Já tive anos assim, começaram mal e mal continuaram. Este ainda vai a meio. Talvez melhore. Até agora tem sido uma sequência de desastres que só estes dois dias em Palma atenuaram. Lembram-se da via crucis? Tem catorze estações. Nos inícios do DV eu usava a expressão via dolorosa ironicamente. Agora hesito: estarei a chamar o diabo? No sentido literal, a minha via do sofrimento ainda não chegou a catorze pontos; no sentido irónico também não mas foi simplesmente por falta de tempo. Espero bem que uma prossiga e a outra pare aonde está. Quatro meses sem trabalhar, um problema na coluna e um encalhe chegam. Peço à organização que deixe de me perseguir com tanta obstinação. Juro que expiarei os meus erros ou aquilo que fiz nas vidas passadas e me trouxe aqui.
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Via dolorosa: hoje comi uma paella sublime no Celler de Sa Premsa e agora bebo um palos sifonado no La Llotja. Em contrapartida, de manhã acordei com um indescritível pesadelo. Tudo se equilibra, nesta vida? Espero bem que sim. Até agora a balança pende muito para o lado errado.
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Gosto deste café. Não venho cá muitas vezes porque a) está no meio da zona turística e b) é muito frequentado pelos yachties (sobretudo a malta mais graduada. Os deckies, chummies, third stews e quejandos não vêm aqui. Desculpa M., estes termos não têm tradução e mesmo que tivessem). É demasiado bonito para essa malta. Eu virei mais vezes, agora que sei que têm palos, apesar de a marca não ser a minha favorita. Nada tenho contra os preconceitos mas sou absolutamente contra a sua (deles) persistência. É preciso renovar regular - ou irregularmente, tanto faz - as ideias pré-concebidas. Substituí-las por novas, que um dia serão ideias feitas, também. Gosto deste chão, axadrezado branco e preto, destas cadeiras mais do que clássicas, das madeiras, da simpatia do empregado. Sempre gostei, só que agora gosto mais.
Há uma coisa chamada aliança terapêutica entre um psicólogo e o paciente. Deve haver um equivalente entre um bar e o seu cliente. Não sei é como hei-de chamar-lhe.
ADENDA
Palo no La Llotja nunca mais. Sete euros! No Cliff custam três e são melhores. Ainda bem que não bebi dois.
PS - Ou seja: aliança? Nem terapêutica nem outra qualquer. A minha relação com este bar vai continuar meio platónica, um relação à distância, por assim dizer.
Refugio-me no Jaume, aonde sou recebido com o amor de sempre. "Ainda ontem disse à ... que este ano ainda não te tínhamos visto", acompanhado de um abraço e um sorriso nada maiorquino. Esta cidade ama-me, nada a fazer. E eu retribuo, claro.
PPS - Palma tour.
O Jaume está cheio e só tem mesa para meia hora. Passo por acaso à frente do Minyones, que está aberto por causa de um casamento mas não quero comer um llonguet. Bebo um gin tonic porque o Joan insistiu. Pergunto-me aonde vou jantar? E uma questão importante para quem não come muito mas não quer ir para a cama de barriga vazia. Começo por pensar no bar Flexas mas a ideia é instantaneamente substituída pelo Moltabarra. Por muito cheio que esteja tem sempre lugar para mais um, os pinxos estão de novo correctos, o vermute da casa é decente e nada disto é caro. Naturalmente, poderia acrescentar que as miúdas são giras. Seria falacioso: elas são-no "partout, everywhere", em todo o lado. Olha só para a loira na café ao lado do Minyones, "pernas até às orelhas", oitenta e cinco por cento à vista, tudo o resto coberto por um vestido azul celeste. Homem! No Moltabarra não são tão sofisticadas. Isto é um sítio para locais. O jantar custou-me nove euros e há poucas pernas mas a verdade é que gosto deste sítio e o Ca na Seu fechou e e e... Meus caros leitores, venham a Palma. É uma cidade de deuses para deuses. Ou aprendizes de deuses.
PPPS - Afinal o meu jantar foi um bocadinho mais caro. Fui buscar mais um pinxo e mais um vermute. Tenho de encher os calções, que sem cinto insistem em cair.
Uma senhora que percebe muito de roupas disse-me um dia que os calções Napajiri caem sempre bem. Os meus só caem quando eu não quero. Ou seja: quando me esqueço do cinto. Desapertá-lo? Nada.