2.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-08-2026
1.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-08-2026
Janto no Mestis, restaurante de que me tenho mantido afastado não sabia bem porquê. O principal impedimento talvez fosse o nome: demasiado perto do meu bem-amado Café Métis, em Genebra; ou porque é demasiado zeitgeist para meu gosto. Não sei. Sei que saí de lá nem vencido nem convencido. Terei de lá voltar, tirar dúvidas. Amanhã, contudo, não será a véspera desse dia. Agora só quando aparecer mais trabalho. Nunca vi nada de errado em trabalhar para comer e não é agora que vou começar. Tanto mais que os dias que aí vêm são de forte contenção.
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Pequeno incidente na cala S'Algar: ia atropelando três nadadores. É um daqueles casos em que a culpa ou não é de ninguém ou é de todos mas apanhei um susto que me pôs o sangue a circular à velocidade de um Fórmula Um na recta final de um percurso. Felizmente não aconteceu nada e as três quase vítimas - que seriam tão culpadas como eu e como o skipper do barco aonde estavam - riram-se e disseram que estava tudo bem. Esta é uma daquelas vezes em que penso nas invectivas que Paulo Pernão faz aos skippers de charter. Numa cala enorme e cheia de espaço para fundear aquele idiota vem fundear mesmo em cima de mim e do barco que estava à minha proa. Quando fui para levantar ferro houve confusão, claro. Bom, um lembrete para mim e uma boa lição para o marinheiro, que estava à proa no ferro e também não viu as pessoas na água. As quais pessoas tinham abandonado o sítio aonde estavam quando isto tudo começou e se dirigiam para a sua embarcação sem ter a precaução de olhar. Não tarda paro de vez com o charter.
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A entidade que gere as instalações da estação Intermodal de Palma aumentou o parque de estacionamento de bicicletas. Continua insuficiente, claro. O que me intriga é porque não multiplicaram logo o número de lugares por três ou quatro. Tenho encontrado lugar, mas à custa de malabarismos para os quais me faltam a agilidade e a paciência.
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Descansar, esperar que a injecção esteja à boa temperatura, relaxar e dormir. Assim de repente parece-me um bom programa. Só falta ver qual as partes que não se concretizam.
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A injecção não estava à boa temperatura. Não é grave: dói um bocadinho mas passa depressa. Tentei ler, mas a luz é horrível e não consigo. As alpergatas velhas vão para o lixo. Com sorte, amanhã terei o meu cinto, que tanta falta me faz. E ainda há quem creia que isto é uma vida monótona?
31.7.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 31-07-2026
Este chauffeur pertence claramente à divisão racing dos TIB - Transportes das Ilhas Baleares, numa tradução à letra - e eu dou graças a Deus. Vamos para Oeste, o Sol já se pôs debaixo de água mas o dia ainda não cedeu o lugar à noite, a autoestrada parece uma tábua de passar a ferro, estou exausto (isto vai tornar-se o meu segundo nome), amanhã tenho mais um dia inteiro de charter, o marinheiro que me saiu na rifa é impecável e a minha grande dúvida agora é: aonde ir jantar? Hesito entre o Piccolo e o Otaku. Aquele é um do melhores italianos de Palma; este, o mesmo mas em japonês. Gyozas ou milanesa? Saké ou vinho tinto? Vou deixar a burra decidir. Ambos são ao lado de casa (o japonês um bocadinho mais porque não é ao lado, é por baixo) e na verdade estou-me nas tintas. O que não for hoje será amanhã.
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A bicicleta optou claramente pelo Otaku. Hesitou ligeiramente quando passámos à frente do francês - ando para o conhecer desde que aqui cheguei, em dois mil e dezoito - mas foi coisa relâmpago. Dois minutos depois estava estacionada à frente das gyozas e do saké e em outros tantos estava eu com dois decilitros e meio do coiso da casa na mão. A burra é esperta. É uma Btwin que saiu excepcionalmente bem. O Ivo chama-lhe "a tua bicicleta" e eu "a minha". No fim da época veremos quem tem razão. Algo me diz que a teremos os dois.
A especialidade do Otaku são os ramen, coisa de que não sou grande fã. Já dos gyozas sou e muito. E do dono disto, também. Admiro o seu sentido do serviço. Este homem desconhece a palavra Não.
Enfim, a verdade é que sou fã de Palma e agora - isto é, depois do miso - só espero que Btwin concorde em levar-me ao Claudio, que não terá uma fila de cem metros. Tanto mais que o Otaku já não tem o gelado de chá verde. E que eu estou ligeiramente grosso e muito menos cansado. O meu almoço foi um cachorro quente no xiringuito da cala Domingos e isso visivelmente não chega, tanto mais que o pequeno-almoço se ficou por um croissant no Pepe.
É preciso reconhecer qualidade ao dito cachorro. Estava ao nível do preço.
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Despacho os meus decilitros de saké e decido que vou ao Claudio, quer a burra queira quer não. Se estiver de bicha logo se verá. Aí, Samurai!
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A fila no Claudio não chegava à Lua mas andava lá perto. Venho ao After Landing beber uma "pila conada" (aspas porque tem direitos de autor). A burra não tugiu nem mugiu. Amanhã vou ao Jazz Voyeur. Diz que está óptimo. Por onde é que andará o Stéphane do Porta 13? Porque é que não há um Procópio (ou um dos seus irmãos) em Palma? Porque é que tenho de me levantar cedo amanhã? Detesto adiar noitadas.
29.7.26
Sedentarização, nomadismo
Sou de três cidades - Lisboa, Genebra e Palma -, digo isto e apercebo-me de que Moçambique está fora da lista e de que estive de passagem por meio mundo. Sorte? Azar? Se tivesse de escolher, escolheria a primeira opção. É uma sorte, por muito maus que sejam os dias. Ou os anos ou o que seja. Viajar não nos torna melhores nem piores. Faz de nós, simplesmente, o que somos: nómadas em busca de sedentarização, sedentários à procura de diferenças.
A cada um a sua Casablanca
Coincidências, netas e livros
Assimetrias
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 29-07-2026
28.7.26
Breve interlúdio sobre a troca de preconceitos musicais
Ando para aqui a dar voltas ao penico e isto não me sai. Uma das razões é o Paco Ibañez que oiço: nada do que escreverei será melhor. Mas esta não é a única e eu pergunto-me se não é melhor contar a história em linha recta. Começa porque uma senhora que muito aprecio ler me recomendou um músico de rap / hip hop. Comecei a ouvi-lo de vez em quando e gosto bastante - pelo menos do que ouvi até agora. Falta-me contudo perceber o que o homem canta (ou declama). O artista chama-se Kendrick Lamar e parece muito mais sofisticado e complexo do que aquilo que normalmente (não) oiço com etiqueta rap ou hip hop. A ouvir vamos, como dizia o surdo.
Isto dito, o post não arranca porque este desafio - é o termo correcto - me fez pensar em todos os a priori musicais que o tempo, pela voz de várias pessoas, me levou a transformar em novos a priori, exercício ao qual me dedico com deleite e não só na área musical, longe disso.
"Não gosto de jazz", dizia até o M. R. me fazer ouvir jazz. "Não consigo perceber o raio da música electrónica. Podes dar-me um nome que seja uma boa porta de entrada?" pergunto já não sei a quem. "Ouve o Swayzak. Vais gostar". Gosto, muito. Já o amor pela música de Hildegarde von Bingen não precisou de nenhuma pirueta mas isso são contas de outros rosários. Ou as Vésperas de Rachmaninoff, ainda de outros.
Derivo. Depois de amanhã vou poder ouvir o dito Lamar e acompanhar as letras. De uma coisa já estou certo: aquilo é uma fusão de música e poesia como não oiço desde o Leonard Cohen (se bem lhe fique a anos-luz. Isso não é critério. Todos lhe ficam a anos-luz).
O meu ziguezague musical parece mais um labirinto no qual de vez em quando se abre um novo caminho, uma nova bifurcação. É preciso trocar de preconceitos como a lagosta muda de carapaça: para crescer.
26.7.26
Diário de Bordos - Portopetro, Mallorca, Baleares, Espanha, 26-07-2026 / II
A noite está fresca e dou graças a Deus. Estamos sem gerador, ou seja: sem ar condicionado. Fui comprar uma bateria nova - as minhas L5 / S1 que me perdoem, mai-la miríade de médicos que me tratou - mas a) não a consegui instalar correctamente, graças à fabulosa imbecilidade (escolho o termo) dos arquitectos do Bali e b) de qualquer forma não creio que o problema viesse dali. Amanhã vem o Manuel, o mecânico cubano que se fosse santo seria o padroeiro dos mecânicos, resolver o problema. E dar à V. mais motivos para se queixar e chatear toda a gente. Coitada: ela está incluída no «toda a gente».
Continuo sem perceber o que vêm as pessoas fazer para estas ilhas em Julho e Agosto e a não perceber as que não vêm nos outros meses.
Diário de Bordos - Portopetro, Mallorca, Baleares, Espanha, 26-07-2026
Que raio de dias estes! Os primeiros três foram porreiros: «cliente» super simpático, só ele e a mulher, pessoas decentes. Cliente vai entre aspas porque é um dos armadores. Depois entrou a outra armadora, marido, filhos e amigos. Ao todo oito pessoas. A mulher (não merece o epíteto de senhora) é insuportável. É daquelas pessoas que tem o poder de parar o tempo: parece que os dias não passam. Já só faltam dois, que a mim parecem mais semainas do que dias. Hoje tive uma folga: mau tempo e conseguimos prolongar a estadia em bóia em Portopetro. Continuamos sem água a bordo mas estranhamente a mulher não reclama demasiado: sabe que a culpa é dela e só dela.
Refugio-me no Rafa (Rafael Y Flora), o «nosso» restaurante aqui. Come-se bem, é mais barato do que o resto da oferta de restauração local e fica no porto (é o restaurante do Reial Club Nàutico Portopetro).
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Uma das famílias desembarcou hoje de manhã. Era a mais simpática, claro. Logo a seguir o ambiente a bordo ficou irrespirável. O raio da mulher envenena a vida a toda a gente, incluindo ela própria. Deve ter lido aquele fantástico livro do Paul Watzlawick Faîtes vous-même votre malheur (The Situation Is Hopeless but Not Serious: The Pursuit of Unhappiness no original) e não entendeu que aquilo não era para seguir à letra.
(Cont.)
20.7.26
Diário de Bordos - Portocolom, Mallorca, Baleares, Espanha, 20-07-2026
Dois russos estão sentados à mesma mesa no restaurante (isto passa-se no tempo da URSS). Um olha para o outro com inveja: come aquela comida russa tradicional, cheia de natas e outras gorduras, bebe vodka.
- Eu também comia assim - diz. Mas o meu médico proibiu-me e agora só posso comer saladas e beber água.
- Oh - responde o outro - o meu também me proíbiu, mas eu dei-lhe duzentos rublos e agora posso comer o que quiser.
Eu paguei muito mais do que duzentos euros e não tenho dores, apesar de trabalhar demais e não fazer os exercícios que devo fazer se não quero ir parar à cama outra vez. Falta-me energia para pensar a longo prazo - isto é, para pensar mais distante do que amanhã de manhã. Não a tenho sequer para me lembrar fo passado próximo.
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Portocolom é um porto detestável, amanhã tenho um monte de coisas a fazer antes da chegada dos clientes e agora vou receber o sono de braços abertos.
19.7.26
Diário de Bordos - Porto Petro, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-07-26
Venho jantar ao Rafael y Flora, o único restaurante que conheço em Porto Petro. Esta frase contém dois exageros: isto não é bem bem um restaurante e eu aposto que se saísse por essa vila fora encontraria outro que conheço. Não sei. Sei que adoro este porque é um restaurante como todos deviam ser - é bom, «barato», amical, familiar, pequeno - e além disso está mesmo à saída da dinghy dock. Gosto deste porto, apesar de não vir cá frequentemente.
O que não me impedirá de encomendar os livros que o Craig cita. A neurologia faz parte daquela mistura.
Outro livro a encomendar é um de Desmond Morris no qual ele fala do «fenómeno futebolístico» (aspas porque cito). A livraria inglesa de Palma vai ter trabalho não tarda.
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O jogo está no fim, provavelmente nos penáltis e as excitação está no máximo. Por mim, bebo o melhor colonel da minha vida. Vale bem os urros dos crentes.
PS - Afinal não estão ainda nos penáltis.
PPS - Esta merda não acaba e um dos jovens senhores sentado numa mesa dentro das minhas áreas de visão e de audição diz que não aguenta mais. Há bocadinho respondeu a uma jovem dizendo que este é um dos piores da vida dele. Intercala insultos - o jogo está a ser jogado por uma mistura de filhos da puta e imbecis, quanto a ele - com conselhos que os jogadores infelizmente não ouvem. Se ouvissem, o jogo já teria acabado, com uma vitória incontestável da Espanha, claro.
17.7.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 17-07-2026
Já tive anos assim, começaram mal e mal continuaram. Este ainda vai a meio. Talvez melhore. Até agora tem sido uma sequência de desastres que só estes dois dias em Palma atenuaram. Lembram-se da via crucis? Tem catorze estações. Nos inícios do DV eu usava a expressão via dolorosa ironicamente. Agora hesito: estarei a chamar o diabo? No sentido literal, a minha via do sofrimento ainda não chegou a catorze pontos; no sentido irónico também não mas foi simplesmente por falta de tempo. Espero bem que uma prossiga e a outra pare aonde está. Quatro meses sem trabalhar, um problema na coluna e um encalhe chegam. Peço à organização que deixe de me perseguir com tanta obstinação. Juro que expiarei os meus erros ou aquilo que fiz nas vidas passadas e me trouxe aqui.
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Via dolorosa: hoje comi uma paella sublime no Celler de Sa Premsa e agora bebo um palos sifonado no La Llotja. Em contrapartida, de manhã acordei com um indescritível pesadelo. Tudo se equilibra, nesta vida? Espero bem que sim. Até agora a balança pende muito para o lado errado.
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Gosto deste café. Não venho cá muitas vezes porque a) está no meio da zona turística e b) é muito frequentado pelos yachties (sobretudo a malta mais graduada. Os deckies, chummies, third stews e quejandos não vêm aqui. Desculpa M., estes termos não têm tradução e mesmo que tivessem). É demasiado bonito para essa malta. Eu virei mais vezes, agora que sei que têm palos, apesar de a marca não ser a minha favorita. Nada tenho contra os preconceitos mas sou absolutamente contra a sua (deles) persistência. É preciso renovar regular - ou irregularmente, tanto faz - as ideias pré-concebidas. Substituí-las por novas, que um dia serão ideias feitas, também. Gosto deste chão, axadrezado branco e preto, destas cadeiras mais do que clássicas, das madeiras, da simpatia do empregado. Sempre gostei, só que agora gosto mais.
Há uma coisa chamada aliança terapêutica entre um psicólogo e o paciente. Deve haver um equivalente entre um bar e o seu cliente. Não sei é como hei-de chamar-lhe.
ADENDA
Palo no La Llotja nunca mais. Sete euros! No Cliff custam três e são melhores. Ainda bem que não bebi dois.
PS - Ou seja: aliança? Nem terapêutica nem outra qualquer. A minha relação com este bar vai continuar meio platónica, um relação à distância, por assim dizer.
Refugio-me no Jaume, aonde sou recebido com o amor de sempre. "Ainda ontem disse à ... que este ano ainda não te tínhamos visto", acompanhado de um abraço e um sorriso nada maiorquino. Esta cidade ama-me, nada a fazer. E eu retribuo, claro.
PPS - Palma tour.
O Jaume está cheio e só tem mesa para meia hora. Passo por acaso à frente do Minyones, que está aberto por causa de um casamento mas não quero comer um llonguet. Bebo um gin tonic porque o Joan insistiu. Pergunto-me aonde vou jantar? E uma questão importante para quem não come muito mas não quer ir para a cama de barriga vazia. Começo por pensar no bar Flexas mas a ideia é instantaneamente substituída pelo Moltabarra. Por muito cheio que esteja tem sempre lugar para mais um, os pinxos estão de novo correctos, o vermute da casa é decente e nada disto é caro. Naturalmente, poderia acrescentar que as miúdas são giras. Seria falacioso: elas são-no "partout, everywhere", em todo o lado. Olha só para a loira na café ao lado do Minyones, "pernas até às orelhas", oitenta e cinco por cento à vista, tudo o resto coberto por um vestido azul celeste. Homem! No Moltabarra não são tão sofisticadas. Isto é um sítio para locais. O jantar custou-me nove euros e há poucas pernas mas a verdade é que gosto deste sítio e o Ca na Seu fechou e e e... Meus caros leitores, venham a Palma. É uma cidade de deuses para deuses mas aceita aprendizes.
PPPS - Afinal o meu jantar foi um bocadinho mais caro. Fui buscar mais um pinxo e mais um vermute. Tenho de encher os calções, que sem cinto insistem em cair.
Uma senhora que percebe muito de roupas disse-me um dia que os calções Napapijri caem sempre bem. Os meus só caem quando eu não quero. Ou seja: quando me esqueço do cinto. Desapertá-lo? Nada.
16.7.26
As duas faces da noite
Agarro-me à noite como a uma bóia de salvação e nela mergulho como se quisesse afogar-me.
Diário de Bordos - Palma, Maiorca, Baleares, Espanha, 16-07-2026
Desta vez, na eterna batalha entre a vida e o cansaço ganhou a vida. Vim ao 7 Machos. Não foi uma goleada, para adaptar a linguagem da época: à última da hora troquei a margarita por cerveja Modelo e comi os tacos de garfo e faca. Relembro que são os melhores tacos a leste da Florida e melhores do que muitos que comi naquela península. Os do México não entram, estão fora-de-jogo. A cidade está uma merda, cheia de argentinos aos gritos mas o bar não está tão cheio como temia.
Há uma explicação para a troca do cocktail por cerveja Modelo que nem muito fria está? Talvez. Mas a verdade é que vim o caminho todo no avião a tentar resolver o dilema e finalmente, no último minuto, troquei o pedido.
O segundo Pastor também foi de talheres. Há que dar uma chance ao cansaço e ao pólo, que só tem (tinha) uma pequeníssima marca da passagem do tempo no aeroporto de Ibiza. Agora tem mais duas ou três, igualmente pequenas. Se os tivesse comido à mão... não sei. Teria sido necessário alugar a lavandaria, suponho.
A música do 7 Machos mudou. Agora tem rock em vez dos merengues e salsas de antanho. A televisão também: está a dar boxe (é outro combate mas não sei identificar qual), a única coisa de que gosto ainda menos do que de futebol. Mas a casa e o ruído são os mesmos, a recepção também e apetece-me celebrar a vitória da vida com um mezcal. Vou resistir, acabar a cerveja, pagar, apanhar um táxi para casa, deitar-me e dizer ao cansaço: empataste, pá.
PS - Afinal o marido da Liina convidou-me para um mezcal e como toda a gente sabe é mal-educado recusar um convite destes.
PPS - Foram dois mezcais. Chama-se Guia del Alma e se há coisa de que a minha alma (ou ego) necessitam é de um guia decente.
PPPS - À hora da despedida apareceu outro. Há porém detalhes que de tão irrelevantes não passam de pormenores. A cena grande foi composta por dois tacos pastor, duas cervejas Modelo e três mezcal tudo isto por um preço de fazer chorar um holandês casado com uma escocesa e com um filho judeu.
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Cont.:
"Quando tiveres uma decisão importante a tomar discute-a primeiro com a almofada", dizia-me a avó F. Foi o que fiz. Este ano não tem sido simpático comigo e a decisão que a noite me sugeriu confirma essa tendência. Há que ser paciente e não ceder aos instintos básicos. Mas lá que dói, dói.
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Vim às Niñas comer o pequeno-almoço. Enquanto houver Palma há vida. Vinha cá muito quando estava com a T. e depois deixei de vir com tanta frequência. Agora descobri que abrem cedo. É um local óptimo para ver Palma despertar. A IA que agora substitui o google quando procuro alguma coisa diz-me que a tortilla continua "uma das melhores de Palma". Ya veremos. (Também me disse o nome das irmãs mas não o fixei.)
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Hoje vou ao Ivo alugar uma burra, ao mercado e ao supermercado comprar uns básicos e à 5 à Sec deixar roupa. É como aquelas amizades de que dizemos "Parece que continuamos a conversa como a deixámos".
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(Cont.)
Chego ao Ivo e depois das efusões pergunto-lhe se tem uma bicicleta para mim, por um dia.
- Sim, tenho a tua.
Trata-se de uma Btwin que por uma razão qualquer e anormal saiu bem e que ele se recusa a vender-me.