11.3.04

Um dia (cont.)

II

Nessa dia fomos deixar as crianças a casa do M. R., onde ficariam para dormir. Quando chegámos ao nosso apartamento, Bruno pôs água a correr para um banho e fez-me um sorriso. Queria uma felação. É um ritual ao qual me submeto de bom grado: gosto de me ajoelhar ao lado da banheira como se estivesse num confessionário, essa estranha instituição católica da qual já por duas ou três vezes tentei inutilmente usufruir; gosto de sentir o falo dele na minha boca, vibrante e contido; gosto de lhe sentir a glande, com a língua, os lábios, a parte interior das bochechas, sempre tomando o cuidado de não lhe tocar com os dentes; gosto da horrível assimetria do prazer - aliás, mantenho-me sempre fora do alcance das suas mãos, porque quero concentrar-me naquilo - e sobretudo, que ele não tenha outras fontes de gozo, para que também ele se concentre nesta.

Bruno teve a sua felação; em seguida entrei na banheira, suficientemente grande para nós os dois. Ele obtinha sempre o que queria, porque por detrás, ou por baixo, daquele sorriso e daquela bonomia escondia-se uma vontade que não falhava, não vergava, não esquecia. No dia em que quis subir na carreira subiu, e quando quis uma mulher encontrou-me, e tudo o que quis ter teve quando quis, como um gato, uma mãe manipuladora ou um bulldozer silencioso.

Eu não: para mim, sempre tudo foi difícil, sangrento e doloroso como um primeiro parto. Tudo: o curso, a tese, o lugar que tenho presentemente, o primeiro namorado, e o segundo e o terceiro - todos, até que quando Bruno me propôs o casamento eu aceitei, porque o amava perdidamente. Como ainda hoje o amo. Mas não sei se o amava, ou amo, por gratidão, inveja, alívio ou preguiça. Estava fascinada por aquele sorriso, aquele corpo grande e bem feito, aquela nonchalance; se fosse necessária uma só palavra para definir Bruno, essa palavra seria "facilidade", e essa palavra ainda hoje me fascina.

Bruno está no banho, e eu ao lado dele. Tem a cara peganhenta porque gosto de lhe esfregar o esperma na cara e de o lamber depois, aos poucos. Ele detesta, eu sei - pelo menos quando por acaso lhe passo com a mão perto da boca. Lembro-me de um dia em que fizémos amor numa praia, com as rochas ao fundo, e um amigo à nossa espera no carro, adormecido. Estávamos longe da areia, mas imagino que havia dezenas de pescadores a olhar para nós do alto das falésias - a maioria não leva binóculos, espero. E que levassem! Estávamos sós, tão sós com estamos agora, envoltos numa esfera de paz e prazer. Acaricio-o devagarinho, tiro-lhe o esperma da face, passo-lhe a mão pelo sexo que amolece e cai, devagarinho como o sol de hoje.

E penso em Daniel. Nao sei o que me atrai nele. É uma questão de raízes - sou uma desenraizada, afectiva, geográfica, social, profissional; ou de vingança: os rapazes nunca me foram fáceis. E hoje, que conheço os mecanismos da sedução, pergunto-me por vezes se o objectivo desta relação nao é, simplesmente, a vingança. É, sim. Mas há mais. Aceito ver Daniel pagar por todos os outros - mas não só Daniel, houve mais como ele, se bem que mais fugazes, mais breves, mais inócuos. Nós, os desenraízados, passamos a vida a tentar fazer crescer raízes, ou a vingar-nos de quem no-las tirou.

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