27.4.07

Paraíso

Lá vai o fantasma, coitado, para o paraíso outra vez. Farto de estar morto, claro, mas o gajo que lhe tinha prometido a ressurreição andava sempre bêbado, nos pubs "irlandeses" da cidade, a beber cervejas nacionais e a mirar as empregadas, que não o viam, sequer, era um fantasma transparente, já nem força tinha para arrastar correntes ou aparecer de súbito à noite aos amorosos de mais de 40 anos, ainda sobravam uns poucos, nos jardins do asilo - era um fantasma velho, não gostava de jovens, sempre se dera melhor com amigos, e mulheres, mais velhos do que ele. Mas agora não havia ninguém mais velho do que ele.

A verdade é que ninguém o via, nem nos pubs nem no paraíso nem no bordel, onde ia aos sábados, em peregrinação, ver a sua puta favorita despachar clientes como quem, com uma dor de barriga, despacha Fernet-Branca - sabe mal mas faz bem.

Já não me lembro o nome do fantasma; ele tão-pouco, provavelmente: mas é irrelevante, de qualquer forma. Está morto, e continua a ter que ir ao paraíso todos os dias, à espera da ressurreição, coitado.

Já era velho, muito velho - a morte dura uma vida, e é muito chata.

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