1.2.26

Diário de Bordos - Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 01-02-2026

Volto ao meu ritmo habitual de acordar muito cedo, como se quisesse encolher a noite, encolher o pesadelo. (Isto é kalimerice. Eu reduzo as noites e a L. reduz o pesadelo a um mau sonho. Deixo-lhe aquí o meu obrigado. Já à RN deixo a minha praga, nada encolhida.)

Os dias ficam mais compridos apesar de ainda ser noite.

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Hoje vou votar "em mobilidade". Voto no Seguro, não porque veja nele o salvador da democracia ou no outro palerma o seu demolidor (dela, democracia). É simplesmente porque prefiro a decência à indecência, a civilidade à boçalidade. Entre duas mediocridades prefiro a educada. O outro não passa de um idiota que fugiu da taberna de onde nunca devia ter saído, um socialista disfarçado de catavento.

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Esta semana começo uma carreira de professor de português para estrangeiros e em breve começarei os primeiros passos para os jantares "ler por aqui" (desculpa-me a apropriação cultural, M. Não é a designação definitiva). A versão para estrangeiros vai chamar-se "dinner by the book", ideia genial, obra do O. (?) a quem também deixo aqui um obrigado que vai de Caminha ao Porto.

Quem tem amigos não tem pesadelos. 

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E quem os tem (pesadelos) esmaga-os debaixo de vinte quilos de cobertores, bem esmagadinhos e espera que a sala aqueça - ou seja, sonha com ladrões. O único aquecimento para esta sala chama-se Verão, uma marca bastante presente no nosso país, graças a Deus e à geografía.

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O jantar de pendaison de la crémaillère será em breve. É outra forma de aquecer a sala e de esmagar pesadelos.

31.1.26

Fragmento

Abençoadas sejam a lã, a electricidade, as resistências eléctricas e as matérias sintéticas. Amaldiçoados o frio, o vento em excesso, a chuva e as latitudes demasiado elevadas - o limite sendo os 23° 27' dos trópicos.

28.1.26

Diário de Bordos - Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 28-01-2026

Descubro a casa - nos dois sentidos, descobrir e des-cobrir - e a tentação seria acrescentar descubro-me (num só dos sentidos). Não seria verdade. Sempre fui dual, marinheiro com um pé no mar e outro nos livros, cara ao vento e alma à lareira. Balanço e abalanço-me, que os badanais desafiam tanto no mar como em terra, por diferentes que sejam. 

Arrumo os livros, vejo quantos me faltam e quantos tenho, a ficção estrangeira está por ordem. Já só falta a poesia, a ficção nacional (desta vez decidi separá-las), as não-ficção - muitas -, as biografias e auto-biografias, a portugália, a marítima e a miscelânea. Duas semanas e duas estantes ou três. Duas navegações ou três. A lareira enche-me a casa de fumo, as paredes estão a ficar castanhas, o forno é novo, o fumo na casa faz-me pensar que estou a navegar no nevoeiro - estou, se se pensar que nevoeiro pode ter vários sentidos. A polissemia é a minha imagem de marca.

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Livros, electricidade, lareira, aquecimento, iconografia - tenho dezenas de imagens que quero pôr nas paredes e não tenho dezenas de paredes, porque preciso delas para os livros... Um caso de mais olhos que paredes. Isto é como navegar no mar do Norte: navios, correntes, baixios, bóias, nevoeiro. Forçoso é reconhecer que estou mais à vontade na Mancha do que em Vilarelho. Descubro, des-cubro e - sim - descubro-me. 

Descubro-me todos os dias, vai para quase setenta anos. Qual a novidade?

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Prova de que estou em terra: bebo vinho tinto enquanto navego. Vinhas de Xisto Reserva. Douro DOC de 2024. Não gosto de supermercados mas de vez em quando há que dar a boca a torcer.

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Chego a casa e o cheiro da madeira a arder na lareira diz-me que estou em terra. Inscrevi-me para votar "em mobilidade". Um dia votarei em imobilidade e o cheiro da lareira dir-me-á apenas que está acesa. 

21.1.26

Curiosidades do aeroporto de Lamentin

Por cima de cada urinol e de cada retrete das casas de banho do aeroporto Aimé Cesaire, no Lamentin, há uma pequena placa a dizer "Água não potável". Em cima das torneiras dos lavatórios essa placa está ausente.

Curioso, não é?

19.1.26

Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 18-01-2026

É quase meia-noite e acabo de passar duas semanas horrorosas, muito para baixo do muito mau. Qual a relação entre estas duas orações? O fim do horror está próximo. É razão necessária e suficiente, não é? É. Claro que cem por cento da responsabilidade é minha; tal como noventa e nove por cento da culpa. Já tenho idade para a) não acreditar em tudo o que me dizem, b) seguir a minha intuição e c) pensar em mim, egoisticamente, à la Ayn Rand. Falham-me a d), e), f) e por aí fora até à z). 

Que se lixe. Sou como sou e é tudo o que sou. 

Ou, se me permitem uma auto citação, como sou me dou. Convivo bem com os meus defeitos, condição primeira para amar alguém. Esse alguém sou eu? Tanto melhor. Esse alguém faz-me passar dias como os que passei? Paciência. 

Isto dito, saiu-me mais uma borderline na rifa. Gostaria bastante - e agradeceria ainda mais - que esse alguém me explicasse que mal fiz eu a Freud - ou à psiquiatria em geral - para as atrair desta maneira. Esta última juntava umas gotas de OCD à borderline (BPD, para os íntimos, amantes de acrónimos e de maiúsculas). Ou seja; passo os pormenores. Mais de mil euros em aviões, mais de quinhentos em hotéis e em alimentação, alguns duzentos em táxis... A loucura sai cara, sobretudo para quem não é louco. Costumo dizer que trabalho para fazer o que quero mas tenho de reconhecer que também trabalho para fazer o que não quero. 

Um dia trabalharei para não fazer o que não quero. Por exemplo: trabalhar. Ou andar de avião.

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A música no bar do lado não pára. Quanto menor a latitude mais alto o volume de som. É por isso que nunca serão ricos. Nem sequer civilizados, etapa prévia e essencial.

17.1.26

Diário de Bordos - Marigot, St.-Martin, DOM-TOM França, 16-01-2026

Os dias têm sido de insónia. As noites também, a fortiori. Ontem dormi no melhor quarto (de hotel, pensão ou simili) dos últimos duzentos e cinquenta anos - anos de memória, leia-se. Hoje durmo no meu bem-amado Centr'Hotel. Amanhã não sei. Preencho a insónia com uma indomável vontade de amanhã acordar tarde, Santo Agostinho e vozes femininas. Sandy Denny à qual regressarei mal a Baez acabe de cantar, Maddy Prior, Karen Dalton. Sandy Denny: Who knows where the time goes; Baez: Sad eyed lady of the lowlands; Maddy e Karen: ainda não sei. As insónias não têm placas a indicar a direcção. Nada tem, de resto. "La où les routes sont tracées je perds mon chemin". Quem é que disse isto? Tagore (lê-se Togore)? St. John Perse?

Tagore:

"Où les routes sont tracées, je perds mon chemin.
Sur la vaste mer, dans le bleu du ciel, il n'y a point de lignes marquées.
Le sentier est caché par les ailes des oiseaux, le feu des étoiles, par les fleurs des saisons différentes.
Et je demandais à mon cœur : ton sang ne porte-t-il point la connaissance de l'invisible chemin ?

"
Maddy Prior: I live not where I love. Eu não vivo aonde não posso ouvir-te, Maddy, mesmo que seja num telefone merdoso, porque tu és um desses invisíveis caminhos. Há vozes assim, vozes invisíveis, vozes que nos fazem ver o invisível. A Nico tem uma dessas vozes.  A Dalton também. Vozes que nos fazem agradecer a falta de sono, considerá-la uma dádiva, uma sorte, uma bênção. 

Nico: I'll be your mirror.

Agostinho: "Se os pecadores usam mal a lei, que é boa, os justos usam bem a morte, que é má."

Nico: The fairest of seasons (escolha do youcoiso, da qual näo me queixo).

Agostinho: "a vida é eterna para os justos, a morte eterna para os pecadores." (Cito de memória.) Péssimo incentivo, deixa-me dizer-te. Antes a morte eterna.

Ou seja: Chants de la liturgie slavonne, pelos monges benedictinos de Chevetogne, aonde um dia irei em peregrinação. 

Karen Dalton: esta voz vem das entranhas da terra. Dá-nos a ver as tripas. Impede-me de ler.

Agostinho: "Desde que se começa a estar neste corpo, que há-de morrer, nunca se deixa de caminhar para a morte." A Dalton ilustra bem isso, mas não é a única. [Beckett também, mas disse-o de uma forma mais bonita e agora não encontro a citação.]

Comecei a insónia com o objectivo de escutar vozes femininas, com uma espécie de lista mais ou menos (mais menos que mais) definida. Aqui chegado, o tube apresenta-me Charlotte Gainsbourg - Un part et l'autre reste, a mais bela canção de amor de sempre - e Barbara: Dis, quand reviendras-tu? Deixo o Agostinho. Que sabia ele de amor, de distância, da ausência? (Não sei. Ainda não o li todo.)

Tenho vontade de voltar ao tema, mas a Annette Peacock interpõe-se e não lhe encontro pouso nesta série, passo ao Broken English da Marianne Faithfull ("what are you dying for? / It's not my reality") e penso inevitavelmente na Pietra Montecorvino. É ela quem me vai abrir as portas do sono. Notte che se ne va. Voz cheia de pedregulhos, saída de um tremor de terra.

12.1.26

Diário de Bordos - Fort-de-France, Martinique, DOM-TOM França, 12-01-2026

Turisto em Fort-de-France: almoço na Carole, gelado na cour Perrinon, rum na praça logo à frente, deambulo (em ziguezague) na retícula urbana, encontro uma loja com sabonetes mais baratos do que em St.-Martin (o que me faz pensar que os caminhos do mercado são insondáveis) e acabo, inútil é dizê-lo, aonde comecei: café L'Impératrice, o único sítio de Fort-de-France aonde não há um único branco e que é o mais bonito. (Não há relação de causalidade.) Não consigo decidir se gosto mais de Marigot se de Fort-de-France. Esta é mais bonita, mais complexa, maior - mas exala provincianismo, coisa à qual sou mais ou menos alérgico. O serviço é horrível, as lojas fecham à hora do almoço, a cidade inteira respira sono, tédio. Decido que o problema não o é, bebo o meu rum tranquilamente, deixo-me perspassar pela sonolência local e pergunto-me qual a receita do Impératrice para afastar os gringos.

O Pain de Sucre está fechado. Forçoso é reconhecer que é definitivo, o que lamento profundamente. Era um restaurante óptimo.

Fui comprar um cigarro ao Sun&Fly. Não consigo perceber porque não é permitido vender cigarros à unidade. Se as autoridades estivessem mais interessadas na saúde pública do que nos impostos tornariam obrigatória esta forma de vender tabaco. Não estão, claro. A ideia de que os políticos se interessam pelas pessoas é uma ingenuidade. Os políticos só se interessam pela nossa massa e pela forma de a transferir para os cofres do Estado. 

Toda a gente sabe. 

(Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem arte. Já viram algum político sem arte? Eu já, mas duram pouco.)

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ADENDA

Antigamente - isto é, até dois mil e dezoito - os transportes públicos na Martinica eram oprados por aquilo a que os ingleses chamam a man and a van. Chamavam-se taxico (abreviatura de táxis colectivos) e ligavam todos os pontos da ilha a todos os pontos da ilha, mesmo que por vezes fosse necessário apanhar dois ou três. O sistema funcionava perfeitamente, era barato e convivial.

Alguém nas esferas políticas decidiu que o sistema era demasiado «terceiro-mundista» e resolveu implantar autocarros, como nas grandes metrópoles. À boa maneira destas ilhas, a coisa levou anos e anos a ser posta em prática, mas lá foi inagurada, nesse ano.

Resultado: os autocarros andam vazios, não têm horários (se os têm não os cumprem) e as pessoas puseram-se a comprar automóveis (o objectivo «oficial» da medida era diminuir os engarrafamentos crónicos) e se alguém quiser vir de Fort-de-France para o Marin depois das sete da noite (mais coisa menos coisa) das três uma: ou vem de carro, ou paga cem euros por um táxi ou não vem. Os engarrafamentos aumentaram, a mobilidade ficou pior e como os políticos são políticos o sistema está mal concebido e funciona pessimamente. 

O fantástico nesta história é que há pessoas inteligentes que pensam que a solução para a maior parte dos problemas é o Estado. Não é. É um conjunto de homens e carrinhas ou o que quer que seja que faça o que estas fazem.

11.1.26

Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 11-01-2025

A mistura é esta: uma mesa de restaurante na praia; alísios; centenas de mastros; rum velho; montanhas cobertas de vegetação; três jobs em perspectiva; uma indeterminada quantidade de paz a entrar-me pelos poros, abertos à espera dela; mais rum velho. Não sei qual o ingrediente principal da mistura mas tendo para os alísios, para os mastros, para as montanhas, para o rum, para a praia. Por esta ordem ou por outra qualquer, não sei. Tanto me fazem, a ordem como a desordem. Convivo bem com as duas - desde que me cheguem acompanhadas por rum, alísios e perspectivas de trabalho, claro.

Das quais uma é bonita: trata-se de levar um veleiro já não muito novo do México para o Brasil. É o tipo de viagem que me atrai: longa, condições bastante variáveis, inabitual - além de que nunca estive na costa atlântica do México e gostaria muito de ir. Ainda não tenho a certeza de aonde estará o bote mas deve ser Cancún. Não sei. Quando souber saberei. Esta semana.

Claro que três perspectivas de trabalho é risível. Normalmente são necessárias vinte para que uma se concretize. Neste caso não é bem assim porque uma delas é concreta mas eu não a quero, a outra é assim assim (México) e por último está a das BVI, que com sorte conseguirei cumular com a do México. Ou seja: concentremo-nos nos mastros, nas montanhas cobertas de verde, no vento, no rum velho, no quadro presente e deixemos o futuro para aqueles de quem ele foge constantemente: os que o tentam adivinhar. 

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A tarde escoa-se lentamente, ao ritmo do rum e do vento. Ao lado a banda faz testes de som sem parar. A música não é grande coisa mas a parede que por vezes me isola do mundo funciona particularmente bem nestas ocasiões. Já paguei e preparo-me para me ir embora, dormir uma merecida sesta. Fazer quase nada é muito cansativo.

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ADENDA 

Não como sushi bom desde que o Gonçalo D. fechou o restaurante de sushi que tinha no Estoril mas hoje estava com fome e vim ao do Marin. Não é bom nem é mau, antes pelo contrário. É só caro, como todos os sushi do mundo. De qualquer forma aqui não há nada que não seja caro, pelo que mais barato ou menos não é propriamente um critério. É que nem o McDo, portanto näo vale a pena reclamar. Esta merda é cara e é uma merda. Ponto.

O problema sendo que ainda não são sete da noite e se for dormir agora acordo à uma da manhã. Mais vale tentar aguentar um pouco e acordar às três. 

Sem carro é difícil. 

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Os domingos no Marin são ainda piores do que os outros dias. Durante a semana isto parece um cemitério animado. Aos domingos é um cemitério desanimado. Amanhã vou a Fort-de-France. Sempre é mais bonito. Isto é, mais vivo. Pergunta: se estivesse em St.-Martin, aonde estaria? E em Genebra? E em Lisboa, Palma, Cidade do Panamá, Caminha, S. Luís, Barcelona? Em todos esses lugares aonde já me aborreci mortalmente, como num cemitério? «Manhã de domingo numa cidade estrangeira», escrevi um dia. Há alguma cidade que não seja estrangeira? Isto é, aonde eu não seja estrangeiro?

O Kokoa pelo menos não cheira a comida. Os gajos que fecharam o Mango deviam ser enforcados.

Um dia sonharei que o Kokoa substitui o Mango e realidade e sonho estarão unidos para sempre. Alguém tem alguma coisa contra as vidas oníricas? Eu não. Sonho-as, acordo e vivo-as, mais coisa menos coisa. E bebo-as, se vierem em copos de rum.

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Bebo - agora - tranquilamente o domingo. Ou é o domingo que me bebe a mim, vá lá saber-se. Os domingos, toda a gente sabe, dissolvem-se facilmente num copo de HSE, Habitation Saint Esprit, o menos francês dos runs francófonos. 

(Cont.)

10.1.26

Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 10-01-2025

É uma tarde de sábado melancólica, cheia de opções pelas quais não me apetece optar. Ia para o Liv trabalhar mas está fechado; o Sucré Salé idem. Abençoado resultado: acabo no Cayali a ver a malta dos ioles aparelhar e largar enquanto bebo um rum velho e deixo os alísios afagar as opções. Do outro lado da baía a azáfama é vertiginosa: sábado é dia de charters e há malas por todo o lado, pessoas a correr, companhias speedadas para terem os barcos prontos. Deste lado é o contrário: ningém se mexe. A única actividade é a dos ioles mas essa está longe de ser frenética. É calma, comedida, precisa. Cada um sabe o que tem de fazer e fá-lo, sem hesitações nem delongas.

Já eu hesito e delongo, mas isso é outra história.

O que não é outra história: que bem fiz em vir aqui. Esta mania de estar sempre fechado entre quatro paredes devia prescrever de vez em quando. Não digo sempre, notem. Digo de vez em quando.

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ADENDA

O jantar foi menos feliz. Vim ao koko, abreviatura de Kokoarum. Não sei bem porquê. A comida é má e cara, o serviço péssimo, deixo dois terços no prato porque as doses são demasiado grandes e saio a perguntar-me por que raio de carga de água não fui ao Marin Mouillage, que aparentemente está aberto.

A resposta é simples: porque o Mango está fechado e o Marin sem o Mango é um Marin amputado, meio Marin, Marin sem passado nem futuro. O koko é um ersatz de Mango, corpo sem alma, ciclista sem pedais, bicicleta sem rodas, choro sem lágrimas.

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O meu eterno dilema Martinique vs. St. Martin está definitivamente resolvido: St. Martin, apesar do aumento de preços demencial do Arhawak, apesar de... Apesar de nada. Se o Arhawak está caro tens outros aonde ir. O pequeno almoço na Émilie não tem igual, as meias porções no Ben, os jantares no L'Authentique, o goonies, meu Deus, o goonies.

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Á espera de uma confirmação de um transporte México - Brasil. Há quem diga que podia esperar pior e eu concordo. Não vai demorar muito tempo a chegar.

Enfim, espero.

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Não espero nada. Sei. As semanas que passei com aquela louca têem ser compensadas, é tudo. Quanto mais não seja, com um trabalho decente. A mulher é BPD, OCD e está descompensada. Foi demasiado para um ser frágil como eu. Não sou psiquiatra nem enfermeiro em psiquiatria nem psicólogo. Sou vítima de um trauma que me vai perseguir algum tempo (pouco, que o mar tratará de o lavar).

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Hoje o espectaculo dos ioles a aparelharem na praia foi magnífico. Sábado que vem trago a máquina, ver se traslado o que tenho na retina para o sensor megapixel.

Não conseguirei, claro. O sensor não sente nada, apesar do nome.

9.1.26

Diário de Bordos - Aeroporto de Grand Case, Saint-Martin, DOM-TOM França, 09-01-2026

Hoje conheci Julio, chauffeur de táxi gipsy (táxis ilegais). Deveria dizer chauffeur surreal, se a palavra não estivesse tão gasta, tão polida pelo uso. Comecei a notar que havia alguma coisa de estranho nele esta manhã. Estava em Marigot e ia ao Lagoonies buscar as injecções. Não sabia aonde é o bar. Até aqui tudo bem. Mas para lhe explicar o caminho - extraordinariamente simples - tive de repetir as explicações vinte vezes. Depois trouxe-me a casa. Quatro dóleres em vez de trinta (outro gipsy) ou cinquenta (táxi normal) é tentador e reservei-o para me levar ao aeroporto de Grand Case. Passo bastantes pormenores e cerca de vinte mensagens (não é exagero): o homem não sabe ler cartas do Google Maps. Um chauffeur de táxi que não sabe ler uma carta é especial, reconheçamos. Finalmente lá consegui explicar-lhe aonde estava - por mera coincidência o mesmo sítio aonde me havia deixado de manhã, paguei-lhe vinte euros para me trazer em vez dos vinte e cinco que um táxi normal me levaria e vim o caminho todo a ouvi-lo desculpar-se a vários clientes: não os tinha encontrado. Passara, claro, pelos sítios acordados mas não os vira. Fez isto com pelo menos três clientes. Escusado é dizer que o homem vai sair da minha lista de contactos. Com alguma pena minha, reconheço.

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Hoje despedi-me da empresa para a qual trabalho. Continuar teria sido prostituir-me, coisa para a qual tenho notoriamwente pouco jeito. É uma decisão que provavelmente me vai custar caro, mas enfim. Tentarei fazer um pouco de controle de danos.

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Cheguei demasiado cedo ao aeroporto, outra vez. Com o trânsito aqui nunca se sabe. A julgar pela sala de espera o avião estará cheio. Volta, Air Antilles, estás perdoada (a Air Antilles foi proibida de voar porque os aviões não estavam em condições. Agora só há a Air Caraïbes e os preços são alucinantes. o que não impede os aviões de andarem cheios. 

ADENDA 

Já não é suficiente chegar demasiado cedo ao aeroporto. É preciso que o avião esteja atrasado. Sem isso o ramalhete não ficafia completo.