28.2.17

Saciedade

Não sei o que é uma vida boa. Não faço ideia de como avaliar a qualidade - ou falta dela - de uma vida. Provavelmente a vontade é um dos critérios: é esta a vida que quis? Se renascesse teria a mesma? (A esta pergunta não se pode responder "sim", mas não faz mal. Fica na mesma).

Mas há uma maneira de avaliar não a qualidade mas a intensidade de uma vida - os dilemas que se têm de resolver -. Talvez seja mais importante, de resto, viver o que se vive a fundo do que vivê-lo bem. A saciedade é uma falsa amiga. Um falso alarme.


Genève, 28 de Fevereiro de 2017 - Para o L.M.

Que a vida é uma puta desalmada todos sabemos; não é preciso chegar aos cem anos. Mas foda-se, podia poupar-nos a exageros destes.

Desaquecimento global

O tempo, ah, o tempo... O aquecimento global acabou. Voltámos ao antigamente: chuva e frio e (há bocadinho mesmo, não mais do que meia hora) uma saraivada como já não se via desde a última glaciação, no inverno passado.

27.2.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 27-02-2017

Foi num dia de vento que isto aconteceu: sai do café e ainda era dia.

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Rostos semelhantes a máscaras de Carnaval às quais um Deus arrependido tenha insuflado vida, simpatia e modéstia.

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Tive o azar todo do mundo? Não. Tive a sorte grande. Saiu com hesitações e retardamento, como convém às senhoras bem educadas, é tudo.

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O calor voltou. Não tarda é Verão.

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Os transportes públicos são uma maravilha. Mas chegar um décimo de segundo atrasado à paragem - isto é, o eléctrico ainda lá está, mas acabou de fechar as portas - é chegar atrasado. Foda-se, não haverá um meio termo qualquer? (Os autocarros e eléctricos têm horários e uma tolerância de dois minutos em cada paragem. Ou seja: não esperam, porque não sabem o que os espera mais à frente). Puta que os pariu.

[Adenda: passada a fúria, há que reconhecer que quatro ou cinco minutos depois passa outro...]

26.2.17

Comme des bourgeois

Et puis le dimanche l'on ira se promener, comme des bourgeois, sûrs de soi et du temps.

E os livros

E os livros. Em todo o lado livros a dois ou três francos, como novos. Para se ter uma referência uma bica custa três francos e meio, quatro.

Quando digo todo o lado é isso: em todo o lado, "partout, everywhere", em lojas, nos passeios, nas feiras, nas organizações de ajuda, nas livrarias. Na Recyclables, que agora tem um café (agora?), onde compro os postais.

Le Clézio, Duras, uma história do Império português no Oriente entre 1500 e 1700, Teresa Cremisi - uma descoberta, a tal cujo livro começa com "J'ai l'imagination portuaire." e me faz dar saltos a cada parágrafo  (foi o único livro novo que comprei até aqui). Um livro de Hildegarde encomendado. Jaccottet, que trouxe sem querer de casa do J. e de que espero ler mais uns capítulos antes de o devolver.

Livros, queijo, vinho, política,  família, sol, calor (pelo menos para a época), amigos, mercados, a Livresse e a Ferblanterie e a Rue de Carouge e Plainpalais aqui mesmo ao lado.

Tu parles d'un tourbillon...

25.2.17

Queijo, política, vinho

E o queijo, também. Não pode ser só política. Os queijos: os daqui perto, da Savoie - Reblochons, as diferentes tommes, Beaumont -; os de mais longe: um sublime Camembert, um Epoisses que está para os queijos como Tomás de Aquino para o debate sobre a existência de Deus. Um Morbier que só não é melhor porque me traz à memória o melhor Morbier que já comi, já muitos anos lá vão.

raclette de Chez Roy, a melhor queijaria de Genève e de todo o espaço entre Genève e a Lua com a possível excepção da queijaria da Rue Daguerre, em Paris; ou a fondue, ditto.

Reabituo-mo aos queijos como um quase-afogado à vida.

Mas a política também. Este sistema político devia ser imposto a todos os países do mundo, pela força se necessário. Ou pelo menos a Portugal, que tanto beneficiaria de ter políticos sem poder. Visto daqui os debates da semana - os SMS, os dez mil milhões - e os que não são debates mas deviam ser - os transportes públicos em Lisboa, por exemplo - parecem histórias de ficção científica, coisas que aconteceram em planetas longínquos há milhares de anos.

E os vinhos, meu Deus, os vinhos. Não falo só do Haut-Marbuzet, ao qual não tenho acesso de per me. Mas falo dos outros todos, vinhos que a dez euros a garrafa no máximo me fazem sentir um homem rico. Os vinhos portugueses são bons, claro. Mas os franceses e os italianos e alguns suíços.

Ontem bebi um branco da Savoie chamado Abymes (enfim, não é bem assim. Tenho de voltar ao supermercado) que me fez pensar na definição daquele crítico inglês de vinhos: "Um bom vinho é aquele que me faz dar um salto na cadeira". Eu dei.

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 25-02-2017

A temperatura desceu, finalmente. Que alívio: a minha roupa está de novo conforme. Uma página de meteorologia diz-me que estão 6º. Duas outras mencionam 7º. A diferença é pequena, vá. Não nos vamos zangar por tão pouco.

Mas está sol. Sempre gostei destes dias de sol e frio, dias enganosos, como uma mulher bonita que nos diz uma coisa com os olhos ("Sim") e outra com a boca ("Não"). Sabemos que é não, que está frio, que precisamos de roupa e se ficarmos - como fiquei - numa esplanada a beber um pastis teremos frio e apanharemos uma desilusão.

Mas insistimos. "Apanhar uma desilusão", como quem apanha uma constipação, ou uma gripe, uma gonorreia.

Enfim, a luz em Genève sempre me pareceu uma coisa diluída, pálida, fantasmagórica, neutra. Podia ser a ela que a Suíça foi buscar a neutralidade (não é, claro. É a coisas muito mais prosaicas. Quem está no centro de um cruzamento de pesos-pesados tem interesse em dar-se bem com todos, sobretudo se é minus).

A família está completa: S., os dois filhos, eu. Fico sempre espantado perante esta dualidade: não é e é, podia ter sido e foi, deixei-a e a ela volto e ali está sempre, à espera sem esperar: evolui, muda, adapta-se, constrói e reconstrói-se.

O passado pela lupa do presente, o presente pela do passado. Caleidoscópio temporal, emocional. Temporal de emoções. Como seria, se não me tivesse ido embora?

Um grupo de pessoas unidas pela independência, como é hoje.
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De vez em quando vejo televisão. O ecrã é muito grande (pelo menos para os meus critérios) e os programas bons. Quando S. está em casa vemos coisas banais. Até nesses canais há programas bons de se ver (agora na TF1 passa uma reportagem sombre as Calanques que me faz perguntar-me se conseguirei um dia dirigira a minha curiosidade para outras coisas, mais estáticas.

Estáveis, idiota...)

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Adenda:

Ooops... Disse caleidoscópio? Turbilhão está mais perto da verdade.

24.2.17

Cores, tonalidades

Pergunta sem consequências: entre a certeza e a dúvida a diferença é feita de cores ou de tonalidades?

Carmina Burana, verdade

Por muito que nos apeteça dizer que os Carmina Burana de Carl Orff são uma reles transcrição romântica dos de Clemencic: retenção. O Fortuna merece ser ouvido. Não, é certo, como música medieval, mas como música, tout court e sine tempus.

Verdade seja dita que depois deve passar-se para o Clemencic. A verdade é como o azeite.

Rue de Carouge, rue Daguerre

Uma das minhas ruas favoritas em Genève é a Rue de Carouge.

Minto. É a minha rua favorita. Tem tudo e desse tudo eu uso um pouco: a livraria Recyclables onde compro postais e às vezes um livro; a do CSP, onde hoje comprei um Duras e vi uma bicicleta barata; os correios de onde mando os postais que escrevi na "esplanada" do café Blanche, entre aspas porque não é bem uma esplanada, são umas mesas no passeio ao sol. Os restaurantes de todo os lados do planeta, o talho português (chama-se Zé do Talho) e o sol, nestes dias tão intenso que hoje preferi ir pelo passeio que estava à sombra.

A Rue de Carouge em Genève é quase o equivalente da Rue Daguerre em Paris. Enquanto esta é intrinsecamente francesa, um condensado da França, aquela é o mesmo para Genève: tem tudo de todo o lado.

Genève não é só uma cidade; é também um "país". A rue de Carouge é um resumo desse país, como a rue Daguerre é um resumo da França. As lojas todas da rue de Carouge dão a volta ao planeta; as da rue Daguerre à França.

Analogia

Como alguém que atravessa um jardim e não sabe nadar plantas.

Devagarinho, família

É preciso começar devagarinho, como quem vai ao mercado sem saber o que vai comprar porque se esqueceu da lista de compras em casa. Um mercado ("alimentar", precisa-se para que não haja dúvidas) numa praça cheia de sol. O sol traz histórias, é sabido. Mais do que a chuva, que nos faz ficar em casa e não esquecer a lista de compras  - que de qualquer forma se leva para o supermercado e não para a feira de rua -.

O sol convida à meditação; quem diz meditação diz memórias e memórias rima com histórias.

Devagarinho, portanto: sol na praça, vinho branco na taça. Algures uma família. Família e futuro são sinónimos? Família e passado? Família é uma afirmação ou uma dúvida?

Família é um cenário imutável e à volta dele tudo muda. Devagarinho, claro, como quando fodemos pela primeira vez uma senhora que queremos - esperamos - seja a última. As praças em dias de mercado e sol estão cheias de memórias que não fodemos. Memórias virgens, por assim dizer. "I do not fuck much with the past but I fuck plenty with the future".

Quantas últimas senhoras já fodemos? Quantas famílias? Isto é.

Devagarinho, o tremor de terra reconstitui a paisagem. O sol reaparece, família pela mão. Devagarinho os tremores de  terra sucedem-se, lentamente. Exasperantes de tanta promessa devagarinho.

Bom, Chega de merdas. A família apareceu devagarinho, inebriada de névoa, no mercado "alimentar". Com aspas.

Família é o eixo vertical em torno do qual se organizam os erros todos que se podem cometer devagar (os rápidos escolhem outros eixos, outras paragens).

23.2.17

Uma, milhões

Hoje fui encomendar livros de Hildegarde von Bingen. Há uma biblioteca deles traduzidos em francês, coisa que desconhecia.

Uma entre milhões.

Pergunta simples

Actor errado no papel certo ou actor certo no papel errado?

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 23-02-2017

Já por aqui andei, não é? O mesmo cenário filme diferente. As mesmas personagens mas não os mesmos papéis.

O tempo não é mesmo. Está calor. Encontro-me na situação bizarra de não ter roupa adequada porque não está frio. Esperemos que a meteorologia tenha razão e ele volte depressa. Esperemos que o tempo não seja o mesmo e não se ponha a andar para trás. Esperemos tudo isso e muito mais, esperemos mais de tudo, esperemos isso, só isso: que o tempo não seja o mesmo.

Os paraísos e os erros não se repetem, por mais que nos enganemos ou tentemos.

21.2.17

Perguntas para os novos tempos

"Amazon crée des emplois par milliers" diz o jornal Le Temps, sucursal suíça do Le Monde e quase tão bom (e tão de esquerda, mas isso agora é irrelevante).

Como uma parte do crescimento da Amazon se deve a robots vai ser interessante ver como seriam estes taxados (ou serão. As más ideias têm uma capacidade de sobrevivência muito superior às boas, por razões mais ou menos fáceis de explicar).

PS - Curiosamente escrevo isto enquanto vejo no canal Mezzo um ballet com um robot. Espero que este pelo menos seja isento.

PPS - Afinal são muitos robots. Devo acrescentar que a peça é magnífica. Sublime. Enfeitiçante. Se isto é o futuro quero ir para lá agora.

PPPS - Enfim, uma pequena correcção: o tempo em que os artistas eram "futuristas", "pró-futuro" e por aí  fora já foi. Não é de hoje. Melhor esperar pelo fim da peça (o futuro nunca acaba).

PPPPP etc. - A peça chama-se Robot, é de 2013 ou 14 e de Blanca Li e eu juro que nunca mais reclamo contra os grandes ecrãs de televisão. Nem sequer contra a televisão, desde que tenha o canal Mezzo. (E vou começar a prestar mais atenção à dança, mas isso é outra história).

Sabor do mês

Um dos sabores do mês é a taxação de robots (o outro é o Rendimento Universal Garantido, mas esse fica para depois).

- O que é um robô? As máquinas de lavar roupa e loiça e as torradeiras e os fogões eliminaram postos de trabalho das empregadas domésticas. Vamos taxá-los?
- Qual é a base para se saber quantos postos de trabalho foram eliminados? O séc. XIX? XX? XXI?
- Como saber quais os postos de trabalho que foram eliminados por robots e os que foram eliminados por sei lá, reorganização dos métodos de produção ou evolução da procura?
- Já agora: um robot elimina certos postos de trabalho e cria outros. Estes podem ser deduzidos dos impostos?

E que tal pensarem em reorganizar a base fiscal, introduzir uma flat rate e diminuir os impostos em vez de os aumentar?

20.2.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 20-02-2017

Três dias seguidos de sol em Genève a meio de Fevereiro. Não tarda é Verão. Quem o disse deliciosamente bem foi a apresentadora da meteorologia na TV: "temperaturas doces", começou. "On a frôlé les treize degres". Não digo que roçámos os treze graus para não parecer mal, mas a ideia é essa. Depois continuou "E amanhã de manhã as boas notícias continuam: temperaturas positivas ao sair de casa".

Estamos, diz a senhora - uma morenaça com quem qualquer homem gostaria de roçar os treze graus e acordar positivo de manhã - que estamos três a quatro graus acima da média da época. Acho bem. Aprovo e agradeço ao anticiclone dos Açores, a quem devemos tanta e tão rara simpatia.

Claro que média significa isso mesmo: média. Às vezes está por baixo outras por cima. Compensa o por baixo que esteve em Lisboa em Dezembro, que bastante frio rapei.

Enfim, toujours est-il que aproveitei e fui turistar por essa cidade fora, cadela pela trela.

O bicho é simpático, calmo e bem-educado. Não chateia. E aqui deixam entrar os cães nos cafés, de maneira pude parar na Livresse (pausa voluntária) e na Ferblanterie (forçada).

Nunca pensei que um mês custasse tanto. Deve ser por causa da média.
Custar não é o termo. É: fosse tão difícil.

Ou então é incapacidade minha. Deve ser isso. A minha ansiedade sofre com o anticiclone dos Açores: espalha-se ele e ela com ele, coitado, não fosse ficar para ali sozinho a desviar as depressões.

Tristeza neoliberal

Os robots vão chegar em breve. Ou já chegaram, mais correctamente. Qual é a conversa do dia? Como aumentar os impostos.

Que tristeza de mundo. E ainda há quem fale na vitória do "neoliberalismo".

Ainda bem

Durante muitos anos reclamei com os EUA porque estavam a ser governados por juízes e advogados.

Chegou a hora de dizer "Ainda bem!"

17.2.17

Não se admirem

Isto devia ser um acto de contrição. Foi pelo menos essa a intenção original.

Mas depois transformou-se num verdadeiro espanto: acabo de gastar trinta e cinco euros numa Carbonara sofrível e dois dedais (aqui conhecidos por copos ou balões) de vinho tinto e nem um sobressalto, nem uma piada ao empregado, nem um esgar de horror.

Como se fosse normal. Como se depois disto a Terra fosse continuar impávida a sua trajectória em torno do Sol e a Lua em torno dela e os três em torno do eixo da Galáxia. Por amor de Deus. Se amanhã for guilhotinado não se admirem. Ou aparecer um eclipse inesperado da Lua.

PS - E isto no italiano mais barato de Carouge.

Aleph, Genève

Genève é um Aleph geográfico.

"Estás a falar porque queres"

[Na Escola Náutica quando queríamos mandar calar alguém dizíamos "estás a falar porque queres"].

Há pessoas que escrevem porque querem. Que coisa mais estranha. É como querer cagar.

Alguém "quer" cagar? Não, claro. Caga-se porque se  tem de, não por vontade: cheira mal, dá um trabalhão a limpar, não se pode fazer em qualquer sítio. Uma merda, cagar. Como escrever.

Ordem inversa, Hildegarda

As probabilidades de voltar a acreditar em Deus (uma crença que abandonei aos doze anos de idade) são poucas.

Mas se um dia isso voltasse a acontecer haveria uma razão só e só uma. Uma escada, se quiserem. Porta. O que quer que seja. Chama-se Hildegard von Bingen, Santa Hildegarda para os íntimos (dos quais não sou).

Até lá canto laudas ao absinto e à dor (ordem inversa). 

Mais uma pequena nota à margem

Um daqueles dias de nortada indignada, vingativa, a fazer-nos pagar o bom que tinha sido o dia de ontem na praia, a noite de amor que se lhe seguiu - na verdade começara na esplanada do bar nas dunas -, o pequeno-almoço numa esplanada do Paredão.

Tudo isso se desvaneceu com esta nortada fria, agreste, mordente, que nos separou para sempre: tu não gostas de vento e eu sem ele não sei viver.

Pequena nota à margem

Ninguém se apercebeu - pelo menos das pessoas com quem falo quotidianamente (isto é, ninguém) - do alongamento quase felino dos dias. São seis horas da tarde e há luz como se a noite fosse uma invenção. Não é, eu sei. Daqui a pouco, quando sair da Livresse com um pastis ou dois bebidos, saboreados e agraciados será noite.

16.2.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 16-02-2017 (mais uma receita de frango com tahine e gengibre e uma crise de pieguice saloia)

Telejornal num canal francês (público, caso interesse).

Antes disso: ouvir Hollande falar de "exemplaridade" (exemplarité, no original) referindo-se a Fillon vai ficar-me na memória para todo o sempre, espero.

Mas depois pergunto-me porque raio de carga de água estes estúpidos destes franceses, idiotas, fazem telejornais que abrem com notícias importantes e não com futebol, falam sucintamente de um tema e e ilustram-no correcta e brevemente com imagens, falam de temas importantes como um pedido proteccionista de três países europeus à Comissão Europeia (a Alemanha, a França e a Itália), fazem reportagens boas, sucintas, informativas sobre a castanha de caju ou a estação de ski mais barata da Europa (chama-se Basko e fica na Bulgária, caso haja interessados).

Cereja no bolo: ontem Macron disse une connerie sobre a colonização francesa (chamou-lhe "crime contra a humanidade"). Hoje isto é tema, claro. Mas o mais bonito é que o debate se alarga a "que tipo de história devemos ensinar nas nossas escolas? Uma história realista, ou uma história que nos valorize?"

Não é uma questão de civilização, estúpido. É cultura. É respeito. É savoir-faire. É um monte de coisas que por qualquer razão estão ausentes das televisões nacionais.

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A dor de cotovelo acentua-se de tal maneira que hoje fui a duas farmácias. Duas. A continuar assim acabo no médico.

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Se alguém um dia por acaso misturar tahine com gengibre ralado, regar bem regado com sumo de dois limões, juntar algumas especiarias como pimento fumado em pó (chegado em primeira mão do Chile, país que já há muito sabia: tenho de visitar), curcuma, sal e pimenta, cominhos e uma ou outra coisa que por acaso (sempre ele) tenha à mão de semear, marinar frango cortado em pedaços pequenos com essa mistura no frigorífico uma noite e no dia seguinte a puser tal e qual no forno a lume baixo; se essa pessoa esperar até o frango estar cozido (neste caso cerca de duas horas), cozer um bocadinho de arroz e no fim misturar tudo e comer, essa pessoa vai ter uma agradável sensação de prazer e surpresa. Isto foi acompanhado por uma cerveja demasiado doce, mas não é difícil encontrar um branco seco casadoiro que realce e complemente a dita sensação de prazer e surpresa.

Essa mesma pessoa perguntar-se-á se uns coentros picados não teriam feito bem à surpresa (a pergunta é retórica).

A pessoa que por acaso escreve isto escreve-o ao som de uma aguardente caseira de damassons (não perguntem - ameixas?) e por acaso pergunta-se "porra?" (A dita aguardente também é conhecida por Damassine, caso interesse. É uma das melhores aguardentes de frutos que conheço, mesmo quando não é caseira e boa como a que agora por acaso bebe).

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"Quem não tem cabeça tem as pernas", diz um provérbio francês. Se fosse genebrino diria "Quem não tem cabeça tem os TPG". São tão estúpidos, estes suíços. Devem ser nazis, para ter transportes públicos que funcionam tão bem (e são mais baratos do que os lisboetas, em PPP).

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Por falar em estúpidos: tenho esquecido as votações deste domingo. Ficam para outro dia.

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S. tem qualquer coisa de especial a celebrar. Escolheu um restaurante português que, diz-me, "é bastante bom". Querida, podia ser o pior restaurante do mundo. Que tenhas escolhido um restaurante português chega e sobra. 

Efeitos positivos

Provavelmente um dos efeitos colaterais e positivos do Trump será reconciliar-nos a todos com os políticos.

Costumo dizer que prefiro ser governado por eles a sê-lo por padres ou militares; agora posso acrescentar "ou homens de negócios".

Paraíso

Percebo que em Genève um gajo se porte mal, que faça tudo quanto pode para quando morrer não ir parar ao céu.

15.2.17

Surrealismo, Rossini

Ligo a televisão. Calha-me a RTP. Uma senhora presidente de uma câmara municipal do interior explica as vantagens de ter as opções da câmara a que preside escrutinadas "e ainda melhor se for por um organismo exterior, independente", acrescenta.

Mudo de canal, claro. Ouvir isto na Suíça, país onde não há um cêntimo de dinheiro público que seja gasto sem que quem o paga - o soberano, como é aqui chamado - saiba e decida é demasiado surrealismo para a minha pobre cabeça.

No Mezzo passa a Cenerentola.

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 15-02-2017

Em Genève acontece tudo. A vida cultural desta cidade é espantosa, para uma cidade que no fundo é pequena.

Mas não acontece nada. Isto é: como seria viver outra vez nesta palidez murcha, répue de bien-être, onde tudo é bonito a começar pelas mulheres e tudo banal à força de ser bonito, bem arranjado, limpo, sem borbulhas na cara ou mendigos na rua? (Vi dois desde que cheguei. Dois).

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Ontem G. lembrou-me de uma miúda que, diz ela, "comi" na loja, quando comprava camisas. Detesto o termo "comer" para esse uso. Não sou canibal e na verdade acabo sempre por ser eu o comido. Era loira e tinha uma loja de roupa. Não me lembro de todo de a ter "comido" mas lembro-me das camisas que comprei. Uma era amarela, de feltro (?) com uns desenhos abstratos a preto. Durou pouco tempo, a camisa. Lembro-me disto porque passo no eléctrico à frente do prédio de uma miúda que me seduziu porque tinha a colecção completa das receitas da Elle. Não serviu de nada, ela apanhou-me uma noite depois do coito: falei-lhe nas receitas em vez de lhe dizer quanto a amava, ou coisa no género. Também durou pouco tempo, o idílio: não chegou a um mês. E também pensei na I., que morava em Bey quando a conheci mas depois mudou para Genève e a G. não conheceu. Também durou pouco tempo, mas um bocadinho mais.

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Os miúdos sentam-se ao meu lado no eléctrico que me traz de França. Ela tem cabelos pretos densos como certos passados e um decote que me faz sonhar mais do que muitos futuros. Deve ter pouco mais de vinte anos. O rapaz também, mas ao contrário dela não tem nada que o distinga do resto da humanidade.

Em Rives ela diz-lhe:
- Le Caveau de Bacchus - (é uma loja de vinhos do Rond Point). - Sabes o porquê de Bacchus?
- Não.
- Bacchus é o Deus grego do vinho.

Mudou de lugar; olho-a enquanto fala animadamente com o indistinto. Quanto tempo suportaria os cabelos que lhe cobrem os seios que o decote descobre?

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Como é que se pode resistir a comprar um livro que começa por "J'ai la mémoire portuaire"? Não se pode. Chama-se La Triomphante (foi comprado na Livresse, que é um dos quartéis-generais das fufas de Genève e continua a ser um dos meus sítios favoritos. Aceitam maricas, mulheres e homens. É um café muito bonito e tem o melhor nome de sempre). A autora é Teresa Cremisi. Ainda não o li, claro, comprei-o há pouco e mal o folheei.

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Hoje à tarde tive de ir a França, em missão falhada. Bebi um pastis por metade do preço, a cinquenta metros da fronteira (que já não existe. Atravessei-a para lá de autocarro, na volta a pé. A malta que acredita no valor intrínseco das coisas teria uma certa dificuldade em explicar como é que um raio de uma bebida anizada duplica de preço assim desta forma tão artificial.

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Quase retratos:

Uma mulher vestida de puta vestida de mulher que não é puta. Em que ficamos? Onde paramos?

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Fui ao IKEA com S. comprar uma mesa. Tenho uma certa dificuldade em estar naquele tipo de lojas mas aguentei-me quase até ao fim. Numa das dobras dos intermináveis corredores havia a reconstituição de uma sala de estar, com uma enorme televisão apagada (claro. Devia ser de papel, ou cartão).

No sofá estava um casal de senhores da minha idade, muito juntos, a olhar para o aparelho apagado como se estivessem em casa. Chateia-me quem me queira impedir de usar termos como maricas, panascas e afins; mas chateia-me ainda mais quem não aceite aqueles senhores, tão bonitos. Mais do que o casal que tira as medidas a um sofá-cama com a determinação de uma Panzerdivison a avançar no deserto maghrebino. Há qualquer coisa de decidido no olhar da jovem mulher que me traz à memória um desenho de Quino. Tive-o anos colado na parede: um casal na praia a correr para a água com o semblante fechado de quem vai trabalhar e está farto do emprego.

Nunca acabei Les mots et les choses.

De qualquer forma preferiria Les mots et les personnes.

Ou Les mots et la vie. Ou  Les mots et les jours.

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S. vai buscar umas plantas a casa de um colega. Estaciona o carro no passeio quinze minutos, talvez vinte. Descemos. 120 francos de multa.

"Saíram-me caras, as plantas", comenta. "Que se lixe. Há muito tempo que não apanho uma multa". Era o único carro mal estacionado em toda a parte do quarteirão que percorremos à procura de lugar. Vinte minutos.

14.2.17

Diário de Bordos - Château d'Oex, Suíça, 14-02-2017

À velhíssima, inevitável pergunta "Gostas mais dos Alpes ou do Jura?" a resposta correcta é "gosto mais dos dois. Viver num e visitar o outro". Pelo menos para mim. O Jura é mais pacífico e calmo. Os Alpes talvez sejam mais bonitos, não sei. Gosto de vir aqui por um dia, uma semana. Mais, tanta energia aterra-me. É como viver no fitness da natureza.

A neve ao lado das linhas está tão bonita que parece ter sido posta lá de propósito, cenário para agradar aos turistas.

A luz é murcha. Sinto-me num país de fantasmas. Não é. Há muitos anos vinha ao Col des Mosses, aqui ao lado, ajudar um amigo nas Alpages. E trabalhei num hotel nos Diablerets, que tão pouco fica nuito longe.

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Leysin foi a primeira "cidade" europeia que conheci fora de Portugal. Teria quatorze anos, talvez, para uma colónia de férias. Qando cheguei a responsável pela saúde perguntou-me se eu tinha medicamentos. Disse-lhe que sim e mostrei-lhe. Não me lembro do nome . Era o anti-palúdico da altura. Não se devia deixar de tomar para estadias inferiores a um certo número de meses fora de Moçambique. A mulher começou por não saber o que era. Expliquei-lhe. Largou num riso incontrolável. "Um português que vem para a Suíça com anti-palúdicos", exclamava entre duas gargalhadas.

Expliquei-lhe que vinha de Moçambique e ela sentiu-se um estúpida. Deve ter sido a primeira vez que vi (percebi) um adulto embaraçado.

........
Um dia "suíço": entre aspas porque a Suíça são vinte e seis países, vinte e seis vezes isto.

Com a Gege, amiga de guerras velhas, colega do Marchand de Sable (foi através dela que lá entrei). O passado tem destas coisas: embrenha-se pelo presente adentro e fica quase impossível destrinçá-los.

12.2.17

Depois do intervalo continua

Minhas senhoras e meus senhores,

Devo à distinta audiência antes de mais nada - enfim, depois naturalmente do "muito obrigado" que estava, está, implícito e agora explícito em todas as minhas palavras, um vasto obrigado à vida e a todos e a cada um dos membros da audiência - um profundo pedido de desculpa. O meu texto sobre o que vos trouxe aqui esta noite estava pronto. Mas em vez de vos falar dos problemas ligados à polinização manual das tulipas nos altiplanos da América Central resolvi à última da hora trocar esse apaixonante assunto por uma divagação.

Uma divagação profundamente ancorada na realidade, é certo - como de resto não poderia deixar de ser, sendo eu um adversário não diria feroz mas pelo menos empenhado das divagações oníricas que caracterizam tantas das páginas impressas nos dias de hoje -.

É portanto da verdade que vos vou falar. A polinização manual das tulipas nos altiplanos da América Central tem um problema grave - a escassez de altiplanos naquela região do mundo - e enquanto este não estiver resolvido vai ser difícil pô-la em prática.

Já a questão das televisões que parecem piscinas é bastante actual. Há cada vez mais televisões, cada vez maiores e cada vez mais piscinas. A relação é evidente. Impõe-se per se.

Há várias maneiras de abordar a problemática pouco conhecida das parecenças entre televisões e piscinas.

Depois do intervalo vamos elencá-las.

11.2.17

Lauda, Château Haut-Marbuzet

Duas pequenas notas dispersas sobe o Château Haut-Marbuzet:

a) Não sabia até hoje (ou sabia, mas já tinha esquecido) que o Haut-Marbuzet pode ser melhor do que o Haut-Marbuzet. Pode, sem hesitar.

b) Alguém me diz como iniciar um processo de canonização? 

Dans la ville muette

Je me dissous dans cette ville muette, tellement silencieuse que l'on oublie de l'oublier.

Elle est toujours là, ses beautés et ses laideurs collées par le silence.

10.2.17

De l'emprunt

Il faut écrire dans une langue d'emprunt, toujours. Il est bien connu: l'on fait plus attention à ce qui ne nous appartient pas.

(La langue n'est guère la vie: ele n'en est qu'un aspect. La seule chose qu'il ne faut absolument pas emprunter c'est la vie).

Alias

Ce jour-là Alias fut pour la première et millionième fois de sa vie désarçonné. Son nom - tout le monde le savait, croyait-il - était Alias Bardot. Se faire traiter de Alias seulement lui causa un désarroi profond et inquiétant. Alias seulement n'était même pas la moitié de son nom et comparé au présent le passé (disait-il) avait un poids disproportionné .

Par ailleurs il comprennait facilement - et approuvait - le soulagement de la personne qui l'avait traité de Alias seulement. Il reconstituait sans difficulté le monde défait de cette personne, le monde au bord du gouffre, en voie de se faire ronger par les rayons gamma: Alias Bardot, qui n'était qu'un simple Alias, s'arrogeait un nom complet : prénom et nom de famille. Horreur. Le ciel se couvrait - Alias s'en apercevait et en était chagrin - de nuages noirs, ou du moins gris foncés.

Ceci d'un point de vue purement physique. Il est facile de crompendre - mieux, de partager - l'accablante sensation de délabrement moral, subjectif, éthique, que cette personne avait ressentie en essayant de le traiter par son nom complet. Et en concomitance la plénitude de la reconstruction de ce même monde, - Alias allait même au point d'utiliser le mot, pourtant pas innocent, d'univers. Il nourrissait déjà envers cette personne une attraction familière, quasi sensuelle, comme s'il la connaissaît ne fut-ce que de vue. En le traitant de Alias elle avait sans doute reconstitué un monde au bord de l'abîme, au bord du désastre imminent. Il s'en réjouissait.

Alias - il avait adopté cette amputation de son plein gré, faut-il le dire? - était néanmoins inquiet. Il aimait aider les gens perdus, ceux pour qui les autres ne sont que la moitié d'eux-mêmes, ceux qui se proposent sans raison apparente de redresser les torts, soigner les plaies, laver les blessés, habiller les nus; tous ceux, en un mot, pour qui une lanterne morale est aussi importante qu'une béquille pour les boîteux. Mais il craignait, au fond de lui, d'être mal compris. "Que serait-il de ces gens sans une cible, sans une cause?" se demandait-il en buvant un demi pastis à la terrasse de la Livresse. Il voulait que tout le monde fut heureux, y compris - ou surtout - les redresseurs de torts, ceux qui sont - ô bénis ! - capables de se faire un matelas avec les certitudes morales sur lequel ils se coucheront cette nuit-même.

Enfin, tout ceci pour expliquer pourquoi Alias faisait pour la première fois de sa vie une chose qu'il a déjà fait souvent : se badigeonner de parfum dans la rue. Du vrai parfum, je veux dire. Pas de l'eau-de-Cologne. "L'indignation vraie mérite un vrai parfum", s'est-il dit en sortant le flacon de son sac à dos.

Alias se baladait donc dans les rues de cette ville dont la seule beauté sont les femmes - toutes, même les laides, sont belles - enrobé d'un aura de parfum, plongé dans un profond désarroi et - alléluia ! - soulagé: il avait aidé (involontairement, certes, mais néanmoins aidé) une personne qu'il ne connaissait pas à redresser un tort, à reconstituer un monde, à sauver l'humanité.

Dire qu'il était fier n'est point suffisant. Il était en paix avec lui-même, réconcillié avec le monde.

Et il sentait bon, ce qui n'est pas peu dire.

(Para o E. P., avec in merci gigantesque à Anouk, qui a fait beacoup plus que m'aider avec le français.)

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 10-02-2017

"Il ne sert à rien de viellir si on n'évolue pas", diz uma senhora quase velhinha na mesa à frente da minha, olhar e sorriso pétillants. Eu teria dito "si l'on n´évolue pas", mas sou mais jovem, mais pedante e mais estrangeiro do que a senhora, que me deixou pensativo para o resto da tarde.

Estava no stand do Domaine de la Devinière a beber um copo de Pinot Gris. Hoje é dia de feira (alimentar) em Plainpalais. Terças, sextas e domingos. Às quartas, sábados e primeiro domingo de cada mês é dia de brocante. As mesas são corridas, dão para quatro pessoas de cada lado (é um standard).

Deixei a mochila e o chapéu em cima da mesa.

Fui, naturalmente, admoestado por um senhor que me ensinou, antipaticamente, que a mesa não era minha e podia haver mais pessoas a querer sentar-se e que a mochila não tinha nada que estar em cima da mesa. Ao que eu respondi "Que tragédia!" e tirei a mochila e o "lugar" estava vago outra vez.

Depois chegaram os amigos dele. Um deles com queijo cortado aos bocados, um embrulho que abriu e pôs em cima da mesa.

Depois ofereceu-me um bocado de queijo, explicando que "é o melhor queijo do mundo. Gruyère vinte e quatro meses". E explicou-me ainda como reconhecer a qualidade de um Gruyère (tem de partir-se de uma só vez).

Isto dava um mini-documentário sobre Genève.

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Hoje o jantar é choucroute. Comprei da verdadeira, aquela que tem de cozer três horas e enche a casa de um cheiro que seria horrível se não fosse choucroute.

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Os meus co-clientes do stand de la Devinière (vinhos biológicos. O Pinot Gris é simplesmente sublime) têm todos mais ou menos a idade da senhora que quer evoluir e envelhecer ao mesmo tempo (admirável objectivo, diga-se de passagem).

Quem é que uma vez mencionou "ces visages taillés à la hâche" referindo-se aos suíços?

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Apéro na Livresse. Este nome dá vontade de recomeçar a escrever em francês.

Lamentos

Não deixa de ser lamentável (no sentido primeiro do termo: coisa a lamentar, sem juízo de valor) que o progressismo da esquerda portuguesa esteja reduzido a defender o acordo ortográfico de 1990 e o Mário Centeno.

Analogias felizes

É que isto das garrafas é como os seios das senhoras: fechadas podem ser muito bonitas e prenhes de promessas, mas só sabemos o que realmente valem quando abertas e a uso.

Continuação e princípio

A frágil e graciosa incerteza dos enamorados quando se descobrem mutuamente, como a Lua cheia a nascer.

9.2.17

Quem se queimar primeiro

É então algo assim: a noite espalha-se como se fosse um ringue de patinagem no gelo e tu deslizas por ela como os patinadores que ontem viste, com a graça imaterial de quem finta a gravidade.

A noite espalha-se à tua frente e tu deslizas por ela com a graça leve, translúcida daqueles a quem o amor espera numa esquina da noite. Uma esquina, noite, graça: amor. Uma esquina, graça, noite, amor. Quanto tempo falta?

Deslizas por esse grande quadrado gelado numa noite de graça. Leveza. Patins fendem o gelo, não o ferem. As cicatrizes contam a história bonita de duas graças que se encontraram à noite numa esquina geladas e leves e se amaram muito tempo e se separaram como se encontraram: uma finta à gravidade.

Um movimento circular da mão que seguia o olhar que seguia os movimentos no gelo que seguiam a noite. Foi numa noite assim que os movimentos se encontraram: um grande espaço plano e gelado no qual os olhares eram leves como duas peles que se encontram pela primeira vez e não sabem ainda bem que direcção vai a noite indicar-lhes. As peles os olhares as mãos os lábios encontram-se assim pela primeira vez numa noite, numa esquina, num deslizar vertiginoso, há muito esperado.

É mais ou menos assim: duas peles num movimento concêntrico, sem paragens, sem interrupções, sem solavancos. Ou seja: com a graça da inevitabilidade. Com a graça da gravidade vencida. Rendida. Com a graça da noite que se sabe primeira e desconhece a última.

Um grande plano gelado e liso no qual deslizam dois olhares como dois tigres: são ambos caçadores,  são ambos presas, são ambos imateriais. Círculos concêntricos. Olhos nos olhos. O que cair primeiro ganha.

Duas peles. Duas mãos que se encontram e deslizam sem solavancos e procuram o fim e não o encontram.

As peles cobrem o abismo. É para ele que te levam os olhares. Quem ceder primeiro ganha. Cai. Vertiginosamente. Cede. Incêndio. Não deixes derreter o gelo. É por ele que deslizas com a graça frágil do olhar que te queima.

Quem se queimar primeiro vive.

O que há num nome?

Nunca fui grande admirador da capacidade suíça para encontrar nomes para as coisas  (cafés,  bares, lojas e por aí fora). Pelo menos até descobrir que o nome das coisas é completamente indiferente ao seu êxito ou falhanço. Mas isso veio muito depois, quando em Genève tinha um escritório ao lado de uma loja da Haägen Dazs. Perguntei-me um dia quanto tempo teriam os senhores da Olá passado à procura de um nome que fosse simples, comunicativo, convidativo, etc. E alguém aparece a vender a mesma coisa - em melhor - com um nome como Haägen Dazs. [Confirmar grafia].

Verdade seja dita que in illo tempore a legislação genebrina proibia a um comércio ter duas actividades diferentes. Se era livraria vendia livros, não vendia cafés,  discos ou sapatos. E vice-versa. Isso mudou - na Suíça as leis são feitas pelas pessoas, não por políticos e portanto mudam quando é preciso - e hoje estou num café cum livraria chamado - oh delícia de nome - Livresse.

Dá vontade de roubar, não dá? 

8.2.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 08-02-2017

Não posso dizer que me aborrece muito. Estaria a mentir. Mas penso nisso cada vez que compro o raio do jornal: o Le Monde é simultaneamente de esquerda e o melhor jornal de língua francesa que conheço.

Percebo que Portugal não possa ter um igual: a França tem quase sete vezes mais habitantes do que nós; e isto sem contar os outros países francófonos, ex-colónias, presentes colónias e por aí fora.

Mas porra, podíamos pelo menos ter um bom jornal, um só, não? O Público e o DN (com uma vénia a quem eu sei que faz o que pode) são uma merda; o Observador começou por ser bom. Terminado o período de graça ficou assim assim. Hoje continua assim assim. Mas um assim assim tão longe do Le Monde que faz dó.

Ou seja: comprei o jornal e fui beber pastis para a Ferblanterie, que pertence à Daisy, antiga dona do Marchand de Sable onde trabalhei três anos com algumas interrupções. A Daisy replicou na Ferb (para os íntimos) o êxito que teve no Marchand: conseguiu transformar aquilo no sítio onde qualquer pessoa sensata tem vontade de estar no fim do dia com os amigos.

A única coisa que muda é o leque etário, muito mais vasto aqui devido à proximidade da universidade. Genebra sendo Genebra - um íman para mulheres bonitas e uma estufa para as que aqui nasceram - dificilmente um homem encontra de que se queixar.

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A tarde de hoje foi passada (outra vez) a lutar contra o sistema bancário americano. Se oiço alguém acusar Portugal de saloiice compro-lhe um bilhete de avião para os Estados Unidos. Ida simples.

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Os preços em Genève deixaram de ser alucinantes porque estão ainda mais caros. Não sei qual termo usar. Lunáticos?

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Ontem almocei com com o Claude M. Tem uma lancha que usa para os seus passeios fluviais e como está reformado usa-a muitas vezes. Conheci-o quando fazíamos ambos parte da tripulação de um 6 mJI, o S/Y SILENE (posso dizer o nome; foi vendido há dezenas de anos). depois fizemos muitas coisas juntos.

Penso muitas vezes em Claude por causa de uma história que se passou com ele e eu acho extraordinária: quando o conheci ele tinha uma drogaria e empregava - para além dos empregados de balcão - um vendedor externo. Um dia este fugiu com uma pipa de massa. Bastante. Um chimbalau grande. Pouco tempo depois veio bater à porta de Claude. Pediu-lhe desculpa, disse-lhe que ia procurar trabalho para o reembolsar. "Procurar trabalho? Não precisas de procurar trabalho. Se queres trabalhar em dou-te emprego." O homem não queria acreditar no que estava a ouvir, mas aceitou obviamente a proposta. Reembolsou o Claude e foi, dizia-me este, o melhor vendedor que jamais passou por aquela drogaria.

Lembrei-me disto ontem a propósito doutra coisa, semelhante. A diferença entre a mediocridade e a magnanimidade (ou mais simplesmente a inteligência) faz um mundo.

6.2.17

Diário de Bordos - Genève, Suiça, 06-02-2017

Por vezes penso agudamente nela. Coisa que me enche de alegria: sendo agudo não é grave.

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"Mudei de casa": vim para casa de S. A curiosidade cedeu o lugar à emoção. Penso em Damásio: sem emoções não há conhecimento. Nem memórias, provavelmente.

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O namorado de S. mora no Jura, uma região produtora de absinto há muitos anos. Gostaria de deixar aqui expressa uma declaração de amor a essa bebida, tão injustamente perseguida ao longo dos anos. Sobretudo quando é feita por conhecedores amadores para amadores conhecedores (ou não; não sei). É uma bebida divina. Não: diabólica. Não: vem do ponto onde o divino e o diabólico se encontram.

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Saio da periferia de Genebra para o centro. Só não parece que mudei de país porque os preços são os mesmos. É uma das coisas nas quais a Suíça não mudou: os suíços continuam, como dizia W. em 1982, a não ter noção dos preços.

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A tradicionalmente obrigatória, obrigatória e tradicional fondue de queijo da minha chegada à Suíça foi hoje. Espero que nunca ninguém me pergunte se gosto mais de um cozido à portuguesa se de uma fondue de queijo como deve ser: queijo da fromagerie Roy (dantes conhecida como fromagerie Oberson em Plainplais; vinho branco Vaudois decente; bastante pimenta preta, um traço minúsculo de noz moscada, um caquelon bem esfregado com alho, em uma molécula de Maizena, um bom golpe de Kirsch no fim). Detesto empates.

5.2.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 04-02-2017

A ideia original é ser capaz de contar o dia sem demasiada pieguice. Vai ser difícil, eu sei, pelo menos depois das cinco da tarde. Antes não aconteceu nada: adiantei a escrita, improvisei uma omelete rápida para o almoço, dormi a sesta. Às cinco saí para casa do Th. e da A., a pé. Parei no Marchand para beber um copo. Até aqui nada de especial. Devo ter deixado de lá trabalhar em 1986 ou coisa que o valha. Abordei-o com mais curiosidade do que emoção.

Não vou descrever o jantar (vitello tonatto, plâteau de fromages, bortsch, tranche de veau pannée e arroz com um molho que não identifiquei porque já não conseguia comer mais, mesmo que quisesse - queria -) nem os vinhos (um espumante italiano "que se bebe como limonada", Th. dixit; uma magnum de Chateau Haut-Marbuzet, uma garrafa de Cornas - syrah varietal do Rhône de que nunca tinha ouvido falar e do qual não deixarei de falar nunca mais -. Duas boas Mirabelle para ver se ajudava os sucos gástricos - sou de natureza altruísta -).

E conversa, muita conversa. Um dos filhos do casal - N. - estava lá e foi um prazer descobri-lo. Os cães e os gatos (três de cada) mantiveram-se calmos.

A. é uma cozinheira excepcional e uma amiga excepcional, alma boa, generosa, empática. Th. tornou-se sábio, arredondou os ângulos e manteve-se o homem generoso, tranquilo, pacífico, modesto e competentíssimo que sempre foi. É a antítese do self-made man que é. Deve a fortuna que tem única e exclusivamente a si próprio e disso não faz alarde - nem da fortuna nem do seu mérito a fazê-la -. Partilha-a com os amigos em forma de tudo o que há de melhor, ajuda muitos e irradia harmonia.

Não sei o que vai sair do que escrever. Espero que não seja uma merda. Mas se for uma coisa é certa: não tenho desculpa.

4.2.17

Eternidades, Hildegarde

Como seria engarrafar a Hildegarde von Bingen? Que tipo de álcool dali sairia? Uma mistura de Cointreau com rum El Dorado quinze anos, whisky Talisker e mais meia dúzia de coisas. Em copos separados bebidos ao mesmo tempo. Quinze garrafas unidas pelo gargalo. Quinze eternidades reunidas numa só.

3.2.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 03-02-2017

É talvez assim - mas não tenho a certeza - que os dias deviam passar: fluindo. Sem correr nem andar, sem curvas nem contracurvas, sem saltos nem sobressaltos, sem quedas nem levantar-se.

E depois, claro, desaguar num jantar de amigos, terminar com um Irish Coffee feitos como deve ser (não há erro de concordância) e Carlo Gesualdo antes do sono.

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Esta cidade não muda, seja Deus louvado. Nenhuma muda, mesmo quando pensamos que sim. Na Ferblanterie entra a malta que entrava há trinta anos no Marchand, trinta anos mais nova (isto é, da mesma idade); no Bio sento-me ao lado de duas miúdas de vinte e poucos anos - a idade que eu tinha quando frequentava Carouge -; falam de... de... de alojamento, claro. Na Rue Ancienne passo por uma montra que tem uma grande cópia de um artigo de jornal cujo título é A morte do pequeno comércio de Carouge. São cinco e vinte da tarde. Chego à loja do café (recente, isto é, não existia há vinte anos). Está fechada. Fecha às cinco e um quarto, todos os dias.

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Tenho um passe mensal para os TPG e um número telefónico suíço. Já só me falta a bicicleta para ser residente.

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Cada vez acredito menos nessa história do regresso aos sítios onde fomos felizes. E àqueles onde fomos infelizes? E se neles tivermos sido felizes, infelizes, felizes, infelizes, felizes (repetir ad eternum)?  Pouco me interessa. Dos sítios por onde passámos fica o que somos hoje, não o que fomos quando neles estivemos.

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Amanhã jantar em casa de Th. e A. A. foi a primeira pessoa - tanto quanto me lembro - que me disse que eu devia dedicar-me a escrever. Foi também ela que me fez conhecer o Château Haut-Marbuzet, o melhor vinho da galáxia e arredores. Ignoro se há uma relação entre as duas coisas. Acho que não.

Talvez haja, muito lá no fundo, quem sabe?...

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Para quem tenha muitas perguntas sem resposta, como a de acima: Carlo Gesualdo, Tenebrae; Hildegarde von Bingen ("We cannot live in a world that is not our own, in a world that is interpreted for us by others. An interpreted world is not a home. Part of the terror is to take back our own listening, to use our own voice, to see our own light.") Canticles of Ecstasy.

"Dare to declare who you are. It is not far from the shores of silence to the boundaries of speech. The path is not long, but the way is deep. You must not only walk there, you must be prepared to leap."

(Hildegarde).

(Não sei se deva considerar isto o fim de um dia se o princípio do outro).

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Pequena nota importante: o autocarro estava quatro minutos atrasado.

Segunda nota importante: como se pode ser estrangeiro num mundo em que se conhece tanta gente tão bonita?

Terceira nota importante: ser estrangeiro em todo o lado é não o ser em lado nenhum. Quem é de algum lugar é de todos os lugares.

Das qualidades visíveis e invisíveis

Um pai não pode - não deve sequer - impedir-se de se sentir orgulhoso ao aperceber-se uma vez mais de que a sua filha é, numa cidade de mulheres belas, a mais bela que ele viu hoje.

(Isto para não mencionar a inteligência, simpatia, educação e essas qualidades todas que não se vêem mas estão lá).

Colonialismo, só não vê quem não quer ver

Se alguém precisar de uma prova, mais uma, de que os países colonialistas exploraram, sugaram, sangraram, espoliaram os países colonizados deve comparar a riqueza deles durante a colonização com a riqueza post-colonização.

Salta à vista, como dizia o ceguinho da esquina da rua onde eu apanhava o metro.

2.2.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 02-02-2017

Fica definido de uma vez por todas: doravante para mim a imagem de Genève é a de uma filha que me espera no aeroporto ao volante do seu automóvel, "pernas intermináveis como o futuro" (o elogio foi primeiro e há muitos anos dedicado à mãe dela), ponto de luz e beleza numa noite negra e fria.

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Compasso de espera em casa de JvH até poder ir para casa de S. J. é um gentleman e Ch. uma senhora. Moram numa vivenda bonita e humana nos arredores próximos de Genève. Falamos muito, J. e eu. Estamos de acordo no essencial e discordamos cordialmente no resto.

Posso ter azar com muitas coisas; mas com os amigos não tenho. Encontrei amigos que me escolheram. É uma sorte. Quem tem amigos assim não pode ser má pessoa, por mais que tente parecê-lo.

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O programa é simples e fácil de cumprir: escrever, ver amigos e a família, escrever, passear, ver amigos e família, escrever.

É a vantagem das coisas que chegam quando têm de chegar e não antes nem depois.

1.2.17

Diário de Bordos - Lisboa, 01-02-2017

Por muito inglês que me sinta quando em Londres estou num pub ao fim do dia a beber uma ale, ou americano quando como um hamburger numa casa decente como a de West Palm cujo nome me escapa; ou francês quando vou ao Chez Janou em Paris ou ao Cana'bar ou ao Vin des Rues; ou em Espanha a tapear ao fim da tarde e percebo estas gentes todas porque viajo para trabalhar e durante o dia estive com eles, esse dia e os outros todos que já foram muitos em muitos sítios e por isso me sinto de onde calha estar. Por muito que... nada chega aos calcanhares do português que sou quando como um cozido numa tasca e bebo meio de tinto e remato com uma bica e uma amarelinha caseira (quando a há, que os cabrões da ASAE andam aí a ver se fazem disto um paraíso asséptico, anódino, indiferente).

Não sou patriota, porque pátria é uma coisa esquisita, um acidente histórico e geográfico, político e social que me diz pouco. Sou português; é muito melhor, mais difícil, profundo e perene.

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Perguntei ao senhor que vende castanhas à frente do Avenida Palace - um senhor que inspira imediatamente confiança, comprar-lhe-ia castanhas de seguida se gostasse de castanhas - e ele disse-me que o melhor a engraxar sapatos ali na zona é o "Surdo, à frente dos Correios". Não sei se é o melhor; sei que é muitíssimo bom e que deve ser difícil encontrar quem o bata; com a vantagem adicional (para mim, claro; ele deve ter uma opinião diferente) de ser surdo e provavelmente mudo - o preço, ao fim de uma cuidadosa e meticulosa engraxadela, é indicado por meio de um pequeno papel plastificado -; ou seja, não há conversas sobre o golo de ontem, o que fez ou disse o presidente de um clube hoje (só conheço o nome de Pinto da Costa, um ser que à primeira vista me é profundamente repugnante e à segunda também). O serviço é feito com competência, concentração e dedicação total. Os sapatos estão prontos para afrontar o mês de paragem que os espera.

Enquanto ele me engraxava os sapatos eu observava os transeuntes. Só um homem, de entre as dezenas que passaram tinha sapatos de engraxar. O resto era tudo aquelas abomináveis sapatilhas. Acho uma pena que se deixe desaparecer uma profissão tão necessária, importante, estruturante mesmo, se pensarmos a cidade como um todo. Para não mencionar o mau gosto, claro. Sapatilhas são para jogar ténis ou correr, não são para andar na cidade.

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Hoje à noite avião. Já me estava a parecer muito tempo, um mês e meio sem pôr os pés num. Felizmente é curta a viagem e à chegada tenho uma filha à espera. (Cada minuto vai contar por dois, eu sei; porém uma vez lá o tempo terá passado a voar).

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Levo um monte de livros portugueses para ler. É desta que me vou pôr em dia com a literatura portuguesa recente.