Depois da bicicleta, o melhor meio de transporte em Lisboa é o aparelho locomotor com que nascemos, as pernas e os pés, aos quais se deve juntar, naturalmente, os olhos e o conjunto de sinapses envolvido no fabrico e na recuperação de memórias. A bem da verdade, deve dizer-se que olhos e memórias estão sempre lá, em todo o lado, até no metro. A fábrica das memórias não pára. Mas quando se anda a pé ela tem mais vagar e aprecia melhor o que vê.
E o que viu, ao longo das camadas cronológicas de que o tempo é feito.
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Por exemplo: pequeno-almoço na Versailles. Em Palma não há uma Versailles, há uma quase. Em Genebra tâo pouco. Em Londres e Paris há muitas, claro. São cidades grandes, cheias de beleza e de história. Ontem andei muito a pé, atravessei Lisboa do Marquês até aos Anjos, duas áreas da cidade que conheço bem, ligadas por um trajecto que passa por lugares que também conheço bem. Em Palma e em Genebra também tenho sítios e trajectos que conheço bem. Andar a pé dá-nos mais oportunidades para comparar os passados, não é?
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Uma parte de mim vive em Genebra. Chama-se netos, filha, ex-mulher e presente amiga; outra em Palma. Chama-se P., é uma embarcação de vela que me ocupou - e eu ocupei - mais de dez por cento da minha vida activa. Ou o Mercat de l'Olivar, meu refúgio durante o primeiro mês do confinamento.
Se eu empilhasse estes bocadinhos de vida activa e desse a cada um uma cor diferente - haveria cores suficientes? No arco-íris não.
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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.