Tive um caso com o acaso e quis o acaso que eu não seja de fazer caso aos meus casos. Por isso multipliquei os meus casos e os meus acasos e por acaso agora encontro-me sem casos nem acasos. Pura sorte, claro. Ninguém gosta de acasos.
13.4.26
12.4.26
Diário de Bordos - Sevilha, Espanha, Vila Real de Sto. António, Portugal, 12-04-2026
Mar, Espanha, Mediterrâneo, viagem, hotéis baratos, tascas em Sevilha e restaurantes bons numa praia é uma combinação à qual é difícil resistir e da qual não nos devemos arrepender, qualquer que seja o resultado da mistura. Escrevo no bar Zafiro, uma das poucas coisas abertas perto da Plaza de Armas aonde uma senhora me virá buscar para me levar o mais perto possível de Vila Real de Santo António. A plataforma Blablacar substitui muito vantajosamente o polegar no ar à beira da estrada: agora reservam-se as boleias com antecedência. As fraudes são raras, a companhia nas viagens oscila entre o irrelevante e o seu pólo oposto, e - sobretudo - permite-nos esperar nos bares Zafiro deste mundo em vez de nas bermas das estradas deste mesmo mundo.
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Vila Real de Santo António
Resumindo:
Caminha - Porto : carro, à boleia da L.;
Porto - Sevilha : avião;
Sevilha - La Herradura - Sevilha : carro de aluguer, com dois passageiros Blablacar à ida e sozinho à vinda;
Sevilha APT - Hostal Sierpes : táxi;
Hostal Sierpes - Plaza de Armas : a pé;
Sevilha - Lepe : Carro, Blablacar;
Lepe - Ayamonte : táxi;
Ayamonte - Vila Real de Santo António : ferry;
VRSA - Lisboa : comboio;
Lisboa - Caminha : comboio.
E ainda há quem prefira o avião.
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Pequena nota àparte (ou à parte, para quem como pensa que esta é a forma correcta. M. M.?) O vinho da casa do restaurante aonde almoço, em Vila Real de Santo António, é o qualquer coisa do Marvão. Não retive o nome, apesar de tudo o que for vinho e tiver Marvão no nome me interessar bastante. Para substituir o ausente, a senhora propõe-me Herdade da Bombeira. Encomendo um jarro.
- Só temos garrafas.
- E quanto custa a garrafa?
- Quinze euros... Não, espere um minuto, por favor. Doze euros e cinquenta cêntimos.
Herdade da Bombeira 2023 num restaurante a doze euros e cinquenta cêntimos? Meus caros, isto existe. Penso na maravilhosa viagem que vou fazee até Lisboa, pergunto-me como conseguirei ficar com o copo (nos comboios só há aquelas abomináveis coisas em papel), pergunto-me que espécie de milagre me trouxe a este restaurante - são dois: é dominngo e está perto da estação dos comboios - e, sobretudo, pergunto-me o que anda o nosso legislador a fazer?
Isto é. Quero dizer. Penso que um bom legislador é aquele que decide tudo , mas tudo, em vez das pessoas. Desde a eutanásia até ao vinho da casa. Ou seja: o Herdade da bombeira devia fazer parte de uma lista obrigatória de vinhos da casa. Que faz o legislador quando mais precisamos dele? Cambada de inúteis...
No meu afã de ajudar em vez de me limitar a reclamar, publicarei aqui em breve uma lista de vinhos que o legislador devia tornar obrigatórios e com preços - obviamente - controlados. Para começar:
- Todos os vinhos da Quinta dos Termos;
- Os vinhos da Adega Cooperativa de Vila Real;
- Todos os vinhos da Herdade de Balanches;
- Vinhos do Tua;
- Vinhos monocasta de Baga e de Alfrocheiro.
Espero que em breve a Assembleia da República e a cambada que lá parlapateia dê a devida atenção a estes assuntos. É para isso que lhes pagamos: para se ocuparem de nós, do nosso bem estar, das nossas seguranças física e psicológica, dos aspectos importantes da nossa vida quotidiana.
De que o vinho da casa dos restaurantes que os tesos exigentes frequentam é uma componente relevante. (Apaguei a disjuntiva entre tesos e exigentes. Nada obriga um teso a aceitar tudo o que lhe põem à frente.)
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- Que sobremesas tem?
- Isto, mousse de chocolate, aquilo, aqueloutro.
- Em que supermercado compram a mousse?
- Creio que é no Recheio. Mas é muito boa. Eu gosto.
Isto não se inventa. (A mousse mereceria um suficiente menos, na antiga métrica de classificação escolar.)
- Que medronhos tem?
- Merda e merda.
- Bolas, isso não presta para nada. Não tem mais nada?
-...
-...
- Tenho um caseiro, que comprei para mim e para o meu pai. Está em minha casa, mas vou lá buscá-lo para si.
Meus amigos, repito: isto não se inventa. Experimentem um aeroporto ou um avião, para comprovar. Experimentem outro país. (O medronho merece um bom mais, na mesma métrica.)
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Esperar por um comboio é melhor do que esperar por um avião. Por curiosidade, numa cidade da fronteira diagonalmente oposta àquela aonde vivo. O país é o mesmo.
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(Já no comboio que me levará a Lisboa, também atrasado, não vá o incauto passageito pensar que se tratava de um acaso.)
A falta de profissionalismo deste país é exasperante e adorável. Basta ter presente a segunda parte da equação (e não tentar escrever no comboio).
(Cont.)
5.4.26
Casa, estereoscopia, passado
Estendo-me no passado como me estendo debaixo desta camada de cobertores; escorrego no passado como um patinador desajeitado na pista de gelo; mergulho no passado como um mergulhador cuja garrafa de ar comprimido está vazia; ando no passado como um cego que esqueceu a bengala em casa; e nele pedalo numa bicicleta com os pneus furados.
Por exemplo: deixei de gostar de doce de figo e de doce de tomate. Não sei porquê. Era tão feliz quando gostava desses doces... Hoje sou mais feliz? Não sei.
Por exemplo: quando cheguei a Portugal um das coisas que mais detestava era os cães vadios. Quando não eram vadios estavam amarrados. Na melhor das hipóteses a um grande arame, na pior a uma argola. Hoje não há cães vadios e os que estão amarrados é ao colo dos donos ou, na melhor das hipóteses, a uma trela. São mais felizes? Não sei.
4.4.26
Diário de Bordos - Vilarelho, Caminha, Alto Minho, Portugal, 04-04-2026
Mexo e remexo as fotografias. Não é sequer como baralhar e dar de novo porque as baralho - nada de rimas, por favor - e não as dou de novo, ficam aonde estavam com uma ordem ligeiramente diferente. Não sei o que fazer daquilo, é o que é. Algumas são boas, ao contrário do que sempre pensei. Talvez efeito Vivian Maier, vá lá saber-se.
Não é verdade. Algumas, uma minoria de uma minoria, sempre soube que são boas. O que nunca soube bem é definir boas. Para quê? Para quem? Porquê? Quais? As do trampolim do Locle, por exemplo; as do patinador em Plainpalais; as do Krüger; muitos dos retratos; não teria de me envergonhar delas se as mostrasse.
Comecei a publicar o blogue no dia em que decidi que pior do que os outros não seria. Ao fim de um ano ou dois tive a primeira proposta para o publicar em livro. Declinei, com uma desculpa mais desculpa do que justa. Por burrice? Por modéstia? Aposto mais na primeira: hoje vou na terceira compilação de posts e não pararei enquanto não chegar ao fim.
Na fotografia não foi assim. Primeiro, houve a história da galeria Nikon de Zurique, que me seleccionou seis diapositivos (de entre vinte, eles mesmo já seleccionados de entre algumas centenas) para uma exposição que teria lugar em breve. Infelizmente, arranjei maneira de os perder. Simplifico: na verdade, alguém os perdeu por mim. Depois houve o tipo da galeria já não sei aonde, creio que Nyon, talvez Genebra: «Reconheço um certo trabalho sobre a luz, mas não tem qualidade para uma exposição.» Aceitei sem mais.
É preciso dizer que a minha relação com a fotografia tem sido uma de amor e desamor permanentes, ambos. E que não me apetece falar dela. Gostaria simplesmente de ser um bocadinho menos como eu e um bocadinho mais como os outros. Lá chegarei, um dia: estaremos todos enterrados e não há maior similitude do que essa.
Suponho.
«Um preto e uma mulher em missão à Lua», leio num sítio qualquer. Não consigo perceber a diferença entre um preto, uma mulher e uma pessoa. Acresce que a citação não é verbatim, claro A modernidade criou a diferença entre pretos e pessoas e apagou a palavra preto do léxico. Não percebo em que é que ficámos melhor. Nós e eles, pretos.
Pastelaria Riviera: aqui não estou no Paris Texas mas sim num filme do Claude Chabrol.
Nesta última travessia tive um problema médico a bordo. Estava a três dias do porto mais próximo. Foi a conjugação do satélite e do telefone (obrigado, Elon) que me permitiu resolver a situação. Resolver é um exagero: hoje sei que a senhora não morreria do que sofria. Mas teria sofrido consideravelmente mais e eu também. Passei um dia a pensar que ia chegar a terra com um cadáver a bordo. Quando soube que não, o alívio foi considerável.
3.4.26
Quinta-feira, clientela
Impromptu ferroviário
Já o resto da viagem decorreu como o previsto, o único imprevisto sendo que o T. T. estava na estação à espera da mulher e deu-me boleia até à rua Direita. Ali, no bar Norte, carreguei o telefone, bebi um par de cervejas, chamei um táxi e esperei mais de meia hora por ele porque Caminha não é Manhattan e o senhor estava não percebi bem aonde e isto não é Manhattan nem nada que se pareça; a chegada a casa também foi como previra e pronto, agora sim, o dia acaba, coisa mais do que prevista: acaba um dia, começa outro, acaba um imprevisto e não tarda haverá outro, eu sei. Ou pelo menos espero, que isto de vidas nos carris não é para mim nem eu para elas, talvez infelizmente, sei lá.
2.4.26
Três efes confusos
Há uma confusão entre forma, fundo e função... Partilham algo mais do que a inicial? O Jaguar E-type é o carro mais bonito jamais feito, mas é o "melhor"? (Aspas porque não sei o que é o melhor automóvel. Nem o pior, de resto. Percebo pouco de automóveis.) E uma cara bonita e inteligente é mais completa do que a mesma mas burra? Qual é a função de uma cara, para além de servir de metonímia neste post? O que é o fundo de uma cara bonita (ditto)? E a função?
É um "textículo" sem fundo, sem forma e sem função, menos engraçado do que a casa sem paredes.
(Cont.)
1.4.26
Diário de Bordos - Vilarelho, Caminha, Alto Minho, Portugal, 01-04-2026
O termómetro do carro diz que estão sete graus centígrados; para a página da meteorologia, estão doze; para mim, está frio. demasiado frio. Desta vez não tive a sorte de principiante da outra e tenho uma dúzia de pessoas à minha frente na fila para o centro de saúde. Cá fora, claro, que isto de esperar num sítio aquecido não é para tesos.
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Na Riviera testo as canetas. Um parágrafo cada. Só uma está vazia.
A seguir à ponte de Cerveira para Espanha, já do lado espanhol, há uma placa a dizer «Bajo Miño». O chão de um homem é o tecto do outro. Até na geografia.
30.3.26
Misturas, pessoas, o que somos e não seríamos, sem elas
Não sei se já vos aconteceu. Provavelmente já. Passarem por um sítio e pensarem "de toute façon on s'en fout. On est pas d'ici. Demain on s'en va." E depois vão-se embora, sim.
Só que o sítio não se vai embora de vocês. Não sai, por assim dizer. Não vos larga. De repente, descobrem que afinal não se estão nas tintas, muito longe disso. O sítio embrenhou-se por vocês adentro e vocês por ele e com o tempo, em vez de se decantarem e separarem, o sítio e vocês ficaram um. O lugar persegue-vos. A luz, uma rua, uma esquina, um café ou um restaurante, uma furtiva troca de olhares no mercado, uma conversa com um desconhecido no autocarro.
Aconteceu-me várias vezes. Poderia fazer uma lista enorme de lugares assim, do menos como Klintholm na Dinamarca - aonde fiquei talvez três dias - a Palma, aonde vivi seis anos, passando por S. Luís, no Maranhão. Tantos outros...
Agora façam um exercício e substituam sítio por mulher (no meu caso. A cada qual as suas preferências). Primeiro: o número reduz-se. Não é uma questão de quantidades relativas. Pouco importa se já passaste por mais mulheres do que lugares ou vice-versa. É que as pessoas (ditto) têm uma maneira diferente de se embrenhar em nós. Cada mulher foi um porto para mim, escrevi um dia para justificar o facto singelo de não ter tido uma mulher em cada porto. Não tive. Mas algumas mulheres foram mais do que um porto para mim. Para começar, porque não o foram: são-no. Ainda são. Serão sempre, enquanto sempre existir. Mas o pior, por assim dizer, é que não o serão para sempre: foram-no desde sempre, desde mesmo antes de as conhecermos, como se estivessem ali à nossa espera e nós tivéssemos nascido para um dia nos acolhermos nelas e elas em nós. Não é caso de se dizer «vivi para te conhecer». É: «vivo porque te conheci e amei e fui amado por ti.» (Tudo isto com os verbos no presente do indicativo: vivo... e amo... e sou...)
Poder-se-ia, claro, aplicar o mesmo dispositivo de raciocínio aos livros e aos seus autores: penso em Borges, em Beckett, em Marguerite Yourcenar, penso na insubstituível poesia de Alejandra Pizarnik, em Conrad ou em Jack London, no fundamental Robert Pirsig. No fundo, é isto que somos? Sim. Não. É isto que trazemos em nós e nos faz: uma mistura de lugares, pessoas e livros.
Destas misturas, o que sobressai não é um porto ou um livro. É uma pessoa. Borges resumiu-o com a sua habitual maestria num poema chamado El enamorado, que termina assim: «Sólo tú eres, tu, mi desventura / y mi ventura, inagotable y pura.»
29.3.26
Diário de Bordos - Vilarelho, Caminha, Alto Minho, 29-03-2026
28.3.26
Mais aspectos menos conhecidos da vida de F.
F., de quem já aqui falámos há várias meias dúzias de meias dúzias de anos, apercebeu-se um dia de que a sua vida era feita de muitos e de nadas, sem nada no meio. Ele cambaleava entre uns e outros e a esses ziguezagues chamava vida. Sendo a pessoa organizada que era e familiarizado com as coisas do mar um dia resolveu que os muitos lhe ficavam por bombordo e os nadas por estibordo. Questão de mnemónica, claro. Poderia ter sido ao contrário. O que é muito é bom, pensou nesse dia. Não precisou de muito mais do que uma dúzia de cambaleios para descobrir que o raciocínio era falacioso mas decidiu mantê-lo, por inércia e preguiça. "São coisas diferentes", pensou, porque era dado à introspecção. A que dava o nome, quiçá errado, de "hermenêutica da vida quotidiana" (aspas porque o cito, apesar de saber que ele, sendo tímido e reservado, detestava ser mencionado). E assim vivia, de braço dado com a vida, apoiado em raciocínios falazes. Trocava de braço, contudo: quando guinava para bombordo apoiava-se no braço esquerdo e no direito quando a vida o levava para o outro bordo.
"Porém, entre o muito e o nada alguma coisa há-de existir, porque se não flutuo no vazio. No espaço. Ora isso não é possível. Não faço parte da banda Spiritualized... e que fizesse. Aquilo é uma canção: Ladies and gentlemen, we are floating in space. Não passa de um conjunto de sons. Com nomes diferentes, é certo: palavras e notas musicais. Nada mais do que isso. Ar a passar através de cordas vocais e de cabos eléctricos. Uma vida não é feita de ar. Mas entre muitos e nadas que tenho eu?"
O dilema, percebe-se facilmente, é difícil: se houver muitos nadas a vida de F. é feita de muitos e de nadas, mas se houver poucos é feita de muitos nadas. F. resolve arquivar a questão no armário "Insónias", o qual, diga-se de passagem, está bastante cheio. É um armário que só se abre à noite. O processo é sempre igual: F. está cheio de sono, vai para a cama, apaga a luz e o sono desaparece. As sinapses que durante o dia não registaram qualquer passagem de neurotransmissores transformam-se em barragens a descarregar excesso de água. O armário "Insónias" abre as portas, incapazes de conter o jorro. Hoje, num desses comboios descontrolados apareceu a banda Spiritualized, como supra se viu. De Floating in space F. vai para a estranha origem desta inicial. O seu nome de baptismo é Fulano de tal, verbatim, apesar da forte oposição da mãe, da funcionária da Conservatória do Registo Civil, do padre que o baptizou e dos padrinhos. Abreviou o nome para a inicial desde que aprendeu o seu significado. Por isso, aliás, é tímido e reservado. Na escola... ah, na escola. F. evita pensar na escola e pára a música que ouve no telefone. Detesta ouvir música nesse aparelho mas à noite na cama não se levanta para pôr o disco, que de qualquer forma não tem, perdido num dos milhares de zigues ou zagues que passaram desde que o comprou, já lá vão alguns decénios. Daqui passa para o magno problema da meia-vida da betahistina, que é de três horas e meia. Bom, isto é estranho.
Cont.