Em vez de "Aonde estavas no 25 de Abril?" deve perguntar-se "Aonde estavas durante a Covid?"
É muito mais importante.
Em vez de "Aonde estavas no 25 de Abril?" deve perguntar-se "Aonde estavas durante a Covid?"
É muito mais importante.
É a história de um bêbedo que cambaleia na rua entre duas vozes. Oscila, vacila, cai à esquerda e ouve vozes que lhe gritam "É mentira! É mentira!" Cambaleia para a direita e outras vozes respondem "É mentira! É mentira!"
"Se tudo é mentira tudo é verdade", raciocina. E vice-versa: se tudo é verdade, a mentira desaparece. Talvez nem tudo seja verdade ou mentira. Talvez haja um pouco de cada uma em cada uma. Talvez não haja verdades ou mentiras absolutas. Talvez haja graus, umas mais mentiras outras mais verdades." Dá mais uns passos hesitantes, fecha um olho para não ver a dobrar. Continua a ouvir os gritos, de um lado e do outro.
"E se em vez de ser dos lados da estrada as vozes me chegassem do passado e do futuro?", pergunta-se. Hesita. A ideia não lhe parece má mas uma dúvida permanece-lhe no espírito: "E o presente, aonde é que o pões?"
Hoje foi dia de inaugurações: primeira queda na bicicleta e primeira micro-reparação - que teve pelo menos a vantagem de me permitir confirmar em primeira mão que posso andar nos autocarros com a burra. Têm um local específico para elas, com cintas e tudo. Mal uma pessoa entra com a bicicleta na mão a ou as pessoas que estão nessa área afastam-se para ceder o espaço. Já a queda resulta de uma dupla aprendizagem: a) andar numa bicicleta tão pequena e b) redescobrir Genebra a pedais. As cidades mudam muito, consoante o meio que usamos para as viver e eu já não pedalo em Genebra há mais de vinte anos. Resultado: hoje mudei de direcção sem prevenir e sem olhar para trás e uma jovem senhora montada numa bicicleta eléctrica - a esmagadora maioria, aqui - não teve tempo nem oportunidade para se desviar e fui ao chão. Felizmente ela aguentou-se e do meu lado os danos foram poucos: um minúsculo buraco nas calças. Nem o ego se magoou, veja-se. Uma ou duas horas depois o selim saiu do espigão e tive de levar a mini-burra de autocarro até à loja, aonde me emprestaram uma chave de doze e um spray tipo WD40 mas melhor (não é difícil) e a coisa ficou como nova. Como ainda tenho para mais duas semanas, aproximadamente, terei tempo de aprender. Sem quedas, claro. E a olhar para trás.
A verdade é que a quantidade de bicicletas em Genebra aumentou exponencialmente e agora são quase todas eléctricas. Transportes públicos magníficos, ruas limpas, bem pavimentadas e bem sinalizadas - com os sinais respeitados. Isto faria inveja a um santo. A mim não faz porque não sou santo.
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Não sei está a avançar visivelmente. Daqui por um mês, mais coisa menos coisa estará nas livrarias. Vai ter a mesma quantidade de páginas do que os outros mas com metade dos anos - dois em vez de quatro. Foram dois anos e peras, é o que é. Entretanto lembro-me de que o DV vai fazer vinte e três anos daqui a dois meses. Tem sido um companheirão e vai continuar a sê-lo, espero. Prefiro escrever disparates a não escrever de todo.
Escrevo para mim. Sou uma audiência difícil, insatisfeita. É o que há. Os leitores, os outros, os que não são eu estão presentes porque tento escrever bem. Isto é, respeitando as regras da gramática e as do estilo, mais difíceis mas igualmente importantes. Não sei o que é escrever bem. Ser legível. Ser inteligível. Não sei. Ser adivinhável. Escrever é passear entre estas linhas, a de sombra e a da clareza, um exercício de funambolismo com uma vara infinita nas mãos. Para um escritor essa vara tem dois nomes: alfabeto e dicionário. Ou três, se lhes quisermos acrescentar a gramática, tão importante como as outras duas.
Há treze tipos de vitaminas, diz-me a inteligência artificial que me responde cada vez que pergunto qualquer coisa ao Google. A lista não me parece completa. Faltam pelo menos as duas preferidas de uma antiga colega minha, uma senhora zimbabweana, bem fornida de carnes e de humor. Eram essas as vitaminas "aaaahhh" e "fffff....". Por vezes mencionava-as de manhã, no escritório selecto aonde ambos fingíamos que trabalhávamos. Havia pouco que fazer e mesmo essa parca quantidade era tratada com muito cuidado, muita ternura, nada de a magoar. Nunca a ajudei a tomar essas vitaminas: a senhora tinha demasiadas carnes para o meu gosto. Sempre fui frugal nessas coisas. Além de que desconfio que ela tinha quem lhas fornecesse em quantidade. Não posso porém negar: por vezes lembro-me dela. Terá perdido peso?
Passeio às Franches-Montagnes. Não sei se é a região mais bonita da Suíça. Para mim é mas estou longe de conhecer todas. É a minha favorita: estes campos que me trazem carapinhas à memória, casas que parece terem sido erguidas contra o tempo - e foram: no século XIV o príncipe de Basileia isentou de impostos quem fosse viver para ali. Daí o nome. A região não é amena e as casas tradicionais mostram-no bem. Gosto do amor dos naturais pela terra, é uma devoção. Fomos a uma loja de mulheres agricultoras, uma daquelas em que um tipo entra e tem vontade de comprar tudo: produtos exclusivamente da região, todos de altíssima qualidade. A loja chama-se assim porque é gerida pelas mulheres dos agricultores - que fazem igualmente alguns dos produtos à venda e se revezam na presença. Depois foi a vez do Café du Soleil, uma instituição em Saignelégier e do étang de Gruère, iluminado pela luz do fim da tarde, densa «como mel» (Leonard Cohen). O Jura é a mulher feita natureza, redonda e forte, doce e segura de si.
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Passámos muito de passagem por La Chaux-de-Fonds, uma cidade que absorveu a minha infelicidade como se fosse um mata-borrão e ainda hoje a mantém guardada, prestes a ser expelida à menor pressão.
Penso no que fui infeliz ali e apercebo-me de que já o era muito, antes de para lá ir. E que foi de la Tchaux que o meu périplo começou: norte da Itália, Dunkerque, Aveiro, Zurique, Genebra. O mata-borrão funcionou eficazmente. Não que tenha ficado com a infelicidade toda, longe disso. Mas ensinou-me que passeá-la não servia de nada.
Uma iniciativa popular na Suíça quer proibir os fogos de artifício por causa do bem estar animal. Como todas as iniciativas e referendos (estes vêm do governo, aquelas do povo, como o nome indica) o tema é objecto de debates na televisão, artigos na imprensa, comités e contra-comités. Como é evidente, aprovo o método e se votasse votaria contra, mil vezes contra.
Tenho muita pena dos animais que se assustam mas devemos impor limites. A civilização ocidental é a única que se despreza, menospreza, hostiliza a si própria. Esta auto-desqualificação tem vantagens, claro. Os fluxos migratórios demonstram-no à saciedade. Mas o que é de mais é de mais. As rampas escorregadias devem ter limites e as nossas sociedades estão a precisar muito de muitos.
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Isto dito, penso quão melhor seria aqui o debate caminhense sobre a ponte para a Guardia. Seria objecto de estudos, análises, contraditórios sem fim e quando as pessoas fossem votar talvez tomassem a opção errada (para mim e por agora). Mas pelo menos votariam informadas.
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À tarde fomos à costa de Lavaux: lago Léman, Alpes e vinhas em socalcos. A beleza desta mistura submerge-me numa melancolía sem fundo. Tão funda que não me apetece sequer falar nela. Fica aqui o registo, para um dia.
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Uma das poucas coisas que poderiam reconciliar-me com a televisão seria os telejornais suíços. Felizmente não quero e pouco os vejo. Mas lá que tenho inveja dos telespectadores suíços tenho. É possível fazer telejornais curtos, informativos, com um mínimo de micro-trottoir.
Breve nota na brasa: frango piccata é muito bom, fácil, rápido e barato. Enfarinhar o frango, dourá-lo em azeite e manteiga, reservar; déglacer brevemente com vinho branco, juntar sumo de limão e alcaparras, deixar ferver, acrescentar manteiga e depois o frango para acabar de cozer. Não esquecer salsa picada fino.
É isto. Hoje deixei o frango previamente em sal e sumac um par de horas e como pimenta usei a verde fumada, que está um bocadinho gasta.
Outra: fazer muito molho. A smala adorou e repetiu e pouco sobrou....
Mais uma: a loja de especiarias fica na rua des Corps-Saints e chama-se Lyzamir. Hoje comprei lá merken, loomi e alcaravia.
(A título de curiosidade: o merken foi mais barato do que o que comprei recentemente no Bolhão.)