8.10.09

Deserto

Um deserto é uma forma particularmente violenta de obsessão.

Um deserto deve atravessar-se lentamente, como se se tivesse uma perna partida. Aliás: se um acidente não ocorre logo nos primeiros dias deve provocar-se um. Pode partir-se uma perna com uma pedra, um pau ou entalando-a em qualquer buraco adequado.

Só com uma perna partida se deve atravessar o deserto: não é feito para a rapidez. Aliás, essa é uma das formas de identificar quem está correctamente no deserto e quem não.

O deserto é uma longa via crucis onde as peles se queimam e as mãos se gastam à força de esgaravatar na areia ressequida. Alimenta-se de e a si próprio, tal como quem o atravessa, que não deve senão contar com os seus miseráveis recursos. E é essencialmente solitário; só se entra nele e só dele se sai.

O deserto tem vários sentidos, vários espíritos. O sucesso da travessia – isto é: chegar vivo ao outro lado – requer que se oiçam e se compreendam todos. Para isso há por vezes que dar voltas sobre voltas, passos sobre passos, que se ande para trás quando se pensa avançar e que se veja, por vezes, o sol nascer no lado oposto àquele em que o esperávamos.

Pouco importa: a travessia do deserto deve ser lenta, longa e dar tempo aos ossos de se partirem e solidificarem, de novo. Só assim se perceberão a luz e os sentidos que nele se ocultam. Só assim se poderá com propriedade dizer “eu estive no deserto”. Ou melhor ainda: “eu sou o deserto. Atravessem-me”.

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