22.3.20

Como estás?

- Como estás? - Perguntam-me.
Respondo sempre que estou bem, obrigado. Não é mentira mas tão pouco é a verdade toda. A verdade toda seria: «não sei como estou. Não faço ideia.»

Tenho muito que fazer em casa, que ainda não está formatada para mim. Tenho trabalho, ao qual às vezes sou relapso, mas isso não é muito grave. Sei o que há a fazer e é questão de um dia chegar a vez dessa peça. Ainda não chegou a cem por cento. Trabalho como uma ave debica fruta. Faço-me à casa e faço-a a mim, como quando chego a bordo de uma embarcação que não conheço, mutatis mutandi.

Tenho esta maldita capacidade de adaptação que me permite assistir a isto tudo como se não fosse parte disto tudo. Desde que não me tirem as minhas saídas diárias para ir às compras está tudo bem. Vou ao mercado, ao Mercadona (são no mesmo edifício) e ao supermercado aqui ao lado. Não é muito, mas é o que há. Não voltei a tirar a burra da garagem. Comprei dois maços de cigarros - o primeiro durou-me cinco dias e em mais de ano e meio ou dois anos deve ter sido o único que fumei integralmente. Hoje comprei outro, mas já estou farto de fumar.

Ninguém me chateia com as saídas - passo às vezes por um polícia ou outro, mas nunca me mandaram parar. Ainda não vi o exército, apesar de estar muito perto de casa. Leio menos do que queria. De vez em quando vou à janela olhar para as ruas desertas.

As pessoas perderam o contacto com a morte. Perderam a noção. O direito à vida obnibulou-lhes a ideia de que sem morte não há vida, sem o direito à morte não há direito à vida nenhum, há só esta coisa , esta massa mole de medo e stay the fuck at home. Fica tu, fiquem vocês.  Se os velhos querem sair deixem-nos sair, porra. Têm o direito de morrer como querem. Sinto-me como se estivesse num cinema a ver um filme do qual sou actor mais do que secundário. Terciário? Cameo? Eu fico em casa, claro. Para onde ir, se não? O Antiquary, a Tasquita, o Can Rigo, o Ca na Chinchilla... tudo está fechado.  As ruas estão vazias, parecem aqueles rios secos do deserto, ou os riachos no Alentejo no verão. Como se uma barragem tivesse contido a vida, algures a montante.

Stay the fuck at home? Shut the fuck up. Para onde é que querem que eu vá? Vão dar ordens para o jardim da responsabilidade social, fica-vos tão bem. É tão bonito. Qualquer dia andam aí com um lacinho à lapela, a mostrar solidariedade com o pessoal da saúde e as cachopas do supermercado. Hão-de cansar-se das palmas, vão ver. De que cor será o laçarote? Amarelo, não? Ou encarnado. Gostava era que parassem de mandar videos e memes e anedotas de cães e papel higiénico e putos em casa.

Perderam a noção da morte e a da quantidade, também. Como é que dizíamos, quando éramos adolescentes? «À primeira tem graça, à segunda ainda passa, à terceira maça.» Não é assim muito complicado, pois não? A morte existe e se se deixar de viver para não se morrer nem se morre nem se vive, que ainda é pior do que morrer. Parem com a porra das mensagens, dos attachements, do raio que os parta. São todos iguais, não percebem?

Ontem decidi-me a comprar um colírio, finalmente. Lembrei-me da primeira vez que comprei um anti-histamínico. Não sabia como é que aquilo se toma e enfiei três de uma vez. Íamos todos a uma feira gastronómica em Santarém, ou coisa que o valha. Bebi meia dúzia de copos e tiveram de me arrastar para o carro. Agora leio as bulas. Hoje comprei colírio para o «lacrimejar provocado pela rinite» (aspas porque cito). Duas gotas três a quatro vezes por dia. Nunca preciso de passar das duas vezes. Pergunto-me de onde vem esta resistência a comprar remédios. Porra, até os trogloditas comiam ervas, não? E faziam mezinhas. Que se lixe. O colírio funciona e hoje sou um especialista em anti-histamínicos. Enfim, mais ou menos.

Vejo o filme de um bom camarote, estou bem e vou fumar um cigarro à janela. Amanhã faço uma fabada asturiana, um prato de que gosto quase tanto como de favas à portuguesa apesar de as favas não serem as mesmas. Leva três horas a cozer. Parece que caiu uma bomba de neutrões na cidade. As pessoas que andam na rua - a esta hora nenhuma, claro. Digo durante o dia - são os zombies que sobreviveram. meio-vivos meio-mortos.

Volto para o Marlowe. Não tenho rum potável em casa, nem whisky: estou a fazer uma experiência com a glicemia. Um médico uma vez disse-me que a minha sorte eram aqueles períodos de mar em que não bebo nada. Nesta viagem autorizei o vinho, mas cortei o resto. Quando chegar, decido se vou para a esquerda se para a direita, como se a fisga estivesse deitada à minha frente. O que me está a lixar os números é a fruta, aposto. Mas quero ter a certeza. Sou demasiado burro para tomar decisões que não estejam fundamentadas em números, em provas empíricas. A partir de hoje corto as frutas. Mais semana menos semana reintroduzo o rum. Depois é só comparar, não é? Shut the fuck up.

- Como é que estás?
- Bem, obrigado. E tu?

1 comentário:

  1. À primeira tem graça, à segunda ainda passa, à terceira massa.

    Era mesmo assim que querias escrever ou
    À primeira tem graça, à segunda ainda passa, à terceira maça?

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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.