À minha frente senta-se um daqueles casais que confirma, como se fosse preciso, que estou em Ibiza. Nenhum dos dois chegou aos trinta. Lá chegarão. Ele tem um penteado à búfalo - é a única coisa conspícua. Ela é alta, muito magra e de mamas pequenas, pleonasmo anatómico. Tem a cara cheia de borbulhas e senta-se como um homem, pernas muito abertas. Como a roupa é apertada vê-se bem que é mulher. Estão os dois agarrados aos respectivos telefones, tarefa que ela interrompe regularmente com pedidos de beijos ao rapaz. Ele corresponde, parece-me que com um bocadinho de indiferença. Talvez seja só impressão minha. Não sei. Depois dos beijinhos voltam para os telefones, bastante concentrados, torso inclinado para a frente, antebraços apoiados na mesa. Já só faltam três horas para o avião descolar (se não estiver atrasado, coisa que acontece frequentemente nestes voos tardios). Estes corpos femininos magros, loiros, «pernas até às orelhas», braços que parecem peças de mikado, metade da barriga à mostra são... são o quê? Nada. Talvez um bom pretexto para justificar o copo de vinho que fui buscar, desprezando aquela velha norma da marinha portuguesa segundo a qual não se mistura uvas com cereais. Eu misturo. Misturo tudo, de resto: horas infindas num aeroporto, ego magoado, dores nas pernas, vontade de estar em casa, cansaço, cansaço, frio. Há uma guerra entre o cansaço e a vida. Pergunto-me se devo jantar aqui no aeroporto os se em Palma, no Napoli ou no 7 Machos, estará aberto ainda se o avião não atrasar muito. Um taco e uma margarita num banho de bem-querença, é bom este sentimento que eu tenho de ser amado por Palma, ao contrário de Lisboa. Nada melhor do que um amor correspondido, não é? É. O problema é estar tão cansado, escasso de sono e a transbordar de trabalho.
O casalinho «ibicense (?)» desapareceu, o copo de vinho está quase vazio e eu vou resolver o meu dilema jantarístico depois dos filtros de segurança. Parece que há mais restaurantes do que aqui em baixo.