12.12.18

Da série "Pérolas do DV" (reedição)

- O dinheiro não me faz correr.
- Para nada, excepto para o bar mais próximo.

Encontranços seredenpíticos (reedição)

Só pode amar Portugal quem gosta de superficialidades. Quem, por exemplo, num circo prefere os palhaços aos trapezistas.

11.12.18

Analogia náutica

Vivia como se fizesse leme sentado a sotavento.

Cúpido, Psique e a inatingível clareza

Aproveito estar deitado para reler a história do Cúpido e da Psique, por causa de um post da A. V. Aproveito a releitura para me lembrar de Veyne, mas não tenho o livro à mão. Não tenho nada à mão se não o presente, de resto. Depois lembro-me de outras coisas: por que raio de carga de água eram os mitos gregos tão complexos? Nem os autores dos trinta e uma partes davam tantas voltas, reviravoltas, curvas e contracurvas. Sempre gostei deste casamento, verdade seja dita. E do episódio dela fazer amor com ele meses e meses sem nunca o ver. A ideia de que o amor e o sexo vão juntos foi refutada há muito tempo.

Aproveito para me lembrar de duas ou três miúdas, talvez mais. Dessas que têm - ou pelo menos tiveram - o condão de unir em mim o Cúpido e o pouco que me resta de Psyque. Bem tento separá-los, note-se; mas às vezes é difícil.

Cúpido era desajeitado com as flechas; acertavam ao calhas. Nisso não concordo com ele. Não é lavado que nos faz amar alguém. Antes fosse, claro.

Antes fosse claro, tudo isto.

10.12.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 10-12-2018

Um restaurante em que se ouve Paolo Conte; uma tasca à frente da qual passo desde que venho a Palma e onde nunca tive vontade de entrar por simples desconfiança, provocada pela localização em pleno bairro turístico; um clube de jazz onde oiço uma jam session que sem ser grande coisa não é má de todo. Uma cidade que se desenrola à minha frente como se nunca cá tivesse estado.

Não se pode viver sem a priori, claro. Os preconceitos são pilares essenciais da nossa mundividência, da nossa compreensão do que nos rodeia. Mas é forçoso reconhecer que os momentos mais agradáveis da nossa convivência com as ideias pré-concebidas são aqueles em que descobrimos que são falsas, ou já não são verdadeiras ou nunca o foram e chegou o momento de as trocar por outras, novas, lavadas, como fronhas de almofadas. Não nos desfazemos de preconceitos: limitamo-nos a trocá-los, é tudo.

O restaurante chama-se Gustar, fica na Plaça del Banc de l'Oli (a cem metros de casa), ando há anos a prometer a mim próprio que tenho de cá vir - pura intuição - e hoje vai directo para a lista de restaurantes recomendados.

São dias assim que me ligam à vida: trocar de pele é como ressuscitar. Deixamos de ser nós e somo-lo ainda mais. Como se a confirmação do que se é viesse da mudança, da aprendizagem, da renovação - a nossa e a da cidade que diariamente percorremos e de vez em quando reconstruímos -.

Só me falta deixar de tossir.

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Hoje comprei aquela que espero ser a última lata de  tinta primária para o interior e o S. não apareceu para fazer a base da sapata do pé do mastro. Esquecera-se de que tinha de ir ao médico. Encostar as pontas do indicadores às dos polegares e fazer Ooooooommm. Costuma resultar, pelos menos nos livros.

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Oiço no Youtube um disco de que gosto sem limites: Magic and Loss, do Lou Reed. Parece que há uma pequena probabilidade (pequena é um exagero. Eu diria micrométrica) de recuperar os meus discos. Se isso acontecer, passo a ser o nómada com mais discos e livros da história. Reflexão interessante sobre a finalidade do ter, mas fica para depois.

Diálogo

- Olha, se por acaso a meio da noite ouvires bater à porta, não ligues. Sou eu quase de certeza. Pensa: "Deve ser o vento e nada mais. É inverno, está frio e ele vem do Norte carregado de neve". Não abras. Estes ventos entram e não saem, agarram-se a ti como se fossem sentimentos, como aqueles amores que nasceram selvagens e selvagens ficam para sempre. Sabes que baterá milhares de vezes à tua porta, à janela, vai dar-te voltas ao jardim, espezinhar os canteiros. Não ligues. Um vento desses em casa pega-lhe fogo e a ti com ela, é uma reviravolta, uma acção de graças, não fica parede de pé.

- Não fales. Entra-me pelo sorriso dentro. Não me deixes a vida por viver.

9.12.18

Imperfeito, condicional

- Se aqui estivesses deitava-me contigo.
- Se aí estivesse deitar-te-ias comigo. Não ponhas um imperfeito no condicional. 

Bloco-notas

O liberalismo perdeu a batalha da comunicação por duas razões:

- Primo, é fundamentalmente avesso ao proselitismo. Acredita que a variedade de opiniões e pontos de vista é um bem, no direito ao erro, na ideia de que é preferível um erro escolhido a uma verdade imposta.

- Secundo, concentrou a sua crítica ao marxismo e à esquerda na liberdade, nunca fazendo passar a mensagem de que a liberdade é um meio (essencial, mas um meio) para um fim que é o bem-estar e a prosperidade das pessoas. Sem liberdade individual não há prosperidade colectiva, mas os liberais focaram-se apenas no primeiro lado da equação e deixaram à esquerda o monopólio do bem colectivo.

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Uma vez conquistada a maioria dos seus objectivos, a esquerda voltou-se para as minorias. Infelizmente muitas minorias não fazem uma maioria. É preciso encontrar cada vez mais minorias (o que começou como LGB já vai em metade das letras do alfabeto e não vai de certeza ficar por aí). As minorias agora incluem os animais, não tarda as árvores (que se votassem estariam em maioria, daí a ansiedade).

Por outro lado, uma vez instalada no poder, a esquerda - imbuida que estava da sua superioridade moral e da bondade intrínseca dos seus objectivos - permitiu uma série de derivas: corrupção, rendas de situação, desprezo pelo Estado de Direito.

Agora admira-se com as revoltas das maiorias.

8.12.18

Quase

Foi numa praça deserta, só estávamos ela e eu, noite cedo (quase se via o dia ainda), eu bebia um vermute e ela dizia-me "estou comovida".

- Descomove-te, mulher - respondi. - Não há quem não tenha um amor assim, antigo e eterno como a dor nas costas. Aprende-se a viver com ele, é como ser um bocadinho surdo, muda o mundo mas pouco, ouve-se tudo na mesma, quase tudo e o meu amor por ti é esse quase, é o que me falta para ter o mundo todo, o que falta para que esta noite seja noite, para que esta praça se encha de miúdos a andar de skate ou de jovens senhoras trintonas a comentar as últimas compras que fizeram ou os últimos engates que aceitaram, falta pouco, não passa de um pequeno quase, habituamo-nos a viver com ele (ou sem ele, se preferires), é como ter fome e saber que o jantar está quase apesar de saber que o teu amor não está quase, se te descomoveres é mais fácil apreciar a beleza desta praça tão pequena, tão elegante, bem proporcionada e acabarmos o vermute em paz.

Enfim, quase paz. 

6.12.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 06-12-2018

A história é muito complexa, um verdadeiro puzzle. Começa por o Antiquari estar aberto apesar de hoje ser feriado. Acabei por lá parar a beber um vermute ou dois. Este café é o equivalente do Tati em Palma, infelizmente sem o jazz do Gonçalo. À frente está uma igreja, importante e imponente, há pouco promovida à categoria de basílica. É uma das mais importantes e antigas de Palma. Um senhor activa-se a lixar, com um utensílio eléctrico, a porta das traseiras, a que dá para o café. Saí de casa com a intenção de trabalhar e o raio do barulho da lixadeira desconcentra-me mais do que os vermutes me concentram.

Faço uma observação (bonacheirona) à empregada:
- O homem vai ficar ali o dia todo?
- Espero que sim. - Poucas coisas há que aprecie mais do que uma ironia bem colocada. Ela tem razão: rir é o melhor remédio, claro. Pouco tempo depois a rapariga volta e explica-me  que os trabalhos são devidos à vinda de um "padre" (aspas porque cito, traduzido do espanhol cura) de Roma e querem ter a igreja em condições.

Bem, isto acontece em todo o lado, até na Santa Madre Igreja: não se mostra a outrém a merda em que vivemos.

- Mas não lhe deram as tintas. O homem não sabe o que fazer. - Ora se há coisa de que a dita Santa Igreja não tem falta em Palma (e provavelmente no resto do Universo todo inteiro) é massa, guito, carcanhol. Houve ali incompetência, simples esquecimento ou o cura de Roma não é assim tão importante que justifique uma demão de tinta na porta das traseiras da Basílica?

Não sei, obviamente. Assim que de repente me lembre nunca sequer lá entrei, quanto mais privar com o manda (ou troca)-tintas. Sei que o barulho continua até o N. entrar no café, em cuja casa vivi quando pela primeira vez estive em Palma. É do outro lado da rua, mas não falamos da porta da Igreja ou dos déboires do pintor sem tinta. Falamos do trabalho dele (é restaurador de móveis, mas agora evoluiu para restaurador de tudo e mais alguma coisa, desde cerâmicas do Picasso a adagas do século XIX), do meu trabalho, de bicicletas - N. é um ciclista amador a sério -. Tem uma bicicleta para vender que a priori me parece melhor do que a minha Órbita Estoril II (que os senhores da Órbita me perdoem, mas não é difícil). Amanhã vou experimentá-la. N. ajuda-me a vender a Órbita, pelo que em princípio a operação será neutra de um ponto de vista financeiro, se não contarmos o período de sobreposição das duas burras.

A ver, como dizia o nosso amigo velhinho.

A verdade é que com a conversa do N. deixei de ouvir o barulho do pintor e hoje é feriado e quando lá cheguei (ao Antiquari) pensei que a Igreja estava a fazer pessoas trabalhar a um feriado, mas depois lembrei-me de que a Igreja trabalha especialmente aos domingos e feriados e portanto para ela isto não é nada de excepcional. "Espera, é", diz-me um dos muitos narradores que se escondem nas traseiras das minhas sinapses: "o feriado é político, não é religioso". Começa um diálogo: "no código genético da Igreja não todos os feriados são religiosos". "Certo, mas não se deve fazer barulho aos feriados à frente do melhor café da cidade quando alguém lá vai para trabalhar". "Pois. Mas define barulho: mal começaste a conversar acabou o barulho".

Bom, despedi-me do N., montei na minha bicicleta "elástica" (adoro esta expressão tanto quanto detesto aquilo que ela designa) e vim passear. Encontro a L., que no Inverno deixa de vender bijuteria e vende camisolas, xailes, luvas, gorros e por aí fora em lã ou em alpaca. Ficamos à conversa - conseguiram finalmente um apartamento longe de Palma, o D. tem um carro, o G. (o músico que conheci em Antigua há sete anos e por intermédio de quem conheci esta malta toda) esteve em Palma - e acabo, finalmente a beber um vermute ou dois no Ca na Chinchilla. O tablet está configurado e funciona, tenho ficheiros e programas e posso, portanto, escrever disparates.

Os quais me faltam muito, isto tem andado um bocadinho escasso, não por falta de vontade de os debitar, longe disso, mas sei lá, por outras razões quaisquer que agora não me saem, talvez por não serem disparates.

De maneira agora bebo os meus vermutes na Chinchilla, salvo seja e penso como seria Palma se tivesse um bocadinho mais de cultura, só um pouco, um café Tati, uma livraria Snob, uma Ler Devagar, um Procópio (está encavalitado em duas categorias: Bares e Cultura), um Povo, as Primas Terças e por aí fora.

Imagine-se uma cidade onde não há um terço do barulho de Lisboa, onde as bicicletas são bem vindas - até nas lojas, um gajo entra com a bicicleta e toda a gente acha normal - mais pequena do que Lisboa, limpa, com os pavimentos das ruas em bom estado, cosmopolita - e a tudo isto junte-se-lhe a oferta cultural de Lisboa.

O que me leva a pensar que nunca me tinha apercebido desta minha necessidade de cultura, mas enfim. venha um vermute, Angel.

(Não é bem verdade, eu sei. Mas o DV não é um registo histórico. É ficção.)

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Hoje é feriado e a Rambla começa a encher-se de gente. A porcaria das compras de Natal espanta-me: gosto de dar presentes, de oferecer bugigangas, livros, roupa, flores, o que for. Por que raio de carga de água fazê-lo só numa altura do ano? É um pseudo-potlatch sem a dignidade dos verdadeiros (suponho. Nunca assisti a um). Vá lá que pelo menos as pequenas são giras, ao menos isso, desviam-me o pensamento das fealdade dos stands.

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I. foi trabalhar hoje, ver se conseguimos acabar a primeira demão até ao fim-de-semana. Uma coisa que eu pensava ia demorar três ou quatro dias (não por excesso de optimismo, mas porque seria o normal) já vai em mais de duas semanas. Deixei de fazer previsões de datas. As coisas fazem-se e quando estão prontas estão prontas. Nunca pensei que o meu amado P. fosse um tão bom professor de Taoísmo.

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E. e eu estamos a pensar organizar um jantar literário na Volta Dos. Há vários problemas a resolver, entre os quais o dos idiomas. Só inglês, ou inglês, francês e espanhol? Se pomos francês temos de pôr alemão também. Só inglês e alemão?

Temos de encontrar um autor e livros para todas as línguas? Fazemos uma mescla? Se for só inglês tem de ser relativamente acessível para todos os não-anglófonos.

Enfim, hoje ocorreu-me que seria mais fácil fazer um só em espanhol no Antiquari. A H. não deu pulos com a ideia de o fazermos no Smack (em francês). Não sei, estas coisas parecem uma agulha magnética à procura do Norte: andam de um lado para o outro até acertarem.

Pelo sim pelo não comprei duas versões do Khayyam em espanhol. Na livraria (a Babel, claro) comento a quantidade prodigiosa de traduções que os espanhóis têm. "É verdade", responde-me o mais velho dos dois vendedores. "Vocês em Portuga falam muito mais línguas. A vossa burguesia é muito mais culta do que a espanhola. E então da catalã nem se fala!"

Aos olhos dos outros, deixámos definitivamente de ser o país de onde vêm as mulheres a dias e os pedreiros.

4.12.18

À porta da vida

Ia deitar-me um bocadinho, só um bocadinho, esperava não tropeçar em ti num canto qualquer do sono ou do sonho, têm as mesmas portas, os mesmos cantos mas é inútil: estás sempre lá, à porta de um e do outro, mal eu entro saltas-me à garganta e não vejo mais nada se não tu. Isto acontece sempre, seja no canto do sono seja no do sonho. Às vezes até nos dois, estás num e no outro logo a seguir. Depois acordo e é a mesma coisa, saio e dou contigo ali à espera, à porta da vida.

Concorrência

Anos antes de se casar comigo, Marie-Thérèse teve uma aventura com um padre. Foi uma história longa para os os padrões dela da época, explicou-me. "Durou quase um ano. A mim, acabada de sair de uma relação completamente desequilibrada com o Édouard pareceu um casamento." "Uma relação com um padre não deve ser um modelo de equilíbrio", respondi. "Que raio te passou pela cabeça?"

"Bem, o homem era lindo. Parecia o Alain Delon de sotaina. Mas o que na verdade me atraiu não foi isso. Nem sequer o risco, quem o corria era ele, não eu. O que me deixava louca era a ideia de estar a fazer concorrência a Deus."

"Concorrência desleal... Na cama nem Deus te ganha."

2.12.18

Luz

A luz de Lisboa é um gouache; a de Palma uma aguarela.

Perder-se, encontrar-me

E se me perdesse? Como seria perder-me, eu que nunca me encontrei? Onde me perderia - em ti? No mar? Na vida? Numa rua dessa cidade de que tanto gostamos os dois? Numa nota de música? Na sombra de uma nuvem no oceano?

Se me perdesse seria em ti, só em ti: foi em ti que me encontrei.

Vida, aqui tão perto

Não me digas nada. Ouve comigo Gould maltratar Bach (e percebe que maltratar pode ser amar, às vezes). Bebe comigo um Limoncello, é demasiado doce mas não faz mal, bebe-se. Vive comigo este dia, tão perto do fim, dia que mais parece uma vida, um oceano.

Ouve-o espraiar-se em ti como se aqui estivesses, azul fosforescente que és como foi hoje o céu. Ouve-me: nunca estarás tão perto da vida.

Mar-oceano

De que é um dia feito? De peças, como um puzzle? Tijolos, como uma casa? Vagas, como o mar?

Ao contrário das peças e dos tijolos as vagas não se adicionam. Sucedem-se mas não se sobrepõem. Ninguém sabe para onde vão (isto não é mentira, é licença poética. Toda a gente sabe.) Ou seja: um dia como o de hoje foi um puzzle, uma casa ou um mar-oceano?

Pergunta

O barroco é o rock n'roll da música erudita, não é?

In/dependências

As coisas são como são; não como nós queremos que elas sejam. Contudo, por vezes as coisas e a nossa vontade coincidem. Tenho estudado o fenómeno por várias razões: a) é raro; b) é imprevisível; c) é inesperado: acontece sem intervenção do nosso querer, tão maltratado, ninguém - nada - lhe liga nenhuma.

Enfim, tudo isto para dizer que cozinhei uma carne que "não ficou mal" e ouvi E. ler-me os seus textos com fundo de Schubert. Há, acreditem, algumas formas melhores de fechar um dia. Mas são poucas e não dependem só de mim.

A biblioteca na internet - Li Bai

"Calcorreei todos os caminhos
e nenhum lugar me retém.
Parto de novo sem rumo certo,
entre as folhas que caem sobre a terra."

[Preferiria "Percorri" a "Calcorreei", mas deixo a versão traduzida por quem sabe (António Graça de Abreu)]

"Viajante do mar cavalgando ventos,
levando sua escuna para terras distantes,
deixando o rasto de
um pássaro entre as nuvens."

Presente, futuro

- Estou a fazer aquilo que não foi feito em trinta e cinco anos - menciono a um amigo em conversa.
- Não. Estás a fazer o que não foi feito e a corrigir o que foi mal feito em trinta e cinco anos.

Não há melhor súmula do que são os meus dias. E do que é o meu futuro - um presente destes é um presente em todos os sentidos do termo. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-12-2018

O dia está lindo, bonito de mais para deixar a constipação prender-me em casa. Que vá para o diabo que a carregue, mai-los espirros, tosse e assoos constantes. Pego na bicicleta e venho passear. O céu está azul vivo, azul quase fosforecente mas a luz é pálida, tímida. Ou seja: subtil, elegante, fina como esta esplanada do Passeig d'es Born onde bebo cappuccini e escrevo cartas e postais a eito.

Deixo a melancolia dissolver-se lentamente, por entre letras e corpos bonitos, até dela nada ficar se não aquilo que a une à felicidade, aquela estreita ponte que à alegria traz densidade e a matiza e à melancolia ligeireza.

Em breve vou ao almoço dominical do Smack; hoje blanquette de veau. O céu está cada vez mais azul, mas a luz continua igual. A Rambla e a Plaza Mayor estão cobertas de stands natalícios. O Born escapou, felizmente.

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Mas não escapou ao acordeonista que toca mal e porcamente música péssima. Escapo eu, pela esquerda baixa.

1.12.18

Porquê?

"Que não ficou mau..." Referia-me ao hummus que fiz há pouco; mas também ao frango do almoço; ou talvez até ao sábado todo, que foi de festa e não foi mau.

Espero é que ninguém me pergunte porque foi o sábado assim tão bom. Não saberia dizer-lhe.

O que só faz o dia melhor ainda: estar feliz sem razão especial não tem a gravitas de estar triste pelo mesmo motivo (ou ausência dele) mas é infinitamente melhor: um gajo não tem de se preocupar com o porquê.

30.11.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 30-11-2018

Que dia... E ainda só vai a meio.

Encontro a bordo com S. e J. para discutirmos o apoio da sapata do pé do mastro. S., diz-me J. (o surveyor) é um génio da fibra e uma excelente pessoa. Combinamos para sexta-feira que vem, apesar de ser feriado. Não pode vir antes e assim fica com o fim-de-semana para acabar. Pelo menos a segunda parte de descrição de J. é verdade. Não é todos os dias que se encontram nesta ilha pessoas dispostas a abdicar de um dia feriado, sendo que ainda por cima pensa prolongar pelo fim-de-semana, se for caso disso.

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Estou outra vez constipado. "Outra vez" sendo mentira: é sempre a mesma constipação, mas quando reaparece vinga-se e deixa-me de rastos. Não é a primeira vez que estou doente nesta casa de hóspedes, mas da outra tinha pelo menos alguém a quem me queixar. Quando se está sozinho uma constipação é a coisa mais inútil do mundo.

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Fui almoçar à Bodeguita del Centro. Sublime bife com molho de pimenta. Nunca perceberei porque é tão difícil aos portugueses fazer um bife mal passado, entre o cru e o mal passado. Não custa nada, basta saber contar até três: Uma frigideira perto do ponto de fundição, põe-se o bife, um dois três, vira o bife, um dois três, serve.

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Grande conversa com J., de quem me aproximam duas ou três coisas essenciais: o amor pelos barcos, primeiro; pelo trabalho bem feito, segundo; não sermos movidos a dinheiro, terceiro. Não sei como é nas outras profissões, mas esta tem isto de particular: ganha-se bem, é certo. Ou mal, é igualmente certo. Alternadamente. A única coisa que permanece é esta espécie de adoração irracional por coisas que flutuam com linhas bonitas: um barco, pensava eu hoje pela milésima vez, é a coisa mais perene da história da humanidade. Se hoje no P. entrar o primeiro homem que teve a ideia de pôr um pedaço de pano num pedaço de pau, aposto que ao fim de cinco minutos ele se entende.

No fim, decidimos que a armadora merece tudo: "a indústria precisa de pessoas assim", diz J. E nem eu lhe disse da missa a metade, claro: fiquei-me pela sorte que é poder refazer este barco "pondo quanto sou no mínimo pormenor", passe a paráfrase desajeitada.

Obrigado, M.

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Nunca, que me lembre, fui simultaneamente tão feliz e tão ansioso como agora. As crises de ansiedade - herança da minha querida Mãe - são intensas, aproveitam-se dos motivos mais delirantes. Já a felicidade é difusa, indefinível, está em todo o lado e só se manifesta um pouco mais fortemente quando de manhã chego a bordo e vejo aquelas linhas finas, elegantes, de braços estendidos a dizerem-me "despacha-te".

Despacho-me, sim, P. Mas olha que mais vale fazermos isto como deve ser do que depressa: depressa em breve estará esquecido. Como deve ser nunca passará.