Não tenhamos ilusões. Nunca ninguém pensou que seria fácil. Veni, vedi, vici não é para todos. Há que ir devagar, correr como um perdigueiro atrás da lebre e saber parar logo a seguir, farejar, olhar, esperar, aguentar os cavalos. Estar pronto a correr em todas as direcções mas escolhê-las primeiro. Poupar energia. Deixar sedimentar as ideias, equilibrar a impaciência, a pressa, a reflexão, a necessidade. Quem espera desespera? Sim, sem dúvida. Mas quem desespera não espera sequer.
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Amar alguém é amar-lhe os defeitos? É. Mas antes de amá-los há que habitá-los, conhecê-los bem e por fim deixá-los escorregar por nós como os pingos de um dia chuvoso depois da chuva. Além disso, há que expurgar do amor a gratidão. Separá-los. Não são miscíveis.
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A imobilidade é um sentimento estranho. Poderia escrever linhas sem fim sobre a vida em Vilarelho, quanto gosto de estar aqui, a dificuldade que tenho em ser aceite pela terra (no sentido lato, não só este lugar).
Talvez devesse começar pelas ignorâncias que me afligem: não saber viver em terra, não saber trabalhar em Portugal, querer trabalhar numa área que no fim de contas me é estranha, à qual eu sou estranho. Habituar-me à falta de profissionalismo, à diferença de mundos... É como se agora alguém decidisse amarrar a Lua à porta de casa ou ir viver para Marte. Levaria tempo.
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Tal como leva tempo fazer esta subida de bicicleta. Não é muito longa nem muito íngreme mas faz-se sentir mesmo quando a faço todos os dias; agora, há meses sem pedais nem selins, deixa marcas na chegada a casa.
Felizmente, há ritos. Rituais. Reencontros. Acender o aquecimento e ligar o desumidificador. Às vezes, ouvir um bocadinho de música, nem sempre. Descansar as pernas e a cabeça. Pensar no que tenho de fazer amanhã. Perguntar-mer se Li Bai é verdadeiramente a poesia que quero ler agora (não é, mas ainda não sei por que substituí-lo). Aquecer a panela de vinho quente que elegeu residência no meu fogão, para grande alegria minha. No Verão será substituída por um grande tacho de ponche tahitiano - sou capaz de programar as coisas adiantadamente, ao contrário do que muitas vezes penso.
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Li Bai
«Queixume
O novo é gracioso como uma flor,
O antigo é sólido como jade.
Inconstante, a flor vacila,
puro, o jade permanece.
O antigo foi outrora novo,
O novo será mais tarde antigo.
Vejam a mansão de ouro da imperatriz Zhen
Com silenciosos cortinados de teias de aranha.»
(Ed. do Instituto Cultural de Macau, 1996. Trad. de António Graça de Abreu. Pág. 291, para quem quiser perceber a referência à impereatriz Zhen.)
«Um adeus triste
A proa afilada corta as águas,
o grande barco desliza no rio,
A brisa fresca enfuna as velas,
lá longe, o pôr-do-Sol.
Ainda aqui, as taças de vinho, a nossa despedida.
Penso em ti, onde estás agora?
Esfumadas na distância e na bruma,
Contemplo triste as águas azuis.»