As minhas vagueações de ontem acabaram da melhor forma possível: jantar em casa da J., que é sempre uma adorável mistura de boa comida, boa cozinha, boas conversas e bons mexericos. J. conhece o mundo literário português de perto, muito perto e eu delicio-me, claro.
Hoje - agradável simetria - começam da melhor forma: fui buscar a Coluer ao Fernando, uma loja de bicicletas em Alvalade que recomendo urbi et orbi (Fernando é o nome do dono. A loja chama-se Airaf. Fica ao lado do mercado de Alvalade) e daqui a pouco, depois desta pausa bloguística no Luanda, outro dos meus refúgios de antanho, almoço com o V. Tudo isto enquanto discuto dois trabalhos, um dos quais me interessa muito e outro menos. Não há fome que não dê em fartura.
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Desço a Almirante Reis depois de um almoço com o V. e encho-me de alegria. Vasos comunicantes. Sou cosmopolita, sou daqui e dali e de mais além. Não é o cosmopolitanismo que queremos? A pele é mais escura e os olhos menos azuis? Paciência. Ninguém manda ao sapateiro tocar rabecão. Temos os imigrantes que já fomos.
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Quel bonheur! Lisboa é um consolo. Daqui a um mês cá estarei, querida. Agora esperam-nos cinco horas de comboio. Morar na fronteira tem muitas vantagens. Mesmo podendo chamar Lisboa a uma das minhas casas.
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A viagem no comboio começa mal: não há lugares em primeira classe e caio do tamborete quando aquilo arranca. Já não há lugares nas mesas.
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No comboio.
Atravesso este pais que é o meu e pergunto-me "o que é meu, neste país?"
Nada, claro. Não me refiro a bens tangíveis. Refiro-me ao resto. Que tenho eu deste país? A língua. A história. A memória. A língua é tudo. Memórias e história partilho-as de boa vontade.
Este permanente debate entre a nacionalidade e o cosmopolitanismo aproxima-se do fim da maneira mais estranha: agora tenho uma casa e sei que ela é minha e não eu dela. (A casa é alugada, mas isso é outra história.)
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O comboio desfila pela paisagem, sem que se tenha de carregar no acelerador ou falar com o vizinho. Em contrapartida, não se pode cantar «Senhor chauffeur, por favor, ponha o pé no acelerador.»
(Cont.)