15.9.09

A Rosa e as rosas

Rosa era uma vendedora de flores do Mercado da Ribeira. Já por aqui devo ter falado dela: era muito bonita e muito malcriada; ou melhor: excepcionalmente bonita e excepcionalmente malcriada. Costumávamos comprar-lhe flores nas madrugadas de borga que terminavam no Cacau da Ribeira. O meu gosto por flores (por comprá-las e oferecê-las, que infelizmente continuo a desconhecer a maior parte delas) vem desses tempos. Por vezes perguntava-me se lá íamos por causa das flores se por outras razões, mais antropológicas, etnológicas, linguísticas, psicológicas (ou estéticas - afinal éramos jovens sensíveis à beleza). Ou masoquista, vá saber-se, de tal forma o chorrilho de impropérios e palavrões que daquela boca saía cada vez que a jovem senhora falava era chocante - mais ainda devido ao contraste com a sua inocente e campestre beleza.

Um dia, comprei um montão de rosas e em vez de ir para casa fui para a Baixa, que na altura ainda tinha bastantes escritórios e movimento matinal, oferecê-las a algumas (seleccionadas) senhoras que passassem. O critério, devo dizer desde já, não era a beleza delas. Era o olhar. O olhar - quando via um que me seduzia, intrigava, interessava, fazia sorrir ou sonhar oferecia uma rosa à sua invariavelmente jovem portadora.

Devo desde já dizer que a - ou as - rosas não iam acompanhadas de nenhum número de telefone, nem de sombra de qualquer espécie de intenção: o objectivo era apenas, expliquei-o algumas dezenas de vezes, tão-só alegrar o dia de algumas pessoas, escolhendo para isso as que tivessem particularmente bonito aquilo que sempre me atraiu, mais do que tudo o mais, nas senhoras: o olhar.

Uma vontade súbita (ligeiramente etilizada, sem dúvida; mas isso não lhe retira o valor: in vino veritas) de ver um sorriso, testar um caracter, desafiar, surpreender... Não sei. Isto já foi há muito tempo. Desde aí, tenho tido outras vontades súbitas, claro - mas fui aprendendo a controlá-las, seleccioná-las, domá-las. Sabendo contudo que é um erro: são provavelmente as únicas que valem a pena. Sem intenções, sejam elas quais forem (amor, amizade, conquista, negócio, viagem, sei lá) não há insucesso nem frustração nem dor. E os resultados são por definição inesperados, supreendentes.

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