12.9.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 11-09-2019

Uma vez fui a um médico desses meio alternativos. Não me recordo de tudo, mas era um acupunctor. Tão pouco me lembro do que me levou lá, sei apenas que gostei das agulhas, do cuidado que o senhor punha na procura do sítio onde espetá-las,  Lembro-me também de que não serviu de nada, excepto para me fazer descobrir a acupunctura e - isto sim, uma descoberta importante - de o homem me ter perguntado, logo a seguir à minha chegada ao consultório:
- Para si, tomar uma decisão é difícil, não é?
- Depende da decisão. Mas as importantes sim, é.
- Vê-se logo. Você tem os dois braços exactamente do mesmo tamanho.

Não costumo tomar decisões com os braços mas não contestei a sageza do senhor. Acredito piamente que isto está tudo ligado - ao contrário da Simone, ela pensava que só se é homem ou mulher da pele para fora. Não acredito nisso, nunca acreditei. Acho que os cérebros têm pilas e vaginas, mamas e barba tanto quanto o fenótipo e portanto nada impede o tamanho dos braços de ser um indicador da facilidade ou dificuldade na tomada de decisões.

(Provavelmente disse ao médico que os meus bem podem ser iguais em tamanho, mas em destreza são completamente assimétricos. Com o direito sou desajeitado; com o esquerdo nem num copo consigo tocar, a menos que tenha vinho, rum ou um whisky decente.)

Que se lixe. Penso que os dois braços servem sobretudo para se poder ser estirado como na Idade Média, só que deste vez sem instrumentos de tortura, pelo menos visíveis. Há uma injustiça fundamental nisto de um gajo ter que tomar decisões cujas consequências só se farão sentir daqui a dez anos. E não vale a pena dizer que nessa altura estaremos todos mortos - há que chegar lá.

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Vou falar na rádio. Terça-feira que vem o programa é gravado e vai para o ar na quinta. É uma rádio local, um programa de gente da Faculdade de Antropologia. Tive hoje a reunião preparatória. Palma começa a entrar-me pele adentro, mesmo em vésperas da minha saída daqui. É tão frequente que me pergunto se é verdadeiramente obra do acaso. (Neste caso da Blablacar, mas isso fica para depois.)

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Vésperas de Rachmaninov, outra vez. Há muito que não as ouvia e a minha versão favorita, do Paul Hillier, não apareceu no Youtube. Não sou vingativo, mas se alguém estirasse o gajo que me ficou com os discos não me oporia por aí além.

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Faz hoje dezoito anos que o nosso mundo mudou, para pior. Nunca me esquecerei de ver árabes a manifestarem-se de alegria nas ruas. Nunca lhes perdoarei. Não é racismo, é bom senso, auto-defesa, realismo: a questão não é nós e eles, é civilização e barbárie.

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