16.3.20

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-03-2020

É uma corrida de obstáculos, contra-relógio, contra-vírus, contra a indecisão. Vou por etapas: a primeira é conseguir mudar de casa. Estou quase lá. Hoje fiz quatro viagens, ontem três. Mais outras tantas e estou no meu quarto andar, pendurado com vista para uma cidade vazia. Não vi polícia nenhum, espero que continuem ocupados noutro lado.  (Lembro aos distraídos que faço parte de dois grupos de risco. Ficaria estarrecido de agradecido que não me chateiem com isso de ficar em casa a foder o tempo. Salvo duas ou três raras excepções, as raras pessoas com quem me cruzo - a pelo menos três metros, não vá o diabo urdi-las - têm metade da minha idade, em média. Das excepções, algumas fazem-me um olhar culpado, outras um cúmplice, outras ainda nenhum. Respondo com nenhum, sempre. Isto não está para partilhar emoções. De qualquer forma, os dedos das duas mãos não devem chegar para as contar todas. Sobretudo se lhes juntarmos os dos pés). Seja como for, tenho dois ou três argumentos engatilhados para o caso de um Guardia Civil  me mandar parar.

Juro, palavra de honra, xicuembo xa nhaca, nunca pensei que um dia teria de fazer uma mudança clandestinamente. Mas isto é questão de trocar uma morte possível por uma morte segura: ficar neste quarto os dois meses que isto vai durar - se tudo correr bem - conduzir-me-ia ao suicídio ou, pior ainda, ao homicídio.

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O pior vai ser levar a base da minha escultura "Tempo" (designação provisória). Aquilo está pesado pra burro e frágil porque não tem base. A ver vamos: parta-se ou não, será sempre uma mostra do tempo.

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Lancei um concurso para encontrar um tradutor para o Avenida. Das cinco ou seis respostas, uma promete. Entre isto e a circumnavegação tenho com que me ocupar. O problema é o P.: todo o trabalho a bordo está proibido. Nem eu lá posso ir. É um bocado estúpido, vim para aqui para estar perto dele, entre outras razões - todas igualmente válidas, asseguro.

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Vale-me a mudança para abafar a quarentena, como quando éramos miúdos, jogávamos ao berlinde e um gajo qualquer tinha um abafador. Não me lembro bem das regras. Acho que o gajo do abafador tiha de tocar no berlinde e dizer "abafado", ou coisa que o valha.

A minha mudança não diz nada. Está caladinha, atravessa a Plaza Mayor bem pelo meio, não vá algum polícia pensar que se está a esconder e respira de alívio quando chega à porta de casa. Tudo menos ser apanhado a meio (da praça e da mudança ela própria).

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O Alaska, a Groenlândia e a Terra Nova só têm um caso cada um. Vamos a ver e na volta o vírus nao gosta é do frio.

A verdade é que me estou relativamente nas tintas para teorias, pelo menos nesta fase. Quando tivermos os números veremos quem tinha razão. Não gosto de certezas e menos ainda das consensuais. O único campo em que a maioria está sempre certa é quando está em causa uma decisão democrática. Mas isso não significa que tenha razão. Significa que as maiorias são melhores do que um iluminado, é tudo. Sobretudo que a maioria das vezes os iluminados são obscurecidos, o poder turva a vista.

Por isso espero para ver e até lá faço as minhas viagens em bicos dos pés. São curtas, cinco - dez minutos cada uma. Quando acabar, sobram-me as compras e passear a burra.

Não sou grande adepto do Boris Johnson mas gabo-lhe a inteligência - de que já deu bastas provas - e os tomates. Se fosse de rezas, rezar-lhe-ia um terço ou dois. Infelizmente não sou. Contento-me com vinho tinto e Hildegarde von Bingen, uma mistura de cuja eficácia tenho sólidas provas.

(Procurar contradições neste texto é pura perda de tempo, aviso desde já.)

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