amanhã vou comprar a tal vitamina - que de resto já tomei por recomendação da M. durante a parte aguda da crise. Por muito céptico que seja a respeito desses milagres do FB o efeito placebo não é mito nenhum.

J., a filha de M. (dona da casa) e o namorado dizem-me que me lavam a loiça e venho deitar-me.

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O charter com as miúdas acabou bem. Cinco raparigas jovens, bem educadas, bonitas. Não acredito que seja aqui o virar da maré mas se vier será muito bem recebido. Já tem pelo menos dois prenúncios.

6.8.26

Diário de Bordos - Puerto Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 06-08-2026

Estaria pronto a apostar que estes foram os piores saltimbocca alla romana da minha vida. Só não o faço porque não gosto de apostar quando tenho a certeza de que vou ganhar. A única coisa em meu favor é que não foi uma surpresa. Ou melhor, foi-o só parcialmente: estavam piores do que esperava. Vim a um restaurante que dantes era o melhor italiano de Puerto Andratx. Depois foi comprado por uns indianos que mantiveram o menu. Não é a primeira vez que aqui venho depois da mudança. Mas como hoje comi razoavelmente ao almoço, no Foradada com nova gerência (atenção: razoavelmente. A paella estava a léguas da do Sa Premsa) e como não quero gastar muito dinheiro e como continuo a não conseguir comer pizza e de qualquer forma estou em modo peregrinatio e... e... e... cá vim. E hei-de voltar, eu sei. Não preciso de um cilício para me mortificar. Um mau restaurante serve perfeitamente. 

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Quando chegou a hora de pagar mostro o cartão e o senhor, desolado,  aponta para uma folha de papel colada à porta e que aparentemente fazia referência à não aceitação de cartões. Digo "aparentemente" porque não a tinha visto e continuei a não lhe ler o conteúdo. Pergunto aonde é a máquina mais perto e o senhor diz-me que não é preciso. Posso pagar amanhã ou depois. Digo-lhe que não e vou levantar o dinheiro. Amanhã quero sair cedo. Não deixo porém de ficar igualmente impressionado com a técnica de marketing e comovido. Sou um rapazinho sensível, essa é que é essa.

Lá paguei ao homem e fui para bordo esvaziar o dinghy. Parecia uma piscina.

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Recupero desta mistura de emoções e esforço físico com um Negroni no bar N° 11, um bar calmo adequado a um senhor que sofre de excesso de aniversários. As piquenas estão no Tim's, mais feito para aquela faixa etária.

O Negroni estava bom e resolvi aventurar-me num Mai Tai. Grotesco. Tenho de voltar ao Trader Joe em Oakland. Acabar a noite no nível de qualidade com que a comecei faz-me pensar em elevadores circulares.

4.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 04-08-2026

Oito horas numa Saxdor 320. Dois motores Mercury fora-de-borda de trezentos cavalos cada, electrónica última geração, oito horas das quais pouco mais de uma a navegar e o resto fundeado em Ses Iletes. Deve ser a primeira vez que alguém me pede para passar um dia inteiro naquele sítio, mas bom. Estar seis horas parado a fazer nada senão prestar atenção a quem chega e a quem vai, ainda por cima sem comida por esquecimento (meu), tanto faz estar aqui, ali ou acolá. A «cala» - aspas porque aquilo não é propriamente uma cala - estava cheia, como sempre. Encontrei um canto perto da praia e por ali fiquei. Os clientes eram porreiros, não chatearam nem um minuto. Tinha o fato de banho no saco mas decidi não usar a velha desculpa do «vou verificar o ferro». Estoicismo, meu caro. Estoicismo. No regresso apanhei um táxi, uma senhora linda e deliciosa de mais para ser descrita em palavras. Acabámos a falar de política. Acha o Sanchéz um psicopata e tem pena de não poder sair de Maiorca porque o namorado não quer nem ouvir falar disso. Tudo numa voz juvenil, doce, suave, sorridente. É tão bom ter a idade que tenho e ser capaz de apreciar estas coisas só por elas, só porque são bonitas.

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Andava à procura de um sítio para vir comer, passei tudo em revista e acabei no Cric & Croc (o nosso Buca e Estica, para quem não sabe). Melhor ideia do dia. A arepa continua deliciosa e demasiado grande. O que sobrou vai para casa e amanhã faço um jantar de restos. Depois da praia, aonde irei sem falta. Só me resta decidir qual. A primeira escolha é Estellencs, cela va sans dire. A ver vamos o que será avec dire. Depende do horário dos autocarros e da força nas pernas, que subir aquilo à pata é um esforço que não sei se terei coragem de pedir aos meus músculos sofredores. (Pefiro pensar que são eles os doentes.)

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Amanhã não tenho hora para acordar. Preciso de mais dias assim. Tanto quanto preciso deles com horas.