Há treze tipos de vitaminas, diz-me a inteligência artificial que me responde cada vez que pergunto qualquer coisa ao Google. A lista não me parece completa. Faltam pelo menos as duas preferidas de uma antiga colega minha, uma senhora zimbabweana, bem fornida de carnes e de humor. Eram essas as vitaminas "aaaahhh" e "fffff....". Por vezes mencionava-as de manhã, no escritório selecto aonde ambos fingíamos que trabalhávamos. Havia pouco que fazer e mesmo essa parca quantidade era tratada com muito cuidado, muita ternura, nada de a magoar. Nunca a ajudei a tomar essas vitaminas: a senhora tinha demasiadas carnes para o meu gosto. Sempre fui frugal nessas coisas. Além de que desconfio que ela tinha quem lhas fornecesse em quantidade. Não posso porém negar: por vezes lembro-me dela. Terá perdido peso?
17.10.26
16.10.26
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 16-10-2026
Passeio às Franches-Montagnes. Não sei se é a região mais bonita da Suíça. Para mim é mas estou longe de conhecer todas. É a minha favorita: estes campos que me trazem carapinhas à memória, casas que parece terem sido erguidas contra o tempo - e foram: no século XIV o príncipe de Basileia isentou de impostos quem fosse viver para ali. Daí o nome. A região não é amena e as casas tradicionais mostram-no bem. Gosto do amor dos naturais pela terra, é uma devoção. Fomos a uma loja de mulheres agricultoras, uma daquelas em que um tipo entra e tem vontade de comprar tudo: produtos exclusivamente da região, todos de altíssima qualidade. A loja chama-se assim porque é gerida pelas mulheres dos agricultores - que fazem igualmente alguns dos produtos à venda e se revezam na presença. Depois foi a vez do Café du Soleil, uma instituição em Saignelégier e do étang de Gruère, iluminado pela luz do fim da tarde, densa «como mel» (Leonard Cohen). O Jura é a mulher feita natureza, redonda e forte, doce e segura de si.
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Passámos muito de passagem por La Chaux-de-Fonds, uma cidade que absorveu a minha infelicidade como se fosse um mata-borrão e ainda hoje a mantém guardada, prestes a ser expelida à menor pressão.
Penso no que fui infeliz ali e apercebo-me de que já o era muito, antes de para lá ir. E que foi de la Tchaux que o meu périplo começou: norte da Itália, Dunkerque, Aveiro, Zurique, Genebra. O mata-borrão funcionou eficazmente. Não que tenha ficado com a infelicidade toda, longe disso. Mas ensinou-me que passeá-la não servia de nada.
15.10.26
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 15-10-2026
14.10.26
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 14-10-2026
Uma iniciativa popular na Suíça quer proibir os fogos de artifício por causa do bem estar animal. Como todas as iniciativas e referendos (estes vêm do governo, aquelas do povo, como o nome indica) o tema é objecto de debates na televisão, artigos na imprensa, comités e contra-comités. Como é evidente, aprovo o método e se votasse votaria contra, mil vezes contra.
Tenho muita pena dos animais que se assustam mas devemos impor limites. A civilização ocidental é a única que se despreza, menospreza, hostiliza a si própria. Esta auto-desqualificação tem vantagens, claro. Os fluxos migratórios demonstram-no à saciedade. Mas o que é de mais é de mais. As rampas escorregadias devem ter limites e as nossas sociedades estão a precisar muito de muitos.
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Isto dito, penso quão melhor seria aqui o debate caminhense sobre a ponte para a Guardia. Seria objecto de estudos, análises, contraditórios sem fim e quando as pessoas fossem votar talvez tomassem a opção errada (para mim e por agora). Mas pelo menos votariam informadas.
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À tarde fomos à costa de Lavaux: lago Léman, Alpes e vinhas em socalcos. A beleza desta mistura submerge-me numa melancolía sem fundo. Tão funda que não me apetece sequer falar nela. Fica aqui o registo, para um dia.
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Uma das poucas coisas que poderiam reconciliar-me com a televisão seria os telejornais suíços. Felizmente não quero e pouco os vejo. Mas lá que tenho inveja dos telespectadores suíços tenho. É possível fazer telejornais curtos, informativos, com um mínimo de micro-trottoir.
13.10.26
Receitas e notas a correr
Breve nota na brasa: frango piccata é muito bom, fácil, rápido e barato. Enfarinhar o frango, dourá-lo em azeite e manteiga, reservar; déglacer brevemente com vinho branco, juntar sumo de limão e alcaparras, deixar ferver, acrescentar manteiga e depois o frango para acabar de cozer. Não esquecer salsa picada fino.
É isto. Hoje deixei o frango previamente em sal e sumac um par de horas e como pimenta usei a verde fumada, que está um bocadinho gasta.
Outra: fazer muito molho. A smala adorou e repetiu e pouco sobrou....
Mais uma: a loja de especiarias fica na rua des Corps-Saints e chama-se Lyzamir. Hoje comprei lá merken, loomi e alcaravia.
(A título de curiosidade: o merken foi mais barato do que o que comprei recentemente no Bolhão.)
10.10.26
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 10-10-2026
7.10.26
6.10.26
4.10.26
Medo e outros receios
Penso no medo e de como é importante para a sobrevivência. Sem ele não não se vive. Com ele tão pouco: o medo paralisa. Daqui passo para alguns dos arraiais de porrada que apanhei no mar: não é durante a tempestade que temos medo. É depois. Durante o temporal está-se demasiado ocupado, não há tempo para receios - estratégia de sobrevivência, claro. A natureza conhece o poder incapacitante do medo.
A associação de ideias prossegue e continua para a quantidade daquilo a que hoje chamo idiotices que fiz no mar: os passeios na retranca para rizar, as vezes em que voltei para bordo agarrado à escota da grande, os trabalhos no bico da proa - tudo sem arnês. Hoje continuaria a não o pôr (o medo aguça o engenho, não gosto de me sentir preso e sobretudo execro a ideia de ser arrastado pelo barco e não conseguir subir) mas penso que essas asneiras me ensinaram a ter medo de mim próprio, talvez o mais útil de todos os medos.
30.9.26
Ricardo, (rei dos) Reis
Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
De afetos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses.
Ricardo Reis, in "Odes"