A dor - sobretudo esta dor crónica, estrutural - torna-se um englobante. Tudo gira em torno dela. É um buraco negro: até absorve o tempo, que deixa de existir. Sei o que vou fazer daqui a duas horas: ir ao médico. Depois disso? Mistério. Já nem Lisboa me encanta: a dor transforma em obstáculo e inconveniente tudo o que toca. «On n'oublie rien. On s'habitue, c'est tout» não se aplica à dor.
18.6.26
Resumo
Contrariamente ao que eu pensava (ou desejava, a diferença é por vezes difícil de estabelecer) - e tal como me tinham sugerido - continuo sem saber o que tenho. Dei um pequeno passo em frente: sei o que não tenho. As dores vêm exclusivamente da coluna;
b) O m]edico do Hospital de Cascais não pode pedir uma IRM porque o hospital não tem máquina para tal e só podem pedir exames que possam ser efectuados internamente;
c) Referenciou-me para outro ortopedista (creio) com um nível de prioridade «normal»: aparentemente esse médico está com um prazo de espera «bastante alargado» (aspas porque cito a funcionária do balcão encarregada de marcar a consulta) e de nada serve marcar «urgência» na referenciação.
Estou um pouco desorientado. Como toda a gente já passei pela fase estóica, «um homem não chora», «nada de pieguices», «não sejas mariquinhas-pé-de-salsa», etc. mas pergunto-me se com a idade o estoicismo não desbota, como jeans já muitas vezes lavadas. O que me mantém é uma velha máxima marinheira: never let go. Quanto tempo mais me aguentará não sei. Sei que esta mistura de dores, medicação a quilo e impossibilidade de trabalhar está a exigir muito de mim. E sei que ficaria muito grato a quem conseguisse abreviar esta situação.
17.6.26
Para que serve a IA e outras coisas
Reinício Fisiológico dos Pulmões: O cérebro possui neurônios no tronco cerebral ("botões dos suspiros") que detectam quando os alvéolos pulmonares colapsam ou a troca de oxigênio/dióxido de carbono fica comprometida. O suspiro é um reflexo automático que reinfla os alvéolos, permitindo a entrada de dobro do volume de ar necessário, garantindo a sobrevivência celular independentemente da presença de outras pessoas.
- Catarse Emocional e Neuroquímica: A dor ativa respostas emocionais intensas. O ato de suspirar funciona como uma catarse fisiológica para liberar a tensão acumulada e o peso psicológico.Estudos indicam que emoções negativas, como sofrimento e frustração, podem desencadear a liberação de neuropeptídeos que motivam o suspiro, servindo como um mecanismo interno de regulação e alívio do estresse.
Comunicação Instintiva (Mesmo em Solidão): Embora o suspiro seja uma forma de comunicação social para pedir apoio, o hábito é profundamente enraizado no instinto humano. O corpo executa esse padrão respiratório para buscar homeostase (equilíbrio psicológico e físico), aliviando a sensação de angústia associada à dor, mesmo na ausência de um ouvinte externo.
Em resumo, o suspiro durante a dor é um reflexo de sobrevivência para oxigenar os pulmões e um ajuste neuroquímico para processar e aliviar o sofrimento emocional, ocorrendo naturalmente e sem necessidade de interação social.
16.6.26
Vinganças, elegância
Envelhecer e vencer sim, mas com "graça e majestade". Sem elegância, o envelhecimento e a vitória não passam de vinganças.
Quase fragmentos - Dispersos diversos
Não sei vender-me. Nem os talentos, nem as fraquezas nem - muito menos - as dores. Em português o verbo jeremiar existe. Em francês não. Jérémiades é um substantivo sem verbo. Chega-se lá caindo do céu, provavelmente. Une jérémiade não requer que Jeremias jeremie. Uma jeremiada sim, requer acção e vontade do agente. Prefiro a vontade e a simplicidade: adopto jeremiar, apesar de não ser grande adepto da prática.
Saio da neurocirurgiã e sento-me um bocadinho no parapeito de um canteiro de flores. A minha agulha perdeu momentaneamente o norte e o oriente. Pouco e momentaneamente, é preciso que se note. Desnorteado, desorientado.
Quem não tem norte nem oriente tão pouco tem sul ou ocidente. Mais vale ficar parado e esperar que a agulha no cérebro se resolva.
(Lisboa, 11-06-2026)
15.6.26
Vender-me de passagem
O comboio acaba de sair de Coimbra e já vai com meia-hora de atraso. Na casa de banho o autoclismo funciona mas o secador das mãos não e não há sabão. O revisor é amável, o ar condicionado condiciona, lá fora o dia está bonito e as costas não deixam de me doer. Parece um dia igual aos outros e se não fossem as dores sê-lo-ia. Não consegui fazer o IRM porque eram demasiado fortes e foi-me impossível ficar imóvel o tempo todo que aquilo requer. Cada vez me convenço mais de que esta época vai pelo cano e nos intervalos da dor procuro maneiras de sobreviver. Seria preciso começar por fazer uma lista de tudo o que sei fazer e é monetizável mas depressa chego à conclusão de que o problema é sobretudo não saber vender-me. Situação frequente no meio artístico. O fim dos mecenas foi a maior tragédia da idade moderna. Algum mecenas pagaria a um tipo para prender uma banana a uma parede com fita isoladora? Creio que não. Pode sempre argumentar-se que o palerma que comprou aquilo é um benfeitor da arte e que comprou para ajudar o artista. Não creio mas enfim, é uma hipótese. Amanhã vou colar uma das minhas caixas de fotografias à vassoura, ver se alguém relaciona aquilo com bruxas ou com a necessidade de varrer a minha sala, na qual só estou de passagem. Já estou nas margens do Tejo. O comboio acelerou. Os livros também poderiam ser trocados por dinheiro, mas na trilogia dos f já esgotei friends e família. Preciso de encontrar tontos mas no que toca a pagar para ler (ou pelo menos para comprar livros) eles não abundam. Preferem ver televisão, que sempre é mais barato. Se calhar não são assim tão tontos.
Um gajo pode reclamar contra uma série de coisas nos comboios da CP mas de uma coisa deve orgulhar-se: dizem para se ter cuidado com o espaço entre o cais e o comboio. Se isto não é civilizado não sei o que é. E até o dizem em inglês e tudo.
Só me falta encontrar uma fórmula assim. Compre os livros e as fotografias do Luís Serpa e nunca mais terá dores nas costas. (Falta saber quem não terá as tais dores.)
Torquemada desmontado
Fui procurar a tradução de desarçonné. Tem o sentido literal de desmontado, derrubado, caído (do cavalo) e figurativo de desconcertado, surpreso, confuso. Acho que desta vez opto pelos dois sentidos: passo as viagens de comboio a reclamar contra os selvagens que falam ao telefone nas carruagens; hoje descobri que um dos meus melhores amigos não só fala mas também ouve em alta-voz. Isto é, os passageiros tiveram dieito à totalidade do diálogo e não só a metade dele, como até aqui tem sido norma.
Este meu amigo é das pessoas que eu conheço que está mais longe de ser selvagem e é isso que me surpreende, desconcerta e confunde. Ou a selvajaria está pouco a pouco a subir a pirâmide social ou eu uso o qualificativo com demasiada liberalidade e excessivo rigor.
Mais uma razão para a CP assumir o seu papel de árbitro e proibir o uso de telefones portáteis em algumas carruagens. Assim, ficaríamos ambos bem na fotografia. O meu amigo continuaria a ser a pessoa selecta, educada e distinta que é e eu o Torquemada do telefone portátil.
9.6.26
Pacientes, colaboração, comissões, etc.
Graças à boa cooperação que há entre os dois sectores do SNS - o público e o privado - a minha agenda médica vai-se preenchendo. Não tão depressa quanto eu quereria mas enfim, é o que há. A metade pública é lenta. A pergunta que me faço é: o sector privado paga comissões ao seu parceiro? Se não paga, devia pagar. Libertaria dinheiro dos nossos impostos, dinheiro esse que poderia ser dilapidado alegremente pelos nossos políticos em vez de dolorosamente gasto pelos nossos pacientes.
Os quais não são assim tão pacientes, a julgar pela explosão das subscrições de seguros de saúde.
8.6.26
O SNS e o telefone
Responder ao telefone provoca cancro, tuberculose, sarna, miopia, distrofia muscular e outras DST. É por isso que os diversos componentes do SNS não o fazem. A pergunta que me faço - e de caminho faço aqui - é: porque põem eles um número na sua lista de contactos?
Verdade seja dita: responderem serviria de pouco. Situações como a minha devem eles ter trezentas por dia. Não há mecanismo de defesa que chegue para aguentar tamanha vaga de queixas, inquirições e provavelmente revoltas. O silêncio é o melhor remédio.
Ponto ao meio-dia
Diário de Bordos - Lisboa, 08-06-2026
O dia começa com as agora habituais dores na perna direita e eu pergunto-me por quanto tempo mais os terei a começar assim. Já lá vai semana e meia deste horror, remédios às dúzias, médicos, exames, raios X, TAC... Não há quem não tenha olhado cá para dentro ou ouvido-me contar a mesma história vinte vezes, ne varietur, anti-inflamatório para cá, analgésico para lá e eu só penso no anti-inflamatório que em Antigua pôs fim a dois anos de dor no calcanhar ou no que em Palma me receitaram já não sei para quê e agiu como varinha de condão nas mão de uma fada experimentada e por que raio de carga de água ninguém o tem aqui e ninguém acerta e ando para aqui a gastar um dinheirão em táxis, Uber, Bolts mai-los raios que os partam, para não mencionar a massa que deixo na farmácia e na que deixo de ganhar porque não posso trabalhar, saúde e massa andam sempre de mãos dadas, ou se tem massa ou se tem tempo.
Isto dito, se por acaso a senhora ministra da saúde precisar de um consultor para resolver o problema do SNS estou disponível. Dou-lhe uma dica, senhora ministra: centre o SNS no paciente, faça dos desgraçados que têm mais tempo do que massa (não é bem o meu caso, mas por agora não faz mal. Não tenho nem uma nem outro) o centro em torno do qual o SNS age e não o contrário, é fácil, há milhares de empresas por esse mundo fora que aplicam a receita em vez de ser eu a girar como uma andorinha que se enganou de cogumelos à volta do SNS. E quem diz eu diz os outros todos, não sou o único, antes fosse. E vejam lá se me põem um anti-inflamatório que me anti-inflame - analgésico já tentaram, eu sei, mas não resultou, já tirei os pensos, aquilo só servia para me irritar ainda mais.
Não haverá por aí quem possa ensinar os empregados de café portugueses a não fazer barulho quando arrumam pratos e chávenas de café e talheres? Se por acaso as escolas de hotrelaria precisarem de um consultor, já sabem. O número 912 420 620 está à disposição.
(Cont.)
7.6.26
Diário de Bordos - Lisboa, 07-06-2026
6.6.26
Diário de Bordos - Hospital de S. José, Lisboa, 06-06-2026
Mais meia hora de conversa com o SNS 24 e resolvo-me fazer o que pretendia antes do colóquio: vir às urgências do S. José, aonde agora estou. A espera esperada era de quatro horas e dessa ainda só passaram duas e meia. Já comi (a cantina é gerida pela Versailles, que bem melhor teria feito ficando-se pela avenida da República. Os croquetes estão uma merda), dormi uma espécie de coisa breve em forma de sesta sentado à mesa, li e agora que acordei vou beber um café. Ganho coragem para ir ver se o prazo de quatro horas, dado a título indicativo, se mantém.
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Não. Vai ser menos.
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A jovem médica que me recebe é profissional e conscenciosa. Agora foi mostrar as imagens do TAC à equipa de... não retive qual delas. Espero nesta sala - sei agora que vou ficar por aqui algumas horas, pelo que não poderei ir à Feira do Livro como tinha planeado (ainda bem. Ir ali sem dinheiro para comprar livros seria uma tortura). O SNS é como a TAP: horrível até se estar lá dentro, bastante bom depois. Também já sei que a ser operado não será aqui e sim no Egas Moniz. Também já sei que estas dores abomináveis têm o sem fim à vista.
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Vou organizar uma sessão de venda de livros e fotografias no hospital. Não para os outros pacientes, porque a julgar pelo que me lembro do Egas não será muito mais dada à leitura do que a que tenho à vista mas si para os amigos mais dados à cusquice hospitalar. Egas Moniz, Avenida da Liberdade n° 1; Hospital Egas Moniz e outras histórias de vida e de maleitas; De Passagem pelo hospital vi a praia de Barbate... tudo isto com rum, cerveja e vinho tinto à discrição. E uns choquinhos à Algarvia, já agora. Ou frango em leite de coco. Ou assim. Ou tostas de pera-abacate sem gluten, com molho de soja e açaí de tomate-cherry em leito de pistacci. Haverá de tudo menos cerveja sem álcool, que é pecado mortal.
Ah, e pedimos um show às enferneiras, não? Já não são tão bonitas como dantes mas não faz mal. São bonitas na mesma.
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Esta sala faz-me pensar no Piranesi.
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Já a minha vida faz-me pensar, só, sem complemento directo.
«Nasci num país africano»
Resumindo e baralhando: fui ao Serviço de Urgência Básico (ou Básica?) - daqui em diante SUB - de Vila Real de Santo António; ao SUB de Loulé; à consulta de ortopedia do Hospital de Cascais. Fiz um TAC e uma radiografia; falei com médicos, enfermeiros e com os senhores do SNS24, de resto bastante eficientes. Continuo na mesma, com a possível excepção de agora ter uma grande quantidade de pílulas a tomar, andar com dois pensos de Fentanyl no antebraço esquerdo e com uma bengala quando não a esqueço na mão direita. O resto - isto é, o essencial - mantém-se: continuo sem saber a causa desta tortura, à espera de encontrar quem mo possa dizer e as dores continuam alegremente a dar-me cabo dos dias e, mais ainda, das noites.
Claro que ninguém me mandou nascer e viver num país que apesar de estar na Europa (e na «Europa», como dizia VPV) é africano, ninguém me mandou não ter massa para me tratar no sector privado do SNS e não gostar de pedir cunhas excepto quando tenho uma pistola apontada à cabeça. (- Além de que não sei a quem as pedir.)
Numa coisa estou de acordo com a metade (?) esquerdista do nosso país - tudo menos dar dinheiro a ganhar com a nossa saúde aos privados. Para os Torquemadas do «público» tudo o que dê dinheiro devido à saúde a um privado é passivo de fogueira. O sector que funciona do SNS está reservado a quem pode simultaneamente pagar impostos elevados e seguros privados. Nós, os tesos a quem são vedados uns e outros bem podemos arrastar-nos por este país fora que daí não vem grande mal ao mundo. E muito menos aos orangotangos que falam nas televisões sobre a alergia que têm «às reformas» (aspas porque cito), as reformas que vão fazer e as que «já fizeram» - aspas porque é irónico, claro.
E ainda há quem seja contra as cunhas! Eu não sou. Não gosto mas não sou contra. E se por acaso algum médico com influência num hospital deste país me puder ajudar - não hesite, por favor. Pode ser em Freixo de Espada à Cinta, Sebastianas de Baixo ou Trigos de Cima que eu vou lá.
Resta-me o consolo de termos o melhor jogador de futebol do mundo. Que seria de nós sem ele?
ADENDA - Liguei para o hospital privado aonde me fizeram o TAC e a resposta foi imediata (depois das tretas das gravações, etc.) Ou seja, há neste país que saiba para que serve um telefone. Infelizmente, essas pessoas não são admitidas no SNS.
4.6.26
Diário de Bordos - autocarro de Portimão para Lisboa, 04-06-2026
O plano era simples: entrava na camionete em Portimão, adormecia, acordava em Lisboa Sete-Rios e ia para casa da A., que esta noite me dá hospitalidade. A primeira etapa decorreu de acordo com ele. Entrei no veículo. O segundo passo parece-me que vai falhar estrondosamente. Os chauffeurs nacionais são generosos e em vez de transporte proporcionam-nos experiências. "Venha andar connosco num autocarro de corridas!' dizem-nos. E acrescentam: "Se vier no lugar número dois terá ainda a vantagem suplementar de apreciar a perícia do nosso condutor a manejar simultaneamente o acelerador, o travão e o telefone portátil. Ou seja: rentabiliza a massa extra que pagou [o dobro do que já tinha pago pelo bilhete normal]. Terá ainda ocasião de ouvir as conversas do senhor [nota: reclamar porque ele tinha o auricular e só ouvia metade]." A condução do senhor é rápida, desportiva, com travagens igualmente bruscas e - graças a Deus - frequentes. A dor na coluna voltou. Pode ser que acalme agora que entramos na autoestrada. A conversa telefónica do condutor prolonga-se e dá-me oportunidade de avaliar o largo leque de interesses do senhor. Pessoalmente estou de acordo. Antes assim do que um monomaníaco limitado. Há pouco a razão do telefonema era de ordem familiar e limitou-se a coisas como quem ia buscar a filha (resposta: a mãe), a que horas ("vê com ela") e mais duas ou três ligadas a horas de chegada a casa, jantares, etc. que infelizmente me escaparam à atenção (as dores lombares estavam a começar).
Por falar em dores: o trajecto na autoestrada parece ter um efeito calmante. Será que a segunda parte do plano terá oportunidade de se pôr em prática? [Falso alarme. Parece que não.]
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A perspectiva de passar o Verão em terra aborrece-me sobremaneira de dois pontos de vista: a) financeiro e b) não estar em Palma. Ou melhor, três: c) o provável uso de muletas, fisioterapeutas, hospitais et al. O resto, o vasto resto, agrada-me.
(Cont.)
3.6.26
Diário de Bordos - Portimão, Algarve, Portugal, 03-06-2026
Badanal lá fora - nortada desfeita, a uivar como o levante em Barbate, isto tem sido uma viagem «abençoada» pelos ventos - e badanal cá dentro. Não durmo desde sexta-feira. Estas dores não me largam, coisa que acho injusta dada a quantidade de comprimidos que estou a tomar. E hoje ainda tiveram a gentileza de regressar em força, depois de uma manhã relativamente calma. Nem o Fentanyl (em patches) ajuda, porra! Amanhã desembarco, vou para Lisboa de camionete e daqui já estou a ver a beleza do trajecto. Se Deus existisse e o SNS fosse um dos seus apóstolos sexta de manhã entraria no hospital e já não saíria sem ter isto tudo tratado. Chama-se a isto sonhar com ladrões, mas antes com eles do que com virgens ofendidas. Não vai acontecer, obviamente - o que só acrescenta outro patamar à angústia - quando acontecerá? O que é demais enjoa, porra!
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O que mais me põe fora de mim é esta impossibilidade de me deitar. Um gajo estás exausto, de rastos, com a perspectiva de um Verão fodido. A primeira coisa que lhe vem à mente qual é? Ir deitar-se, obviamente. Pois não posso. A anca recusa-se terminantemente a estar noutra posição que não sentada. Ou seja: não é só nos aviões que durmo mal. É na minha cama também, se tiver de passar a noite sentado.
Da série Tempestades em copos de água
«É com bons sentimentos que se faz má literatura.» André Gide.