Não sei quem é esta Sónia em quem estou tantas noites mas aprecio-lhe a cultura. Fala tão bem inglês como latim.
6.5.26
5.5.26
Vastidões
Normalmente associa-se o termo vastidão a deserto, mar, estepe. A algo plano, em que nada interrompe o olhar. Não concordo. Falo, por exemplo, na vastidão da amizade; falei muitas vezes, a seu tempo, na vastidão do amor que sentia por esta ou por aquela senhoras. Continuo a sentir o sentido de vastidão quando leio estes versos (não o são, nas pouco importa):
"La vida es una mala noche en una mala posada."
"Vivir la vida de tal suerte que viva quede en la muerte."
"No son buenos los extremos aunque sea en la virtud."
"It is foolish to think that we will enter heaven without entering into ourselves."
Não sei quem quem traduziu a última frase. A vastidão da minha ignorância. A propósito: a autora é Santa Teresa d'Ávila.
A vastidão da beleza: ouvia há pouco Leonard Cohen e Julie Felix cantar em dueto e dali parti para aqui, diria se não soasse tão mal. Foi a primeira vez que ouvi aquele dueto. Depois da milésima, quero dizer. É sempre a primeira vez que se ouve Leonard Cohen.
Diria tantas coisas, se não estivesse perdido na vastidão do silêncio.
Na vastidão do deserto vêem-se torres dispersas nas quais o olhar esbarra. Estão ligadas por uma linha quase invisível chamada vida. Ou memória. É a mesma coisa, a mesma vastidão.
3.5.26
Em defesa da epistemologia intuitiva
Imagine-se uma pessoa que nunca sequer viu uma embarcação de vela. Imagine-se que essa pessoa assiste a uma conversa entre o Loïc Peyron ou a Ellen MacArthur e eu.
Quanto tempo levaria essa pessoa a perceber que tanto a Ellen como o Loïc sabem infinitamente mais de vela do que eu?
(Antes de continuar, isto precisa de um pouco de contextualização. Não sei como é nas outras áreas do saber, mas os grandes marinheiros são pessoas extremamente humildes. Dou um exemplo, tentando ser breve: Ellen MacArthur ganhava as regatas devido à sua sobrenatural capacidade de interpretar as previsões meteorológicas. Aquela mulher fazia opções de rotas que um dia levaram um do seus competidores directos a dizer-me "A Ellen vem de outro planeta".
Um dia veio jantar a minha casa, em Cascais. Entrou, trocámos as formalidades usuais e cinco minutos depois estava a fazer-me uma pergunta sobre um fenómeno meteorológico frequente em Portugal para o qual não encontrava explicação.
- Não sei, Ellen. Ando há meses a procurar, já perguntei em todo o lado, serviços meteorológicos, universidades, tudo. Ninguém soube responder-me... [Pausa. Um tempo.] Mas espera, quem tem de fazer essa pergunta sou eu a ti e não tu a mim.
Ellen encolhe os ombros e diz-me: "Há que perguntar tudo a todos. Não consigo perceber por que raio de carga de água aquilo acontece e alguém há-de saber [a tradução é minha e não é literal]".
Uma cena semelhante passou-se com o Loïc em Salvador da Bahia, mas poupo os pormenores aos leitores.)
Ou seja: não é preciso ser especialista numa área qualquer para se ser capaz de perceber de que lado a razão tem mais probabilidades de estar. A minha opinião sobre a Covid comecou a formar-se a partir das discussões (essas, sim, violentas, contrariamente às minhas supra-citadas) entre o André Dias e um aldrabãozeco cujo nome era João qualquer coisa, se bem me lembro. Foram essas discussões que me levaram a estudar o assunto, tanto quanto um leigo pode estudar e a inscrever-me num dos lados do debate. O mesmo se passa com o debate sobre a Palestina. Ouvi e li argumentos e só depois construí a minha opinião. (Nb: falta-me ler em primeira mão Edward Said, mas do que dele sei penso que não mudará muito a minha posição. Quando muito, aprofundá-la-á.)
No meu posicionamento político há obviamente um enorme factor pessoal, incontrolável: a minha incapacidade de me incluir em grupos, clubes, escolas, associações ou seja o que for que cheire a colectivo (com a notória excepção de uma tripulação e mesmo essas escolhidas) e portanto nunca poderia ser de esquerda. Contudo não é só por fatalidade genética que sou de direita. Como toda a gente passei pela esquerda e só depois decidi que a interpretação da realidade é mais fiel sem os óculos ideológicos e anti-biológicos dos colectivismos.
Talvez como método epistemológico isto não valha muito. Paciência. Tem pelo menos um mérito: as minhas opiniões são construídas, não me caem pré-fabricadas no regaço. E outro: sou capaz de as mudar quando me provam que estou errado. Não é fácil mas é possível.
1.5.26
O acaso e o livro
Hoje, o livro que o acaso escolheu para mim chama-se a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer (sic). O autor é Stig Dagerman, a editora a Fenda Edições. A "versão" (aspas porque cito) é de Paula Castro e José Daniel Ribeiro.
A "versão" (ditto) é abominável e tem ainda menos desculpas porque este exemplar é a quinta edição. Podiam tê-la revisto.
Dagerman não é um hino à alegria (de resto suicidou-se aos trinta e um anos) e este livro parece mais uma apologia da depressão do que uma sua descrição. Volto a Gamoneda, o acaso de ontem, que ainda está na mesa de cabeceira. Ainda não chegou o tempo de ser homem para aventuras de uma noite.
"Cada distancia tiene su silencio"
Antonio Gamoneda, in Descripción de la mentira.
Superlativos
Entrámos num tempo de superlativos. Já não basta gostar. Há que amar. Não gostar de transformou-se em odiar. Continuo a viver num mar sem marés, numa planície sem altos e baixos. Gosto de ti porque não sei amar-te. Gosto de ti porque não sei ser amado. O meu horizonte está demasiado longe, bendito seja. Transforma elefantes em formigas, crocodilos em lagartixas, girafas em miúdos curiosos que se escondem atrás de uma árvore para espiar a vizinha. Quando se vão embora atiram pedras às janelas e tocam às campainhas. O mundo vinga-se: crescem. Superlativizam-se. Um dia morrerão.
Sólo es legible el libro de lo incierto
El óxido se posó en mi lengua como el sabor de una desaparición.
El olvido entró en mi lengua y no tuve otra conducta que el olvido,
y no acepté otro valor que la imposibilidad.
Como un barco calcificado en un país del que se ha retirado el mar,
escuché la rendición de mis huesos depositándose en el descanso;
escuché la huida de los insectos y la retracción de la sombra al ingresar en lo que quedaba de mí;
escuché hasta que la verdad dejó de existir en el espacio y en mi espíritu,
y no pude resistir la perfección del silencio.
No creo en las invocaciones pero las invocaciones creen en mí:
han venido otra vez como líquenes inevitables.
La fermentación del verano se introduce en mi corazón y mis manos se deslizan cansadas en la lentitud.
Vienen rostros sin proyectar sombra ni hacer crujir la sencillez del aire;
sin osamenta ni tránsito, como si consistieran únicamente en el contenido de mis ojos, en la unidad de mis palabras, en el espesor de mis oídos.
Son obedientes y yo siento su reunión como una salud que se refugia en la oscuridad.
Es una amistad dentro de mí mismo;
es un estambre urdido por manos que son suaves en el interior de los días.
Ahora es verano y me proveo de alquitranes y espinas y lápices iniciados,
y las sentencias suben hacia las cánulas de mis oídos.
He salido de la habitación obstinada.
Puedo hallar leche en frutos abandonados y escuchar llanto en un hospital vacío.
La prosperidad de mi lengua se revela en cuanto fue olvidado durante mucho tiempo y sin embargo visitado por las aguas.
Éste es un año de cansancio. Verdaderamente es un año muy viejo.
Éste es el año de la necesidad.
Durante quinientas semanas he estado ausente de mis designios,
depositado en nódulos y silencioso hasta la maldición.
Mientras tanto la tortura ha pactado con las palabras.
Ahora un rostro sonríe y su sonrisa se deposita sobre mis labios,
y la advertencia de su música explica todas las pérdidas y me acompaña.
Habla de mí como una vibración de pájaros que hubiesen desaparecido y retornasen;
habla de mí con labios que todavía responden a la dulzura de unos párpados.
* * *
La naturaleza de los cuerpos es fingir la existencia y este conocimiento es el fin de un espíritu rodeado por ávidas gallinas en los preámbulos.
Lee en las láminas de vidrio: los argumentos del placer y los capítulos de la destrucción atravesados por una sola mirada. ¿Quién habla en esta transparencia?
Sólo es legible el libro de lo incierto.
El afilador que posee en sus cánulas una sola nota, clara como una serpiente, creadora de la niñez en un espacio de hombres vigilados, no es más feliz que su propia música destinada al invierno.
Así es el rostro de tu madre.
Nuestra pasión es trivial: una enseñanza atribuida a pájaros sobre la nieve, a los volúmenes cuya visión es la forma más perfecta de la tristeza.
Y la convicción crece únicamente en el paladar de hombres aptos para la administración de la muerte, hombres cuyas azumbres están llenas de líquidos más decisivos que el dolor.
Mas, los incrédulos, desposeídos de conducta, ¿qué iglesia luce en nuestros gemidos?
Hay indicios en narraciones impecables: el vendedor de higos chumbos cuya pobreza está bajo la luz y sonreía cerca del cuchillo y la limpieza de su acto era una lámpara increíble, una prueba exquisita de la inexistencia coronada de gritos en la celebración del mercado.
O, en los jardines del verano, el muro quieto en la imposibilidad, externo a un espesor de líneas invisibles, un espesor dotado de melancolía.
O, más aún, en tu chaqueta abandonada y entreabierta, es decir, en una forma que describe tu desaparición.
Esta perplejidad es la conciencia. El miedo ejerce de pastor, pero no sabes más de ti que un animal absorto sobre el agua.
* * *
El olvido es mi patria vigilada y aún tuve un país más grande y desconocido.
He retornado entre un silencio de párpados a aquellos bosques en que fui perseguido por presentimientos y proposiciones de hombres enfermos.
Es aquí donde el miedo ve la fuerza de tu rostro: tu realidad en la desaparición
(que se extendía como la lluvia en el fondo de la noche; más lenta que la tristeza, más húmeda que labios sobre mi cuerpo).
Eran los grandes días de la traición.
Me alimentaba la fosforescencia. Tú creaste la mentira entre las piernas de mi madre; no existía el dolor y tú creaste la compasión.
Tú volvías a las hortensias.
Y sollozaste bajo la lente de los comisarios.
Y vi la luz de la inutilidad.
Mi boca es fría en las plegarias. Este relato incomprensible es lo que queda de nosotros. La traición prospera en corazones inviolables.
Profundidad de la mentira: todos mis actos en el espejo de la muerte. Y los carbones resplandecen sobre la piel de héroes aún despiertos en el umbral de la imbecilidad.
Y ese alarido entre cristales, esas heridas que no son visibles más que en el instante del amor…
¿Qué hora es ésta, qué yerba crece en nuestra juventud?
Antonio Gamoneda in Descripción de la mentira, ed. Abada editores.
Só a (boa) poesia pode descrever a noite quando esta se transforma em silêncio.
Eu?
Todos chegamos a uma idade em que a noite já não é o futuro. É o passado. O "touro furioso" abandonou a arena e fica-se entregue a si mesmo. Já não há animais a domar nem a vertigem de se ser domado. A idade da contemplação e da reflexão (o passado é um espelho e uma interrogação).
É para isto que se vive. Para se poder olhar para trás e ver-se ao espelho e poder perguntar-se "Sou eu? Fui eu?"
27.4.26
Se há vinte anos
"Tudo o que vês é estilo. Só superfícies planas, brilhantes, sem ponta por onde se hes pegue. Essas não se vêem. O que importa está escondido." A relação entre o que se é e o que se mostra, entre o que se vê e a realidade era uma das obsessões de F. e resumia-a numa fórmula para mim vazia de conteúdo: "É preciso separar a espuma dos dias" que ele achava brilhante e repetia com frequência. "Por exemplo, vês aquela mulher ali ao fundo? A que vai para a casa de banho a andar como se tivesse depilado o jardim há dois dias e agora aquilo pica?"
(Cont.?)
25.4.26
Diário de Bordos - Braga, Minho, Portugal, 25-04-2026
24.4.26
Outra breve nota sobre harmonias
Como é do conhecimento geral, as pessoas que estão com o período não devem fazer maioneses ou bechameis. Isto aplica-se tanto a mulheres como a homens, que as regras são para todos. Pois eu hoje desafiei-as, as regras e fiz uma béchamel. Daqui a pouco terei o veredicto. As últimas maioneses têm falhado. Não gostam de desafios. A ver se a béchamel também é bégueule.
E não pus o avental encarnado. Talvez venha daí a asneira. A ausência de harmonia leva inevitavelmente ao desastre. A ver. Antecipações só depois de o jantar estar no prato.
..........
Para além da escolha do avental, a preparação de uma refeição - todas as refeições são de cerimónia, relembro, mesmo ou sobretudo as solitárias - exige um cuidado especial na escolha da bebida que vai acompanhar a cozinha. Para mim, só há duas adequadas: a cerveja e o vinho tinto. O vermute exige atenção, o gin tónico conversa e o vinho branco companhia. Restam as duas supra-mencionadas.
........
Para terminar esta série, que na verdade não teria fim, fosse eu um rapazinho sério:
A lavagem da loiça fez-se (o uso do passivo é propositado) ao som do Fado Bailado, de Rão Kiao. Digo-o contrito: é o único disco de fado que sou capaz de ouvir do princípio ao fim e recomeçar. A béchamel não ficou como eu queria mas tão pouco ficou do avesso, como tantas vezes me acontece quando tenho as hormonas arrepiadas. A loiça está lavada e maioritariamente seca e arrumada. A primeira parte da noite esvai-se tranquilamente, espécie de pequena hemorragia do dia; é este que se esvai, gota a gota. Não é a noite. Essa começa agora.
23.4.26
Harmonias, aventais
Devido a uma simples questão de harmonias, é essencial escolher o avental com o qual se vai cozinhar. Uso o plural propositadamente: são duas as harmonias às quais é necessário estar atento. A interna e a externa. O avental deve acordar-se com o menu e com o nosso estado de espírito (e excepcionalmente com os convidados, se os há e se corre o risco de eles chegarem quando ainda estamos a cozinhar - no meu caso, sempre: só tiro o avental quando vou para a mesa). O avental na cozinha é uma peça de roupa tão importante como a roupa do dia e combiná-lo com o que o envolve - ou, mais importante, ele envolve - é tão importante como combinar a cor das meias com a camisa (ou com a gravata) ou os sapatos com o cinto. Tal como a ninguém passa pela cabeça ir trabalhar para um escritório de mocassins castanhos ou de camisa havaiana, ninguém pensaria pôr o avental encarnado para fazer um jantar de cerimónia (refiro-me ao meu avental encarnado, o mais feio dos que tenho. Tudo isto é muito pessoal. Mas não esperem confidências. O DV não é um confessionário). Todos os meus jantares são de cerimónia, de passagem se diga, esteja sozinho ou acompanhado e por isso o meu avental por defeito é o chic, o da Zara, que não tem atilhos. Quando vai para lavar... Bom, pouco importa. Fica a nota. Hoje pus o encarnado. É o que mais raramente ponho, apesar de ultimamente o ter usado de vez em quando. Espero vivamente que tenha de ir para lavar e eu não precise dele por muito tempo.
22.4.26
Equilíbrios indefinidos
Comi demais e não bebi o suficiente para acompanhar tanta comida. É importante equilibrar o que se come e o que se bebe. Como amar e ser amado, outro equilíbrio importante e por vezes difícil de se conseguir. Durante muitos anos acreditei numa coisa que li em adolescente: "em todas as relações há um que ama e outro que se deixa amar". Hoje não amo, não sou amado e sei que aquilo não é verdade. Ou melhor: não é sempre verdade. Às vezes é mas não o é em todas as relações.
Pior: às vezes é verdade mesmo quando não há uma relação.
Outro equilíbrio instável é aquele de amar-se alguém "até que a morte nos separe". Conheço muitos casos em que foi a vida a separar-nos. Ou as vidas, mais exactemente, a dela e a dele. Aposto que só as mortes de cada um lhes permitirão unir-se, coisa que as vidas não deixaram.
Na verdade, há mais desequilíbrios do que o contrário, como de resto muito bem comprova o dia de hoje. Deveria ou ter comido menos ou ter bebido mais.
Ou ter amado menos e ser mais amado?
21.4.26
Receita: frango recheado com alheira, ordem, desordem, Patxi Andion et al.
Cont.
Palavras: espero (fragmento)
Se as palavras fossem flores, ou bombons, oferecer-te-ia um ramo delas, uma caixa. Mas não são. São palavras, só. Não lhes podes tocar, não as podes comer e só as podes ver se eu tas escrever como faço agora, que não te posso ver e muito menos tocar. Posso lembrar-me de ti como o papel, um dia, se lembrará delas, destas palavras que um dia lerás e no outro esquecerás, provavelmente, porque é esse o destino das palavras: serem esquecidas.
Enfim, nem todas. Algumas ficam. Como este beijo que aqui digo e escrevo e te envio e te chegará, um dia e em ti ficará muitos outros.
Espero.