22.9.07

Ler por aí

O Ler Por Aí publicou, simpática e generosamente, um texto meu sobre um livro chamado "Dark Star Safari", de Paul Theroux. A tradução do primeiro parágrafo é de Margarida Branco, editora do site - cuja visita de resto aconselho, apesar de ter aceite (e publicado) a minha sugestão: a escolha de livros é bastante boa, e dá vontade de partir, já.

Começa assim:

All news out of Africa is bad. It made me want to go there, though not for the horror, the hot spots, the massacre-and-earthquake stories you read in the newspaper; I wanted the pleasure of being in Africa again. Feeling that the place was so large it contained many untold tales and some hope and comedy and sweetness, too – feeling that there was more to Africa than misery and terror – I aimed to reinsert myself in the bundu, as we used to call the bush, and to wander the antique hinterland. There I had lived and worked, happily, almost forty years ago, in the heart of the greenest continent.

(Tradução livre:)

Todas as notícias vindas de África são más. Isto deu-me vontade de lá ir, não pelo horror, pelos lugares de guerra, pelas histórias de massacres e terramotos que lemos nos jornais; quis o prazer de estar em África outra vez. Sentindo que o lugar é tão grande que contém muitas histórias por contar, bem como alguma esperança e comédia e doçura - sentindo que há mais em África para além da miséria e do terror - desejava voltar a embrenhar-me no bundu, como costumávamos chamar à savana, e vaguear pelo antigo território. Ali eu tinha vivido e trabalhado, feliz. quase quarenta anos, no coração do mais verde dos continentes.

- Conheço o Brasil, os Estados Unidos, a França e a Inglaterra (e a Espanha, claro), a Tailândia, as Filipinas e África. – Quem nunca ouviu uma frase semelhante a esta?
- África não é um país – respondo sempre. – São mais de 50, mais dúvida menos dúvida. E – acrescento – esses países são diferentes uns dos outros, muito diferentes, tanto como o Brasil dos EUA, por exemplo. África não é um país, são muitos.

Paul Theroux, no fantástico Dark Star Safari, conta-nos uma viagem que fez por terra (com a excepção da primeira etapa, Egipto – Sudão, de avião) - e em meios de transporte “locais” – entre o Cairo e Cape Town. Visitou 10 desses países – Egipto, Sudão, Etiópia, Quénia, Uganda, Tânzania, Malawi, Moçambique, Zimbabwe e África do Sul. Quase todos anglófonos, e quase todos na África Oriental.

Quando Paul Theroux nos fala de um lugar, fala-nos da sua história, dos seus escritores, da sua cultura; tem uma arte especial para “encontrar” pessoas – um dos ingredientes essenciais da literatura de viagens. Ao longo do livro, relata-nos os seus encontros com escritores do Egipto ou da África do Sul, com um Ministro do Zimbabwe ou o Primeiro-ministro do Uganda, que foi seu colega nos anos 60; mas também fala com camionistas, ajudantes de camionista, lojistas indianos, economistas, intelectuais, militares, simples colegas de viagem nos meios de transporte que utiliza – e deles consegue extrair uma frase, ou fazer uma descrição, que nos ajudam a compreender não só o país mas a pessoa. E, outro ingrediente importante, fala dele, também – nada mais irritante do que esses livros de viagem em que o autor parece que não existe, para além da fome, do frio ou das provações por que passou.

Este livro tem, contudo, um aspecto que lhe dá um interesse especial: é que Paul Theroux viveu no Uganda no princípio da independência do país, e viajou bastante pelos países limítrofes. E é por esse óculo que ele observa os países que atravessa. “A economia está a melhorar”, diz-lhe a certa altura um economista, “- está a regressar aonde estava nos anos 70”.

É aqui, parece-me, que reside o grande interesse do livro. Podemos concordar ou não com muitas das opções que o autor apresenta, ou com as análises que faz. Mas é impossível não ver que ele compara uma África que conheceu (e amou, o que não é despiciendo) com a que vê hoje.

Porque se deve levar este livro numa viagem a um (ou vários) países africanos? Por três razões principais: é instrutivo - dá-nos uma visão muito diferente daquela que temos pelos media e pelo zeitgeist; ajuda-nos a ver o que têm em comum (e de diferente) os países africanos; e, last but not least, falando de 10 países do leste africano, fala-nos de um continente inteiro, e de nós.

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