28.2.10

O futuro da felicidade

Redondas de formas e voluptuosas de ideias: é assim que gosto das mulheres. Não é que o meu gosto seja muito importante, apresso-me a esclarecer - tenho claro certos limites, mas de uma forma geral até sou bastante amplo. Enfim, já lá vamos. O que interessa por agora é a história da Raquel, uma miúda gira que corresponde perfeitamente aos desiderata acima. Quando ela me começou a correr atrás - aquilo era convites para o teatro, convites para lanches na Versailles, convites para andar no barco do irmão (um Amel 54 novo como um recém-nascido) - eu decidi que aquela era a sorte grande. Rica, redondinha, sensual e - isto só o descobri mais tarde, mas não resisto a dizê-lo já - culta e com um sentido de humor como eu nunca tinha visto numa mulher.

É preciso que saibam: vivo das mulheres. Como-as, dou-lhes carinho e atenção, faço-as sentir mulheres até aos tréfonds; tudo isto em regime de exclusividade, por três meses renováveis uma vez. Em troca elas pagam-me  a renda de casa (é uma maneira elegante de pôr a coisa, porque a casa é minha, herdada e paga há pelo menos quatro gerações), dão-me de comer e beber e, discretamente, deixam alguma coisa para os alfinetes. Além disso ainda lhes dou aulas de vela (a "renda de casa" vai parcialmente para pagar um 50' de regata desactualizado que comprei em Inglaterra por uma pechincha) e - isto nunca falha - reconstruo-lhes os egos partidos por amores infelizes, maridos voláteis, ou outra infelicidade qualquer do catálogo - as mulheres têm uma fonte inesgotável de maneiras de se sentirem infelizes, graças a Deus. Não sou barato, mas nunca tive reclamações. Até já maridos vieram agradecer-me o que lhes fiz pelas mulheres.

Quando os convites da Raquel começaram a aparecer vi que aquilo ia ser complicado: por um lado eu queria-a; por outro, era preciso explicar-lhe as condições. Normalmente nessa fase sou bastante directo. Não gosto de enganar as senhoras, e sei que a minha taxa de captação de clientela é de 10 a 12%. Não me apetece perder muito tempo (nem fazê-las perder) porque findos os seis meses contratuais não gosto de passar um grande intervalo à procura da próxima (verdade seja dita que ultimamente tenho mantido o ritmo de duas por ano sem problemas. Elas passam-se palavra umas às outras. E eu ao princípio pensava que ninguém sabia...).

Enfim, a verdade é que com aquele pedacinho de bomba morena resolvi fazer de outra forma e agi à maneira do pescador de big game fishing: ora toma lá um bocadinho de linha, ora dá cá outro um bocadinho maior. Quando me chegou à porta de casa já não tinha por onde escapar, a desgraçada: se lhe tivesse dito que queria um Porsche descapotável novo todos os meses ter-mo-ia dado. Fora isto, acho que fiz tudo by the book. Ela estava um destroço, quando chegou a mim - descobrira que o marido tinha outra mulher, de casa posta e filhos, e que só estava com ela por causa das aparências ("nem sequer é o dinheiro, percebes; ele também tem, e muito. É mesmo só as aparências", explicou-me um dia - se bem eu só agora perceba por é que ela preferia o dinheiro às aparências). E eu reconstruí-a. É-me fácil: sou naturalmente terno, e gosto do que faço. Sou atencioso, bem educado, penso nelas antes de pensar em mim  - em todo o lado, cama incluída. Gosto de cozinhar e como li dois ou três livros sei fingir que sou culto (não sou, mas elas também não, regra geral. E se por acaso me calha uma que o é, digo-lhe logo que sou um boçal que mal sabe ler e escrever - essas gostam de me "cultivar"). Finjo que gosto de música boa - tornei-me um especialista no Köln Concert e nas Vésperas de Rachmaninov, que sigo como se fosse uma música de filme quando estou a fazer amor - e escrevo-lhes cartas muito bonitas, cheias de sentimento e digressões pela pele e arredores. No fundo é fácil fazer uma mulher sentir-se querida e amada: basta fazer-lhe aquilo que gostaríamos que nos fizessem a nós. Infelizmente a mim ninguém faz por causa da linha de trabalho que escolhi; mas penso que há de certeza homens a quem as mulheres fazem sentir homem sem ser só com palavrões na cama (é um clássico, mas agora não vou elaborar).

Raquel fugiu à regra: apesar de absorvida pelos seus problemas conseguia pensar em mim. Andámos juntos mais de um ano. Ela não precisava de dar explicações ao marido, pelo que vinha frequentemente a minha casa. Descobriu-me a maior parte dos truques, mas ria com eles. Fazia-me felações como nem em África me fizeram, quando lá estive. Oferecia-me livros e lia-os comigo, à noite, antes, ou (quantas vezes) em vez do amor. Era uma marinheira de primeira: foi a única pessoa com quem eu podia ir deitar-me e deixar de quarto sem ter que acordar de quinze em quinze minutos (a certa altura comecei a organizar cruzeiros no "Altair" - Madeira, Marrocos, Açores -  e ela vinha comigo). Gostava de música - tinha uma cultura enciclopédica, que ia da ópera aos clássicos da pop, passando pelo jazz - e fez-me descobrir um mundo que me encanta (é a ela que devo a descoberta de Jeanne Lee, por exemplo).

Falhei numa coisa: amei-a. Amei-a sem jogo de palavras; não é uma metáfora. É mesmo assim: amei-a. De tal forma que quando ela me deixou nunca mais olhei para uma mulher com os mesmos olhos. Hoje vivo no meu barco, numa ilha das Caraíbas. Faço day charter e à noite trabalho num bar de praia. Tenho uma miúda de 17 anos (sim, eu sei; mas isto não é a Europa e eu faço por ela o que a Raquel fez por mim: educo-a e ensino-lhe não o que é o amor, mas o que pode, ou deve, ser). Penso nela todos os dias. Sei que se divorciou, arranjou outro gajo e casou-se de novo. Proibiu-me terminantemente de a contactar. Uma vez por ano deposita aquilo que para mim é uma pipa de massa numa conta, na qual não toco (mas isso ela não sabe. As minhas mensagens vêm todas devolvidas. Uma vez tentei reenviar-lhe o dinheiro, mas uma semana depois estava na conta outra vez). A referência da transferência é sempre a mesma: "Futuro da felicidade".

Um excelente (mas triste) resumo

Aqui.

Da casa

Frequento a Galileu vai para mais de vinte anos; tenho o escritório na Ler Devagar e acho o Eduardo Pitta um dos nossos melhores críticos literários: três prémios da casa.

Declaração

Às vezes apetece-me fazer uma declaração de amor; não sei se vos acontece a mesma coisa. Quando se tem uma namorada, ou uma mulher, mesmo, casada connosco é fácil. Mas quando não se tem é mais chato. É preciso ir à caça a um lado qualquer e ter muito cuidado. Uma mulher aceita com certa facilidade que se lhe diga que se quer ir para a cama com ela; mas muito menos que se lhe diga "preciso de fazer uma declaração de amor".

De maneira muitas vezes é preciso amá-las antes de fazer a declaração. Ultimamente tenho descoberto que se a fizer antes nem sequer tenho de ir à cama: elas assustam-se e vão-se logo embora (o que, de passagem se diga, também não é o objectivo. Preferia de longe que se fossem embora felizes, contentes e satisfeitas; não assustadas).

Acho que já aqui o disse, há dois nomes femininos dos quais gosto muito: Clara e Laura. Hoje encontrei por acaso uma Clara no Café Malaca. Clara é uma velha amiga, das poucas que tenho. Conheço-a há muito tempo e ambos nos lembramos, cada vez que nos vemos, de nos esquecer que já fomos para a cama duas ou três vezes, por razões diferentes (se calhar foi por isso que continuámos amigos. Talvez).

Ela estava numa mesa com o actual namorado (já me falou dele o suficiente para eu o reconhecer). Aproximei-me da mesa onde estavam e disse "Clara, desculpa, precisava de te dizer uma coisa muito rápida"; e depois para o namorado, sem lhe dar tempo a ela de responder "importa-se que lha roube por um minuto só?" Ele acenou que sim, um bocado incomodado e ela levantou-se a contragosto. Mas peguei-lhe no braço e forcei-a ligeiramente. Viemos para a beira do rio e disse-lhe "não me interessa que sejas bonita, mas és; nem que sejas inteligente. As tuas qualidades interessam-me tanto como os teus defeitos: nada. Quero apenas que saibas que se a vida tivesse um sentido tu serias esse sentido; e que cada vez que me lembro dos teus olhos e do sol nos teus olhos vejo os olhos todos do mundo e penso que a luz existe para ti. Quero que saibas também que a superfície dos mares todos é menor do que a da tua pele, e a profundidade deles menor do que a do teu olhar. Quero que te lembres, quando alguém te disser que te ama, que eu to disse uma vez só: todos os dias, todo o dia. Quero que saibas que amor sem ti seria um substantivo abstracto e só tu lhe dás corpo; e que sem ti não existe tempo, e contigo tão pouco, porque tu és o tempo todo que foi, é e será."

Depois levei-a de volta ao namorado, apesar de ainda ter para mais duas ou três vidas com ela.

Afrodisíaco

Se eu quisesse escrever escrevia. Mas não quero. Preferi não ir jantar ao libanês porque estava cheio e não tinha lugar para  mim, e não ir ao Pavilhão Chinês beber Alexanders e não ir a lado nenhum e vir para casa ouvir  uma sonata do Bartok e pensar se os restaurantes que não têm lugar para nós não são um bocadinho como corpos que não têm lugar para nós, um bocadinho só, claro, porque ao restaurante pode sempre voltar-se ou reservar-se ou arriscar de novo e a um corpo não, não se pode. De qualquer forma a questão é saber o que desse corpo queremos, porque os corpos não vêm com menus tipo "quero as mamas mas sem coxas, por favor" ou "quero o ventre. Acompanha com quê?"; ou "ainda não sei  que vou beber. Hesito entre saliva e fluido vaginal". E essa é que é a grande chatice porque dos corpos quero cada vez menos, acho que estou a transformar-me numa espécie de asceta estilita místico-apaneleirado alcandorado numa coluna de desgosto, vejam lá a desgraça.

Enfim, tudo isto para dizer que hoje acabei por vir para casa e quando cá cheguei tinha a Laura à espera; já nem me lembrava de alguma vez lhe ter dado as chaves de casa, mas dei, claro; e hoje venho para casa a pensar em Bartok, vento e dinheiro, que são as únicas coisas em que penso nos sábados à noite quando no dia seguinte tenho regatas e vejo a miúda nua na cama a dizer-me "até que enfim. Estava com medo que não viesses sozinho". Como se ela não soubesse que o risco de não vir sozinho é praticamente zero, nunca trago mulher nenhuma para minha casa, não quero que elas fiquem com falsas expectativas - a casa é enorme, mas eu não tenho um chavo e as gajas ainda se põem a pensar que sou rico e depois tenho que as desiludir e dizer-lhes "querida, não tenho um chavo" e vê-las ir embora desiludidas.

De maneira não estava nada à espera da Laura na minha cama. Tudo nela é bom, a começar pelo nome. Quero-a toda, crua, mal passada ou passada de todo, às vezes acontece - vai comprar hasch a Sta. Catarina e fuma aquilo tudo até mal se ter de pé. Hoje não.

Fui para a cama e ela começou a chorar, muito devagarinho, muito ao de leve, muito de passagem. "Aposto que está a correr mal com o teu gajo" disse-lhe; e ela respondeu "acabei com aquilo. Não fazia sentido". "Então porque é que estás a chorar, se aquilo não fazia sentido?" "Porque não é fácil". "Não é, eu sei"; mas não me apetecia fazer-lhe amor. Só acariciá-la, mais nada, e ouvi-la chorar. A maioria das mulheres fica mais bonita quando chora, mais densa, mais consistente; não sei como dizer. Enfim, quando chora por determinadas razões, nem todos os choros servem para isso.

De modo estávamos ali os dois na cama, eu calado e ela a chorar sem fazer barulho, sem sequer tremer, nada, imóvel. Eu usava as lágrimas dela para lhe acariciar os seios, traçava círculos muito pequenos junto dos mamilos com os dedos humedecidos pelas lágrimas e não dizia nada.

"Não é fácil", disse-me ao fim de um bom momento disto. E depois: "come-me". "Acompanha com quê?", perguntei-lhe; "com o Rui?" e ela respondeu "idiota. Come-me" e pronto, ficámos por aí, no que respeita a diálogo, ou a palavras. Laura é a única mulher que conheço que sabe o efeito profundamente afrodisíaco do silêncio, ou de certos silêncios.

25.2.10

Genève, 2000 (?)


Cecil Taylor

Bartok





A ampliação do TCA tem um prazo limitado

Um dos aspectos que, a meu ver, não tem sido suficientemente mencionado quando se fala da ampliação do TCA é até quando será esta ampliação operacional; isto é, quando estará o novo terminal saturado?

Repesco aqui partes de um post de Janeiro de 2009 que é bastante elucidativo:

"Mesmo com as obras de alargamento, a capacidade do terminal de contentores de Alcântara ficará esgotada em 2018, admitiu hoje Manuel Frasquilho, presidente da Administração do Porto de Lisboa (APL), na Comissão Parlamentar de Obras Públicas."
..."

O relatório do Tribunal de Contas criticava por um lado a concessão sem concurso público; e por outro a validade das projecções sobre o qual se baseava a "necessidade" de ampliar o terminal (hoje sabemos que não são válidas por causa da crise). Mas suponhamos que a retoma é fulgurante e que as projecções ficam de novo válidas: daqui a sete anos o terminal estará de novo saturado, segundo o antigo Administrador do Porto de Lisboa.< Dado que as obras vão demorar teoricamente (teoricamente) seis anos - ou seja, vão ficar prontas em 2016 / 17 - a pergunta é: vale a pena ampliar o terminal por um ano ou dois? E se as projecções não forem válidas - para quê ampliar o TCA?

Harold Robbins

Como era, eu também, um ávido leitor de Harod Robbins, não resisto a citar este post.

Retratos potenciais

Tinha de certeza um ego hipertrofiado, para sobreviver a tanta modéstia, a tanta apatia.

Queridos

O meu teclado é bastante bom, mas como só tenho um dedo em cada mão não consigo chegar às letras todas (pelo menos dedos bons para teclar; tenho outros, mas não servem para nada). Felizmente as gajas só têm duas mamas. Se não seria uma porra. Assim consigo mexer-lhes nas duas ao mesmo tempo, e elas nem reparam nos dedos que me faltam. (Uso para as mamas os mesmos que para as teclas).

Para além de me faltarem dedos tenho mau feitio, e não sei dançar. Detesto dançar, apesar de saber que abanar o cu torna o engate muito mais fácil - suponho que assim elas podem prever o que as espera. A humanidade interessa-me pouco - e este pouco são as mulheres. Homens, creio que não há um que se aproveite; e mesmo gajas não são muitas. Gajas giras e que se calem. A maioria é um bando de tagarelas que só falam falam falam. E o pior é que querem que nós lhes respondamos. Eu aviso-as logo: é para ir para a cama e não para tagarelar; quer quer, não quer há quem queira.

Devo dizer que de uma forma geral elas aceitam estas condições. As gajas não gostam de quidos. Gostam de gajos que lhes dão luta, que as obrigam a dar o melhor delas.

Injustiça

No outro dia fui a um concerto. Era do Mahler. Sei porque é o único músico posterior ao século XVIII que consigo ouvir. E o Ravel, de vez em quando (e o Bartok, mas esse não é posterior a nada. É anterior a tudo). Era a Segunda, a que fala da Ressurreição. Mas aquilo correu mal. A meu lado estava um casal, e a gaja não parava de murmurar aos ouvidos do homem "amo-te" e merdas assim. A certa altura disse-lhe para se calar, e o gajo dela não gostou. Disse-me "cale-se você". E eu respondi "estás aqui estás a levar um murro nos cornos". Mas falei um bocadinho alto de mais, pelo que toda a gente à minha volta se pôs a dizer "schiu". O gajo tinha falado baixo, e eles pensaram que era eu que estava a fazer o escabeche. Não era, está claro. De maneira gritei "vão pró caralho!". O gajo que estava atrás de mim deu-me um calduço, com força. Ora se há coisa que eu não suporto é a injustiça. Levantei-me e enfiei-lhe um pêro. Foi aqui que a confusão se generalizou. A gaja que amava o outro começou aos gritos. Dei-lhe uma lambada, leve, de mão aberta, só para ver se a calava; mas o gajo não percebeu e disse-me "não voltes a tocar nela, ouviste?" Para além da injustiça se há outras coisas que não suporto são as ameaças estúpidas e a cobardia. Nem respondi: dei-lhe um murro com força na boca, para ver se lhe partia alguns dentes. Parti. Nesta altura a orquestra já tinha parado de tocar - foi logo a seguir ao meu grito de "vão para o caralho!" (se calhar o maestro percebia português, não sei). O gajo que estava na fila de trás e me tinha dado o calduço levantou-se e voltou a bater-me. Porra, não gosto que me batam, sobretudo quando tenho razão.

Enfim, poupo-vos os pormenores. Agora estou num quarto de hospital que é também uma prisão. Está cheio de grades e tem um polícia à porta. Eu estou desfeito: os gajos que gostam de música clássica não são todos maricas. Ou então era por serem muitos, não sei. Só sei que até chegar a polícia levei um belo arraial. Felizmente ela chegou depressa, a bófia. Eu já estava quase a desmaiar, já nem respondia aos pontapés (andava pelo chão de gatas, não me tinha em pé, e os gajos continuavam. E elas também - tenho algumas belas marcas que me foram feitas por saltos altos, de certeza).

Ao que parece o concerto recomeçou depois de me levarem. Ontem pedi a devolução do dinheiro do bilhete, mas recusaram. Puta que os pariu.

Morte, vida

"O que é que eu sei da morte?" - pergunta muita gente, muitas vezes. Eu sei. Já estive morto, sei o que é. É fácil: é como estar num quarto e de repente a luz apaga-se. O quarto não tem janelas, claro - só assim a metáfora é verosímil. A vida também não, apesar do discurso do tempo tender para o optimismo desenfreado; "positive thinking", dizem eles, muito convencidos. Não se apercebem sequer de que é um oxímoro, "pensar positivo". Ou se pensa ou se é positivo. Os dois simultaneamente é impossível.

Enfim, não era disso que estava a falar. Era da morte. Morrer é fácil: basta apagar a luz. Mais difícil é ressuscitar. Uma vez ressuscitei num hospital. Pus-me a mijar - estive em coma cinco dias e como não me puseram uma algália não mijei durante esse tempo todo.

Quando acordei mal podia andar. As enfermeiras levaram-me à casa de banho, mas só mijei quando já estava de regresso à cama. Mijei de pé e fiz um lago de mijo enorme. Elas bateram palmas de contentes que ficaram. Afeiçoaram-se a mim durante os dias do coma, suponho. Também não há outra forma de se afeiçoar a mim: quando não estou morto ninguém me atura; ou talvez seja ao contrário: vivo não aturo ninguém.

No fundo não sei se isto me autoriza a saber o que é a morte. Afinal foi uma experiência passageira, temporária. E toda a gente me diz que a morte é definitiva. Não sei. Talvez. Acho que sim. No dia seguinte uma das enfermeiras fazia anos. Convidou-me para a festa a e acabei na cama com ela. Mas foi uma merda: um bom prenúncio da vida que me esperava.

A morte dura pouco tempo: entre morrermos e esquecerem-nos é um fósforo. A vida é que nunca mais acaba, essa puta.

Emigrar

Desafiaram-me a ir para Londres. Disse que não, claro. Nunca gostei de chuva; e as inglesas cheiram mal dos sovacos. Talvez menos do que as francesas, é verdade. Mas também nunca ninguém me perguntou se eu queria ir para França, portanto isso não me incomoda muito. Sou recepcionista num hotel de cinco estrelas; não preciso de emigrar: todos os dias são como se emigrasse. E todos os dias o que vejo me tira qualquer resto de sombra de vontade de emigrar que porventura tivesse. Os meus amigos têm a mania de que os portugueses são pior do que os outros. Eu não acho. Pelo menos as nossas mulheres lavam-se, e não nos enganam como as bifas, ou as alemãs; parecem esquilas, a saltar de pau para pau. Nem tempo têm para se lavar, entre quecas. As nossas não são assim. São fiéis, e limpas.

É por isso que não quero emigrar. Gosto de Portugal - enfim, de Lisboa. Exceptuando Sintra, Cascais e Setúbal nunca saí daqui. E Vila Franca de Xira. Uma vez fui lá, por causa de uma gaja. Mas quando lá cheguei descobri que ela era casada e vim-me embora. Não gosto de fazer aos outros o que não quero que me façam. E cornos não, nem pensar. Excepto nos bifes, claro. Ou nos alemães. Isso é outra coisa. Não fazem ideia das que já comi, seja nos quartos delas, seja aqui no escritório da recepção.

É por isso que não quero emigrar. Bem sei que ganharia muito mais, e teria uma vida melhor. Mas depois, lá no estrangeiro, que mulheres viriam pedir-me para as comer? Portuguesas?

Tiro ao alvo

Tive uma adolescência difícil. Tentei apaziguá-la com whisky e Nietzsche, mas os resultados não foram satisfatórios. Hoje tenho sessenta anos e ainda lhe sinto os efeitos. A verdade é que me tornei um homem solitário, detestado pela maioria das pessoas e apenas levemente suportado por duas ou três - a quem por isso chamo amigos íntimos. Não o são, nem uma coisa nem outra: não tenho nem amigos nem íntimo. Enfim, o meu íntimo acaba nos meus pulmões. Daí para dentro, ou para baixo, ou para onde quiserem não há nada. Talvez o estômago. Não sei.

Também não sei se gosto da vida que levo: nunca pensei nisso e de qualquer forma não dialogo comigo mesmo. Não sendo esquizofrénico não tenho interlocutor. Continuo a beber whisky, claro; mas deixei de ler Nietzsche. O moralismo cansa-me, cada vez mais depressa. Acho que deve haver, algures, uma perspicácia neutra de um ponto de vista moral. Neutra, transparente (é uma metonímia para inexistente. Que se fodam as metonímias, e a moral). Claro que me podem dizer que continuo a ler Beckett e que se aquilo não é moral o que o é? Talvez, mas pelo menos Beckett é cómico. E Cioran; e esses gajos todos: Debord, Vaneigem ("en se banalisant, la vie quotidienne a conquis peu à peu le centre de nos préoccupations (1). - Aucune illusion, ni sacrée ni désacralisée (2), - ni collective ni individuelle, ne peut dissimuler plus longtemps la pauvreté des gestes quotidiens (3). - L'enrichissement de la vie exige, sans faux-fuyants, l'analyse de la nouvelle pauvreté et le perfectionnement des armes anciennes du refus (4)"). "As armas antigas da recusa". Não é cómico, isto? As novas não servem? De qualquer forma cada vez leio menos, o que é uma sorte.

Aos quinze anos o meu Pai deu-me um modelo de porta-aviões para construir. Achava fácil, e como eu gostava de aviões pensou que era o indicado. Deve ter sido a única coisa em que acertou na vida - pelo menos no que me diz respeito. Desde então nunca mais parei de construir modelos - de navios, de aviões, de soldados, de tanques, de carros, de tudo de que tenha sido feito um modelo. E comprar, também: tenho uma colecção que deixa a do Pavilhão Chinês a milhas. Todos pintados pormenorizadamente - graças a Deus nunca tive que perder tempo a foder mulheres nem a educar as crianças que daí resultam, inevitavelmente. (O que não quer dizer que seja virgem. Não sou. Até há pouco tempo ia a uma puta do Intendente, sempre a mesma, duas vezes por mês. Mas ela reformou-se e não quer foder mais. Tanto se me dá. De qualquer forma estava mas gasta do que um pergaminho do Mar Morto).

Também perdi a vontade de construir modelos. Agora, passo os tempos livres a destruí-los: comprei uma carabina de chumbos e todos os dias atiro a dez soldados; uma vez por semana acrescento dois aviões e um navio. Calculei que a este ritmo tenho para dez anos de tiro ao alvo. Depois, não sei. Talvez compre uma Walter PPK. É uma arma bonita, a PPK; e a dois centímetros é impossível falhar o pior modelo que já construí.

23.2.10

Desejo

No dia em que me roubaram a bicicleta estava a chover, e eu estava cheio de dores num joelho. Além disso estava de ressaca, porque na noite anterior tinha bebido uma quantidade razoável de Bailey's. Espero que saibam como se bebe Bailey's: com um bocadinho de whisky, muito pouco, duas gotas para cortar o excesso de doce, e uma pedra de gelo, não mais.

Foi nesse dia que a Isabel me levou a casa pela última vez: ainda me vejo a sair do carro dela curvado, a coxear e a pensar que nunca, mas nunca mais andaria com uma miúda sem estar apaixonado por ela. Já que é para sofrer, ao menos que se sofra por uma razão que valha a pena. E o desejo não é uma razão suficiente.

(Para a R., claro)

Lua

Não sei se já viram a lua a nascer nos trópicos, quando está cheia: parece muito grande, e é de um encarnado vivo, brilhante. Dá a impressão de se lhe poder tocar com as mãos - basta estendê-las. Escolhia sempre essas noites para engatar uma miúda. A partir do momento em que ela acedesse a ir para a praia comigo era fácil: a lua da-lhes volta à cabeça, toda a gente sabe. Claro que me podem dizer que se elas foram para a praia e tralalá - tretas. O que lhes dá a volta é estarem ali deitadas e ver um enorme círculo encarnado sair da água como - suponho, nunca vi nenhum - um submarino incandescente a emergir.

Foi isso que fiz com a Ângela: levei-a para a praia e fui-lhe contando histórias de coisas que não me tinham acontecido, mas podiam ter. Elas gostam de ouvir histórias, e eu de as contar; não me parece que o facto de serem  inventadas de uma ponta à outra tenha muita importância. Enfim, se analisarmos o caso de um ponto de vista da eficácia não tem com certeza: elas iam e vinham como baldes numa nora (faço esta analogia porque por vezes me sentia um bocadinho burro: sair da discoteca, levar uma gaja que na maior parte dos casos nunca tinha visto para a praia, contar-lhe meia dúzia de histórias, comê-la e vir-me embora - se isto não é como um burro às voltas numa nora não sei o que é. Verdade seja dita que, por questões de ética pessoal, nunca repetia uma história. E de esquecimento, também).

Onde é que ia? Ah, na Ângela. Era uma miúda pequena, nervosa, seca, com umas mamas muito grandes (tudo o resto era pequeno, nela. Só as mamas eram grandes). Quando eu estava a iniciar a minha segunda ou terceira história (parece-me. Se calhar foram mais) ela disse-me "ainda vais contar muitas, antes de foder? Estou a marimbar-me nos crocodilos e nos hipopótamos que mataste não sei onde. Não podias calar-te e foder-me, por favor?"

Infelizmente, a resposta foi "não".

Política

Não sou muito de manifestações, greves, movimentos colectivos, "futuros radiosos" ou "novos homens". Não gosto de engenharia social, de activistas - sejam eles monárquicos, de esquerda, de direita, a favor ou contra os animais, contra as marés ou por uma lua cheia aos fins-de-semana. Por isso, quando conheci a Anabela e me apaixonei por ela - foi quase simultâneo - sabia que estava a fazer uma asneira.

Anabela era sindicalista, dirigente de um partido de extrema-esquerda e professora de sociologia numa faculdade pública, boa. Conhecia-a porque veio ter aulas de ténis comigo. Ao fim da terceira lição eu estava completamente colhido por ela. Já o contrário demorou um bocadinho mais - e exigiu, sobretudo, que me calasse com as minhas piadas anti-esquerda, anti-maricas, racistas e machistas. É verdade; espero que não me confrontem muitas vezes com esta admissão: calei-me - ou melhor, mudei - por causa dela.

Era muito grande, mais alta que eu; loira, com um corpo ginasticado, tenso, elástico. Foi muito difícil convencê-la a ficar comigo mais do que a primeira ou segunda vez de cama. Todas as nossas conversas iam invariavelmente parar à política - até que eu tomei a decisão de não tocar no assunto, nunca mais. Anabela tinha um certo ascendente sobre mim, reconheço-o sem dificuldade de maior. Era eu que a amava; ela deixava-se amar.

Uma noite estávamos na cama e fui-me abaixo. Fiz-lhe uma observação - é verdade que totalmente gratuita, inútil, não provocada. Mas inócua; qualquer coisa do género "este palerma do [segue-se o nome de um sindicalista qualquer] só diz asneiras". "Imbecil", retorquiu.

Eu tinha um ano de pressão para sair. Comecei a bater-lhe - murros e pontapés, só. Mas foram muitos, é verdade. Só parei quando ela estava morta - os polícias que me invadiram a casa é que mo disseram, porque eu continuava a bater-lhe. Não sabia que se pode matar alguém com murros e pontapés, mas parece que sim.

Elevador da Glória

Não cabe na cabeça de ninguém cair de bicicleta num dia de chuva. Foi porém o que me aconteceu hoje de manhã. Estava atrasado e resolvi descer a Calçada da Glória. Por azar, apanhei o elevador a subir e quis desviar-me dele. Não consegui e caí. Magoei-me bastante, mas o pior foi o vexame: o elevador estava cheio, e aquela gente toda a olhar - saíram todos e precipitaram-se para mim; feriu-me mais do que a queda, claro.

Madalena começou por afastar toda a gente: "eu sou médica. É melhor afastarem-se. Eu trato dele. Senhor condutor, é melhor continuar a sua viagem". O wattman aceitou, visivelmente aliviado. Quando estávamos sozinhos disse-me "continuas o mesmo idiota, não é? Como é que te lembras de descer isto de bicicleta? Deixa-me adivinhar - estavas atrasado".

Madalena viveu comigo dez anos. Sei que não vale a pena contrariá-la, sobretudo quando tem razão. E não, não é médica: é dona de uma agência de publicidade. "Consegues levantar-te?"

Levantei-me a coxear, cheio de sangue e de óleo dos carris. Não estava atrasado: sabia que ela apanhara aquele elevador - paguei a um miúdo, filho de um amigo meu, para me dar um toque no portátil quando a visse entrar no elevador. A queda foi propositada; não funcionou: quando lhe pedi o número de telefone ela respondeu-me "nem penses nisso". O pior, como disse, foi o vexame.

Voltar atrás

Vamos voltar atrás e recomeçar onde ficámos, queres? Eu chego a casa, ponho o chapéu no sítio do costume, tiro o sobretudo; tiro os sapatos. Vou à cozinha dar-te um beijo; pergunto-te se queres ajuda e tu dizes "não, obrigada, está tudo pronto. É só pôr no forno". Volto para a sala e vou ao bar preparar um whisky. Pouco depois tu vens para a sala, ainda a limpar as mãos ao avental. Dizes-me: "o lombo de porco está no forno. Está pronto daqui a três quartos de hora. Fi-lo com mostarda e salsa, como tu gostas. Eu vou-me embora".

Começo por não perceber. "Vais-te embora?" "Vou." "Não percebo. Vais-te embora como, porquê, para onde, como? Quando é que voltas?" "Não volto. Vou-me embora. Vou deixar-te". Como sabes não gosto de lutar contra o que é, quando me parece que é e não pode ser de outra forma. "Está bem. Adeus" e continuei a beber o meu whisky. Tu foste-te embora e nunca mais te vi. É aqui, se não te importas, que gostaria de rebobinar e começar de novo. Assim, por exemplo:

Tu vens para a sala, ainda a limpar as mãos ao avental. Dizes-me: "o lombo de porco está no forno. Está pronto daqui a três quartos de hora. Fi-lo com mostarda e salsa, como tu gostas. Fazes-me um gin tónico?" Levanto-me e faço-o, como tu gostas (é - ou melhor, era - um ping pong permanente, "como tu gostas"), com bitter Angostura. Tu sentas-te no braço do sofá e dás-me um beijo.

Ou:
Tu vens para a sala, ainda a limpar as mãos ao avental. Dizes-me: "o lombo de porco está no forno. Está pronto daqui a três quartos de hora. Vamos para a cama?" E eu respondo "sim" e vamos para a cama.

Tudo, menos "está bem. Adeus".

22.2.10

Esoterismos

A ampliação do terminal de contentores de Alcântara não é um assunto esotérico que afecta meia-dúzia de pessoas. É um problema que nos afecta a todos - especialmente, é certo, a quem mora em Lisboa e em Sines (ou outro porto onde se pudesse construir um termina deep sea). Não se devia utilizar aquela área sem se saber qual a melhor utilização a dar-lhe - em vez de se decidir, por inércia, amiguismos e incompetência, que só serve para contentores.

Lisboa talvez precise, não sei, de um terminal deep sea - atenção, não estou a dizer que não precisa de um porto de contentores: estou a dizer que talvez não precise de um terminal deep sea. Há outros - mas não precisa, isso é garantido, dele em Alcântara, a dois quilómetros do centro da cidade e do que se pretende venha a ser um museum district.

Terminal de Contentores de Alcântara

Paulatinamente. e com a cumplicidade de partidos políticos cujos cartazes ainda adornam a zona, a ampliação do Terminal de Contentores avança. Agora é o edifício Vasco da Gama (onde está o IPTM) que se prepara para ser demolido.

Este projecto insensato, grotesco, absurdo (excepto claro para os funcionários da APL, que preferem dar cabo de uma cidade - ou pelo menos não maximizar o retorno das infrastruturas existentes - a mudar) avança. Um dia acordamos e é demasiado tarde.

(Também aqui.)

Perfume

Falta perfume a este blogue. Fahrenheit.

Franco

Não deve ser a primeira vez. Não será decerto a última.

"Na yo te"




"Aya la' mode"

Palavra

Quando começo a ouvir alguém dizer muitas vezes "amo-te" sei que o fim está perto. O amor começa com perguntas e acaba com afirmações.

"Ela disse que sim"

Hoje ouvi isto no O'Gillins.



É uma das canções em português de que mais gosto, e é uma boa maneira de acabar esta noite, tão comprida.

Música

A Luísa tem aqui um post muito bonito sobre a música. Fez-me pensar em Nietzsche: "sem música a vida seria um erro". Quase se pode virar do avesso: sem vida a música seria um erro.

Flecha, nada

Lembro-me dela: vibrava como a corda de um arco. Eu era a flecha. Ou melhor: tinha a flecha; eu não era nada.

Français, mains, tendresse

Il est vrai que j'aurais pu te dire tout ça en français. Mais si les choses ne font pas de sens en portugais, pourquoi le feraient-elles dans ta langue, si belle fut-elle? Comprends-moi: il est évident que le français permet des tournures de phrases d'une beauté ahurissante. Peut-être les sentiments les suivent-elles, ces tournures si inattendues; je n'en suis pas sur. Je préfère m'en tenir à ce que je connais: le vide, la peau, la tendresse. Et pour te dire celles-là point n'est besoin d'une langue. Deux mains suffisent.

As coisas, e o amor são o que são

Seria preciso dizer-te uma quantidade de coisas; não tenho tempo nem talento para todas. Espero que me perdoes. O disco do Waldemar Bastos que há pouco ouvia é uma merda, por exemplo. Prefiro de longe o do Salif Keita que agora oiço. Chove e faz frio, outro exemplo: estou farto do frio, da chuva; mas sou incapaz de me sentir revoltado, porque as coisas são o que são, e de todas elas a que mais é é o tempo - nada ou quase é mais do que o tempo que faz; ou tu, que és como és e és quase a vida toda, os dias todos.

As coisas são o que são. Revoltarmo-nos é quase tão fútil como esperarmos que o tempo mude por causa das nossas imprecações. Ou como encontrar razões para o amor. Não há no mundo metáforas capazes de explicar o toque de uma pele, um olhar, um "ah" num dado momento. Porque a ausência dessa pele, a memória desse olhar ou a do suspiro fazem o mesmo efeito: o amor, tal como as coisas, é o que é. E fora dele, ou delas, nada é. 

Amor, sentidos

O amor explicado a quem está por fora não faz sentido. O que é pena, porque ele é uma questão de sentidos, não é?

Frases bonitas

"Te voir me tarde aussi". A língua francesa tem coisas destas, de uma beleza fulgurante, inesperada mesmo ao fim de 30 anos. É como dobrar uma esquina e ouvir uma deusa dizer-nos "estava à tua espera".

Eles não sabem

As pessoas que ao domingo não vão ouvir Mila no O'Gillins não sabem o que perdem. Sorte a delas.

21.2.10

O futuro e a moda

Diz-me um amigo que, segundo um guru que anda a ler, o futuro será dos sovinas. Estão enganados, o guru e o amigo: o que é dos sovinas é a próxima moda. O futuro é, sempre foi e será sempre, dos visionários, excessivos, desajustados, dos que se enganam hoje porque vivem no amanhã, dos que quando olham para qualquer coisa não vêem o que ela é, mas o que ela poderia, ou deveria, ser. Há uma diferença grande entre moda e futuro, que não deve ser esquecida, nem escamoteada.

Um blogue abrangente

Este blogue sempre se quis abrangente, é certo. E devo ter conseguido: hoje chegaram-me cá pessoas através de "como comer um cu", "domingo cioran", "lichies", "pergolesi stabat mater", "o vinho e gripe" e "frango guisado".

20.2.10

Carenas, carinho

Ao contrário de carinho, que é a face visível do amor, uma carena é a parte da embarcação que está debaixo de água. Tal como as pessoas necessitam de ser acarinhadas, uma embarcação precisa de ser carenada (menos frequentemente, é certo).

Carenar uma embarcação é um conjunto de operações que consiste em encalhá-la (é um termo genérico para uma embarcação fora do seu elemento), lavá-la para lhe tirar a vegetação que se vai agarrando ao casco, prepará-la para levar uma nova camada de tinta anti-vegetativa e - finalmente - pintá-la.

Aproveita-se uma carenagem para verificar e trocar, se necessário, os zincos; e verificar o estado do fundo, do leme, do patilhão, do hélice e - qaundo é caso disso - do veio,  da aranha e da parte exterior do bocim. Para uma pessoa que tomou recentemente conta de uma embarcação a primeira carenagem é um momento especial - é a primeira vez que a vê toda ("nua" ocorre quase imediatamente, não é?); é a primeira vez que lhe vê as formas e confirma ou deduz coisas do seu comportamento na água; e pode deduzir também, pelo estado geral do fundo e em particular da quilha, se a embarcação foi bem tratada, se já alguma vez encalhou violentamente.

Carenar uma embarcação é uma forma específica do carinho - e tão importante e necessária como ele.

19.2.10

Analogias

Se alguém precisar de uma analogia fácil para explicar a uma criança o que é o cancro, sugiro os automóveis em Lisboa: aparecem não se sabe de onde, invadem tudo, não param de se multiplicar e ninguém sabe como tratar deles. (Enfim, é aqui que a analogia falha: no caso dos automóveis deveria dizer-se "ninguém quer tratar do problema".)

Uma sequência de falsidades



Aquele "pela PT" diz tudo. Só não percebo é porque dizem os jornais (aqui, por exemplo) "uma declaração ao país". O homem dirigiu-se, se ouvi bem, aos "senhores jornalistas".

"Disfuncionar"

18.2.10

Caminho, palavras

Penso em ti, e nas palavras que a ti me levaram. Um longo caminho claro, obscuro, ao sol e à sombra; sempre à beira da falésia, à beira da água. Penso também nas que me trouxeste: amor, beleza ... banalidades que deixaram de o ser porque me chegaram por ti, de ti. 

17.2.10

Escrita, melancolia

Ao contrário do que frequentemente se pensa, um estado de extrema tristeza não ajuda à escrita. Nada como uma ligeira melancolia, uma contrariedade indefinida, uma impossibilidade.

Para quem pensa que não é fácil filmar vela

Intensity & Intricacy On the Water from Wing Productions on Vimeo.


(Não é).

Um vs. outro

Há quem seja tentado a ver, na esmagadora vitória de Larry Ellison sobre Ernesto Bertarelli, uma vitória da desmesura, do excesso, do pensar ao lado (ou à frente), dos visionários sobre os comedidos, os racionais, os moderados.

É uma tentação à qual é difícil de resistir. Mas a verdade é que se deve ter em conta que Bertarelli ganhou duas Taças em condições excepcionais.

16.2.10

Gostos não se discutem

Gosto de cartas geográficas e de dicionários. No fundo, são a mesma coisa.

Vida sobre vida

Viver para sobreviver, ou sobreviver para viver?

Abaixo o calvinismo

O pedinte tinha um cartaz que dizia: "As minhas necessidades básicas estão cobertas. Mas preciso da sua contribuição para ser feliz. Ajude-me a comprar uma Leica".

Razões, vida

Há muitas razões para se morrer, e uma só para viver: não ter acabado o que se começou.

Probabilidades

Especializou-se em calculo de probabilidades. Sem muita dificuldade: eram sempre contra. 

Êxito

Eu também acho. Mas sucesso sucesso ilimitado seria exportá-lo a ele.

"Sócrates: Nomeação de Vítor Constâncio é um “êxito” da diplomacia portuguesa"

Notícias da frente floral

Imagina: os jacintos estão - parece-me, temo, tudo indica - a ir desta para melhor. Pujantes pujantes estão as scilas. Quem diria? O inesperado vem sempre de onde menos se espera, não há dúvida! 

15.2.10

Sono

É uma bênção, uma sorte, um até-que-enfim sem fim.

After dinner joke

"Um país que exporta Constâncio devia ser capaz de exportar qualquer coisa".

Risco

A aversão ao risco da maioria dos investidores portugueses é conhecida (e em alguns casos reconhecida, de passagem se diga). Se eu trabalhasse no marketing dos Jogos da Santa Casa faria um produto especial "Investidor Português". Qualquer coisa no género "compre o bilhete; só paga se for premiado".

[O problema, claro, é que algo me diz que este método, aparentemente tão racional, não tem os mesmos resultados do que o de outros, mais afoitos].

14.2.10

33

It's over. Esperemos que a próxima seja mais a sério. A America's Cup já passou por muitas, e algumas piores que esta.

Av. Fontes Pereira de Melo


Alguém me sabe dizer porque é que este prédio, numa das zonas nobres da cidade, está a degradar-se há anos?

Londres como deve ser (vista)

Aqui.

[E não só Londres]

Vai uma espontânea, querida?

Dias

Hoje é dia da "disfunção eréctil". Parece que é anual. Não devia ser: um por vida já é de mais.

Anúncios de emprego

Uma pessoa olha para o estado do coiso e pergunta-se se nos anúncios de emprego para políticos não se devia privilegiar a falta de experiência.

Infelizes, tadinhos

O grande problema dos infelizes, tadinhos, não é a infelicidade; é não saberem o que fazer para ser felizes.

Anjos e demónios

- Uma queca de anjo.
- Os anjos não f....
- F... f...; de outra forma seriam demónios, não seriam anjos.

13.2.10

Sabedoria velha

"Quem pelo ferro mata pelo ferro morre". Tenho a impressão de que Sócrates vai pensar nisto, de vez em quando. Ou devia ter pensado.

12.2.10

Aquecimento global

Frio local.

"A pergunta simples que se impõe"

O Snob e James Bond

Tinha, e tinha-te, prometido que nunca mais voltaria ao Snob. "Nunca" é uma asneira. Até o James Bond sabe.

Fragmentos antecipados

"Não sei. Nunca estive do seu lado da barricada. Mas sempre estive no outro lado de uma qualquer barricada". "Não têm o mesmo peso", dir-me-á. "Talvez. Mas hoje ouvi, no meio que V. denuncia, piadas sobre gays, monhés e outras duas ou três categorias que não retive, porque o assunto não me interessa o suficiente".

Todos nós somos os monhés, ou os gays de alguém. Que se fodam - os monhés, os gays e - sobretudo, muito sobretudo - os alguéns. Só existem pessoas; alguéns não passam de aglomerados de merda, comentados por merdosos.

SOL & Polvo

Amanhã (enfim, logo) vai ser um dia de SOL.

Lisboa, Lisbonne, Lisbon

Lisboa é uma cidade na qual se deve viver como se se fosse estrangeiro. É a melhor (ou única?) maneira de usufruir desta cidade mágica, abençoada, magnífica.

(Post dedicado à Luísa, à última da hora).

Interesses

A luz é tão interessante como a sombra; o enraizamento como o desenraizamento; o sol como a chuva.

Os gays e os outros

Cada vez me é mais dolorosamente incompreensível: porque querem os gays ser como os outros? Todos nós somos "os outros" para alguém.

Objectivos cruzados

O objectivo não era embebedar-se. Era dormir.

Fumo na água

Deep Purple - Smoke on the water

Easy meat

Frank Zappa

Vida, breve descrição

A qualidade do filme varia; mas os cactos no deserto não mudam.

A tinta e a vida

Um gajo quer escrever e falta-lhe a tinta na caneta. É uma porra: sem ideias é possível escrever; basta dizer meia dúzia de patacoadas; agora sem tinta. Patacoadas nunca faltam; tinta sim. O sono saiu de mim e foi dar uma volta não sei onde (ao Snob, provavelmente, dada a hora). Podia escrever sobre ele, ou os seus passeios, que o levam sempre para onde não estou.

Nunca estou onde ele está; nem onde estás, tu que és a melhor fonte de sono e o destino dele todo. Ou eras, agora que ele se foi embora e me deixou entregue à transparência da noite sem sono, sem ti, sem amanhã.

Não vale a pena disfarçares: sabes perfeitamente que sem ti a vida não passa de um longo arrastar do tempo. Sabes. Tu és o soluço no tempo que faz do tempo uma vida. A tinta na caneta da vida.

10.2.10

Retratos da vida quotidiana

O homem (e mestiço escuro. Não sei se nestas circunstâncias acumula) está sujo, com uma roupa imunda e cheia de buracos. Tem um aspecto patibular, fechado, escondido atrás de uma barba maltratada, olhos semi-cerrados e já de si pequenos. Mas abre a porta à tia de Cascais (deve ser sobrinha: as tias não andam de comboio). A qual não lhe agradece o cavalheiresco gesto - não olha para ele, sequer; não o vê. Como se ele fosse transparente.

Um grande micro-momento de maxi-lusitania

- Cuidado, olhe que estes jornais aqui de cima estão a molhar-se.
- Eu sei. É por causa da chuva.

Rangel

Este blog não é muito dado a dependências, sejam elas do que ou quem for; nem a apoios, "fans", partidos, zeitgeists, etc. É um blog furiosa, quase doentiamente independente.

Mas apoia sem qualquer reserva a candidatura de Rangel à presidência do PSD.

Retratos possíveis

Era tão previsível, tão previsível que quando se atirou da ponte abaixo os bombeiros esperavam por ele cá em baixo.

Serviço público - Restaurantes Lisboa

O restaurante O Pitéu, no Largo da Graça, 95 - 96, é um daqueles restaurantes clássicos portugueses cujas iscas são excelentes, como os restantes pratos tradicionais; a lista de vinhos aceitável e o serviço simpático e atencioso (pelo menos para os não-fumadores).

Escrever

Um tecto que se desfaz, uma porta que não fecha, uma voz que não se ouve, um corpo que não se sente, um olhar que não nos vê.

Escrever é isso, suponho: transformar nãos em sins.

Sono

O sono chegou, finalmente. Só é pena que não tenhas vindo com ele. Ou ele de ti.

McLife

  • McLove, 
  • McFast, 
  • McSmile, 
  • McWords,
  • McRun, 
  • McCaress, 
  • McRegard, 
  • McTouch, 
  • McYes, 
  • McNo, 
  • McFuck, 
  • McTits,
  • McTenderness,
  • McNight,
  • McReading,
  • McMusic,
  • McTomorrow, 
  • McForever.

Limiares, palavras

O limiar da dor é quando deixa de haver palavras para a nomear, quando deixa de ser dor e não se sabe como lhe chamar.

Adjectivos

- Não gosto da palavra "relação" - dizia-me um amigo, preocupado.
- Eu gosto - respondi. - Desde que acompanhada por alguns adjectivos, claro: estimulante, sensual, meaningful, leve...
- Pára - suplicou-me. - Também não gosto de adjectivos.

Precoce

Anda por aí uma campanha a dizer que 25% dos homens sofrem de ejaculação "precoce". Todas as ejaculações são precoces.

Fragmentos

"Não te esconderei nada: nem a raiva, nem a impotência, sua mãe".

Palavras

Acarinhar as palavras, amarinhar por elas acima, apertá-las como entre duas coxas, beijá-las quentes, redondas e húmidas, penetrá-las, acariciá-las ao longo do braço que as escreve, olhá-las nos olhos que as lêem, murmurá-las aos ouvidos que as ouvem.

Multiculturalismo

Ir a um restaurante chinês e ver pessoas a comer de garfo e faca é tão estranho como ver um chinês comer bacalhau com pauzinhos.

Recado

Se fores à loja onde comprámos os jacintos, podes por favor comprar-me mais flores? Mais um monte delas, não sabes o bem que ficam naquele espaço imenso, que sem ti, e sem as flores, é um vazio cósmico. Compra o que achares que fica bem, não interessa: do que preciso é cor, cheiros, formas - o que tu me davas, não é? (Preciso também da necessidade de olhar por elas, regá-las; e assim).

¡Qué vaya! Saber que não te esquecerei é quase tão bom como ter-te sabido.

Gratidão

"Estou-te grata: pelo menos puseste-me no clube das mal-fodidas, o que sempre é melhor do que aquele onde estava antes de te conhecer: o das não-fodidas".

Genéve, contra luz (telefotos)








Fragmentos

"Gostei muito de Blade Runner, daquela visão "realista", caótica, suja do futuro; tão diferente do futuro asséptico, higiénico, ASAÉptico que nos querem servir..."

Incerteza

Vivemos todos, sempre, na incerteza. Total, absoluta, inelutável, universal. Alguns sabem-no sempre; outros só se apercebem às vezes.

9.2.10

Lisboa, Princípe Real








Restaurante, Rabat









Em Rabat, quando me queriam impressionar ou agradar (andam sempre de mãos dadas em todo o lado) levavam-me ao TGIF, que tinha acabado de abrir. Eu pedia-lhes "levem-me a um restaurante marroquino", mas eles não percebiam. Um dia viemos aqui. Foi o meu restaurante favorito em Rabat, mas dizer isto soa quase a falso, a "m'as tu vu".

Paris












"A repetição é um recurso do estilo"(Nuno Júdice).

(Devia ser o título de todos estes posts, eu sei).

Genève, 1er Août






Genève



Um beijo e uma linha. Que todos os beijos fossem tão lineares, tão direitos, tão sem dúvidas.







"Elle pue, la nature"

A ler

"O Socrates e', nisto tudo, de somenos importancia. Como a Ana Sa Lopes resumiu, brilhantemente, ele esta' ligado 'a maquina, com os dias contados. O mais grave e' indicio mais que poderoso de que o estado de direito nao existe em Portugal, nao por ter havido uma violacao do segredo de justica, mas por se ter provado a falta de independencia do PGR, e depois do Presidente do Supremo, nisto tudo."

Aqui

Deliverance

8.2.10

Post-socratismo

Vai ser giro, daqui a alguns anos, ver como é que certas pessoas justificarão o seu apoio a Sócrates.

Fragmentos

"...quando descobrirmos (tu, eu ou nós) que o nosso tempo acabou. Até lá, meu amor, estamos vivos, livres e abençoados."

Todos pela liberdade

7.2.10

Amor, idade

"A. já não tem idade para estar apaixonado", diz-me B. Está enganado. A. já não tem idade para não se apaixonar. Não há melhor amor do que o de quem já passou por muitos, e sabe que poucos lhe restam.

Jantar reciclado - frango com banana-pão

O objectivo era aproveitar as bananas-pão que sobraram de um outro jantar. Uma busca na net propôs várias possibilidades, na sua maioria dos Camarões ou da Costa do Marfim (fiz a pesquisa com o nome francês da coisa, banane plaintain).

Optei pela mais simples: frango com banana-pão, Creio que dos Camarões, mas não tenho a certeza.

Numa panela dourar um frango cortado aos bocados. Juntar toucinho em cubos pequenos, cebola picada e tomate cortado em pedaços. Salgar, pimentar, juntar um copo de água grande e deixar cozer em lume baixo.

Enquanto o frango (ou galinha, deve ficar melhor. Se bem eu o tenha feito com um frango do campo e não me queixe) coze, descascar as bananas-pão, cortá-las ao meio e cozê-las em água com sal cerca de meia-hora.

Juntá-las ao frango e deixar cozer 15 minutos. Servir com salsa picada.

O prato é delicioso, apesar de algumas entorses que fiz. Como condimentos: cravinho, pimentão doce, cominhos moídos, curcuma (açafrão das índias).

6.2.10

Uma boa notícia ( e um grande ponto a favor de Cascais)

O bar - restaurante Skipper, na Marina de Cascais, está nas mãos dos meus amigos Fernando e Gonçalo. Boas mãos, boa gente. A frequentar, imperiosamente.

Darwinismo pessoal

Em que direcção vai a humanidade evoluir? Não sei. Mas se pudesse ter uma palavra no assunto, orientava-a no sentido de o whisky fazer bem à diabetes, ao excesso de peso, à queda de cabelo, à surdez, às articulações, às dores de estômago, à falta de cálcio, às cãimbras, às gripes, constipações e amigdalites, à miopia e aos diferentes tipos de cancro; em vez de só fazer bem ao coração e à cabeça, como agora faz.

Dançar

"Sabes dançar?", perguntou-me. Era uma loura espampanante, vestida com umas calças de couro muito justas e uma camisola de lã cor-de-rosa clara (por baixo dos seios ficava mais escura, porque eram grandes e a luz vinha de cima). "Depende: há um intervalo entre quando já bebi o suficiente e ainda não bebi demais em que danço razoavelmente". "Uma espécie de lusco-fusco?" "Exactamente".

Olha,

não sei se já te disse. Não sei sequer se vou dizer-to. Há coisas que não sabemos se aconteceram; como poderíamos contá-las? E o que aconteceu entre nós não aconteceu, pois não? Não aconteceu nada. E não poderei dizer-te o que quer que seja. Aliás: quererias ouvir - isto caso tenhas existido, claro? Ainda hoje estou para saber. Ainda hoje estou por dizer-te. Ainda hoje estás por ser.

Visionários

Um visionário é um tipo que olha para qualquer coisa e vê o que ela vai ser. Um realista vê o que ela foi. Portugal (como todos os países pobres, ou de pobres) é um país de realistas. O pior é que odeiam os outros, o que é chato.

Imagem

Umas saias até ao tornozelo, a sugerir "amanhã?"

Saias

É bom ver estas saias curtíssimas com collants por baixo. Imaginem como vai ser no verão.

Migração

A migração (i- e e-) é simultaneamente um direito inalienável e um problema. Escamotear qualquer uma destas componentes é um erro.

5.2.10

Sem dúvida nenhuma

Razão

Isto de ter sempre razão antes de tempo é uma verdadeira maçada. Cansativo, mesmo.

"Estudo desaconselha dispositivos de ar quente para secar as mãos".

Beleza simples, límpida, comovente



(Daqui)

O fim da linha

É importante comprar o Sol de hoje. Quanto mais não seja, vai ser interessante ver a malta da esquerda a defender aquelas coisas com o argumento de que são "conversas privadas".

(A propósito: até que enfim que leio uma crónica de VPV com a qual não concordo).



4.2.10

Prazeres

Um dos grandes prazeres do futebol, para mim, é a oportunidade que me dá de ler textos dos quais não percebo rigorosamente nada.

Jardins apalhaçados

Esta história de minimizar a Lei das Finanças regionais porque "são só 80 milhões" é um erro. Alguém devia dizer "Basta" àquele palhaço.

Magia

Do lado de cá há luz e muros, paredes, um passeio que se acaba; do de lá, não sabemos. Só há coisas que não existem, se calhar; ou existem e não as vemos - mesas, cadeiras, uma cama, um fogão. Fruta no aparador da sala; ou talvez uma garrafa de ginginha e dois cálices, usados à socapa pela empregada. Mais vale ficarmo-nos pelo lado de cá: pela luz, pelos ramos nus, pelos muros onde tantas vezes alguém foi decerto namorar; pelo passeio, que no Outono se cobre de folhas.

Não vamos para o que não se vê, pelo que não vemos. Não saltamos o muro, não entramos no quarto (estará alguém a ver televisão sentado na borda da cama?). Ficamos presos no lado aberto da fotografia, e deixamo-nos errar livremente pelo que está fechado.

Mas despachemo-nos: amanhã o sol vai-se embora, ou alguém virá trazer um cão a passear; um casal de namorados reconciliar-se-á, e voltará a sentar-se no muro, iluminado pela fraca luz do candeeiro. Despachemo-nos: amanhã as linhas não serão tão perfeitas, a luz tão seca; as cortinas estarão abertas, quem sabe?, e a vida deixará de ser magia e tornar-se-á visível, palpável.

Dramático

O Ministro da Economia, o Primeiro-Ministro e até João Pinto e Castro dizem coisas e assim e os investidores não os ouvem. Continuam a prestar mais atenção às agências de rating.

Escrever

Escrever é uma actividade excelente, sobretudo quando não há nada melhor para fazer.

Produtividade

Os músicos do barroco eram decerto pagos à nota; os minimalistas são à hora.

Cx vs. Lx

Uma pessoa vai ouvir os King Mokadi ao O'Gilins numa quarta-feira à noite e pergunta-se como é que ainda há gente a viver em Cascais.


Futilidades

Fui ao pub. Só havia lugar na mesa de duas mulheres feias. Felizmente estavam acompanhadas por dois homens muito bonitos, smart, yuppies, a transpirar bem estar e boas carteiras. Ainda bem: se há coisa que detesto é correr o risco de ter que dizer que não por motivos completamente fúteis.

Excessivo

Prometi parar com os excessos, mas acho que fui excessivo.

Biografia expresso

Passou a vida toda a crescer. Quando era crescido morreu.

3.2.10

Chuva, calor

Está a chover, outra vez. Os jacintos estão cada vez mais tortos, e mais castanhos. Não sei o que lhes fazer - se ao menos apontassem para sítio que se visse. As scilas estão a sair, calmas e azuis, pequeninas. Continua frio, apesar dos múltiplos aquecimentos que fui encontrando, comprando, bebendo. O frio é um país de gente rica.

Em breve o sol passará do Equador para cima. Não sei o que farão os jacintos então, nem as scilas; para onde apontarão. Mas sei que para mim tudo será mais fácil: o calor é o melhor amigo dos pobres.

Alguém se lembra disto?



(Via Au Large)

A reter, visitar, apoiar

Amigos do Príncipe Real.

2.2.10

Inferno

Se alguém me perguntasse o que é o inferno eu responderia "esperar".

(PS - e se fosses tu a perguntar-me eu diria "esperar-te". Mas por gentileza, só por gentileza.)

1.2.10

Uma boa notícia

Confissão

Recentemente utilizei a palavra "panilas"; deitei no contentor do lixo doméstico as garrafas de vidro; chamei "grunho" a um preto (por acaso é um amigo, um bocadinho mais do que amigo - é um irmão. Mas enfim, é preto e eu chamei-lhe grunho); duvidei em voz alta da origem antropogénica do aquecimento global, e das suas terríveis consequências; defendi os judeus contra os palestinianos, a quem (como se não fosse suficiente) acuso de selvagens, machistas, corruptos e sabe Deus que mais; preferiria que houvesse duas grandes potências no mundo, mas a haver só uma acho melhor que sejam os EUA do que a China ou a União Soviética; e acho, digo e escrevo que os "alterglobalistas" e os "verde eufémias" são bandos de atrasados mentais, criminosos, reaccionários cujo lugar é num tribunal, a defenderem-se; só há pouco tempo comecei a gostar de árvores (ou pelo menos a ser-lhes sensível à beleza) - e foi preciso uma flor, vejam lá; e (não sei se ouso dizê-lo em público) prefiro qualquer whisky a um Licor Beirão, ou a salada.

A quem devo confessar estes pecados todos, alguém me pode dizer? Ao menos a Santa Madre Igreja tinha essa vantagem - e tem, para quem acredita: sabíamos a quem confessar os pecados. Porque isto do tribunal da opinião pública é uma chatice muito grande, acho eu (não que seja uma vítima, longe disso). Tenho um bocadinho mais de respeito pelos interditos da igreja do que pelos do zeitgeist, apesar de tão pouco lhes obedecer: prefiro saber a quem desobedeço, é tudo.

PS - e não me atrevo sequer aqui a dizer o que penso (e digo) da maioria dos Governos africanos.

Os dias da semana

Hoje é segunda-feira, imagina. Não parece nada, pois não? Está frio como se fosse quarta ou quinta; e triste como só as sextas sabem sê-lo - pelo menos de manhã. As segundas costumam ser dias bons, o regresso ao - e do - trabalho. Hoje não. Foi um dia triste, chato, doente. Nem parece uma segunda-feira.

Será que isto está a ficar tão mal que até os dias da semana ficam todos iguais?

Valupi tudo menos arrancar olhos

Pergunto-me o que diria Valupi se o Governo fosse de direita e a crónica de Fernanda Câncio (para citar apenas um exemplo, é o que me vem à mente, assim de repente).