21.1.26
Curiosidades do aeroporto de Lamentin
19.1.26
Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 18-01-2026
17.1.26
Diário de Bordos - Marigot, St.-Martin, DOM-TOM França, 16-01-2026
Os dias têm sido de insónia. As noites também, a fortiori. Ontem dormi no melhor quarto (de hotel, pensão ou simili) dos últimos duzentos e cinquenta anos - anos de memória, leia-se. Hoje durmo no meu bem-amado Centr'Hotel. Amanhã não sei. Preencho a insónia com uma indomável vontade de amanhã acordar tarde, Santo Agostinho e vozes femininas. Sandy Denny à qual regressarei mal a Baez acabe de cantar, Maddy Prior, Karen Dalton. Sandy Denny: Who knows where the time goes; Baez: Sad eyed lady of the lowlands; Maddy e Karen: ainda não sei. As insónias não têm placas a indicar a direcção. Nada tem, de resto. "La où les routes sont tracées je perds mon chemin". Quem é que disse isto? Tagore (lê-se Togore)? St. John Perse?
Tagore:
12.1.26
Diário de Bordos - Fort-de-France, Martinique, DOM-TOM França, 12-01-2026
ADENDA
Alguém nas esferas políticas decidiu que o sistema era demasiado «terceiro-mundista» e resolveu implantar autocarros, como nas grandes metrópoles. À boa maneira destas ilhas, a coisa levou anos e anos a ser posta em prática, mas lá foi inagurada, nesse ano.
Resultado: os autocarros andam vazios, não têm horários (se os têm não os cumprem) e as pessoas puseram-se a comprar automóveis (o objectivo «oficial» da medida era diminuir os engarrafamentos crónicos) e se alguém quiser vir de Fort-de-France para o Marin depois das sete da noite (mais coisa menos coisa) das três uma: ou vem de carro, ou paga cem euros por um táxi ou não vem. Os engarrafamentos aumentaram, a mobilidade ficou pior e como os políticos são políticos o sistema está mal concebido e funciona pessimamente.
O fantástico nesta história é que há pessoas inteligentes que pensam que a solução para a maior parte dos problemas é o Estado. Não é. É um conjunto de homens e carrinhas ou o que quer que seja que faça o que estas fazem.
11.1.26
Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 11-01-2025
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A tarde escoa-se lentamente, ao ritmo do rum e do vento. Ao lado a banda faz testes de som sem parar. A música não é grande coisa mas a parede que por vezes me isola do mundo funciona particularmente bem nestas ocasiões. Já paguei e preparo-me para me ir embora, dormir uma merecida sesta. Fazer quase nada é muito cansativo.
10.1.26
Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 10-01-2025
É uma tarde de sábado melancólica, cheia de opções pelas quais não me apetece optar. Ia para o Liv trabalhar mas está fechado; o Sucré Salé idem. Abençoado resultado: acabo no Cayali a ver a malta dos ioles aparelhar e largar enquanto bebo um rum velho e deixo os alísios afagar as opções. Do outro lado da baía a azáfama é vertiginosa: sábado é dia de charters e há malas por todo o lado, pessoas a correr, companhias speedadas para terem os barcos prontos. Deste lado é o contrário: ningém se mexe. A única actividade é a dos ioles mas essa está longe de ser frenética. É calma, comedida, precisa. Cada um sabe o que tem de fazer e fá-lo, sem hesitações nem delongas.
Já eu hesito e delongo, mas isso é outra história.
O que não é outra história: que bem fiz em vir aqui. Esta mania de estar sempre fechado entre quatro paredes devia prescrever de vez em quando. Não digo sempre, notem. Digo de vez em quando.
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ADENDA
O jantar foi menos feliz. Vim ao koko, abreviatura de Kokoarum. Não sei bem porquê. A comida é má e cara, o serviço péssimo, deixo dois terços no prato porque as doses são demasiado grandes e saio a perguntar-me por que raio de carga de água não fui ao Marin Mouillage, que aparentemente está aberto.
A resposta é simples: porque o Mango está fechado e o Marin sem o Mango é um Marin amputado, meio Marin, Marin sem passado nem futuro. O koko é um ersatz de Mango, corpo sem alma, ciclista sem pedais, bicicleta sem rodas, choro sem lágrimas.
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O meu eterno dilema Martinique vs. St. Martin está definitivamente resolvido: St. Martin, apesar do aumento de preços demencial do Arhawak, apesar de... Apesar de nada. Se o Arhawak está caro tens outros aonde ir. O pequeno almoço na Émilie não tem igual, as meias porções no Ben, os jantares no L'Authentique, o goonies, meu Deus, o goonies.
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Á espera de uma confirmação de um transporte México - Brasil. Há quem diga que podia esperar pior e eu concordo. Não vai demorar muito tempo a chegar.
Enfim, espero.
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Não espero nada. Sei. As semanas que passei com aquela louca têem ser compensadas, é tudo. Quanto mais não seja, com um trabalho decente. A mulher é BPD, OCD e está descompensada. Foi demasiado para um ser frágil como eu. Não sou psiquiatra nem enfermeiro em psiquiatria nem psicólogo. Sou vítima de um trauma que me vai perseguir algum tempo (pouco, que o mar tratará de o lavar).
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Hoje o espectaculo dos ioles a aparelharem na praia foi magnífico. Sábado que vem trago a máquina, ver se traslado o que tenho na retina para o sensor megapixel.
Não conseguirei, claro. O sensor não sente nada, apesar do nome.
9.1.26
Diário de Bordos - Aeroporto de Grand Case, Saint-Martin, DOM-TOM França, 09-01-2026
Cheguei demasiado cedo ao aeroporto, outra vez. Com o trânsito aqui nunca se sabe. A julgar pela sala de espera o avião estará cheio. Volta, Air Antilles, estás perdoada (a Air Antilles foi proibida de voar porque os aviões não estavam em condições. Agora só há a Air Caraïbes e os preços são alucinantes. o que não impede os aviões de andarem cheios.
8.1.26
De coisas e de coxas
A mulher entrou no goonies. Eram três mas única visível era ela: um par de mamas a rebocar um corpo. Lembram-se daquela piada sobre o de Gaulle - "un imbécile commandé par un gros nez. Le nez disait "en avant" et l'imbécile suivait"? Bem, troquem nariz por mamas e imbecil por mulher e o quadro está completo. Agora está sentada no bar, bikini demasiado pequeno, coxas demasiado grossas, mamas escondidas pelos braços. Aquelas estátuas romanas sem braços nos museus têm a sua razão de ser.
PS - Não é nada sobre o de Gaulle. É muito anterior ao General. E o original é assim: «Un grand corps commandé par un grand nez. En avant, marche! Le nez partait, l'imbécile suivait.» Não encontro o autor.
Diário de Bordos - Cole Bay, Sint-Maarten, 08-01-2025
Saint Martin (aonde durmo), Sint Maarten (aonde escrevo estas linhas), SXM é a ilha de tudo e do seu contrário e eu faço-lhe jus passando aqui momentos de uma bipolaridade capaz de fazer chorar um autêntico sofredor dessa patologia. Amanhã volto à Martinique, hoje tenho uma vaguíssima proposta de trabalho nas BVI (de um ponto de vista financeiro, o melhor sítio para trabalhar nas Caraíbas porque a maioria dos clientes é americana), entreguei o carro «normal» - que afinal não o é assim tanto, também me permitia conduzir sem o maldito cinto - almocei no Lagoonies a convite do J., aluguei um apartamentozinho porreiro que tenho até amanhã, espero que a abominável RN me telefone - não vou descansar enquanto não me pagarem - e hoje vou jantar ao Chef-Chef, se encontrar transporte. Se não encontrar vou também, a doente psiquiátrica come a meia dúzia de mesas de mim, o Lagoonies esvaziou-se. Tenho de ir à FKG por causa dos motores Suzuki, pergunto-me se terei coragem de vender o spi se a RN não me pagar e espero que a resposta seja «Sim» se a isso chegar.
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St. Martin é a ilha da a-territorialidade. É meio francesa meio holandesa mas a língua universal é o inglês, o dólar é aceite em todo o lado, todos os que estamos aqui estamos de passagem, com algumas excepções como o J., por exemplo, que veio fugido e por aqui encontrou poiso. Estas ilhas sempre foram refúgio de piratas e agora são-no ainda, mesmo que menos.
Ainda ao almoço falava com o J. do tempo em que traficar erva para os Estados Unidos não era um crime mas sim uma aventura. Toda esta malta se dedicava a isso ocasionalmente, entre dois charters e daí vem a massa, as casas, os barcos.
Tudo isso acabou, claro. Traficar droga deixou de ser um crime bon enfant, a própria droga mudou - agora é cocaína - os meios técnicos das autoridades mudaram. O mundo é composto de mudança e esta não é sempre necessariamente para melhor.
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ADENDA
O Chef-Chef tem Flor de Caña, o que só confirma que é um sítio correcto. Em contrapartida, eu tenho de ir deitar-me. Não sou menos correcto, sou só mais precoce.
6.1.26
Diário de Bordos - Simpson Bay & Cole Bay, Sint Maarten, 06-01-2026
Deixei a "trousse de toilette" a bordo (provavelmente) e venho ao lado holandês para comprar a Gilette Fusion 5, mais barata deste lado. De caminho aproveito e vou ao Lagoonies beber um rhum punch, particularmente acessível a esta hora, a hora feliz (traduzindo à letra). Isto é, se lá conseguir chegar. Às cinco da tarde a ponte de Simpson Bay abre pela última vez do dia e o engarrafamento chega ao aeroporto. O programa inicial era supermercado, cortar o cabelo e goonies. Vai ter de ser amputado.
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O programa foi amputado e continuo a escrever no Lagoonies: no supermercado - que não tinha as lâminas de barbear - o carro recusou-se a arrancar. Baterias em baixo. Vou ter de apanhar um taxi para Marigot e Michael, também conhecido por Shrimpy's, de me devolver os cinquenta paus que lhe paguei adiantado.
Em meu favor é preciso dizer que tentei alugar um carro na Dream Car Rental. Em meu desfavor: não tentei na Reliable, por exemplo, ou numa das outras do terminal de ferries de Marigot.
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Quando vinha para este lado mas ainda no lado francês fui interceptado por um polícia. Vinha ao telefone e sem cinto. Levei uma pequena mas firme reprimenda. A punição ficou agendada para a «próxima vez», aspas porque cito. Como não voltarei a alugar o carro ao camarão e os outros não me deixam andar sem cinto e além disso têm sistemas para ligar o telefone ao automóvel a probabilidade de haver uma próxima vez é bastante baixa.
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Hoje no goonies a música é boa - Doors, Neil Young, Eric Clapton - razoavelmente interpretada pelo duo de artistas e não muito alto. Será isto um caso isolado ou o prenúncio de uma nova época? A simpática (e belíssima) jovem empregada diz-me que é assim todas as quintas-feiras. Isso não me fará vir aqui menos vezes mas far-me-á decerto vir às quintas. Se ainda por cá estiver, claro, que esta coisa de prever o futuro é um exercício vão e fútil.
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A trousse de toilette está quase reposta, graças ao supermercado chinês do outro lado da rua. Acresce que a senhora se lembrava de que a semana passada lhe paguei duas cervejas e só levei uma, pelo que descontou esse valor das compras de hoje.
Amanhã é outro dia. E hoje também.
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ADENDA
Venho comer ao Chef-Chef, uma pizzaria que tinha para mim a única vantagem de ser ao lado do Shrimpy's. Agora tem mais: a simpatia, o facto de não terem só pizze. O lugar transporta-me àquele restaurante em West Palm Beach que me cobrou o piri-piri, por causa da proximidade da água. Mas a semelhança acaba aqui.
Volto a pensar na vida, feita de dias e não de meses, semanas e muito menos anos.
«Há que mudar de evida de quinze em quinze anos», dizia-me uma senhora em Genebra. Há quantos anos? Há quantas vidas? Mudei para dez anso cada vida e hoje sei que muito. Cada dia é uma vida e a cada meia-noite muda.
Mudar de vida é mais inteligente do que mudar a vida, note-se. Ela nunca muda porque queremos. Muda porque sim. Já mudar de vida depende de nós, do mar, do vento, do rum que bebemos, da mulher que escolhemos amar. De nós, em suma.
Daqui a três meses terei uma nova neta. Uma nova vida.
Diário de Bordos - Marigot, Saint-Martin, DOM-TOM França, 06-01-2025
Comecemos portanto pelo commencement, comme il faut: o dia começou tarde. Quando me levantei já passava das sete. Depois houve alguns incidentes: apercebi-me de que deixei o material de toilette algures (provável e estatisticamente a bordo mas prefiro comprar outro a ver a M.) ; o carro estava com as baterias em baixo porque deixei uma luz qualquer acesa - não apita quando não ponho o cinto mas tão pouco o faz para as outras coisas; um dos cães da crew house meteu-se debaixo da minha cama e só de lá saiu à vassourada - pela mão da dona, apresso-me a esclarecer; quando cheguei à So Benedict, o meu santuário do pequeno-almoço, já passava muito das oito. Mas a verdade é que estou calmo; ou quase, já é bastante bom. Vou cortar o cabelo, pus o chapéu bonito no sapateiro para ver se consigo apertá-lo um pouco, amanhã vou buscar roupa, hoje tenho de ler o livro do A., que atravessou comigo em dois mil e vinte e dois e me pediu para escrever meia dúzia de palavras para a badana. Não se pode dizer que seja uma agenda sobrecarregada. Tenho, isso sim, um problema premente: troco o carro por um desses que me obriga a andar de cinto e em contrapartida me avisa se deixo as luzes - um dos últimos até as apagava sozinho - e é mais confortável, ou continuo com este? Tenho cerca de três horas para resolver este terrível e avassalador dilema.
Agora vou comprar um adaptador - o Shrimpy's só tem fichas americanas, deitar-me, dormir uma sesta intramatinal, ler umas páginas do texto do A. (li recentemente que os escritores não escrevem livros. Escrevem textos. Quem faz os livros são os editores. Sábias palavras).
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ADENDA
Salto uma série de coisas que saltaram do post por erro meu. Pouco importa: aplica-se a famosa máxima de Olivier de Kersauson: um tripulante que cai à água é porque não tem nada que fazer a bordo. Se o blogger me apaga meia dúzia de parágrafos é porque não tinham nada a fazer no post. De resto, o erro foi meu.
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Venho almoçar à minha querida Paula & marido, Jean-Baptiste. Não me apetece nada gastar a gorja dos americanos em alimentação e dormida.
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O chapéu ficou porreiro e resolvi trocar de carro. Uma alugadora normal no lado holandês cobra em dólares, o que significa imediatamente um desconto de quinze por cento, desconto esse que aplico em seguros. São uma aldrabice mas são melhor do que nada.
[O carro da Dream Car Rental está avariado. Estas ilhas não são para quem não gosta de surpresas.]
As crew houses têm duas vantagens: a primeira é o preço. São hostels baratos, com preços fixos; a segunda é que estamos entre colegas. No Shrimpy's este último aspecto é mais ou menos irrelevante porque nunca lá estou e quando estou é no quarto, mas quando se permanece numa delas durante algum tempo é importante. É claro que tudo isto tem que se lhe diga. Uma vez aqui em Sint Maarten dormi numa durante dois meses, partilhando o quarto com um gajo que depois me roubou quase três mil euros. Ter confiança nas pessoas por vezes paga e por vezes paga-se. Graças a Deus, as primeiras são mais frequentes do que as segundas.
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Resultado das corridas: voltei a alugar o carro ao Shrimpy's. As coisas são o que são.
5.1.26
Diário de Bordos - Marigot, Saint-Martin, DOM-TOM França, 05-01-2026
ADENDA
4.1.26
Diário de Bordos - Cove Bay, Anguilla, 03-01-2026
1.1.26
Diário de Bordos - St. Barth, DOM-TOM França, 01-01-2025
«Não estás nada mal», diz-me a MDS quando lhe digo que estou em St. Barth. Poderia não estar nada mal, sim, se as condições fossem outras. Nestas só espero a chegada do dia quatro de Janeiro, que nunca mais chega.
(Cont.)