17.9.20

Auto-citações da «gripe»

 «Isto é tudo muito bonito e tal até que o corpo se lembra de que sem ele a festa fica incompleta e hoje me pespegou uma gripe de caixão à cama.»

«A doença vira um gajo do avesso. As costuras belas e regulares mostram a sua natureza interior e parecem-se com cicatrizes mal tratadas; as costuras das bainhas, até ali invisíveis, ficam a ver-se (e não são nada bonitas); e por aí fora: a tosse é de tal forma que se não tenho cuidado qualquer dia apanho os pulmões no céu da boca, a hiper-sensibilidade faz-me pensar que dormir em cima de lixa deve ser mais agradável do que nos lençóis. Nada apetece - nem estar deitado, nem sentado, nem de pé. »

«As mulheres gozam com a nossa reacção às gripes porque elas não as têm. As mulheres têm gripinhas, gripes cor-de-rosa e não esta mistura de gripe e peste bubónica que nos aflige.»

«A S. chegou e com ela os remédios: spray nasal, muitos comprimidos, supositório, tudo. Ela queria ser veterinária mas a meio resolveu mudar para psicologia. Comigo pode praticar as duas disciplinas. Tentei reclamar com o supositório - não sou contorcionista nem artista de cabaret - mas não serviu de nada.»

(Conjunto de excertos de posts escritos quando tive aquilo que na altura era conhecido por gripe e hoje seria, provavelmente, Covid-19. Fevereiro de 2020.)

Marta

Quando o doutor chegou à nossa aldeia estava a manhã quase no fim. 

 - Obrigado e até à próxima -  (ao motorista).


 Desceu e dirigiu-se imediatamente ao mercado, do outro lado da aldeia. 

- Boa tarde - (à miúda que vendia tremoços, conhecida por «a tremoceira»).

- Bom dia - respondeu a outra, espigada de feitio. - Ainda não é meio-dia.
- Está quase.

- Quase é uma palavra que engana muito.

- Obrigado. Tem tremoço de barrela?

- Isso é coisa do norte e vossemecê está no sul, homem. Não acerta nem na hora nem no lugar.

- Não é bem do norte, é mais do centro.

- Seja de onde for, não tenho. Quer alguma coisa ou só fazer-me perder tempo?

A tremoceira era conhecida na aldeia e nenhum dos ouvintes estranhou. Salvaguardava-a o facto de ser bonita e ter os melhores tremoços da região. Vinham pessoas de longe para lhos comprar. (Muitos só para a ver e lhe cantar a canção do bandido, mas a esses despachava-os ela em menos tempo do que leva a trincar e deitar fora uma casca.)

- Se quiser, eu ensino-a a fazer tremoços de barrela.

A rapariga hesitou. Não era todos os dias que alguém lhe respondia como se não a tivesse ouvido. 

- Obrigada, não preciso. Ensine-me antes coisas que eu não saiba. - Tinha uma reputação a defender.

O doutor era duas vezes mais velho do que ela mas parecia três. Conservador excêntrico, gostava de desestabilizar os interlocutores, mantendo sempre uma educação e uma cordialidade inatacáveis. O seu maior gozo, contudo, era encontrar alguém que não se deixava enredar. Percebia tanto de tremoços de barrela como eu de astropaleontologia. Era um indivíduo alto, magro, cabelos brancos impecavelmente aparados, óculos sem  aros, roupa de qualidade no género «falso desleixado». Tudo nele era falso excepto ele próprio. 

(Isto pede uma clarificação: o que havia de falso no doutor - o bom doutor, como ficou conhecido na aldeia - era o que dava a ver. Não havia qualquer correspondência entre o que mostrava - «exportava», dizia - e o que dele não se via. Em tempos tivera um carro, um 2Cv que transformara de forma a acolher um motor quatro vezes mais potente do que o original. A transformação fora perfeita, de fora nada se via. Só o mecânico que a fizera a conhecia - e tinha-o avisado: isso não vai durar muito tempo. Durou dois anos, talvez três. O bom doutor não era dado a precisões numéricas. Já as palavras o entusiasmavam.)


- Se você - dirigiu-se à tremoceira por você durante alguns anos, apesar de tratar toda a gente por tu e pedir reciprocidade - se enganar num número o erro é total, já viu? Se escrever 908 em vez de 1908 é possível que ninguém se aperceba do erro. Pode ser que nunca o encontre. - Olhou-a de frente e beijou-a levemente na testa. - Mas se disser «múnero» ou «númaro» em vez de "número" toda a gente percebe.   

- Me troço - respondeu a miúda. 

- Tremo, só. 

- Te, moço?

- Tremo, seira, eira, beira, leira. 

A tremoceira não percebia metade das palavras que ele lhe dizia, mas sabia duas coisas: estava apaixonada por ele e ele por ela. São duas coisas diferentes, isso sabia de experiência. O bom doutor todos os dias a acompanhava ao mercado e todos os dias a ia buscar. No intervalo, «escrevia livros». 

- Mas que escreves tu? Porque não posso ler o que escreves? 

- Um dia a menina lerá. 

- Estúpido. Trata-me por tu! - A rapariga não tinha perdido a sua truculência. Domesticara-a, quando muito.

- Mas alguma vez não te tuteei?

Os diálogos eram sempre curtos. Ela tinha de digerir novos vocábulos e ele um amor que se renovava cada vez que falava com ela. Era uma mulher orgulhosa e não se envergonhava da sua ignorância. Usava-o como um trampolim.

- Ensinar é a coisa que fazes melhor, a seguir a foder-me. 

- O terceiro lugar vai para quê?

 

Chama-se Marta embora o doutor, velho cinéfilo, me tivesse pedido Laura.

 

Marta olha o bom doutor nos olhos. Estão na casa que ele comprou poucos meses depois de chegar à aldeia. É um edifício grande, de esquina, com dois pisos, um terraço,  um jardim grande. As portadas são azuis, as paredes brancas. Estão no jardim, o dia acaba e como sempre no Verão da planície o calor não se vai embora. Desliga-se, simplesmente. A aldeia é no sul do país, esteve muito tempo sob domínio árabe e o jardim – que provavelmente não existia nesse tempo - parece lembrá-lo. Marta tem trinta e poucos anos, não tem cultura para perceber porque gosta tanto disto, mas gosta e tem inteligência suficiente para saber que é melhor aproveitar a vasta sabedoria do doutor. Sobretudo, o seu gosto em ensinar. Sobretudo, o seu amor por ela.

          Com a ajuda dele, o negócio dos tremoços prosperou. Marta e a mãe dirigem agora uma pequena equipa que os tempera, envasa e expede para vários pontos do país. Comprou-lhe um carro para ela poder contactar novos clientes dava-lhe um conselho aqui e ali, se via que precisava. Se não, deixava-a aprender sozinha. O bom doutor baseava a sua pedagogia no método de «ensinar a ver» e não no de «forçar a ver». Aspas porque o cito.

          Quando chegara à aldeia não tinha a menor intenção de se apaixonar fosse por quem fosse. Uma pequena herança dera-lhe a possibilidade de se reformar antecipadamente do seu trabalho de professor de literatura francesa numa universidade da capital. Era apreciado pelos seus pares, que lhe agradeciam a falta de ambição e não se apercebiam de quão indiferentes lhe eram. A mulher deixara-o havia alguns anos, provavelmente devido a essa mesma falta. Era uma senhora de boas famílias. Quando se separou comprou-lhe metade da casa, dinheiro que ele pôs a recato. Era um homem frugal. Alugou um apartamento pequeno, ia comer todos os dias à tasca da esquina, pagava correctamente uma senhora que lhe fazia a limpeza da casa uma vez por semana e a outra que também uma vez por semana (mas em dias diferentes) ia lá dormir, «para não perder de todo a prática», explicou um dia a uma colega que lhe perguntou como lidava com a solidão. A mulher nunca mais lhe dirigiu a palavra para além de «bom dia» e «boa tarde», o que o satisfez pois era esse o objectivo. Sabia que poucas semanas depois a universidade inteira pensaria que organizava orgias em sua casa todos os dias, mas isso deixava-o indiferente. (A bem da senhora, devo dizer que o bom doutor se enganava: não disse a ninguém, receando que alguém lhe perguntasse como é que sabia. E porque não era o género dela, verdade seja dita.) Não gastou o dinheiro da casa todo em livros, mas ao princípio esforçou-se bastante. Comprava livros a torto e a direito. A certa altura parou, porque já não tinha sito para os guardar. O apartamento era pequeno e num quarto andar, o que não ajudava. Decidiu só comprar um livro depois de ter acabado o que estava a ler. Posteriormente, lembrou-se de que tinha centenas de volumes não lidos e deixou de comprar livros novos. Lia simplesmente os que tinha. «Mesmo assim, precisarei de duas vidas para os ler todos», disse um dia à tremoceira, que nunca tinha visto tantos livros juntos na vida, exceptuando as visitas que com a escola fizera a uma biblioteca da capital do distrito.

- Então para que os queres?

- Para me lembrar de tudo o que não sei.

- Para isso, basta-te olhar para mim.

- Bastar-te-ia olhar para mim, minha querida. Usa o condicional.

 

Passava-lhe as mãos pelos cabelos, pelos seios, pelas pernas. Bebiam um vermute no jardim, os pássaros gritavam uns aos outros para definir a posse de um território ou para impressionar as fêmeas, a brisa fazia as folhas mexerem-se devagar. Era mais tremer do que mexer. Marta tinha olhos verdes e uma basta cabeleira negra. Parecia fazer parte do cenário.

- A primeira noite que dormi contigo, alguém foi dizer à minha mãe. Um velho cá da aldeia, chamávamos-lhe Manuel da Arrifana porque no Verão ele ia trabalhar para lá. A minha mãe zangou-se comigo. Disse-me que podias ser meu pai e eu respondi-lhe que sim, claro: nasceste no mesmo ano do que ela. Têm a mesma idade. A certa altura perguntei-lhe se estava com ciúmes. Não me bateu por um triz. Talvez não te lembres, mas mudei-me para cá muito depressa. Já não conseguia ouvi-la. Nunca te falei nisto porque estou capaz de apostar que já o sabes. Ou pelo menos sentiste-o. E depois, no trabalho continuávamos a entender-nos bem, ela e eu. Era só nisto da vida contigo que nos desentendíamos.

O bom doutor não disse a Marta que tinha tido uma conversa com a mãe dela. Não dizia muitas coisas, fiel a uma máxima de Camus que o perseguia desde a adolescência: «Um homem é mais homem pelo que cala do que pelo que diz.» Explicara gentilmente à senhora que também ele estava surpreendido, que nunca mais pensara apaixonar-se e muito menos por uma miúda com metade da idade dele. Não disse que de qualquer forma não tinha muito tempo de vida, que aqueles meses com Marta tinham sido um bónus, uma gratificação inesperada. Retirara-se para aquela aldeia para escrever e morrer, não para amar e viver.

 

Marta e o doutor estão no jardim. Acaricia-a levemente, como o vento as folhas das árvores. Foi naquela casa que passaram o confinamento. Coabitavam havia três anos e aqueles meses tinham-lhe feito ver os limites de «coabitar»: um habituado a estar sozinho, outra que se realizava no contacto com a clientela. Nunca gostara de relações simbióticas e aquela convivência forçada custara-lhe mais do que conseguia admitir; para ela, também não fora fácil: passar os dias com uma só pessoa, ademais sempre a mesma, ia contra o âmago do que era.

Antes de morrer, o doutor queria casar-se com Marta e perguntava-se se devia falar-lhe nisso agora que o amor deles tinha sido sacudido daquela forma. Ter-lhe-ia o terremoto atingido os alicerces? Viviam juntos havia três anos, talvez três e meio. O livro estava pronto. Tinha sido aceite por uma editora, revisto e paginado. Faltava o título e escolher um pseudónimo: não queria que as pessoas da aldeia soubessem que tinha sido ele a escrever aquilo a que injustamente chamava «uma longa jeremiada». Durante o confinamento não fora ao médico e o cancro que lhe roía os intestinos não parara. Perguntava-se também se lhe devia dizer que ia morrer. Sabia que para ela o confinamento também tinha sido difícil, que os negócios tinham retomado mas não muito, que tinha saído daquela prova magoada. Casar-se era um acto egoísta ou, pelo contrário, ajudá-la-ia nos trâmites de heranças, etc.? O testamento estava feito e era simples: «Deixo tudo o que tenho e os eventuais proveitos futuros à senhora Marta Barbosa, etc.» Tinha sido visto por um advogado, segundo o qual casar-se não alteraria muito as coisas. Quando muito, simplificá-las-ia. O doutor lembrou-se do que sempre pensara sobre o casamento: é um acto social, nada tem de pessoal. «Caso-me perante os outros ou perante Deus. Para mim, estou casado com Marta desde a primeira vez que a vi. Não preciso de papéis.»

Resolveu dizer-lhe metade.

- Marta, quero casar-me contigo. Aceitas-me?

- Sim.

 

Morreu três meses depois da cerimónia, sem saber que Marta tinha deixado de tomar contraceptivos e ia ser pai. Passou o último mês morfinado, deitado numa cama a definhar sem se aperceber de nada do que o rodeava. O livro foi publicado, teve um sucesso de estima e caiu no esquecimento. O miúdo chamou-se Henrique, como o pai, mas na aldeia ficou conhecido por «o filho do doutor». Era igual ao progenitor que nunca vira: alto, magro, ensimesmado, delicado e pouco dado às aparências (ou muito, consoante o ponto de vista: nada do que mostrava de si era verdade). De Marta, só sei que o negócio continuou a prosperar e que se reconciliou totalmente com a mãe. Ignoro se voltou a casar-se: uma vez esta história terminada perdi o contacto com ela. O livro chamou-se «Amar até ao fim», título escolhido pelo editor e de que o doutor não gostou, mas já não teve forças para contestar. Nunca chegou a escolher um pseudónimo e a obra apareceu com o seu nome.

16.9.20

Diário de Bordos - Lisboa, 16-09-2020

Lisboa, de «cidade branca» - apodo tolo - a «cidade triste» (injusto). 

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Nesta coisa em que Lisboa se transformou e na qual não é fácil reconhecer-me, sobrevivem ilhotas, oásis, pontos de beleza, cabeços de amarração. O Tambarina é um deles. Quando chego está desoladoramente vazio (menos qundo saio). É-me doloroso vê-lo assim. Mas o Domingos é o mesmo, a cachupa não sei porque ainda não chegou (é).

- Ando longe, Domingos - digo-lhe.

- Não faz mal. Longe ou perto estamos aqui.

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Gosto de Lisboa aos pontos, como antigamente tínhamos os hurricane holes, portos (normalmente, golfos) nos quais nos devíamos refugiar em caso de ciclone. Ainda hoje os temos.

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Máscaras e palermas em todo o lado. Por muito que saiba que não há relação de causalidade entre eles, que não pertencem juntos, they don't belong together, à força de os ver juntos é difícil distingui-los.

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O nó do problema, como sempre, está em mim: convivi tanto tempo com esta gente afável, polida, hospitaleira que hoje se mascara, põe gel nas mãos de cinco em cinco minutos e não hesita em denunciar quem não usa máscara? Comprava e lia estes jornais que hoje se revelam infames? Esta gente adorável não passa de um bando de cobardolas e bufos? (Mas isso já sabias, estúpido.)

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Tantas mamas tão jovens e tão bonitas por essa cidade. A sorte que têm os meus compadres mais novos. Posso estar enganado, mas enquanto a humanidade produzir mamas assim, nada mudará radicalmente. Não há feminismo nem correcção política nem ambientalismo, animalismo, wokismo que resista a um par de mamas bem feitas num par de mãos bem treinadas. Ou ansiosas, se souberem controlar-se e pensar que é para as mamas e respectivas donas que trabalham, não para si e respectivos donos.

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Esta Lisboa na qual não quero viver... Não é que queira viver no campo, não é isso. Quero mudar-me para outro mundo.  

Gazeta Rural VI - OS LUGARES QUE DEIXAMOS

          Pensamos muitas vezes nas cidades que já visitámos, nos países onde estivemos, naqueles aonde gostaríamos de ir. Mas quantas vezes nos lembramos dos lugares que tivemos de abandonar, voluntária ou involuntariamente? (Sim, há «ter de» voluntário: uma vez estava na Horta, na Pousada. Era o meu aniversário, tinha ido jantar com uma senhora fotógrafa e bailarina – isto é uma combinação que não se inventa – americana de ascendência açoriana, o que explica a sua presença no Faial. Não seria justo dizer que era minha namorada – tínhamos iniciado uma relação afectiva uns dias antes, semana, talvez duas – mas tão-pouco era aventura de passagem. Depois do jantar – num dos restaurantes chiques da Horta, não me lembro o nome – fomos para a Pousada. Como provavelmente sabem dá directamente para a marina. A senhora era muito bonita, morena e musculada, inteligente e culta. Às duas da manhã eu ainda não tinha adormecido, ela sim. Dormia ao meu lado, solta e feliz, os longos cabelos negros espalhados pela almofada, o ventre e as pernas musculadas da bailarina à vista, a dizerem-me: «Não me deixes.» Às duas e meia da manhã decidi que tinha de me ir embora. Vesti-me, ela acordou, expliquei-lhe que ia para Lisboa e se ela quisesse vir era bem-vinda a bordo porque ia fazer a viagem sozinho. Hesitou um pouco, disse «Não vou», combinámos encontrar-nos em Lisboa e vim-me embora. Creio que este é o melhor exemplo, se bem não seja o único, de uma pessoa querer ir-se embora porque tem de ir-se embora. «Os teus cabelos, o teu amor, o teu ventre, as tuas pernas de bailarina são um repto demasiado forte para a minha fraqueza. Vou-me embora e quando nos reencontrarmos em Lisboa estaremos em igualdade.»)

          De que sítios saí, ao longo da minha vida? Saí de Quelimane e de Lourenço Marques, sem querer. De Nakhodka, idem. De Caracas, querendo. Detestei aquele país, hoje vejo que injustamente. De Lisboa. La Chaux-de-Fonds, duas ou três vezes. Aveiro, onde acabara de passar um ano. Zurique... Que horror! Ainda não estou em metade da minha vida e já deixei metade de meio mundo. Passei a vida a deixar lugares, pessoas, vidas. Viajar, muito mais do que chegar a qualquer lado é largar desse lugar, seja ao fim de quatro meses seja depois de mil sonhos. Como quando larguei dos Açores pela última vez, desta vez de avião, parecia que deixava para trás uma tonelada de basalto que trazia agarrada às costas. O meu barco chegou depois, chamava-se Don Vivo e ficou arrestado na marina de Vilamoura por causa de um polícia marítimo maldoso. Havia muitos, nesses longínquos anos oitenta. 

De onde é que já saí? De Maputo, mas ainda é cedo para pensar nisso. De Bocas del Toro – larguei, voltei a entrar, voltei a largar e ainda hoje penso no Palmar Tent Lodge onde ia todos os dias ao fim da tarde beber um rum punch e ver o mar numa das praias mais bonitas que me foi dado ver. (Não sou grande apreciador de praia, por isso dizer que aquela praia está ao nível da de Salines, na Martinique ou das do Parque Nacional Manuel António, na Costa Rica, ou daquela onde ia nas Filipinas, não recordo o nome, é dizer muito.)

          Deixei Genebra aos bocadinhos, levei quase dois anos a mudar-me para Cascais – daqui a dias estarei ali de novo, o que me leva a pensar no que é «deixar um sítio», partir. Alguma vez partimos, verdadeiramente? Onde é que ia, antes deste desvio todo? Zurique. Nunca mais ali voltei. Morava na Niederdorf, no centro do centro. O apartamento ficava por cima de uma boutique da moda, que não tinha cabines para as senhoras mudarem de roupa. Quando saía para ir trabalhar – trabalhava nas limpezas, para um refugiado político checoslovaco que só não me surpreendeu porque já tinha estado na Rússia Soviética. O homem conhecia o conceito de exploração até ao fundo e levava-o a sério -  via as senhoras na boutique a mudar de roupa no meio da loja, visão abençoada naquele tempo em que ninguém usava soutien. Limpava bancos (literal, não metaforicamente). Um dos que limpava tinha uma quantidade que me parecia ilimitada de obras do Christo e ali me familiarizei com as obras deste artista. 

          Outra cidade que deixei várias vezes e nunca deixei foi S. Luís do Maranhão, onde ainda hoje um bocadinho de mim se passeia pelas ruas e ao fim da tarde vai beber uma cerveja ao Mercado do Peixe, ver o decote da Jeny e trocar com ela sorrisos de entendido: «Este decote serve para vender cervejas», diz-me. «Eu sei, Jeny». Falávamos sem trocar uma só palavra. (Não sei de onde vem este gosto pelo entendimento tácito. Suponho que seja a noção de pertença a um grupo. Esta grande fraternidade de pessoas que não se conhecem, mas conhecem as mesmas coisas, viveram as mesmas situações, passaram pelo mesmo e sabem que hoje sou eu e amanhã és tu e depois de amanhã será outro e é para isso que estamos cá.)

          Deixei Antigua, aonde espero nunca mais voltar; Bequia, onde quero voltar para morrer. Deixei St. Martin, ilha mágica porque mistura tudo o que as outras são. Deixei Jost van Dyke vezes de mais porque ali se  bebe o melhor cocktail do mundo – chama-se Painkiller e é o único cocktail que conheço cujo nome corresponde à realidade. Deixei Bitter End, fim amargo de tudo o que de bom aquelas ilhas têm. Deixei o Burundi, vencedor vencido e o Zaire, vencido mas revoltado. Deixei Kindu, uma evacuação como aquelas que se vêem nos filmes, soldados armados por todo o lado, o avião a parar para me deixar entrar, uma mãe a ter de escolher qual dos filhos a acompanharia na fuga.

As partidas marcam mais do que as chegadas, com a possível excepção de Bequia (pronuncia-se Béqüei) porque ali mal cheguei e pela segunda vez na vida vi o lugar onde quero morrer (o primeiro é praticamente inacessível. Chama-se península de Burton e fica na margem oeste do lago Tanganica. Não se pode querer morrer num lugar ao qual não se pode voltar). A Bequia quero voltar, todos os marinheiros querem. Richard Dey escreveu as coisas mais bonitas que há sobre esta ilha. Não tenho o livro comigo, mas é de lá que vem aquele verso que não me deixa: «I know them. I am one of them.»

          Já deixei mais sítios do que aqueles a que cheguei: a matemática das viagens não é algébrica, é alquímica.

 (Para o R. A., com um abraço.)         

15.9.20

Libertação, músicas

Comparada com a música medieval, a renascentista é tão mais leve. Não há que admirar: O homem libertou-se de Deus.

Ou ao contrário, vá saber-se.

12.9.20

Negacionismos

A bipolarização da sociedade que vivemos reflectiu-se, naturalmente, nesta crise. Há dois campos, bem distintos: para uns, isto foi uma histeria colectiva que desaguou num gigantesco embuste, um virus é um processo natural mitigável mas não eliminável; outros pensam que a histeria não o foi, que é justificada, que as "medidas" foram e são necessárias, que o combate ao vírus é como uma batalha na guerra que termina com a morte do inimigo. 

Curiosamente, ambos são designados pelo mesmo termo: negacionistas. Uns porque negam o embuste, o lado oposto porque nega a evidência.

11.9.20

Poemas para Rute

Se assim me deito em ti sem ti aqui, imagina como me deitaria em ti se aqui estivesses. Ah!!! Que festa seria, tu aqui e eu ao lado, tu ali e eu a ver-te, tu deitada e eu também.

Absurdo?

Pensar que há conspirações, interesses obscuros, objectivos terroristas por detrás disto tudo é simplesmente um sintoma da incapacidade de muita gente em lidar com o absurdo. Nem todos leram Camus a tempo. Histeria, incompetência, desvario, falta de sentido de Estado, sacudir a água do capote, mentira, cobardia, demência? Humano, demasiado humano. Absurdo para quem pensa que o humano pode ser outra coisa. Nao pode.

10.9.20

Notas

A irracionalidade devasta-me não por si-própria mas porque está invariavelmente - ou pelo menos na maioria das vezes - associada à maldade.

A estupidez é maldosa. O estúpido bom não é estúpido; é tolo, o que é diferente.

9.9.20

Tempo, aldeias

Em nenhum lugar do mundo o ridículo da modernidade é mais exposto do que numa aldeia pequena. Numa cidade grande dilui-se, há muitas tribos. Numa aldeia, um carrapito pequeno e de mau gosto transforma-se num farol grotesco, uma saia demasiado à la mode uma marca de desfazamento, uma tatuagem demasiado visível sintoma de deslocalização. De certa forma é uma injustiça, claro: por algum lado há-de o tempo chegar ao campo. Só é pena é que a sua ponta-de-lança seja o ridículo.

Espelhos

Das coisas que não sendo foram ou serão, das que foram não são e nunca mais serão, das outras, resta-me a lembrança da tua pele, dos teus olhos, das tuas mãos, do teu ventre. As coisas que não sendo são matéria de memória, olfacto das noites, alimento de amanhã. "Ya todo está" . "Solo una cosa no hay: es el olvido". "Os reflexos do teu rosto no espelho". Tu em mim. Não há espelho que reflicta isto: os espelhos não têm tempo.

Tempo é coisa da vida, coisa de sábio sofrido (passa-me o pleonasmo, passas?) Um dia inventarei um espelho ao retardador, só para ti. E pôr-me-ei nele como me ponho em ti: todos os dias, todas as memórias, para sempre.

O que não sei

Nunca sei por onde começar a escrever: o mundo ou eu? O exterior ou o interior? Tu na praia dali ou eu na praia de mim? Onde acabo e começa o resto? Da esponja vê-se onde acaba e começa, é fácil, tem cores. Eu não. O mundo entra por mim e eu por ele, como este copo de vinho que agora bebo e é tanto eu como eu sou ele, ou este disco da Nico, Desertshore, que entra por mim e pela noite de Mértola. 

My only child

...

Man and wife are feasting the time
The time that lies behind
At home in sweetness and delight
Drinking the bitter wine

Their hands are old
Their faces cold
Their bodies close to freezing
Their feelings find

...

Afraid

Cease to know or to tell
Or to see or to be your own
Cease to know or to tell
Or to see or to be your own
Have someone else's will as your own
Have someone else's will as your own

....

All that is my own

Your winding winds stood so 
All that is my own 
Where land and water meet 
Where on my soul I sit upon my bed 
Your ways have led me to bleed 

Não sei. Digo «não sei» muitas vezes, eu sei. Não é um bordão: a verdade é que não sei a maior parte das coisas, por muito que queira escrever sobre elas. 

Antes escrever sobre aquilo que não sei: tudo. Eu e o resto.

8.9.20

Da repetabilidade da história

Daqui a mil anos, a nossa reacção ao vírus vai ser vista como hoje olhamos para as práticas da Idade Média. 

(Não serão mil anos. Aposto que cem chegarão. O tempo acelerou.)

7.9.20

Praia

Não fazer nada é uma actividade que nunca me atraiu. Canso-me depressa de não ter nada que fazer. Porém, acabo de passar alguns dias no Porto com a missão clara e específica de ficar quieto - os mais realistas dir-me-ão que isso é fazer alguma coisa - e consegui. Aqui em Mértola a missão é diferente, mas envolve também uma grande dose de inactividade. A ver como me saio. A julgar pelo primeiro dia não vai ser muito fácil. Estou a sessenta quilómetros do mar, o que é simultaneamente muito e pouco. 

Quero ir à praia.

Escrever rios

A escrita deve ser límpida, cristalina, sem vírgulas a mais nem pontuação exagerada. Pontos e vírgulas são como meandros de um rio de planície: impedem-te de lhe seguir o curso. Escreve clara e linearmente, como um rio de montanha. Se tiveres alguma coisa a dizer ver-se-á imediatamente, no primeiro lago a seguir à primeira cascata. Se não,  perder-te-ás num areal qualquer, sem força para chegares ao mar.

Ode a Rute

Tenho ainda calosas as mãos, mulher. Mas não é de cabos, é da vida. Falta-lhes a tua pele e sem ela não há pele que resista. 

Doze mil

Doze mil posts no DV. Efeméride: doze mil disparates celebram-se. Com Balanches tinto e medronho. Assim ganhamos peso ao mesmo tempo, o blogue e eu.

Pecados mortais

Venho almoçar ao Tamuje. Sopa de tomate. Está sublime, claro, inútil é dizê-lo, mas não consigo acabá-la, fica mais de metade. 

Decidi que vou parar de engordar à custa da comida. Agora, só o vinho e o medronho me farão ganhar peso. O que sobra vai para casa: deitar fora comida desta é pecado mortal.

Reedição - À ròla do mar

O texto é recente - 26.02.18 - mas pede reedição. Aqui vai. 


"Marinheiro sem eira nem beira é pleonasmo e rima pobre, pecado a dobrar. Não há casa que queira pecados destes, lastro duplo, adornados até às portas de mar, retrancas a roçar as cristas e vergas desvairadas, de antes desarvorar que rizar, pistola na mão "dou um tiro ao primeiro filho da puta que tocar numa escota". 

Se morressem morreriam pobres, os marinheiros. Pobres e podres, que o sal conserva, mas mal: Seca e Meca percorridas o que lhes fica nas entranhas é a liberdade, que da merda livram-se toda e a liberdade corrói, a liberdade é uma prisão da qual só morto escapas e como não morres nem assim de pés para diante dela sairás. Os marinheiros não morrem: transformam-se em vagas que um dia nas praias desfalecem, montadas por putos em pranchas de surf, a olhar-lhes para as miúdas que os esperam nas areias e a pensar nos albatrozes que viram ao largo do Boa Esperança ou do Horn, nos bordéis onde foram fodidos como putos num ginásio de Atenas, eles que durante um milésimo de segundo pensaram ser os reis do mar, do vento e dos corpos, dos ventres, seres nem vivos nem mortos.

Os marinheiros não morrem: entregam-se um dia em que a pistola do capitão não tenha balas e mais valha folgar do que andar à ròla do mar."

Notas:
"Dou um tiro, etc.": durante a mais célebre das regatas entre clippers (CUTTY SARK vs. THERMOPYLAE) o capitão do Cutty vinha para a ponte, pistola na mão, para impedir os marinheiros de folgar pano.

Retrancas e vergas: peças da mastreação, onde envergam as velas (panos).

Folgar (pano): aumentar o ângulo que uma vela faz com o vento. É a primeira etapa para diminuir o adornar (inclinação) de uma embarcação de vela. A seguinte é  rizar (diminuir a área de pano exposta ao vento).

Escotas: cabos que controlam o ângulo que as velas fazem com o vento, uma das afinações fundamentais para a velocidade do navio. 

«É tão longe pedir»

O poema chama-se Mendiga Voz e vem a propósito, ainda que por vias travessas, de uma conversa que tive hoje com a minha irmã R.. É de Alejandra Pizarnik e dou-o aqui na versão traduzida por Alberto Augusto Miranda. Vem numa pequena antologia da editora O Correio dos Navios, nome que por si só me faria gostar da obra. Felizmente há mais: as traduções são óptimas (o traditore não inventa) e a selecção de poemas também - tendo presente que a antologia é verdadeiramente curta.

«E ainda me atrevo a amar
O som da luz numa hora morta
A cor do tempo num muro abandonado.

No meu olhar perdi tudo.
É tão longe pedir. Tão perto saber que não há.
»

6.9.20

Cannery Row

Por muito romântico que pareça, por muito apelativo que seja para jovens em busca de alma ou aprendizes de monge em busca do desapego, não ter dinheiro é uma chatice. Complica tudo - mais do que a falta de jeito, a inabilidade fatal ou a falta de um ouvido. O menor e mais banal dos actos vê-se comprometido, exige o triplo do tempo e o quádruplo do trabalho, esmifra a paciência do pobre e de quem o rodeia.

Pobre? Só em Cannery Row e de vez em quando.

Até amanhã

O périplo pelo Norte acabou. Em termos de vendas de livros não foi propriamente brilhante. Vai ser preciso mudar da estratégia. Contudo, em muitas outras coisas foi maravilhoso: descansei. Descansei física e mentalmente. A dor na anca atenuou-se bastante e a cabeça parece o quarto de um adolescente depois de a mãe lá ter passado: ainda cheia, mas pelo menos com cada coisa no seu lugar. Esperam-me uma dúzia de dias em Mértola: aposto que o quarto vai ficar vazio. Revi Guimarães, cidade exemplar porque está recuperada e não é uma caixa de bonbons, como Óbidos, exemplo. Nada naquele centro histórico enjoa. Conheci pessoas que gostei de conhecer, pessoas em que vejo aquilo que nós portugueses temos de bom, em quem me revejo: a hospitalidade, a abertura de espírito, a tolerância, a generosidade. Vi os meus textos fugirem da caixa, lidos por uma sublime leitora (acresce que a selecção foi estupenda). Confirmei que as amizades aparecem e crescem onde menos se espera.

Confirmei, sobretudo, aquilo de que há muito suspeito: a minha vida é a minha melhor obra de arte, não a trocaria por nenhuma outra, é uma obra que não cabe num museu e que, quando eu morrer, continuará nos livros, no DV, na memória de quem me conheceu. Os momentos de sofrimento por que passei - tantos! - equilibram-se muito bem com os de exaltação - ditto - e agora, que a obra se aproxima do fim, entrou na recta final, tudo se equilibra, tudo cai no sítio e mostra a sua intrínseca claridade, a sua indomável liberdade. 

Dei este nome ao blogue para homenagear um dos barcos de que mais gostei - e porque não quis perder muito tempo à procura, verdade seja dita. Vejo agora que só o trocaria por outro, muito parecido: Dona Vida.

Estou cansado, mas é um cansaço límpido, honesto, daqueles que se resolvem com uma boa noite de sono. Que venham muitos assim. Até amanhã.