5.5.17

Diário de Bordos - Pointe-à-Pitre - Horta, 18-04 a 05-05-2017

Largámos há quarenta e oito horas, aproximadamente. A tripulação está amarinada; cada um encontra o seu ritmo e o seu lugar a bordo. A nossa longitude é maior do que há dois dias: por estibordo temos um muro intransponível e é preciso contorná-lo. Depois espera-nos uma longa descida com ventos de popa ou pelo través – isto se as previsões meteorológicas e as estatísticas estiverem correctas. Estatisticamente a verdade é que nesta altura do ano os alísios deviam vir mais de Sul e não vêm; vêm de Nordeste, que é para onde queremos ir.

O azul do mar é provavelmente a cor mais bonita que conheço. Por muito que diga que quero deixar o mar – e quero – é impossível não reconhecer nesta paisagem a “minha” paisagem, o meu mundo, as minhas cores, o meu lugar. É impressionante pensar que quando olho para o mar é para mim que olho e apesar disso gosto do que vejo.

Durante o dia – das seis da manhã às seis da tarde – os quartos são de quatro horas; à noite de três. Cada um de nós faz todos os dias pelo menos uma viagem Lisboa – Guimarães e uma outra Lisboa – Porto num comboio que não tem carris, nem passageiros. Durante os quartos estamos sozinhos; por vezes aparece alguém na ponte para nos fazer companhia ou para apanhar um pouco de sol, mas fora esses momentos o quarto é o momento da comunhão com o barco, o mar e o vento. Alguns passam depressa, outros não. Como a vida, porque cada quarto é um bocadinho de vida: ontem olhava para Oríon, que está pelo través de bombordo e pensava quanto a queria ter pela popa, ou quanto gosto de a ter pela proa – e quão bonita é ali, com Sirius a guardá-la –. De tempos a tempos o alarme do piloto automático, em modo Vento apita: “não te distraias demasiado com Oríon ou contigo”, parece dizer. “Pensa em mim”.

Não se pode mentir ao mar. Podemos mentir a quem quisermos – cônjuge, patrão, amigos, fisco ou até a nós próprios –; mas ao mar não.

200417
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E depois nestes dias da tristeza faz-se como se faz com o vento: mareia-se a alma e segue-se para onde se pode, o mais perto possível de onde se quer. Zangar-se de nada serve. De resto: com quem?

O cotovelo rir-se-ia, se fosse com ele. Dos outros não vale sequer a pena falar: nada em mim ouviria os meus bramos, se por acaso me viesse a tão inútil como pouco provável vontade de os dar a ouvir, tão bonitos, tão mudos. Como o vento pouco se importaria, se eu me queixasse desta interminável bolina sem fim à vista. Uma semana, daqui a doze miseráveis horas.

(Verdade seja dita - a verdade dita alivia - que o cotovelo está assim há muito mais tempo; e a culpa é minha, só minha e não de um intrincado, caótico e incontrolável sistema atmosférico com milhares de variáveis).

240417

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Amanhã é o 25 de Abril e eu mais preocupado com as eleições francesas, cujo resultado me chateia desconhecer.

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O vento foi-se, de todo. Vamos devagarinho a motor, mil e duzentas rotações para não assustar o gasóleo. O objectivo é chegar à longitude dos Açores com os tanques a meio. Se o vento voltar até amanhã e não voltar a falhar conseguimos. Se não, vamos ter de parar nessas ilhas demasiado bonitas para uma escala curta.

As núvens estão paradas como numa fotografia. Nem amanhã teremos vento.

230417
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O sol nasce. A Oeste o céu tem uma estreita faixa alaranjada. Os cumulus, ainda escuros, sobressaem, dão-lhe profundidade, compõem um quadro a três dimensões. A Leste não: é tudo plano, uniforme, duas dimensões, só manchadas pela relativa claridade de algumas núvens mais altas, cirrus estratificados ou talvez altus.

A Lua está muito pequena, uma unha limpa (ou suja) de luz; a seu lado Vénus levantou-se vigorosa e ardente.

Não estou a ir para onde quero - ainda não apanhámos os ventos de Oeste e por isso vamos para Norte - mas a calma deste quadro é toda-poderosa. Tenho na boca o sabor do café que há pouco bebi e na memória a lembrança de uma miúda por quem devia ter-me apaixonado há alguns anos. Está frio mas não muito - é mais uma ausência de calor do que frio propriamente dito -; o vento cai outra vez; há dois dias que anda assim, entre o fraco e o nada. Deixo-o cair: sei que nem o barulho dos motores conseguiria dar cabo desta calma galáctica, profunda, misteriosa porque vem de (ou provoca, não sei) um sentimento que me nasce (ou vai para) uma região de mim (ou do universo) que desconheço. Pior ainda: não quero conhecer.

Dissolvo-me nestes sete nós de vento e mar correspondente, neste frio que não é frio, nestas cores que mudam a cada segundo: deve ser a esta mistura que chamo mistério e devido a ela que o sentimento de paz, calma, harmonia, sintonia, dissolução, plenitude me parece misterioso.

Não é. É simples: os fragmentos de mim - a memória de uma rapariga que devia ter amado, o frio que o não é, o prazer de sentir o O. avançar apesar do pouco vento, a indiferença por não estar a ir para onde quero - tudo isso se cola numa emoção simples, primitiva, primária da qual desconheço o nome. Calma, paz, harmonia, sintonia, dissolução, plenitude são apenas nomes, avatares insuficientes e desajeitados para descrever o que sinto.

Pouco me importa. A cada frase olho para o céu - que agora está claro - para as nuvens a Leste - já tingidas de laranja - para as vagas curtas, pacíficas deste mar que corresponde perfeitamente ao vento que as provoca -. Os cumulus estão baixos e escuros; os cirrus altos e claros. O horizonte perfeitamente definido a toda a volta. Em breve a temperatura subirá e eu deixarei, talvez, de pensar na miúda que devia ter amado e não amei, com quem hoje sonhei e que ficará para sempre associada a este nascer do sol, a esta calma, paz, harmonia misteriosas: aquilo-a-que-não-podemos-dar-nome.

O sol aparece no horizonte; daqui a pouco o meu quarto acaba. O céu está a três dimensões para onde quer que se olhe.

Eu também.

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Hoje sonhei contigo. Fomos dormir juntos, mas tu pediste-me para não fazermos amor. Eu disse que sim, claro, na esperança de que mudasses de ideias. Não mudaste e não fizemos. Quando acordamos disseste-me "tenho um namorado. Só queria ver se o amava o suficiente para dormir contigo e não fazer amor. Amo".

Reconstruo o sonho duas horas depois de acordar, de quarto na ponte, o sol a nascer. Está frio mas não muito, o horizonte para Oeste vermelho-alaranjado e para Leste ainda escuro, :um cinzento quase azul, quase violeta, como se tivesse vergonha de não ser negro. Ou medo de o ser.

Gostei muito do sonho: fiquei orgulhoso de mim - não me senti magoado por ter sido "usado" - e feliz por ti. Levantámo-nos, vestimo-nos, beijámo-nos e despedimo-nos. Só depois me lembrei de te dar os parabéns por teres um namorado, mas foi aí que acordei e já não consegui.

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Polinizador de matrimónios

- O meu nome é Florêncio Augusto e sou especialista em salvar casamentos.
- Salvar casamentos? O senhor está a brincar comigo? Você está envolvido em cinco casos de adultério e diz-me que salva casamentos?
- Sim, senhor doutor. É que elas andam comigo uns meses - não muitos: dois, três, com algumas chega aos quatro - e apercebem-se de que o marido é melhor.

Não só melhor do que eu - isso vêem logo, passado um mês - mas o melhor que vão arranjar. E assim salvo o casamento. Sou um polinizador de matrimónios..

Também acontece elas - enfim, as senhoras - andarem comigo para chegar à conclusão de que o casamento delas não serve. E vai daí separam-se e casam com outro. Ora um casamento que não funciona mais vale desfazê-lo, não acha? É começar um novo. Sou um polinizador, é o que lhe digo, meu caro.

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A paisagem no mar é mais variada do que a maioria das pessoas pensa: começa pela noite, claro, com estas estrelas todas, nas quais nos perdemos ou podemos perder-nos horas sem nos cansar. De dia há o mar, que nos diz o que aconteceu ao longe e o que está acontecer perto de nós. Às vezes, simpaticamente também o que está para vir. Com as núvens passa-se exactamente o mesmo, ou quase: dizem-nos o que está e o que vem, e às vezes o que foi. Quem não se deliciou com a nebulosidade caótica de uma post-depressão, quem não agradeceu aos cirrus o aviso de uma outra que está por chegar? Quem não se contenta com um céu cheio de cumulus, as nuvens do statu quo, quando está contente com a situação actual ou se enfureceu com esses mesmos cumulus quando quer outra?

O céu e o mar são grandes contadores de histórias, livros abertos que basta saber ler, jornais com notícias atrasadas, do dia e de amanhã na mesma página.

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260417
Revejo-me a navegar na Mancha há quarenta (quase) anos: um tempo de merda, mar caótico, vento que um gajo não sabe se é carne se é peixe, riza desriza e volta a rizar.

O que mudou? Tudo. O barco é incomparavelmente maior e melhor, não estou sozinho, tenho mais experiência...

E mais quarenta (quase) anos, puta que os pariram, um a um.

Estou estoirado, morto, derreado.

E já que estamos nos cumprimentos e delicadezas: puta de noite a que passei antes do quarto. Saltos, barulho, solavancos. Parecia que estava no trampolim de um circo de bêbedos.

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Comprei mais um par de sapatos Foreva, apesar da má experiência com o último. Até escrevi ao departamento de marketing, mas eles não ligaram nenhuma. Devem estar habituados às críticas. A verdade é que a loja fica mesmo à boca do Metro e entre comprar um mau par de sapatos conhecidos ou passar uma horrível hora a entrar e a sair de lojas cujas marcas ou não conheço ou excedem largamente o orçamento sapatal (e das quais algumas a qualidade deixa tanto a desejar como a das outras) preferi o diabo que conheço.

O sacrifício de entrar em lojas não é linear e directamente proporcional à quantidade de lojas que se visitam. É exponencial: à segunda loja a dor é três vezes maior, à terceira seis, à quarta deixa de ser mensurável.

Tenho-os usado todos os dias porque está frio e o tempo uma merda indescritível.

Enfim, é quase certo que terei de parar na Horta. Em breve poderão testar solo nacional.

260417
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O vento cai, levanta-se, corre, anda, mas rondar está quieto. Porra, de tanto lado de onde pode vir por que raio de carga de água tem de ser SE? Norte, Noroeste, Sudoeste, Sul... tudo menos o que está, ESE que é exactamente para onde eu quero ir.

Ou quase: o mais provável é pararmos nos Açores. Mas para o vento que está tanto faz. Nada muda: faço NE e é um pau. Piloto automático, gerador, combustível: as razões acumulam-se. Se bem do piloto tenha um bocado de medo: se for realmente o Fluxgate, como penso, tenho ali para uma semana. (Mas seguir sem piloto está fora de questão. A ver vamos, como dizia o nosso amigo ceguinho).

Hoje mudo a hora. A primeira de seis mudanças. Felizmente é no bom sentido: menos vinte minutos de quarto a cada vez (e quarenta de descanso, mas desse temos em demasia).

Sacana do mar está desorganizado, caótico, chato. Vá lá que agora melhorou um bocadinho, mas ainda estou longe da popa ou do largo com a qual sonhamos todos desde que largámos. É preciso ter azar: segundo o Pilot's E e SE são os ventos menos frequentes nesta área neste mês...

N. está a revelar-se um tripulante fantástico. Que diferença faz dos atrasados mentais da última travessia. K. é encantador. Não tem metade da experiência que o E. disse que tinha, claro; mas é boa pessoa, prestável e - nada despiciendo - parece-me bom engenheiro.

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Vamos para a Horta, aos èsses, como marinheiro jovem hesitante em casa de meninas.

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Se alguém quiser fazer um diagnóstico do estado de uma embarcação de recreio tem um método eficaz à disposição: pô-la uma semana à bolina com força quatro ou cinco permanente.

Nós vamos quase a caminho da semana e meia. Começo a conhecer o bote e a achar que merece o nome.

Não que seja uma surpresa. Não é. A haver surpresa seria no outro sentido: para um barco com sete anos de charter nos costados até está em muito boas condições. Mas o armador vai ter que gastar uma boa pipa de massa para o pôr em condições. A C C, que o operou nestes sete anos não o vendeu por acaso.

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Chama-se a isto um dia em cheio: primeiro partiu-se a adriça de genoa. Foi preciso arrear a grande para ter uma adriça para a cadeira. Mal pus o pé no convés rebentou um moitão do carrinho da grande. Entretanto o motor de bombordo juntou-se ao gerador e recusa-se a trabalhar (problema de tanques sujos, muito provavelmente). Enquanto estava a subir ao mastro passou por nós um navio de guerra, um abastecedor. Ficámos todos com a impressão de que ele tinha abrandado para esperar por mim pendurado no mastro (passámos perto. Tive de zigzaguear para lhe passar pela popa). De modo fui agradecer-lhe à VHF e aproveitei pedi previsões de tempo. A senhora fez-me uma descrição impecável do tempo que está e despediu-se. "Espera, espera: aqui para Norte de nós está um anticiclone. Pode dar-me o seu centro, por favor?" "Sorry, Sir, mas não posso dar essa informação". Porra, isto é que é um segredo de Estado, o centro de um anticiclone... Não percebi de onde era. O nome parecia qq coisa como Shaba e o código no casco era I 88. Quando chegar a terra vou tentar encontrá-lo.

Enfim, isto é.

Que a próxima escala vai ser a Horta é uma certeza; a ver se o motor de estibordo ainda carrega as baterias hoje à noite e amanhã de manhã, para ter um tempo mais calminho para a mudança de filtros; e sobretudo a ver se não se parte mais nada e a reparação provisória do carrinho da grande se aguenta. Vasto programa, para o qual só a esperança é chamada a contribuir.

(Já agora: velhos são os trapos. Ainda cá estou para meia dúzia de curvas).

Passado o pequeno intervalo publicitário retomemos o programa: vamos com nove dias de bolina. Assim de repente chega, não? Ou é para repetir a proeza do Bernard aqui há trinta e tal anos que foi da Martinique à Horta à bolina? Isto com os ventos favoráveis é como com o aquecimento global: só os há onde eu não estou.

Sacana do navio de guerra não me sai da cabeça. Não me pode dizer onde está o anticiclone. Será por ali que saem os mísseis nucleares?

Ainda bem que a urgência não era saber o resultado das eleições francesas...

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O pior é que olhando para trás: sim, foi um dia bom. Um dia em cheio. Temos tudo reparado, os dois motores estão a funcionar (por obra e graça do Espírito Santo, salvo seja, mai-la uma ajudita provável da gravidade), Temos água e comida e amanhã aposto que entra um vento mais decente do que esta porra deste ESE e daqui a oito dias estamos no Peter a beber um gin e a comer um prego.

Eu disse um gin.

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Uma tripulação porreira e a sua vida muda, não é? É.

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Pode ser que esteja enganado, mas nesta coisa de a AI substituir postos de trabalho quer parecer-me que o lugar de skipper numa embarcação de vela vai ser dos últimos a desaparecer. O que, de passagem seja dito, abona pouco em favor da inteligência do dito skipper.

270417

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A única vantagem destes dias de pancada é que passam a uma velocidade incomparável. Ontem foi o dia todo a nove - dez; hoje passou dos nove para os oito e agora está quase nos sete: quase. Cada vez que sonha lá chegar - ou eu sonho que lá estamos - subimos de novo para os oito.

Dizer que estou farto não exprime totalmente o que sinto; mas tão pouco quero exprimir todos os meus sentimentos, excepto o da gratidão pelos dias que passam depressa, pela excelente tripulação que tenho (o K. é fraquinho mas é uma simpatia; o N. é um dos melhores tripulantes que tive nestes últimos anos), por estar quase a chegar à Horta e ao Peter - amanhã é aquele dia mágico em que podemos dizer "chegamos depois de amanhã" -.

Estou ansioso por chegar. As mazelas do O. doem-me como se fossem minhas. Quero começar a tratar delas. (Talvez devesse antes dizer "doem-me como se não fossem minhas": de mim não trato com tanta vontade).

E estou ansioso por me apanhar no Mediterrâneo, incrível que pareça.

Hoje é dia do trabalho e continuo sem saber o resultado das eleições francesas.

010517

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Três Beaufort a menos durante toda a travessia não teria feito mal, antes bem. Teria sido mais confortável, teríamos demorado o mesmo e estaríamos mais secos, é tudo.

Um gajo sabe que está a levar um arraial de porrada quando o vento baixa para trinta nós e parece que deixou de haver vento de todo.

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A meteorologia é uma ciência de excepções em busca de uma regra.