3.7.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-07-2019

«En effet Ateh était poète, mais les seuls mots d'elle qui nous soient parvenus sont les suivants: "La différence entre deux oui peut être plus grande que celle entre un oui et un non."»

«Les actes de l'homme sont comme les mets, et les pensées et les sentiments comme des assaisonnements. Pour celui qui sale les cerises ou arrose de vinaigre un gâteau, tout ira de travers...»

«Constantin lui répondit que sans livre il se sentait nu, et que personne ne croit un homme nu même s'il dit qu'il a beaucop de robes.»

Milorad Pavić in Le Dictionnaire Khazar, ed. Belfont

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Performance de teatro na Sifoneria. O actor / animador / o que for pedia-nos que escolhêssemos uma palavra, que não era suposto dizermos a ninguém. À cautela escolhi duas, a outra sendo Hallelujah, que acabei por usar.

Hallelujah!

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Às vezes pergunto-me se na verdade o melhor remédio não será Karen Dalton, muito mais do que o riso. Depois começo a ouvi-la e a resposta sai de jacto: Sim, é.

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Exemplo de diálogo que me enche as medidas: um fornecedor explica-me que deve alterar o preço (para cima, claro) porque quando fez a quotação viu mal a dimensão do serviço. Estabeleço mentalmente um limite e digo-lhe para me fazer nova proposta. O homem fica exactamente no limite que eu estabelecera. Digo-lhe que sim e ele começa a divagar, cortou o aumento em dois porque blábláblá. Corto-o:
- J., ando nisto há quarenta anos.
- Ah, então não é preciso dizer mais nada. Boa noite e obrigado.

O que diferencia um barco de regatas com uma boa tripulação de um outro com uma tripulação de clubes são os gritos e as conversas a bordo. Numa boa tripulação não se fala, com a óbvia excepção do táctico e do gajo do leme. Gritar então é impensável. Fiz regatas de dias em que tudo o que se ouvia no convés era "Viragem de bordo em dois comprimentos", "cambadela em três comprimentos", "italiana em três comprimentos (ou quatro, ou cinco, mais frequentemente). Não há conversas inúteis. Um dia estava à conversa com o meu vizinho de borda e oiço a voz do skipper: "Querem um chazinho?"

Não sei de onde vem este gosto pelo entendimento tácito. Suponho que seja a noção de pertença a um grupo (a uma tribo, como agora se diz. Acho a expressão abominável). I know them. I am one of them. Esta grande fraternidade de gajos que não se conhecem, mas conhecem as mesmas coisas, viveram as mesmas situações, passaram pelo mesmo e sabem que hoje sou eu e amanhã és tu e depois de amanhã será outro e é para isso que estamos cá. Não há ninguém mais individualista do que um homem do mar e ao mesmo tempo mais necessitado do grupo; essa contradição exprime-se na parcimónia dos diálogos. A necessidade de conversa pára quando se determina que sim, somos do mesmo bando; se não somos, não há palavras que o salvem: nunca seremos.

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Por falar nisso: encontrei finalmente o nome do autor do poema de onde vêm esses versos, de que tanto gosto e o título do livro: Selected Bequia Poems, de Richard Dey. O livro está encomendado. Talvez mitigue esta lancinante necessidade que tenho de ir a Bequia.

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J. L., o dono da Babel e grande apreciador de Lisboa sugeriu-me um livro. Chama-se "Dias felizes no Inferno", de György Faludy, um poeta húngaro que desconhecia totalmente.

Ainda vou no princípio (o meu ritmo de leitura não melhorou muito nos últimos dias) e já resisti a muitas tentações de copiar aqui uma frase ou outra.

A esta não resisto (a tradução é minha, do espanhol): "Os meus avós eram donos de uma grande mansão de um só piso, em forma de L, perto da estação da aldeia e voltada para as montanhas. Em tempos fora uma pousada e cada uma das suas divisões estava mobilada de tal maneira que quartos e mobiliário pareciam ligados entre si por uma estranha afinidade. Se alguém pela tarde batia à porta da frente, as taças e copos de vidro alinhados no armário no outro extremo do corredor começavam a mover-se, como jovens que esperam ansiosas o seu primeiro baile." Se isto não é literatura da maior vou ali e já venho.

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