Mexo e remexo as fotografias. Não é sequer como baralhar e dar de novo porque as baralho - nada de rimas, por favor - e não as dou de novo, ficam aonde estavam com uma ordem ligeiramente diferente. Não sei o que fazer daquilo, é o que é. Algumas são boas, ao contrário do que sempre pensei. Talvez efeito Vivian Maier, vá lá saber-se.
Não é verdade. Algumas, uma minoria de uma minoria, sempre soube que são boas. O que nunca soube bem é definir boas. Para quê? Para quem? Porquê? Quais? As do trampolim do Locle, por exemplo; as do patinador em Plainpalais; as do Krüger; muitos dos retratos; não teria de me envergonhar delas se as mostrasse.
Comecei a publicar o blogue no dia em que decidi que pior do que os outros não seria. Ao fim de um ano ou dois tive a primeira proposta para o publicar em livro. Declinei, com uma desculpa mais desculpa do que justa. Por burrice? Por modéstia? Aposto mais na primeira: hoje vou na terceira compilação de posts e não pararei enquanto não chegar ao fim.
Na fotografia não foi assim. Primeiro, houve a história da galeria Nikon de Zurique, que me seleccionou seis diapositivos (de entre vinte, eles mesmo já seleccionados de entre algumas centenas) para uma exposição que teria lugar em breve. Infelizmente, arranjei maneira de os perder. Simplifico: alguém os perdeu por mim. Depois houve o tipo da galeria já não sei aonde, creio que Nyon, talvez Genebra: «Reconheço um certo trabalho sobre a luz, mas não tem qualidade para uma exposição.» Aceitei sem mais.
É preciso dizer que a minha relação com a fotografia tem sido uma de amor e desamor permanentes, ambos. E que não me apetece falar disso. Gostaria simplesmente de ser um bocadinho menos como eu e um bocadinho mais como os outros. Lá chegarei, um dia: estaremos todos enterrados e não há maior similitude do que essa.
Suponho.
«Um preto e uma mulher em missão à Lua», leio num sítio qualquer. Não consigo perceber a diferença entre um preto, uma mulher e uma pessoa. Acresce que a citação não é verbatim, claro A modernidade criou a diferença entre pretos e pessoas e apagou a palavra preto do léxico. Não percebo em que é que ficámos melhor.
Riviera: aqui não estou no Paris Texas mas sim num filme do Claude Chabrol.
Nesta última travessia gtive um problema médico a bordo. Estava a três dias do porto mais próximo. Foi a conjugação do satélite e do telefone (obrigado, Elon) que me permitiu resolver a situação. Resolver é um exagero: hoje sei que a senhora não morreria do que sofria. Mas teria sofrido consideravelmente mais e eu também. Passei um dia a pensar que ia chegar a terra com um cadáver a bordo. Quando soube que não, o alívio foi considerável.