Chegada a Sevilha. A única coisa que tinha para fazer era ir à loja do meu chapéu favorito, que por sorte é daqui, saber como fazer para o limpar e ver outros modelos, sobretudo agora que o Inverno está à porta e preciso de um chapéu porque os quinze que tenho não são suficientes, toda a gente sabe. Saio do Blablacar que me trouxe - uma viagem tranquila, prefiro de longe ser conduzido por mulheres que conduzem bem a sê-lo por bons condutores masculinos - e vou directamente para um táxi. Dou à senhora a morada da loja, sabendo que está fechada, tenho uma hora de espera mas o que não falta nesta cidade também maravilhosa são waterholes aonde esperar é um prazer e não uma seca.
Arrancamos e a taxista diz-me que aquela rua é pedonal e que se eu quero que ela me deixe no sítio mais perto terá que ir dar uma "volta turística", aspas porque cito. Em contrapartida, deixa-me a "trinta metros" (ditto) e a corrida será mais barata e mais rápida.
A loja - Fernández y Roche, para quem quiser dar um salto ao Google - estava efectivamente fechada, os trinta metros eram cinquenta (ou pouco mais) e o café que primeiro me acolheu chama-se Vinoque, fez-me descobrir um vermute que não conhecia (Misterio, de Huelva) e ia fechar dali a pouco.
Resumamos: o café Lobo-Lopez é lindo apesar de uma "obra" de Vihls que não acrescenta nada senão uma furiosa vontade de a cancelar (isto é iŕónico, se por acaso), faz um salmorejo superlativo, tapa de secretos idem, sobremesa ibidem e eu pergunto-me como é possível não ter nascido aqui? E em Málaga, não quero cenas de ciúmes. E em Cartagena? E em Palma? E em tantos outros lados?
Por que raio de carga de água nasci na língua portuguesa, uma das duas coisas que me liga a Portugal - a outra sendo este "povo de merdosos" e cobardolas, que tem defeitos, é certo, mas é hospitaleiro, generoso e tolerante e essas qualidades compensam largamente aqueles defeitos porque com elas convivo directa e quotidianamente e com os defeitos só através dos jornais?
Confesso que trocaria os amáveis portugueses pelos façanhudos maiorquinos ou pelos hipócritas suíços. Já a língua não a troco por nenhuma, com a possível excepção do francês e mesmo assim teria de o reaprender (isto é batota. Escrevia bem francês até dar a corrigir os textos. Depois, era um erro por parágrafo, no mínimo).
Atardo-me no Lobo López: o espaço é acolhedor e bonito (apesar da tal obra, repito. Depois digam que não sou tolerante e aberto e tudo), a música nada agressiva ao contrário do calor lá fora e estou sozinho, sem hordas de turistas ou de brasileiros com cães, isto é uma bênção, uma dádiva, um sacramento. Não sei como ir para o aeroporto, se de táxi se de autocarro. Meia-hora contra uma hora. Quanto vale o meu tempo? Nada. E o meu conforto? E não ter de andar vinte minutos até à Plaza de Armas? E se o autocarro está cheio, como de costume e tenho de ir de pé? Andar não seria um grande sacrifício, aliás era uma das coisas que queria fazer. Porém, este calor dissolve todas as vontades que impliquem não estar numa sala com ar condicionado.
........
Conversa séria, franca e substantiva com a carteira. Decidi que íamos de autocarro para o aeroporto. Enfim, eu não decidi nada. Quem decidiu foi ela. Aplica-se às carteiras aquele velho dito francês: "o que mulher quer Deus quer". Fiz bem. Mais meia-hora na cidade teria feito menos diferença do que a diferença de preços. Acresce que o autocarro está quase vazio, pelo que tenho lugar sentado.
Além de que prefiro aplicar essa massa no táxi para casa, em Palma.
........
PS - O avião está atrasado meia-hora. Carteiras e mulheres têm sempre razão.