22.3.06

Suite et pas fin (il n'y a jamais de fin, hélas)

Encontrei a senhora no comboio. Ofereci-lhe um ramo de flores, enorme.

Ela não sabia que as flores não eram minhas: sou empregado de uma florista sem dinheiro, que me obriga a entregar as encomendas de metro, autocarro, comboio. Já lhe pedi uma bicicleta, ao menos, mas nem para isso a minha patroa tem dinheiro. Ela não sabe dizer que não a um cliente.

Toujours est-il que je l'ai vue dans le train, cette dame. Aussitôt suis-je tombé amoureux d'elle: ni trop belle, ni trop laide, son sens de l'humour ressortait dans son regard comme la marque de lunettes de soleil dans un visage bronzé.

Dei-lhe as flores num gesto impulsivo: gostei dos cabelos despenteados, dos traços finos, do olhar trocista. Estávamos longe da próxima paragem; devia falar com ela. Não lhe disse nada. Nada. "Ofereço-lhe, minha senhora, estas flores porque simpatizei com a sua cara; porque é bonita; porque as merece; porque oferecê-las me coloca numa situação periclitante". Nada. Quando muito: "Algo em si atraiu estas flores, não fui eu que lhas dei". Quando muito. Talvez lhe tenha dito isso: "Não fui eu: foi você que se ofereceu estas flores por meu intermédio. Um pobre imbecil veio cá comprá-las hoje de manhã. Queria, disse-me, um bouquet "conservador" - "conservador", foi este o termo que empregou".

- Ofereço-lhe, minha senhora, estas flores. Espero que goste delas. Se não gostar, por favor, não me diga.

"Se não gostar, por favor não me diga: prefiro a ignorância, sabe? É ela que me faz viver. Ou a esperança, são a mesma coisa". O comboio parou. Era um desses comboios suburbanos, cheio de caixeiras de supermercado, de vendedoras de roupa de marca, de contabilistas e de bêbados precoces. Saí sem a ver, e só no cais me apercebi que ela saíra também. Tinha um andar desengonçado, como se quisesse ter uma perna mais curta que a outra. Levava as flores bem altas, visíveis, e olhava em frente. Eu queria voltar para trás, ir buscar mais flores, refazer a encomenda original.

Claro que não: queria segui-la, ir para casa dela, deitá-la numa cama e apaixonar-me. Nessa altura procurava, desesperado, uma mulher, se possível sem filhos, quarentona recente ou trintona tardia (gosto de mulheres mais velhas do que eu, sempre gostei), com sentido de humor e um aspecto geral, como dizer?, sensual. Objectivos esses inalcançáveis sem me apaixonar, claro. Por isso me apaixonava: por uma professora indiana entrevista à porta da universidade, por uma empregada ucraniana no café, pela secretária da pessoa com quem me iria encontrar para um emprego, por essa pessoa mesmo se tivesse dento do critério "sexo", "idade" e "aspecto". Apaixonava-me a torto e a direito, mas nunca tinha oferecido flores - que não eram, ainda por cima, minhas.

Enfim, acabei por me ver em casa dela, em pleno campo e com uma cama enorme e ruidosa. Nesta ordem: primeiro ela, depois o campo, depois a casa, depois a cama, depois o ruído.

II

Fui despedido, claro, quando voltei à florista dois ou três dias depois. Mas fiquei a viver com a Isabel; - o que era, quase, um emprego a tempo inteiro. De manhã dava de comer e beber aos numerosos animais que ela mantinha: um porquinho-da-índia, um coelho anão, dois cachorros, meia dúzia de caracóis e um gato; passeava os cachorros no jardim à frente de casa; comprava os legumes frescos para o dia, no mercado biológico; passava o aspirador; fazia o almoço; lavava a loiça; dormia a sesta; passeava os cães; fazia o jantar. A todas essas tarefas me dedicava grato: tudo era melhor do que ter de oferecer flores no comboio à primeira senhora gira que encontrava.

Isabel não tinha uma perna mais pequena do que outra: tinha-as iguais, pequenas, bonitas, mas arqueadas. Montava a cavalo desde miúda, com a mesma energia e determinação com que me levara para casa. O cavalo, um alazão enorme, completo, chamava-se Red Promise e tinha uma potência ilimitada. Uma vez vi-o saltar um metro e sessenta parado. Parado. Nos concursos era um prazer vê-lo: arrancava num galope desenfreado para os obstáculos e quando parecia que ia levar tudo pela frente reduzia a velocidade, e levantava vôo na vertical, ou quase, como um helicóptero.

Era arquitecta, passava muito tempo em casa, e longos períodos fora, porque tinha obras pela Europa toda. Não sei o que viu em mim, eterno aprendiz de fotógrafo e moço de recados de uma florista falida. Eu sei o que vi nela.

III

Vous ne saurez jamais, très chère, combien d'heures de métro, combien de kilomètres de vie, combien de regards croisés m'ont conduit à vous. Un jour, quand je serai grand et libre, j’écrirai un livre que vous sera dédié, plein de mots de vingt ans, de mots de quarante ans, de mots du début des jours jusqu’à leur fin.

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