15.10.15

Amanhã, espero

Fui almoçar a uma tasca: apetecia-me poder palitar os dentes depois do almoço sem ter de provocar os outros clientes. Ou seja: estou em paz. Gostaria tanto de ser mal-educado... Cuspir na rua, dar puns em todo o lado, palitar os dentes em público sem vergonha nem arrogância. No primeiro grau, naturalmente, sem segundas - ou primeiras - intenções. Ando fraquinho. Nada de provocações.

Isto das tentações... Nunca poderia, por exemplo, ser alcoólico porque sou incapaz de ser ex-alcoólico. Eu cedo - e, pior ainda, com a alegria expectante de uma prostituta a quem mostram uma nota de quinhentos euros - a todas as tentações. Dependências (para quem não sabe, é aquilo que agora se designa por adições, vá lá saber-se porquê. Talvez alguém tenha um dia a gentileza de me explicar o que são subtracções) exigem independências, qualquer gajo que tenha lido mais de uma linha de Hegel o suspeita.

Hoje cedi a duas tentações. Comprei livros e comi uma dose enorme de migas à alentejana.

A primeira foi na livraria Fonte de Letras, em Évora (antigamente era em Montemor). A senhora foi simpatiquíssima e perguntou-me se queria que accionasse um dispositivo que afasta as pessoas das estantes. Disse-lhe que não, claro. Comprei um Manuel de Gusmão - ninguém resiste a um livro dele do qual percebeu os dois primeiros poemas que leu - e um Mário de Carvalho - não fiquei embalado com o outro que li e não acredito muito em primeiras impressões; devem ser confirmadas ou, melhor ainda, infirmadas -.

A segunda foi no restaurante "Tasquinha a Mata". Fica na rua do Raimundo 113. O diminutivo do nome não é, ou pelo menos não é só afectivo. É pequeno e come-se bem, é barato e pode palitar-se os dentes, apesar de alguns clientes serem estrangeiros e de nem todos serem burgueses à cata de um bom almoço "em conta".

Isto das tentações é complicado. Um gajo está num restaurante chic e apetece-lhe palitar os dentes, ou não lhe apetece levantar-se para ir à casa de banho fazê-lo. Ou apetece-lhe dar um pum. Ou fungar com força, puxar um escarro bem lá do fundo. A opção mais fácil é o pum, claro; mas quem nos garante que não é também a mais cobarde?

As tentações ganham sempre, mesmo quando não ganham, mesmo quando lhes resistimos e optamos pelo pum, ou optamos por fingir que somos mal-educados e estamos a treinar para aceder à educação. Não há empates.

Escrevo ainda com o gosto das migas no palato. Subtil, equilibrado e barato. Nada despiciendo, o preço. Baratíssimo. Tasquinha a Mata. Recomendo.

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Está calor. Vim beber um café e uma aguardente a uma esplanada. Chama-se Alguidares. Está calor e Évora tem a luz pálida das cidades sem mar. As pessoas movem-se devagar, como se não fossem elas mas a rua a mexer-se, a empurrá-las e elas avançassem contra-vontade.

De dentro do café chega-me uma música brasileira, vem de longe. Do Brasil ou do sótão dos meus desgostos. Há pouco era jazz, sempre fica melhor com as tentações, com o calor da rua, com dentes palitados e escarradelas na rua (no caminho para aqui cuspi para uma parede, uma escarradela bem puxada, densa, quase sólida de tão densa. Ficou colada à parede como se tivesse levado cinquenta por cento de Araldite).

Tenho a morte à porta, portas dentro. Nas tintas para as escarradelas. Espero que ninguém veja nisto uma parábola, uma analogia, um eufemismo, uma metonímia - um cuspo por um insulto, um pum por uma dor, um palito para afastar o inevitável -. Escarrei na parede, é tudo. Primeiro grau. Não estava ninguém a ver. Ou pelo menos ninguém que valesse a pena ofender.

Nada de eufemismos, analogias, parábolas. Má-educação pura, simples e assumida. (Sabe melhor quando é provocação, verdade seja dita. Maldita seja a propensão para a complexidade).

O restaurante chama-se Alguidares, fica na rua Miguel Bombarda. Até agora ainda só provei a aguardente caseira e a simpatia da senhora. O resto fica para amanhã.

Fica tudo para amanhã, de resto. Espero.