21.1.26

Curiosidades do aeroporto de Lamentin

Por cima de cada urinol e de cada retrete das casas de banho do aeroporto Aimé Cesaire, no Lamentin, há uma pequena placa a dizer "Água não potável". Em cima das torneiras dos lavatórios essa placa está ausente.

Curioso, não é?

19.1.26

Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 18-01-2026

É quase meia-noite e acabo de passar duas semanas horrorosas, muito para baixo do muito mau. Qual a relação entre estas duas orações? O fim do horror está próximo. É razão necessária e suficiente, não é? É. Claro que cem por cento da responsabilidade é minha; tal como noventa e nove por cento da culpa. Já tenho idade para a) não acreditar em tudo o que me dizem, b) seguir a minha intuição e c) pensar em mim, egoisticamente, à la Ayn Rand. Falham-me a d), e), f) e por aí fora até à z). 

Que se lixe. Sou como sou e é tudo o que sou. 

Ou, se me permitem uma auto citação, como sou me dou. Convivo bem com os meus defeitos, condição primeira para amar alguém. Esse alguém sou eu? Tanto melhor. Esse alguém faz-me passar dias como os que passei? Paciência. 

Isto dito, saiu-me mais uma borderline na rifa. Gostaria bastante - e agradeceria ainda mais - que esse alguém me explicasse que mal fiz eu a Freud - ou à psiquiatria em geral - para as atrair desta maneira. Esta última juntava umas gotas de OCD à borderline (BPD, para os íntimos, amantes de acrónimos e de maiúsculas). Ou seja; passo os pormenores. Mais de mil euros em aviões, mais de quinhentos em hotéis e em alimentação, alguns duzentos em táxis... A loucura sai cara, sobretudo para quem não é louco. Costumo dizer que trabalho para fazer o que quero mas tenho de reconhecer que também trabalho para fazer o que não quero. 

Um dia trabalharei para não fazer o que não quero. Por exemplo: trabalhar. Ou andar de avião.

.......... 
A música no bar do lado não pára. Quanto menor a latitude mais alto o volume de som. É por isso que nunca serão ricos. Nem sequer civilizados, etapa prévia e essencial.

17.1.26

Diário de Bordos - Marigot, St.-Martin, DOM-TOM França, 16-01-2026

Os dias têm sido de insónia. As noites também, a fortiori. Ontem dormi no melhor quarto (de hotel, pensão ou simili) dos últimos duzentos e cinquenta anos - anos de memória, leia-se. Hoje durmo no meu bem-amado Centr'Hotel. Amanhã não sei. Preencho a insónia com uma indomável vontade de amanhã acordar tarde, Santo Agostinho e vozes femininas. Sandy Denny à qual regressarei mal a Baez acabe de cantar, Maddy Prior, Karen Dalton. Sandy Denny: Who knows where the time goes; Baez: Sad eyed lady of the lowlands; Maddy e Karen: ainda não sei. As insónias não têm placas a indicar a direcção. Nada tem, de resto. "La où les routes sont tracées je perds mon chemin". Quem é que disse isto? Tagore (lê-se Togore)? St. John Perse?

Tagore:

"Où les routes sont tracées, je perds mon chemin.
Sur la vaste mer, dans le bleu du ciel, il n'y a point de lignes marquées.
Le sentier est caché par les ailes des oiseaux, le feu des étoiles, par les fleurs des saisons différentes.
Et je demandais à mon cœur : ton sang ne porte-t-il point la connaissance de l'invisible chemin ?

"
Maddy Prior: I live not where I love. Eu não vivo aonde não posso ouvir-te, Maddy, mesmo que seja num telefone merdoso, porque tu és um desses invisíveis caminhos. Há vozes assim, vozes invisíveis, vozes que nos fazem ver o invisível. A Nico tem uma dessas vozes.  A Dalton também. Vozes que nos fazem agradecer a falta de sono, considerá-la uma dádiva, uma sorte, uma bênção. 

Nico: I'll be your mirror.

Agostinho: "Se os pecadores usam mal a lei, que é boa, os justos usam bem a morte, que é má."

Nico: The fairest of seasons (escolha do youcoiso, da qual näo me queixo).

Agostinho: "a vida é eterna para os justos, a morte eterna para os pecadores." (Cito de memória.) Péssimo incentivo, deixa-me dizer-te. Antes a morte eterna.

Ou seja: Chants de la liturgie slavonne, pelos monges benedictinos de Chevetogne, aonde um dia irei em peregrinação. 

Karen Dalton: esta voz vem das entranhas da terra. Dá-nos a ver as tripas. Impede-me de ler.

Agostinho: "Desde que se começa a estar neste corpo, que há-de morrer, nunca se deixa de caminhar para a morte." A Dalton ilustra bem isso, mas não é a única. [Beckett também, mas disse-o de uma forma mais bonita e agora não encontro a citação.]

Comecei a insónia com o objectivo de escutar vozes femininas, com uma espécie de lista mais ou menos (mais menos que mais) definida. Aqui chegado, o tube apresenta-me Charlotte Gainsbourg - Un part et l'autre reste, a mais bela canção de amor de sempre - e Barbara: Dis, quand reviendras-tu? Deixo o Agostinho. Que sabia ele de amor, de distância, da ausência? (Não sei. Ainda não o li todo.)

Tenho vontade de voltar ao tema, mas a Annette Peacock interpõe-se e não lhe encontro pouso nesta série, passo ao Broken English da Marianne Faithfull ("what are you dying for? / It's not my reality") e penso inevitavelmente na Pietra Montecorvino. É ela quem me vai abrir as portas do sono. Notte che se ne va. Voz cheia de pedregulhos, saída de um tremor de terra.

12.1.26

Diário de Bordos - Fort-de-France, Martinique, DOM-TOM França, 12-01-2026

Turisto em Fort-de-France: almoço na Carole, gelado na cour Perrinon, rum na praça logo à frente, deambulo (em ziguezague) na retícula urbana, encontro uma loja com sabonetes mais baratos do que em St.-Martin (o que me faz pensar que os caminhos do mercado são insondáveis) e acabo, inútil é dizê-lo, aonde comecei: café L'Impératrice, o único sítio de Fort-de-France aonde não há um único branco e que é o mais bonito. (Não há relação de causalidade.) Não consigo decidir se gosto mais de Marigot se de Fort-de-France. Esta é mais bonita, mais complexa, maior - mas exala provincianismo, coisa à qual sou mais ou menos alérgico. O serviço é horrível, as lojas fecham à hora do almoço, a cidade inteira respira sono, tédio. Decido que o problema não o é, bebo o meu rum tranquilamente, deixo-me perspassar pela sonolência local e pergunto-me qual a receita do Impératrice para afastar os gringos.

O Pain de Sucre está fechado. Forçoso é reconhecer que é definitivo, o que lamento profundamente. Era um restaurante óptimo.

Fui comprar um cigarro ao Sun&Fly. Não consigo perceber porque não é permitido vender cigarros à unidade. Se as autoridades estivessem mais interessadas na saúde pública do que nos impostos tornariam obrigatória esta forma de vender tabaco. Não estão, claro. A ideia de que os políticos se interessam pelas pessoas é uma ingenuidade. Os políticos só se interessam pela nossa massa e pela forma de a transferir para os cofres do Estado. 

Toda a gente sabe. 

(Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem arte. Já viram algum político sem arte? Eu já, mas duram pouco.)

.........
ADENDA

Antigamente - isto é, até dois mil e dezoito - os transportes públicos na Martinica eram oprados por aquilo a que os ingleses chamam a man and a van. Chamavam-se taxico (abreviatura de táxis colectivos) e ligavam todos os pontos da ilha a todos os pontos da ilha, mesmo que por vezes fosse necessário apanhar dois ou três. O sistema funcionava perfeitamente, era barato e convivial.

Alguém nas esferas políticas decidiu que o sistema era demasiado «terceiro-mundista» e resolveu implantar autocarros, como nas grandes metrópoles. À boa maneira destas ilhas, a coisa levou anos e anos a ser posta em prática, mas lá foi inagurada, nesse ano.

Resultado: os autocarros andam vazios, não têm horários (se os têm não os cumprem) e as pessoas puseram-se a comprar automóveis (o objectivo «oficial» da medida era diminuir os engarrafamentos crónicos) e se alguém quiser vir de Fort-de-France para o Marin depois das sete da noite (mais coisa menos coisa) das três uma: ou vem de carro, ou paga cem euros por um táxi ou não vem. Os engarrafamentos aumentaram, a mobilidade ficou pior e como os políticos são políticos o sistema está mal concebido e funciona pessimamente. 

O fantástico nesta história é que há pessoas inteligentes que pensam que a solução para a maior parte dos problemas é o Estado. Não é. É um conjunto de homens e carrinhas ou o que quer que seja que faça o que estas fazem.

11.1.26

Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 11-01-2025

A mistura é esta: uma mesa de restaurante na praia; alísios; centenas de mastros; rum velho; montanhas cobertas de vegetação; três jobs em perspectiva; uma indeterminada quantidade de paz a entrar-me pelos poros, abertos à espera dela; mais rum velho. Não sei qual o ingrediente principal da mistura mas tendo para os alísios, para os mastros, para as montanhas, para o rum, para a praia. Por esta ordem ou por outra qualquer, não sei. Tanto me fazem, a ordem como a desordem. Convivo bem com as duas - desde que me cheguem acompanhadas por rum, alísios e perspectivas de trabalho, claro.

Das quais uma é bonita: trata-se de levar um veleiro já não muito novo do México para o Brasil. É o tipo de viagem que me atrai: longa, condições bastante variáveis, inabitual - além de que nunca estive na costa atlântica do México e gostaria muito de ir. Ainda não tenho a certeza de aonde estará o bote mas deve ser Cancún. Não sei. Quando souber saberei. Esta semana.

Claro que três perspectivas de trabalho é risível. Normalmente são necessárias vinte para que uma se concretize. Neste caso não é bem assim porque uma delas é concreta mas eu não a quero, a outra é assim assim (México) e por último está a das BVI, que com sorte conseguirei cumular com a do México. Ou seja: concentremo-nos nos mastros, nas montanhas cobertas de verde, no vento, no rum velho, no quadro presente e deixemos o futuro para aqueles de quem ele foge constantemente: os que o tentam adivinhar. 

........
A tarde escoa-se lentamente, ao ritmo do rum e do vento. Ao lado a banda faz testes de som sem parar. A música não é grande coisa mas a parede que por vezes me isola do mundo funciona particularmente bem nestas ocasiões. Já paguei e preparo-me para me ir embora, dormir uma merecida sesta. Fazer quase nada é muito cansativo.

........
ADENDA 

Não como sushi bom desde que o Gonçalo D. fechou o restaurante de sushi que tinha no Estoril mas hoje estava com fome e vim ao do Marin. Não é bom nem é mau, antes pelo contrário. É só caro, como todos os sushi do mundo. De qualquer forma aqui não há nada que não seja caro, pelo que mais barato ou menos não é propriamente um critério. É que nem o McDo, portanto näo vale a pena reclamar. Esta merda é cara e é uma merda. Ponto.

O problema sendo que ainda não são sete da noite e se for dormir agora acordo à uma da manhã. Mais vale tentar aguentar um pouco e acordar às três. 

Sem carro é difícil. 

.........
Os domingos no Marin são ainda piores do que os outros dias. Durante a semana isto parece um cemitério animado. Aos domingos é um cemitério desanimado. Amanhã vou a Fort-de-France. Sempre é mais bonito. Isto é, mais vivo. Pergunta: se estivesse em St.-Martin, aonde estaria? E em Genebra? E em Lisboa, Palma, Cidade do Panamá, Caminha, S. Luís, Barcelona? Em todos esses lugares aonde já me aborreci mortalmente, como num cemitério? «Manhã de domingo numa cidade estrangeira», escrevi um dia. Há alguma cidade que não seja estrangeira? Isto é, aonde eu não seja estrangeiro?

O Kokoa pelo menos não cheira a comida. Os gajos que fecharam o Mango deviam ser enforcados.

Um dia sonharei que o Kokoa substitui o Mango e realidade e sonho estarão unidos para sempre. Alguém tem alguma coisa contra as vidas oníricas? Eu não. Sonho-as, acordo e vivo-as, mais coisa menos coisa. E bebo-as, se vierem em copos de rum.

........
Bebo - agora - tranquilamente o domingo. Ou é o domingo que me bebe a mim, vá lá saber-se. Os domingos, toda a gente sabe, dissolvem-se facilmente num copo de HSE, Habitation Saint Esprit, o menos francês dos runs francófonos. 

(Cont.)

10.1.26

Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 10-01-2025

É uma tarde de sábado melancólica, cheia de opções pelas quais não me apetece optar. Ia para o Liv trabalhar mas está fechado; o Sucré Salé idem. Abençoado resultado: acabo no Cayali a ver a malta dos ioles aparelhar e largar enquanto bebo um rum velho e deixo os alísios afagar as opções. Do outro lado da baía a azáfama é vertiginosa: sábado é dia de charters e há malas por todo o lado, pessoas a correr, companhias speedadas para terem os barcos prontos. Deste lado é o contrário: ningém se mexe. A única actividade é a dos ioles mas essa está longe de ser frenética. É calma, comedida, precisa. Cada um sabe o que tem de fazer e fá-lo, sem hesitações nem delongas.

Já eu hesito e delongo, mas isso é outra história.

O que não é outra história: que bem fiz em vir aqui. Esta mania de estar sempre fechado entre quatro paredes devia prescrever de vez em quando. Não digo sempre, notem. Digo de vez em quando.

.........
ADENDA

O jantar foi menos feliz. Vim ao koko, abreviatura de Kokoarum. Não sei bem porquê. A comida é má e cara, o serviço péssimo, deixo dois terços no prato porque as doses são demasiado grandes e saio a perguntar-me por que raio de carga de água não fui ao Marin Mouillage, que aparentemente está aberto.

A resposta é simples: porque o Mango está fechado e o Marin sem o Mango é um Marin amputado, meio Marin, Marin sem passado nem futuro. O koko é um ersatz de Mango, corpo sem alma, ciclista sem pedais, bicicleta sem rodas, choro sem lágrimas.

.........
O meu eterno dilema Martinique vs. St. Martin está definitivamente resolvido: St. Martin, apesar do aumento de preços demencial do Arhawak, apesar de... Apesar de nada. Se o Arhawak está caro tens outros aonde ir. O pequeno almoço na Émilie não tem igual, as meias porções no Ben, os jantares no L'Authentique, o goonies, meu Deus, o goonies.

........
Á espera de uma confirmação de um transporte México - Brasil. Há quem diga que podia esperar pior e eu concordo. Não vai demorar muito tempo a chegar.

Enfim, espero.

........
Não espero nada. Sei. As semanas que passei com aquela louca têem ser compensadas, é tudo. Quanto mais não seja, com um trabalho decente. A mulher é BPD, OCD e está descompensada. Foi demasiado para um ser frágil como eu. Não sou psiquiatra nem enfermeiro em psiquiatria nem psicólogo. Sou vítima de um trauma que me vai perseguir algum tempo (pouco, que o mar tratará de o lavar).

.........
Hoje o espectaculo dos ioles a aparelharem na praia foi magnífico. Sábado que vem trago a máquina, ver se traslado o que tenho na retina para o sensor megapixel.

Não conseguirei, claro. O sensor não sente nada, apesar do nome.

9.1.26

Diário de Bordos - Aeroporto de Grand Case, Saint-Martin, DOM-TOM França, 09-01-2026

Hoje conheci Julio, chauffeur de táxi gipsy (táxis ilegais). Deveria dizer chauffeur surreal, se a palavra não estivesse tão gasta, tão polida pelo uso. Comecei a notar que havia alguma coisa de estranho nele esta manhã. Estava em Marigot e ia ao Lagoonies buscar as injecções. Não sabia aonde é o bar. Até aqui tudo bem. Mas para lhe explicar o caminho - extraordinariamente simples - tive de repetir as explicações vinte vezes. Depois trouxe-me a casa. Quatro dóleres em vez de trinta (outro gipsy) ou cinquenta (táxi normal) é tentador e reservei-o para me levar ao aeroporto de Grand Case. Passo bastantes pormenores e cerca de vinte mensagens (não é exagero): o homem não sabe ler cartas do Google Maps. Um chauffeur de táxi que não sabe ler uma carta é especial, reconheçamos. Finalmente lá consegui explicar-lhe aonde estava - por mera coincidência o mesmo sítio aonde me havia deixado de manhã, paguei-lhe vinte euros para me trazer em vez dos vinte e cinco que um táxi normal me levaria e vim o caminho todo a ouvi-lo desculpar-se a vários clientes: não os tinha encontrado. Passara, claro, pelos sítios acordados mas não os vira. Fez isto com pelo menos três clientes. Escusado é dizer que o homem vai sair da minha lista de contactos. Com alguma pena minha, reconheço.

........
Hoje despedi-me da empresa para a qual trabalho. Continuar teria sido prostituir-me, coisa para a qual tenho notoriamwente pouco jeito. É uma decisão que provavelmente me vai custar caro, mas enfim. Tentarei fazer um pouco de controle de danos.

.......
Cheguei demasiado cedo ao aeroporto, outra vez. Com o trânsito aqui nunca se sabe. A julgar pela sala de espera o avião estará cheio. Volta, Air Antilles, estás perdoada (a Air Antilles foi proibida de voar porque os aviões não estavam em condições. Agora só há a Air Caraïbes e os preços são alucinantes. o que não impede os aviões de andarem cheios. 

ADENDA 

Já não é suficiente chegar demasiado cedo ao aeroporto. É preciso que o avião esteja atrasado. Sem isso o ramalhete não ficafia completo.

8.1.26

De coisas e de coxas

A mulher entrou no goonies. Eram três mas única visível era ela: um par de mamas a rebocar um corpo. Lembram-se daquela piada sobre o de Gaulle - "un imbécile commandé par un gros nez. Le nez disait "en avant" et l'imbécile suivait"? Bem, troquem nariz por mamas e imbecil por mulher e o quadro está completo. Agora está sentada no bar, bikini demasiado pequeno, coxas demasiado grossas, mamas escondidas pelos braços. Aquelas estátuas romanas sem braços nos museus têm a sua razão de ser.

PS - Não é nada sobre o de Gaulle. É muito anterior ao General. E o original é assim: «Un grand corps commandé par un grand nez. En avant, marche! Le nez partait, l'imbécile suivait.» Não encontro o autor.

Diário de Bordos - Cole Bay, Sint-Maarten, 08-01-2025

Saint Martin (aonde durmo), Sint Maarten (aonde escrevo estas linhas), SXM é a ilha de tudo e do seu contrário e eu faço-lhe jus passando aqui momentos de uma bipolaridade capaz de fazer chorar um autêntico sofredor dessa patologia. Amanhã volto à Martinique, hoje tenho uma vaguíssima proposta de trabalho nas BVI (de um ponto de vista financeiro, o melhor sítio para trabalhar nas Caraíbas porque a maioria dos clientes é americana), entreguei o carro «normal» - que afinal não o é assim tanto, também me permitia conduzir sem o maldito cinto - almocei no Lagoonies a convite do J., aluguei um apartamentozinho porreiro que tenho até amanhã, espero que a abominável RN me telefone - não vou descansar enquanto não me pagarem - e hoje vou jantar ao Chef-Chef, se encontrar transporte. Se não encontrar vou também, a doente psiquiátrica come a meia dúzia de mesas de mim, o Lagoonies esvaziou-se. Tenho de ir à FKG por causa dos motores Suzuki, pergunto-me se terei coragem de vender o spi se a RN não me pagar e espero que a resposta seja «Sim» se a isso chegar.

.........
St. Martin é a ilha da a-territorialidade. É meio francesa meio holandesa mas a língua universal é o inglês, o dólar é aceite em todo o lado, todos os que estamos aqui estamos de passagem, com algumas excepções como o J., por exemplo, que veio fugido e por aqui encontrou poiso. Estas ilhas sempre foram refúgio de piratas e agora são-no ainda, mesmo que menos. 

Ainda ao almoço falava com o J. do tempo em que traficar erva para os Estados Unidos não era um crime mas sim uma aventura. Toda esta malta se dedicava a isso ocasionalmente, entre dois charters e daí vem a massa, as casas, os barcos.

Tudo isso acabou, claro. Traficar droga deixou de ser um crime bon enfant, a própria droga mudou - agora é cocaína - os meios técnicos das autoridades mudaram. O mundo é composto de mudança e esta não é sempre necessariamente para melhor.

.........
ADENDA

O Chef-Chef tem Flor de Caña, o que só confirma que é um sítio correcto. Em contrapartida, eu tenho de ir deitar-me. Não sou menos correcto, sou só mais precoce.

6.1.26

Diário de Bordos - Simpson Bay & Cole Bay, Sint Maarten, 06-01-2026

Deixei a "trousse de toilette" a bordo (provavelmente) e venho ao lado holandês para comprar a Gilette Fusion 5, mais barata deste lado. De caminho aproveito e vou ao Lagoonies beber um rhum punch, particularmente acessível a esta hora, a hora feliz (traduzindo à letra). Isto é, se lá conseguir chegar. Às cinco da tarde a ponte de Simpson Bay abre pela última vez do dia e o engarrafamento chega ao aeroporto. O programa inicial era supermercado, cortar o cabelo e goonies. Vai ter de ser amputado.

.........
O programa foi amputado e continuo a escrever no Lagoonies: no supermercado - que não tinha as lâminas de barbear - o carro recusou-se a arrancar. Baterias em baixo. Vou ter de apanhar um taxi para Marigot e Michael, também conhecido por Shrimpy's, de me devolver os cinquenta paus que lhe paguei adiantado.

Em meu favor é preciso dizer que tentei alugar um carro na Dream Car Rental. Em meu desfavor: não tentei na Reliable, por exemplo, ou numa das outras do terminal de ferries de Marigot.

.........
Quando vinha para este lado mas ainda no lado francês fui interceptado por um polícia. Vinha ao telefone e sem cinto. Levei uma pequena mas firme reprimenda. A punição ficou agendada para a «próxima vez», aspas porque cito. Como não voltarei a alugar o carro ao camarão e os outros não me deixam andar sem cinto e além disso têm sistemas para ligar o telefone ao automóvel a probabilidade de haver uma próxima vez é bastante baixa.

........
Hoje no goonies a música é boa - Doors, Neil Young, Eric Clapton - razoavelmente interpretada pelo duo de artistas e não muito alto. Será isto um caso isolado ou o prenúncio de uma nova  época? A simpática (e belíssima) jovem empregada diz-me que é assim todas as quintas-feiras. Isso não me fará vir aqui menos vezes mas far-me-á decerto vir às quintas. Se ainda por cá estiver, claro, que esta coisa de prever o futuro é um exercício vão e fútil.

........

A trousse de toilette está quase reposta, graças ao supermercado chinês do outro lado da rua. Acresce que a senhora se lembrava de que a semana passada lhe paguei duas cervejas e só levei uma, pelo que descontou esse valor das compras de hoje.

Amanhã é outro dia. E hoje também. 

.........
ADENDA

Venho comer ao Chef-Chef, uma pizzaria que tinha para mim a única vantagem de ser ao lado do Shrimpy's. Agora tem mais: a simpatia, o facto de não terem só pizze. O lugar transporta-me àquele restaurante em West Palm Beach que me cobrou o piri-piri, por causa da proximidade da água. Mas a semelhança acaba aqui.

Volto a pensar na vida, feita de dias e não de meses, semanas e muito menos anos.

«Há que mudar de evida de quinze em quinze anos», dizia-me uma senhora em Genebra. Há quantos anos? Há quantas vidas? Mudei para dez anso cada vida e hoje sei que muito. Cada dia é uma vida e a cada meia-noite muda.

Mudar de vida é mais inteligente do que mudar a vida, note-se. Ela  nunca muda porque queremos. Muda porque sim. Já mudar de vida depende de nós, do mar, do vento, do rum que bebemos, da mulher que escolhemos amar. De nós, em suma.

Daqui a três meses terei uma nova neta. Uma nova vida.

Diário de Bordos - Marigot, Saint-Martin, DOM-TOM França, 06-01-2025

Comecemos portanto pelo commencement, comme il faut: o dia começou tarde. Quando me levantei já passava das sete. Depois houve alguns incidentes: apercebi-me de que deixei o material de toilette algures (provável e estatisticamente a bordo mas prefiro comprar outro a ver a M.) ; o carro estava com as baterias em baixo porque deixei uma luz qualquer acesa - não apita quando não ponho o cinto mas tão pouco o faz para as outras coisas; um dos cães da crew house meteu-se debaixo da minha cama e só de lá saiu à vassourada - pela mão da dona, apresso-me a esclarecer; quando cheguei à So Benedict, o meu santuário do pequeno-almoço, já passava muito das oito. Mas a verdade é que estou calmo; ou quase, já é bastante bom. Vou cortar o cabelo, pus o chapéu bonito no sapateiro para ver se consigo apertá-lo um pouco, amanhã vou buscar roupa, hoje tenho de ler o livro do A., que atravessou comigo em dois mil e vinte e dois e me pediu para escrever meia dúzia de palavras para a badana. Não se pode dizer que seja uma agenda sobrecarregada. Tenho, isso sim, um problema premente: troco o carro por um desses que me obriga a andar de cinto e em contrapartida me avisa se deixo as luzes - um dos últimos até as apagava sozinho - e é mais confortável, ou continuo com este? Tenho cerca de três horas para resolver este terrível e avassalador dilema.

Agora vou comprar um adaptador - o Shrimpy's só tem fichas americanas, deitar-me, dormir uma sesta intramatinal, ler umas páginas do texto do A. (li recentemente que os escritores não escrevem livros. Escrevem textos. Quem faz os livros são os editores. Sábias palavras).

........
ADENDA

Salto uma série de coisas que saltaram do post por erro meu. Pouco importa: aplica-se a famosa máxima de Olivier de Kersauson: um tripulante que cai à água é porque não tem nada que fazer a bordo. Se o blogger me apaga meia dúzia de parágrafos é porque não tinham nada a fazer no post. De resto, o erro foi meu.

.........
Venho almoçar à minha querida Paula & marido, Jean-Baptiste. Não me apetece nada gastar a gorja dos americanos em alimentação e dormida.

........
O chapéu ficou porreiro e resolvi trocar de carro. Uma alugadora normal no lado holandês cobra em dólares, o que significa imediatamente um desconto de quinze por cento, desconto esse que aplico em seguros. São uma aldrabice mas são melhor do que nada.

[O carro da Dream Car Rental está avariado. Estas ilhas não são para quem não gosta de surpresas.]

As crew houses têm duas vantagens: a primeira é o preço. São hostels baratos, com preços fixos; a segunda é que estamos entre colegas. No Shrimpy's este último aspecto é mais ou menos irrelevante porque nunca lá estou e quando estou é no quarto, mas quando se permanece numa delas durante algum tempo é importante. É claro que tudo isto tem que se lhe diga. Uma vez aqui em Sint Maarten dormi numa durante dois meses, partilhando o quarto com um gajo que depois me roubou quase três mil euros. Ter confiança nas pessoas por vezes paga e por vezes paga-se. Graças a Deus, as primeiras são mais frequentes do que as segundas.

.........
Resultado das corridas: voltei a alugar o carro ao Shrimpy's. As coisas são o que são.

5.1.26

Diário de Bordos - Marigot, Saint-Martin, DOM-TOM França, 05-01-2026

Ontem tranquei a porta do camarote e hoje vim dormir para o Shrimpy's, que tem um quarto livre duas noites. Aproveitei e aluguei-lhe um carro - tem duas trotinetes a dez euros por dia mas ou nenhuma delas funciona ou ele não sabe fazê-las funcionar. O carro é uma merda e custa o mesmo do que um carro de aluguer normal, mas tem uma vantagem: é antigo e não apita se eu não puser o cinto de segurança. Além disso, é pequeno, fácil de estacionar. Hoje à noite vai levar-me ao indiano de Cupecoy, que era óptimo em Abril deste ano e com sorte ainda o será. [Está fechado. Vou ao Shiv Shakti em Ph'burg. Preciso de comida picante. Agressão por agressão, antes uma escolhida por mim.]

Tenho dois dias de «férias» pela proa. Férias vai entre aspas. Há trabalho para fazer, mas como a RN quer poupar dois dias de salário propôs-me férias. «Propôs-me» também devia estar entre aspas mas a verdade é que eu aceitei sem pestanejar. Tinha pensado ir dar uma volta pela ilha e não fui. Preferi entrevistar uma candidata a chef porque quero criar um grupo de pessoas que possa chamar em caso de necessidade. Isto, claro, para o caso de continuar a trabalhar para a RN, coisa de que não estou de todo seguro. Quando penso no armador de sonho que tive em Abril e no que agora me saiu na rifa fico estarrecido: tal como a cabeça da jovem chef que me envenena os dias - ou envenenou, até hoje - a vida é uma moeda que tentamos equilibrar na vertical e ora cai para um lado ora para o outro, sem que nós saibamos porquê.

De maneira aqui estou, no Bistrot de la Mer que era aonde nos encontrávamos, o A. e eu, a primeira vez que vim a esta ilha, em 2010. A. é um capitão filipino, um tipo adorável com quem ainda hoje me correspondo, de vez em quando. Hoje lembrei-me dele, porque escrevi para uma agência de charter nas Filipinas a saber se precisam de um skipper experiente, responsável e honesto. Não lhes disse a idade: poderão vê-la no CV. Até aos sessenta, sessenta e cinco a idade era uma vantagem. Agora não é. É um handicap. Talvez seja altura de começar a dedicar-me a outra actividade. Não quero imaginar o meu futuro ligado a empresas como a RN.

A menos que consiga mudar alguma coisa. Sem esperança a megalomania não é nada.

.........
ADENDA

Vim por Cupecoy, o lado ocidental da laguna. O trajecto é muito mais longo mas tem várias vantagens: em primeiro lugar, não tem engarrafamentos - ou tem menos; em segundo, permitiu-me ver que o Spices of India está efectivamente fechado (e que não é em Cupecoy, mas em Maho); em terceiro, fiquei a saber que o indiano cujo nome nunca recordo está fechado para obras; last but not least, permitiu-me ficar no Bombay Bites, porque não me apetecia nada guiar até Philipsburg, cidade de que não sou grande fã nem de dia. Além disso, aqui em Simpson Bay estou perto do Lagoonies, aonde não tarda irei beber um rhum punch (e acessoriamente buscar as injecções que lá deixei).

O kolhapuri do Shiv Shakti é incomparavelmente melhor do que este mas não estou arrependido. Estar perto do Lagoonies é como estar perto do Papa em Roma, suponho. E a ideia de fazer esta estrada, ida e volta, só porque me apetece um caril... e estacionar em Ph'burg... e passar por todas aquelas lojas...  Ná. Estou melhor aqui. A comida não é grande coisa mas o homem que serve à mesa é simpático, o restaurante está praticamente vazio porque é cedo e eu estou pronto a ir ao meu rhum punch favorito em St. Martin. As feridas causadas pela M. começam a pensar que um dia terão de sarar. E eu a pensar que não tarda voltarei à minha condição de não-fumador.

.........
Não consigo impedir-me de pensar na outra vez que tive de trancar o camarote. Um dos tripulantes era alcoólico, o maior filho da puta que a humanidade produziu, mas era inofensivo. O outro era um criminoso que se passeava a bordo de faca com o cabo virado para baixo. Mas não havia insultos nem agressões verbais. Não havia nada. Cheguei a Acapulco, eles sairam e eu disse aos guardas da marina para não os deixarem entrar. Passaram a noite na rua. No dia seguinte o brasileiro - o gajo da faca - fez queixa ao capitão do porto. Este ordenou-me que lhe pagasse o repatriamento, deixei o inglês alcoólico voltar para bordo e continuámos a viagem até Cabo San José aonde o canalha arranjou maneira de me desembarcar. Mas pronto, a coisa ficou assim. Não havia insultos permanentes. Não havia manifestações de ódio completamente injustificadas. Não havia loucura. É mais fácil lidar com a maldade. Esta pelo menos é racional. A loucura não, por definição.

..........
RE-ADENDA

Estou no Lagoonies, sentado à mesa aonde estava a da Marilyn Monroe em cuja boca pus o copo de não sei quê que agora serve de epígrafe fotográfica ao DV. Tão pouco estou seguro de que a mesa estava aqui. Creio que sim, mas isto não é a memória a funcionar. É outra coisa qualquer. Foi no Lagoonies, aonde vim completamente por acaso, que comecei a gostar de St. Martin. Nessa altura vivia em Antigua (pronuncia-se Antiga, se por acaso) e vinha frequentemente aqui comprar peças para a empresa para a qual trabalhava. Não gostava nada disto até que um dia tropecei sem querer e caí no Lagoonies. Ao balcão estava uma brasileira que se fosse actriz estaria ao nível de uma Jacqueline Bisset ou Romy Schneider ou assim. As mesas estavam vazias: os clientes, todos homens, sentavam-se ao balcão. Não me lembro dos pormenores. Desse dia só retive que comecei a gostar de vir às compras a Colebay. Ainda hoje gosto, apesar de a brasileira há muito ter partido, não sei para onde.

........
RE-RE-ADENDA 

A caminho do Shrimpy's, a crew house que me alberga num quarto de aproximadamente cinco metros quadrados, tropecei e caí no JM Beer, subtil jeu de mots, cuja escolha de runs é limitada. Só tem um decente, um Boulogne da Guadeloupe, assim assim, demasiado francês para o meu gosto. Shrimpy é a alcunha do senhor. Tem a crew house (um albergue para marinheiros, se por acaso) uma lavandaria - muito mais cara do que a da minha querida Marleta - aluga um automóvel, uma scooter (ao mesmo preço do que o carro), uma bicicleta triciclo e duas trotinetas que não funcionam. A alcunha vem-lhe de ser muito magro. Ou melhor: ter sido. Hoje continua magro, excepto na descomunal barriga. Começa pouco abaixo do queixo e acaba pouco acima das virilhas. O resto, o que sobra, é magro. Shrimpy - Michael, de seu nome - é uma daquelas personagens do St. Martin de sempre. Conheci-o graças ao J. e ao Q., ibidem. Faz-me lembrar uma caricatura do Brando de Apocalypse Now, feita por um artista vesgo e sem talento. Hoje vi-o de pé, pela primeira vez. Foi experimentar as trotinetas (a minha primeira escolha, antes do carro). Confirmou que não funcionavam, recusou fazer-me um desconto no veículo, pediu à empregada que nos trouxesse a respectiva chave e sentou-se na cadeira que lhe serve - imagino - de muleta para a vida e para o ventre. Se Dickens tivesse vivido nos trópicos Michael seria uma personagem recorrente dos seus romances, uma espécie de Scrooge gordo, caricatural, disforme e alapado à cadeira - cujos conceptores de resto merecem o Nobel da engenharia mobiliária, no dia em que existir.

No JM Beer bebo o último rum do dia e ponho em dia as palavras. Tout est bien qui finit bien, dizem os franceses. Não tenho a certeza mas falta-me energia para a ter. Se amanhã acordar depois das sete poderei dizer, isso sim, tout est bien qui commence tard.

4.1.26

Diário de Bordos - Cove Bay, Anguilla, 03-01-2026

A rapariga passou a semana toda descompensada, excepto à frente dos clientes e salvo raras ocasiões quando estávamos os dois sozinhos. Ocasiões essas em que se mostrava simpática, culta e bem-educada. Lamentavelmente, mal a moeda caía para o outro lado - e eu nunca sabia o que a faria cair,  era aleatório - transformava-se numa odiosa máquina de odiar. Uma bruxa capaz de me pôr fora de mim em minutos. Fui-me abaixo várias vezes. Já tive a minha dose de borderlines (nesta a OCD também contribuía para a festa).

Amanhã acaba. Tenho de arranjar um sítio para dormir mas com a gorja que recebi dos clientes e o que a empresa me deve vou aguentar-me.

........
Uma das muitas coisas de que gosto nos americanos é isto das gorjas: quando gostam do nosso trabalho não se limitam a palmadinhas ns costas ou a palavras cheias de gratidão. Mostram-no levando a mão ao bolso e tirando-a generosamente cheia.

........
Hoje recorri aos serviços de um agente para as clearances. Foi a primeira vez mas está longe de ser a última. Por sessenta dólares - pagos pelo cliente, como tudo o mais - poupei horas numa fila para falar com funcionários mal-encarados (isto é uma generalização. Aqui em Anguilla as pessoas são de uma notável simpatia). E fiquei a saber uma coisa impressionante: a clearance de saída é válida por vinte quatro horas. Isto é: depois de estar tudo feito, tem-se um dia exacto para se sair. É como nos parques de estacionamento mas um pouco alargado. Acontece que Anguilla cobra uma taxa turística de duzentos dólares por dia, mas esse dia é de calendário: se eu chegar às onze da noite e me for embora à uma da manhã pago dois dias de taxa turística. Como essa taxa custa duzentos dólares por dia a coisa fica preta, por assim dizer.

Que fazer? Fácil: fazes a clearance de saída para hoje e como aquilo é válido vinte quatro horas sais amanhã. Adoro a burocracia e a cabeça de quem a faz. Deve ter muitos buracos e túneis a ligá-los. 

Acresce que quem pagou para eu aprender isto foi o C. Ao todo, a coisa ficou-lhe em quase quatrocentos dólares - trezentos e noventa, para ser preciso. Por mim, aprecio imenso. É por essas e por outras que Cove Bay está vazia cada vez que aqui venho (são poucas) e que hoje a companhia eram os dois botes do Bezos e ou o MALTESE FALCON ou o BLACK PEARL, um bocadinho mais longe.

........
O Trump foi-se ao Maduro e a FAA proibiu os aviões americanos de voar. Resultado: não há quartos em SXM, nome com que os íntimos designam carinhosamente a ilha de Sint Maarten ou Saint Martin, consoante. Como vou desembarcar deste asilo flutuante ando a ver se arranjo um lugar para dormir a um preço que me deixe um pouco de gorja, mais vocacionada para rhum punch do que para quartos de hotel.


1.1.26

Diário de Bordos - St. Barth, DOM-TOM França, 01-01-2025

«Não estás nada mal», diz-me a MDS quando lhe digo que estou em St. Barth. Poderia não estar nada mal, sim, se as condições fossem outras. Nestas só espero a chegada do dia quatro de Janeiro, que nunca mais chega.

........
As pessoas alugam barcos e querem as mesmas condições do que se estivessem num hotel: que o barco não se mexa, que a água doce seja ilimitada, que o ar condicionado funcione para lhes arrefecer os sonhos e facilitar os ardores. Só me pergunto porque não vão directamente para um hotel, porra? A porcaria do gerador não pára, faço mais de quatrocentos litros de água por dia, as noites aqui nem sequer são muito quentes (eu preciso de fechar a escotilha, mas sou admitidamente friorento à noite). Ainda por cima o gerador é alimentado só por um tanque de combustível, o que faz que tenha o de estibordo a mais de quarenta por cento e o de bombordo a vinte. Felizmente entro um pouco de vento e serei capaz de ir para Anguilla à vela ou pelo menos ajudado pela genoa.

........
Não sei se OCD e borderline contam como doenças mentais ou se são só distúrbios. Para mim são bruxaria. Raio de maneira de começar o ano.

(Cont.)