24.10.06

Serviço Público - Concertos

Fui ouvir este concerto, no sábado dia 21. Foi um grande concerto de jazz contemporâneo, num local bastante agradável, urbano, e a um preço inesperado (mas agradável, muito agradável). Por quanto tempo mais esta música será "de vanguarda"?

Eu nunca seria capaz de dizer isto tão bem:

"tratado monumental

“The Tone Gardens” é a materialização de um longo período de preparação e feitura, natural progressão do que Sei Miguel foi realizando. São três peças (os “Gardens” 1, 2 e 3) que encerram em si três distintos ecossistemas, pertencentes a um percurso “aparentemente técnico, na verdade poético”. Trabalhando depuradamente a definição tímbrica, a exploração cuidada do espaço acústico, a dinâmica orquestral (de um quarteto), encontramo-nos perante aquilo que Miguel chama “acontecimento sonoro em bio-mecânica”. É edificada uma existência sonora tanto individual quanto colectiva, que, não permanecendo estática, leva a cabo uma narrativa, ao mesmo tempo que desenha, constrói e habita os seus alicerces. Miguel, no “pocket trumpet”, faz-se acompanhar de Fala Mariam, em trombone alto; de Rafael Toral, em ondas sinusoidais tratadas, feedback de amplificador portátil e ruído branco modulado; e de César Burago, em temporizadores de vária estirpe, de percussões à base de sementes, a um tamborim, a “dead radios” (rádios sintonizados numa nuvem de estática). Expostos ficam um [e]laboradíssimo trabalho de fraseado de cada músico, uma noção temporal e rítmica que transcende o compassamento passando a existir no domínio da acção arquitectónica e discursiva, com controlo absoluto de volumes. O desempenho de todos, quer enquanto instrumentistas pela total distinção de qualquer acontecimento musical prévio, quer pela hiper-condensação de ideias, quer pelo entendimento do sistema de Sei Miguel, é para lá de brilhante. Estamos perante um trabalho imaculadamente registado que, de tão transgressor e novo, existe na sua própria esfera de área infinita em forma, género e conceito. Um tratado monumental, complexo (mas também intuitivamente simples), de como o jazz, a música no geral, as ideias na órbita e o cósmico no eterno e infindável, nos continuam a oferecer concretizações de liberdade que nos parecem inimagináveis.
Que a história chegará a Sei Miguel, não há dúvidas. Que nós lhe cheguemos no seu tempo, em número condizente do feito, é uma questão cuja resolução é de total urgência."

("The Tone Gardens" é um dos discos cuja apresentação foi a razão de ser do concerto. O outro foi "Space").

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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.