23.1.22

O ESTADO DAS COISAS E OS AMANHÃS QUE CANTAM

Este texto começou por ser um pedido de desculpa ao Arnaldo Rivotti e aos leitores do Luso Magiar News pela minha prolongada e não anunciada ausência. Como sempre, evoluiu, tornou-se um rio com afluentes, desaguou noutra coisa. Mas a raiz manteve-se: é um pedido de desculpa.

Temos andado relapsos, a escrita e eu. Cada vez admiro mais aqueles escritores que escrevem quaisquer que sejam as circunstâncias, estejam a morrer de fome, de frio, atacados pela doença ou pelas infelicidades pessoais. Eu preciso de muito menos do que isso para ficar completamente paralisado, sinapses congeladas, neurónios a ferros.

Não é que as ideias tenham deixado de afluir, que a vontade de escrever me tenha abandonado. Não, nada disso. É muito mais simples: a comunicação entre o meu cérebro – ou aquilo que em mim faz de cérebro – e os meus dedos está interrompida. A ponte que os uniu ruiu, caiu, desmantelou-se, foi-se a martelo.

E tanto que há sobre o que falar: acabar a história da Casa, que me povoa muito mais do que eu a povoo; as eleições, pelas quais finalmente me interesso – estou num dilema e não sou homem de dilemas, gosto de caminhos direitos (sim, apesar de todas as bifurcações da minha vida); o maldito vírus, que não há maneira de deixar a cabeça de quem nos governa; o frio, o café onde venho escrever, os livros que tenho ainda por arrumar, a minha bicicleta... Enfim, exagero. Estou a esticar a corda para ver se no fim o balde traz alguma coisa de jeito. Não traz. Para além da Casa nada me entusiasma e esta não chega para pôr os dedos a funcionar coisa que se veja.

Lembro-me de uma passagem do Zen e da Arte da Manutenção de Motocicletas, livro de vida, livro semente, basilar, no qual a personagem, professor universitário, sugere a um aluno que não sabe o que há-de escrever que descreva a parede, tijolo a tijolo. Devia seguir-lhe o conselho, talvez: a parede tem centenas de tijolos à vista, irregulares, unidos por grossas camadas de cimento. Contudo, este tijolo tem um nome: tijolo-cego, ou burro, ou coisa que o valha e chegado aqui tenho de parar. Isto não é uma autobiografia.

Armando voltou a chamar-se António, nome com que nasceu, por imposição de Vanda (?), a senhora que o acolhia quotidianamente na tasca da aldeia para onde se mudou para morrer. Fiz-lhe a vontade e morri-o. A história passou para a tal senhora, que começou logo por me fazer exigências: não gosta do nome de Armando, gosta mais de António que é, diz ela, «nome de santo e de vagabundo». António é um e outro, verdade seja dita: passou a vida a tentar ser um gajo decente e aparentemente conseguiu-o. Claro que entre «decente» e «santo» há uma longa estrada, mas nada que a literatura não consiga percorrer. Faz o que quer, a literatura, leva-nos por caminhos de cabras, por carreiros, atalhos, auto-estradas, sobe escadas e desce a abismos. António não é santo nenhum, excepto aos olhos de Vanda (?). Talvez esta confunda paciência e santidade; ou sabedoria e santidade; ou, mais prosaica e provavelmente, desinteresse e santidade. O conto já tem destinatária – a alegria. Devo ser o triste menos triste do mundo, de tal maneira a alegria me atrai.

Entretanto o país arrasta-se, falido e enregelado, «infectado» e desesperado, para eleições cuja única dúvida é: o Costa vai-se mesmo embora? Jura! De vez? Promete! Não sei o que virá a seguir. Os «insiders» dizem que Costa vai ser substituído pela Mendes, que não sei o que vale. Pouco, provavelmente. Parece que também oficia na TV, o grande ascensor político deste país, função esta que rivaliza – e quantas vezes acumula – com a Câmara Municipal de Lisboa. Como não vejo televisão e de Lisboa só vejo o lixo e a sujidade nas ruas não estou muito a par. Vou votar dia 30 indeciso entre o voto contra a Covid ou o voto no longo prazo. A IL, embrenhada em politiquices? Pois. Não se pode estar no caldeirão e fora dele e a verdade é que do caldo é o único ingrediente que se aproveita. Mas é preciso sinalizar ao governo que o vírus não é desculpa para tudo, não é? Não sei. Isto não é fórmula: não sei mesmo e acho que não saberei até ter o papel à frente e a caneta na mão. Vou votar ao fim do dia, disso estou mais ou menos seguro: o governo quer reservar esse período aos «positivos» e podem acusar-me de tudo menos de ser negativo. [Nota: afinal já não quer. É só «recomendação». Ainda bem.]

Entretanto os «projectos» lá vão andando, a pé coxinho como tudo em Portugal. Pelo menos para quem não é da família. Moura, Mértola, a tradução do Avenida (essa não tem nada a ver com a família, verdade seja dita. Tem a ver com a chuva. Está a ficar fantástica, muito para cima do que eu esperava). «Projectos» leva aspas, claro: é palavra que já não posso ver à frente. Faço minha a expressão de absoluto desprezo e descrédito da advogada a quem o mencionei, há uns largos anos. Nunca me esquecerei do tom com que ela repetiu «Projecto? Projecto?» como se fosse acha ardente tirada da lareira, ou máscara suja apanhada na rua. O projecto «casa» (habitação, não o texto) também vai avançando no habitual pára-arranca. Como a tradução, depende da chuva e de momento esta anda escassa. Tudo comigo nasce a ferros, talvez para me lembrar de que também eu saí assim, já lá vão sessenta e quatro anos. O problema é que daquela vez foi um médico e agora sou eu quem manipula o instrumento e cada vez necessito de mais força, mais energia, mais vida, mais tudo e cada vez mais tudo isso me foge. Estou todo podre por dentro, essa é que é essa. E se até há pouco tempo a podridão era só da cabeça para baixo, agora está em todo o lado. Alzheimer da alma. Vá lá que ao menos tenho esta vista linda, estas cores às quais o fim da tarde dá a vida que me tira a mim. Vai tirando, pouco a pouco. Não sei é se é a luz. Talvez seja o tempo. E talvez não seja só a mim.

A ver vamos, como diz o ceguinho (à mulher, que é surda).

E depois, que dizer deste clima de suspeita, de destruição do tecido social, de ataque à liberdade, fraudulento, absurdo, absolutamente deletério no qual mergulhámos – ou antes, nos mergulharam – há dois anos e do qual não se vê o fim? Ver vê-se, mas tão longe. A cabeça da maioria das pessoas continua cheia de merda, não há outro termo; vazia de razão. Sinto-me como o único gajo são do manicómio, mesmo sabendo que somos muitos – e somos cada vez mais. Talvez daqui venha alguma esperança, talvez daqui venha o rio que vai alagar o resto todo. Não seria senão justiça, já que foi ele quem inundou isto tudo com o cheiro pútrido da loucura. Está na hora de recolher ao esgoto de onde nunca devia ter saído. A facilidade com que as pessoas trocaram a liberdade pela segurança é assustadora (e ainda mais se nos lembrarmos de que «segurança» é um exagero grosseiro). A facilidade com que se deixam enganar também: estamos muito mais à mercê do que sempre pensei.

É isto: tempos sombrios por dentro e por fora, como se persianas filtrassem a luz que chega, já de si pouca. Resta-me um consolo: as persianas abrir-se-ão e a claridade aumentará. Para alguma coisa serve ser optimista, não? E ter uma flor na lapela da vida.

Lisboa, 22-01-2022

É fartar, vilanagem

A noite apaga-se. O dia foi rico: pela primeira vez, participei numa manifestação. Só há dois temas que me mobilizam: a «pandemia» (aspas porque cito) e o AO90. Tudo o resto é amendoim a macacos no zoo. Em seguida fui jantar à Casa da Índia com a T. e o J., casal de que tanto aprecio tudo e depois conheci a F. S. N. Continuo a não escrever coisa que se veja, a não ler uma linha, mas pelo menos parece estar a aproximar-se o fim desta estação glacial: já sou capaz de falar sobre ela. Isto é, sobre a estadia no fundo do poço. Ainda vivo no meio de sacos e no meio de um deserto onde a chuva se faz esperar mais do que razoavelmente, no meio de uma maré mais seca do que vazia, Continua tudo na mesma e tudo mudou, porque mudou a luz que ilumina o tudo na mesma. Vemos o que somos, vemos o como estamos. O orgão da visão é o cérebro (ou o coração, diria a F.)

Sempre foi assim: o cansaço é o melhor anti-coiso. Um gajo fartar-se do poço vale mil pílulas, tal como um olhar vale mil olhos, uma cabeça mil corpos e um dia mil dias.

20.1.22

Turíbulos, estrelas e tambores

No dia trinta deste mês os confinados vão poder votar. Isto é claramente uma ameaça para a saúde pública. Venho aqui - cumprindo um dever de cidadania - propor às doutoras Graça e Marta que os obriguem a ir precedidos de uma pessoa para aspergir as imediações com água benta e sucedidos por uma outra (pessoa) munida de um turíbulo cheio de incenso especial. Devem também ser obrigados a usar uma estrela amarela ao peito. Pergunto-me se dois tambores, um de cada lado, não seriam um acrescento útil.

Os confinamentos têm sido um êxito espectacular: os «casos» caem a pique, a saúde mental - já de si um dos pontos fortes dos portugueses - melhorou a olhos vistos (e ouvidos ouvidos), a economia beneficiou  inequivocamente das economias forçadas. É incompreensível que deixem aquela gente ir votar sem que os restantes, os sãos, os normais não saibam quem têm por perto.

Só tenho uma dúvida: como é que gente mortalmente doente vai poder deslocar-se até às urnas?

Instantâneos, dias

Oiço a senhora da mesa do  lado queixar-se. Tem saudades - mais do que isso, necessidade - diz, de encontrar-se com gente, sair, falar, etc.

Levanto-me e vejo-os, ela e o interlocutor, de máscara até às orelhas. Ele tem um livro à frente: Prática e Contradição, de Mao Tse Tung.

........
O senhor sai do restaurante onde almoço todos os dias (e ele também). É alto, grande, preto até à medula, trabalhador da construção (provavelmente pintor, a julgar pela roupa). Cumprimento-o e ele entabula conversa. "Está frio", diz. Corroboro, ele explica-me que só se apercebem disso quando descem porque estão a trabalhar num andar.

Respondo que mais um mês e isto passa:
- Portugal tem o Inverno curto.
- É verdade. Portugal é o país mais fofo da Europa.

19.1.22

Ateísmo, esforço

No fundo, uma das coisas que esta pandemia veio provar é que a religião é muito menos estranha ao cérebro humano do que a ciência. Esta é construção, adição, acrescento, obra, trabalho, esforço. Aquela é natural, inata, intrínseca.

É por isso que há tão poucos ateus - exige muito esforço.

Terras do Demo

- Fragilidades do ateísmo: como é possível viver sem acreditar no Diabo?

- Povo e diabo só partilham a designação, ou têm algo mais em comum?

16.1.22

Chamuças

Abençoadas mudanças!

Recheio:

1/2 kg de carneiro ou galinha;
2 cebolas médias picadas;
1/2 colher de chá de gengibre;
1/2 colher de chá de canela;
1/2 colher de chá de caril;
1 molho pequeno de coentros frescos picados;
1 molho pequeno de cebolinho picado;
2 colheres de sopa de hortelã picada;^

Fritar a carne picada, juntando sal, gengibre, alho e malaguetas. Quando estiver seca, juntar a cebola e o caril e fritar até voltar a secar. Juntar um pouco de manteiga. A carne deve ficar solta. Juntar as verduras e misturar bem.

Massa:

Sal, manteiga derretida, farinha q.b.;
1 colher de chá de levedura;
1/2 chávena de leite;
1 chávena de água.

Ferver o leite e a água numa panela grande, juntar o sal, a levedura e a manteiga, fazer uma massa para o rijo.

3.1.22

Espelho

Quando se vê a forma como conseguiram condicionar o comportamento de homens, percebe-se o fascínio pelos espectáculos de orcas em oceanários. 

Ninguém resiste a um bom espelho.

Apologia do optimismo

Por detrás de um grande histérico esconde-se quase sempre um ser racional.

1.1.22

A menos que

A ideia começa numa grande planície branca na qual escorregam pessoas das mais variadas formas: patins de gelo, trenós, skis. Escorregar é  bom, melhor do que a imagem habitual que disso se tem: "escorregou e caiu", "a partir daí foi sempre a escorregar para baixo". Et coetera.

Nada disso. Acordem. Não há ideia nenhuma, nem planície branca, nem patinadores. Não há sequer horizontais nem verticais. Não há nada senão branco, queda e sono, muito sono, o que te acompanha durante esse longo escorrega para o azul do Índico - do qual não pensas emergir, nunca mais.

A menos que seja para ires ao mar das Caraíbas. A menos que. 

Do ano novo ao Índico, passando por considerações menos interessantes

Verdade seja dita, todos os dias são de Ano Novo, a cada um começa um, tão novo como o que acaba, todos os dias. A gente olhamos para trás  e a gente pensamos na sorte que recebemos das mãos de nosso senhor Jesus Cristo e companhia (são três) e logo a seguir a gente pensamos um monte de coisas que não interessam nem ao menino Jesus, entre as quais se devemos trocar aquelas primeiras pessoas do plural por outras, mais singelas e com o raciocínio apoiado num LBV de 2014 a gente diz: que porra de gente és tu? Que porra de gente sois vós?, que para falar usais os tempos verbais errados e para passar o ano pensais em calendários, em anos idos, em punhetas a grilos, em anos novos a cheirar a cueiros?

Interessante seria termos um ano novo a cheirar a Tanzânia, damas postas a um canto a fazer tricô,  o Índico ali à porta, o cheiro das especiarias a espelhar-se no cheiro da pele, na cor dos olhos, o Índico,  meu Deus, o Índico.  

Um gajo encontra uma rapariga bonita e pergunta-lhe: "qual o teu oceano favorito?" É só a partir daí se pode julgar o ano. E a pequena,  mas isso fica para depois.

Ano bala

Os anos começam todos como o comboio-bala dos japoneses. Alguns descarrilam logo a seguir, alguns levam mais tempo, outros não descarrilam de todo e levam-nos aonde queríamos ir logo no início da viagem. 

Que 2022 seja uma dessas balas directas ao destino para todos nós.

29.12.21

Receita - Gratin dauphinois

La recette pour 8 personnes 

Peler et laver 2 kg de pommes de terre à chair ferme. Les sécher dans un torchon. Les émincer finement à l’aide d’une mandoline et les sécher de nouveau dans le torchon, sans les rincer. 

Frotter l’intérieur d’un grand plat à gratin avec une gousse d’ail pelée. Beurrer généreusement le fond et les bords. Ranger les pommes de terre par couches successives, en assaisonnant chaque couche avec un peu de sel et de poivre noir (pas trop car le goût va ressortir en cuisant), et en ajoutant éventuellement une petite râpée de noix muscade. 

Verser environ 1 litre de crème liquide entière (ou 60 cl de crème fraîche épaisse mélangés avec 40 cl de lait entier). Veiller à ce que le liquide entre bien dans les interstices et arrive à la hauteur des pommes de terre, sans toutefois les noyer. Parsemer de petits morceaux de beurre.

Enfourner à 150 °C pour environ 1 h 30, en vérifiant régulièrement que le dessus ne brûle pas. Les pommes de terre doivent avoir « bu » le liquide et être bien tendres. Si le dessus n’est pas doré au terme de la cuisson, passer le gratin rapidement sous le gril.

Notas: Hora e meia / duas horas.

 

O circo desceu à cidade

O circo chegou à cidade e não há maneira de se ir embora. Começou na China faz agora dois anos. Uma província rebelde, um governo central a querer mostrar quem corta o bacalhau, uma imprensa às ordens. Este foi o ponto de partida da caravana. Dali, foi para Itália. A imprensa chinesa foi substituída pelos media ocidentais. Já não por dependência dos governos mas por simples e banais questões de tesouraria os jornalistas pegaram naquilo e usaram o arsenal todo: mentiras, omissões, exageros, distorções, fotografias falsas. Nada de novo, excepto que desta vez usaram o arsenal inteiro ao mesmo tempo. Não ficou uma arma, uma que fosse, em armazém. O pânico - o maior auxiliar de finanças da imprensa desde sempre (afinal, foi para noticiar invasões, inundações e outras desgraças que os jornais nasceram) instalou-se e propagou-se como chamas em pradaria seca. Instados a escolher entre meia dúzia de especialistas que diziam que as coisas não eram assim tão más e multidões histéricas os governos não hesitaram dois segundos, claro. Quem vota são as multidões. A escolha não chega sequer a sê-lo.

O circo já está bem avançado: temos a tenda, temos os músicos, temos os espectadores, temos os apresentadores a fingir que são eles que mandam quando tudo o que fazem é seguir os outros todos. Entram os palhaços: «especialistas» (desta vez com aspas) que se deixam inebriar com os holofotes, com aquele ruído todo, com os cavalinhos a dar voltas à pista. Têm todo o interesse - nalguns casos, tangível; noutros, intangível mas não menos real - para que o circo cresça e para isso contribuem com afã.

Já só falta a malta da caixa. Esta começou por ficar surpreendida com tanto maná, tão súbito e inesperado. Não há máscaras, não há testes, não há vacinas... Que fazer? A resposta é fácil: fazer isso tudo. E hey, presto, de repente eis que aparece uma parafernália para nos «defendermos». Ninguém consegue parar o circo. Muito menos, claro, os especialistas do início, os que tentaram resistir à avalanche de pânico. Alguns cederam-lhe, outros afastaram-se, simplesmente. Ficou uma pequena minoria a clamar no deserto.

Entretanto, a avalanche segue o seu caminho. Alguns governos começam a ver que aquilo é muito bonito, espectacular e tudo mas que se arriscam a perder votos quando a conta chegar. Outros, mais responsáveis, desidiram mesmo parar com a palhaçada, apesar dos riscos eleitorais (estes ganharam a aposta, mas ainda são poucos, infelizmente). Alguns dos palhaços cansam-se. Os espectadores começam a fartar-se do espectáculo, que acham pouco variado. Pouco a pouco, muito devagar - excruciantemente devagar, para quem não gosta de palhaçadas - o circo começa a fazer as malas e a preparar-se para sair da cidade. 

24.12.21

Curta história longa

Encontraram-se num café e ficaram retidos um no outro. Ela por falta de atenção, ele falho de intenção. Assim deixaram o tempo passar por eles, distraidamente e sem rumo. Ao fim de alguns anos descobriram atónitos que o amor tinha dado um sentido àquilo. Não o tinham visto chegar e só deram por ele quando já se amavam como as duas linhas de um caminho de ferro.

Tão pouco o viram partir quando chegou a hora. O comboio bem apitou, mas eles não o ouviram. Continuaram juntos: demasiadas travessas os uniam. Precisariam de muita atenção e de mais intenção ainda para desmontar o que o tempo e o amor tinham montado

23.12.21

Do meu amigo Ricardo Álvaro, Negacionismo da época

« NEGACIONISMO DA ÉPOCA


Negacionistas do Natal rejeitam a primeira dose de Bolo-Rei com frutos cristalizados.



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Cientistas da Lapónia esclarecem negacionistas do Natal e avisam que, historicamente, a variante da Páscoa é mais letal. 


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Em plena pandemia, foliões do Fim do Mundo compram champanhe Barqueiro e passas Caronte para a Passagem.


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Pangolim escaldado deixa aviso aos incautos e outras bestas humanas: «Depois não digam que foi o peru».


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Última Ceia cancelada depois de testes antigénio aos comensais: Judas assintomático diagnosticado como falso-negativo.


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Primeiro-Ministro envia a tradicional mensagem de Boas Festas e pede aos eleitores para retribuírem os Votos no dia 30 de Janeiro.»



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Ricardo Álvaro
Dezembro
2021

K4 - uma pergunta

"Tentar divinizar o homem é o primeiro sintoma da Amnésia. O homem éo contraste do divino", diz Almada Negreiros em K4, o quadrado azul.

Pergunto-me se os cultores da "guerra ao vírus" não deveriam ler este opusculozinho, pequeno só em tamanho.

22.12.21

Diário de Bordos - Ponta Delgada, Açores, Portugal, 21-12-2021

Estas casas pequenas, baixinhas, parece que encolheram com a chuva ou que foram esmagadas pelo «capacete açoreano». À noite as ruas estão iluminadas pelas decorações de Natal, bem bonitas. E desertas, frias, ventosas. Tenho de inventar uma escala de Beaufort para o chapéu. Será simples porque só terá três forças. Zero: posso usar o chapéu à vontade e sem quaisquer restrições; um: tenho de o enterrar bem enterrado na cabeça e estar atento; dois: devo levá-lo na mão. Hoje oscilou entre força um e dois.

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Passeio-me por estas ruas como se nunca cá tivesse vivido. De repente a moeda cai e apercebo-me de que nunca vivi nesta cidade. Vivi no seu porto, o que é bem diferente.

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A grande vantagem da velhice é ter um fim; a sua grande desvantagem - pelo menos actualmente - é que esse fim está cada vez mais longe. A medicina moderna equivocou-se completamente. Mais do que quantos anos viveremos importa como os viveremos. A qualidade antes da quantidade. 

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Todos nós chegamos a um ponto em que descobrimos que nos enganámos. Os que têm mais sorte ou mas perspicácia são mesmo capazes de definir onde, quando, como e porque isso aconteceu. Ou melhor: os ondes, quandos, comos e porquês - são sempre muitos, não são? Infelizmente esse ponto (esses pontos) chegam sempre tarde de mais. Temos de viver não só com, mas no erro, como se este fosse uma piscina na qual nadamos, pela última vez, os cem metros livres. Como se fôssemos mais uma encarnação desse erros ou desses erros. Não somos. Sim, somos. A vida é como as regatas oceânicas, que são ganhas não pelo melhor mas por aquele que comete menos erros. Ao fim de muitas regatas, o melhor e o que cometeu menos erros são o mesmo, é certo, mas o padrão é sempre o erro. O padrão contra o qual vais aferir a tua vida é o erro, meu caro, a quantidade e qualidade deles. (O problema sendo que regatas há muitas e vidas há só uma, mas isso faz parte da piscina.)

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Não reconheço o Café Central: foi «modernizado». A Igreja Matriz tem outra iluminação, a praça mudou. Tudo isto com um tempo abominável. Espero que a porra da frente passe depressa. E com ela o tempo.

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O arquipélago - enfim, pelo menos a cidade, ignoro o que se passa nas outras ilhas - tem três jornais quotidianos. É notável. Têm todos as mesmas notícias e Mota Amaral publica nos três (não sei se o mesmo texto). Igualmente em todos eles os comerciantes queixam-se do fecho de ruas ao trânsito automóvel em vésperas de Natal. Neste ponto têm razão. 

Pergunto-me se uma viagem aos Açores é, como era antigamente, uma viagem no tempo. Creio que sim. Espero que sim. 

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(Vivemos todos neste cruzamento, não vivemos? Onde os verbos esperar e crer se cruzam. Talvez não todos, mas pelo menos aqueles de entre nós que têm essa sorte.)