30.6.21

Espera, desespera

A esperança é uma droga; mas o desespero é outra, provavelmente pior.

Esperando

Enquanto "as coisas" mais ou menos nos esperam e nós nos esperamos, esperando valentemente sem desesperar, meu amor, uma vida nos espera. Dormir-te ao lado esperando que não acordes com os meus desacordos, esperando que acordes com os meus acordos, esperando-te estendida ao lado, esperando que esperes comigo e comigo não desesperes. 

A vida que espere, se quiser. Nós, não. 

29.6.21

Cancros, lutas

Como tenho bastantes probabilidades genéticas de um dia ter um cancro, pergunto-me muitas vezes como reagiria - como reagirei - se ou quando isso me acontecer. Só há duas alternativas: lutar ou não lutar. A minha propensão é para não "lutar" (aspas porque me apetece), mas toda a gente sabe que esse é o tipo de decisões que não se faz in abstracto. Só perante elas saberemos como reagiremos.

A verdade, porém, é que tenho uma amostra: o P. é um cancro que me rói o interior do corpo, o interior dos dias e das noites. E Deus sabe quanto luto - contra ele e contra a vontade de parar de lutar. Como um cancro, é muito mais do que a doença; e invade tudo. De repente dou por mim a lutar contra uma força dentro e outra fora, as duas atacando por vezes coordenada outras separadamente. Não me passa pela cabeça abandonar? Passa. Todas as horas, todos os minutos de todos os dias. Mas não o farei, pela simples razão de que não posso. "Não poder" tendo aqui um sentido simultaneamente metafísico e telúrico, como as forças que me atacam, vindas de dentro e de fora: não se pode abandonar uma luta contra algo que é mais forte do que nós. É como ceder a um ciclone: tu não cedes, ele é que ganha. Mas lutas até ao fim, porque não o deixas ganhar sem lutar. É como se só se pudesse perder contra iguais ou inferiores. Contra o que está acima, nem pensar em abandonar a luta. Questão de honra: perder  contra um igual é azar; acontece a qualquer. Não lutar contra um ciclone é cobardia. Não tem nome. (Isto é um bocado romanceado. Lutar contra um ciclone consiste sobretudo em fechar-se dentro do barco e esperar que ele não se parta. Curiosamente, essa espera está isenta de medo, daí a analogia: não tenho medo de ti, P. Tenho medo de te abandonar, isso sim: vergonhoso. Desonroso.)

Ou seja: se um dia tiver um cancro, sei como - muito provavelmente - reagirei.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 29-06-2021

Por muito que reclame contra as máscara, devo dizer - a Verdade, maldita Verdade, com V grande e um a aberto como as portas do Vaticano nos dias de missa obriga-me a dizer - que tenho sorte: raramente a uso. Os ciclistas estão dispensados, pouco entro em lojas e supermercados (tão pouco que já nem me zango quando ma mandam subir, o que de resto acontece cada vez menos) e vou sempre aos mesmos restaurantes, dos quais os donos ou empregados conhecem de ginjeira a minha opinião sobre a coisa. Quando um dia se descobrir que tudo isto não passa de um gigantesco episódio de histeria colectiva, poderei ouvir que fui um dos que escapou à pressão do grupo. Já o digo hoje, mas ouvido tem outra graça.

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O dia foi demasiado comprido para o que me apetece - ou posso - fazer. Venho para o Divino beber rum com sumo de laranja fresco, laranjas da ilha, soberbas. A música está uma merda mas não tenho coragem e menos ainda energia para lhes pedir que a mudem. 

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E como o P. me persegue mesmo pela noite dentro, paro aqui. Amanhã também é dia. Acabo de ouvir a melhor conferência sobre a Covid que ouvi até hoje. A minha vida parece feita de P. e C-19. Felizmente apareceu uma flor para lhe dar sentido.

28.6.21

Parada, ao meu lado

Se por acaso: palavras no horizonte. Uma muralha de palavras no horizonte. Não sei se são palavras ou nomes. Rita, Tatiana. Helena. Suzanne. Ilse. Ana. Christine. Forma-se no horizonte uma nuvem carregada, cheia de nomes. Cristina. Viktoria. Rosa. Não digam a ninguém, mas esta nuvem não sabe como se chama. Hesita entre Vida e Memória e nenhum desses nomes lhe agrada. Aisha. Tschombé. Sou um milk shake de nomes, de catedrais, vitrais iluminados por um sol que mais ninguém vê se não eu. O presente é uma ilusão. Os budistas tinham razão até chegarmos a Auschwitz e agora, que já por lá passámos todos, estrela amarela ao peito, pijama às riscas. Nomes. Nuvens. Horizontes. Bar Rita. Onde estás, Rita? Onde estou? «Inabilidade fatal», chamou-lhe o outro, antes de ir vender armas para a Etiópia (não tenho nada contra a venda de armas nem contra a Etiópia. Tenho contra esta muralha de nomes). Tenho contra esta avassaladora falta de ti, pareces uma avalanche feita ausência. Rosa, flor, amor, todas as palavras rimam contigo e eu pergunto-me Como é isso possível? e respondo logo de seguida És o vocabulário todo. Palavras. Horizonte. Nuvens negras carregadas de chuva: nimbus. Que importa - temos chapéus de chuva, não temos? Temo-nos um ao outro. Temo-nos ao mundo, às praias, ao tempo. Uma longa praia no horizonte. Cores: amarelo, azul, azul. Nós. Horizonte sem nuvens, como se a vida fosse isso: nós na praia, nós no café da praia, nós no quarto, nós no tempo, nós. É. Nós: somos uma imagem do tempo, uma imagem espelhada do tempo.

Pode tocar-se o tempo ao saxofone, ao piano, à bateria, ao clarinete baixo, como agora faz Eric Dolphy. Onde estás, Rita? Onde estás, Rosa? Christine? Helena? Sandra? Ana? Tatiana? Porque estais tão longe? Como posso ser feliz contigo, Rosa, tão longe? Como posso ser feliz com esta vida tão leve, tão pesada, tão perto e tão longínqua? Tão distante? Sinto-me como se vivesse ao lado da vida, parado na faixa de emergência da auto-estrada, com os automóveis a passar por mim a toda a velocidade, rumo à praia com as nuvens. 

Amar-te é saber-te parada ao meu lado, para sempre.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 28-06-2021

Se por acaso alguém doravante me ouvir dizer mal dos maiorquinos, por favor pense que não passam de ejaculações precoces. Nesta ilha, tudo o que dure menos de três anos é uma coisa dessas. Escrevo estas linhas no bar Rita, o primeiro maiorquino que me acolheu, devido sem dúvida a um acaso da gravidade. Hoje tive outro encontro com um senhor chamado Miguel Luis. Não há coincidências, pois não? Sim, há. O homem é advogado para o Estado, teve a simpatia de me dizer que contra gestorias vou ter dificuldades em encontrar um advogado e tudo o resto foi informação útil: que os maiorquinos também eram piratas, por exemplo. Muito gostaria eu de saber quem não o era, no Mediterrâneo, mas isso ele não me disse (tão pouco lho perguntei). A verdade é: passei um momento delicioso no Myniones, assumi o compromisso de lá voltar amanhã, estou meio grosso, vim ao bar Rita na esperança de aqui encontrar um advogado ou uma indicação para um. Um refit destes não estaria completo sem o recurso à advocacia, pois não? Não.

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Abençoada ilha: basta conhecê-la para gostar dela e conhecemo-la num ápice. Em três anos começamos a entrevê-la. Uma sombra, uma hipótese, uma aproximação. Suponho que mais três anos e começarei a entendê-la, vagamente. 

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Vou escrever postais. Pelo menos escrevendo à mão ninguém percebe o que escrevi, o que é uma sorte.

Vertigens

Se eu um dia morrer - é pouco provável, mas nunca se sabe - espero vivamente que alguns dos dias que vivi tenham a mesma função encantantória que a canção de Mercedes Sosa (creio) chamada Gracias a la vida. 

Não é só a la vida que tenho de agradecer, é certo. É também à S., a minha ex-mulher e presente amiga, mãe dos meus filhos e fonte de tudo o que um homem procura numa mulher; à R., mulher que não o sabe mas é de sempre e para sempre; à H. que me fez descobrir o amor e quem sou; à T., que me provocou a mais longa e profunda depressão de que fui vítima - não há melhor nem mais eficaz espelho -; ao ACNUR, que me fez viver o ano mais intenso, em todos os sentidos, da minha vida; e agora a M., que me confiou o projecto mais complexo, mais fodido (passe a expressão, não tenho outra equivalente na aljava), mais torcido, mais tudo o que há de menos linear da minha vida de mar. Parece os «resumo da matéria dada» da minha adolescência. O M. R. fez-me ver e viver tudo o que a amizade tem de bom e de mau e é bom saber que aquele é muito mais do que este. A J. M. V. fez-me publicar um livro: também a ela lhe devo muito. Muito mais do que o livro, de resto.

Se eu morrer - é pouco provável, eu sei - posso dizer obrigado aos meus filhos T. e H., ao meu P., tão reticente, a uma quantidade enorme de pessoas, coisas e situações. Posso, sobretudo, dizer obrigado à vida que não só me acolheu, mas recebeu de braços e coração abertos.

Deve ser disto que a vida de um homem é feita: Everestes e fossas das Marianas uns a seguir aos outros, montanhas russas vertiginosas, vertigens. 

Asneira, pobreza

A propensão para a asneira e a pobreza alimentam-se mutuamente, numa espécie de círculo vicioso, retroalimentado: a asneira alimenta a pobreza e esta a asneira. 

(Isto não é universal: no século XIX a Suíça era um país paupérrimo, por exemplo. Hoje não é. Infelizmente, aplica-se a Portugal. Ou melhor: ajuda a explicá-lo.)

Diário de Bordos - Estellencs, Deià, Soller, Mallorca, Baleares, 26 e 27-06-2021

A «praia» ficou silenciosa e transparente como a água. Preparo-me para a longa subida até quase à aldeia. «Estupidamente», deixei o carro lá em cima, pensando que a cala estaria cheia a abarrotar. Não estava. Andar faz bem, fiz um excelente teste à minha anca direita e vou fazer um esforço, o que sempre é melhor do que sentar-me estupidamente - sem aspas - ao volante de uma poltrona motorizada. (Isto é irónico. O carro está uma porcaria sem fim.)

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Não sou de turismos, não gosto de praia. Hoje o dia foi duplamente contraditório: vim a uma praia "a sério" (isto é, daquelas que têm areia) e estou a fazer turismo. Bem sei que pouca gente concordaria com este tipo de turismo, mas é o meu e se não fosse terem ligado a maldita televisão - ainda por cima em alemão e a passar futebol - até nem me poderia queixar. Os cafés não deviam ter televisões, mas a tê-las deviam distribuir aquelas coisas que dão nos museus para se ouvir os guias.

Soller é um porto bonito. Venho cá muitas vezes com clientes, sozinho... até já vim com namoradas, situação à qual o lugar se adequa, com o seu aspecto de ninho romântico aberto a folias. Contudo, esta conjunção de televisão, futebol e holandeses estraga tudo. Consegui uma mesa longe da besta, ao menos isso.

É a primeira vez que passo tanto tempo aqui sozinho. A julgar pelo leque etário - vai dos carrinhos de bebés às cadeiras de rodas - isto deve ser uma estância «todas as idades», ou «familiares», ou seja lá o nome que os técnicos lhe dão. Gosto desta mistura, parece uma cidade normal, em vez daqueles sítios aonde um tipo chega e só vê hooligans de trinta anos a beber e hooliganas da mesma idade a tentarem ser levadas para a cama rapidamente, se possível antes de os homens disponíveis estarem todos bêbedos.

O lugar está calmo, mas não vazio. Estamos em Junho e de Covid. Penso perguntar à jovem empregada, uma alemã jovem, gira e com uma expressão inteligente espalhada por toda a cara mas acabo por não o fazer: um casal de franceses ao meu lado mete conversa comigo a dali a pouco está a pedir-me conselhos sobre sítios a visitar na ilha. Acedo com gosto, a pergunta sobre a ocupação fica relegada e venho-me embora a pensar que lhes devia ter sugerido visitarem Deià e Valldemossa. Paciência, fica para a próxima.

De vez em quando - raramente - passa um idiota mascarado. Normalmente são jovens e mulheres. às vezes tenho um lampejo, a sombra de um impulso e penso em gritar-lhes «la masquerilla», como me gritavam a mim quando era obrigatória na rua (e ainda gritam nas lojas, se bem cada vez menos).

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Ser livre pode não ter um grande poder atractivo em termos de quantidade, mas em qualidade tem de certeza.

27.6.21

Texto para a Luso Magyar News de hoje

 UM DIA NA PRAIA


Consegui o prodígio de ficar com as duas canetas vazias. Prodígio é ironia, claro. Acontece frequentemente. Acresce que não estão vazias, estão só quase vazias. Ainda dão para escrever o princípio desta crónica, no «individual» (?) de papel branquinho como se fosse o verso de qualquer coisa. É o verso do menu. Os restaurantes não podem levar menus à mesa e suponho que isto seja uma forma de iludir a norma. Espero que sim. Fui à casa de banho lavar uma das canetas e fiquei com os dedos todos borrados. Escrever com canetas de tinta permanente é um duplo prazer: escrevo melhor do que com esferográficas e penso no menino Nicolas, que me fazia chorar de rir quando era puto. Há todo um capítulo dedicado às canetas de tinta permanente mas eu só me lembro dos pontos principais, um dos quais era justamente o orgulho nos dedos todos sujos. Não tiro particular orgulho nisso - efeito da idade, sem dúvida - mas lembro-me com prazer do Nicolas. Na verdade não tiro sentimento nenhum. Nada. Zero. É a simples constatação de um facto, passe o galicismo (ao fim destes anos todos já devia ter direito à cidadania plena. Não há por aí um partido de meninos amigos dos estrangeirismos disposto a dar uma vista de olhos a isto?) Uma vez tive uma caneta que se sujava toda no avião, a depressão da cabine fazia-a abandonar-se. Quando chegava a terra já sabia que a primeira coisa a fazer era lavá-la. Mas essa perdeu-se, também. Perco-as todas, com uma regularidade assustadora. Vá lá que estas duas se têm mantido comigo. A que mais lamento foi uma Parker que fico no fundo de Falmouth Bay, em Antigua. Era do meu Pai. Ainda penso nela muitas vezes, da estupidez que me levou a perdê-la. Enfim. Como dizem os franceses: passons.

Escrevo estas linhas na cala Estellencs, uma das minhas favoritas na Tramuntana, se bem escolher uma favorita nesta serra deva ser tão difícil como para um júri de misses escolher a mais bonita. Gosto desta porque é pequena, no chiringuito não se come mal, é linda (todas são) e sobretudo porque me enche de paz. É como ir a uma estação de serviço pôr gasóleo no carro mas em vez de combustível tem-se paz. Fiz algumas fotografias, a ver se passam a rampa. Já não vinha para estas bandas há muito tempo, não sei sequer se no ano passado aqui vim. («Aqui» sendo a Tramuntana, não especificamente Estellencs.) No carro vinha a pensar no que diria se alguém me perguntasse «Quais os cinco lugares mais bonitos que conheces?» 

– Açores – responderia –, a cadeia montanhosa do Jura, a metade norte do lago Tanganyika e a Tramuntana –, deixando o quinto lugar aberto para qualquer sítio que ainda venha a conhecer. Só espero é que não me peçam para pôr ordem nisto ou me perguntem porquê: dos quatro, três são montanhas recentes e um (o Jura) é senhora velha e com os agrestes resolvidos. Suponho que tem a ver com a paz, de que Estellencs é um epítome. O epítome por excelência, acrescento, sabendo perfeitamente que digo isto agora porque não estou em Sa Calobra, Deiá ou outra cala qualquer desta costa. Se estivesse, o epítome seria outro.  Toda a Tramuntana, de Sant Elm a Formentor é fonte de paz e beleza, ponto. Deixemo-nos de epítomes.

Estou com o corpo às bandas porque não apanho sol por inteiro. Até nos pés tenho a marca dos sapatos. Não estou no meu elemento e a pele vinga-se, fica como a de uma zebra. Não penso muitas vezes no lado estético da minha profissão. Quando vivia sem Verões nem Invernos a cor não era propriamente um tema de reflexão: tinha uma banda clara na cintura e era tudo. Servia para me lembrar de quão pálido sou, sem trabalho. Agora trabalho (isto é um eufemismo) e mesmo assim estou às bandas, como a passagem de peões dos Beatles. Só que em vez de serem músicos a passarem-me por cima é o mundo todo. Enfim, a parte do mundo que trata do PANDA, vá.

Raio do bote parece um percurso hípico (evito o «épico», seria fácil de mais). Ontem perguntava-me se os cavalos também acreditam a cada salto que será o último e depois aparece-lhes sempre mais um e – perguntava-me eu – que pensa o cavalo a cada obstáculo inesperado (para ele) que lhe aparece à frente? Uma coisa não faz: revoltar-se e deitar abaixo o cavaleiro. Na volta escava-se o tema e descobre-se que no fundo no fundo o cavalo até gosta. Deve extrair um prazer perverso naquilo, como os ciclistas que sobem às montanhas ou os marinheiros que vão ao cabo Horn. Espera: eu quero ir ao cabo Horn. Vamos falar de outra coisa?

Vamos. Por exemplo, da diferença entre ter vontade e precisar. Querer e precisar. Tenho vontade de voltar aqui? Não exactamente. Preciso, o que é muito diferente, Como preciso de muitas outras coisas: comer, beber, pensar na minha R., flor do mundo, navegar na Patagónia (e de caminho no Horn). E assim em diante, sem fim. Como os obstáculos no PANDA. Raio do bote existe para me pôr à prova, para me testar, para ver como sou nas margens.

Vamos falar de outra coisa? Vamos. A tarde avança, a cala esvazia-se, o vento cai, o rum dura cada vez mais tempo no copo. Volto à água. É uma pena estar aqui e não gostar de nadar. A temperatura da água está no limite do aceitável, de modo a estadia é breve. Cinquenta metros para um lado, cinquenta para o outro, lembrar-me de esticar as pernas, não levantar demais a cabeça (crawl), alternar as pernadas com as braçadas (bruços), pôr-me a boiar de costas e tentar não me lembrar o calvário que eram as aulas de natação, pensar na sorte que é ver bem sem óculos, pensar que vou ter de subir isto tudo a pé – a próxima vez vou a Sa Foradada, se é para andar uma hora a pé... Resumindo: receita para fazer uma paz – passar uma tarde a escrever em Cala Estellencs. Tudo o resto é acessório. E Sa Foradada só vale a pena de barco.

No regresso trouxe uma miúda. Estava na estrada para a praia, perguntou-me o caminho, explicou-me que tinha a camioneta para Palma dali a oito minutos. Já de si a pergunta era estranha: o caminho desce para a cala e sobe para a aldeia. Não há muito por onde se enganar. Disse-lhe isso mesmo: bastava subir; e que em oito minutos não estaria lá em cima nem a correr. Disse-me que não, que tinha ido ter a uma casa privada, o que também não é de estranhar: não há casas públicas por ali e desatou a correr. Apanhei-a um pouco acima, sentada. «Perdi a camioneta», explicou-me. Retorqui-lhe que se quisesse a levava, ia para Palma e aqui começou um dos episódios mais estranhos dos últimos tempos. A rapariga estava transida de medo e eu cansado de mais para lho aliviar. A certa altura pergunta-me «se és de Palma, o que estás aqui a fazer?»

– O que é que tu tens a ver com a minha vida? 

Pouco depois:

– Falas muito bem inglês. Onde aprendeste?

Isto, ainda não chegáramos ao carro. Respondi-lhe uma vez mais que não eram contas do seu rosário. A minha Mãe nasceu em 1930 e fez a Europa toda à boleia. Eu nasci em 1957 e fiz metade da Europa à boleia. Esta idiota estava com medo de ir de Estellencs até Palma. Foi a viagem toda transida de terror. À chegada a Palma enganei-me numa saída da auto-estrada, tive de voltar atrás e a rapariga ainda me chateou, pensou que estava a raptá-la, suponho. Não abrira a boca durante a viagem, excepto para me dizer que sim, continuava comigo até Palma, quando passámos pela camioneta e lhe perguntei se queria continuar ou apanhá-la. Explicou-me que com o carro seria mais rápido. Deixei-a à frente do Bar Cuba. Parecia uma imagem da estupidez, coitada. Nem o nome me disse. Fez-me pensar numa namorada que tive, há muitos anos, bastante mais nova do que eu. Também nunca andara à boleia. Consegui convencê-la a vir do porto de Soller até cá acima, mas depois ninguém nos deu boleia e tivemos de regressar de autocarro, para grande alívio da miúda. Mas essa era tudo menos estúpida. Não tinha era a idade que os documentos mencionavam. Um dia disse-lhe «T., vamos fazer um pacto: eu ensino-te a ter vinte e quatro anos e tu ensinas-me a ter cinquenta e quatro, pode ser?» Não. Um ano depois deixou-me e arranjou outro professor. Ou aluno, sei lá.

(Isto tudo dito: hoje volto à praia, mas vou a Deià, onde a Sand e o Chopin passaram uns meses. Ainda não li o relato que a senhora escreveu da estadia, mas espero encontrá-lo rapidamente. Se tiver sido traduzido, chama-se «Um Inverno em Maiorca». Se não, «A Winter in Mallorca». Um dos micro-erros que fiz foi tê-lo enviado para Portugal sem o ter lido.)


26.6.21

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 25-06-2021

Onde começar este dia? Os dias começam ou são como as viagens, que se encaixam umas nas outras como as noites e os dias? 

Não sei. Começo, pelo fim, pela interminável espera (interminável rima com agradável e neste caso não é um acaso) na praça de Santa Eulália. Ainda estou para saber o que esperava, mas sei que a espera foi boa: a luz mudava devagarinho, a S. exagerava nas suas manobras de pseudo-sedução (mais sobre isto mais tarde), a R. tratava de mim... Não esperava nada, na verdade, senão que as horas se escoassem sem demasiados remoinhos. Os dias deviam acabar todos assim, como água de uma banheira que se esgota pelo ralo levando consigo toda a sujidade e os restos de sabão. Esperar sem esperar, nem o Tao Te King teria inventado tal coisa.

Depois fui comer carne aos Maños, antes fiz montes de coisas de que agora não me lembro, acabo a noite no Divino e penso «mais vale vingar-me no pâncreas e no fígado (ambos meus) do que nos outros», como faz uma senhora que conheço - e de quem gosto muito, verdade seja dita, apesar de ela levar os limites da definição de gostar aos limites, justamente. 

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Se um da precisarem de um nome para campo de minas, pensem em P., se faz favor (forneço o resto do nome a pedido).

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As manobras de pseudo-sedução da S. vão ter de ficar para mais tarde, com grande pena minha. Devo dizer que as aprecio bastante, sobretudo porque sei que são técnicas de venda. O que ali aprecio é o profissionalismo, não a sedução. 

Como é que dizia o outro? «Há mas são verdes», não é?

25.6.21

Fellini à recepção

Coisas bonitas da vida nocturna: um grupo no Big Foot inclui uma mulher obesa e feia (há obesas bonitas) e duas magras lindas e elegantes - uma delas sendo a da Leica.

As duas magras são lésbicas e a gorda tem um gajo atrás que não a larga.

Fellini, dove sei, signore?

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 24-06-2021 / II,

O Big Foot é um bar relativamente feio e barulhento mas tem a vantagem de me servir depois das horas, como se estivesse num Speakeasy ou numa loja de ópio de Shangai. As mulheres são feias, bonitas, gordas, magras, mal vestidas e bem (há pouco entrou uma com uma Leica ao ombro). Os homens são feios, gordos, jovens, magros, bonitos. A única coisa que toda esta gente tem em comum é a banalidade.

Bebo um rum com sumo de laranja e hesito no seguimento. Ouvir o meu Pai ("deve-se sempre beber um número par de bebidas, sob pena de se voltar coxo para casa") ou dar ouvidos ao pâncreas, ao médico, ao bom senso e à namorada (se aqui estivesse)? Opto por um compromisso e encomendo um rum simples com uma rodela de lima. Pelo menos poupo o pâncreas. 

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Sentei-me em cima do meu chapéu Panamá, o qual já tem as marcas (muitas e uniformes) de uma chuvada de pó do Sahara aqui há uns dias.

Gosto de ver coisas usadas mas não negligenciadas. Espero que estas interacções resultem esteticamente aceitáveis.

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Uma das coisas que admiro nas pessoas pró-Covid é a hospitalidade que dispensam ao medo. Para mim, o medo é mal vindo. Não o consigo evitar, mas não gosto dele, não o quero, é como aquelas visitas chatas que não se vão embora e nos contam todos os seus problemas de saúde e de família. 

Elas não: acolhem-no de braços abertos, dão-lhe de comer e de beber, convidam-no para dormir e ainda lhe ajeitam os cobertores.

Claro que tudo isto evoca uma pergunta: se ao longo da minha vida eu tivesse tido mais medo: estaria melhor agora? 

24.6.21

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 24-06-2021

Fui almoçar ao mini-Restaurante Casa Julio, que de mini só tem os preços e a designação (e nem sequer aparece sempre). O resto é maxi: a qualidade, as doses, a eficácia e simpatia das pessoas. Mal entrei a empregada mais antiga diz-me «até que enfim! Há muito tempo que não te via! Por onde tens andado?» como se eu fosse o marido dela e tivesse chegado a casa depois de uma semana de farra. Acho que vou deixar este dilema da pertença versus nomadismo no mesmo sítio onde tenho vontade de pôr o debate sobre a Covid (pelo menos com os amigos): no caixote de lixo da história. Há coisas que simplesmente não têm resolução, pelo menos dependente da nossa acção sobre elas. Um dia saber-se-á quem tem razão, tal como um dia saberei se a minha sedentarização é um facto ou um voto piedoso. Pena é esta merda da Covid ser tão invasiva, tão presente, é impossível escapar-lhe. Ver estes desgraçados trabalhar que nem forçados de máscara magoa-me e agride-me (estou na Chinchilla, o Angél e o Andrés correm como se estivessem a fazer os cem metros barreiras com as travessas na mão e o açaimo na cara, porque são obrigados).

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Depois das lulas da casa, comi uma tapita de Gamoneo, o queijo dos queijos (pelo menos dos queijos espanhóis e para mim). É um queijo asturiano feito e comercializado em condições esquisitas. Vejam no Google, se for igual ao meu é instrutivo. A primeira vez que o comi foi durante o primeiro confinamento; o de hoje era mais civilizado. Acompanho-o diacronicamente com um Jerez, um café e um tiramisú, tudo numa desordem caótica, a granel, como quando enfiávamos açúcar ou cereais nos porões do M/V RIO CUANZA, onde pela primeira vez experimentei as delícias do tramping: ir para onde há trabalho (carga, no caso do navio). O tiramisú é bom demais, a rapariga cozinha como uma deusa, o Angél hoje está chato e pega-se com todos - são só mais dois, a Dalila (?) e o Andrés, um moço impecável e ginasta de vinte e quatro anos (sei porque fez anos há pouco tempo e mo disse). Pedi-lhes uma mesa ao pé de uma tomada, sentaram-me num canto perto da janela. Estou em casa, tive de lhes pedir para me tirarem o tiramisú da frente, porque se continuasse até o pote ia. O seco Jerez combina bem com o doce do doce. É uma bebida injustamente esquecida pelo rapazinho. Tenho de rever essa situação. Quando tiver uma casa falamos, respondo. Estes diálogos internos não são bem diálogos, são mais como as fitas do telex, ininterruptos, sequências de palavras sem solução entre elas e de vez em quando vêm outras palavras, como quando o Angél me diz que está a caminhar para a velhice e eu lhe respondo que tem um longo caminho pela proa. São adoráveis e tenho de repensar a minha opinião sobre os maiorquinos, talvez apoiando-me na experiência que tive com os panamianos. O Angél não pára de pegar-se com os outros e eu pergunto-me se devo beber mais um Jerez. A pergunta é retórica, claro. Toda a plateia sabe a resposta. 

Todas estas coisas se misturam, articulam, encaixam, engrenam. Deve ser a isto que se chama harmonia, não?

Adenda: o Andrés é colombiano, de Medellín. Veio para Espanha muito jovem. Já passou dezasseis anos na Galicia.  

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Entro pouco a pouco nas delícias do amor. Isto é, da relativa novidade de amar e ser amado - é sempre a primeira vez, não é? O único efeito da idade é que agora se entra mais devagar. Talvez porque se saiba que não se voltará a sair. A minha última namorada porque não haverá outra a seguir, desta vez, não é uma frase bonita. É uma verdade e, muito mais do que isso, uma vontade. Parece a chegada a um porto depois de uma viagem difícil.

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Penso na ambivalência dos marinheiros (não há nada que não abarque: somos arrogantes e humildes, valentes e cobardes, individualistas e vivemos com os outros em latas de sardinha flutuantes, sabemos fazer tudo e fazemos tudo mal, adoramos a solidão quando estamos acompanhados e a companhia quando estamos sozinhos, vivemos entre o porto de que largámos e aquele a que vamos chegar, temos dinheiro quando não precisamos dele e mal precisamos deixamos de o ter porque ele se esvai sozinho, sonhamos com vento nos dias de calma e com a calma nos dias de temporal. Por aí fora) e vejo que essa é mais uma: por muito que se precise de estar no mar, é num porto que te sentes acolhido. R., minha R., conhecias a tua vocação de porto? Em inglês existe um termo, haven, diferente de harbour. Significa refúgio, diz-me um tradutor qualquer da net. Porto de abrigo? Não sei. Sei que preciso de mar e de ti em doses iguais e que ser marinheiro é ser ambivalente, arquivalente, omnivalente, panvalente: não há valência que nos falhe.

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Vejo-os correr para trás e para a frente e lembro-me das noites frenéticas do Marchand. Daí a memória descola para outras coisas, como quando os pianistas percorrem as teclas todas seguidas. Páro-a no meio. Estou farto da memória. É como a esperança, uma droga. Sei que os amnésicos têm uma vida horrível, mas se conhecessem a dos hipermnésicos relativizariam. (Isto dito por um gajo que se não tivesse pescoço deixaria a cabeça em todo o lado tem outro sabor, não tem? Tem)

Amor, matemática

Há três coisas boas na vida:

  • - Duas coxas,
  • - Um ventre, 
  • - Duas mamas,
  • - Dois lábios, 
  • - Dois olhos, 
  • - Um cérebro. 

... ?

Isto da álgebra e do amor nunca bateu certo, não sei porquê.

23.6.21

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-06-2021

O P. gosta de dançar o tango. Um passo à frente, dois atrás, três para o lado, levanta a perna, olha-me nos olhos e diz-me que sem ele não saberia viver. Não sei e sei. Uma coisa é certa: ele é daquelas que enquanto não a tivermos na cama não descansamos. Pelo menos para um macho latino como eu: minha querida, enquanto não fores ao sacrifício não descanso; depois, és tu quem não descansa.

Passo os pormenores porque não quero maçar os leitores - e ainda menos maçar-me - mas gostaria de explicar que a luta pelo P. se transformou uma luta contra o P. e que isto agora é pessoal, não é teórico ou existencial. É uma luta corpo-a-corpo, todos os golpes são permitidos, sem limites.

P., meu caro, estás fodido.

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A Órbita refastela-se em Palma. Foram feitas uma para a outra. Isto começa a pôr-me problemas de consciência, porque quero absolutamente levá-la daqui, quando - se - um dia deixar Palma. 

Isto não é retórica. Tenho a impressão de que nada nunca me afastará de Palma. Ou que Palma nunca sairá de mim, como algumas mulheres e muitos livros.

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Escrevo, pela primeira vez em muitos meses, no Antiquari. Já aqui fiz esta analogia, mas ela é inesgotável e insubstituível: um amigo do meu Pai dizia que não ter carro lhe permitia ter mil e quinhentos carros - referia-se aos táxis, suponho. Ou aos táxis e aos autocarros, Talvez -. Não ter casa permite-me  ter dezenas ou centenas delas.

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Se o amor fosse o único critério, aconselharia toda a gente a chegar depressa aos sessenta e três anos. Infelizmente não é. Mesmo assim, acho que vale a pena experimentar. Amar é um fluido que preenche todas as brechas, uma água que mata a sede a todas as bocas. Aos sessenta temos muitas.

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Começo com o P. e acabo com ele: meu caro, não penses que vais levar a melhor. Não vais. Quanto mais me bates mais te amo. Estás fodido: vais sair daqui direitinho, meu velho, com as mamas de uma septuagenária a quem tenham feito um implante.

22.6.21

Adenda à adenda

Podem dizer que sou bruto, desajeitado, que pareço um urso com os copos (o bicho, não eu). Aceito essas críticas todas. Mas se contar tudo como exactamente se passou, talvez obtenha um módico de compreensão e perdão dos deuses e das forças que governam isto tudo.

Passou-se que cheguei muito cedo ao Joan, sentei-me lá dentro e comecei a responder ao Facebook, a telefones, a mensagens e -finalmente - escrever. Escrevi freneticamente (isto é uma auto-piada. Cada palavra é como o nascimento de trigémeos feios, monstruosos e cabeçudos. Pior, só as vírgulas). A certa altura tive um ataque de fome, acontecimento que tem o condão de me desligar a parte do cérebro que aprendeu a regular o meu comportamento em cafés e pedi comida ao Rodrigo, que estava na cozinha.

Repeti - os erros, como as bebidas, devem ser feitos aos pares - e o Joan diz-me que não devia pedir comida directamente à cozinha.

Bom, até aqui tudo bem. É a ordem natural.

Continuei o jantar - já estava na fase das correcções ao que escrevera, como se fosse passível de correcção - e o Joan vem dizer-me: "tu aqui estás em tua casa". 

Que lhe respondi eu? Asneira, claro. Quê não sabia se ele estava a ser irónico, etc. 

Resumindo, resulta que o senhor estava a ser sincero: no bar Rita estou em minha casa. Ouvir um maiorquino dizer isto, meus caros, vale mais do que ser condecorado pelo professor Marcelo. (Não é muito, eu sei. Mas ser convidado de um maiorquino é .)

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 22-06-2021

Não vinha ao bar Rita há muito tempo, há demasiado tempo. O Joan propôs-me callos, coisa de que não consigo gostar, mas que me fez pensar no C. M., que ando mortinho por trazer a Palma. Faço uma encomenda ao Rodrigo, que hoje está na cozinha: «Rodrigo, faz uma mistura que inclua croquetas de chipirones e outra coisa qualquer de que tu gostes e que não seja muito» (isto de não ser muito é um conceito difícil de explicar aqui em Palma. Normalmente pensam que em vez de ser para três pessoas é só para duas). Esta imensa vontade de partilhar Palma com os meus amigos é pervasiva, insinua-se pela mais pequena das frinchas, pela vasta saudade antecipada que já começo a sentir de Palma e na verdade não tem nada de especial: conheço-a de gingeira há mais anos do que aqueles que consigo contar, de mais sítios do que conseguiria nomear, de mais situações do que me apetece recordar.  

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O P. apanha-se como estava ao princípio, cheio de homens a tratar dele. Não há melhor forma de demonstrar que a forma inglesa de tratar as embarcações é a correcta: são seres femininos. Tive sorte, uma vez mais: E. é um srilankês (é tão feia, esta palavra. Cingalês. E. desculpa, mas para mim serás sempre um Cingalês) pequenino - passe o pleonasmo, nunca vi ningém daquela ilha maior do que pequenino -, pintor, que na segunda-feira me disse «dediquei o domingo ao desporto. À Sport Tv (enfin, o equivalente, não me lembro do nome)» com aquele ar falsamente tímido e retraído de quem sabe que o outro percebe os vinte e dois graus da piada). Foi vacinado pela filha, enfermeira, mas continua a usar máscara, «pela família». Estou-me completamente nas tintas: é um pintor dos bons, conscencioso, trabalhador, pontual e como prémio sabe trabalhar com fibra. Sempre gostei de ver trabalhar quem sabe trabalhar e não é amanhã que vou mudar. Uma das coisas que aprendi com este refit - aprender não é o verbo correcto. Confirmei - é que nos próximos refit os trabalhos serão entregues única e exclusivamente a profissionais das respectivas áreas. 

Ch. é um argentino de Córdoba. Não gosta de porteños. Era um bocadinho hiper-activo demais para o meu gosto - o frenesim é inimigo da qualidade - mas já consegui acalmá-lo e a verdade é que o polimento dos metais tem estado a sair impecável. Vai ter um filho no princípio de Julho, mas agora teve um problema com o carro e objectivo do trabalho passou do bebé para a embraiagem. Estudou geologia na universidade, mas gosta demasiado do mar para se dedicar às pedras, explicou-me. Gostei do tom dele logo no primeiro telefonema e quando o encontrei não foi propriamente uma entrevista, foi uma confirmação. A senhora P. aprecia estas atenções todas, claro - apesar de não resistir à sua velha tentação de me pregar partidas, chatas, desagradáveis (e caras, mas isso é outra história).

Às vezes o P. parece-me uma daquelas raparigas que convidamos para jantar, nos diz sim e à última da hora arranja todos os pretextos para não vir ou pelo menos para atrasar o sacrifício. É precisa uma paciência de Job, uma propensão natural (isto é, herdada) para a diplomacia e a paciência, a certeza de que no fim ela nos vai ceder. (Isto é o que sinto quando estou bem disposto. Nos outros dias, sinto-me como um índio a pular à volta da fogueira, aos urros, com a mão a tapar intermitentemente a boca e dobrando alternadamente as pernas. Só que no centro do círculo, atado ao poste e em cima da fogueira estou eu, simultâneamente índio e vítima, palhaço e espectador.)

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Conversa com A., o nosso rigger. Pouco me importa o resultado - bastante positivo, na minha opinião; se bem parcial -. O fundamental foi este sentimento de comunhão, de duas pessoas que se entendem muito para lá das palavras porque ambas sabem do que estão a falar. 

A minha experiência é limitada, admitidamente - se bem tenha feito muitas coisas, só tive um sentimento semelhante no Burundi, quando o representative me dizia: «Luís, encomenda os contentores e não me chateies»; ou quando todas as semanas saía da reunião de agências e vinha ao meu escritório dizer-me: «o grupo pediu uma vez mais para te transmitir os seus parabéns» (não eram todas. Eram só muitas). Isto não tem nada a ver com orgulho, arrogância ou «armalhice». Tem a ver com harmonia, sintonia, acordo, uma espécie de ligação básica aos arquétipos primevos, àquilo que transformou os macacos em homens, àquilo que faz dois homens saberem que podem confiar um no outro, que se compreendem um ao outro. Não obtive tudo o que queria pela simples razão que não queria tudo. Queria só uma parte, a parte essencial, como se estivéssemos a dividir despojos e cada um pudesse pudesse dizer: «fiquei com o mais importante».

Só que aqui não houve luta nenhuma, mas sim uma simples aceitação de que algumas coisas são como são e não se lhes pode tocar sob pena de ver o edifício ruir.

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Adenda: «só tive um sentimento semelhante no Burundi» é mentira. «On s'en fout. De toute façon on n'est pas d'ici, demain on s'en va.»

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 21-06-2021

A minha teoria geral dos preconceitos, elaborada laboriosamente (espero que os leitores notem esta subtil, erudita e fina aliteração) ao longo das quase quatro semanas que levo de vida pensante - a minha teoria geral dos preconceitos, dizia - foi hoje objecto de uma ribombante e múltipla confirmação: os preconceitos têm como função na vida ser demonstrados falsos, ser trocados por outros que sabemos a priori ser igualmente falsos mas cuja falsificabilidade deve esperar o momento correcto, é preciso esperar pacientemente por esse momento, num elaborado exercício de dissonância cognitiva que se estende pelo tempo, uma dissonância diacrónica, por assim dizer. Mais: o momento da troca de preconceitos é geralmente um momento de alegria intensa, vitorosa, da qual todos saímos vitoriosos: o preconceito vencido, o novo e o feliz autor (não tenho a certeza de que este seja o termo certo: um preconceito digno de respeito faz-se a si próprio, não tem autor). Bom. Deu-se o caso assim: fui entregar o carro ao Egidio, que não podia dar-me boleia para a marina por ter sido vítima de um acidente sobre o qual não inquiri, mas que estimo suficientemente grave para o ter ao telefone em lágrimas, de manhã. Estava esganado de fome, pelo que resolvi comer nas imediações, estas não sendo exactamente o centro da cidade. Fui dar a uma tasca, com o pior aspecto que uma tasca pode ter, agravado pelo facto de se anunciar como pizzeria. Não vos peço para imaginar o lugar - aliás, peço para não o fazerem. Digamos simplesmente que era feio.

[Escrevo isto no Jaume. Uma senhora que me faz vagamente lembrar a Maria Callas e está rodeada por demasiados homens para o meu gosto - dois - faz tudo o que pode para interromper este relato. Não o conseguirá, como verão.]

Além de tasca - que em si mesmo não é propriamente um defeito, é só um pré-aviso - era uma pizzeria, isto sim, um defeito e grave, feia, inóspita, pouco acolhedora. O gajo atrás do balcão  correspondia-lhe a cem por cento (não digo duzentos para não ofender os meus leitores mais apreciadores de matemática). Era feio, antipático e só tinha vontade - pareceu-me - de me ver dali para fora. Debitou-me a lista a uma velocidade estonteante (literalmente. Estava cheio de fome). Na verdade, pensei simplesmente que ele não me queria ali, que desejava ver-me partir o mais depressa possível, tão depressa como debitava a lista, que talvez tivesse um preconceito contra pobres marinheiros solitários e longe de casa (já não posso dizer «solitários», mas isso ele não sabia).

Bom, resumo a hstória: [a Callas pôs-se de costas para mim e ao meu lado sentaram-se duas senhoras jovens e feias como os trovões acompanhadas por um senhor de meia-idade igualmente feio.]

- Pizza: uma das melhores da minha vida;
- Vinho: comprado directamente ao produtor, em Binissalem, um vinho «caseiro» como já não bebia há muito tempo;
- O almoço terminou com umas «hierbas» (aspas porque cito) da Calabria - a região de origem do agora senhor Alberto. Chama-se Amaro del Capo e só Deus sabe quanto quero voltar a passar pela Calábria para poder beber esta coisa outra vez. (Na verdade vou bebê-la antes, mas isso é outra história.)

[Duas senhoras que já não têm idade para ser feias mas ainda o são. Isto merece uma teoria.]

Ou seja: o caixão do preconceito contras as pizze levou hoje o último e definitivo prego. O preconceito contra tasqueiros que parecem antipáticos levou outro. O que me levava a suspeitar de tascas na periferia das cidades outro ainda maior. Que alegria! Três preconceitos num almoço só. 

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A diabetes vai dar cabo de mim, Curiosamente, nesse dia eu darei cabo dela também. Vale a pena jogar para o empate.

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Num programa interessantíssimo da Rádio Clássica espanhola - Longitude de Onda - oiço os resultados de uma pesquisa segundo a qual as pessoas que ouvem mais música têm mais dificuldade em adormecer. Quem ouve música para adormecer engana-se redondamente, parece. Outro golpe baixo no preconceito.

20.6.21

Elogio do desenraizamento - LMN 9

Pusemos as velas no PANDA. É um passo importante e simbólico, passe o pleonasmo. O homem é um animal de símbolos. Se calhar são eles que nos separam dos orangotangos, vá saber-se. Depois fui tratar dos caixotes que estão no armazém. Resultado: pareço um museu das dores musculares. Não paro de elogiar os benefícios da idade, mas os malefícios não são menores. Andam de mãos dadas, por assim dizer. Como tudo na vida, de resto: orangotangos e orangotangas, homens e mulheres, dores e prazeres. A verdade é que me sinto bem por ter os trapos a bordo (salvo seja. Trapos é calão. O termo correcto é: panos). Foram feitos pelo meu amigo Pedro Pires de Lima, que é um dos grandes veleiros que conheço – por isso lhe faço publicidade, já que ele não a faz a si mesmo: se algum leitor precisar de panos para uma embarcação de vela entre os quatro e os quatrocentos pés fale com o Pedro. Eu dou o número de telefone e não cobro o serviço (quem faz o sacrifício de me ler merece um gesto destes).
        Aluguei um automóvel ao Egidio – outro de quem dou o número de telefone sem cobrar -; é confortável e moderno (apita quando abro a porta e deixo as luzes acesas, por exemplo, um grande favor que me faz) e o Egídio fez-me um desconto aceitável dadas as circunstâncias. Um dia disse-me que me admirava porque sou um dos raros clientes que faz exactamente o que lhe digo que vou fazer. Ele também faz o que diz e também eu lhe aprecio essa qualidade. Os carros nem sempre são tão modernos ou em tão bom estado como este, mas a verdade é que dispenso grandes confortos, apesar de os apreciar quando me caem do céu (ou da Driiveme, um sinónimo).
        Isto está a transformar-se numa lista de fornecedores e não é de todo a intenção inicial. Era só falar-vos do meu dia, do prazer que é ter os panos a postos, das cervejas bebidas na Cantina – cada vez que bebo cerveja penso na anedota do russo que deu duzentos rublos ao médico para poder comer e beber o que quisesse – do polvo à galega que lá comi. O polvo à galega é como a língua inglesa: fácil de falar mal e difícil de falar bem. Substituam falar por fazer e chegam exactamente aonde vos queria levar. A grande vantagem do polvo à galega sobre o inglês é que este pode ser feio quando mal falado – por um russo ou um chinês, por exemplo – e aquele nunca é mau. É só menos bom.
        O segredo de um polvo à galega não é o polvo, contrariamente ao que muita gente pensa. Cozer um polvo é fácil e há montes de truques para lhe quebrar as moléculas de colagénio de que é feito: congelá-lo, por exemplo; bater-lhe, método bárbaro e rudimentar; deixá-lo cozer muito lentamente começando por água bem fria, com uma cebola de tamanho proporcional ao do bicho para se saber quando está cozido. E por aí fora. Nada disso. O segredo de um polvo à galega reside: a) na qualidade do pimentão. Sugiro pimentão fumado de la Vera, que é uma simples maravilha; b) na do sal. Sal de Cocó (sic), da ilha de Cabrera; c) nas batatas. Não tenho sugestões a dar; d) na quantidade: tem de ser muito. Hoje foi aqui que o da Cantina falhou: era pouco. E o sal não era de Cocó, mas ninguém vai a um restaurante esperando encontrar sal de Cocó, o melhor sal que me foi dado provar até hoje e tem um preço correspondente. Tal como o pimentão não era de la Vera, mas passemos. Pouco importa: o polvo à galega, as cervejas, o vinho branco, o trabalho físico, as velas coligaram-se, conspiraram e ofereceram-me um dia em cheio.

        Mas tão pouco era esta a intenção original deste texto.

    Palma-a-sedutora tem sempre uma surpresa na manga, como aquelas mulheres por quem nos interessamos por causa das mamas e acabamos a apaixonarmo-nos porque tem um cérebro por cima. É uma das semelhanças que lhe vejo com Lisboa: são cidades que não se dão a ver. Escondem-se e reservam-se para alguns escolhidos. Os americanos não são assim: publicitam-se facilmente, aprenderam a fazê-lo há duzentos anos ou coisa que o valha. Nós, europeus e nós, ibéricos - ainda mais - somos diferentes: escondemo-nos, esperamos que o produto fale por nós. Não fala: há demasiado ruído. Ninguém fala por nós; e o que fazemos só fala a posteriori, não antes. Isto diz um tipo que é o pior vendedor de si próprio que a humanidade jamais produziu, dando assim razão àquele ditado segundo o qual quem sabe faz, quem não sabe ensina.
        Há porém coisas que sei fazer: encontrar bons fornecedores, por exemplo. Claro que tenho a minha quota de má sorte, tive-a grande nestes três anos de refit do P., mas ao fim e ao cabo não posso queixar-me. A de boas escolhas é muito maior. Como os táxis de que falei na semana passada. Suponho que seja consequência do desenraizamento, desta necessidade que temos de perceber rapidamente com quem estamos a falar. O único problema é que quando nos enganamos enganamo-nos a sério, como aquelas pessoas muito pontuais que quando estão atrasadas o estão muito. Sou assim: nunca me atraso cinco ou dez minutos. Quando me atraso é às meias horas para cima.
       Daqui até ao desenraizamento – tema originalmente intencionado desta crónica – vai um passo gigantesco. É possível, claro, relacioná-lo com os fornecedores, com este hábito de se ficar amigo de quem nos serve bem porque para se chegar até ele houve, quantas vezes, de se bater às portas erradas. Um desenraizado vive nas bordas do tempo, passe o termo. Galopamos o cavalo do aqui e agora na terra do nunca. Ou do amanhã, pelo menos. «Let’s forget about tomorrow / because tomorrow never comes», diz a canção e é mais ou menos assim. Só que nunca esquecemos o amanhã: é a véspera do dia em que temos de nos ir embora. Um desenraizado está, por definição, de passagem. Em movimento. Mas se pára não cai: fica a apontar para o próximo destino. Um desenraizado nunca está onde está hoje, mas sim onde estará amanhã. Ao contrário do que parece, a nossa vida não se resolve com tempo, mas sim com geografia. Nómadas das estrelas, pensava no outro dia e afastei o pensamento: pareceu-me demasiado bimbo. Depois recuperei-o: durante anos a minha geografia foi literalmente definida pelas estrelas (e – raramente – alguns planetas: a Lua, Vénus e Marte). Com um sextante de permeio, claro.
       Um dia escreverei um hino ao desenraizamento, a esta capacidade de arrastarmos as raízes connosco como as senhoras de antanho arrastavam saias intermináveis, a esta qualidade que consiste em fazer crescer raízes onde quer que estejamos, qualquer que seja o terreno. Há sempre um fornecedor merecedor da nossa estima, um taxista honesto, um par de olhos com um cérebro por trás.
          Um Jaume, da Bodega Can Rigo, que me dá a provar vermutes, runs e vinhos com o genuíno desejo de partilhar as suas descobertas (e o legítimo de as vender); para além de um conhecimento enciclopédico de bebidas o Jaume vende algumas das melhores tapas de Palma: o polvo à galega, para retomar o tema; as almôndegas, que o meu amigo Carlos Miguel considera enfadonhas, crítica que compreendo mas não partilho. Acho-as misteriosas, quando são boas; a tortilla, (esta tendo um pouco menos de mistério, porque lhe aprendi o truque).
        Nós desenraizados somos o sal da terra – não é de resto por acaso que a expressão vem desse grande desenraizado que Jesus foi: realçamos o que é bom, adaptamo-nos a tudo, vimos em formas diversas e vê-se melhor a nossa falta do que se sente a nossa presença. Um lugar sem desenraizados é insonso, não é? É. Não tem gosto nem cor nem nada. Um lugar sem desenraizados não é um lugar, é uma prisão. Um deserto habitado. Um mar sem marinheiros, esses desenraizados por excelência. (Se calhar fomos nós que lhe demos o sal...)
        Um desenraizado é um desassossegado da geografia, um irrequieto do tempo: tanto está em casa aqui hoje como estará ali amanhã. O mundo de hoje é em grande parte o resultado desse desassossego. Esperemos que a modernidade e as suas ilusões não dêem cabo dele, para que os nossos filhos possam olhar para os Jaumes, os Joans, as Chinchillas, as Núrias e os Robertos com olhos diferentes dos dos turistas, perceber que um par de velas bem feitas veste uma embarcação de vela tão bem como uma míni-saia veste as senhoras, que alugar um automóvel ou levantar um braço na rua para mandar parar um táxi são – ou pelo menos podem ser – actos incomparavelmente nobres. E que o tempo não passa de uma sinuosa, íngreme e bela estrada de montanha que ora sobe ora desce, ora aponta para Leste ora para Norte, Sul ou Oeste, ora está bem pavimentada ora sofreu os efeitos de uma avalanche. Sabemos de onde partiu mas não aonde nos leva. «A pátria é uma tenda no deserto», diz um provérbio árabe. A minha casa é uma gota de água no oceano, acrescento eu. Ou de chuva. Ou da torneira. Ou do rio, do lago, da barragem, da nascente, da poça na rua, do charco, do pântano, da nascente subterrânea.

Luís Serpa, Palma, 20/06/2021

Um hino ao café Enco

Uma das grandes vantagens dos preconceitos é a alegria que nos proporcionam quando a realidade faz o favor de os desmentir. Hoje aconteceu num daqueles cafés que não só evito - "são para turistas - mas desprezo, pela mesma estúpida razão. Verdade seja dita: já cá vim duas ou três vezes beber um affogato all'amaretto, sempre com resultados positivos. Ou seja: o preconceito já estava meio abananado. Mas hoje é domingo à tarde, é diferente das outras vezes. O café está cheio, os empregados continuam encantadores, o café é Lavazza - muito melhor do que a merda do Nespresso que se bebe em todo o lado - está num sítio porreiro e - seja Deus louvado - o empregado não tem máscara. 

Vivam os preconceitos, viva a realidade e viva o Café Enco, "Gastronomía con amor". 

Religião, superstição

Desta palhaçada, vai poder confirmar -se de uma vez por todas que o homem é eminente, fundamentalmente um animal religioso. Se não tem religião à mão, substitui-a por superstição.

(Confesso que prefiro a religião, sobretudo a nossa, que me parece o melhor compromisso entre o mágico e o real. Além de que é a única que transforma água em vinho.)

Causalidade e outros calores

Ivo é o nome do senhor que me repara as bicicletas. Já nos conhecemos há algum tempo, já lhe levei muitas burras a reparar, já lhe vendi e comprei outras. É um búlgaro jovem, bem humorado, com uma filosofia de vida que pode ser levada em consideração, às vezes. Hoje vinha para casa, a noite estava linda e pacífica, Palma-a-sedutora olhava-me bem nos olhos, eu pedalava muito suavemente para Rambla e pensava numa frase do Ivo: "À medida que a temperatura aumenta, a qualidade de vida aumenta. O calor é uma garantia de bem-estar."

Pensei imediatamente numa pessoa que recusaria tal ideia com espanto.  Por mim, devo dizer que estou inteiramente de acordo: calor e qualidade de vida mantêm uma correlação positiva. E - quem sabe? - talvez até de causalidade. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-06-2021 / 2

A rua Sant Magi está cheia outra vez. A abarrotar de jovens sem máscaras, de mulheres cuja função na vida é provar que a evolução tem razão e a moda não (disto não estou seguro), de provas de que a biologia resiste a tudo. Enquanto a moda oscilar entre mostrar pernas ou mostrar mamas (ou como agora faz, abençoada seja, mostrar as duas e mais o que lhes fica entre - advérbio ou verbo -) a biologia vencerá. É que isto é um consolo para os olhos do homem primevo, básico, simples que eu sou. (A minha namorada sabe o que sou e apesar de ser uma senhora sofisticada, culta e  bonita aceita-me, facto que para mim fará para sempre parte dos Mistérios, com maiúscula.)

Penso no gesto asqueroso de um cozinheiro que até hoje respeitava. Perante um cenário semelhante em Lisboa, não só chamou a policia como insistiu. Continuarei sempre a respeitá-lo como cozinheiro - é, para mim, o melhor desta nova vaga de celebridades e "chefs" - mas como pessoa deixou de existir. A certa altura há que traçar fronteiras. A tolerância tem limites. Não são os mesmos da liberdade de expressão, mas existem.

A biologia e a estética estão esquecidas, diz Camille Paglia. A estas, acrescentaria a ética.  A qual, basicamente, consiste em respeitar o outro, em não acreditar que os meus valores são melhores do que os dele. São, claro. Se não fossem não seriam os meus, mas os dele têm o direito - e o dever - de existir. 

 

19.6.21

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-06-2021

Deve ser efeito da moda, mas as miúdas estão cada vez mais despidas. De um ponto de vista estético, acho feio: há coisas que não são feitas para ser mostradas na rua a toda a gente. De outros pontos de vista, agradeço à moda. Em mim, a estética não é pervasiva. É uma presença, não uma Panzerdivision

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Vai chover não tarda - na verdade já chove, mas pouco - e o cheiro da chuva invade a cidade. A chuva arrasta o cheiro a perfume das miúdas desnudas (digo miúdas porque o são). Normalmente é demasiado intenso; é outra consequência da moda, suponho: encharcam-se em perfume. Ficam a léguas do «Channel nr. 5 and a smile» da outra, de quem de qualquer forma nunca ouviram falar. A modernidade é uma chatice: ninguém ouviu falar do que nos fez sonhar.

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As chuvas estão a chover. Assim, mesmo, no plural: as chuvas. A real e a metafórica. O meu P. cabreia, impaciente. Contratei mão-de-obra para o termos pronto a tempo do primeiro charter, dia 4 de Julho. É só meio dia, mas é o primeiro meio dia. Muitos se lhe seguirão. 

Muita gente não sabe o que charter significa. Não me refiro ao significado literal, directo, miseravelmente traduzido pelo português administrativo de «Actividades marítimo-turísticas». Charter tem um sentido transcendente, metafísico: é para isso, disso, que o barco vive. Os clientes de charter não o sabem, mas quando entram a bordo têm o estatuto de deuses. Isto é: são deuses. Justificam e dão sentido à nossa existência. Não é como num hotel ou numa pensão. É diferente. Um barco flutua não por causa do banho de Arquimedes, mas porque tem clientes de charter (que o linguarejar moderno transformou em guests, mas eu quero que o linguarejar moderno se afunde, com menos uma sílaba). A expressão «tenho um charter amanhã (ou para a semana, ou daqui a um mês) tem para um tripulante de charter - seja ele skipper ou o último dos deckies - o mesmo significado que para muitas religiões tem «Jesus vai descer à terra amanhã». É de resto por isso que as férias a bordo de uma embarcação são tão diferentes. São experiências religiosas, místicas. Não são férias. 

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Entretanto, Palma ressuscita. Faço parte dos optimistas. Daqui a dois anos ninguém se lembrará disto e daqui a quatro os pró-Covid terão vergonha. Vai uma aposta?

Vai.

Sonhos, meta-sonhos e outras aventuras

No outro dia sonhei que não sonhava. Isto é, dormia e não sonhava e acordava inquieto: «como é possível não sonhar?», perguntava-me no sonho. Depois acordei, Vi que afinal sonhara e fiquei mais descansado. Sonhar é importante, mesmo quando as consequências são estranhas (são sempre. Passemos). Recentemente acordei exausto porque no meu sonho passara a noite a fazer actividades físicas, coisas que nunca faço, como lutar, subir a montanhas, atravessar rios pendurado em cabos e por aí fora. Acordei cansado e transpirado. Felizmente estava sozinho. Pergunto-me o que teria acontecido se tivesse uma senhora ao lado. Ter-lhe-ia batido, nadado o corpo, atravessado o rio? Não sei. Nunca saberei, seja como for. Mais uma lembrança que vai para o museu das memórias vivas, ou outro qualquer à escolha do leitor. 

Devíamos ter um museu dos sonhos. Creio que há um livro do Tabucchi com esse nome, ou algo parecido. (O Google é uma chatice. Já não há desculpa para estes «talvez». Há que ir confirmar, procurar a exactidão como se fosse conciliável com a memória, como se ser exacto fosse sinónimo de ter boa memória. Não é. Vou.) Chama-se «Sonhos de sonhos». É um livro do qual guardo uma excelente memória. Aposto que teria de novo prazer em lê-lo, se não estivesse agora mais preocupado com os meus sonhos, que me deixam exaustos ou que são uma espécie de meta-sonhos. De qualquer forma, tudo o que faço é sobre tudo o que faço, de maneira isso nem questão é. Não vivo: meta-vivo. Não sonho: meta-sonho. Não amo: ... mentira. Sim, amo. Amo no primeiro grau, amo linearmente, fluido e calmo como um rio na planície, como um rio que desconhece a foz. 

Prólogo ao texto de domingo no Luso Magyar News; ou: contra a sedentarização

Isto só se percebe bem na sua inteireza se se ler o texto do próximo domingo no Luso Magyar News (se este persistir na sua hospitalidade e tolerância a meu respeito, claro). Hoje vinha para casa, depois de acrescentar umas linhas, justamente, a esse texto (um elogio ao desenraizamento, para quem estiver interessado) e passei à frente do Jaume - ou bodega Can Rigo, se se preferir nomes localizáveis. Pensei que um chupito de hierbas secas não me faria mal - a tal anedota do russo - desmontei da burra e entrei. Pedi o chupito e o Jaume diz-me "Luís, tenho ali um rum especial, uma das garrafas que me veio do Atlântico [um dos bares célebres de Palma que a "luta contra o vírus" deitou abaixo]. Não queres antes um rum? Já só tenho uma dose". Que sim, claro. E vai de me servir um Zapata 23 anos, duplo.

Quando lhe pergunto "quanto é?" diz-me que não é nada, que sou convidado dele.

18.6.21

Viva o degresso

Em Palma, a rua que sobe para o antigo hospital da cidade chama-se Costa de la Sang. Não é preciso traduzir. Em Genebra,  a rua da prostituição chamava-se rue Chauffe Cons, que traduzido dá Rua Aquece Conas. Essa rua mudou de nome e hoje chama-se rue Chausse-coqs, que não quer dizer nada. É uma simples transcrição de chauffe-cons, porque os f e os s tinham a mesma forma e Calça conas não ia muito longe.

Há qualquer coisa que se tem vindo a perder com o tempo é esse qualquer coisa é a relação com a realidade. 

A crise actual não passa de mais um degrau nessa desescalada. Sim, as pessoas morrem e quanto mais velhas mais morrem. Sim, as pessoas morrem e quanto mais doenças têm mais morrem. Sim, as pessoas morrem, tout court. Querer esconder esse facto simples e iniludível é infantil.

Essa é, infelizmente, a direcção geral da modernidade: a infantilização e a desresponsabilização. Daí a incapacidade de lidar com o real, a transformação de cães e gatos em crianças, a política da identidade (é mais fácil ser gay, negro, lésbica, mulher do que ser simplesmente uma pessoa que se assume a si ou às suas opções de vida). Daí a necessidade de monstros debaixo da cama - a Covid, o "aquecimento global", o petróleo,  meu Deus, o petróleo, o capitalismo, o neoliberalismo. 

Avançamos e infantilizamo-nos. Viva o degresso .

17.6.21

Delirios, espelhos

Vivemos num espelho. Onde eu vejo delírio e irracionalidade, o meu amigo pró-Covid vê irracionalidade e delírio. Mas não são os mesmos; isto é, são os mesmos mas invertidos como num espelho. O meu delírio para ele é razão,  a irracionalidade dele é a minha razão. 

Tudo isto seria anedótico se não tivesse as consequências que tem. Às quais o meu amigo e quem pensa como ele é cego. Porque não lhe sofrem as consequências? Não. Neste caso, posso asseverar a sensibilidade da pessoa. 

Isto é: as pessoas que vivem nos arredores e trabalham em Lisboa podem vir trabalhar. Mas não podem vir ao fim-de-semana. Que isto seja visto como racional por uma pessoa inteligente magoa-me. Dói-me. Não por ser meu amigo, mas por ser inteligente. 

A inteligência vestida de retórica faz pensar numa mulher bonita mal vestida: é um desperdício. Antes ser burro e mal vestido.

Kabir, oceano e palavras

"Todos vêem uma gota

de água no oceano

mas poucos o oceano

numa gota de água"


"Entre palavras e palavras

bate a palavra

até encontrares

aquela palavra"

Kabir, in "O nome daquele que não tem nome", ed. Assírio e Alvim, Lisboa 2016. Versões de Jorge Sousa Braga.


15.6.21

Ilusões, sussurros

Acordo com um sussurro de ti ao meu ouvido: "Amo-te", dizes baixinho. Eu acordo, sei que não tenho ninguém ao lado e sei que te ouvi claramente dizer-me "Amo-te". Adormeço reconfortado. Há ilusões mais verdadeiras do que a verdade.

14.6.21

Paráfrase

 Somos todos uns farsantes. Sobrevivemos à Covid.

Duas ilusões e uma farsa

Gosto de me sentar no Mercat de l'Olivar e ver passar mamas e olhares. Sou mais sensível a estes do que àquelas, mas aprecio os dois (ou quatro, para os mais preciosistas). Gosto de ver um par de olhos bonitos, é verdade; mas o que lhes está por trás é mais importante. Sempre gostei de carinhas larocas, mas também sempre lhes preferi cabeças inteligentes. Das mamas tenho igualmente uma opinião ambivalente: tendo sido feitas (pela evolução) para ser tocadas, olhadas só mostram metade daquilo para que foram feitas. Porém, todas as mamas são bonitas, todos os olhos. Grandes, pequenas, médias, caídas ou levantadas, não há mamas feias, como não há olhos. Só conta o que os sustenta - e não me refiro ao soutien-gorge.

Ou seja: sento-me no mercado a olhar para duas ilusões, enquanto como secretos de porco  que são uma delícia (real) e penso no meu P.  Verdade seja dita, presentemente o meu cérebro só têm duas divisões: uma para o P., outra para a R. Quando não penso num penso na outra e vice-versa.

O meu alfabeto é tão curto, não é? (E eu tão mentiroso... A Covid tão pouco me larga.)

12.6.21

A farsa que mudou o mundo. 7 Machos. Palma.

Continuo a minha via dolorosa. Hoje vim ao 7 Machos beber uma Margarita como deve ser. A Lina lembra-se de como eu as quero (secas, com gelo em cubos), o Johnson está de regresso à cozinha e - prémio - o Mark agora trabalha aqui. Santa Catalina está a abarrotar, cheia de gente na rua e ninguém (enfim, quase) com máscara. No canto vizinho do meu, uma cubana (suponho) faz-me pensar na sorte que o meu Pai teve e no maldito elástico que tenho nas costas cada vez que me aproximo de Cuba: puxa-me para trás, não me deixa pôr pé em terra. Já tentei três vezes.

É curioso como as nossas apreciações mudam com as circunstâncias. Sempre detestei Sant Magi e nunca aqui vinha ao fim-de-semana, porque detesto esta boémia que mais parece uma ejaculação precoce a derramar-se pela rua abaixo. Hoje foi um gozo sem fim vê-la. O mundo não será decididamente o mesmo depois desta farsa. A farsa que mudou o mundo.

PS - A senhora não é cubana. É equatoriana. 

Prequelas

Sabe-se que a Covid pode ter sequelas graves. Menos conhecido é o facto - comprovado - de ter prequelas. As mais frequentes sendo: independência de espírito, indefectível sentimento de liberdade, espírito crítico e racionalidade.

Curiosamente, estas prequelas imunizam a pessoa e protegem-na ab ante.

Descarrilar

Ser contra a modernidade é como querer parar um comboio que vem a toda a velocidade contra nós? É, sem dúvida. De nada serve especarmo-nos no meio da linha e tentar pará-lo. Ele esmagar-nos-á.

Mais vale dar um passo para o lado e deixá-lo passar. Descarrilar, por assim dizer.

Tempos interessantes?

A modernidade erigiu o medo em virtude suprema. Ter medo é bom, é ser inteligente, altruísta, pensar nos outros. Já não se pode "negociar" com o medo (que é o que os valentes fazem. Ser valente não é não ter medo. Isso é ser idiota. Ser valente é lidar com o medo). Tem que se destroçar o que provoca o medo, destruir a causa do medo, aniquilá-la, reduzi-la a nada, suprimi-la. Ser valente, enfrentar o medo é ser irresponsável - e pior ainda, irresponsável social. Ninguém é nada pessoalmente: somos todos parte de um grupo, de uma "identidade".

O medo como valor, a biologia relegada para o caixote de lixo da ideologia, a mentira aceite se for em nome do medo, da paz social ou de outra fé qualquer, a crença no poder da palavra («os confinamentos funcionam porque funcionam, porque Macron diz que funcionam e porque Trump ou Bolsonaro dizem que não funcionam», por exemplo. Mas há muitos mais). Ouvir é preferido a ver, a olhar, a procurar: privilegia-se a passividade - o que não é de espantar: a única acção socialmente aceite passa-se nos monitores dos computadores. À rua, as crianças só vão acompanhadas, protegidas. O pensamento mágico ressurgiu, reemergiu após este breve período de racionalidade que o Ocidente viveu no século XIX e na primeira metade do XX.

Como é aquela maldição chinesa sobre viver tempos interessantes?

Gente perigosa

"Solo viaja la gente peligrosa: soldados, mercenarios y traficantes de esclavos", leio no Prólogo de El infinito em un junco, de Irene Vallejo. É uma história do livro, li recentemente uma crítica bastante positiva e fiquei curioso.

Mas o que me interessa não é isso. É: "Só a gente perigosa viaja". Nunca me vi como perigoso, longe disso, mas à face da Covid compreendo e ilumino a frase. Nós nómadas somos perigosos. Com ou sem vírus, o  nómada é aquele que viu outras coisas. Que viu e não pode desver o que viu. Aprendeu o cepticismo pela via da prática e não pela teoria. Nós nómadas sabemos que há várias verdades, porque as vemos; e sabemos que a nossa é a melhor porque a transportamos connosco, porque resiste, porque se adapta, acrescenta. A cada paragem a nossa verdade engorda e confirma-se, num processo dúbio, biunívoco, fágico. Por isso somos perigosos: aprendemos, comparamos, vivemos com e pela diferença. 

O nómada é perigoso numa ordem estática, tal como o sedentário seria perigoso numa tribo nómada: a erva é mais verde no prado do vizinho.

Isto tudo dito, concordo com a asserção inicial: a gente que viaja é perigosa. 

Inevitabilidade

A noite estival cai em Palma como a mulher de um casal antigo sobre o homem que conhece há trinta anos: com uma mistura de desejo e inevitabilidade. 

11.6.21

Palma, Cohen

Palma chama por mim e diz-me adeus ao mesmo tempo. Parece uma história de amor de Leonard Cohen.

A praça e os copos esvaziam-se ao mesmo ritmo: lento. O ritmo de uma história de amor que chega naturalmente ao fim. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 11-06-2021

Se bem me lembro, a Via Dolorosa tinha doze estações. Uso o pretérito imperfeito porque agora já só uso a expressão num sentido jocoso. A Via Dolorosa jocosa de Palma tem muito mais do que doze estações: Lo Divino, Antiquari, Mise en Place, La Cantina, Bodega Bellver, La Bodeguita del Centro, Gustar, Abracadabra, Quinta Puñeta, Mini-restaurante Casa Julio (sic), La Quadra del Maño, Makaria, Sete Machos, Bar Rita, Ca na Chinchilla, Viniloteca, Mercat de l'Olivar (só aqui há quatro ou cinco estações), Plaça D'en Coll, o Toni na praça de Sta. Eulália, onde agora como uma tortilha  e duas almôndegas (estas presente da casa)... a lista é interminável e bom praticante que sou vou percorrendo o caminho todo, cruz aos ombros e copo na mão. Ontem bebi metade do álcool que Palma tem disponível (sou um rapazinho sensato. Se não fosse teria esgotado os stocks) de modo hoje o percurso vai mais lento e mais frugal. Cada vez que me reencontro com Palma ela entra-me pela boca abaixo, pelos olhos acima, pelo espanto: chego aqui e é a primeira vez, cada vez. As mulheres continuam lindas e mascaradas mas as ruas têm hoje mais gente do que da última vez e menos do que da próxima, aposto. Palma vive e respira, apesar de estar ainda manietada. Já eu ando mais solto. O I. não tinha a Órbita pronta e a minha reacção foi je m'en fous, me dá igual, poco importa, who cares. Tê-la-ei amanhã, palavra mágica que acolhe a metade do mundo que já foi e a metade que está para ser. Tudo aconteceu amanhã, dia em que tudo vai acontecer.

.........
«Aluguei» uma BTwin ao I. (entre aspas porque se se atreve a cobrar-me seja o que for... eu pago, ponto. Sei que não vai cobrar-me nada), pedalo por essas ruas fora e sinto-me como se estivesse num tapete rolante daqueles dos ginásios: pedalo imóvel e a cidade desliza por baixo de mim, ela mexe-se, chama-me, acena-me e eu sentado imperialmente na minha burra vejo-a passar e páro em cada estação, na medida do possível. 

........
Hoje varei o P. Vi-o claramente a fazer cabriolas de alegria - também ele sente o fim próximo, já estamos na última linha do último parágrafo e qualquer dia viramos a página. Ó tempo abensonhado, como lhe chamou o Mia Couto, se não me engano. Abensonhado, tanto que eu sonhei com ele a bem, tanto que desesperei dele, tanto que o insultei e lhe rezei. Está aí, à porta, a última linha do último parágrafo deste capítulo. Não tarda começa outro.

.........
O amor bateu-me à porta e eu abri-a. Tem nome de flor e é uma flor. Deixei-a entrar e fechei a porta: daqui não sais, daqui ninguém te tira.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha - 10-06-2021

Regresso a Palma vazio de emoções. Ou melhor: vazio de emoções que não tenham a ver com esta fraude que me enche, recheia, hipnotiza, asfixia. Entra-se no aeroporto e ouve-se «A máscara por cima do nariz» e é até ao sacana do táxi, seis horas depois - por inacreditável coincidência o mesmo que me trouxe da última vez, quando tivemos quase a mesma conversa. Quase, porque na altura ainda não me pegava por sistema, como hoje tenho tendência a fazer. É um puto novo, trinta e poucos anos, mas acredita firmemente que quando a pandemia acalma é por causa das medidas e quando desacalma é porque as pessoas se portam mal. Os países protestantes talvez sejam melhor para viver este tipo de crises, não? Não sei.

A verdade é que este «vazio de emoções» não é inteiramente verdade: penso no Harry Belafonte e na «little girl» que ele deixou em Kingston Town.

But I'm sad to say I'm on my way
Won't be back for many a day
My heart is down, my head is turning around
I had to leave a little girl in Kingston Town

Penso nas «casas» que vou reencontrar em Palma: a Chinchilla (cf. infra), Lo Divino, que reabriu agora que as regras «aliviaram» (isto de as pessoas ficarem contentes com esse "alívio das regras" é como uma senhora ser violada e ficar agradecida porque o violador lhe oferece um lenço para se limpar), o Antiquari... todas, todas.

(Cena de hoje na Chinchilla: antes de me ir embora deixei vinte euros para pagar uma despesa de quatro, porque o táxi chegara e não podia esperar. Hoje, o A. deu-me o troco, que estava guardado. Foi há quase um mês...)

E assim o dia / noite vai decorrendo. Sublime jantar de boquerones fritos e involtini de pez no Divino, um Dark and Stormy que não é nem dark nem stormy e é carérrimo depois. 


6.6.21

Hipocrisia, irracionalismo

No fundo, aquilo que agora se designa por hipocrisia não passa do irracionalismo que o Ocidente erigiu em sistema de "pensamento", entre aspas porque é um oxímoro. «Tanto a Ilíada como a relatividade são filhas da imaginação», diz Veyne. Verdade incontornável, mas isso não as põe no mesmo plano. No mesmo cenário, digamos. Cenários esses que a modernidade confunde, talvez por causa do relativismo, que faz equivaler todas as verdades. Estranhamente, esse relativismo esvai-se perante sociedades que o não partilham. Isto é: todas menos a ocidental. Só defendemos as nossas opções em casa. Fora, aceitamos sem vacilar as regras do outro. Não por deferência ou educação, mas porque nos esquecemos das nossas.

On n'a pas gagné

«Ce n'est donc pas une histoire édifiante que nous racontons ici, celle de la raison contre le mythe. Car la raison n'a pas gagné, on le verra...» 

P. Veyne, in Les Grecs ont-ils cru à leurs mythes?

5.6.21

Granito, sorriso, tangível

Nada disto é simples. Quero dizer: se por exemplo deres uma volta ao mundo e regressares ao lugar de onde partiste - a chamada volta ao mundo perfeita - o lugar mudou durante a tua ausência; e tu mudaste, mesmo estando sempre presente em ti. As coisas acontecem com ou sem nós, como se não  passássemos de meras ilusões ópticas. Ou tácteis, se preferires, tu que tanto gostas de tocar, do que é tangível.

Tens, é certo, uma noção peculiar do que é tangível: um sonho, um seio, um ventre, uma vaga, meia dúzia de sílabas juntas ou separadas... Nada do que te toca te foge ao toque. Tudo o que te toca é imediatamente tangível. Há uma certa ingenuidade nisso, ambos o sabemos: acreditar que a pessoa com que agora sonhas é tangível porque o seio com que sonhas o é demonstra - estou seguro de que concordarás - uma certa inocência, uma espécie de virgindade do espírito, a lisura aquática de um lago num dia sem vento, o luar que nessa lisura se reflecte sem querer, o sonho de uma folha de árvore desse dia sem vento, o sorriso da jovem que de repente descobre que já não é adolescente e te pode esperar ao seu lado, nessa noite lisa, sem vento e prateada.

Todo este tempo a realidade limou as garras em ti mas tu não lhe sentes as marcas, envolto nessa ingenuidade tangível que construiste com o pó das garras que a realidade foi deixando em ti. Cicatrizas depressa, cais e levantas-te ainda mais depressa, sorris como se não soubesses chorar.

Tu, que tanto e tão bem choras, sorris e tocas a ausência, a presença, o mundo do qual e ao qual regressas com uma granítica e palpável certeza.


(Para os meus filhos T. e H.)

3.6.21

Abismo, gravidade, amor

Deixa-me explicar-te: amar é um risco. Só um imbecil se entrega ao amor como se mergulhasse em água de que desconhece a profundidade, sem ao menos pôr os braços à frente. Como se mergulhasse de cabeça com os braços ao longo do corpo, soldadinho de chumbo atirando-se para as chamas do fundidor. Nada disso. Amar-te é um risco porque amar é um risco mas ser amado por ti é um risco ainda maior. 

Não te esqueças: o metalúrgico está lá em baixo, a nossa espera. À espera do primeiro que caia. Mergulhemos sim, mas com precauções: passo a passo. Mais vale cair devagar no abismo, minha querida.

Verdade seja dita: não temos escolha, pois não? Conheces algum abismo que resista à gravidade? Eu não. 

Vergonha, decência, passado

Post em linha recta.

Pergunto-me se a decência de um homem se pode medir pela quantidade de coisas de que se envergonha no seu passado?

Talvez no fundo a decência não seja mais do que o cúmulo dos erros, asneiras, actos e omissões que vão ficando para trás e não se repetem por... porquê?

Diário de Bordos - Bissau, Guiné, 02-06-2021

Hoje tive sorte: saí do Kais a pensar que teria de voltar a pé para o hotel e em dois minutos pára um moto-táxi à minha frente. Hoje tive sorte: voltei ao Kais, a música era aceitável, a caipirinha "tropical" era excelente. Tive sorte: o caldo verde de caldo verde só tinha o nome e a boa vontade do cozinheiro, mas o hambúrguer era quase um hambúrguer e o vinho não era mau.

Na mesa ao meu lado estavam sentadas três jovens "não governamentais". Uma era obesa, portanto não conta, perdoem-me os inclusivistas todos. As outras duas eram giras. Há uns anos teriam sido... Como se diz em português? Caça? Terreno de jogos? Desafio? Não sei. Pouco me interessa hoje o que hoje não me interessa de todo. (Isto faz lembrar aquela fábula do La Fontaine, não faz? Faz.)

África ainda é para mim o mesmo turbilhão de há uns vinte anos. Porque aceitamos aqui o que não aceitaríamos nos nossos países: ruas que são esgotos a céu aberto, com mais buracos do que as crateras lunares, pobreza (verdade seja dita: não vi miséria, aqui), nepotismo, o desprezo das castas superiores pelas inferiores, a pesporrência, o desperdício? Porque continuamos a viver na ilusão de que as independências foram boas, que trouxeram liberdade e prosperidade a esta gente? Porque desprezamos tanto estas pessoas que alimentamos tantas ilusões? Porque aceitamos lidar com estes governos corruptos?

Hoje olho para trás, lembro-me dos dez por cento de comissões que pagava (indirectamente. A agência para a qual trabalhava ignorava totalmente que estava a fazê-lo) ao governador da província na qual decorria a operação (trinta e seis mil pessoas, entre refugiados e IDP) lembro-me de quando ele nos veio pedir quinze por cento e lhe dissemos não, lembro-me disso tudo e admiro o meu pragmatismo. Hoje não seria capaz de fazer a mesma coisa.

Isto revolta-me. Cada vez sou menos capaz de compactuar com a mentira, com a hipocrisia, com o sofrimento alheio. Deve ser a isto que se chama velhice, não sei. Se for, a velhice não é tão má como a pintam.

O meu saco de pedras - todos nós carregamos um aos ombros - aligeirou-se bastante: as pedras grandes saíram e foram fazer brita para cimento; as outras deixaram de chocalhar. Brevemente juntar-se-ão às grandes na britadeira. A verdade é que nos últimos tempos não tive grande disponibilidade para fazer muita coisa. (Quando olho para trás, vejo que a entrevista com o ministro foi ontem, só. Chamar "últimos dias" a um dia e quase meio é um exagero.)

Não sei se tudo isto vai servir para alguma coisa, mas sei que prefiro tê-lo feito a não o ter feito. Talvez no fundo seja este o critério: não sei se perdi dinheiro, se perdi tempo,  mas sei que prefiro tê-los perdido a não ter sequer experimentado. Há sempre um moto-táxi à minha espera, nos momentos mais complicados.

1.6.21

Crenças, Covid e religião

Há quem acredite que comprar bilhetes do totómilhões é um investimento razoável ou que Jesus transformou água em vinho; na Idade Média, quase toda a gente acreditava que os surtos de  peste foram debelados graças às orações e ao Divino. Há uma certa racionalidade nisto: a melhor explicação para um fenómeno é a mais fácil, a mais evidente, a que está à mão de semear, por assim dizer. Já a ciência, o método científico exigem investigação. Um cientista investiga, não crê. Põe em causa, não aceita. Por outro lado, as religiões sempre foram o antídoto para o medo. Os marinheiros eram religiosos porque precisavam de um aliado na sua faina num meio que eles sabiam ser infinitamente mais forte do que eles. O medo - um fenómeno eminentemente racional ou pelo menos racionalizável - leva naturalmente à religião, à crença de que alguém está ali para nos ajudar.

O que se está a passar com a Covid tem tudo de um fenómeno religioso: o pânico levou à crença histérica em procedimentos que são tão eficazes na «luta contra o vírus» (esta expressão faz-me lembrar «luta contra o mar», como se alguém alguma vez na vida tivesse sequer sonhado com lutar contra o mar) como as rezas dos marinheiros eram para aplacar os temporais. Não aplacavam nada senão o medo. Davam-lhe um porto de abrigo. Acolhiam-no e levavam-no para o céu. Quantas vezes com os ditos marinheiros atrás, de resto.

A crença religiosa e a crença na aficácia das vacinas têm muito em comum. Incluindo, apercebi-me hoje quando espicaçado por um amigo pró-Covid, de que a comunhão também tem duas fases, como as vacinas: a «Tomai e comei, este é o meu corpo» segue-se «tomai e bebei, este é o meu sangue». Primeira fase e segunda fase. QED.

Noite, olhar

Deixa a noite cobrir-te com um lençol, qual olhar de quem amas: não a vês, mas sente-la, leve e acolhedora como esta noite, como este lençol. 

Nota bene : feitiços

Há feitiços que não duram para sempre, mas marcam para sempre, não é?

Capirinhas, passado e presente

Há muitos anos li um livro de Luís Sepúlveda.  Pouco depois li outro. Do primeiro gostei bastante, o segundo achei uma xaropada intragável. 

Retrospectivamente, apercebo-me de que o primeiro também era uma xaropada. Há um nome para isto: retroacção,  feedback retroactivo, não é? Isto é, quando o presente ajuda a definir o passado e ilumina os nossos erros de julgamento? Claro que se pode pensar que a minha primeira apreciação era correcta e a segunda incorrecta, mas não acredito nessa hipótese. 

Nada a ver com a força do negativo. Já me aconteceu o contrário, bastas vezes. O Dersu Ouzala, por exemplo. Saí da sala a pensar "Que merda de filme" e nas semanas seguintes não conseguia deixar de pensar nele, até chegar à conclusão de que era o que é: uma obra-prima.

Luís Sepúlveda não é nenhuma obra-prima. É um chato xaroposo vestido à moda. Enganadoramente, como todas as modas fazem. (É para isso que servem, de resto.)

Não sei porque penso nisto agora, mas deve ter alguma relação escondida com as caipirinhas do Papa Loka. Como se elas servissem para me rearreanjar o passado, em vez de me ajudar, simplesmente, a interpretar o presente.

Diário de Bordos - Bissau, Guiné, 31-05-2021

A questão é simples: ou penso na glicemia e mando lixar-se a dor na anca, ou penso na anca e manda o açúcar para o raio que o parta. Faço como fez o outro com o bebê e mando os dois para o diabo que os carregue. Não vão ser uma algia idiota ou um açúcar invasor a impedir-me de viver a minha vida. Se ela tiver de ser mais curta, mais coxeante ou mais ou menos qualquer coisa, que seja. Vou ao Papa Loka beber uma caipirinha  (sem açúcar) e ando tão longe quanto consigo. O resto vai de táxi, que é para isso que eles servem.

Adenda: não precisei de táxi nenhum. Os comprimidos devem estar a fazer efeito.

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África sendo África, estou agora como estava quando cheguei: ainda não sei quando será a entrevista com o ministro. Será sempre assim: o tempo é sinuoso, por estas bandas. Como os meandros dos seus rios ou o andar das suas serpentes. Já gostei mais. Isto é: já tive mais paciência para suportar esta capacidade de nos pôr no nosso lugar. Em nenhuma parte do mundo que conheço "o que é" tem tanta força como aqui. É assim, ponto. A ideia de que se fosse diferente seria melhor não passa sequer um milésimo de segundo na mente de quem decide: é assim. Ouvir um político africano falar do bem comum (como ouvi hoje, com a ressalva de que não sei se era um político ou um funcionário) é tão risível como ouvir o Papa discursar sobre o Kama sutra. 

A lógica das interacções é diferente, obedece a outros critérios. Penso que tenho sorte, apesar de tudo: conheço essa lógica, sei interpretá-la e lidar com ela, sei que tenho stocks infinitos de paciência. Tal como sei que quero muito a este projecto, do qual tive a ideia há pouco menos de quarenta anos. Uma vida é muito tempo, tempo demais para a ceder à impaciência. 

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A vida é cara. O "hotel" onde estou (aspas para sublinhar a generosidade) custa o dobro do que custaria o seu equivalente em Portugal. As refeições são quase ao mesmo preço. Verdade que ainda não me aventurei pelos circuitos locais, mas o restaurante onde hoje jantei não deve ver muitos meninos das ONG (e muito menos funcionários das OG).

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Ninguém - nem uma porra duma anca - me tira o prazer de um passeio à noite por estas ruas largas, arejadas - há uma térmica que entra ao princípio da tarde e se esvai ao princípio da noite, mas parece-me que o vento de agora é sinóptico. Vejo a condução, muito mais ordeira do que a de Kinshasa mas mesmo assim excitante e tenho vontade de conduzir. As pessoas ignoram-me totalmente, que é o melhor sinal de segurança. Sou tão transparente como nas Caraíbas. Não há miúdos a perseguir-me nem homens a interpelar-me, há mulheres nas ruas. A tentação de deixar o modo "trópicos" é grande e cedo-lhe facilmente, com a excepção do atravessamento de ruas: aqui o automóvel tem a prioridade de um cavaleiro na idade média. 

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Foi em África que a hominização começou e a humanidade nunca parou de aqui regressar. Talvez no fundo seja na África sub-sahariana que se encontre o cerne do homem, com o que tem de pior e de melhor. A essência do homem, como diria um filósofo alemão.